‘Podemos ter a próxima Apple ou Amazon’, diz diretora Camilla Junqueira da Endeavor Brasil

Chefe de rede que reúne grandes nomes do empreendedorismo há duas décadas no País fala sobre mudanças no ecossistema nacional
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Camilla Junqueira, diretora-geral da Endeavor Brasil
Camilla Junqueira, diretora-geral da Endeavor Brasil

De origem americana, a Endeavor é uma organização global sem fins lucrativos, presente em mais de 30 países, com o objetivo de acelerar o crescimento da economia por meio de empreendedores. Quando ela chegou ao Brasil em 2000, ainda falava-se pouco sobre empreendedorismo e startups. Era um cenário bem diferente daquele de duas décadas depois: de acordo com a ABStartups, o Brasil já conta hoje com mais de 13 mil startups – destas, 14 já valem mais de US$ 1 bilhão e são unicórnios.

Aqui no Brasil, a entidade tem uma equipe de cerca de 90 pessoas para promover iniciativas empreendedoras. E mais importante: o trabalho é realizado com a ajuda de grandes empreendedores brasileiros, como Paulo Veras, fundador do app de transporte 99, e de executivos de grandes corporações como Frederico Trajano, do Magazine Luiza. Hoje, a rede da Endeavor no Brasil reúne 121 empreendedores e, entre eles, estão executivos de unicórnios como LoftEbanxCreditas e Vtex.

No ano passado, as empresas da rede tiveram faturamento de R$ 8 bilhões. E o plano é acelerar o crescimento. Ao Estadão, Camilla Junqueira, diretora da Endeavor Brasil, relembra a transformação da ONG nos últimos 20 anos e fala sobre a estratégia da organização para manter o laço estreito com o empreendedor, oferecendo acesso a capital e conselhos necessários. “A Endeavor é como se fosse um sócio que não tem equity, tiramos um pouco a solidão do empreendedor”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Como vocês conseguiram reunir uma rede de empreendedores tão forte no Brasil?

Normalmente, são os grandes empresários de cada país que decidem levar o modelo da Endeavor para suas regiões. E eles patrocinam esse começo: a primeira fonte de receita de qualquer operação da Endeavor são os conselheiros. No caso do Brasil, algumas dessas pessoas foram Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Pedro Passos. Com eles, foi mais fácil convencer que o projeto fazia sentido. A partir daí, a rede cresceu naturalmente. Também há muita troca entre outros países, o que incentiva a entrada de empreendedores e faz com que eles queiram estar perto desse movimento. Um processo importante ao longo dos últimos anos também foi atrair empreendedores que são referências na área de tecnologia – se não tivéssemos feito isso, teríamos ficado ultrapassados.

Qual a diferença da Endeavor em relação a outros agentes do ecossistema de inovação, como investidores e aceleradoras?

Cada organização do ecossistema tem um papel importante. Acho que uma coisa que a Endeavor tem de muito única é o fato de estar sempre ao lado do empreendedor, de uma forma mais “neutra”. Há outra relação com o investidor, porque foi colocado dinheiro no negócio. A Endeavor é como se fosse um sócio que não tem equity. Tiramos um pouco essa solidão do empreendedor.

Nas últimas duas décadas, as startups brasileiras ganharam força. Como a Endeavor acompanhou isso?

Quando começamos nos EUA, já existia a referência da ‘máfia do PayPal’. No Brasil, algo do tipo era quase inexistente. Por aqui, antes de falar de tecnologia e inovação, tínhamos de falar sobre empreendedorismo. Nos últimos sete anos, porém, surgiram empreendedores de tecnologia. A Endeavor ajudou a construir uma nova geração de exemplos. Tivemos de valorizar a velocidade de crescimento para virar um unicórnio, por exemplo. Foi uma coisa que mudou a característica da rede da Endeavor. Mas foi uma mudança que partiu do ecossistema. 

Vocês têm focado em ajudar startups a ganharem escala e a se internacionalizarem. Por que este é o momento para isso?

A Endeavor sempre teve a responsabilidade de ajudar os empreendedores a pensar globalmente. No começo, era natural que as empresas brasileiras fossem mais fechadas, considerando o tamanho do mercado nacional e as características dos negócios. Os próprios mentores falavam que era importante crescer por aqui primeiro. Porém, houve uma transformação do ecossistema. Os empreendedores hoje começam criando soluções inovadoras que têm a capacidade de competir globalmente. Podemos ter grandes companhias de um tamanho de Apple e Amazon – mas, para isso, precisamos ter empreendedores se ajudando cada vez mais.

Muitos negócios sofreram na pandemia. Como a Endeavor conseguiu ajudar?

A primeira coisa que fizemos foi apoiar as empresas da nossa rede. Fizemos mentorias coletivas e individuais. Cada empreendedor teve um desafio diferente: um estava em um setor muito prejudicado, mas tinha dinheiro no caixa, enquanto outro estava em um setor beneficiado pela pandemia, mas não tinha caixa. Entendemos também que tínhamos uma responsabilidade com o ecossistema como um todo. Temos uma rede com muito conteúdo e disponibilizamos digitalmente para qualquer empreendedor os principais materiais de referência de como eles poderiam lidar com a crise – desde como negociar com o banco, até como entrar em trabalho remoto com todos os funcionários. Foram quase 300 mil acessos. 

