Depois de ficar ‘Livre de LGBT’, cidade polonesa de Krasnik descobre que o preconceito custa caro

Prefeito de Krasnik tenta revogar medida depois de ver recursos da União Europeia minguarem
Andrew Higgins, do New York Times

Cezary Nieradko, em sua casa na cidade de Lublin, na Polônia, depois de ser mudar de Krasnik, onde foi discriminado por ser gay. A cidade polonesa de Krasnik votou para “ser livre de LGBT” há dois anos. A medida, que satisfez conservadores, está sendo rechaçada pelo prefeito, para quem o preconceito tem feito a cidade perder recursos da União Europeia Foto: KASIA STREK / NYT

KRASNIK, Polônia. Quando os vereadores locais aprovaram uma resolução há dois anos declarando sua pequena cidade no sudeste da Polônia “livre de LGBT”, o prefeito não viu muito mal no que parecia ser um gesto simbólico e legalmente sem sentido. Hoje, está lutando para conter os danos.

A decisão de maio de 2019, que inicialmente parecia uma concessão inócua aos conservadores na fronteira rural e religiosamente devota com a Ucrânia, tornou-se um embaraço caro para a cidade de Krasnik. Pôs em risco milhões de dólares em financiamento estrangeiro e, segundo o prefeito Wojciech Wilk, “transformou nossa cidade em sinônimo de homofobia”, o que ele insiste em dizer que não é verdadeiro.

Uma cidade francesa no ano passado cortou uma parceria com Krasnik em protesto. E a Noruega, da qual o prefeito esperava receber quase US$ 10 milhões a partir deste ano para financiar projetos de desenvolvimento, divulgou em setembro que não daria subsídios a nenhuma cidade polonesa que se declarasse “livre de LGBT”.

— Nós nos tornamos motivo de chacota na Europa, e quem mais sofre são os cidadãos, não os políticos locais — lamentou Wilk, que agora está pressionando os vereadores a revogar a resolução que colocou os 32 mil habitantes da cidade no meio de um debate furioso sobre valores tradicionais e modernos.

A situação também é um exemplo das consequências reais da postura política nas trincheiras das guerras culturais da Europa.

Quando Krasnik se declarou “livre de LGBT”, estava se juntando a dezenas de outras cidades da região que haviam adotado medidas semelhantes com o forte apoio do partido de direita Lei e Justiça e da Igreja Católica.

As declarações, parte dos esforços do partido para reunir sua base antes de uma eleição presidencial em 2020, não impediram a entrada de gays nem ameaçaram de expulsão aqueles que já estavam lá. O que houve de fato foi a promessa de manter afastada a “ideologia LGBT”, termo usado pelos conservadores para descrever ideias e estilos de vida que veem como ameaças à tradição polonesa e aos valores cristãos.

Cezary Nieradko, estudante de 22 anos que se descreve como o “único gay declarado” de Krasnik, considera o termo “ideologia LGBT” como uma cortina de fumaça para a homofobia. Ele se lembrou de como, depois que a cidade aprovou a resolução, seu farmacêutico local se recusou a lhe vender um medicamento para o coração.

Nieradko se mudou recentemente para a cidade vizinha de Lublin, onde o conselho regional também adotou uma resolução “livre de LGBT”, mas cujos moradores, segundo ele, têm, em geral, a mente mais aberta.

Jan Albiniak, membro do conselho de Krasnik que elaborou a resolução, comentou que, pessoalmente, não tinha nada contra os gays, a quem descreveu como “amigos e colegas”, e que queria apenas debelar ideias que “perturbassem a maneira normal e regular como nossa sociedade funciona”.

Ele revelou que havia redigido a resolução depois de assistir a um vídeo on-line de ativistas dos direitos do aborto discutindo com homens cristãos na Argentina. Embora isso não tenha nada a ver com questões LGBT ou com a Polônia, Albiniak disse que o vídeo mostrou que “estamos lidando com algum tipo de mal e podemos ver mundialmente manifestações de comportamento demoníaco que devem ser interrompidas”.

Em resposta a uma onda de resoluções anti-LGBT no coração da Polônia, a União Europeia, da qual a Polônia é membro, assim como a Noruega e a Islândia, divulgaram que cortarão o financiamento para qualquer cidade polonesa que viole o compromisso da Europa com a tolerância e a igualdade.

O Parlamento Europeu também aprovou uma resolução em março declarando todos os 27 países do bloco como uma “Zona da Liberdade” LGBT, embora a declaração não tenha força legal, como as resoluções polonesas que afirmam o contrário.

Essa postura, no entanto, começou a ter consequências concretas. O prefeito de Krasnik admitiu estar preocupado com o fato de que, a menos que o status “livre de LGBT” seja rescindido, haverá poucas chances de garantir fundos estrangeiros para financiar ônibus elétricos e programas para jovens, que são particularmente importantes porque a juventude continua deixando a cidade.

— Minha posição é clara: quero que essa resolução seja revogada, porque é prejudicial para a cidade e seus habitantes.

Será uma luta difícil. Diante da perda de subsídios estrangeiros, várias outras cidades polonesas que se declararam “livres de LGBT” ou adotaram uma “carta familiar” alardeando valores tradicionais mudaram de ideia nos últimos meses. Mas o conselho de 21 membros de Krasnik, tendo votado no ano passado contra a revogação, recentemente rejeitou um recurso do prefeito para outra votação.

Apenas um membro expressou abertamente a prontidão para mudar de lado.

— Cometi um erro — disse Pawel Kurek, que se absteve na votação original, mas que agora diz que a resolução foi tola e deve ser rescindida.

Em nível nacional, Jaroslaw Kaczynski, presidente do Lei e Justiça, afirmou ao jornal “Gazeta Polska” que a Polônia deve resistir a ideias LGBT que estão “enfraquecendo o Ocidente” e que são “contra todo o senso comum”.

Por trás do impasse em Krasnik estão as realidades políticas e demográficas de uma região cujos jovens saem para encontrar trabalho no exterior ou em Varsóvia, a capital, e onde a Igreja Católica continua sendo uma força poderosa.

Enquanto muitas pessoas mais velhas gostam que sua cidade esteja “livre de LGBT”, os jovens que permaneceram estão chocados. Amanda Wojcicka, de 24 anos, funcionária de uma loja de conveniência, comentou que a ideia era embaraçosa.

Mas Jan Chamara, ex-operário de construção de 73 anos, disse que preferia viver de uma dieta de apenas batatas do que ceder à pressão econômica de fora para revogar a resolução.

— Não quero o dinheiro deles. Vamos sobreviver — garantiu Chamara, que declarou nunca ter visto gays em Krasnik, mas ainda assim sentia que as precauções eram necessárias.

