CEOs estão preocupados com ‘demissão silenciosa’

Executivos têm mencionado o tema para profissionais de recursos humanos
JO CONSTANTZ E NICOLE BULLOCK, BLOOMBERG
einvestidor@estadao.com

Executivos não sabem o que fazer com a ‘demissão silenciosa’. Foto: Envato Elements

  • A natureza “invisível” da tendência é particularmente assustadora para os líderes, de acordo com Granger
  • Existe até uma startup de inteligência artificial que afirma oferecer uma solução, analisando e-mails e mensagens do Slack para identificar riscos
  • Mais da metade dos profissionais de recursos humanos de vários setores entrevistados no final de agosto estavam preocupados com a demissão silenciosa

À medida que as notícias sobre a tendência da demissão silenciosa inundaram a internet, empresas de recursos humanos, consultores, escritórios de advocacia e até mesmo startups de inteligência artificial entraram em campo para oferecer conselhos para preveni-la e combatê-la. Ao que tudo indica, existe uma demanda: líderes em geral e empresas famosas em setores como finançastecnologia e cuidados de saúde estão muito preocupados, disse Ben Granger, psicólogo organizacional chefe da empresa de pesquisa Qualtrics.

“É bastante raro que tantos líderes de empresas grandes mencionem esse tema conosco em um prazo tão curto enquanto ele é tratado ao mesmo tempo pela mídia”, disse ele. “Não é algo que acontece com frequência.”

Mas os executivos não sabem o que fazer com a questão. Os profissionais de recursos humanos dizem que os chefes estão preocupados se podem contar com seus funcionários no caso de uma recessão – ou se podem se dar ao luxo de demitir e substituir os adeptos à tendência em um mercado de trabalho aquecido, disse Granger. Eles temem não conseguir enxergar a demissão silenciosa se espalhar debaixo dos narizes deles.

“Muitos líderes e clientes com quem trabalho, alguns pela primeira vez em 30 anos, estão apavorados na posição de empregadores”, disse Erica Dhawan, consultora de local de trabalho e autora de um livro sobre trabalho remoto e híbrido. “Eles sentem que precisam continuar com as pessoas que não estão tendo um bom desempenho.”

A natureza “invisível” da tendência é particularmente assustadora para os líderes, de acordo com Granger. No trabalho remoto ou no esquema híbrido, os sinais clássicos de que um funcionário está com vontade de deixar o emprego, como atrasos e faltas, podem ser mais difíceis de detectar. Embora a primeira reação seja muitas vezes culpar a preguiça pela demissão silenciosa, Granger disse que muitos acabam se dando conta de que, na verdade, trata-se de um problema de gestão. Existe até uma startup de inteligência artificial que afirma oferecer uma solução, analisando e-mails e mensagens do Slack para identificar riscos no engajamento, de esgotamento e de rotatividade entre os funcionários.

Entretanto, os chefes de recursos humanos tendem a ficar menos assustados com todos os comentários a respeito da demissão silenciosa do que outros em cargos de chefia, de acordo com Caroline Walsh, vice-presidente de práticas de recursos humanos da empresa de consultoria Gartner. Como eles já passaram anos focando e conversando sobre esgotamento, o fenômeno parece ser menos surpreendente para eles.

Mas eles podem estar subestimando a questão. Mais da metade dos profissionais de recursos humanos de vários setores entrevistados no final de agosto estavam preocupados com a demissão silenciosa, de acordo com uma pesquisa da Sociedade de Gestão de Recursos Humanos (SHRM, na sigla em inglês) com mais de 1.200 deles.

No entanto, apenas cerca de um terço acredita que isso esteja acontecendo na empresa onde trabalham, uma percepção que não se alinha com a estimativa recente da Gallup de que 50% dos trabalhadores dos EUA podem ser considerados como adeptos à tendência.

Embora seja difícil dizer quanto mais da desistência silenciosa esteja por vir depois que a tendência se tornou viral, segundo Granger, o fato de mais pessoas estarem falando a respeito do tema é significativo, porque há mais chances de ele se tornar popular e se espalhar.

“Agora temos um grande problema”, disse ele. “Se tivermos um cenário no qual as empresas começam a perceber essa dica, e agora há quantidades enormes de desistência silenciosa acontecendo, isso quase com certeza levará a alguns efeitos subsequentes nos negócios.”

*Tradução de Romina Cácia

Charlie Collier sai da Fox Corp. para se juntar à Roku enquanto plataforma de streaming busca evoluir para ‘Next Generation Media Company’

Por Cynthia Littleton

Charlie Collier – Cortesia de Fox

Em um sinal de grandes mudanças para Roku , o veterano executivo de TV Charlie Collier está deixando seu cargo como CEO da Fox Entertainment para ingressar na plataforma de distribuição digital como presidente da Roku Media.

Collier supervisionará as vendas de publicidade e o conteúdo dos canais de propriedade e operados da Roku apresentados na plataforma de streaming que hospeda o número crescente de canais de TV de streaming gratuitos suportados por anúncios (FAST), além de servir como um funil chave para Netflix, HBO Max, Disney+, Paramount+ e outros streamers de assinatura.

Collier deve mudar para seu novo cargo na Roku no final de outubro e ficará baseado em Nova York.

A nomeação de Collier coincide com outras mudanças de nível sênior na Roku. Dois altos executivos, Mustafa Ozgen e Gidon Katz, foram promovidos a presidentes, já que o fundador e CEO da Roku, Anthony Wood, promete criar uma “empresa de mídia de próxima geração”.

Ozgen avança para presidente de dispositivos da Roku enquanto Katz se torna presidente de experiência do consumidor; ambos os executivos foram vice-presidentes seniores. Collier, Ozgen e Katz se reportam a Wood.