Quais são os principais planos da Endeavor para 2021?

Neste ano, temos como foco melhorar o acesso a capital e estimular o trabalho de inovação aberta com grandes corporações e startups. Outro plano é em diversidade. Estamos estimulando as empresas do nosso portfólio a olharem para esse tema. Se queremos construir um ecossistema diverso em dez anos, precisamos começar hoje. A Endeavor nasceu dos maiores empresários do Brasil, que são homens brancos. É natural que ela tenha se formado assim, mas isso não quer dizer que a gente não possa olhar para isso com mais atenção para tentar reverter o quadro. 

O novo ‘boom’ da Samsung: o que está por trás da alta recorde da empresa

A maior companhia da Coreia do Sul registrou um aumento da renda operacional para US$ 8,3 bilhões
E-INVESTIDOR
einvestidor@estadao.com

(Sohee Kim, Bloomberg) – As ações da Samsung Electronics Co. subiram 7,1% para uma alta recorde em Seul, na sexta-feira (8), entre sinais de uma recuperação do mercado de chips de memória e diante da possibilidade de deixar de depender do aumento dos lucros.

A maior companhia da Coreia do Sul registrou um aumento da renda operacional para 9 trilhões de won (US$ 8,3 bilhões) para o trimestre encerrado em dezembro, segundo resultados preliminares. A média das previsões dos analistas, em comparação, havia sido de 9,52 trilhões de won. As vendas no trimestre chegaram a 61 trilhões de won. A companhia não forneceu a receita líquida e nem especificou o desempenho de cada setor, que apresentará mais tarde, ainda este mês, quando divulgar os resultados definitivos.

Horas antes, a empresa Micron Technology, fabricante de chips de memória, divulgara uma previsão otimista, prevendo que a necessidade de memória de acesso randômico dinâmica provavelmente superará a oferta neste trimestre.

A redução da oferta em DRAM já provoca um aumento dos preços, segundo o diretor executivo Sanjay Mehrotra. A sua companhia e a Samsung são duas das maiores em um mercado que começa a se recuperar e deverá expandir-se graças ao aumento da utilização no setor automotivo, e a aplicações mais avançadas de recursos intensivos como a inteligência artificial.

“Acreditamos que a recuperação dos preços da memória se dará não apenas no caso da DRAM, mas também da NAND” este ano, escreveram analistas da Citi em resposta aos resultados da Samsung, referindo-se ao limitado crescimento da oferta, aos estoques baixos e à capacidade limitada.

As vendas de smartphones Galaxy foram mais fracas no trimestre passado quando a Apple lançou seus primeiros iPhones compatíveis a 5G e os rivais chineses lançaram campanhas agressivas para garantir a parcela de mercado deixada pela Huawei Technology, afetada por sanções. A Samsung enviou 41 milhões de dispositivos 5G no ano passado, segundo estimativas da Strategy Analitics, atrás dos 52 milhões da Apple e dos 80 milhões da Huawei vendidos em grande parte na China, o seu país de origem.

A companhia sediada em Suwon planeja apresentar a sua próxima série do Galaxy S 21, o seu carro chefe, antes de sua costumeira data anual com um evento on-line no dia 14 de janeiro. Concorrentes como a Xiaomi Corp., Oppo e Vivo estão se posicionando agressivamente para preencher o vazio que deverá ser deixado pela Huawei nos mercados internacionais.

Os preços dos chips de memória caíram no quarto trimestre devido a uma redução da demanda de servidores, enquanto a valorização do won coreano no mesmo período também contribuiu para baixar os ganhos da Samsung.

“A OP da Samsung foi afetada pela questão da moeda e pelos custos de uma nova fábrica”, informou M.S. Hwang, analista da Samsung Securities. “Os fortes ganhos e a perspectiva da Micron indicam que os ganhos da Samsung talvez não tenham sido tão ruifns. O mercado de chips caminha para a recuperação.”

(Tradução de Anna Capovilla)

Depois dos tumultos, líderes empresariais encaram acerto de contas por apoio a Trump

Grandes empresas dos Estados Unidos aceitaram acordo faustiano com presidente
David Gelles

Apple CEO Tim Cook with President Donald Trump – SAUL LOEB/AFP via Getty Images

THE NEW YORK TIMESQuando ele dizia algo incendiário ou flertava com o autoritarismo, os presidentes-executivos mais ponderados divulgavam declarações vagas mas moralistas e tentavam se distanciar de um presidente que favorece os negócios, e cobiçava a aprovação deles.

Mas quando Trump cortava impostos, revogava regulamentações onerosas ou os usava como adereços para sessões de fotografia, eles aplaudiam a liderança dele e sorriam para as câmeras.

Depois dos acontecimentos da quarta-feira (6) no Congresso dos Estados Unidos, o custo real desse número de equilibrismo ficou claramente exposto, apesar de o gás lacrimogêneo continuar turvando o panorama.

Os executivos que sempre deram apoio a Trump terminaram posicionados como parte daqueles que facilitaram as ações do presidente, conferindo-lhe um carimbo de credibilidade convencional e ajudando a normalizar um presidente que fez com que o país se dividisse em alas inimigas.