Quando Krasnik e outras cidades adotaram resoluções “livres de LGBT” no início de 2019, poucas pessoas prestaram atenção ao que foi amplamente visto como um golpe político de um partido governista que se deleita em ofender o “politicamente correto” de seus adversários.

Mas isso mudou no início do ano passado, quando Bartosz Staszewski, ativista LGBT de Varsóvia, começou a visitar cidades que prometeram banir a “ideologia LGBT”. Staszewski, que é documentarista, levou consigo uma placa amarela de aparência oficial na qual estava escrito em quatro idiomas: “ZONA LIVRE DE LGBT”. Colocou a placa falsa ao lado da placa real de cada cidade, tirando fotos que postou nas redes sociais.

A ação, que ele chamou de “arte performática”, provocou indignação em toda a Europa ao evidenciar o que Staszewski descreveu em uma entrevista em Varsóvia como uma tentativa dos conservadores de “transformar os direitos humanos básicos em ideologia”.

O primeiro-ministro Mateusz Morawiecki acusou Staszewski de gerar um falso escândalo sobre as “zonas proibidas” que não existem. Várias cidades, apoiadas por um grupo de direita parcialmente financiado pelo governo, abriram processos de difamação contra o ativista, que, segundo elas, estava ligando a proibição de uma “ideologia” à proibição de pessoas LGBT.

Para Wilk, o prefeito de Krasnik, a disputa semântica é um sinal de que é hora de abandonar as tentativas de tornar a cidade “livre” de qualquer um ou qualquer coisa. Mas Albiniak, que iniciou a resolução, prometeu resistir ao que denunciou como chantagem de estrangeiros com a ameaça de retenção de fundos:

— Se eu votar pela revogação, vou votar contra mim mesmo.

Primeiro serviço de aborto legal via telemedicina do país já ajudou 15 mulheres a interromper a gravidez com segurança. Entenda como funciona

Protocolo permite que vítimas de violência sexual realizem a interrupção da gravidez em casa, com acompanhamento médico à distância, evitando exposição à Covid-19
Leda Antunes

A iniciativa é capitaneada pela ginecologista e obstetra Helena Paro, coordenadora do Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas) do Hospital das Clínicas de Uberlândia e, desde agosto, já atendeu 15 pacientes na modalidade Foto: Reprodução

RIO. Amplamente adotado durante a pandemia em países onde o aborto é legalizado, como o Reino Unido e os Estados Unidos, o serviço de interrupção legal da gravidez via telemedicina chegou ao Brasil. A iniciativa é capitaneada pela ginecologista e obstetra Helena Paro, coordenadora do Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas) do Hospital das Clínicas de Uberlândia e, desde agosto, já atendeu 15 pacientes na modalidade.

No Brasil, o aborto só é permitido em casos de estupro, risco de vida à gestante e anencefalia fetal. Em tese, o procedimento deveria ser feito em qualquer hospital, mas costuma ficar restrito aos centros especializados, como o Nuavidas, em Minas Gerais. Em meio a uma crise sanitária sem precedentes que pressionou todo o sistema de saúde brasileiro, a coordenadora do núcleo decidiu criar um protocolo de atendimento via telemedicina para não deixar as mulheres que a procuravam na mão e evitar que o serviço, considerado essencial pela Organização Mundial da Saúde, deixasse de ser oferecido.

A partir da lei que autorizou a telemedicina no país durante a crise sanitária, o protocolo foi desenvolvido pela equipe do Nuavidas em parceria com o setor de Farmácia do hospital e a equipe jurídica do Instituto de Bioética Anis. Proposto em maio, foi autorizado em agosto pelo Conselho de Ética do hospital, quando Paro atendeu a primeira paciente.

— A partir da possibilidade do uso da telemedicina para fazer o atendimento das vítimas de violência sexual, desenhamos esse protocolo para instituir o tratamento à distância do abortamento medicamentoso. A ideia não é inovadora. O aborto por telemedicina é feito na Europa desde 2006. Ao redor do mundo, a pandemia reforçou a segurança e a eficácia desse serviço — explica a ginecologista.

Por enquanto, o serviço funciona de forma mista e o primeiro atendimento ainda precisa ser feito de forma presencial no Nuavidas. Depois do primeiro encontro, todo o procedimento da interrupção da gestação e o acompanhamento posterior é feito remotamente, via telefonemas, chamadas de vídeo e mensagens de WhatsApp.

— Nos foi permitido avançar aos poucos — afirma Paro. Ela conta que a ideia da equipe, agora que o protocolo já foi aplicado sem intercorrências ou necessidade de internação para as 15 pacientes, é que o hospital autorize que ele passe a ser feito de forma 100% remota, via telemedicina desde a primeira consulta.

Como funciona

Por enquanto, funciona assim: a paciente que engravidou em decorrência de um estupro busca o Nuavidas e faz o primeiro atendimento presencialmente, onde é acolhida pelas médicas e psicólogas da equipe. Ela conta sua história e recebe todas as orientações sobre o procedimento. Se já tiver realizado uma ultrassonografia, não precisa repetir. Caso contrário, faz o exame no mesmo dia.

Depois da consulta, se mantém o desejo de interromper a gravidez em decorrência da violência sofrida e se estiver no período gestacional permitido para fazer o procedimento via telemedicina (nove semanas), assina os documentos necessários e é encaminhada para casa com a medicação e todas as orientações para o uso.

Ela recebe as instruções verbalmente e depois via Whatsapp, em cards com informações sobre como utilizar o medicamento, o intervalo correto entre as três doses, que sintomas são esperados e quais podem ser preocupantes, a quantidade de sangramento esperada, as formas não farmacológicas de alívio da dor e em que casos ela deve procurar o serviço de saúde.

Em casa, a gestante decide a hora que irá administrar a primeira dose do misoprostol (são três, ao todo) e avisa a equipe médica. Depois de 24h, faz uma consulta por videochamada. Neste intervalo, pode conversar por telefone ou Whatsapp com as médicas a qualquer momento. O acompanhamento continua sendo feito de forma remota e, depois de algumas semanas, ela refaz o teste de gravidez para saber se o procedimento foi concluído com sucesso. Como as pacientes elegíveis para o serviço são vítimas de violência sexual, elas ainda seguem sendo acompanhadas pela equipe do Nuavidas por seis meses.

— Isso tem feito com que haja menos evasão no acompanhamento. Muitas evitavam voltar ao hospital, porque voltar para lá as fazia lembrar da violência que sofreram. Com a telemedicina, elas têm cumprido um acompanhamento mínimo. O retorno que temos é que elas se sentem muito aliviadas, agradecidas. Muitas delas dizem que não fosse a oportunidade de fazer [o procedimento] em casa, não saberiam o que fazer.