“Há uma tremenda oportunidade de acelerar e evoluir ainda mais os negócios da Roku como a plataforma de streaming criada para publicidade, e Charlie é a pessoa ideal para nos ajudar a capitalizar o momento”, disse Wood. “Ele é um líder comprovado que traz vasta experiência, um histórico de negócios em evolução, fortes instintos criativos, relacionamentos com talentos e um histórico de geração de receita e crescimento. Ele desempenhará um papel fundamental para nos ajudar a alcançar um sucesso ainda maior como uma empresa de mídia de última geração”.

Wood também apontou o foco da Roku no crescimento fora dos EUA como motivo para o novo alinhamento das operações.

“À medida que a Roku cresce internacionalmente, essas posições ajudarão a trazer mais foco para as principais áreas de nossos negócios à medida que a mudança global para o streaming continua”, disse Wood. “Charlie, Mustafa e Gidon trazem amplo conhecimento do setor e experiência em liderança para a Roku. Estou ansioso para trabalhar com eles e suas equipes à medida que continuamos inovando e construindo nossa posição… e nossa presença global geral.”

A medida ocorre quando a Roku está sob pressão de Wall Street para lidar com a forte queda do preço das ações. A plataforma de distribuição digital cresceu dramaticamente na última década, atingindo uma base de usuários ativos de cerca de 63,1 milhões em seu relatório de ganhos do segundo trimestre .

Como distribuidor com alcance nacional significativo, a Roku atraiu a atenção de Hollywood. Mas depois de atingir a maior parte de 2021, o preço das ações da empresa despencou – quase 74% no ano até o momento, fechando quinta-feira em US $ 60,89 por ação – em meio a preocupações do setor de que o crescimento das plataformas de streaming está diminuindo, principalmente nos EUA

O status de Roku como um distribuidor que recentemente se aventurou no reino do conteúdo original, inclusive por meio de sua aquisição no ano passado dos ativos de programação da Quibi, tornou a empresa um desafio para os investidores examinar no sentido de peixe ou aves. A adição de um programador de rede e desenvolvimento de conteúdo experiente na Collier envia a mensagem clara de que Wood reconhece que a empresa atingiu um ponto de inflexão.

O Roku às vezes enfrentou atritos com os principais fornecedores e distribuidores de conteúdo sobre os termos do acordo, inclusive para HBO Max e YouTube TV . Trazer um executivo com a experiência de Collier provavelmente ajudará a suavizar essas discussões.

No entanto, o anúncio da Roku deixou claro que a supervisão dos relacionamentos com provedores de conteúdo continua sendo o domínio de Tedd Cittadine, vice-presidente de parcerias de conteúdo, “que continua a liderar os relacionamentos da Roku com aplicativos de terceiros e serviços de streaming”.

Mustafá Ozgen

Roku disse que Collier terá a tarefa de colaborar em “estratégia comercial” com Cittadine e Gil Fuchsberg, vice-presidente sênior de desenvolvimento corporativo e parcerias estratégicas, com Cittadine continuando a se reportar a Fuchsberg.

Os executivos de vendas de anúncios da Roku, Alison Levin (vice-presidente de receita de anúncios e soluções de marketing), Louqman Parampath (vice-presidente de produtos publicitários) e Mirjam Laux (vice-presidente de publicidade e conteúdo internacional) se reportarão à Collier. Assim como Rob Holmes, vice-presidente de programação.

“A Roku é pioneira no streaming de televisão e alcançou escala e relacionamentos significativos com nossos parceiros que continuarão sendo únicos e valiosos neste momento crucial da indústria”, disse Collier. “Como parceiro da Roku, vi em primeira mão o poder e o potencial que a plataforma oferece a anunciantes, parceiros, criadores de conteúdo e consumidores. Estou ansioso para trabalhar com a talentosa equipe da Roku para continuar a inovar, crescer e levar a empresa e seus parceiros para o próximo nível.”

A mudança de Collier para Roku pegou a maioria das pessoas na indústria de surpresa, incluindo muitos de seus colegas da Fox. Ainda não há informações sobre um sucessor. Um porta-voz da Fox disse apenas que a empresa tem uma “equipe fantástica” e que um anúncio sobre um novo chefe de entretenimento é esperado em breve.

Collier e Fox Corp. consideraram sua separação extremamente amigável. Em uma declaração à Variety , Lachlan Murdoch, presidente executivo e CEO da Fox Corp., expressou gratidão a Collier por ajudar a reconstruir as operações de entretenimento no estúdio da Fox após a venda da 21st Century Fox para a Disney em 2019. Murdoch citou a liderança e o “entusiasmo desenfreado” de Collier como cruciais para fazer a nova empresa decolar.

“Ele e sua equipe executaram uma estratégia criativa de maneira empreendedora e lucrativa que alavancou nossa liderança de transmissão para construir e apoiar negócios para nos posicionar para o crescimento futuro”, disse Murdoch.

Collier retribuiu o sentimento: “Foi um privilégio e um prazer trabalhar ao lado de tantos colegas notáveis ​​da Fox”, disse ele. “Agradecimentos sinceros a Lachlan pela oportunidade de fazer parte da evolução da famosa marca e negócios da Fox.”

Collier ingressou na Fox Corp. no final de 2018, quando a empresa estava sendo formada após a venda de Rupert Murdoch de seus ativos da 21st Century Fox para a Disney, um acordo que foi concluído em março de 2019.

Collier é bem conhecido em todo o negócio de TV como um forte gerente de pessoas e um experiente comerciante de conteúdo. Durante seu mandato na Fox, Collier dirigiu a estratégia de entretenimento da empresa e a reconstrução de sua infraestrutura de produção após a separação da 21st Century Fox. Collier liderou as aquisições da Fox da loja de animação Bento Box Entertainment, a franquia de notícias de celebridades e entretenimento do TMZ e a movimentada empresa de produção MarVista Entertainment.

