Grupo Soma, dono da Animale e da Farm, fecha acordo para compra da byNV da influenciadora digital Nati Vozza por até R$ 210 milhões

Parte do valor da operação com a marca criada pela influenciadora digital Nati Vozza será paga em dinheiro e outra parte em ações; negócio ainda depende da aprovação do Cade
Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

Grupo Soma é dono das grifes Farm, Animale e Maria Filó, entre outras Foto: Farm/Divulgação

Grupo Soma, dono da Animale e da Farm, fechou acordo para comparar a NV Comércio de Roupas, que atua no varejo físico e online e também no segmento de atacado, por um valor que pode chegar a R$ 210 milhões, de acordo com fato relevante publicado nesta segunda-feira, 26.

A empresa, que atua sob a marca byNV e foi criada em 2009 pela influenciadora digital Nati Vozza, tem como sócio, além dela, Antônio Carlos Junqueira e Beatriz Junqueira. O Soma pagará parte do valor da operação em dinheiro e outra parte em ações, o que significa que os três passarão a ser sócios do grupo.

Além disso, a depender do cumprimento de determinadas metas de negócio, podem receber um valor adicional em dinheiro em 2026.

O preço de R$ 210 milhões pode sofrer alterações. Isso porque o valor de compra será um múltiplo de 7 vezes o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) dos 12 meses encerrados em 30 de junho deste ano, menos a dívida líquida combinada da NV. Nesse intervalo, de acordo com os valores apurados até hoje, o Ebitda das marcas foi de R$ 30 milhões e a dívida líquida era zero.

Após o anúncio do negócio, as ações do Soma, que abriu capital em julho deste ano, passaram a ter forte alta e, às 14h40, subiam 10,91%.

Segundo o Soma, a compra faz parte de sua estratégia de expandir o portfólio de marcas, ampliando a oferta de produtos de forma complementar. O grupo afirma que, nascida na internet e com resultados consistentes mesmo durante a pandemia, a NV traz uma “oportunidade de complementar o portfólio de marcas da Companhia, de forma a impulsionar o seu crescimento por meio de ferramentas tecnológicas, expansão de lojas físicas e ampliação do canal de atacado”.

Hoje, a NV tem cinco lojas físicas próprias, um site de e-commerce sob a marca byNV e vendas no atacado, através de um showroom próprio. Natalia e Junqueira continuarão à frente da marca, atuando em postos executivos, no que, segundo o Soma, garantirá a manutenção das características da NV. Modelo parecido foi adotado pela Arezzo na compra da Reserva, anunciada na última sexta-feira, 23.

A operação depende da aprovação por parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de outras condições.

Nubank pede desculpas e diz que vai reforçar busca por lideranças negras

Em carta publicada na noite deste domingo, fundadores se retratam por declaração de Cristina Junqueira de que fazer políticas afirmativas para contratar negros poderia ‘nivelar por baixo’ a empresa e buscam mudanças

 Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank

Nubank publicou na tarde deste domingo, 25, uma carta em que admite ter errado no que diz respeito às questões raciais dentro da empresa. “A diversidade foi sempre, sim, parte da nossa cultura. O equívoco foi achar que ter o valor por si só bastava”, escreveram os três cofundadores da empresa – David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible –, em texto publicado no blog da fintech. 

O documento surge como segunda tentativa da empresa de se retratar após uma declaração de Cristina Junqueira durante o programa Roda Viva, da TV Cultura. Entrevistada na última segunda-feira, 19, ela disse que o Nubank não possuía políticas afirmativas de contratação de pessoas negras, tal como fez o Magazine Luiza recentemente em seu programa de trainee. Segundo Junqueira, o nível da empresa é alto e uma política dessas poderia “nivelar por baixo” a companhia. 

A frase causou repercussão nas redes sociais, com inúmeros internautas acusando o Nubank de hipocrisia e racismo – a empresa costuma se vender como defensora da diversidade no mercado de trabalho. A posição aparece ressaltada na carta deste domingo. “Ficamos acomodados com o progresso que tivemos em estatísticas relativas à igualdade de gênero e LGBTQIA+. Repetidas, elas mascaravam a necessidade urgente de posicionamento ativo também na pauta antirracista.” 

Durante a semana, Cristina Junqueira chegou a pedir desculpas pela declaração no Roda Viva, em um vídeo publicado em sua conta na rede social profissional Linkedin. Agora, a empresa volta à carga, não só com a admissão de um erro, mas também com promessa de ações efetivas para melhorar sua postura na questão. 

Na carta publicada neste domingo, os três cofundadores afirmam que fecharam uma parceria com o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) para “ampliar nosso entendimento sobre o tema, firmar nosso engajamento público e contínuo e acelerar a promoção da igualdade racial no Nubank”. A companhia disse ainda que vai dobrar o time “dedicado a recrutar profissionais de grupos sub-representados em todas as posições e níveis da empresa e reforçar a busca por lideranças negras para nos ajudar nesse processo.”

Arezzo anuncia compra do grupo Reserva por R$ 715 milhões

Com o negócio, a companhia prevê ampliar seu mercado em 3,5 vezes; operação ainda precisa ser avaliada pelo Cade
Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

Arezzo quer ampliar seu mercado em 3,5 vezes com incorporação do grupo Reserva. Foto: Arezzo

Arezzo&Co anunciou nesta sexta-feira, 23, a compra do grupo de moda Reserva. A transação contempla as seis marcas do grupo – a própria Reserva, Reserva Mini, Oficina Reserva, Reserva Go, EVA e INK. A Reserva foi avaliada em R$ 715 milhões para o negócio.