Legal e seguro

Paro explica que o procedimento só pode ser feito via telemedicina até a nona semana da gestação. Isso porque, ainda não há estudos ou evidências científicas suficientes que atestem a segurança do aborto medicamentoso com misoprostol à distância depois dessa idade gestacional. Em outros países, o aborto medicamentoso é feito com duas drogas: o misoprostol e o mifepristone, este último proibido no Brasil, mesmo para uso hospitalar. A combinação das duas medicações aumenta a eficácia do procedimento, explica a ginecologista.

Ela ressalta que, pela limitação temporal, o aborto via telemedicina acaba ficando restrito às vítimas de estupro no Brasil. Os outros casos permitidos por lei — risco à gestante e anencefalia fetal — costumam ser descobertos mais tarde e, por isso, exigem que a interrupção seja feita no hospital.

Como o Nuavidas atende primordialmente as vítimas de violência sexual, Paro conta que, só em 2021, conseguiu evitar 90% das internações de aborto legal porque o procedimento pode ser feito via telemedicina. Assim como no atendimento presencial, a vítima não precisa apresentar um boletim de ocorrência para ter direito de interromper a gravidez decorrente de estupro.

— Algumas das pacientes relataram uma ansiedade para começar o procedimento, tinham medo de tomar o remédio em casa e morrer. É com esse imaginário que a gente trabalha, de que o aborto mata — conta Paro, ressaltando que o procedimento é seguro. — A medicação é segura. Como não é clandestina, há garantia de que é eficaz e verdadeira. E essa paciente vai para casa com a orientação adequada sobre o uso e tem todo o suporte médico e psicológico de acordo com a sua necessidade.

Paro agora trabalha na finalização de um projeto de pesquisa para implementar o protocolo de interrupção da gravidez via telemedicina em outros dez serviços de aborto legal espalhados pelo país. A ideia é que o serviço continue sendo oferecido, mesmo após a pandemia.

Depois de um feminicídio que chocou o país, mulheres denunciam a cultura do estupro nas escolas do Reino Unido

Dados da Agência Britânica Nacional de Estatísticas mostram que meninas e mulheres entre 16 e 19 anos são as vítimas mais comuns de violência sexual na Inglaterra e no País de Gales
Megan Specia, do New York Times

Soma Sara, em Londres (28/03/2021), fundou a plataforma "Everyone’s Invited": um espaço para que meninas e jovens mulheres compartilhem seus relatos de violência sexual. Milhares de relatos online jogaram luz sobre o tema recentemente no país Foto: MARY TURNER / NYT
Soma Sara, em Londres (28/03/2021), fundou a plataforma “Everyone’s Invited”: um espaço para que meninas e jovens mulheres compartilhem seus relatos de violência sexual. Milhares de relatos online jogaram luz sobre o tema recentemente no país Foto: MARY TURNER / NYT

Londres – Há semanas, os depoimentos anônimos, perturbadores, vêm chegando em sequência: acusações de violência sexual contra meninas de 9 anos; garotas constrangidas pelos colegas de classe por causa de fotos íntimas que circulam sem seu consentimento. Uma inclusive foi responsabilizada pelo pessoal com quem estudava depois de denunciar o estupro de que foi vítima em uma festa.

Em uma plataforma chamada “Everyone’s Invited” (Estão todas convidadas), milhares de garotas e jovens mulheres do Reino Unido começaram recentemente a compartilhar relatos honestos de violência sexual, sexismo e misoginia durante os tempos de escola — acusações de todo tipo, incluindo desde ataques até encontros coercivos, passando por assédio verbal e contato físico indesejado —, proporcionando discussões francas e sem censura de seus traumas pessoais.

Quando analisadas em conjunto, porém, as acusações revelam um quadro para lá de assustador da violência sexual contra as estudantes, dentro e fora da escola, principalmente em festas. Além dos relatos de violência, há também histórias de sexismo e misoginia.

— É um problema muito sério; a cultura do estupro é real — diz Soma Sara, a londrina de 22 anos que fundou a Everyone’s Invited.

Os testemunhos poderosos, embora pungentes e revoltantes, normalmente não passam por filtragem e não têm a veracidade confirmada; mesmo assim, são tantos que resumem a análise da violência nacional nas escolas, destacando o que as denunciantes chamam de cultura tóxica de constrangimento, que silencia e culpa as vítimas, e que a direção das escolas faz pouco ou nada para combater. E se dá em meio à conscientização do país depois do assassinato de Sarah Everard, cujo rapto em uma rua movimentada de Londres, no início de março, abriu espaço para um debate nacional sobre a violência enfrentada pelas mulheres.

As escolas e as autoridades locais e federais deram início a investigações. O governo encarregou um órgão educacional da realização de uma revisão imediata das políticas de proteção, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares. Simon Bailey, líder do Conselho Nacional de Chefes de Polícia para proteção infantil admitiu à BBC: “Temos um problema real.”

O Departamento de Educação garante que as alegações criminosas serão investigadas, e a Polícia Metropolitana de Londres passou a encorajar as vítimas a dar queixa.

Embora os relatos omitam o nome das vítimas e o dos agressores, identificam a escola frequentada pelos alunos e se a suposta agressão foi cometida dentro ou fora do colégio, incluindo instituições de prestígio que não demoraram a surgir nas manchetes.

Alunas atuais e antigas de entidades de elite — Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School e outras — já escreveram cartas abertas às lideranças escolares, identificando-se e detalhando uma cultura de silêncio e constrangimento da vítima. Em um dos casos, uma ex-aluna afirmou ter sido “desaconselhada” a entrar na justiça em um caso de violência sexual; em outros, as meninas descrevem como foram agarradas nos corredores.

Em declaração, tanto a King’s College School como a Highgate School afirmaram ter dado início a revisões independentes das acusações e das políticas escolares; já a Latymer Upper School disse que passou a encorajar as estudantes a se reportar diretamente às autoridades escolares. Alguns dos colégios citados não atenderam aos nossos pedidos de entrevista, mas nos noticiários locais aparecem afirmando levar a questão a sério, investigando alguns casos.

Os especialistas concordam que os relatos, ainda que preocupantes, fazem parte de uma discussão há muito necessária sobre atitudes e comportamento em relação a gênero e sexualidade nas instituições que têm o efeito de normalizar e até trivializar a violência sexual ou a cultura do estupro.

Dulwich College, no sul de Londres: ex e atuais alunas em insituições de ensino de elite no Reino Unido, incluindo Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School, escreveram cartas abertas aos direitores, detalhando a cultura do estupro nas escolas Foto: MARY TURNER / NYT
Dulwich College, no sul de Londres: ex e atuais alunas em instituições de ensino de elite no Reino Unido, incluindo Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School, escreveram cartas abertas aos diretores, detalhando a cultura do estupro nas escolas Foto: MARY TURNER / NYT

Para Aisha Gill, professora de criminologia da Universidade de Roehampton de Londres e especialista em violência contra mulheres e meninas, o “tsunami de confissões” destaca a necessidade de mudança e de responsabilização dos culpados.

