Palácio de Buckingham vai contratar advogados para investigar acusações de assédio contra Meghan

Apuração, que inicialmente seria feita internamente, vai ouvir funionários antigos e atuais, segundo jornal

A família reak reunida: Charles (em pé, à esquerda) e Archie no colo de Meghan Foto: Chris ALLERTON / SUSSEXROYAL / AFP

O Palácio de Buckingham vai contratar profissionais independentes para investigar as acusações do suposto assédio moral exercido por Meghan Markle contra funcionários. Inicialmente, essa apuração  seria feita no âmbito interno, como divulgou a própria realeza. Agora, porém, decidiu-se que uma firma de advocacia terceirizada deve conduzir a investigação, segundo o jornal “The Sunday Times”.

Meghan é acusada de criar um ambiente de trabalho tóxico e levar assistentes às lágrimas, quando morava no Palácio de Kensington, logo após se casar com o príncipe Harry, em maio de 2018.

Com a entrada de investigadores externos no caso, espera-se um aumento nas tensões entre o casal e “A Firma”, como eles se referem à família real, após a explosiva entrevista à Oprah Winfrey.

Príncipe britânico Harry e Meghan, duquesa de Sussex, são entrevistados por Oprah Winfrey. Foto: HARPO PRODUCTIONS / VIA REUTERS

Desde que as acusações vieram a público, um porta-voz de Meghan alega tratar-se de uma estratégia para encobrir as acusações feitas pelo casal, que abriu mão da realeza britânica. “Vamos chamar isso do que é: uma campanha de difamação calculada com base em informações enganosas e prejudiciais”, disse, antes da veiculação da entrevista. “Não é uma coincidência que as acusações distorcidas de vários anos atrás destinadas a minar a duquesa tenham chegado à mídia britânica pouco antes de ela e o duque falarem abertamente e honestamente sobre sua experiência nos últimos anos.”

O “The Times” também afirma que Harry e Markle não devem ser convidados a participar da investigação, cujo objetivo é reunir depoimentos de funcionários antigos e atuais. No mês passado, dois assessores sênior do palácio alegaram que foram intimidados por Markle, enquanto outro ex-funcionário afirmou ter sido pessoalmente “humilhado”, ao passo  que outros dois sofreram bullying, segundo o jornal.

Elizabeth II, Meghan e Harry, durante evento que comemorou o centenário da Força Aérea Real, em 2018 Foto: TOLGA AKMEN / AFP
Elizabeth II, Meghan e Harry, durante evento que comemorou o centenário da Força Aérea Real, em 2018 Foto: TOLGA AKMEN / AFP

Enquanto Meghan nega as acusações, mas uma fonte próxima à família real disse ao veículo que a situação deve ficar ainda mais dramática: “Os piores incidentes reais ainda não foram divulgados. Existem algumas histórias angustiantes para contar”. Outra fonte completou: “Há muita coisa que não foi contada.”

Notícias da investigação independente surgiram quando aliados do príncipe Charles acusaram Harry de “hipocrisia”, desafiando sua afirmação de que seu pai o havia “cortado” financeiramente.

Enquanto o embates não param de ganhar os holofotes, quase metade da população do Reino Unido agora vê o duque de Sussex de forma negativa. É o pior índice de popularidade do neto da rainha Elizabeth II em todos os tempos,  segundo uma pesquisa realizada pela empresa YouGov. O estudo também revelou que seis em cada dez não enxergam a ex-atriz de maneira tão positiva.

Por outro lado, Meghan ainda tem o apoio dos mais jovens — 55% das pessoas entre 18 e 24 anos estão ao seu lado. De acordo com o jornal “The Sun”, 1.664 britânicos foram entrevistados entre os dias 10 e 11 de março, logo depois de a entrevista ir ao ar.

Por que o filho de Harry e Meghan, Archie, não é um príncipe?

Em entrevista a Oprah Winfrey, Meghan Markle afirmou que família real teria negado título a seu filho com Harry, mas resolução de 1917 define quem pode ser príncipe ou não

Príncipe Harry, Meghan Markle, Archie e o arcebispo Desmond Tutu. Foto: REUTERS/Toby Melville/Pool

LONDRES – Uma das afirmações mais dramáticas na entrevista do Príncipe Harry e Meghan Markle com Oprah Winfrey foi a alegação de que seu filho teve negado um título real, possivelmente por causa da cor de sua pele.

