A joia francesa Françoise Hardy retorna da beira do abismo

Após seis anos de silêncio e uma grave doença, Françoise Hardy está de volta com dois novos lançamentos
Agnès C. Poirier, The New York Times

Francoise Hardy, who was placed in a coma in 2016 by doctors who feared she might never wake up.
A cantora François Hardy foi posta em coma induzido em 2016 pelos médicos que temiam que ela não acordasse. Agora está de volta com novo álbum e um livro de memórias em inglês. Foto: Ed Alcock para The New York Times

PARIS – “Bob Dylan se recusou a voltar ao palco se eu não fosse vê-lo imediatamente”, lembrou Françoise Hardy. Na noite de 24 de maio de 1966, no 25º aniversário de Bob Dylan, o compositor se apresentava em seu primeiro concerto em Paris e queria nada menos que encontrar a cantora francesa, então com 22 anos, à qual dedicara uma canção, mas que não conhecia pessoalmente.

“Fui, e ele concordou em voltar para o palco”, ela disse. Meses antes, em Londres, Françoise conseguira virar a cabeça de Mick Jagger, Keith Richards, George Harrison, Paul McCartney, John Lennon e Brian Jones. Cantando em francês, inglês, italiano e alemão, a jovem francesa, uma tímida e talentosa beldade, enfeitiçou muitos dos seus contemporâneos – e a França, há mais de 60 anos.

Ela acaba de publicar um livro de memórias, “The Despair of Monkeys and Other Trifles”, e lançou um novo álbum, “Personne d’Autre” (Ninguém mais). É o 28º da cantora, e o primeiro depois de seis anos de silêncio durante os quais esteve gravemente doente. Françoise soube que estava com câncer linfático em 2004; sua saúde começou a declinar; e, em 2016, foi posta em coma induzido, do qual os médicos acharam que jamais despertaria.

Contra todas as probabilidades, Françoise voltou e recuperou sua voz sensualmente adolescente, e o prazer de escrever.

Em 1968, aos 24 anos, Françoise chegou ao topo dos maiores sucessos em francês e inglês com “It Hurts to Say Goodbye”, de Serge Gainsbourg. Desde então, ela se tornou uma joia nacional da França, conhecida por sua longa silhueta andrógina, elegância austera, canções melancólicas, humor e rápida inteligência.

Em seu livro de memórias, Françoise examina o que significou ser catapultada para a fama aos 17 anos, e como é ser um ídolo na França há quase 60 anos. É uma história de sucessos e fracassos contada com impiedosa honestidade.

Nascida em 1944 em Paris, Françoise era filha de uma jovem operária e do seu amante rico, muito mais velho, um homem casado que nos últimos anos de vida se declarou gay.

Aos 16, François recebeu um violão como prêmio por seu sucesso nos estudos e começou a compor canções. Um ano mais tarde, depois de aprender música e de alguns testes, a gravadora Vogue lhe ofereceu um contrato. O turbilhão dos anos 1960, que ela viveu entre Paris e Londres, fez o resto.

Françoise fascinou o público e a crítica. Apareceu em filmes, como “Grand Prix”, de John Frankenheimer, de 1966. “No entanto, eu preferia a música ao cinema”, ela contou. “A música e as canções me permitem penetrar a fundo em mim mesma e nos meus sentimentos, enquanto no cinema devo interpretar um papel, um personagem que pode ser muito diferente do que eu sou”.

Françoise atualmente devora obras de literatura e é amiga do romancista Michel Houellebecq, conhecido como um provocador. “O que distingue um escritor de um grande escritor é a originalidade e o estilo, e Houellebecq tem ambas as coisas”, ela disse.

Françoise gosta de escritores que podem despir-se de tudo sem perder o senso de humor. Em suas memórias, ela escreve sobre a eutanásia da mãe, a esquizofrenia da irmã e o assassinato do pai por um amante muito mais jovem do que ele.

“Escrever”, ela disse, “sempre foi para mim um mergulho profundo em mim mesma”.