— Não é possível dizer que acontece apenas nos colégios particulares; além disso, é imprescindível que as instituições analisem cada uma das acusações para determinar se houve crime e como o caso foi abordado. Pela própria função, elas têm a obrigação de cuidar, proteger e promover o bem-estar dos alunos; portanto, algo está terrivelmente errado — resume.

O assassinato de Everard se tornou símbolo de todos os casos de mulheres que foram atacadas, mas que passaram basicamente despercebidos. Grande parte da discussão passou a girar em torno da mudança do foco — ou seja, em vez de as mulheres terem de se defender sozinhas, a responsabilidade de lhes garantir proteção deve ser da polícia, das instituições e dos homens.

Foi nesse cenário que Sara levantou a questão no Instagram e no site da “Everyone’s Invited”, criado no ano passado, ao lidar com as próprias experiências de violência sexual nos tempos de estudante: “Você sofreu algum tipo de violência sexual quando estudava? Conhece alguém que tenha passado por isso?” Praticamente todas as respostas foram afirmativas.

Embora os relatos variem, sejam anônimos e não possam ser confirmados, os números assustadores — mais de 11.500 e não param de crescer — não podem ser ignorados. Ao compartilhar os casos, Sara não revelou os nomes das vítimas ou os dos acusados, mas divulgou os colégios onde estudavam.

— As escolas ocupam lugar de destaque como palco dessa cultura de estupro, quando na verdade têm a responsabilidade de proteger as crianças. Afinal, o período que passarão ali é básico em sua formação — diz ela.

Os dados divulgados pela Agência Britânica Nacional de Estatísticas mostram que mulheres e garotas entre 16 e 19 anos são as vítimas mais comuns de violência sexual na Inglaterra e no País de Gales, seguidas do grupo entre 20 e 24 anos. Nos dois países, as negras e mestiças têm chances ainda maiores de ser molestadas.

Uma pesquisa recente da instituição de defesa infantil Plan International UK mostrou que, na Inglaterra, 58% das jovens entre 14 e 21 anos já foram assediadas sexualmente em público em instituições de ensino.

— A escola tem a obrigação de proteger as alunas e de criar um espaço seguro para que as vítimas de abuso se manifestem, de modo que possam educar os outros com esse comportamento. Como podem ensinar qualquer coisa sobre escolha, sobre respeito, sobre encorajar os jovens a construir relacionamentos saudáveis? — questiona Gill, concluindo: — O programa de educação sexual tem de se concentrar no consentimento e na troca mútua. Acho que agora é hora de uma mudança transformadora.

Grife bilionária de Kim Kardashian desafia a pandemia

A Skims, marca de shapewear da celebridade, é avaliada em US$ 1,6 bilhão
E-INVESTIDOR
einvestidor@estadao.com

Kim Kardashian em frente à pop-up store da sua marca Skims em Los Angeles (Foto: Greg Swales/The New York Times)

  • Os confinamentos ocasionados pela pandemia fizeram com que as roupas apertadas de sua linha de produtos fossem parar no fundo do armário dos consumidores
  • A empresa de moda captou US$ 154 milhões em novos investimentos, o que, de acordo com Kim, elevou o valor da empresa para US$ 1,6 bilhão
  • É uma quantia surpreendente para uma marca de roupas com menos de dois anos, mesmo para uma grife fundada por tamanha celebridade

(Michael J. de la Merced/The New York Times) – Pouco depois de Kim Kardashian West lançar a Skims, sua grife de shapewear, em 2019, os confinamentos ocasionados pela pandemia fizeram com que as roupas apertadas de sua linha de produtos fossem parar no fundo do armário dos consumidores.

Mas a Skims sobreviveu. Mais que isso: tornou-se um negócio bilionário.

A empresa de moda captou US$ 154 milhões em novos investimentos, o que, de acordo com Kim, elevou o valor da empresa para US$ 1,6 bilhão. É uma quantia surpreendente para uma marca de roupas com menos de dois anos, mesmo para uma grife fundada por tamanha celebridade.

A Skims também consolida o status de Kim como uma bilionária por mérito próprio. Ao anunciar a entrada dela nesse clube, esta semana, a Forbes estimou o valor da Skims em um patamar muito abaixo daquele. Kim continuará a maior acionista da empresa após a negociação e, juntamente com seu sócio no empreendimento, Jens Grede, terá participação majoritária no capital da firma.

A Skims se beneficiou ao introduzir, oportunamente, modelos de pijamas e loungewear, com linhas de produtos como a “coleção conforto” impulsionando as vendas, enquanto as mulheres trocavam a moda fitness pelas calças de moletom. Mas os trajes apertados fizeram a Skims famosa, e essas linhas de produtos continuam centrais para a marca.

“Somos o básico favorito”, afirmou Kim em uma entrevista por Zoom, enquanto se preparava para uma sessão de fotos, mesmo que “ainda sejamos capazes de manter aquela essência do shapewear”.

Kim afirmou estar profundamente envolvida com o trabalho da Skims, da ajuda no design de produtos e coleções até a escolha dos profissionais que fotografarão as roupas, e disse estudar os dados relativos às vendas (assim como a maioria do produtos Kardashian, a Skims se tornou, em certas ocasiões, uma questão de família: Kanye West, o marido – atualmente separado – de Kim, estava “super envolvido” no começo, dando opiniões francas sobre os primeiros desenhos das embalagens da Skims, afirmou ela).

A Skims é uma entre muitas marcas novas de vestuário com foco principal no comércio eletrônico – um grupo que inclui também a Heist Studios e a Honeylove – que encontraram no shapewear uma oportunidade de negócios, em um nicho dominado havia décadas principalmente por uma única empresa, a Spanx. Antes de 2020, quando as vendas de shapewear diminuíram 30%, esse setor da moda gerava de forma consistente um pouco mais de US$ 500 milhões em vendas ao ano, ou 3% de todas as vendas de vestuário, de acordo com a empresa de pesquisas de mercado NPD. Como outros empreendimentos em shapewear, a Skims mirava os jovens.

A Skims definiu a si mesma com ênfase na inclusão, oferecendo nove tamanhos, até “5G”, em outros tantos tons de pele. Nas primeiras nove semanas de operação, a fila de espera para comprar seus produtos chegou a 2 milhões de pessoas, afirmou Grede. Até hoje, a Skims vendeu mais de 4 milhões de itens, com uma fidelização de clientes superior a 30%. Os produtos da Skims são vendidos nas lojas de departamento mais chiques, como a Nordstrom e a britânica Selfridges, e por vários revendedores online.