O filho de Harry e Meghan, o sétimo na linha de sucessão ao trono britânico, é Archie Mountbatten-Windsor. Enquanto isso, os filhos do irmão mais velho de Harry, o príncipe William, são o príncipe George, a princesa Charlotte e o príncipe Louis. Meghan disse que enquanto ela estava grávida “eles (alguém da família real) estavam dizendo que não queriam que ele fosse um príncipe, o que seria diferente do protocolo.”

Archie foi excluído pela família real?

rainha Elizabeth II tem nove bisnetos, incluindo Archie. Eles não são príncipes e princesas, exceto os três filhos do Príncipe William, que é o segundo na linha de sucessão ao trono e está destinado a ser rei um dia.

Um decreto emitido pelo rei George V, em 1917, limita os títulos de príncipe e princesa aos filhos do monarca (no caso, os filhos da rainha Elizabeth II, avó de Harry), filhos dos filhos do monarca (netos da rainha, casos de Harry e William) e “o filho mais velho vivo do filho mais velho do Príncipe de Gales”. Como William é o príncipe de Gales, seu primogênito, George, também recebeu o título real.

Bob Morris, da University College London, disse que a regra foi elaborada para diminuir o número cada vez maior de títulos de príncipe.

“A rainha Vitória teve nove filhos, todos príncipes e princesas, e depois eles tiveram filhos e assim por diante, e George V considerou que algo precisava ser feito para resolver a situação”, disse ele.

A rainha tem o poder de alterar as regras e, em 2012, decretou que todos os filhos do príncipe William e de sua esposa, Kate Middleton, não apenas o mais velho, seriam príncipes e princesas.

Sob a convenção George V, Archie não é um príncipe, mas se tornará quando o príncipe Charles, seu avô, assumir o trono.

Em sua entrevista, Meghan disse que “eles querem mudar a convenção para Archie”. Não está claro a que ela se referia, mas Morris disse que o príncipe Charles deixou claro “que favorece uma família real menor” quando assumir o trono.

Archie era elegível para um “título de cortesia” ao nascer, como lorde Archie Mountbatten-Windsor. Na época, foi relatado que Harry e Meghan escolheram não lhe dar um título. Mas Meghan disse a Winfrey que “não foi nossa decisão fazer”.

O título afeta a segurança de Archie?

Meghan expressou preocupação com o fato de que, sem um título, Archie “não receberia segurança”.

Mas um título real, como príncipe ou princesa, não traz proteção de segurança automaticamente. Membros da realeza que trabalham em tempo integral, incluindo Meghan e Harry antes de se mudarem para a América do Norte no ano passado, recebem guarda-costas da polícia, financiados pelo contribuinte. Membros da realeza sênior que têm empregos fora da família, como as filhas do príncipe Andrew, as princesas Beatrice e Eugenie, não têm.

O que diz o Palácio de Buckingham?

Palácio de Buckingham não respondeu a alegações específicas da entrevista. Em um comunicado, disse que “as questões levantadas, em particular a de raça, são preocupantes. Embora algumas lembranças possam variar, elas são levadas muito a sério e serão tratadas pela família em particular”./ AP

Economistas da Casa Branca alertaram em 2019 que uma pandemia poderia devastar os EUA

Estudo de setembro de 2019, antes do coronavírus, foi ignorado
E-INVESTIDOR
einvestidor@estadao.com

(Jim Tankersley, The New York Times News Service) – Economistas da Casa Branca publicaram um estudo em setembro de 2019 que alertou que uma doença pandêmica poderia matar meio milhão de americanos e devastar a economia. Foram ignorados dentro da administração. No final de fevereiro e início de março, quando a pandemia de coronavírus começou a se espalhar da China para o resto do mundo, os principais assessores econômicos do presidente Donald Trump minimizaram a ameaça que o vírus representava para a economia e a saúde pública dos EUA.

“Não acho que o corona seja uma ameaça tão grande quanto as pessoas imaginam”, disse o presidente em exercício do Conselho de Assessores Econômicos, Tomas Philipson, a repórteres durante um briefing de 18 de fevereiro, no mesmo dia em que mais de uma dúzia de passageiros de navios de cruzeiro americanos que haviam contraído o vírus foram evacuados para casa.

“As ameaças à saúde pública normalmente não prejudicam a economia”, disse Philipson. Ele sugeriu que o vírus não seria tão ruim quanto uma temporada de gripe normal.