“É isso que acontece quando subordinamos nossos princípios morais ao que entendemos como interesses de negócios”, disse Darren Walker, presidente da Fundação Ford e membro dos conselhos dos grupos Square e Ralph Lauren. “E fazê-lo termina por ser prejudicial para os negócios e para a sociedade”.

Desde o começo da presidência de Trump, o mundo dos negócios americanos vacila entre apoiar a agenda econômica do presidente e condenar seus piores impulsos.

Logo no início do mandato de Trump, dezenas de líderes empresariais se integraram a dois conselhos consultivos criados pelo presidente. Ávidos por um lugar à mesa e por influenciar políticas na direção que preferiam, presidentes-executivos de diversas empresas deixaram de lado suas reservas quanto às falhas de caráter de Trump, seu histórico de comportamento racista, as acusações de agressão sexual que pendiam contra ele, e suas declarações de impunidade legal.

“Ele é o presidente dos Estados Unidos. Acredito nele como piloto de nosso avião”, disse Jamie Dimon, presidente-executivo do JPMorgan, na época. “Eu tentaria ajudar qualquer presidente dos Estados Unidos, porque sou patriota”.

O esforço não durou muito tempo. Meses depois que os conselhos foram formados, eles terminaram dissolvidos, depois de Trump insistir em que havia “pessoas muito boas dos dois lados”, durante uma onda de violência praticada por nacionalistas brancos em Charlottesville, Virgínia.

Depois do acontecido, líderes empresariais tentaram explicar de que maneira terminaram enredados naquela confusão.

“Aderi porque o presidente me convidou, e achei que fosse a coisa certa a fazer como presidente-executivo de uma companhia como a Merck”, disse Ken Frazier, um dos executivos negros mais proeminentes dos Estados Unidos, pouco depois de deixar o conselho. “Mas terminei por considerar que, por uma questão de consciência pessoal, não podia continuar a fazer parte”.

Mas o dinheiro tem memória curta, e não demorou muito tempo, depois de Charlottesville, para que Trump voltasse às boas graças no mundo corporativo americano. Poucos meses depois do acontecido, o governo Trump aprovou uma reforma tributária que beneficiava as empresas e os indivíduos de alto patrimônio.

Ao baixar os impostos das empresas, Trump propiciou à comunidade empresarial um de seus objetivos mais desejados, e líderes empresariais fizeram fila para elogiar a medida.

Em visita à Casa Branca em outubro de 2017, Tom Donohue, presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, expressou enorme satisfação diante da perspectiva de cortes de impostos. “A comunidade empresarial vem esperando há muito tempo por um governo, um presidente e um Congresso dispostos a fazer aquilo que não fixemos nas últimas décadas”, ele declarou.

Mas ao desfrutarem da riqueza adicional adquirida dessa maneira, as companhias terminaram muito mais próximas de uma Casa Branca que estava separando crianças de suas famílias na fronteira dos Estados Unidos, e se acomodando a regimes ditatoriais estrangeiros.

“O corte de impostos de Trump foi ouro dos tolos”, disse Howard Schultz, antigo presidente-executivo da Starbucks, na quinta-feira. “As pessoas se deixaram seduzir e infelizmente decidiram, em seu benefício e em benefício de suas empresas, que essa era a coisa certa a fazer”.

Em 2019, era como se Charlottesville jamais tivesse acontecido, e um novo conselho consultivo de empresários foi formado, este envolvendo figuras como Tim Cook, presidente-executivo da Apple, Doug McMillon, presidente-executivo do Walmart, e Julie Sweet, presidente-executiva da Accenture.

Na primeira reunião, Cook se sentou ao lado de Trump. Quando o presidente tocou levemente o pulso de Cook e pediu que ele abrisse o debate, o chefe da Apple disse: “Obrigado, senhor presidente, é uma honra fazer parte desse conselho”.

Na mesma reunião, Al Kelly, presidente-executivo da Visa, cumprimentou Trump por sua liderança “muito, muito boa”, e Ginny Rometty, então presidente-executiva da IBM, também cobriu o presidente de elogios por sua “liderança determinada”.

Alguns daqueles executivos haviam criticado Trump severamente, no passado, por seu comportamento. Mas lá estavam eles, na Casa Branca. Era como se os piores momentos da presidência de Trump tivessem sido só um pesadelo.

“Os últimos quatro anos ofereceram sérios desafios aos presidentes-executivos que precisam balancear a promoção de políticas que ajudem o país a progredir, e ao mesmo tempo se pronunciar vigorosamente sobre questões que violam seus princípios essenciais”, disse Rich Lesser, presidente-executivo do Boston Consulting Group, que participou de um dos primeiros conselhos consultivos de Trump.

No entanto, os executivos se viram reduzidos a praticar a mesma ginástica mental e o mesmo laconismo seletivo que os partidários socialmente progressistas de Trump tiveram de adotar nos últimos anos, elogiando as políticas econômicas do presidente em momentos oportunos, mas ao mesmo tempo ignorando suas falhas fundamentais.

Essa barganha essencial foi bem articulada no ano passado por Stephen Ross, incorporador imobiliário bilionário do projeto Hudson Yards e dono do time de futebol americano Miami Dolphins, que apoiou Trump na eleição. “Acho que ele foi um pouco divisivo”, disse Ross em uma entrevista antes do pleito. “Mas creio que muitas das políticas econômicas que implementou foram fantásticas, e ninguém mais, além dele, poderia tê-las promovido”.