Segundo a empresa, a movimentação possibilitará uma ampliação de 3,5 vezes o mercado da companhia, que passará a vender, além de calçados e bolsas, itens de moda masculina, feminina e infantil, incluindo roupas e acessórios. Após a conclusão da transação, a Arezzo&Co deve criar um braço “lifestyle”, nas palavras da companhia, que terá Rony Meisler, sócio fundador da Reserva, como CEO da operação. 

Os principais acionistas e executivos da Reserva – Fernando Sigal, de Produto; Jayme Nigri, COO; e José Alberto da Silva, de Tecnologia – permanecem no grupo. A sede da Reserva será mantida no Rio de Janeiro.

Os sócios e investidores da Reserva passarão a ser sócios da Arezzo&Co e a efetivação da operação ainda está sujeita a determinadas condições, incluindo a avaliação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O Grupo Reserva conta hoje com 78 lojas próprias e 32 franquias, além de estar presente em 1,5 mil multimarcas. Em 2019, o Grupo Reserva faturou R$ 400 milhões.

Bancos priorizam custo e digitalização para MEI abrir conta; veja 12 opções

Contas para microempreendedor individual reduzem taxa de manutenção e incluem facilidades para abertura; para especialista, serviços ajudam a reduzir número de desbancarizados
Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

fintech Neon
Marcelo Moraes, diretor da área de PJ da fintech Neon.  Foto: Divulgação

O Brasil bateu neste ano a marca de 10 milhões de microempreendedores individuais (MEIs) e, de olho nessa fatia do mercado, bancos tradicionais e fintechs (startups financeiras) passaram a customizar contas bancárias para atendê-los. Juntas, as instituições disputam esse empreendedor, que é quase pessoa física, muitos autônomos e profissionais liberais, e devem ter faturamento anual de até R$ 81 mil.

Para atrair os clientes, os bancos e as fintechs entenderam que o processo deveria ser incluir baixo custo, digitalização e pouca burocracia – em muitos deles, é possível abrir a conta a partir do celular. O Estadão PME, que no ano passado já havia listado opções para o MEI,reuniu agora 12 bancos com as facilidades oferecidas (leia mais abaixo; alguns bancos não atualizaram os dados até o fechamento desta edição). Entre as novidades, o custo para a manutenção de algumas contas baixou, chegando à gratuidade.

Essas contas customizadas não são facilidades apenas das fintechs. Bancos tradicionais também vêm buscando atrair o público. “No Brasil, é crescente o número de microempreendedores individuais. Nós somos um banco que queremos ganhar mercado, trabalhar com todos os segmentos”, diz Franco Fasoli, diretor do segmento Empresas & Governos do Santander. 

Para Istvan Kasznar, professor da FGV Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas), a ampliação de mercado dos bancos e a concorrência são essenciais para o próprio cliente, já que acarretam o aumento na eficácia do atendimento, com orientações direcionadas para o empreendedor, mais velocidade para o público e para o banco, fidelidade do público e aumento do número de bancarizados.

Segundo pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva em 2019, cerca de 45 milhões de brasileiros não possuem conta bancária. O que significa que uma em cada três pessoas acima dos 16 anos no País é desbancarizada. Esse grupo movimenta aproximadamente R$ 817 bilhões na economia anualmente.

Para Istvan, as contas customizadas podem ajudar a reduzir o número de desbancarizados. “A bancarização é fundamental para manter as pessoas dentro do sistema bancário e econômico. A capacidade de fazer com que esse público venha a se bancarizar tornou muito melhor a escala pública e privada de atendimentos.”

Ao mesmo tempo, para Marcelo Moraes, diretor da área de PJ da fintech Neon, o principal problema entre os MEIs são os sub-bancarizados. “O cara que tem acesso a uma conta poupança, no banco tradicional, não supre as necessidade do negócio”, explica. “Quando você tem uma conta gratuita, simples, com produtos que falam com o empreendedor, é uma oportunidade enorme de fazer uma inclusão financeira desse público.”

Em novembro de 2018, a Neon lançou a conta Neon Pejota, com foco nos MEIs. No último mês de setembro, a conta foi relançada como MEI Fácil, com taxas mais baixas (transação de boletos, DOC e TED, que eram cobradas, ficaram gratuitas).

“O MEI tem necessidades específicas que um informal não tem: pagamento de imposto, declaração de faturamento, emissão de nota fiscal. Ter uma conta dedicada ao MEI pode fazer muito mais sentido do que uma conta pessoal”, diz o diretor da área de PJ da Neon.

No caso do Santander, que possui conta para MEI desde maio de 2019, o processo também ajuda. “Desenvolvemos o processo de abertura de conta digital, por meio do aplicativo do banco, e a conta é aprovada em até 48 horas”, diz Franco.