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Quase dois anos após biografia, Rita Lee lança o livro de fotos ‘favoRita’

Cantora autografa a obra, com retrospectiva da carreira em imagens, nesta quarta (13)

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Capa do livro “FavoRita”, que marca os 70 anos da cantora e compositora Rita Lee/Divulgação 

SÃO PAULO – Quase dois anos depois de “Rita Lee – Uma Autobiografia”, a cantora lança um livro de fotos que pode funcionar como um complemento de imagens àquele volume. Não reúne apenas fotografias. Há espaço para alguns textos da autora, que vão de uma pensata feminista a um atraente capítulo sobre seus problemas com a censura.

“favoRita” é grande, em formato celebrado como “livro de mesa”. Apesar do tamanho, não é completo. A proposta parece seguir uma curadoria afetiva. Algumas fases da carreira, como esta ou aquela turnê, têm vasto material. Mas o conteúdo não contempla a vida de Rita de ponta a ponta. De Mutantes, nada.

Há um predomínio de imagens das performances no palco ou diante das câmeras. “Numa época, aprendi com David Bowie a me esconder atrás da teatralidade de uma personagem bizarra, o que me dava mais segurança para subir ao palco”, diz Rita à Folha. Algumas fotos da primeira metade dos anos 1970 realmente transmitem essa influência do glitter de Bowie.

“Quando vejo fotos antigas, como as do livro, me imagino como a figura do louco, do tarô, dançando e cantando à beira do abismo. Acho até que fiz bem esse papel.”

O livro traz também ensaios feitos só para o projeto, com fotos de Guilherme Samora. Em um deles, ela recria a capa do álbum “Rita Lee” (1980), também conhecido como “Lança Perfume”, usando a mesma roupa da foto original.

“Ainda tenho muitos figurinos de diversas fases que vivi, estão todos guardados no sótão. Quem sabe um dia abro as portas do meu baú?”

O primeiro dos poucos textos do livro, “Jabuti”, fala de mulheres que ela conheceu na infância e na juventude, um time peculiar de vizinhas e tias.

Ela acredita que as mulheres dos anos 1950 tinham tanto “fogo na bacorinha” quanto as de hoje, “só que eram mais misteriosas”. “Naquela época, empoderamento era cursar o Normal ou estudar datilografia e taquigrafia para ser secretária. Eu liguei o foda-se e me meti sem pudores no mundinho masculino do rock.”

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A cantora e compositora Rita Lee em foto de divulgação para o livro “FavoRita”, que marca seus 70 anos /Guilherme Samora/Divugação

No capítulo mais denso de “favoRita”, chamado “Dossiê Rita Perigosa”, há um relato caudaloso de seus problemas com a censura no regime militar. Inclui letras de músicas censuradas e reproduções de documentos oficiais sobre determinações dos censores em relação às canções.

Com esse currículo de “investigada”, Rita diz que não sabe se deve rir ou chorar diante das manifestações pela volta dos militares ao poder.

Em outro trecho do livro, escreve que seu pecado capital sempre foi a preguiça. Aos 70 anos, Rita afirma ter um dia a dia de “velhinha fofa”. “Continuo escrevendo o que vem à cabeça. Pinto uns quadrinhos, leio pra caramba, cuido da minha hortinha e de meus bichinhos, converso com minha neta, brinco com meu neto, namoro e componho com Roberto e, quando me sobra tempo, arrumo gavetas e armários.”

Mas ela anuncia estar envolvida “com um pessoal bacana de cinema”, num projeto que pode levá-la às telas. [Thales de Menezes]


‘favoRita’

Autora: Rita Lee. Ed. Globo Livros. R$ 79,90 (250 págs.). Lançamento: qua. (13), às 16h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073; senhas para autógrafos limitadas às primeiras 300 pessoas que comprarem o livro, a partir das 9h

Kanye West fala sobre saúde mental e sobre seu novo álbum ‘Ye’

Rapper falou que refez as músicas após participar de entrevista no TMZ, na qual disse que escravidão era uma ‘escolha’

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Kanye West premieres his new album ‘YE’ at a listening party in Jackson Hole

Kanye West lançou seu álbum YE há alguns dias, em meio a polêmicas por conta de suas publicação recentes no Twitter sobre racismo e sobre o presidente americano Donald Trump. Seus comentários, inclusive, levantaram em muitos a hipótese de que ele estaria com problemas mentais.