O estudo de 2019 alertou o contrário – especificamente pedindo aos americanos que não confundam os riscos de uma gripe típica e uma pandemia. A existência desse aviso mina as alegações dos funcionários do governo dos Estados Unidos nas últimas semanas de que ninguém poderia antever o vírus danificando a economia.

O estudo foi solicitado pelo Conselho de Segurança Nacional, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto. Um dos autores do estudo, que desde então deixou a Casa Branca, agora diz que faria sentido para o governo efetivamente encerrar a maioria das atividades econômicas por de dois a oito meses para retardar o vírus.

Vidas perdidas

O coronavírus se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos e por sua economia, matando mais de 3 mil americanos e fazendo o país mergulhar no que os economistas preveem que será uma profunda recessão. Um número crescente de governadores e autoridades locais efetivamente interrompeu grandes quantidades de atividade econômica e ordenou que as pessoas permanecessem em suas casas na maioria das situações, na esperança de diminuir a disseminação e aliviar a pressão sobre os hospitais.

Autoridades do governo divulgaram na terça-feira, 31, modelos de saúde pública que impulsionaram essas decisões, incluindo projeções de quando as taxas de infecção podem atingir o pico nacional e local. Oficiais do governo estimaram que o patógeno mortal poderia matar entre 100 mil e 240 mil americanos.

Enquanto os funcionários debatem quando podem começar a reabrir os setores fechados do país, não está claro como a Casa Branca está contabilizando os benefícios e custos potenciais – em números de dólares e vidas humanas – de cronogramas de ação concorrentes.

Questionado pela Fox News no último domingo (29) sobre o efeito econômico e se os Estados Unidos estavam em recessão, o secretário do Tesouro Steven Mnuchin se recusou a dizer. “Vamos ter atividade econômica reduzida neste trimestre? Absolutamente”, ele disse. “Acho que no próximo trimestre, depende muito da rapidez com que a curva da situação médica funciona”.

O diretor do Conselho Econômico Nacional, Larry Kudlow, disse à ABC News no domingo que “pode ​​demorar quatro semanas, pode levar oito semanas” antes do início da atividade econômica. “Eu digo isso com esperança”, disse ele, “e digo isso em oração”.

Economia fechada por quase oito meses?

Economistas externos vêm realizando análises sobre a duração ideal de um desligamento quase diariamente. Um que foi compartilhado com funcionários da Casa Branca vem de Anna Scherbina, uma autora do estudo de 2019 que agora é economista da Brandeis University e do American Enterprise Institute.

Ele procura determinar a duração ideal de uma supressão nacional da atividade econômica, que Scherbina não define precisamente no artigo. Em uma entrevista, ela disse que abrangeria o fechamento de escolas, fechando muitas empresas e o tipo de ordens de permanência em casa que muitos, mas não todos, os estados impuseram.

“O que isso implica é algo o mais drástico possível”, disse Scherbina. Nos Estados Unidos, no momento, ela acrescentou: “não temos em todos os lugares”.

O artigo de Scherbina avalia as compensações envolvidas na desaceleração da economia para combater a propagação do vírus, como o artigo coloca, “equilibrando seus benefícios incrementais com os enormes custos que a política de supressão impõe à economia dos EUA”.

No melhor cenário, conclui Scherbina, uma supressão nacional da atividade econômica para achatar a curva de infecção deve durar pelo menos sete semanas. Na pior das hipóteses, onde o desligamento se mostra menos eficaz em diminuir a taxa de novas infecções, seria economicamente ideal manter a economia fechada por quase oito meses.

Os esforços de supressão causam danos consideráveis ​​à economia, reduzindo a atividade em cerca de US$ 36 bilhões por semana, estima o estudo. Mas os esforços salvariam quase 2 milhões de vidas quando comparados a um cenário em que o governo não fez nada para frear a atividade econômica e a propagação do vírus, estima Scherbina, porque não fazer nada imporia um custo de US$ 13 trilhões à economia – igual a cerca de dois terços da quantidade de atividade econômica que os Estados Unidos deveriam gerar este ano antes do ataque do vírus.

Scherbina baseou suas estimativas nos modelos que construiu quando economista sênior do Conselho de Assessores Econômicos e principal autora do artigo de setembro, “Atenuando o impacto da gripe pandêmica por meio da inovação de vacinas”, que alertou sobre o número de mortes potencialmente catastróficas e danos econômicos causados ​​pela gripe pandêmica nos Estados Unidos.