Após o acordo com a Bento Box, Collier defendeu a criação da unidade Blockchain Creative Labs para levar a Fox ao mundo emergente de aplicativos de conteúdo NFTs e Web3 . Ele também estabeleceu a joint venture de produção do Studio Ramsay entre a Fox e o superstar de TV Gordon Ramsay.

Na programação, o maior sucesso que a rede de transmissão Fox colocou no relógio de Collier foi a série de competição de talentos “The Masked Singer” e a expansão bem-sucedida da franquia de drama “9-1-1” com “9-1-1: Lone Star”.

Antes de ingressar na Fox, ele passou 12 anos na AMC Networks, chegando a presidente em 2008. Ele ajudou a impulsionar o crescimento exponencial da empresa com o sucesso de séries originais distintas, como “Mad Men”, “Breaking Bad” e “The Walking Dead” da AMC. e “Retify” da SundanceTV.

Collier começou sua carreira na TV a cabo durante a era de crescimento dos anos 1990. Ele trabalhou em vendas de publicidade na Court TV (agora Turner’s TruTV) antes de ingressar na AMC Networks em 2006. Antes da Court TV, ocupou cargos relacionados a vendas para a A+E Networks, Oxygen Media e a empresa de vendas de anúncios de TV local Telerep.

Katz ingressou na Roku no início deste ano depois de fazer parte da equipe que lançou Peacock em seu papel como presidente de direto ao consumidor da NBCUniversal. Antes disso, ele liderou a plataforma de streaming Sky Now e ajudou a lançar o serviço VOD da Virgin Media.

Ozgen, um executivo de tecnologia experiente e veterano da Marinha turca, ingressou na Roku em fevereiro de 2019. Ele liderou as principais iniciativas da empresa, incluindo a Roku TV, Roku Players e Roku Ready Soundbars. Antes da Roku, Ozgen foi CEO da SmartKem, uma produtora de semicondutores. Ele também ocupou cargos seniores em empresas de tecnologia e engenharia como QD Vision, Sigma Designs, CSR, Zoran, Oak Technology, TeraLogic e Wind River Systems.

Como a morte da Rainha Elizabeth afeta as marcas que usam o brasão real

Mudança no trono britânico deve ter efeito sobre empresas como Heinz e Burberry, além de negócios públicos, como a produção de cédulas de libras e selos
Por Isabela Simonetti

Vendas de produtos com símbolos reais cresceram após morte de Elizabeth II
Vendas de produtos com símbolos reais cresceram após morte de Elizabeth II Foto: Peter Nicholls/Reuters

THE NEW YORK TIMES – A imagem da Rainha Elizabeth II está em todo o lugar. Aparece no dinheiro britânico – como a nota de 5 libras e a moeda de 1 libra – e em selos de cartas. O símbolo da realeza está em embalagens de condimentos e em jaquetas. Desde a morte dela, neste mês, o rosto de Elizabeth está por toda a parte nas notícias. No entanto, em pouco tempo, a face do Rei Charles III vai substituir a de sua mãe tanto em produtos oficiais quanto em extraoficiais.

Muita coisa vai mudar. Mas há um ponto positivo nessa transformação real. “O custo da monarquia, que é significativo, não estava sendo controlado. E é algo que precisa ser controlado’, diz Norman Baker, um ex-ministro que escreveu um livro intitulado O que você vai fazer? O que a família real não quer que você saiba. Em outras palavras: tudo já é tão caro que substituir um membro da realeza por outro não faz tanta diferença.

Não é incomum hoje, no Reino Unido, que caixas de correio tragam as insígnias de monarcas que viveram bem antes de Elizabeth. Hoje há cerca de 115,5 mil caixas de correio no Reino Unidos, sendo que 61,4% delas trazem a cifra real de Elizabeth, de acordo com o serviço de correios britânico. Todas as caixas postais em produção durante o reinado de Elizabeth permanecerão intactas, diz o site da instituição. Já as novas vão homenagear o Rei Charles III.

No caso do dinheiro, a situação é um pouco diferente: Elizabeth foi a primeira monarca a aparecer nas notas, em 1960. E a mudança no trono britânico chega em um momento em que o banco central está fazendo uma substituição do dinheiro em circulação por cédulas de polímero, que reduzem a transmissão de germes.

Selos com o rosto da Rainha Elizabeth II: item de colecionador
Selos com o rosto da Rainha Elizabeth II: item de colecionador Foto: Tyrone Siu/Reuters

Produtos da Heinz e da Burberry

Várias companhias, da Heinz (de condimentos) à Burberry (de roupas de luxo), usam o brasão de Elizabeth em seus produtos – algo que não precisará mudar imediatamente. Para ser elegível para usar o brasão, um negócio precisa ter prestado serviços relevantes para a família real por pelo menos sete anos. Mais de 600 negócios – uma lista que inclui também os cristais Swarovski – têm hoje esse direito.

Agora que Elizabeth morreu, companhias como a Heinz, que receberam a autorização por ela, têm dois anos para continuar a usar o brasão. Depois que esse prazo expirar, a Heinz precisará modificar suas garrafas de ketchup que circulam nos EUA.

Despedida da Rainha

Outros produtos não oficiais também estão sentindo o efeito da morte da rainha. A pequena empresa Silk Road Bazaar, que faz ornamentos vendidos no site Etsy, sobretudo para clientes anglófilos. Em agosto, a pequena empresa havia vendido apenas três ornamentos com o rosto da rainha e um com a imagem do Príncipe Charles.

De acordo com Andrew Kurschner, fundador do negócio, a sorte mudou com a morte de Elizabeth: ele vendeu 60 unidades com o rosto dela desde então. A demanda por Charles também aumentou, para um total de oito ornamentos.