A pandemia gerou novas poses para fotos ao lado do presidente, da parte de executivo conhecidos. McMillon, do Walmart, posou com Trump no Rose Garden da Casa Branca. O presidente visitou Bill Ford, presidente do conselho da Ford, em uma fábrica em Michigan. E Chris Nassetta, presidente-executivo dos hotéis Hilton, foi fotografado ao lado do presidente na sala do gabinete.

Enquanto Trump mentia sobre a a resposta de seu governo à pandemia e fazia o possível para subverter o processo democrático, houve pessoas do mundo dos negócios que mantiveram seu apoio. Mesmo quando o presidente passou a se recusar a aceitar os resultados da eleição, Steve Schwarzman, presidente-executivo do grupo Blackstone e um dos mais leais aliados de Trump, divulgou declarações nas quais afirmava compreender por que havia pessoas preocupadas com irregularidades eleitorais. No final de novembro, ele divulgou um comunicado no qual afirmava que “o resultado está muito claro, hoje, e o país deve seguir em frente”.

Na quarta-feira, muitos presidentes-executivos pareciam ter chegado ao fim de sua paciência. A Associação Nacional da Indústria apelou ao vice-presidente Mike Pence que considerasse invocar a 25ª emenda à constituição dos Estados Unidos, e remover Trump do posto. Muitos executivos – entre os quais Cook, da Apple, Dimon, do JPMorgan, e Schwarzman – denunciaram a violência, lamentaram a situação do país, e exigiram que os responsáveis prestassem contas.

Mas depois de quatro anos de muita conversa e nenhuma ação, suas declarações soavam vazias.

“Quando pessoas tomam decisões políticas por motivos de negócios”, disse Walker, “as consequências sociais podem ser desastrosas”.

​The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

Sou 1º negro na lista de uma startup unicórnio, mas não serei o único, diz cofundador Robson Privado do MadeiraMadeira

Os fundadores da MadeiraMadeira Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado
Os fundadores da MadeiraMadeira Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado – Divulgação

pandemia da Covid-19 acelerou o avanço do site de artigos para o lar MadeiraMadeira: durante 2020, as vendas da empresa cresceram mais de 100%, depois de fechar com alta de 80% no ano anterior. Esses resultados positivos foram cruciais na hora de o comando da empresa decidir entrar em uma rodada de investimentos logo no início de 2021, em vez de 2022, como estava na programação inicial. E deu certo.

Nesta quinta-feira (7), a empresa anunciou que recebeu um aporte de US$ 190 milhões (R$ 1 bilhão) e se tornou um unicórnio, jargão do setor para startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.

“É um momento da história para a companhia. A gente brincava lá atrás, acreditava que podia chegar a este momento e, ao longo dos anos, a diferença foi diminuindo. Quem acompanha nossa história sabe que não foi por acaso”, diz Robson Privado, cofundador da MadeiraMadeira.

Privado, que atualmente ocupa o cargo de diretor-executivo de operações, tornou-se o primeiro negro brasileiro a ser cofundador de um unicórnio. Ele entrou na companhia em 2012, momento em que o negócio passou por uma redefinição de rumos, depois de três anos de operação. Ele figura como sócio e cofundador desde então.

Como foi receber a notícia de que a MadeiraMadeira tinha se tornado um unicórnio?
Hoje foi um dia super importante. A gente sempre compartilha tudo com nosso time de 1.400 colaboradores. E resolvemos fazer o anúncio para todos ao mesmo tempo. Também vamos fazer uma festa virtual hoje a noite. É um dia especial.

A valorização tem a ver com o desempenho da empresa no último ano de pandemia?
Ajudou, com certeza. É uma construção. A gente tinha captado uma rodada em outubro de 2019. O momento contribuiu para antecipar a rodada. Foi uma oportunidade que a gente viu. Nossas principais iniciativas começaram há dois anos, como a expansão das lojas físicas e a linha de produtos próprios. Agora, pretendemos acelerar isso em 2021 e surgiu a necessidade de capital.

2020 foi um ano marcado por novos projetos. Abrimos um centro de distribuição em Jundiaí, no interior de São Paulo, e vamos reduzir o prazo de entrega. A partir do final de fevereiro, clientes de São Paulo vão receber no dia seguinte. Também abrimos sete das nossas nove lojas entre novembro e dezembro de 2020.

Prevêem abrir o capital da empresa?
Fazer o IPO [oferta pública inicial de ações] é provavelmente um dos próximos passos, mas ainda não temos previsão. Os investidores dessa rodada [co-liderada pelo SoftBank Latin America Fund e Dynamo] vão ajudar a gente a implementar os atributos necessários, como práticas de governança. E nós vamos nos preparar para esperar o melhor momento.

O empreendedorismo negro é, geralmente, marcado pelo pioneirismo e a solidão. É o seu caso?
Sempre tive um grande exemplo dentro de casa. A minha mãe é branca e meu pai é negro. Então, tive o exemplo de um homem negro de sucesso em Curitiba, que é uma cidade predominantemente branca. Mas sempre fui um dos únicos negros no colégio, no clube, no intercâmbio. Tive uma oportunidade muito boa de ter um exemplo dentro de casa e de ter uma boa educação. Depois, foi um pouco do que acontece com todo empreendedor. Eu nunca tive o estigma ‘sou negro, não consigo chegar’. Meus pais trabalharam isso em mim.