A Skims enfrentou problemas antes da pandemia. Um deles foi culpa da própria Kim: a empresa foi batizada inicialmente de Kimono, até que acusações de apropriação cultural a fizeram mudar de nome (“Mesmo que parecesse inocente para mim”, afirmou ela, “as pessoas não veem dessa maneira”).

Posteriormente, além da queda nas vendas de moda shapewear durante a pandemia, a empresa sofreu com atrasos na entrega das matérias-primas de seus tecidos, o que atrapalhou sua capacidade de desenvolver, produzir e, finalmente, vender novos produtos.

“Tivemos que descobrir novos fabricantes e ser criativos”, afirmou Kim. Mesmo assim, a Skims registrou US$ 145 milhões em vendas no ano passado e espera mais que dobrar esse montante, para US$ 300 milhões, este ano.

O futuro da Skims depende da maneira como a pandemia transformar o mercado de vestuário. “A moda shapewear, que é comprada para uso em ocasiões específicas, está em baixa durante a pandemia, bem em baixa”, afirmou Grede. Ele tem esperança de que, finalmente, haja um “reequilíbrio” nas vendas de produtos de diferentes categorias, com o retorno da demanda. Os sinais de varejistas como Anthropologie, que afirmou no mês passado que sete entre 10 de seus itens mais vendidos são vestidos, sugere que os consumidores talvez planejem retomar o uso de trajes mais formais.

Kristen Classi-Zummo, analista da NPD, traçou um prognóstico mais cauteloso, confirmando que essa categoria poderia se recuperar, mas ponderando que os consumidores que se acostumaram ao conforto insistirão em vestir roupas mais largas, mesmo que retomem certos aspectos do shapewear.

“Acredito que voltaremos a nos vestir bem”, afirmou Kristen, “mas tenho certeza que o visual e a sensação serão diferentes”.

(Tradução de Augusto Calil)

Já ouviu falar da F.O.D.A.? Do inglês ‘fear of dating out’, a sigla é caracterizada pelo medo de se relacionar na pandemia

A síndrome vem no embalo de outras disfunções contemporâneas, como a F.O.M.O (fear of missing out), que é o medo de estar perdendo alguma coisa
Lívia Breves

Nova síndrome contemporânea F.O.D.A se caracteriza pelo medo de ter novos encontros amorosos Foto: ShutterStock

No fim do ano passado, depois de meses batendo papo com pretendentes em aplicativos de relacionamento, a publicitária Clara*, de 30 anos, tomou coragem de sair do mundo virtual e marcar um encontro. As questões foram várias: onde seria, se fariam teste para Covid-19, em que momento tirariam a máscara e tantas outras dúvidas sobre como proceder em um date outrora tão comum mas que agora precisa se adaptar a uma situação de pandemia. A angústia foi tanta que Clara desmarcou de última hora. E nunca mais ousou marcar outro. Esse é só mais um de tantos casos semelhantes que estão acontecendo com os solteiros que passaram o último ano seguindo à risca os protocolos de segurança. A síndrome de quem está com esse bloqueio tem nome: F.O.D.A., que não é sacanagem e sim a sigla para fear of dating again (em tradução literal, o medo de se relacionar novamente) criada pela cientista comportamental inglesa Logan Ury.

A cientista comportamental inglesa Logan Ury foi quem criou a sigla Foto: Reprodução

O termo, que poderia ter alguma graça, ganha contornos trágicos por ser mais uma doença causada pela pandemia. “Na hora H não consegui ir. Me deu medo de ser contaminada ou de contaminá-lo. Estou isolada desde março do ano passado, perdi o traquejo para a paquera ao vivo também. Esqueci até como se passa batom. Foram várias aflições juntas que me paralisaram”, conta a publicitária. Date desmarcado, Clara voltou para a rotina: assistir a séries, ficar de pijama e conversar on-line. “Foram tantos meses repetindo para todos meus amigos e familiares que era preciso manter o distanciamento que me achei fake de sair com um cara. Imagina na hora de tirar a máscara para beijar? Tenso. Além disso, com os números cada vez maiores de contaminados e de mortes fica difícil sublimar tudo isso e conseguir relaxar. Sei que a minha carência está gigantesca, que passo por momentos difíceis por conta da solidão, mas o medo acabou sublimando tudo isso e me senti melhor ficando em casa”, completa.

A síndrome vem no embalo de outras disfunções contemporâneas, como a F.O.M.O (fear of missing out), que é o medo de estar perdendo alguma coisa. A doença, descrita pela primeira vez nos anos 2000, surgiu com o advento das redes sociais. As pessoas ficavam com inveja por não estarem em tal festa ao ver os convidados postando o evento, chegando a casos graves de depressão. Como desdobramento, veio a J.O.M.O (joing of missing out), atingindo os mais caseiros. Trata-se do prazer de estar no sofá em vez de curtir o agito, quando determinado evento bomba nas redes.

A psicanalista Anna Beatriz Medici: "Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso" Foto: Reprodução
A psicanalista Anna Beatriz Medici: “Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso” Foto: Reprodução

A psicanalista Anna Beatriz Medici observa que tudo começou quando o isolamento social fez com que todos precisassem ressignificar suas relações consigo mesmos, recolher-se e criar um lugar de segurança. “Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso. Por causa da extensão e das incertezas da pandemia, as síndromes começam a dar notícias. Se no passado nada era exigido, tudo era pensado para ser fluido, leve, hoje, escuto um certo receio em voltar a se lançar em algo sem garantia, que exigiria, de certa forma, renunciar a uma vida voltada, há um longo período, apenas para si”, analisa Anna Beatriz. “Percebo uma angústia de abrir mão dessa organização toda em torno do cuidado consigo mesmo, narcísica, mas segura”.

Aos 38 anos, o advogado Paulo* viu que estava perdendo sua inteligência emocional com o passar dos meses isolado em casa, sem contato com outras pessoas. Uma demora em receber uma resposta de alguém que está trocando ideia nos aplicativos e paquera já mexia com a sua autoestima. Ficou carente e inseguro. “Sempre fui divertido, conquistava com minha descontração. Então essa insegurança atual está sendo algo muito novo para mim. Ainda estou aprendendo a lidar. Confesso que fiz dois encontros durante o isolamento social e ambos foram estranhos. Existe uma ansiedade em escolher o local, porque é difícil estar à vontade encontrando com alguém pela primeira vez já na sua casa ou na casa do outro. Os motivos passam pela intimidade de expor o lar até o medo de estar a portas fechadas com um desconhecido”, comenta ele. “Em um dos dates, a moça chegou a brincar dizendo que não tinha certeza se ainda sabia fazer sexo depois de tantos meses sozinha. Nas duas vezes, demoramos para conseguir relaxar e, antes de decidirmos que nos encontraríamos aqui em casa, combinamos de fazer dez dias de isolamento total para nos mantermos seguros. É preciso dar um voto de confiança a um desconhecido, e isso pede coragem.”