CONFIRA 12 CONTAS PARA MEI

1. ASAAS

Conta: não possui nome

Manutenção: gratuita

TED/DOC: R$ 5 por transação

Boleto: emissão gratuita (taxa aplicada para boleto recebido: R$ 0,99 nos 3 primeiros meses e R$ 1,99 depois)

Saque: R$ 8,95 por transação

Cartões: pré-pago e crédito, ambos sem anuidade

Atendimento: site, aplicativo, central de atendimento e WhatsApp

Abertura da conta: site e aplicativo 


2. BANCO DO BRASIL

Conta: Fácil MEI

Manutenção: R$ 17 por mês (ou R$ 34 para a conta Fácil MEI Especial, com máquina Cielo Mobile)

TED/DOC: R$ 10,45 por transferência

Boleto: não possui

Saque: 6 saques gratuitos em terminais de autoatendimento (depois, R$ 2,55 em terminais, rede compartilhada ou Banco 24 Horas)

Cartões: só débito

Atendimento: aplicativo, site e agência e central de relacionamento

Abertura da conta: via aplicativo


3. BANCO INTER

Conta: Digital MEI

Manutenção: gratuita

TED/DOC: 100 transferências gratuitas por mês

Boleto: 100 boletos gratuitos por mês

Saque: gratuito no Banco 24 Horas e no Saque e Pague

Cartões: débito/crédito sem anuidade

Atendimento: aplicativo, chat no site, telefone e redes sociais

Abertura da conta: via aplicativo


4. BANCO ORIGINAL

Conta: Pessoa Única / Original Empresas Básico

Manutenção: R$ 19,90 por mês

TED/DOC: 5 gratuitos por mês (depois R$ 8,90por transação)

Boleto: não tem

Saque: saques gratuitos e ilimitados 

Cartões: débito/crédito com anuidade gratuita no 1º ano (depois, R$ 16 ao mês; ou grátis para gastos mensais acima de R$ 1.500)

Atendimento: site, WhatsApp, Messenger e central de atendimento

Abertura da conta: via aplicativo


5. BS2 

Conta: PJ do BS2 Empresas

Manutenção: gratuita

TED/DOC: R$3,50

Boleto: R$ 2,47 por transação

Saque: 2 gratuitos no Banco 24 Horas (R$5,90 a partir do terceiro)

Cartões: débito e virtual isento anuidade

Atendimento: aplicativo, site e telefone

Abertura da conta: via site ou app


6. C6 BANK

Conta: C6 MEI

Manutenção: gratuita

TED/DOC: até 100 gratuitos por mês; depois R$ 4 por transação

Boleto: não possui

Saque: sem cobrança (ilimitado)

Cartões: débito/crédito isentos de anuidade (maquininha C6Pay com adesão zero para faturamentos a partir de R$ 3.500/mês)

Atendimento: aplicativo, chat, e-mail e telefone

Abertura da conta: via aplicativo


7. CORA

Manutenção: gratuita

TED/DOC: gratuito

Boleto: gratuito

Saque: R$ 6,50 (em ATMs 24h e em locais credenciados Visa)

Cartões: débito (Visa), não possui anuidade 

Atendimento: aplicativo, WhatsApp, e-mail e telefone

Abertura da conta: via aplicativo


8. ITAÚ

Conta: Conta Certa 4

Manutenção:  R$ 86 por mês (R$ 25, se o cliente usar a maquininha Rede; ou gratuito a depender do faturamento)

TED/DOC: gratuito na mesma titularidade (taxa variável com titularidade diferente)

Boleto: não tem preço fixo; desconto progressivo limitado a 3 boletos por mês

Saque: 30 gratuitos nos caixa eletrônico Itaú

Cartões: débito sem anuidade / crédito anuidade variável (gratuita com gastos a partir R$ 1.500 por mês)

Atendimento: App (celular e computador), telefone e agência

Abertura da conta: pelo site e via agência


9. NEON

Conta: MEI Fácil

Manutenção: gratuita

TED/DOC: gratuito

Boleto: gratuito

Saque: um saque gratuito por mês (depois, R$ 6,90 por saque no Banco 24 Horas)

Cartões: cartão virtual de débito isento de anuidade

Atendimento: aplicativo

Abertura da conta: via aplicativo


10. NUBANK

Conta: PJ Nubank 

Manutenção: gratuita

TED/DOC: gratuitos e ilimitados para qualquer banco (o PIX para pessoa jurídica também será gratuito)

Boleto: boleto de depósito gratuito; boletos de cobrança em fase de testes para valores das tarifas

Saque: R$ 6,50 por transação em caixas eletrônicos Banco 24horas ou Saque e Pague 

Cartões: débito sem tarifas

Atendimento: chat no aplicativo, e-mail e telefone (todos 24h)

Abertura da conta: para empreendedores sócios únicos (MEI, EI e Eireli) e outros que tenham conta pessoal do Nubank


11. SANTANDER

Conta: MEI Santander

Manutenção: 3 meses de isenção, depois R$ 29 por mês (50% de redução no pacote para faturamentos acima de R$ 3 mil/mês na maquininha Superget)

TED/DOC: 3 meses de transferências sem custo (depois, um TED/DOC grátis por mês)

Boleto: 3 meses a R$ 1,99/cada (depois, R$ 3,50 por transação)

Saque: R$ 2,50 por transação

Cartões: débito ou crédito e anuidade de que varia conforme os gastos, podendo chegar em descontos de até 100%

Atendimento: telefone, e-mail e agência

Abertura da conta: 100% online


12. STONE

Conta: Pessoa Jurídica

Manutenção: gratuita

TED/DOC: 20 TEDs gratuitos por mês, TEDs agendadas gratuitas, TEDs entre contas Stone gratuitas (ou R$ 2 para TEDs no mesmo dia)

Boleto: 5 boletos grátis por mês (depois, R$ 2 por boletos pagos; boletos não pagos grátis)