Nubank se livra de ‘pacote de obrigações’ ao deixar a Bolsa brasileira: entenda quais

Os papéis do banco negociados na B3, em reais, não representavam sequer 0,2% do capital da companhia
Por Matheus Piovesana

Fachada da Bolsa de Nova York com a cor do Nubank; neobanco vai manter negociação de ações apenas nos EUA
Fachada da Bolsa de Nova York com a cor do Nubank; neobanco vai manter negociação de ações apenas nos EUA 

Os recibos brasileiros de ações do Nubank (ou BDRs), representam uma parte pequena da composição acionária da fintech. Ainda assim, sob o atual modelo do programa, o neobanco tem obrigações regulatórias quase equivalentes às que cumpre nos Estados Unidos, onde se concentra a maior parte das negociações do ativo em Bolsa.

Em dezembro, ao fazer duas ofertas simultâneas de ações, o Nubank vendeu 8,1 milhões de ações, ou menos de 0,2% do total do capital da fintech, que serviam como lastro para os BDRs por aqui. Cada recibo brasileiro equivale a um sexto de uma ação listada em Nova York. Ou seja: foram vendidos 48,5 milhões de BDRs na oferta.

Mesmo com essa base relativamente pequena, a companhia é obrigada a fazer por aqui o pacote completo. Como é formalmente uma empresa de capital aberto no Brasil, o Nubank tem de publicar formulário de referência anual, balanços trimestrais na janela prevista pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), fatos relevantes, comunicados e atas de reuniões do conselho.

Reduzindo obrigações

A questão é que a fintech tem de publicar os mesmos documentos nos Estados Unidos, e não basta traduzi-los, dado que os dois mercados têm normas diferentes. É para reduzir essa redundância que o Nubank vai pedir a mudança de seu programa de BDRs para o nível 1, que o desobriga de cumprir certas normas por aqui. A Stone tem BDRs no mesmo enquadramento.

A mudança, anunciada na quinta-feira, 15, mantém a negociação de recibos de ações no Brasil, mas sem a mesma carga regulatória. Os detentores dos atuais BDRs poderão trocar de um programa para o outro, migrar a posição acionária para Nova York ou simplesmente vender seus recibos.

“O Nubank visa maximizar a eficiência e a escalabilidade, reduzindo cargas de trabalho duplicadas desnecessárias em requisitos regulatórios, que consomem recursos consideráveis”, disse a cofundadora e CEO do Nubank no Brasil, Cristina Junqueira. “Nosso foco é melhorar processos, produtividade e escalabilidade para entregar crescimento e valor para todos os nossos stakeholders.”

O número de BDRs vendidos na oferta não considera a distribuição que a fintech fez pelo programa NuSócios, no qual entregou a clientes um BDR de forma gratuita. O programa teve a adesão de 7,5 milhões de usuários do Nubank, que só podem vender este “pedacinho” (como o Nu chamou os BDRs) a partir de dezembro.

Percepção negativa

Em relatório enviado a clientes, o Itaú BBA afirmou que a mudança é ruim para os acionistas minoritários. Na visão do analista Pedro Leduc, uma das perdas é que os dados financeiros devem ser menos comparáveis aos de instituições financeiras brasileiras.

“Na prática, as divulgações (no Brasil) podem ficar mais pobres, e ainda menos comparáveis às instituições financeiras locais”, afirmou o analista Pedro Leduc. “Julgamos (a mudança) como negativa para minoritários locais e para a governança corporativa.”

Como mostrou o Estadão/Broadcast, analistas de instituições financeiras locais e estrangeiras têm manifestado posições opostas a respeito do Nubank. A comparação com bancos brasileiros é um dos fatores que deixa os locais mais pessimistas.

Os BDRs do Nubank caíam 5,9% nesta tarde, negociados a R$ 4,48. O movimento segue o da ação negociada em Nova York, que despenca 6,7%, a US$ 5,14. O dia é negativo nos mercados americanos, diante das expectativas para a próxima decisão de juros do Federal Reserve (o Banco Central americano), na semana que vem.

A aposta majoritária é de que o Fed vá elevar os juros em 0,75 ponto porcentual. Se isso acontecer, as ações mais penalizadas devem ser as de empresas de tecnologia, em que o crescimento a curto prazo tem mais preponderância que o resultado. Caso do próprio Nubank.

Natura & Co lidera baixas da Bolsa depois de confirmar união de negócios com a Avon

Companhia de cosméticos informou que vai simplificar sua holding e que considera a venda da The Body Shop; ações caíam cerca de 9% às 11h30
Por Amélia Alves

Laboratório da Natura, em Cajamar: reorganização para melhorar rentabilidade
Laboratório da Natura, em Cajamar: reorganização para melhorar rentabilidade Foto: Clayton de Souza/Estadão

Natura & Co enfrenta uma forte queda na B3, a Bolsa brasileira, nesta sexta-feira, 16. Por volta das 11h30, seus papéis caíam quase 9%, liderando as baixas do mercado. Isso porque, na noite de quinta-feira, a empresa anunciou que está conduzindo uma reorganização do grupo, que vai resultar na união de negócios da Natura e da Avon na América Latina e numa possível separação de Aesop do grupo. A The Body Shop poderá ser colocada à venda.

Segundo a Natura, a administração, auxiliada pelo comitê de transição, vem promovendo redesenho da estrutura organizacional da Natura & Co., para “torná-la mais leve e eficiente”, bem como para “dar mais autonomia às unidades de negócio”. Há alguns meses, a companhia trouxe o executivo Fábio Barbosa para a holding, justamente com o mandato de deixá-la mais leve.

“O processo interno de integração das operações na Natura & Co. Latam continua sendo conduzido e acelerado para maior geração de valor”, pontua a Natura, em comunicado ao mercado divulgado há pouco. Segundo a empresa, o conselho de administração não está conduzindo atualmente qualquer estudo específico acerca de um possível spin-off da Aesop ou venda da The Body Shop.