Entre um e outro encontro atrapalhado, a dúvida que fica é: será que quando todos estiverem vacinados os dates voltam ao normal? Torcemos que sim!

*Os nomes foram trocados a pedidos dos entrevistados.

Oprah, Kardashian e cia: conheça as mulheres bilionárias na lista da ‘Forbes’

Revista destaca as ‘self-made billionaires’, que fizeram fortunas com seu trabalho. Empresárias chinesas lideram o ranking
Thomson Reuters Foundation

A apresentadora e empresária Oprah Winfrey e a estrela dos reality shows Kim Kardashian estão na lista das ‘self-made billionaires’ da revista ‘Forbes’: mulheres que chegaram aos bilhões de dólares por seu trabalho e investimentos Foto: Arte

LONDRES – Kim Kardashian, estrela dos reality shows e empresária é agora uma bilionária na lista da Forbes. E junto com ela estão outras “self-made billionaires”, ou seja, mulheres que chegaram aos bilhões na conta bancária pelo sucesso de seu trabalho.

A “Forbes” estima que Kardashian, de 40 anos, hoje tenha “US$ 1 bilhão (eram US$ 780 milhões em outubro) graças a dois negócios lucrativos, a KKW e a Skims, mas também à televisão, publicidade e um número de pequenos investimentos”.

Mas ela não está sozinha na lista. Em fevereiro, Whitney Wolfe Herd se tornou a mais jovem mulher a se tornar bilionária com seu trabalho, depois que as ações de sua empresa, o app de relacionamentos Bumble, fizeram seu début no mercado. Aos 31 anos, a criadora do aplicativo no qual as mulheres dão o primeiro passo é também uma das mais jovens mulheres a liderar uma empresa com ações na bolsa.

Oprah Winfrey, empresária e superestrela da mídia (US$ 2,6 bilhões) também está na lista, que traz muitas mulheres chinesas. De acordo com o índice de bilionários da Bloomberg, as “self-made billionaires” representam menos de 5% das 500 pessoas mais ricas do mundo.

Os EUA têm a maioria dos bilionários, com 724, seguidos pela China, com 698, segundo a lista da Forbes.

Veja abaixo cinco outras mulheres que ficaram bilionárias por conta própria, segundo a lista da “Forbes”

1. Zhong Huijuan, CEO da farmacêutica Hansoh

A chinesa Zhong tem US$ 19.7 bilhões e é a mais rica mulher “self-made billionaire” do mundo. A farmacêutica Hansoh fabrica produtos para doenças do sistema nervoso central, oncologia, infecções, diabetes, trato digestivo e tratamentos cardiovasculares.

2. Wu Yajun, co-fundadora da Longfor Properties

Também chinesa, Wu tem US$ 19.1 bilhões e é a segunda na lista. Ela foi jornalista até que decidiu entrar para o mercado imobiliário e começar a Longfor Properties.

3. Diane Hendricks, co-fundadora da ABC Supply

Como presidente da ABC Supply, maior fornecedora de telhados e coberturas dos EUA, Hendricks tem US$ 8 bilhões e é a americana melhor colocada na lista de “self-made billionaires” da “Forbes”.PUBLICIDADEhttps://a5f697b8a6f50f00819f09a8f38f9575.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

4. Meg Whitman, ex-CEO do eBay

Whitman, que tem $6.2 bilhões, é reconhecida por ter feito o eBay crescer e se tornar uma empresa lucrativa. Uma das executivas mais importantes do Vale do Silício, ela já presidiu a Hewlett Packard. Recentemente, foi chefe executiva do app Quibi, de streaming de vídeos, que já não está em operação.

5. Sheryl Sandberg, diretora operacional do Facebook

Sandberg, que tem US$ 1,8 bilhão é uma das mulheres mais poderosas na tecnologia e também é conhecida pela iniciativa “Lean in”, que defende que as mulheres estejam em funções de liderança e aponta para as barreiras de gênero que as impede de chegar lá.

Poder Black

Símbolo de orgulho da beleza negra, o cabelo afro tem sua história resgatada depois de virar polêmica nas mídias – a atriz Lucy Ramos e a jornalista Luiza Brasil comentam o tema e seu significado
Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

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Identidade. Muito além de estética. A atriz Lucy Ramos  Foto: Itta

Em sua 21ª edição, o reality show Big Brother Brasil chegou quebrando recordes de audiência e causando furor nas redes sociais. Entre polêmicas, paixões e brigas, um assunto de grande importância social ligado a causas antirracistas ganhou força nesta última semana e foi motivo para uma quebra de protocolo do apresentador Tiago Leifert, que interrompeu o programa para fazer um discurso para os participantes falando sobre o tema. 

Um comentário do cantor sertanejo Rodolffo sobre o cabelo de outro participante, o professor de geografia João Luiz Pedrosa, deu início a essa série de conversas sobre o Black Power e sua importância identitária para pessoas negras. 

O estilo, também conhecido como afro, surgiu, como conhecemos hoje, nos Estados Unidos, no final da década de 1950, início dos 1960, como uma forma de expressar orgulho da beleza negra. Com o tempo, o penteado que exalta as características naturais do cabelo crespo e cacheado se tornou uma mensagem política de força e resistência. 

“Muito além da estética ou de apenas um penteado, o black resgata a nossa ancestralidade. Ele me conecta às minhas raízes e celebra a cultura, a luta e a resistência do nosso povo. Pra mim, tem um significado muito grande. Sempre que coloco meu black pra jogo, tenho em mente que estou mantendo a minha identidade”, comenta a atriz e influenciadora Lucy Ramos, que exibe com orgulho toda a beleza do seu cabelo nas telas da TV, revistas e redes sociais. 

“Durante minha vida, fui entendendo que o meu cabelo dizia muito sobre quem eu era. Ao ter acesso à informação, compreendi que o meu crespo é uma característica minha que muito me orgulha. Não tenho motivos para escondê-lo. Hoje temos uma representatividade maior do que eu tinha na minha época de criança e torço para que desde a infância os pequenos e pequenas já possam nutrir esse sentimento de orgulho pela sua coroa”, complementa. 