Saque: R$ 6,50 por saque no Banco24H

Cartões: cartão pré-pago gratuito

Atendimento: por telefone

Abertura da conta: via aplicativo

Tesla tem recorde de receita e bate US$ 400 bilhões em valor de mercado

Fabricante de veículos elétricos faturou US$ 8,8 bilhões no terceiro trimestre, com recorde de entregas e também incentivos para carros não poluentes
Por Agências – Reuters

Além dos resultados financeiros, a Tesla divulgou que pretende entregar 500 mil veículos até o final do ano 

A fabricante de veículos Tesla bateu recorde de faturamento neste terceiro trimestre de 2020, com receita de US$ 8,8 bilhões. Os bons números, puxados por entregas de veículos e também por venda de créditos de meio ambiente a concorrentes, levaram a empresa a ultrapassar a marca de US$ 400 bilhões em valor de mercado após o fechamento do pregão, com a valorização de suas ações na casa de 3%. A cotação, no entanto, terá de ser confirmada ao longo do pregão desta quinta-feira, 22. 

Ao todo, em 12 meses a empresa se valorizou em 570%, puxada pelo potencial dos carros elétricos e a boa execução de suas metas de produção, após passar anos envolvida em problemas em suas fábricas. No terceiro trimestre, a empresa apresentou lucro de US$ 331 milhões – o número seria quase duas vezes maior, em US$ 874 milhões, se não incluíssem prêmios pagos ao presidente executivo Elon Musk pelo bom desempenho da companhia. 

Nesta quarta-feira, 21, a empresa divulgou seus resultados financeiros para o 3º trimestre de 2020 e previu que vai entregar 500 mil veículos até o final do ano – um objetivo que fará a empresa ter de aumentar significativamente sua venda de veículos no trimestre atual. “Conquistar isso depende primariamente das vendas do Model Y e da produção da fábrica que temos em Xangai, na China”, disse a empresa, que vendeu 139,3 mil veículos no terceiro trimestre – um recorde histórico para a empresa. 

Vale dizer, porém, que a Tesla é hoje a maior fabricante de veículos do mundo, mas ainda está bem atrás de seus rivais em termos de vendas de automóveis, receita e lucro. Ao longo do ano, a empresa superou companhias como Volkswagen Toyota em valor de mercado. Neste trimestre, a empresa se beneficiou de incentivos regulatórios para carros que não poluem o meio ambiente, faturando US$ 397 milhões com essa área. Senão fosse esse setor, a empresa não teria tido lucro. A previsão, porém, é que essa receita vai sumir em breve conforme mais companhias vendam modelos elétricos próprios. 

O que as cotas para negros nas universidades podem ensinar ao Nubank

Por Alexandre Rodrigues

Cristina Junqueira, uma das fundadoras do Nubank: pedido de desculpas após repercussão de declaração sobre dificuldades para contratar executivos negros Crédito: Divulgação

Uma das fundadoras do Nubank, Cristina Junqueira publicou nas redes sociais um pedido de desculpas por ter dito no programa Roda Viva, da TV Cultura, que tem dificuldades de contratar executivos negros por falta dos requisitos técnicos que julga necessários.

Questionada se a alta exigência não é a barreira que a separa de talentos negros, respondeu que a empresa “não pode nivelar por baixo”. No vídeo de desculpas, agradeceu a “todo o feedback” que recebeu após a repercussão negativa “porque todo mundo tem o que aprender”. E, desarmada de seu rigor, admitiu: “falar de diversidade racial, gente, não é fácil”.

De fato, não é fácil atuar num mercado altamente competitivo como o financeiro. E é preciso aprender muita coisa para fazer a diferença numa empresa movida a inovação. Mas para alguém encarar esse desafio, é preciso oportunidade.

Um dos principais argumentos contra as cotas raciais adotadas em universidades públicas a partir de 2012 era o de que colocariam em risco a excelência acadêmica “nivelando por baixo”. Em 2018, pretos e pardos passaram a ser mais que 50% dos alunos. Segundo dados do Enade 2019 divulgados na terça-feira, somente 6,3% dos cursos de graduação avaliados tiveram nota máxima, mas 80% deles estão nas instituições públicas.

Os universitários negros não ameaçaram a qualidade da universidade pública. Ao contrário, são hoje parte do diferencial. No entanto, ainda não chegaram às salas de reuniões de empresas como o Nubank.

Essa dissonância faz do mercado de trabalho o novo campo de batalha das ações afirmativas. Em vez da busca incessante por profissionais perfeitos, um atributo muitas vezes contaminado pelo viés racial, empresas interessadas em cabeças diferentes precisam aprender com as universidades sobre a importância do acesso.

Ações afirmativas no ensino superior ou nas empresas são instrumentos de aceleração da diversidade, mas que não prescindem de melhorias na educação dos negros. Enquanto isso não vem, compensar uma ou outra deficiência dentro da empresa não dá prejuízo. Segundo evidências no próprio mundo corporativo, pelo contrário.

Maya Capital, de Lara Lemann, levanta US$ 15 milhões para estender fundo

Com novos recursos, fundo criado por Monica Saggioro e filha de Jorge Paulo Lemann terá US$ 41 milhões para investir em startups que resolvem ‘problemas grandes na América Latina’
Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Monica Saggioro e Lara Lemann, sócias do fundo de investimentos Maya Capital
Monica Saggioro e Lara Lemann, sócias do fundo de investimentos Maya Capital

O fundo de startups brasileiro Maya Capital anuncia nesta terça-feira, 20, que fez uma captação adicional de US$ 15 milhões para seu primeiro veículo de investimentos. Fundado por Monica Saggioro e Lara Lemann, filha do bilionário Jorge Paulo Lemann, no final de 2018, o grupo agora tem US$ 41 milhões para investir em empresas da América Latina, ainda em estágio inicial, fazendo cheques entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões. 