Na Aesop, unidade de negócio que, segundo a Natura, vem apresentando resultados positivos consistentes, a administração “permanece empenhada em promover iniciativas para acelerar o crescimento”. No caso da The Body Shop, os esforços estão voltados a perseguir maior eficiência e melhorias em geração de caixa e rentabilidade.

A Natura reiterou ainda que permanece focada em melhorar os fundamentos dos negócios que apresentem baixo desempenho, e não descarta, como já divulgado anteriormente, revisar seus modelos de operação ou sua presença em determinados mercados.

Quase 90% dos empreendedores não têm funcionários e metade ganha só um salário mínimo

Dados do Sebrae mostram que País tem cerca de 30 milhões de pessoas com empreendimento próprio, sendo apenas 11 milhões de MEIs
Por Felipe Siqueira

Foto: Tiago Queiroz

Nove em cada dez donos de negócios no Brasil não têm funcionários. São empreendedores que trabalham por conta própria e desenvolvem todas as funções dentro da empresa, desde o investimento até a venda ou prestação de serviço, segundo dados do Atlas dos Pequenos Negócios, elaborado pelo Sebrae.

Os números – baseados na PNAD Contínua, do IBGE – consideram empreendedores no geral, sem avaliar o tamanho do empreendimento, explica o analista de gestão estratégica da entidade Denis Nunes.Segundo ele, o cenário de não ter empregados é a síntese do Microempreendedor Individual (MEI) brasileiro, mas isso não quer dizer que todos estejam formalizados dessa forma, com CNPJ aberto.

Em dezembro de 2021, mês de fechamento do Atlas, havia cerca de 29,8 milhões de pessoas à frente do próprio empreendimento no País, sendo que 25,9 milhões atuavam de maneira autônoma. No mesmo período, o número de MEIs somavam apenas 11,2 milhões. Para o Sebrae, os dados revelam o enorme espaço para o crescimento de microempreendedores individuais.

Vale ressaltar que esses números voltaram a crescer. Em dezembro de 2019, 24,5 milhões atuavam por conta própria. Porém, um ano depois, já em meio à pandemia, a estatística caiu para 23,2 milhões. A partir do início do ano passado os números passaram a ter um aumento relevante, chegando ao patamar mais recente, de quase 26 milhões, em dezembro de 2021. ”Em um cenário de alto desemprego e crise sanitária, as pessoas procuraram se ocupar, para conseguirem ter renda. Com as restrições, alguns viram oportunidades”, diz Nunes, do Sebrae.

Segundo ele, esse movimento é essencial para movimentar a economia. O que não cabe é ficar totalmente parado. “O empreendedorismo acaba sendo a saída da crise para muitas pessoas.”

Ele explica que vários empreendimentos acabam ficando na informalidade, sem CNPJ, porque não sabem exatamente o que vai deslanchar. “A pessoa vende várias coisas, uma pela manhã, outra à tarde e mais uma outra no período da noite. Se uma dessas opções der certo, aí, sim, pode ser que formalize a empresa.”

Salário mínimo

Neste cenário, como o negócio existe para que a pessoa consiga tirar o próprio sustento, é muito difícil ter estrutura para contratar alguém sob as leis da CLT. Por isso, o empreendedor acaba atuando por conta própria.

Os valores que o indivíduo consegue ter de “salário” não são altos. De acordo com o levantamento do Sebrae, quase metade (45%) dos donos de negócios no Brasil ganham até um salário mínimo como renda mensal. Além disso, 27% tiravam, por mês, de um a dois salários mínimos.

Lucas Anouck, de 26 anos, que atua como publicitário e produtor para PMEs no ramo de moda, é MEI. Ele conta que até pensa em contratar um assistente, que o deixaria mais “livre” para conquistar novos clientes. “Queria fazer mais prospecção”, diz o publicitário. Mas isso é uma ideia para o futuro. Hoje, por conta dos custos que um funcionário gera e pela renda mensal própria ainda ser instável, ele diz que é impossível.

O publicitário e produtor Lucas Anouck, de 26 anos Foto: Tiago Queiroz/Estadão
O publicitário e produtor Lucas Anouck, de 26 anos Foto: Tiago Queiroz/Estadão  

A saída, diz Anouck, é fechar contratos de prestação de serviço com outros autônomos. “Se um cliente precisa de fotos ou aumentar engajamento de redes sociais, eu faço a ponte com profissionais especializados. Então, organizo a produção, seleciono modelo, vou atrás de fotógrafo.”

Loggi demite 15% dos funcionários após estagnação do comércio eletrônico

Startup de logística reestruturou o negócio diante de cenário global difícil; ‘unicórnio’ também anunciou troca no comando
Por Bruno Romani

Fabien Mendez, fundador da Loggi, deixa o cargo de CEO para assumir o conselho da companhia
Fabien Mendez, fundador da Loggi, deixa o cargo de CEO para assumir o conselho da companhia  Foto: Divulgação

Loggi é o mais novo ‘unicórnio’ (startup avaliada acima de US$ 1 bilhão) nacional a fazer demissões em massa. A startup especializada em logística desligou 15% dos 3,6 mil funcionários na manhã desta segunda, 8. Toda a companhia foi afetada pelo corte, incluindo as áreas operacional, administrativa e de tecnologia – as informações foram reveladas ao Estadão por Fabien Mendez, CEO e cofundador da companhia.

“O mundo e o Brasil foram atormentados por grandes forças contrárias em 2022. Tivemos a volta da inflação, que foi amplificada pela guerra na Ucrânia, o colapso das bolsas de valores e o espectro de uma recessão global. Essas forças, que parecem distantes, estão tendo um impacto muito grande em nosso negócio “, diz o executivo francês à reportagem.

Mendez diz que a volta da inflação está causando estagnação no comércio eletrônico, o que impacta diretamente os negócios da Loggi, que se especializou na entrega de pacotes de vendas online – a companhia está presente em 4 mil municípios brasileiros. O executivo diz que, até fevereiro deste ano, o setor conseguiu operar com crescimento. Segundo ele, a estagnação se instalou e permaneceu inalterada a partir de abril.