Além de sua conta pessoal no Instagram, Lucy também comanda o perfil Segundas Cacheadas, no qual compartilha imagens inspiradoras e dicas de cuidado com o cabelo afro. “Carinhosamente sempre fui apontada como alguém que inspira muitas mulheres no seu processo de transição capilar e aceitação do afro. Pensando nelas, decidi criar um espaço específico para que pudéssemos trocar diretamente cuidados, dicas e experiências sobre o nosso cabelo. E assim nasceu o Segundas Cacheadas, com o propósito de fortalecer cada vez mais a nossa autoestima e também provocar reflexões e debates sobre as nossas vivências”, explica. O perfil é um dos destaques entre as inúmeras fontes de informação que encontramos na internet, em livros, jornais e programas de televisão. 

A pesquisa e a busca de conhecimento são fatores de extrema importância para que situações em que falas ofensivas – feitas com intenção ou não – que machucam pessoas e desvalorizam uma cultura deixem de acontecer. 

Segundo Luiza Brasil, profissional de moda e comunicação com mais de 12 anos de experiência, a autonomia para aprender é primordial. “Quando entrei [no mercado], o cenário era bem diferente. Havia ainda menos pessoas pretas. Eram espaços quase solitários. Essa pauta era trabalhada de um jeito diferente. Então sei do meu lugar articulista com o outro e não me incomodo de ser uma pessoa que produz essa informação”, conta.

“Mas acredito sim que o outro precisa ter a boa vontade de entender que hoje em dia existem materiais de todos os tipos, tamanhos e acessos para usufruir e ter conhecimento. Isso não é mais desculpa. Obras da Djamila, falas da Joice Berth, Carla Akotirene. Enfim, muita gente que fala sobre negritude e questões raciais com maestria. Acredito também que a gente não pode fazer com que o negro seja servil à pauta. Como se o negro só falasse de racismo e questões raciais. Precisamos cada vez mais nos tornar autônomos na nossa busca por conhecimento, nesse caso, raciais. Para que a gente entenda que o lugar do negro hoje em dia, mais do que buscar representatividade por conta do seu tom de pele, é gerar pertencimento em suas vivências. Isso que nos dá humanidade para seguirmos e ocuparmos espaços. Para sermos quem sempre sonhamos ser”, comenta.

“Atualmente, minha relação com meu cabelo é pautada em liberdade. Em fazer e usar do jeito que eu quero. Se eu quiser usar trança, vou usar. Se quiser natural, vou usar. Se eu quiser uma lace [peruca] lisa, vou usar. Porque tem um lugar identitário, de entender que nosso crespo é um cabelo bonito, é lindo. Mas agora acredito muito nesse lugar do poder da nossa escolha.” 

Maju Coutinho diz que não pensa em ter filhos: ‘Nunca tive essa necessidade’

Jornalista também falou sobre racismo e sua relação com o cabelo

A jornalista Maju Coutinho – Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ser mãe, por enquanto, não está nos planos da jornalista Maju Coutinho, 42. Em entrevista ao jornal O Globo, a apresentadora do Jornal Hoje disse que nunca sentiu ter vocação para ter filhos.

“Meu marido tem dois filhos, né? Já é avô, inclusive, tem dois netinhos. Ele já tinha filhos adolescentes quando a gente se conheceu. E a gente se dá muito bem do jeito que a gente está, então eu nunca tive essa supernecessidade de ser mãe”, afirmou.

Maju é casada com o publicitário Agostinho Paulo Moura desde 2009. “De repente, eu mude de ideia, adote ou engravide. Não estou falando que é um jogo fechado, mas no momento é isso”, completou.​

Na entrevista, a jornalista também falou sobre a relação com o seu cabelo, que nem sempre foi boa. “Cresci vendo uma enxurrada de cabelos lisos e loiros. Não tinha consciência de que meu cabelo era assim. Minha mãe fazia trancinhas nele quando eu era pequena, depois alisei”, afirmou.

Ela contou que resolveu usar tranças depois que viu um cabelo todo trançado na revista Raça. Depois de tirar as tranças, Maju disse que teve que usar um aplique, porque havia estragado os fios com um babyliss.

“Agora que tirei e o cabelo está natural, estou numa relação de amor profundo. De entender quem ele é, como eu trato. Nunca tive isso antes.”

A apresentadora, que já foi alvo de ataques racistas em 2015 e em outros momentos de sua carreira, falou teve que criar uma casca dura para enfrentar o preconceito, do qual é vítima desde criança.

“Quando se é negra como eu, com a pele mais escura, se é mais animalizada: macaco, essas coisas, é muito comum ouvir. Teve uma marcante, de um amigo-secreto, que hoje acho inimigo-secreto, mandar um bilhetinho: ‘Por que você não passa um condicionador nesse cabelo?’. Nesse nível. São essas coisas que fazem parte do racismo estrutural e que podem minar a confiança, a autoestima.”

Zezé Motta fala de trajetória na TV e novo amor aos 76: “Sou movida a paixões”

Chamada por suas colegas de “rainha”, Zezé Motta foi, por décadas, uma das raras referências de mulher negra na arte no Brasil, ao mesmo tempo que viveu as dores e delícias de ser uma sex symbol. Mãe de quatro filhos – sem nunca ter gestado –, ativista antirracista, não acredita na vida sem paixão. Aos 76 anos, com energia e vida de sobra, não se cansa de trabalhar e acaba de começar um namoro
PAOLA DEODORO

Zezé Motta para Marie Claire (Foto: Caroline Lima)

Deitada de lado em um sofá em seu icônico apartamento no Leme, o mesmo onde morou Clarice LispectorZezé Motta conversou com a reportagem de Marie Claire por meio de uma videochamada. Segurando o celular próximo ao rosto, a atriz e cantora ia buscando na memória histórias para ilustrar cada pergunta. Das lembranças mais profundas, trouxe as sensações de ter sofrido um racismo tão extremo que desencadeou um processo de embranquecimento, uma total negação de suas raízes durante a adolescência: “Dos 6 aos 12 anos, vivi em um colégio interno porque meus pais não tinham como cuidar de mim e trabalhar ao mesmo tempo. Quando saí, nos mudamos para um prédio de classe média baixa no Leblon, com todos os vizinhos brancos, e com adolescentes muito cruéis, que diziam que meu cabelo era ruim, meu nariz era chato, e o bumbum grande demais”, lembra. “Passei muito tempo com vontade de mudar tudo em mim. Queria ter dinheiro para operar o nariz, comprar lentes de contato verdes, cheguei a pesquisar sobre cirurgias para diminuir o bumbum”, desabafa.

Como única negra nos lugares que frequentava no início da carreira, Zezé normalizava o fato de que não era considerada bonita. Mas bastou pisar na Nova York de 1969, durante a turnê da peça Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal, no auge do movimento Black Is Beautiful, para entender as chagas do racismo brasileiro. “Comecei a olhar para os negros nas ruas e via que eles eram muito bonitos. E mais: percebi que eles se achavam bonitos, tinham orgulho de seu visual, estavam sempre arrumados, com seus black power enormes. Então comecei a questionar por que me achava tão feia. A resposta: ouvia isso dos brancos e acreditava neles”, diz.