“Estamos buscando empresas que podem resolver os grandes problemas da América Latina, como saúde, educação, imóveis, alimentação”, explica Monica Saggioro, que passou por empresas como Whirlpool e Burger King antes de criar o fundo. “Para nós, não faz sentido mais olhar só para Brasil ou um país específico, porque os negócios estão cada vez mais se internacionalizando, então olhamos para a região como um todo.” 

Em entrevista ao Estadão, as duas sócias da Maya explicam que decidiram aumentar o fundo porque perceberam que havia oportunidade de aceleração nos negócios, causada pela digitalização subsequente ao período de isolamento social. “Existe um histórico de que fundos que investem durante e logo após crises conseguem ter ótimo retorno para os investidores. E vimos muitas oportunidades boas, com times de alta qualidade, então decidimos acelerar”, explica Lara Lemann, que já investia como anjo antes de criar o fundo ao lado de Monica. 

Desde sua criação, a Maya já fez cheques para 25 companhias diferentes, incluindo alguns nomes já conhecidos do mercado. Entre eles, estão a chilena NotCo, que fabrica alimentos como maionese, hambúrguer e sorvete com produtos de origem 100% animal, a Kovi, que aluga carros para motoristas de aplicativo, e a startup de recrutamento Gupy, usada por empresas como a Vivo. Com os novos recursos, a Maya pretende chegar a 35 startups no portfólio. 

Relacionamento

Segundo Monica, a meta da empresa é investir em startups e manter com elas um relacionamento de longo prazo. “A relação que fazemos com startups costuma ser maior do que a média dos casamentos por aí”, diz ela, que afirma que um dos trunfos do fundo é ajudar as empresas a fazerem contatos com uma longa rede de conexões. Um exemplo foi a parceria entre a NotCo e o Burger King na América Latina – nos países vizinhos, o lanche vegetariano da rede de fast food, o Rebel Whopper, usa o hambúrguer da chilena. 

É evidente que, ao menos à primeira vista, o sobrenome de Lara salta aos olhos de muita gente. Ela vê a questão como algo tranquilo e positivo. “A Maya é mais do que só o fundo da filha de alguém, mas eu não poderia reclamar dessa condição, das coisas que eu tenho que são graças à minha família. Acredito que, mais do que o sobrenome, nós temos capacidade de  agregar muito valor às nossas investidas”, diz ela. O fundo conta ainda com uma rede de conselheiros do mercado, incluindo nomes que já fizeram unicórnios no Brasil – caso de André Street (Stone) e Victor Lazarte (Wildlife). 

Digitalização

Apesar do cenário de crise econômica já desenhado para os próximos períodos, as duas sócias da Maya não temem o que vem por aí. “A gente é otimista porque tem que ser e porque acreditamos que as startups chegam para resolver problemas da economia real”, diz Lara. “É claro que o País precisa ter uma estrutura mínima para elas poderem funcionar, mas elas conseguem trazer soluções alternativas em tempos de crise.” 

Além disso, elas acreditam que o mercado latinoamericano e, principalmente, o brasileiro têm como responder rápido aos avanços propostos pelas empresas em que investirem, sem medo que uma digitalização acelerada em diferentes setores acabe por sufocar as pessoas. “A tendência que temos visto é que os latinos aderem às tecnologias e isso traz oportunidades de forma muito ampla”, diz Monica. “As startups usam a tecnologia não só para serem eficientes ou econômicas, mas para resolverem os problemas de forma muito melhor, não só numa perspectiva de custo.”

Diversidade é caminho sem volta e torna as empresas melhores, diz fundador da XP

Guilherme Benchimol diz que a meta da empresa é chegar a 2025 com 50% das mulheres na equipe

Guilherme Benchimol, um dos fundadores da XP Investimentos, na sede da corretora em São Paulo
Guilherme Benchimol, um dos fundadores da XP Investimentos, na sede da corretora em São Paulo Joel Silva/Folhapress

Desde julho, quando divulgou a meta de chegar a 2025 com as mulheres ocupando 50% da equipe, em todos os níveis hierárquicos, a XP afirma que elas já representam 40% das novas contratações. Em setembro, o recrutamento feminino triplicou em relação à média do primeiro semestre, segundo a empresa.

Para Guilherme Benchimol, presidente da XP, o aumento da participação das mulheres na companhia é um caminho sem volta.

“Essa é a grande pauta que os empresários precisam entender. A despeito da inclusão, de termos de ajudar a construir, a defender as minorias e fazer a sociedade mais justa, diversidade deixa a empresa melhor”, afirma ele.

Atualmente, dentre as 13 cadeiras no conselho de administração da empresa, apenas uma é ocupada por mulher. Benchimol acredita que a meta de equilibrar em 50% pode ser alcançada antes de 2025. “Só de botarmos a boca no trombone, já faz com que muita coisa aconteça”, diz.

Como nasceu a ideia de aumentar a presença feminina na empresa? A XP sempre foi meritocrática. O ponto de partida foi perceber que realmente a diversidade deixava a empresa melhor. Mais de 50% da população é mulher. Times diversos entregam mais resultado no final. E diversidade não é só homem e mulher.