Em novembro do ano passado, a companhia inaugurou um galpão de entregas em Cajamar (SP) de R$ 150 milhões – a previsão é que a instalação processaria 1 milhão de pacotes por dia até 2023. Esses números, porém, foram revistos.

Monica Santos, diretora de recursos humanos da Loggi, diz que os demitidos terão um pacote de benefícios, incluindo três meses do plano de saúde, incluindo dependentes, três meses de Zenklub para apoio psicológico, serviço de recolocação no mercado e flexibilização nas condições de participação de ações da empresa para funcionários que tinham pouco tempo de casa.

Essa não é a primeira vez que a Loggi realiza desligamentos em massa. A empresa passou por momentos de incerteza no início da pandemia, o que rendeu até 120 demissões em março de 2020. Com o desenrolar dos meses, porém, a empresa começou a crescer em ritmo acelerado. Um ano depois, a companhia levantou US$ 212 milhões, maior captação já realizada pela empresa.

Agora, a ideia da companhia é preservar os fundos levantados em sua última rodada de investimentos. Mendez promete que a companhia não terá novos cortes – algumas startups nacionais continuaram demitindo “à conta gotas” depois de grandes rodadas de desligamentos. O executivo também afirmou que, a partir de agora, a companhia será muito rigorosa em eventuais novas contratações.

Loggi troca liderança

Além das demissões, a Loggi anunciou mudanças no comando da companhia. A partir desta terça, 9, Thibaud Lecuyer assume a cadeira de CEO – na empresa desde outubro de 2019, o francês era o diretor financeiro da companhia.

Já Fabien Mendez assumirá a presidência do conselho da companhia. “É um movimento que permitirá alavancar as forças de cada um. No meu caso, isso significa espírito empreendedor, pensamento estratégico, visão de longo prazo. E isso nos permite fazer emergir talentos que nutrimos dentro da empresa”, explica o fundador da companhia.

Na chegada, o novo chefe diz à reportagem quais são suas prioridades. “ Primeiro, vamos cuidar dos nossos funcionários. Segundo, vamos cuidar de nossos clientes, que confiam bastante na gente. As demandas no comércio eletrônico estão mudando, então precisamos ajudar a eles a se adaptarem. Em terceiro lugar, vamos melhorar nossa eficiência operacional”, diz Lecuyer.

“Thibaud é um executor muito focado e é um veterano do mercado de comércio eletrônico”, diz Mendez de seu sucessor.

Crise é severa entre gigantes

Conhecidas por contratar centenas de funcionários ao mês, as startups têm realizado centenas de demissões pelo mundo — o fenômeno não é exclusivo do Brasil. O período tem sido batizado de “inverno das startups”, após a onda positiva causada pela digitalização da pandemia nos últimos dois anos.

Segundo especialistas consultados pelo Estadão nos últimos meses, as demissões ocorrem como reajuste de rota em meio à alta global nos preços e à guerra da Ucrânia, que desorganiza a cadeia produtiva mundial. Nesse cenário, investidores viram as costas para investimentos de risco, como startups. Com isso, levantar rodadas tem sido mais difícil do que durante a pandemia, quando a fonte do capital parecia infinita.

O processo tem sido especialmente duro com as startups maiores, que estão no momento conhecido como “late stage”. Nesse estágio de maturidade, as empresas queimam dinheiro velozmente na tentativa de crescer e ganhar mercado – sem o dinheiro, elas precisam preservar caixa para sobreviver.. Entre os unicórnios nacionais que já fizeram demissões em massa em 2022 estão QuintoAndarLoftFacilyVtexEbanxMercado Bitcoin e Olist. A mexicana Kavak, maior unicórnio da América Latina, também fez cortes severos na operação brasileira.

Fundos de investimento alertaram as startups sobre o cenário desafiador nos primeiros meses do ano. O investidor Masayoshi Son, presidente do SoftBank, um dos maiores investidores de startups no Brasil e investidor da Loggi, disse que o conglomerado japonês deve reduzir os investimentos em empresas de tecnologia neste ano.

Além do SoftBank, a aceleradora Y Combinator, uma das mais conhecidas no Vale do Silício, recomendou que as startups reavaliassem suas finanças e que ficassem prontas para cortar gastos. A medida, de acordo com a aceleradora, é uma forma de prever até 24 meses sem investimentos. “Crises econômicas geralmente se tornam grandes oportunidades para os fundadores que mudam rapidamente sua mentalidade, planejam com antecedência e garantem que sua empresa sobreviva”, afirmou a gestora na carta.

Uber tem fluxo de caixa positivo pela 1ª vez e ações sobem

A Uber anunciou nesta terça-feira (2) um fluxo de caixa trimestral positivo pela primeira vez, enquanto projetou resultado operacional no terceiro trimestre acima das estimativas do mercado, com aposta de demanda sólida pelos seus serviços de transporte e entrega de alimentos.

As ações da Uber, que caíram mais de 40% em 2022, subiam 15%, para US$ 28,41 (R$ 146,59) cada, nas negociações pré-mercado, e ajudavam a impulsionar um ganho de 8% nos papéis da rival Lyft.

A Uber gerou fluxo de caixa livre de US$ 382 milhões (R$ 1,9 bilhão) no segundo trimestre, superando as expectativas dos analistas de US$ 263,2 milhões (R$ 1,3 bilhão), já que as corridas ultrapassaram os níveis pré-pandemia, impulsionadas pela reabertura de escritórios e um aumento na demanda de viagens.

O número de motoristas e entregadores em sua plataforma aumentou 31%, para um recorde histórico de quase cinco milhões, aliviando preocupações dos efeitos do aumento dos preços da gasolina nas novas adições.

“Isso mesmo: mais pessoas estão ganhando no Uber hoje do que antes da pandemia”, disse o presidente-executivo da companhia, Dara Khosrowshahi.