“Acumulei todo esse conhecimento e, em seguida, o coronavírus apareceu”, disse Scherbina em uma entrevista por telefone. “Então eu pensei: eu deveria usá-lo.”

As estimativas do estudo

O estudo da Casa Branca de 2019 pediu novos esforços federais para acelerar o tempo necessário para desenvolver e implantar novas vacinas. Ele não previu especificamente o surgimento do coronavírus – em vez disso, modelou o que aconteceria se os Estados Unidos fossem atingidos por uma pandemia de gripe semelhante à gripe espanhola de 1918 ou à chamada gripe suína de 2009. Ela projetou mortes e perdas econômicas dependendo de quão contagioso e mortal o vírus seria.

Mesmo nas taxas mais altas que modelou, a gripe pandêmica no exercício ainda era menos contagiosa e menos mortal do que os epidemiologistas dizem agora que o coronavírus poderia estar nos Estados Unidos.

O estudo da Casa Branca estimou que uma gripe pandêmica poderia matar até 500.000 americanos e infligir até US$ 3,8 trilhões em danos à economia. Essas estimativas não foram responsáveis ​​por nenhuma perda econômica incorrida por “pessoas saudáveis, evitando o trabalho por medo de serem infectadas por colegas de trabalho”.

A estimativa de danos de ponta do estudo teria sido ainda maior que US$ 3,8 trilhões, disse Scherbina, mas a versão final do documento foi alterada dentro do Conselho de Assessores Econômicos para descontar o valor econômico atribuído à vida dos americanos mais velhos. Ele atribuiu um valor de US$ 12,3 milhões por vida para americanos entre 18 e 49 anos, em comparação com US $ 5,3 milhões para aqueles com 65 anos ou mais.

Funcionários do Conselho disseram na terça-feira, 31, que Philipson não estava disponível para uma entrevista. Ele não deu nenhuma indicação este ano de que o estudo e suas previsões haviam influenciado os funcionários do governo em sua resposta inicial ao surto de coronavírus.

Assassinato de negros nos EUA vira pivô de movimento por igualdade racial

Black Lives Matter chamou atenção para a impunidade de policiais e conseguiu mudança em lei
Fernanda Mena

Ativista Ariel Atkins, 28, co-líder do Black Lives Matter de Chicago, posa para foto – Eric Strom / Glitterguts

CHICAGO –No início de 2012, a combinação da velha violência racial norte-americana com a inédita onda de ativismo político articulado por redes sociais – vide Primavera Árabe e Occupy Wall Street – sacudiu os Estados Unidos quando o vigilante George Zimmerman matou a tiros o adolescente Trayvon Martin.

Um mês depois, milhares de pessoas se reuniram na Union Square, em Nova York, para pedir Justiça pela morte do jovem negro de 17 anos que saiu para comprar doces na Flórida, e nunca mais voltou.

“Nosso filho não estava cometendo nenhum crime. Nosso filho é o seu filho. Isso não é sobre negros e brancos, isso é sobre certo e errado”, discursou Sybrina Fulton, mãe de Trayvon, durante os protestos, aos quais compareceram artistas como Jay Z e Beyoncé.

Há 40 anos os EUA não assistiam a tamanha mobilização por justiça racial.

A revolta provocada pela absolvição de Zimmerman, no ano seguinte, ganhou expressão numa hashtag que reverberou com uma mensagem tão simples e óbvia quanto impactante: Black Lives Matter (vidas negras importam, na tradução livre do inglês).

O slogan surgiu de um post da ativista californiana Alicia Garza no rescaldo do julgamento da morte de Trayvon. Ela então se juntou a Patrisse Khan-Cullors e Opal Tometi para criar uma plataforma digital para o que se tornaria uma campanha, depois uma organização e, finalmente, um movimento.

“Sempre existe um momento na história em que um grupo de pessoas diz ‘agora, chega’. E nós decidimos, coletivamente, que não queríamos mais a bota no nosso pescoço”, explica à Folha Patrisse, 34, uma das três fundadoras do que hoje é conhecido como M4BL (sigla em inglês para movimento por vidas negras).

“Nós criamos a hashtag em resposta à violência e ao racismo a que somos submetidos. Nós criamos a infraestrutura para que isso se tornasse uma organização e um movimento. Mas foi o restante do mundo que multiplicou essa mensagem, aumentando a consciência em torno desta questão.”