Infelizmente, vivenciei vários preconceitos, mas nunca deixei que isso influenciasse os meus sonhos. O sucesso profissional ainda é muito solitário para os negros e agora estou me envolvendo com iniciativas para melhorar mais o ambiente, deixar ainda mais diverso. Não só na questão racial, mas de gênero e orientação sexual.

Que tipo de iniciativas?
Ainda não posso contar. Mas estamos desenvolvendo na empresa alguns programas, fazendo estudos para colocar o que a gente acredita. E como vamos colocar a diversidade. Não queremos criar a vitimização. Eu acredito que um ambiente de diversidade de opiniões é o melhor ambiente de negócios.

Como a MadeiraMadeira lida com a diversidade em seu quadro de funcionários?
Estamos fazendo um censo. Já temos alguns números e criamos um comitê de diversidade.

Acredita que vivemos tempos de mudança nessas questões?
A sociedade como um todo está mais aberta. Para o meu pai, na década de 1980, foi mais difícil do que foi para mim. Isso está claro. O jeito de construir isso é com empatia. Quanto mais a gente falar sobre o tema, isso ajuda as pessoas a gerar mais empatia e a entender que é todo mundo igual. Ainda falta para negros e mulheres a questão das oportunidades, mas daqui 20 anos, quando meu filhos estiverem empreendendo, vai ser um ambiente totalmente diferente.

O senhor disse que já vivenciou situações de preconceito. Alguma marcou?
Nenhuma. Não gosto de ficar me vitimizando. Entendo que pessoas têm preconceito porque nunca tiveram oportunidade de conversar com um negro. Quando passo por alguma situação de preconceito tento ser mais empático para entender e tentar reverter as pessoas. É menos uma questão de ser vítima e mais de ser um ator para mostrar que é uma pessoa como qualquer outra. Sou o primeiro negro nessa lista de unicórnios. Encaro com normalidade. Sou o primeiro, mas tenho certeza que não vou ser o único. Meu papel é mostrar que é possível chegar. Não é a cor da pele que faz diferença.

Após aporte de US$ 190 mi, MadeiraMadeira é o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021

Especializada em venda online de material de construção e de móveis, startup ultrapassa a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira
Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira

quarentena forçou muita gente a ficar em casa, o que acabou impulsionando alguns novos hábitos. Reformas e investimentos no lar ganharam força – afinal, a casa virou também escritório e escola. Ao mesmo tempo, o comércio online foi impulsionado. Não é coincidência, portanto, que o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021 esteja ligado a esses dois novos hábitos. Especializada em venda online de material de construção e móveis, a startup curitibana MadeiraMadeira anuncia nesta quinta, 7, que o seu valor de mercado superou a marca de US$ 1 bilhão, após receber um aporte de US$ 190 milhões.

A rodada foi liderada pelo conglomerado japonês Softbank, que já havia investido R$ 110 milhões na empresa em 2019, e pela gestora de fundos de ações Dynamo. Participaram também Flybridge e Monashees, que já haviam feito aportes na empresa em rodadas anteriores, além de VELT Partners, Brasil Capital e Lakewood Capital. Essa foi a quinta rodada de investimentos da MadeiraMadeira, que acabou transformando a startup no 14º unicórnio brasileiro. 

“A janela de oportunidade para o investimento era positiva. Em um cenário assim, é preciso ficar atento para que outros competidores não passem na frente”, explica ao Estadão Daniel Scandian, cofundador e CEO da MadeiraMadeira. “Iniciativas que desenvolvemos, como o braço logístico, deram certo e decidimos acelerar as apostas. Investimentos que seriam feitos em três anos caíram para um”, diz. 

Fundada em 2009, a startup teve um ano bastante agitado em 2020. A companhia aumentou as vendas em 120% no ano – após queda de 50% em março, a startup teve um salto de 250% nos negócios em abril. Com isso, o time também dobrou. No começo de 2020, o quadro tinha 600 funcionários – terminou com 1.300. O objetivo da startup é chegar ao final de 2021 com 2.700 contratados. Outros números do ano passado que também orgulham o executivo são as inaugurações de dez centros de distribuição e de nove lojas físicas.   

“Esse investimento na MadeiraMadeira aconteceria independentemente da pandemia, pois a empresa já vinha apresentando bons números”, diz Paulo Passoni, sócio do Softbank na América Latina. “O mercado em que eles atuam ainda está no começo. Ele ainda é extremamente ineficiente. O relacionamento entre os fabricantes e o consumidor demora e o preço é alto. É isso que estamos tentando mudar com a MadeiraMadeira”, diz. 

Inspiração

Para o consumidor, uma das coisas que chama a atenção na startup é o fato de que ela oferece produtos, principalmente móveis, com preços baixos – uma escrivaninha pode custar a partir de R$ 110. Na plataforma, existem tanto vendas diretas como um marketplace. Scandian não entrega todo o segredo de como isso é possível, mas dá algumas pistas. 