O crescimento em seus negócios de entrega de alimentos desacelerou, mas a Uber espera que o modelo se torne o padrão para os consumidores, à medida que a empresa continua a adicionar novos parceiros.

A receita do segmento de entregas aumentou 37% contra um ano antes, para US$ 2,69 bilhões (R$ 13,8 bilhões), enquanto a do negócio de corridas subiu 120%, para US$ 3,55 bilhões (R$ 18,3 bilhões), no trimestre encerrado em 30 de junho.

Analistas esperavam receita de US$ 2,58 bilhões (R$ 13,3 bilhões) em entrega e US$ 2,93 bilhões (R$ 15,1 bilhões) em transporte.

As reservas brutas, ou o valor total das reservas feitas em sua plataforma, aumentaram 33%, para US$ 29,1 bilhões (R$ 150,1 bilhões).

O Ebitda ajustado da Uber no trimestre foi de US$ 364 milhões (R$ 1,8 bilhão), superando as estimativas de US$ 257,89 milhões (R$ 1,3 bilhão).

A empresa espera agora Ebitda ajustado entre US$ 440 milhões (R$ 2,2 bilhões) e US$ 470 milhões (R$ 2,4 bilhões) no terceiro trimestre, bem acima da estimativas de US$ 383,95 milhões (R$ 1,9 bilhão), segundo dados compilados pelo IBES, da Refinitiv, com analistas. [Reuters]

Dark stores, mercados sem caixa ou fila, se multiplicam com entrega rápida por app

Localizados perto do cliente, eles são parte da corrida do delivery, que conquista o consumidor mais digitalizado após a pandemia
Por Letycia Cardoso — Rio de Janeiro

Dark Store do app Rappi, o Turbo, promete entrega em até 10 minutos – Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

Quem passa pela Visconde de Pirajá, principal rua que corta o bairro de Ipanema, na Zona Sul do Rio, sequer imagina que um local, a poucos metros de um famoso shopping da região, onde antes já funcionou uma agência bancária, hoje abriga um supermercado. Sem caixas, carrinhos e sem fluxo de clientes, o estabelecimento de apenas 150 metros quadrados oferece cerca de 1.500 produtos diferentes para delivery. A loja da Daki, startup que promete entregar em até 15 minutos, é apenas uma das centenas de dark stores que estão se espalhando pelo Brasil.

Esse modelo de negócio, impulsionado pela pandemia, pode ser visto como uma estratégia de logística porque funciona como um minicentro de distribuição, onde é feito desde o armazenamento até a separação e o envio dos produtos.

Além de proporcionar agilidade na entrega e otimizar a experiência do cliente, o varejista ainda consegue lidar melhor com seu estoque, sem ter que investir tanto em espaços físicos, reduzindo o tempo e o custo de implementação.

Lojas ocultas da Daki aproveitam espaços que já foram bancos, igrejas e academias — Foto: Léo Martins
Lojas ocultas da Daki aproveitam espaços que já foram bancos, igrejas e academias — Foto: Léo Martins

No lugar da academia

Rodrigo Maroja, sócio-fundador da Daki, conta que, a partir do aluguel do imóvel, consegue tornar a loja operacional em menos de um mês:

— Já alugamos igrejas, academias e não fizemos muitas adaptações porque o uso do espaço é mais eficiente. Os corredores não precisam ter a largura de um carrinho. As prateleiras não precisam ser esteticamente bonitas, o que torna a estrutura mais barata do que a de um mercado convencional. Além disso, nem sempre preciso estar na rua principal. Posso estar numa ruela de trás, tranquila, que ainda assim estarei centralizado e com custo competitivo.

A empresa, fundada em 2021, possui mais de 90 lojas em 11 cidades do Rio, de São Paulo e de Minas Gerais. Cada uma atende um raio de 2,5 a 3 quilômetros. Após o consumidor finalizar sua compra pelo aplicativo, o pedido chega à tela do galpão mais próximo, e o cronômetro começa a rodar.

Cada estante é identificada com uma letra do alfabeto e, para agilizar o processo, a lista já chega na ordem em que os itens estão dispostos. Assim, ao cruzar o espaço uma única vez, o funcionário consegue pegar tudo o que precisa, sem ter que ficar indo e voltando.

O tempo médio para a separação varia de dois a cinco minutos. Logo depois, os pacotes são coletados pelos entregadores parceiros, responsáveis pelo transporte até o destino final.

— Menos de 5% das compras no Brasil são feitas em supermercados on-line. Na Coreia do Sul, esse número é de 20%. Então, há muita oportunidade para crescimento ainda — aposta Maroja: — A gente entrega qualidade e comodidade, devolvendo para o cliente duas ou três horas por semana, que ele pode aproveitar para outras atividades.

Rodrigo Maroja, sócio-fundador da Daki: 'A gente entrega qualidade e comodidade' — Foto: Léo Martins
Rodrigo Maroja, sócio-fundador da Daki: ‘A gente entrega qualidade e comodidade’ — Foto: Léo Martins

As dark stores não se limitam ao segmento de supermercados. Embora bens de consumo, alimentos e bebidas possuam maior saída, há negócios relativos a incontáveis setores, inclusive móveis e eletrodomésticos.

Jorge Catani, diretor de logística da Infracommerce, empresa que possui 18 dark stores espalhadas pelo país para oferecer capilaridade a 500 marcas diferentes, diz que no Brasil existem atualmente cerca de 7.000 “lojas ocultas” nas principais capitais brasileiras, com tamanhos médios entre 70m2 e 100 m2.

— O avanço da tecnologia permite que o consumidor exija experiências cada vez melhores. Não basta só ofertar produtos, é preciso investir em melhor tempo e custo de entrega, que são os principais fatores que decidem as vendas. Essa experiência veio para ficar e ela irá se aperfeiçoar cada vez mais — opina Catani.