O mergulho de Zezé nas próprias raízes não parou por aí. Na peça que apresentavam nos EUA, os atores se revezavam, empunhavam o braço e falavam “Sou Zumbi!”. Na época, Zezé usava uma peruca de cabelos lisos na altura do queixo. “Em uma apresentação no Harlem, o diretor foi questionado sobre o meu cabelo”, lembra. “Quando veio falar comigo, fiquei constrangida e percebi que não fazia mesmo o menor sentido usar aquilo. Tirei a peruca, fui para debaixo do chuveiro. Embaixo dela, meu cabelo era alisado. Mas, com qualquer chuvinha, voltava a ficar crespo. Permaneci embaixo da água até o meu ‘toin nhoin nhoin’ voltar todinho.” Apesar disso, Zezé se sentiu frustrada: os fios estavam curtos demais. Foi então que uma amiga brasileira que morava em Nova York contou que muitos americanos também vestiam perucas. Só que, em vez de lisas, eram em formato black power. “Entendi uma nova relação com a beleza. Deixei de alisar, troquei a peruca e comecei a cuidar do cabelo natural para ter meu próprio black grandão. Estava começando a cura do processo de negação da minha origem naquele momento”, lembra, emocionada. Junto com esse despertar, Zezé tornou-se uma personagem importante no debate sobre racismo e do movimento negro no Brasil, ainda no início dos anos 1970.

Ao mesmo tempo, também nasceu – ou melhor, renasceu – como Xica da Silva. O filme de Cacá Diegues, de 1976, levou sua carreira para outro patamar em termos de reconhecimento e visibilidade. A conquista do protagonismo foi um feito inédito para uma menina preta de sua geração e a transformou em uma estrela, além de um símbolo sexual. O Brasil nunca tinha visto nada parecido. “Quando começaram a me chamar para fazer fotos sensuais, achava divertido”, recorda. “Mas depois começou a me incomodar, porque para alguns virei só aquilo. Meus parceiros – e foram uns tantos porque, afinal, estávamos nos anos 1970, em plena revolução sexual – começaram a confundir a personagem e a pessoa. Ouvia de homens: ‘Não acredito que transei com a Xica da Silva’.

Entre a Zezé de Xica e a de hoje existe um universo de histórias. Com sua trajetória, é possível traçar um paralelo com o Brasil dos anos 1970 e o de 2020. Embora nunca tenha parado de trabalhar (nem de lutar) desde então, Zezé viu sua voz ficar ainda mais forte com o fortalecimento do movimento Black Lives Matter e das discussões sobre etarismo. Nos últimos meses, em plena pandemia, esteve com a agenda lotada. Participou de 70 lives (ainda que apenas três remuneradas) e reacendeu sua ligação com o universo da beleza. “Fui escalada para uma campanha da Avon. Só que, na véspera, testei positivo para Covid-19. Fiquei assintomática, me sentindo bem, mas não pude ir ao estúdio. Então só fiz uma parte do projeto, fotografei em casa. Em dezembro, também fiz uma campanha sobre bem-estar para a Natura, além de trabalhos para outras marcas. Adorei, fazia muito tempo que não era chamada para campanhas do tipo”, conta.

Canceriana e extremamente amorosa, Zezé também é filha de Oxum. O que explica muito bem o tamanho de seu coração de mãe, que abriga quatro filhos: Luciana, Carla, Cíntia e Rob­son. Nenhum gestado por ela, também nenhum adotado legalmente. Segundo Zezé, eles foram acontecendo. Na verdade, já era seu olhar materno em ação. Conheceu Luciana com 4 anos, durante um show na Casa da Criança. Primeiro tornou-se madrinha e aos poucos a relação foi se intensificando, até que se tornaram uma família. Carla tinha 11 anos e chamou a atenção de Zezé porque estava chorando na praia. Fazia um ano que a mãe tinha morrido e morava com uma madrinha desde então. Em pouco tempo, também passou a fazer parte integralmente da vida de Zezé. Depois veio Cíntia, que morava em um abrigo e aos 12 anos foi escolhida para fazer um curso de teatro com a professora que, logo em seguida, se tornaria sua mãe. E, mais recentemente, chegou Robson. Ela era conselheira de Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique Cardoso e conheceu a história do menino que havia sido abandonado na casa de uma vizinha com 1 ano, morado na rua e passado por muitas dores até encontrar Zezé, aos 15.

Apesar de gostar de casa cheia, Zezé prefere ter tempo de qualidade com cada filho. “Eles se revezam para vir aqui, meus sobrinhos também.” Ela mora sozinha e anda bastante reclusa por causa da pandemia. Mas não solitária. Em meio à conversa, Zezé fez uma revelação íntima: a de que começou a namorar recentemente. “Estava sozinha havia bastante tempo, mas não estou mais solteira. Ele é reservado, e por respeito a ele não vou dar muitos detalhes, mas estamos juntos há três meses. Ele é mais jovem do que eu, tem 60 anos”, conta. “Estou muito feliz pois sou movida a paixões, sem amor a vida não tem graça nenhuma.”

DAQUI PARA A FRENTE

Além de um bom fluxo de trabalho, o ano passado reservou outra surpresa para Zezé. Em maio, junto com a dor da morte de sua mãe, que tinha 95 anos, veio a notícia de que ela tinha deixado alguns investimentos em quatro bancos diferentes para os dois filhos, Zezé e Romilton. “Sempre impliquei com a minha mãe porque dizia que ela era pão-dura. E ela me repreendia dizendo que eu não sabia economizar dinheiro, não guardava e ainda dividia com os outros o que eu tinha. E aí, quando já não está mais aqui, me vem com essa novidade… Ela sempre foi muito organizada, tinha pensão dos ex-­maridos, mas por essa eu não esperava”, conta.

Como vice-presidente do Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, ela convive de perto e entende bem a fragilidade da carreira artística no Brasil. “Acabei de renovar o contrato. Serão mais seis anos! Me sinto muito bem com essa missão. É um trabalho voluntário, faço com muito prazer. Afinal de contas, são pessoas importantes para a história do país, para a nossa cultura, que se doaram para a arte e que merecem carinho, cuidado e acolhimento. Então, cuidar da minha saúde, do meu bem-estar, é minha prioridade, para que eu possa continuar trabalhando e produzindo o máximo possível”, revela.

Depois de quase duas horas de bate-papo e de recordações, Zezé fecha com a frase perfeita para encerrar a entrevista. “Foi tanta história, né? Vai ficar muito engraçada essa matéria. A vantagem de ter certa idade é que a gente tem muita vida para contar.” A única diferença, Zezé, é que nem todo mundo vive tão profundamente como você!