Essa foi a ficha que caiu para nós. A gente começou a medir internamente as equipes e percebeu que aquelas que entregaram mais resultados tinham mais diversidade.

Não tem como negar que o mercado financeiro é um ambiente mais masculino e pouco inclusivo.

Então, se a gente quisesse montar uma empresa cada vez melhor para o nosso cliente, diversidade era um tema que teria que estar na pauta. Não apenas pela inclusão, mas também ficou evidente que a empresa ia ser melhor.

Essa é a grande pauta que os empresários precisam entender. A despeito da inclusão, de termos de ajudar a construir, a defender as minorias e fazer a sociedade mais justa, diversidade deixa a empresa melhor.

O que aconteceu desde o início do programa em julho? O compromisso é chegar a 2025 com 50% de mulheres na empresa em todos os cargos. Hoje temos 24%. Já temos em diretoria e conselho. De julho para cá temos contratado muito mais mulheres do que antes. Chegou a 40% das novas contratações. Temos que crescer mais, senão, não chega na meta de 2025. A cada mês vamos aumentando a barra.

Tem uma série de iniciativas para tentar descaracterizar que o mercado financeiro é só para homens porque tem uma questão cultural. Quanto mais a gente mostra isso, a gente percebe como é grande a quantidade de mulheres que adorariam entrar no mercado financeiro mas não tinham oportunidade.

No conselho de administração da XP tem só um nome feminino. Não é curto o prazo para ter 50% em 2025? Só tem uma mulher por enquanto. Não é tão curto o prazo. Se abrir espaço, chega até antes. Só de botarmos a boca no trombone, no bom sentido, já faz com que muita coisa aconteça. Temos de acompanhar de perto.

Tem pessoas que acabam tendo um pouco mais de preconceito e não entendem a questão da meritocracia. Trabalhar com diversidade é deixar a empresa melhor. Foi essa a pegada que a gente tem tentado conscientizar todos os nossos líderes, além de deixar a sociedade mais equilibrada.

O programa da XP tem um treinamento para eliminar viés inconsciente na liderança e na equipe. Como está sendo a sua experiência pessoal com isso? Em algumas poucas áreas, as pessoas que são cabeça um pouco mais fechada, que é a minoria absoluta na empresa, ficam com a sensação de que isso é mimimi, que a gente não é mais meritocrático, que a empresa agora quer fazer inclusão e não se preocupar em ser a melhor empresa possível.

Depois que você explica, com dados e fatos, que a gente quer ser ainda melhor, e que uma área diversa entrega mais no final, você descaracteriza aquele viés. E a gente tem conseguido uma aceitação muito grande na empresa.

Eu diria que praticamente todos os líderes hoje já entenderam que é um caminho sem volta e que é a melhor forma de tornar a nossa empresa cada vez melhor.

Também foi criado um coletivo feminino em julho na XP. Elas encaminham essas discussões diretamente a você? Como eu tenho sido o capitão dessa transformação dentro da empresa, fica mais fácil. Quando o principal líder da empresa encampa a causa e entende a importância disso, as outras pessoas acabam aderindo naturalmente.

Todas as mulheres da empresa se sentem empoderadas e com mais espaço, e se sentem capazes de competir com os homens com as mesmas condições. Isso é bom.

Na verdade, o que faltava era essa autoestima e, quando você começa a se comprometer com isso, você valoriza as mulheres que já estão na casa e aquelas que querem entrar no mercado.

Para além da diversidade de gênero, teve o exemplo recente da Magazine Luiza, que fez o programa de trainees para profissionais negros. Como a XP está trabalhando isso? Quando se fala em diversidade, a gente fala em tudo. A meta de cada líder de equipe é conseguir trazer pessoas que possam ter a amostragem da população brasileira. No final, é isso que vai fazer com que a gente consiga atender o cidadão brasileiro.

Economista Mercedes D’Alessandro explica como é o primeiro orçamento com perspectiva de gênero na História da Argentina

Em entrevista a CELINA, Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero no Ministério da Economia argentino, explica que o Orçamento 2021 foi construído para atacar as desigualdades entre homens e mulheres que ainda persistem no país
Leda Antunes

A economista Mercedes D’Alessandro é autora de um livro sobre economia feminista (ainda inédito no Brasil) e, neste ano, assumiu o cargo de diretora nacional de Economia, Igualdade e Gênero do Ministério da Economia argentino Foto: Reprodução/Twitter

Pela primeira vez na história, o governo da Argentina enviou ao Congresso um orçamento com perspectiva de gênero. A ideia é que as ações do Estado contidas no orçamento de 2021 efetivamente contribuam para reduzir as disparidades de gênero na Argentina e possam assegurar direitos às mulheres. O projeto traz uma relação de 55 medidas especificamente identificadas, com recursos que correspondem a 15% do Orçamento total e a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Por trás da iniciativa está a economista Mercedes D’Alessandro, 42 anos, que atualmente comanda a Direção Nacional de Economia e Igualdade de Gênero do Ministério da Economia argentino.

D’Alessandro é uma das maiores referências no país quando o assunto é a economia feminista, uma vertente de pensamento que se dedica a repensar os principais conceitos da economia tradicional a partir de uma perspectiva que considera o valor do trabalho doméstico e de cuidado, feito majoritariamente por mulheres, para o funcionamento do sistema econômico.