Hoje, a organização tem 40 filiais pelos Estados Unidos. E compõe, com outros grupos, frentes de luta específicas, como aquela que conseguiu tornar lei na Califórnia, em 2017, o acesso público às investigação de crimes envolvendo policiais.

Em seu livro “Making all Black Lives Matter” (University of California Press), a historiadora Barbara Ransby aponta a hashtag como “um slogan poderoso que ressona como um desafio moral e um tapa na cara”. Segundo ela, a mensagem se tornou especialmente poderosa no contexto em que a eleição do primeiro presidente negro da história dos EUA, Barack Obama, promoveu o uso de uma linguagem neutra do ponto de vista racial.

Para Ransby, que leciona na Universidade de Illinois, em Chicago, ter um negro na Casa Branca, ainda que fosse algo simbolicamente importante, não mudou a realidade vivida por milhões de negros norte-americanos e marcada “por desigualdade econômica, epidemia de encarceramento em massa e várias formas de violência por parte do Estado”.

De acordo com cálculos da Folha a partir de dados do projeto Fatal Force, do jornal The Washington Post, entre 2015 e 2016 um negro foi morto pelas polícias nos EUA a cada 35 horas.

No mesmo período, no Brasil, um negro foi morto pelas polícias do país a cada 2 horas.

Ainda que os dois países tenham percentual distinto de negros -54% se autodeclaram pretos e pardos no Brasil e 13% são negros nos EUA –  a taxa daqueles mortos pelas polícias no Brasil é cinco vezes maior que a norte-americana.

A reação a estas mortes nos EUA, no entanto, se tornou tamanha que passou a ser impossível ignorá-las.

Foi com os protestos que tomaram conta de Ferguson, no estado do Missouri, após a morte de outro jovem negro desarmado que o sucesso da campanha virtual Black Lives Matter ganhou capítulos de relevo nas ruas. Mike Brown, 18, foi morto por um policial branco ao desobedecer suas ordens em agosto de 2014.

Em casa, no violento sul da cidade de Chicago, Dorothy Holmes, 49, assistia ao levante de Ferguson transmitido pela televisão.

“Como é que a polícia pode matar nossos filhos? Quem vai nos proteger, então? Isso está errado. É revoltante!”, dizia Dorothy diante das imagens. Ela não poderia imaginar, naquele momento, que em dois meses seria ela quem organizaria protestos nas ruas de Chicago depois do assassinato de seu filho pela polícia local.

Ronald Johnson, 25, filho de Dorothy, foi morto por um investigador que alegou legítima defesa. Segundo sua versão, Johnson estava armado e atirava contra ele quando foi alvejado pelo policial.

Dorothy passou a investigar o caso por conta própria. Organizava pequenos protestos na frente do departamento de polícia de Chicago quando grupos de jovens começaram a aparecer para fazer mais barulho. Eram do Black Lives Matter.

Dois anos depois da morte de Johnson, Dorothy descobriu que imagens de uma câmera de segurança mostravam que as alegações do investigador eram falsas, e mostrava Johnson correndo quando foi atingido por dois tiros. Ele morreu na hora. Mesmo tendo prestado falso testemunho, o investigador foi inocentado.

“Não sei como querem que confiemos na polícia se eles matam nossos filhos e não são responsabilizados por isso”, questiona Dorothy, que passou a fazer parte do grupo local do M4BL. “O Black Lives Matter esteve ao meu lado quando ninguém estava. Eu não sei de onde vem a minha força para lutar, mas já não consigo mais parar. A luta virou a minha vida.”

Dorothy passou a integrar também a Rede Global de Mães em Resistência, criada pela professora da Universidade de Chicago Yanilda Gonzalez, que pesquisa violência policial na América Latina.

Ela vê muitas semelhanças entre as mortes de jovens negros por policiais nos EUA e no Brasil.

“Na minha visão, a polícia é um produto da sociedade e de suas instituições políticas. Temos uma polícia racista porque somos sociedades racistas e porque temos instituições democráticas construídas para privilegiar os setores mais poderosos”, diz Gonzalez.

Quando não está viajando para encontros da rede, as maiores companheiras de Dorothy são jovens do BLM Chicago como Ariel Atkins, 27, e Maria Hernandez, 28, que fazem trabalho voluntário para a organização, levantando fundos com festas de karaoke emo.