Em entrevista ao canal Big Boy TV no YouTube, Kanye falou sobre a questão: “Eu sou tão abençoado e privilegiado, porque pense sobre as pessoas que têm problemas mentais e não são Kanye West, que não podem ir lá e fazer um álbum e mostrar que está tudo bem”.

“Pense em alguém que fez exatamente o que eu fiz no TMZ. E essa pessoa faz isso no trabalho. Mas na terça-feira de manhã, ela perde seu trabalho… É por isso que Deus colocou isso em mim aos 40 anos. Eu nunca havia sido diagnosticado e eu tinha 39 anos”, falou. Ele afirmou que foi diagnosticado com bipolaridade, mas disse que não considera algo negativo. “Eu acho que todo mundo tem alguma coisa. Mas, como eu disse no álbum, eu disse que não é uma deficiência, é um super poder”, falou, fazendo referência a Yikes.

Kanye foi questionado sobre por que as faixas do álbum pareciam tão diferentes das prévias que haviam sido divulgadas antes do lançamento, e ele revelou que refez o álbum inteiro em um mês, logo após sua aparição no TMZ. No dia 1º de maio, ele participou de uma transmissão ao vivo com jornalistas do portal e disse que 400 anos de escravidão eram “uma escolha” e chamou Trump de “meu garoto”. Isso, junto aos seus polêmicos tuítes, virou um dos principais assuntos das redes sociais naqueles dias.

“Eu refiz o álbum completamente depois do TMZ. Nós apenas nos sentamos lá e dissemos palavras afiadas. Também, agora eu sei, era tudo pelas manchetes. Todas as frases podem ser usadas. Eu até usei algumas em meu álbum”.

A entrevista completa pode ser assistida abaixo (em inglês):

Produtora musical Dorothy Carvello escreve livro sobre assédio sexual na indústria da música

Após a série de denúncias em Hollywood, chega a vez de gravadoras e artistas do ramo enfrentarem relatos de violência sexual

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 (Antonuk/ThinkStock)

A produtora musical Dorothy Carvello está escrevendo um livro que reúne relatos de abusos sexuais em grandes gravadoras, como a Warner, a Sony e a Universal. Após a série de denúncias de assédios em Hollywood, chega a vez da indústria da música lidar com a violência sexual.

O título Anything For a Hit: An A&R Woman’s Story of Surviving the Music Industry(Tudo por um hit: a história de uma mulher que sobreviveu à indústria da música, em tradução livre) é o primeiro após a era #MeToo – movimento fundado em 2006 para dar apoio a vítimas de violência sexual.

“Trabalhando 12 horas por dia e atendendo a todos os telefonemas de Ahmet Ertegun [ex-diretor da gravadora], vi tudo o que acontecia ali”, disse Dorothy à Variety, que há 25 anos atua na Atlantic Records.

O conteúdo da obra ainda não foi revelado e é mantido em segredo por revisores da Chicago Review Press, editora responsável por sua publicação. Porém, o que se sabe é que importantes nomes da indústria musical são citados. Entre eles estão o ex-diretor da Warner Doug Morris e o vocalista dos Rolling StonesMick Jagger.

Gal Gadot, Camila Cabello, Millie Bobby Brown e + estrelam clipe Girls Like You de Maroon 5

Seguindo a tendência de Drake e Jay-Z, vídeo reuniu um elenco de mulheres proeminentes em Hollywood

O novo clipe da banda Maroon 5 reuniu um elenco de mulheres proeminentes em Hollywood. Camila Cabello, Gal Gadot, Rita Ora e outras famosas se juntam a Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things, e à apresentadora Ellen Degeneres no vídeo de Girls Like You, uma parceria do grupo de Adam Levine e a rapper Cardi B.