Criada na província de Missiones, D’Alessandro concluiu o doutorado em Economia na Universidade de Buenos Aires e foi professora universitária por mais de 15 anos. Mudou-se para os Estados Unidos e, em 2015, na esteira do movimento “Ni Una Menos”, que discute violência de gênero e reivindica os direitos das mulheres na Argentina, criou o blog “Economia Feminista” para debater a igualdade de gênero sob uma perspectiva econômica. O sucesso foi tamanho que o blog se transformou em uma ONG especializada no assunto e virou livro: “Economía feminista. Cómo construir una sociedad igualitaria (sin perder el glamour)”, lançado em 2016 e ainda sem edição no Brasil.

Quando o economista Martín Guzmán assumiu o ministério da Economia do governo de Alberto Fernandez, eleito no ano passado, chamou D’Alessandro para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero, que hoje conta com seis pessoas na equipe subordinadas apenas ao ministro e ao vice-ministro, mas deve chegar ao fim do ano com 14.

Em entrevista a CELINA por Skype, ela falou sobre a construção do orçamento 2021, explicou quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina e os principais desafios para reduzir as disparidades entre homens e mulheres em um contexto de pandemia e crise econômica.

CELINA: Como surgiu o convite para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero?

MERCEDES D’ALESSANDRO: Conheci Martín Guzmán, nosso atual ministro da Economia, quando estava nos EUA. Nos encontrávamos habitualmente para conversar sobre temas econômicos de interesse mútuo. E aí, quando lhe ofereceram o cargo de ministro, ele me convocou dizendo que queria criar no ministério um espaço institucional de economia com perspectiva de gênero.

Então voltei para Argentina para criar esse espaço, que não existia antes. Em termos de estrutura, acima de nós estão o ministro e o vice-ministro. A diretoria se desenhou dessa forma para que a nossa área tenha capacidade de incidir de maneira transversal em todas as demais áreas que formam o Ministério de Economia, como políticas macroeconômicas, políticas tributárias, finanças e energia.PUBLICIDADE

A missão da diretoria é trabalhar a economia e a igualdade de gênero. Isso é importante porque temos brechas de desigualdade gigantes, temos muita riqueza concentrada em poucas mãos e muita pobreza repartida. E isso, sob a perspectiva de gênero, se amplifica. A pobreza está feminizada e a riqueza está nas mãos dos homens. É um debate sobre desigualdade e sobre a necessidade da perspectiva de gênero para a transformação dessa estrutura de desigualdade.

Qual foi a sua função na elaboração do orçamento e o que significa ter um orçamento com perspectiva de gênero?

Um orçamento que se apresenta ao Congresso é como um plano de governo. Se esse governo entende que as mulheres têm maiores níveis de desemprego, de precarização e de pobreza, o plano que faz para o ano seguinte tem que responder a isso. O que fizemos foi sentar com a Fazenda, que é onde o orçamento é feito, e começar a procurar as políticas que têm como efeito diminuir as desigualdades. Identificamos que as despesas atribuídas para reduzir as disparidades de gênero correspondem a 15% do orçamento nacional que se apresenta para 2021. E isso equivale a 3,4% do PIB.

Além disso, elaboramos, junto com a Fazenda, uma mensagem ao Congresso para falar das condições de vida das mulheres e mostrar onde estão esses problemas e quais são as soluções. No processo, também falamos com cada um dos ministérios para saber quais políticas pensavam executar em 2021 para combater a desigualdade de gênero. Chamamos todas as pessoas responsáveis das áreas que entram no orçamento para pensar o que já estavam fazendo e onde, ou se não estavam fazendo e o porquê.

Também criamos ferramentas para medir os impactos dessas políticas, se o que foi atribuído foi executado, se cumpriu seu objetivo, se faltam recursos ou não, se a mesma política será mantida no ano seguinte. Isso também servirá para o público e para sociedade civil como uma ferramenta de transparência, para que se possa ver  o que o governo está fazendo de fato.

Mercedes D'Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino
Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino

É a primeira vez que isso é feito na Argentina? Na América Latina houve algo parecido?

Não conheço como funciona em cada lugar, mas, na Argentina, sim, é a primeira vez. Quando se fala no programa de governo para o próximo ano, ele tem cinco pilares e um deles é a perspectiva de gênero e diversidade. Também é a primeira vez na História que um programa de governo propõe isso como um dos seus pilares.O discurso de gênero esteve presente em muitos governos, mas não nos decretos, nas leis e tampouco no orçamento. Uma coisa é falar de algo, outra é propor leis e a atribuir recursos para executá-las. Isso é único na Argentina.

Pode exemplificar algumas políticas que vão receber esses recursos e que desigualdades de gênero elas vão atacar?

A aposentadoria da dona de casa, como chamamos aqui, é uma das maiores despesas orçamentárias. Ela reconhece que o trabalho doméstico não remunerado é uma contribuição para a sociedade que precisa ser retribuída de alguma maneira pelo Estado. Essa política não é nova, mas agora podemos reconhecê-la e mostrá-la por essa perspectiva. É uma política que esteve em risco no governo anterior, que queria eliminá-la, mas a mobilização de muitas pessoas que estão perto de se aposentar o impediu.PUBLICIDADE

Outro exemplo é a criação do Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade. É a primeira vez que temos um ministério inteiro com essa função. Antes existia um instituto, com uma estrutura menor, mas agora o ministério tem um orçamento 13 vezes maior.