‘Promoção customizada’

A análise de dados é uma das peças-chave para esse tipo de negócio. Cada loja precisa ter os sortimentos mais procurados na região em quantidade suficiente para que o item não esteja indisponível quando o cliente buscar, nem em excesso para não estragar no estoque.

Davi Song, CEO da startup LETT, que trabalha com inteligência de dados para o e-commerce, diz que a manipulação estratégica das informações pode alavancar consideravelmente as vendas.

— Enquanto no varejo tradicional você faz uma oferta para todos os clientes e espera que algum passe pela loja e se interesse, no digital você consegue fazer promoções customizadas e avisar o consumidor por uma notificação, via SMS ou WhatsApp — explica Song. — Se uma pessoa é consumidora de vinhos e compra todos os meses, por exemplo, a plataforma pode usar esse dado para oferecer um cupom de desconto próximo à data usual de compra.

Com alta demanda, Turbo, da Rappi, passou a funcionar 24 horas. Na foto, o diretor Eric Dhaese — Foto: Maria Isabel Oliveira

Foco na ultraconveniência

Essa é justamente uma das principais estratégias do iFood para atrair novos clientes para experimentarem o serviço de ultraconveniência, lançado em 2021, com entrega de itens de mercado em até 15 minutos. Nesse modelo, o aplicativo conta com operações próprias e lojas parceiras, como Pão de Açúcar, BIG, Carrefour, Maxxi Atacadista, Oba Hortifruti, DIA e Natural da Terra Hortifruti.

Também no ano passado, o concorrente Rappi lançou a vertical Turbo, que realiza entregas em até dez minutos por 13 cidades do país. Apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, as dark stores possuem centros de distribuição próprios, com raio de atendimento de 1,5 a 2,5 quilômetros. Nas demais localidades, o serviço se dá por meio de parceria com varejistas locais como O Nortão, de Natal (RN), e Festval, de Curitiba (PR).

Eric Dhaese, diretor geral do Turbo, afirma que a fidelização dos clientes que testam a entrega rápida é duas vezes maior do que a dos que usam outros serviços da empresa. Pela comodidade oferecida, segundo ele, as compras costumam ter tíquete menor, mas são realizadas com maior frequência.

— Temos muitos usuários jovens. Pessoas recorrem ao Turbo porque se esqueceram de comprar alguma coisa no mercado; porque estão dando uma festa e está chegando mais gente do que o planejado; ou porque decidiram testar uma receita de última hora. Ele pode acordar, decidir comer uma avocado toast e, enquanto escova os dentes, tudo chega em casa — conta o diretor: — Muitos outros clientes são pais de crianças pequenas, que pedem de fraldas até fórmula infantil.

Entregadores atendem raio de até 3 quilômetros para fazer entregas rápidas — Foto: Rebecca Alves / Agência O Globo

Devido ao crescimento no último ano, o Rappi passou a disponibilizar o Turbo por 24 horas. Os produtos variam de loja para loja, de acordo com hábitos de consumo dos moradores de cada região. No Rio, os campeões de venda são banana prata, limão, cerveja long neck, refrigerante e água mineral.

Despesa alta com tecnologia e marketing

No ano passado, quando as dark stores se multiplicaram pelo país, o cenário era diferente: juros em 2% e inflação controlada. Nesse contexto, atrair investimentos para esse modelo de negócio — que oferecia solução para o caos no início da pandemia, quando as entregas de supermercado chegavam a ter prazo de até quatro dias úteis — não foi difícil.

Agora, porém, diante de uma possível recessão global com o aperto monetário em diversas economias, cresce a pressão para fechar as contas.

Se por um lado, a infraestrutura dessas empresas é mais barata e o quadro de funcionários é reduzido, por outro, a verba gasta com tecnologia e marketing é gigante. Victor Bueno, analista da Nord Research, diz que o salário de um profissional de T.I., escasso no mercado, pode equivaler ao de cinco trabalhadores como estoquistas e caixas. Também diz que a distribuição de cupons de desconto é uma faca de dois gumes.

— No começo, para expandir o negócio, você começa cedendo para cupons, descontos e acaba tendo seu nome conhecido pelos clientes. Mas se permanece nesse modelo no longo prazo, de forma descontrolada, acaba não tendo um negócio sustentável. E daí tudo se torna uma bola de neve. São modelos que precisam ter muito cuidado — avalia.

Produtos próprios

Bueno diz que além de boas ideias, é preciso ter boa gestão. Caso contrário, as startups podem não conseguir rentabilidade. Outro ponto de atenção, segundo ele, é a ampliação da concorrência, já que a mudança de comportamento dos consumidores, que demandam entregas cada vez mais rápidas, pode fazer com que varejistas já consolidadas no mercado físico apostem nesse modelo de lojas ocultas.

Após se fundir no ano passado com a americana Jokr, com atuação nos Estados Unidos, México e Peru, a Daki fez alguns cortes no quadro de funcionários este ano. O grupo formado pelas duas empresas ainda encerrou as operações americanas. Além disso, para fazer as contas fecharem, no Brasil adotou duas outras estratégias: o lançamento e a venda de produtos próprios, como o vinho Ino, que tem margens ampliadas, e a comercialização de espaço publicitário dentro do aplicativo para grandes marcas.

— Em cada seção do aplicativo, há uma foto diferente. Em congelados, tem fotos da Sadia porque fizemos um acordo comercial com eles. É um ganho extra para a gente e, para eles, é positivo pois o consumidor fica mais estimulado a comprar dessa marca — diz Maroja.

Para Bueno, diversificar as fontes de receita é positivo:

— Como o negócio trabalha com margens comprimidas, é ótimo caminho. Não dar lucro não quer dizer dar prejuízo. Se a empresa empatar e estiver posicionada em um segmento promissor, está ótimo. (L.C.)