No vídeo, lançado na madrugada desta quinta-feira, Levine começa cantando sozinho no centro de um palco. Enquanto a câmera circula o músico, Camila Cabello surge atrás dele, e a cada volta, é substituída por uma mulher diferente. Por último, Behati Prinsloo, esposa do vocalista, aparece para fechar o clipe, carregando no colo a filha mais nova do casal, Gio Grace.

Girls Like You é o terceiro clipe musical nos últimos meses a eleger um elenco estrelado de mulheres. Em dezembro, Jay-Z levou Thandie Newton, Brie Larson, Mindy Kaling, Rashida e a esposa Beyoncé, ao lado da filha, Blue Ivy, ao vídeo de Family Feud, dirigido por Ava DuVernay, de Selma. Depois, Drake reuniu Tiffany Haddish, Olivia Munn e Tracee Ellis Ross em Nice For What.

Repórter diz a Taylor Swift que ela precisa de um banho em entrevista

Comentário se referia, provavelmente, ao tempo úmido que a cantora enfrentou no País de Gales – mas fãs não ficaram nada contentes com o entrevistador

deorn1twsae0bfx-1527508065Taylor Swift ouviu de um repórter da BBC que ela precisava de um banho depois de um show em Swansea, no País de Gales, no domingo. A cantora se apresentou no festival BBC’s Biggest Weekend e, logo após o show, deu uma rápida entrevista para a emissora britânica. “Acho que você precisa ir tomar um banho agora”, disse Greg James ao se despedir da americana. “Eu concordo e não estou ofendida que você disse isso. Tem muita coisa acontecendo e quase nada é bom”, respondeu Taylor, aparentemente de bom humor.

É possível que James não estivesse fazendo uma crítica sobre a situação da cantora – ou de seus odores corporais depois de suar no palco –, mas sim um comentário sobre o tempo em Swansea. Segundo o site do tabloide The Daily Mail, a cantora enfrentou umidade de 80% quando estava se apresentando.

Mas os fãs de Taylor não ficaram nada felizes com a entrevista. “Espera, o entrevistador disse para Taylor tomar um banho? O quê?”, escreveu um no Twitter. “Sério, Greg James? A primeira entrevista que Taylor dá em mais de dois anos e você diz que ela precisa de um banho?”, criticou outra pessoa.

Sheku Kanneh-Mason, violoncelista da realeza, lidera listas de vendas e downloads

Com apenas 19 anos, britânico aproveita o sucesso após tocar no casamento do príncipe Harry com Meghan Markle

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Sheku Kanneh-Mason tem apenas 19 anos Foto: Lars Borges/Pool via Reuters

Na última terça-feira, diversas publicações europeias dedicadas à música clássica correram às redes sociais para comemorar um feito histórico: o compositor russo Dmitri Shostakovich havia se tornado o mais ouvido e baixado nos principais serviços de streaming de música, desbancando artistas como Ed Sheeran e Taylor Swift. Não era exatamente mentira – mas a conquista provavelmente tinha menos a ver com o compositor russo e mais com um intérprete específico: o violoncelista britânico Sheku Kanneh-Mason que, dias antes, foi revelado ao mundo durante a cerimônia de casamento do príncipe Harry e da atriz Meghan Markle.

Não foi, de qualquer forma, um feito pequeno. Nem o único. Ao longo da última semana, além de ser o artista mais vendido pela Amazon nos EUA e na Inglaterra e liderar a parada do iTunes nos dois países, ele bateu recordes de vendas dentro do universo da música clássica, ganhou quase meio milhão de novos seguidores em seus canais em redes sociais – e tornou-se garoto-propaganda da marca das meias coloridas usadas por ele na cerimônia. Isso sem falar nos potenciais contratos para apresentações e gravações – basta lembrar que, após cantar no casamento do príncipe Charles com Lady Diana, em 1981, a soprano Kiri Te Kanawa se tornaria um fenômeno de vendas, com quase 40 discos lançados em menos de dez anos.

Sheku foi de fato a sensação de uma programação musical “clássica” que teve também a soprano Elin Manahan Thomas (e talvez não seja real ou monárquico o suficiente chamar atenção para os problemas de afinação de sua performance). O repertório do violoncelista foi composto por versões da Sicilienne, de Maria Theresia von Paradis; da Ave Maria, de Schubert; e da canção Après Un Rêve, de Fauré.