Uma das maiores propostas desse ministério para o próximo ano é uma política que se chama “Acompanhar.” Na Argentina, e em muitos países da América Latina, a mulher agredida por seu companheiro ou outra pessoa da família muitas vezes não tem condições financeiras para sair de casa. Esse programa, que é o maior do Ministério das Mulheres, concede o equivalente a um salário mínimo durante seis meses, além de acompanhamento psicológico e social, para que essas mulheres possam encontrar outro lugar para viver com segurança. É uma política nova, que vai começar a ser executada já no fim desse ano.

Todos os ministérios têm políticas com perspectiva de gênero?

A metade dos ministérios tem alguma despesa, e alguns têm políticas que não foram identificadas. Como é algo novo, alguns não puderam identificar ou fazer esse filtro a tempo, ou têm iniciativas menores, que não foram declaradas. No ano que vem, vamos registrar muito mais políticas, porque é um processo que vai se internalizando. E funciona graciosamente como um chamado, uma declaração de competência. Todos querem mostrar que fazem algo com a perspectiva de gênero e começam a pensar sobre isso.PUBLICIDADEhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Esse orçamento pode reduzir ou proteger as mulheres da violência de alguma forma?

Sim. O orçamento não reflete só as políticas econômicas ou de redução de desigualdades, mas também que protegem as mulheres da violência e que permitem que elas acessem serviços básicos de saúde. Por exemplo, uma despesa no orçamento que possibilita que haja maior atenção para a detecção precoce do câncer de mama, contraceptivos gratuitos nos hospitais e educação sexual e integral em todas as escolas públicas.

Outra novidade é que, além da Argentina já ter a Lei de Identidade de Gênero e o casamento igualitário garantido em lei, foi criada uma cota para profissionais travestis e transexuais no serviço público. Isso significa que 1% do emprego no Estado tem que estar reservado para pessoas transgênero. Pessoas travestis e trans, em geral, trabalham na prostituição, não têm acesso à educação e têm dificuldade para acessar o mercado laboral. Essa política está orientada para melhorar esse acesso.

Em 2021, a Argentina também realizará o censo, que é feito de dez em dez anos, e, pela primeira vez, será incluída uma pergunta sobre qual é a identidade de gênero autopercebida. Esse registro estatístico vai nos permitir identificar a situação das pessoas travestis e trans no país. Isso não está incluindo no orçamento, mas da mesma forma tem perspectiva de gênero.

Quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina? E o que é mais difícil de atacar?

O mais difícil é a distribuição das tarefas de cuidado: 76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres, que trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades. Acho que é igual em toda a América Latina. As mulheres estão associadas a cuidar dos filhos, cozinhar, lavar a roupa, cuidar da casa. Quando dizemos que há uma assimetria na divisão dessas tarefas, os homens sempre dizem “na minha casa eu cozinho” ou “mas eu tiro o lixo”. Sempre querem mostrar que fazem algo e não entendem o que isso significa para as mulheres.

Fizemos um estudo desde a eleição para colocar um preço nas atividades de cuidado. Elas representam 16% do PIB da Argentina. Se considerarmos que o trabalho feito pelas mulheres no interior dos seus lares é um setor produtivo da nossa economia, ele seria o setor com o maior peso, antes mesmo da indústria e do comércio. 

'76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades', diz a economista argentina Mercedes D'Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino
‘76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades’, diz a economista argentina Mercedes D’Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino

Analisamos os impactos da pandemia, com as escolas fechadas e os filhos em casa o tempo todo. Com isso, o setor do cuidado passou de 16% para 22% do PIB. Quer dizer que esse é o setor que mais cresce, enquanto todos os outros caem. Assim como aumentam os trabalhos essenciais, que não puderam deixar de ser realizados na pandemia, e que em grande parte são feitos por mulheres: professoras, enfermeiras e cozinheiras nos comedores populares.PUBLICIDADE

Eu sempre questiono meus colegas sobre como vamos retomar a economia se as crianças não podem ir à escola. Se isso acontecer, quem vai acabar deixando de trabalhar para ficar em casa vai ser a mulher. Isso é um problema, que está acontecendo agora no Brasil, no México, na Argentina e no Chile. Os empregos mais rapidamente retomados são os dos homens, e as mulheres estão ficando fora do mercado de trabalho. Esse é o maior desafio que temos: convencer nossos colegas que trabalham na produção, no transporte, na energia, todos setores muito masculinizados, que é preciso tomar medidas e pensar soluções. É muito difícil. Vejo as perguntas, mas não as soluções.

Sentiu alguma resistência para implementar a perspectiva de gênero no orçamento? O será mais desafiador quando ele for votado no Congresso?

O governo atual é aberto à perspectiva de gênero. Mas o maior problema que encontro é que, nessa crise que vivemos, tendemos a usar os instrumentos conhecidos. E esses instrumentos não têm perspectiva de gênero. Transformá-los leva tempo, e penso que os debates não serão suficientes. O orçamento é uma ferramenta gigantesca e que serve para fazer esse debate profundo, que se reflete em dinheiro. Porque é preciso de dinheiro para fazer as coisas.

No Congresso, hoje, não creio que as despesas de gênero serão motivo de discussão, mas, sim, a crise geral da Argentina. O orçamento prevê que o PIB vai cair 12 pontos em 2020. Em todo caso, o que está no foco da discussão é o que será feito no próximo ano para recuperar a economia. O maior desafio é compreender que essas políticas de gênero são políticas para a recuperação. Sem elas, não teremos como recuperar.