Maria diz que se sentiu atraída pela força e pela simplicidade da afirmação. “Para mim, era importante provar o valor de nossas vidas contra um sistema que demoniza a população negra ao mesmo tempo em que explora seus corpos.”

Atkins, que é lésbica e trabalha em uma loja de quadrinhos, é considerada pelas fundadoras do BLM Chicago como uma nova liderança do grupo.

Outros dois fatores parecem ter favorecido o interesse da juventude no Black Lives Matter. Primeiro, suas fortes conexões os movimentos gay e feminista negros. Segundo, a diversidade de táticas, herança das estratégias de desobediência criadas pelo movimento pelos direitos civis nos anos 1950 e 1960.

Artista alemão Martin Dammann descobre centenas de imagens de ‘nazistas crossdressers’

Soldados se vestiam de mulher e faziam performances para colegas de guerra

Soldados nazistas fazem performance de dança usando vestidos Foto: Divulgação
Soldier Studies. Crossdressing in der Wehrmacht, da editora Hatje Cantz

BERLIM — Um artista alemão, colecionador de fotos de guerras, encontrou centenas de imagens que mostram soldados nazistas vestidos de mulher e fazendo performances para seus colegas de trincheira. Segundo o jornal “Daily Mail”, Martin Dammann fazia uma pesquisa sobre a vida dos homens que serviam durante o Terceiro Reich quando se deparou com as fotografias. Elas estão compiladas no livro “Soldier Studies Cross-Dressing in der Wehrmacht”.

O sociólogo Harald Welzer afirmou à publicação que essas manifestações não era incomuns e nem mesmo restritas aos soldados do nazismo.

— Mesmo que pareça paradoxal, essas fotografias de soldados da Wehrmacht usando roupas íntimas femininas, que num primeiro momento soam exóticas, na verdade corroboram a normalidade da situação, principalmente em tempos de guerra — revela ele.

Para o artista responsável pelo livro, as fotos mostram a complexidade do ser humano

Nas fotos, os soldados aparecem utilizando desde vestidos e saias improvisadas com toalhas e lençóis até maquiagem e roupas íntimas. Em algumas, eles posam de maneira desinibida.

A maioria das imagens parecem ter sido tiradas durante festas ou celebrações, comumente promovidas para ajudar os combatentes a suavizar os efeitos da guerra.

De acordo com a “Folha de São Paulo”, a coleção de Dammann também traz fotos semelhantes de soldados britânicos e americanos, mas o pesquisador afirma que os casos eram mais frequentes nas linhas de frente do exército do regime de Adolf Hitler.

— É preciso distinguir entre a ideologia nazista, que era homofóbica, e a lógica de líderes militares, que precisavam do maior número possível de soldados na melhor forma física e mental possível — explicou Dammann à “Folha”.


Airbnb suspende locação de casas em assentamentos israelenses na Cisjordânia

Ativistas de direitos humanos fazem campanha para que empresas deixem de atuar na região
Mehul Srivastava – Financial Times

Sede do Airbnb em San Francisco, Califórnia

JERUSALÉM –A empresa de locação de imóveis Airbnb está suspendendo ofertas de casas nos assentamentos israelenses na Cisjordânia, cedendo a três anos de pressão de grupos de direitos humanos. 

Yariv Levin, o ministro do Turismo de Israel, descreveu a medida da Airbnb como “a mais deplorável capitulação aos esforços de boicote”.

Alguns ativistas de direitos humanos, incluindo o movimento Boicote, Desapropriação e Sanções, fizeram campanha para que empresas internacionais encerrem suas operações na Cisjordânia ocupada. 

Isso ocorre às vésperas da divulgação de um relatório da Human Rights Watch que descobriu na plataforma de locações Airbnb mais de cem ofertas de casas em assentamentos israelenses.

Cerca de 450 mil israelenses vivem na Cisjordânia, que Israel tomou do controle da Jordânia em 1967. A maioria dos países considera os assentamentos israelenses uma violação do direito internacional.

“Concluímos que devemos remover as listagens nos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada que estão no centro da disputa entre israelenses e palestinos”, disse a Airbnb em seu site.

“Nossa esperança é de que um dia, antes cedo que tarde, seja implementado um esquema em que toda a comunidade global esteja alinhada, para que haja uma solução para esse conflito histórico e um claro caminho à frente para todos seguirem.”