“Trabalhamos com margens magras e economia de escala. Todos os ganhos que temos na cadeia repassamos ao consumidor. Temos metas internas para sempre reduzir os custos”, diz. É uma visão que lembra a de alguns fabricantes chineses de smartphones, como a Xiaomi, que se popularizaram recentemente por dispositivos bons e baratos. A inspiração para Scandian, porém, é mais antiga: “Queremos ser o que o Walmart foi nos anos 1970 e o que a Amazon foi na década de 1990”.

“O modelo da MadeiraMadeira também está ligado a comercializar diretamente o estoque dos fornecedores, o que reduz o número de ‘mãos’ na cadeia. Além de reduzir custos, é um formato que se encaixa bem no mundo de pandemia”, explica Guilherme Fowler, professor do Insper. De fato, o braço logístico da empresa deverá ser um de seus diferenciais. 

“Móveis não navegam na mesma malha que, por exemplo, uma caixa de tênis. Ítens grandes e pesados precisam de uma rede de distribuição diferenciada. É isso que permite à Madeira Madeira competir com os grandes nomes do comércio eletrônico. O foco deles não é esse”, diz Passoni.

Investimentos

A melhoria da logística de produtos está altamente ligada a um dos pontos de atenção da startup depois do investimento: melhorar a experiência do cliente. Recentemente, a MadeiraMadeira passou por uma situação incômoda. No final de dezembro, a jornalista Vera Magalhães publicou no Twitter reclamações sobre uma compra feita na MadeiraMadeira que supostamente não teve seu prazo de entrega cumprido. O barulho nas redes sociais chegou até a Scandian. 

Sem citar a jornalista, ele disse: “Recentemente, tive uma aula com a Luiza Trajano, do Magazine Luiza. Ela me ligou após um problema com um cliente que temos em comum. Foi um puxão de orelha para entender o quanto o cliente é importante. Rapidamente, montamos um plano de trabalho agressivo para 2021”, diz ele. 

Os especialistas também enxergam a satisfação do cliente como o grande desafio da empresa a partir de agora. “O desafio de qualquer e-commerce é como chegar até o consumidor. Com o crescimento, a escala aumenta, o que também aumenta as chances de problemas ocorrerem”, diz Felipe Matos, presidente eleito da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão. “Para um influenciador, é mais fácil reclamar, mas precisa funcionar para todo mundo”, diz. 

Para o Softbank, é possível reduzir o tempo de entrega de produtos grandes de duas semanas para cinco dias – ou até dois em cidades como São Paulo. 

Entre os outros investimentos que a empresa fará com o novo aporte estão: reforçar sua marca própria de móveis, aumentar a presença física e fazer aquisições de outras startups – um time interno já foi criado para avaliar possíveis negócios. Sobre o primeiro item, a MadeiraMadeira se inspira na sueca Ikea, que oferece o chamado “design democrático”, produtos atraentes por preços baixos.  

Já em relação às lojas físicas, o formato adotado é o de “guide shop” – espaços pequenos que permitem conhecer ao vivo alguns produtos e fazer encomendas online. Scandian diz que a pandemia ainda não permitiu explorar todo o potencial desses espaços que, segundo ele, tendem a crescer. Por outro lado, Passoni lembra que o contexto de pandemia permite negociar aluguéis mais baratos.

Abertura de capital 

Após virar unicórnio, Scandian admite que espera abrir o capital da companhia em algum momento. A escolha dos investidores na nova rodada é uma indicação. “Os novos investidores têm um perfil voltado ao mercado público de ações. Eles são investidores de mercado público com um pé no investimento privado – a ideia é orientar os passos até a abertura de capital.  Eles podem nos orientar da mesma maneira que fizeram os primeiros investidores da companhia”.

Ele, porém, não estima uma data para que isso ocorra. “Com essa nova captação, precisamos focar na execução e no retorno, o que nos tornará uma empresa mais sólida e maior. Queremos abrir o capital quando tivermos as nossas iniciativas mais provadas. Estamos montando um time para fazer o IPO em algum momento. E ele poderá acontecer tanto no Brasil quanto fora”, diz.   

Para Felipe Matos, a consolidação da MadeiraMadeira é também positiva para o ecossistema brasileiro de startups. “Começamos a ver os unicórnios brasileiros diversificando o perfil, saindo das fintechs”, diz – ele faz referência ao fato de que a maioria das startups nacionais mais valiosas são bancos digitais, como o Nubank, ou trabalham com crédito, como a Creditas. “Podemos gerar valor fora de um segmento específico. E isso é uma boa notícia”, diz.

Amazon compra startup de podcasts Wondery

O negócio é uma aposta da Amazon para reforçar o conteúdo não musical em seus aplicativos
Por Agências – Reuters

A Amazon chega relativamente tarde ao mercado de podcasts

A Amazon confirmou na semana passada a compra da startup de podcasts Wondery, uma aposta da companhia para reforçar o conteúdo não musical em seu aplicativo Amazon Music. A notícia foi antecipada no início de dezembro pelo Wall Street Journal, que informou que as empresas estavam discutindo o negócio – a transação avaliaria a Wondery em mais de US$ 300 milhões, segundo o jornal.