A escolha de uma compositora não deixa de ser um tipo de afirmação política de Sheku. Mas mais de um crítico chamou atenção para a ironia de uma canção como a de Fauré, que define o amor como algo impossível de se concretizar fora do mundo irreal dos sonhos, ter sido escolhida como trilha sonora para um casamento (se bem que uma das favoritas dos noivos e noivas mundo afora é a ária Nessun Dorma, da Turandot, de Puccini, ópera sobre uma princesa que, para evitar o casamento, manda cortar a cabeça de seus pretendentes, vai entender…).

Sheku tem apenas 19 anos e ainda não completou a sua formação. “Foi uma semana muito louca, com o casamento real e logo em seguida as provas finais na escola”, disse em seu twitter, referindo-se às avaliações da Royal Academy de Londres. Mas não é exatamente um rosto desconhecido no mundo musical britânico. Em 2016, participou junto com os irmãos, todos músicos, do reality show Britain’s Got Talent. Em seguida, foi escolhido pela BBC como jovem músico do ano, além de ser tema de um documentário no qual falava sobre sua atuação no projeto Chineke! Orchestra, grupo composto por músicos de minorias étnicas. “É um projeto muito importante. Se você é um jovem negro indo a um concerto, você não costuma ver pessoas como você no palco”, disse ele na ocasião ao jornal The Guardian.

Seu interesse pela música, alimentado em casa, começou com o piano. Seguiu-se um período com o violino, mas ele logo se apaixonaria pelo violoncelo ao assistir a uma orquestra sinfônica ao vivo e ouvir o som mais grave do instrumento. Quando conheceu, pouco depois, as gravações de Jacqueline du Pré, teve certeza de que havia encontrado seu caminho. “Desde muito pequeno, ela tornou-se um modelo, uma inspiração”, disse em uma das dezenas de entrevistas que concedeu nos últimos dias.

Nelas, falou também de seu futuro (e do desejo de vir ao Brasil). Está muito feliz com a notoriedade de seu primeiro disco. E ter conhecido de perto gente como David Beckham, Elton John e George Clooney foi incrível. “Mas o que tenho pela frente agora é muito estudo e treino”. E uma carreira todinha à sua espera.

Primeiro disco do artista mistura clássico e popular

O disco de estreia do violoncelista Sheku Kanneh-Mason revela um artista de forte personalidade. O nome do álbum, lançado no ano passado pelo selo Decca, é Inspiration, e ele próprio explica o conceito: “Tanto na hora de escolher as peças para o casamento real quanto no momento em que decidi o que gravar no CD, optei por peças que de alguma forma me inspiraram”, disse ele para o site Billboard, contando ainda que o convite para a cerimônia partiu pessoalmente da noiva.

Seu registro do Concerto nº 1 para Violoncelo de Shostakovich impressiona não apenas pelo virtuosismo com que enfrenta passagens realmente difíceis, mas pela delicadeza dos momentos de maior lirismo, pelo controle expressivo que tem do violoncelo e pela musicalidade madura. “A peça é a última batalha de Shostakovich contra o regime de Stalin na Rússia e há muita raiva, desespero, mas também solidão, além de toques refinados de humor”, disse ele ao New Statesman no ano passado, quando o CD foi lançado.

Mas, se um disco conta uma história, ela versa acima de tudo sobre um artista que parece celebrar a diversidade e o diálogo como elementos do fazer musical. É por isso que convivem no álbum uma peça de referência do repertório tradicional como o concerto de Shostakovich; um hino do reggae, No, Woman no Cry, de Bob Marley (em arranjo para violoncelo solo feito pelo próprio Sheku); ou Hallelujah, de Leonard Cohen (em arranjo para grupo de cordas que, em alguns momentos, justiça seja feita, esbarra no convencional e melodramático).

É uma mistura que se justifica na mente e sensibilidade do intérprete – e que, por meio de um modo de tocar envolvente, comvence também o ouvinte. João Luiz Sampaio – O Estado de S. Paulo