Moshe Gordon em frente à casa que aluga pelo Airbnb em um assentamento na Cisjordânia – Tsafrir Abayov/AP

A Airbnb torna-se a mais recente companhia a ceder à pressão de grupos de direitos humanos para evitar produtos feitos nos assentamentos israelenses. A empresa de refrigerantes SodaStream mudou sua fábrica de um assentamento na Cisjordânia após uma campanha que durou meses. Músicos como Lorde, da Nova Zelândia, cancelaram apresentações para indicar seu apoio ao fim da ocupação da Cisjordânia por Israel.

Israel reagiu a essas exigências dizendo que se assemelham a antissemitismo porque contestam a legitimidade do Estado de Israel. Os grupos de direitos humanos insistem que estão destacando violações ao direito internacional nos assentamentos.

“Organizações de boicote a Israel não distinguem entre o Estado de Israel e a Judeia e Samária”, disse Gilad Erdan, o ministro de Assuntos Estratégicos israelense, usando o nome bíblico da Cisjordânia, que os judeus praticantes consideram o ponto vital de sua religião. “No que lhes diz respeito, e declararam abertamente, todo o Estado de Israel não tem o direito de existir.”

A HRW disse que também encontrou propriedades para locação na Booking.com, e pediu que a empresa remova essas listas. Seu relatório afirma que as listas violam a lei internacional e diretrizes da ONU, e que ao negar aos palestinos o direito de alugar suas casas também está aumentando a discriminação. A maioria dos palestinos só pode entrar nos assentamentos com permissões de trabalho, e raramente são autorizados a passar a noite neles.

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) disse que pediu ao Airbnb que mude suas políticas em 2019, e que as listagens da companhia promovem a “colonização israelense ilegal de terra ocupada”.

Israel considera os assentamentos legais, e quase quadruplicou o número de judeus que vivem na Cisjordânia, cuja população é de maioria árabe, desde a assinatura dos acordos de paz de Oslo em 1993.

Os acordos deveriam estabelecer um Estado Palestino e a retirada das forças israelenses, juntamente com o desmonte de pelo menos alguns assentamentos. 

As negociações de paz formais falharam, e a última rodada patrocinada pela ONU ocorreu em 2014.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

Morre Linda Brown, ícone da luta contra a segregação racial nas escolas dos EUA

Recusa de escola em a aceitar como aluna provocou histórica decisão do fim da doutrina de segregação racial na educação pública americana.

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Linda Brown com seus dois filhos, em imagem de abril de 1974 (Foto: AP Photo, File)


Linda Brown, uma mulher do Kansas que na década de 1950 ficou famosa por um processo que proibiu a segregação racial nas escolas dos Estados Unidos, morreu aos 76 anos, segundo informaram nesta segunda-feira (26) meios de comunicação locais.

Nascida em Topeka, capital do Kansas, Brown tinha 9 anos quando o seu pai, o reverendo Oliver Brown, tentou inscrevê-la em 1950 na escola pública primária mais próxima à casa da família.

A recusa da escola Summer School a aceitá-la por ser negra provocou quatro anos mais tarde a histórica decisão do litígio “Brown vs. Board of Education”, com o qual o Tribunal Supremo pôs fim à doutrina “segregada, mas igual” que regia na educação pública americana desde 1896.

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Foto sem data mostra Linda Brown (Foto: AP Photo, File)


O Supremo determinou que “separar (as crianças negras) de outras de idade e qualificações similares unicamente pela sua raça gera um sentimento de inferioridade quanto à sua posição na comunidade que pode afetar seus corações e mentes de um modo improvável de reverter”.

Além disso, concluiu que a segregação era uma prática que violava a cláusula de “proteção igualitária” prevista na Constituição.

Embora Brown tivesse dado o nome, o litígio agrupava vários casos recompilados pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, em inglês) de estudantes afro-americanos rechaçados em instituições educativas ao redor do país.

Um porta-voz da funerária de Topeka Peaceful Rest Funeral Chapel confirmou à imprensa americana que Brown morreu neste domingo por razões que não foram informadas.

Em entrevista à emissora “PBS” em 1985, por ocasião do aniversário de 30 anos da sentença, Brown disse sentir que a decisão do Supremo tinha tido “um impacto em todas as facetas da vida das minorias em todo o país”.

“Eu penso em termos do que fez para nossos jovens, na eliminação desse sentimento de cidadania de segunda classe. Acho que fez com que os sonhos, as esperanças e as aspirações de nossos jovens sejam hoje maiores”, acrescentou.

Embora ela tenha se tornado um ícone dos direitos civis, o “Brown” da sentença ” Brown vs. Board of Education” pertence ao seu pai, que foi quem apresentou o processo e que morreu em 1961. [EFE]

‘Time’ elege pessoas que denunciaram assédio como personalidade do ano

As pessoas que “quebraram o silêncio” e denunciaram casos de assédio e abuso sexual foram escolhidas como a personalidade do ano pela revista americana “Time”, derrotando alguns dos principais líderes do planeta.

Sem título.jpgO prêmio não foi dado para uma pessoa ou organização específica e sim para o movimento contra assédio simbolizado pela hashtag #MeToo (eu também, em português), que inicialmente foi usado por milhares de mulheres nas redes sociais para denunciar casos de abusos pelos quais tinham passado.

Com o sucesso da campanha, alguns homens também usaram a hashtag para revelar abusos que sofreram. O prêmio da “Time” foi dado para todos que fizeram as denúncias, independente do gênero.

A campanha foi lançada pela atriz Alyssa Milano no Twitter logo após a revelação de uma série de casos contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, que deu início a uma onda de denúncias contra artistas, celebridades e políticos.

Mas a campanha é apenas “parte da foto, não ela toda” escreveu a própria “Time” ao justificar o prêmio.

A vitória das pessoas que quebraram o silêncio (“silence breakers” no original em inglês) foi anunciada durante o programa Today, do canal americano NBC. O âncora da atração, Matt Lauer, foi demitido no fim de novembro depois de uma série de denúncias contra ele por assédio.

“Essa é a mudança social mais rápida que nós vimos em décadas, e começou com atos de coragem individuais de centenas de mulheres —e alguns homens também— que contaram suas próprias histórias”, disse o editor-chefe da revista, Edward Felsenthal, durante entrevista ao programa logo após anunciar o vencedor.

A campanha contra o assédio derrotou o vencedor do ano passado, o presidente americano Donald Trump, que ficou em segundo lugar, e o líder chinês Xi Jinping, em terceiro.

Completam a lista dos finalistas o procurador Robert Mueller (em quarto), que investiga a ligação entre a campanha de Trump e a Rússia na eleição presidencial, o ditador norte-coreano Kim Jong-un (quinto), o jogador de futebol americano Colin Kaepernick (sexto), que deu início a uma onde de protestos contra o racismo nos esportes americanos, e a cineasta Patty Jenkins, que dirigiu o filme da Mulher Maravilha (sétima).

Prefeita de cidade americana renuncia após ofensa racista a Michelle Obama

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Michelle Obama na Vogue US de dezembro de 2016 (Foto: Divulgação)
WASHINGTON – O Conselho Municipal de Clay, pequena cidade do Estado de Virgínia Ocidental, aceitou na noite de terça-feira, 15, o pedido de renúncia da prefeita Beverly Whaling, envolvida em polêmica na internet após apoiar um comentário com ofensa racista contra a primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.

Jason Hubbard, membro do conselho, divulgou uma curta nota condenando o que qualificou como “horrível incidente” e afirmou que racismo e intolerância “não são o que define a comunidade. Hubbard também reforçou o pedido de desculpas em nome da cidade para Michelle e qualquer pessoa que tenha se sentido ofendida.

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Comentário racista apoiado no Facebook por prefeita de cidade da Virgínia Ocidental (FOTO: reprodução/sipse.com)

“Esta é uma comunidade útil, esperançosa, empática e temente a Deus”, disse Hubbard. “Por favor, não julguem todos pelos atos individuais de uma ou duas pessoas”, completou o representante.

Polêmica. Depois da vitória de Donald Trump na eleição presidencial a então diretora de desenvolvimento de Clay, Pamela Ramsey, publicou uma mensagem no Facebook elogiando a futura primeira-dama, Melania Trump, mas ofendendo Michelle.

“Será algo revigorante ter uma primeira-dama com classe, bonita e respeitável na Casa Branca. Estou cansada de ver uma macaca de salto alto”, disse Pamela. Beverly respondeu ao comentário dizendo: “(Seu comentário) fez o meu diz Pam”.

Com a polêmica nas redes, as mensagens foram excluídas da rede social e Pamela foi demitida. Além disso, uma petição online no site http://www.thepetitionsite.com já reuniu mais de 160 mil assinaturas protestando contra os comentários. / AP