A Amazon chega relativamente tarde ao mercado de podcasts, uma área chave para o Spotify, que tem investido em grandes nomes para se tornar uma espécie de Netflix de conteúdo de áudio.

A Wondery, que abriga podcasts populares como “Dirty John”, “Dr. Death” e “Business Wars”, tem cerca de 20 milhões de ouvintes únicos por mês, de acordo com reportagem da Variety.

Em novembro, a Bloomberg News informou que a Apple e a Sony Music Entertainment chegaram a discutir a aquisição da Wondery.

Domínio das ações de tecnologia nos EUA será testado em 2021

Um salto nas ações de empresas de tecnologia ajudou a elevar os índices dos Estados Unidos para recordes em 2020
Por Agências – Reuters

Elon Musk, fundador da Tesla

Investidores estão avaliando o quanto apostarão em ações de empresas de tecnologia dos Estados Unidos no próximo ano diante de avaliações mais caras de preços, riscos regulatórios maiores e revitalização de companhias impactadas pela pandemia.

Um salto nas ações de empresas de tecnologia ajudou a elevar os índices dos EUA para recordes este ano. Apenas os ganhos de Apple, Amazon e Microsoft responderam por mais da metade do retorno total de 16,6% do índice acionário S&P 500 até 16 de dezembro, de acordo com Howard Silverblatt, analista sênior da S&P Dow Jones Indices.

Mas o setor de tecnologia ficou em segundo plano nas últimas semanas, à medida que as esperanças de uma recuperação econômica liderada pelas vacinas geraram uma alta nos setores de energia, finanças e outros segmentos menos populares do mercado.

Embora não esteja claro quanto tempo vai durar a mudança na liderança do mercado, o movimento destaca um dilema que os investidores enfrentaram ao longo da última década. Limitar a exposição às empresas de tecnologia tem sido uma aposta perdida há anos e a pandemia do coronavírus acelerou as tendências que podem beneficiar o setor.

Mas as avaliações próximas às máximas de 16 anos estão aumentando as preocupações sobre a vulnerabilidade do setor, especialmente com a reabertura econômica dos EUA.

“Acho que as pessoas vão manter sua exposição às empresas de tecnologia, mas não acho que haverá muito dinheiro novo investido nessa área no próximo ano”, disse Lindsey Bell, estrategista-chefe de investimentos da Ally Invest.

O setor de tecnologia juntamente com ações de grandes empresas relacionadas – Amazon, Google e Facebook – respondem por cerca de 37% do valor de mercado do S&P 500, dando-lhes grande influência nas oscilações do índice e nas carteiras dos investidores. Os gestores de fundos consultados pelo BofA Global Research afirmaram que comprar ações de empresas de tecnologia foi a posição mais comum no mercado pelo oitavo mês consecutivo.

O setor é negociado a 26 vezes as estimativas de lucros futuros e é um dos poucos que devem registrar crescimento de resultados em 2020, de acordo com dados da Refinitiv. Já para 2021, a expectativa é de alta de 14,2% no lucro, ritmo mais lento do que a previsão de alta de 23,2% para empresas do S&P 500 em geral.

“Continuamos a acreditar que essa rotação de valor que começamos a ver nas últimas semanas também tem pernas para 2021”, disse Mona Mahajan, estrategista de investimentos nos EUA da Allianz Global Investors.

Magazine Luiza compra fintech de pagamentos por R$ 290 milhões

Varejista quer ampliar oferta de produtos financeiros para clientes de sua plataforma

Boneca digital da empresa, a Magalu
Magazine Luiza quer mais negros e negras em posição de liderança na empresa – Divulgação

SÃO PAULO | REUTERS – O Magazine Luiza anunciou nesta segunda-feira (21) a compra da fintech de pagamentos Hub Prepaid por R$ 290 milhões, ampliando oferta de produtos financeiros para os clientes de sua plataforma.

A companhia afirmou que a Hub desenvolveu toda a estrutura bancária para oferta de produtos financeiros via conta digital e que possui 4 milhões de contas deste tipo, além de cartões pré-pagos, ativos que movimentaram R$ 6,6 bilhões nos últimos 12 meses. Esse fluxo de transações gerou receita bruta não auditada de R$ 159 milhões.

A rede de varejo afirmou que os clientes de sua plataforma passarão a ter um cartão pré-pago que refletirá o saldo da conta digital, permitindo também transações no mundo físico.

A Hub começou a operar em 2012 e é regulada pelo Banco Central como instituição de pagamentos, além de ser integrada ao Pix, sistema de transferências e pagamentos instantâneos.

Pequenas faculdades americanas recebem grandes doações de MacKenzie Scott

Ex-mulher de Jeff Bezos, MacKenzie Scott repassou milhões de dólares para ajudar a educação
Anemona Hartocollis

MacKenzie Scott doou bilhões em meio ao COVID-19. NY Post photo composite/Mike Guillen

THE NEW YORK TIMES – Elas chegaram como presentes de um Papai Noel secreto: US$ 20 milhões (R$ 102 milhões) aqui, US$ 40 milhões (R$ 204 milhões) ali, todas para a educação superior, mas não para as universidades de elite que geralmente atraem toda a atenção. Estas doações foram para faculdades e universidades de que muitas pessoas nunca tinham ouvido falar e tendem a beneficiar estudantes regionais, membros de minorias e de baixa renda.

Na terça (15), MacKenzie Scott, a 18ª pessoa mais rica do mundo, revelou publicamente que havia feito as doações para dezenas de faculdades e universidades, parte dos quase US$ 4,2 bilhões (R$ 21,4 bi) que ela deu a 384 organizações nos últimos quatro meses.

FILE -- Outside Prairie View A&M University's student center in Prairie View, Texas, Oct. 30, 2018. MacKenzie Scott, the world?s 18th-richest person, recently donated $50 million to Prairie View A&M University, a historically Black college in Prairie View, Texas. (Todd Spoth/The New York Times)
Fachada da universidade Prairie View A&M, no Texas – Todd Spoth/The New York Times

Scott, que foi casada com o fundador da Amazon, Jeff Bezos, a pessoa mais rica do mundo, prometeu doar quase toda a sua fortuna. Suas ações da Amazon foram avaliadas em cerca de US$ 38 bilhões (R$ 194 bi, na cotação atual) no ano passado, mas teriam valorizado durante a pandemia do coronavírus.

O dinheiro veio depois de semanas ou meses de conversas na surdina em que representantes de Scott procuraram diretores de faculdades para entrevistá-los sobre suas missões, disseram vários deles na quarta-feira (16). Quando souberam quem estava por trás da iniciativa, também ficaram surpresos. Mas isso não poderia ter acontecido em melhor momento, quando a pandemia atinge duramente seus alunos, segundo eles.

“Fiquei perplexa”, disse Ruth Simmons, reitora da Universidade Prairie View A&M, faculdade historicamente frequentada por negros em Prairie View, no Texas, ao saber que Scott daria US$ 50 milhões (R$ 255 milhões), a maior doação que a universidade já recebeu. Ela pensou que tinha escutado mal, e a pessoa que telefonou teve de repetir o número: “cinco-zero”.

As doações de Scott elevam o total de suas ações beneficentes a quase US$ 6 bilhões (R$ 30,6 bi) neste ano, uma quantia extraordinária. Em outro toque heterodoxo, ela as anunciou em uma postagem no Medium na terça. “Esta pandemia foi uma bola de demolição na vida dos americanos que já enfrentam dificuldades”, escreveu ela. “Os prejuízos econômicos e problemas de saúde foram piores para as mulheres, as pessoas de cor e as que vivem na pobreza.”

Scott fez doações para mais de uma dúzia de faculdades e universidades tradicionalmente negras, assim como para faculdades e escolas técnicas que atendem a americanos nativos, mulheres, estudantes urbanos e rurais.

Alguns diretores de faculdades disseram que Scott não impôs restrições aos fundos, permitindo que eles decidam como irão usá-los. O dinheiro foi entregue à Prairie View em 20 de outubro, e Simmons disse que foi autorizada a começar a distribuí-lo imediatamente aos estudantes afetados pela pandemia.

Simmons disse que inicialmente lhe pediram para não divulgar a notícia da doação, mas argumentou que torná-la pública enviaria uma mensagem importante.

“Eu já fui presidente de uma dessas grandes faculdades —a Universidade Brown—, e lá, é claro, era comum conversar com pessoas sobre doações desse porte”, disse Simmons. “Mas isso raramente acontece em instituições como Prairie View, especialmente para os tipos de estudantes que atendemos.”

Tony Munroe, diretor do Colégio Comunitário do Distrito de Manhattan, instituição frequentada predominantemente por negros e hispânicos no sul de Manhattan (Nova York), que recebeu US$ 30 milhões (R$ 153 milhões) de Scott, lembrou que não foi necessário se inscrever para a doação. Ele simplesmente foi contatado por um representante de Scott, que o envolveu em conversas de sondagem sobre a missão de sua faculdade.

“Quando me contaram quem era a doadora e a quantia, me emocionei. Literalmente comecei a chorar”, disse Munroe.

Outra escola do sistema de Cidade Universitária de Nova York, o Lehman College, também recebeu US$ 30 milhões.

“Acho que ela está fazendo uma declaração muito clara: as comunidades a que essas instituições servem orgulhosamente são as que não têm muitos meios, mas têm o desejo; elas têm a garra, a energia”, disse ele.

A Universidade Estadual Morgan, em Baltimore, tradicionalmente negra, disse que a doação de US$ 40 milhões (R$ 204 milhões) feita por Scott, a maior de um único doador em sua história, dobrará seu fundo patrimonial.

A Faculdade Técnica e Comunitária do Oeste do Kentucky, em Paducah, disse que usará sua doação de US$ 15 milhões (R$ 76 milhões) —também a maior feita por um só doador— para ajudar adultos e estudantes rurais em más condições econômicas a se prepararem para o mercado de trabalho.

Simmons disse que a Prairie View A&M, com cerca de 9.000 alunos, está usando US$ 10 milhões (R$ 51 milhões) de sua doação para criar o Programa de Bolsas Sucesso da Pantera, para ajudar jovens e adultos que tiveram dificuldades financeiras com a pandemia a pagar suas contas da faculdade.

O resto do dinheiro será alocado ao fundo da universidade, aumentando-o de US$ 95 milhões para US$ 130 milhões (R$ 663 milhões), que sustentará coisas como recrutamento de professores e bolsas de graduação.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves