Taís Araújo cria marca HotMamma e lançará plataforma de auxílio a mulheres que buscam independência financeira

De acordo com a coluna de Mônica Bergamo a HotMamma deve explorar segmentos da moda, beleza, decoração e autocuidado

Taís Araujo usa camisa Iorane, piercing Monte Carlo e batom Nude Balé da coleção “Cores da minha vida” por Taís Araujo, da Quem Disse, Berenice? (Foto: Zee Nunes; edição de moda: Pedro Sales; Beleza: Rodrigo Costa; Direção executiva: David Jensen/WBORN Produções; Tratamento de imagem: Bruno Rezende)

Taís Araújo está com mais uma novidade: a marca HotMamma. Em notícia divulgada pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, neste sábado (24.07), a atriz criou sua primeira marca própria e disponibilizará uma plataforma de auxílio a mulheres que buscam independência financeira.

Sem data definida, a estreia ainda contará com o lançamento de uma coleção de biquínis. CEO da marca, Taís tem três sócios: a consultora Cristina Naumovs, a stylist Rita Lazzarotti e o RP Antonio Trigo.

Ainda de acordo com a publicação, a HotMamma também vai explorar segmentos de beleza, decoração, autocuidado e mais. Além disso, a marca já tem tratativa estabelecida com um conglomerado de roupa de praia e com uma instituição financeira.

Naomi Osaka: o que a tenista tem a ver com nossa saúde mental?

O psiquiatra Filipe Batista reflete o posicionamento da tenista Naomi Osaka em relação ao bem-estar emocional, em nova coluna de Vogue Gente
FILIPE BATISTA (@FILIPEBATISTAPSIQUIATRIA)’

Naomi Osaka (Foto: Graham Denholm/Getty Images)

Naomi Osaka é a tenista que representará o Japão nas Olimpíadas de Tóquio 2020. Ela foi a primeira asiática a ser classificada em primeiro lugar pela Associação de Tênis Feminino e a primeira jogadora nascida no Japão a vencer um Grand Slam. Mas sua vida não é só de pódios. No último torneio de Roland Garros, Osaka decidiu não participar das coletivas de imprensa que acontecem após as partidas. O motivo? “Cuidar de mim mentalmente”.

esporte ensina muito. Oferece um bom senso de responsabilidade e trabalho em equipe, requer equilíbrio entre mente e corpo, sendo também uma excelente maneira de equalizar e extravasar tensões diversas. Mas quando falamos de um atleta olímpico, essa noção ganha um peso maior. Submetidos à forte pressão e treinos extenuantes, costumam apresentar níveis elevados de expectativa e cobrança, terreno fértil para o desenvolvimento de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais.

Esse cenário de fortes tensões não fica distante da maioria dos empregos nos grandes centros urbanos, que frequentemente demandam dedicação e empenho olímpicos, motivo pelo qual o trabalho tornou-se uma importante fonte de adoecimento psíquico na atualidade. A síndrome de burnout é exemplo disso.

As diversas formas de sofrimento mental são comumente colocadas na posição de desqualificação, fraqueza e vulnerabilidade. Exatamente o contrário do que se espera de um atleta olímpico. Por isso também, o relato de Osaka é importante, ao desvelar essa concepção estigmatizante sobre os transtornos mentais.

Não se trata de expor e explorar o sofrimento de alguém, mas de atestar que ele existe e que não há mal em conversarmos abertamente sobre, respeitando os limites e o desejo de quem decide falar publicamente a respeito. “Também não quero ter que fazer um exame minucioso de meu histórico médico pessoal nunca mais”, escreveu em um ensaio para a revista americana Time. “Por isso, peço à imprensa algum nível de privacidade e empatia na próxima vez que nos encontrarmos.”

Osaka toca em um ponto fundamental que diz respeito à privacidade relativa às questões de saúde mental no trabalho. O quanto e de que forma uma pessoa que está passando por algum problema emocional mais sério deve revelar no ambiente de trabalho? Parece uma questão superada, mas na verdade, o profissional afastado por motivo de adoecimento psíquico ainda vivencia forte preconceito. Embora depressão seja uma das principais causas de afastamento, não é raro — os relatos nos consultórios psiquiátricos atestam — que a pessoa seja julgada, descredibilizada e desamparada.

A que se deve essa visão limitada? Não falamos aberta e suficientemente sobre saúde mental e reproduzimos, sem o devido questionamento, essa lógica que nos cobra o impossível. Fingir pretensa estabilidade e felicidade artificial não só cansa, como é cruel e faz adoecer. O posicionamento de Osaka nos lembra sobre a necessidade de impormos certos limites quando se trata do nosso bem-estar emocional. “Tudo bem não se sentir bem”, ela lembra. Ainda é necessário falarmos sobre o que aparentemente seria óbvio, como o combate à concepção negativa que se tem sobre problemas de saúde mental.

No quesito transtornos psiquiátricos, somos recordistas. O Brasil tem a maior taxa de transtornos de ansiedade do mundo e a segunda maior das Américas de depressão, atrás apenas dos Estados Unidos. O mundo estará voltado para Tóquio nos próximos dias, uma ótima oportunidade para sensibilizar muita gente sobre temas importantes. Por isso, o depoimento de Naomi é tão relevante, na medida em que inspira mulheres e homens a se reconhecerem em sua posição, tornando-se, ainda que sem intenção, uma voz no combate ao estigma dos transtornos mentais.

Olimpíada de Tóquio, adiada para 23 de julho de 2021 em virtude da pandemia, possui muitos motivos para ser especial. Os ideais olímpicos de superação, coletividade e esperança caem como uma luva no momento em que o mundo procura se reerguer de uma das maiores catástrofes do último século. A ideia de que importante mesmo é competir nunca fez tanto sentido. E não há competitividade que derrube o entendimento de que todos saímos vencedores dessa vez — sobrevivemos.

Leilane Neubarth fala sobre envelhecimento e menopausa

Leilane Neubarth (Foto: Reprodução)

Aos 62 anos, a jornalista e apresentadora Leilane Neubarth falou sobre como o julgamento da sociedade em geral pode ser cruel com uma mulher acima dos 50 anos.

– A idade depois dos 50, 60 passa a ser vista como uma coisa ruim. Então as pessoas têm vergonha de dizer que estão na menopausa. Antigamente a fase reprodutiva era muito longa na vida. Você tinha sua fase menina, aí menstruava e quando entrava na menopausa, praticamente já estava na hora de morrer – comentou Leilane numa entrevista inédita para Renata Ceribelli, no podcast “Prazer, Renata”, do “Fantástico”.

Ela acrescentou, então, que a realidade mudou muito nos últimos anos:

– Hoje em dia não é assim. Muito provavelmente na minha geração, a fase reprodutiva vai ter mais ou menos o mesmo tamanho da fase pós-menopausa – destacou.

O episódio, no ar a partir desta segunda-feira (19) no Globoplay, abordará as alterações hormonais e os tabus relacionados ao envelhecimento feminino. Além de Leilane, o bate-papo contará com as presenças da influencer Thaynara OG e da ex-‘BBB’ e ginecologista Marcela Mc Gowan.

Modelo brasileira Stephanie Yashimura com vitiligo inspira quebra de padrões: ‘Eu não preciso me camuflar’

Stephanie Yashimura, de 28 anos, é destaque em site internacional, e suas fotos nas redes sociais fortalecem a autoestima de quem tem a mesma doença de pele

Sephanie Yashimura Foto: Reprodução Instagram
Sephanie Yashimura Foto: Reprodução Instagram

A técnica de radiologia Stephanie Yashimura, de 28 anos, é destaque nesta quinta-feira no site do ‘Daily Mail’.

O site conta a história da brasileira, que está fazendo sucesso como modelo. Sephanie, que tem vitiligo, acaba de realizar uma campanha de beleza para um salão em Campos dos Goytacazes (RJ). Nas redes sociais, ela se tornou referência e fortalece outras jovens com a doença.

Stephanie em campanha de beleza Foto: Reprodução Instagram
Stephanie em campanha de beleza Foto: Reprodução Instagram

Stephanie descobriu uma mancha branca acima do olho quando tinha 14 anos. Em meses, a mancha se espalhou pelo rosto e pelo corpo. Ela recebeu, então, o diagnóstico de vitiligo.

Stephanie Yashimura Foto: Reprodução do Instagram
Stephanie Yashimura Foto: Reprodução do Instagram

Na adolescência, sofreu para se aceitar: usava blusa de manga comprida e roupas fechadas para não chamar a atenção. Aos 20 anos, 80% de sua pele havia perdido o pigmento. No ano passado, Stephanie foi abordada por uma maquiadora, que a convidou para uma sessão de fotos.

“Não, eu não preciso me camuflar”, Stephanie diz em um vídeo, publicado em seu Instagram. Em outra publicação, ela questiona: “Quantas vezes coisas boas aconteceram na sua vida em consequência de algo que deu errado?”. Numa terceira, fez a seguinte legenda: “Escolhi uma foto para mostrar o quanto me sinto bonita e sexy justamente por ter vitiligo”.

Depois que começou a publicar fotos no Instagram, passou a receber inúmeras mensagens. “Você é uma linda mulher, também tenho vitiligo”, escreveu uma seguidora. “Você é inspiração para muitas de nós”, comentou outra sobre a modelo, que virou referência de quebra de padrões. “Você tem que ir contra a pressão estética que te diz o tempo todo o que é bonito e o que é feio”, escreveu num post. Ela foi e é referência de beleza, autoaceitação e autoestima.

Modern Love: Ele fez o carinho parecer algo simples

Namorar para uma mulher transgênero, segundo a minha experiência, significava expectativas baixas e sexo casual. Então, conheci Jack
Denny Agassi, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

Ilustração de Brian Rea/The New York Times

Minha biografia no Grindr (aplicativo de namoro) dizia: Mostre-se aberto a pessoas trans. Mande o rosto para conversar”.

Era difícil estar em um aplicativo para sexo casual gay sendo uma mulher trans. A maioria dos homens no meu feed queriam apenas transar entre eles. Mas eu sabia que no Grindr havia homens hetero que desejavam uma mulher como eu. Eu também os queria.

Foi onde eu conheci Jack. Com 22 anos, ele era alguns meses mais velho do que eu, e, fora a idade, o seu perfil estava em branco, em geral indicando um homem cisgênero hetero cauteloso em relação a sua atração por mulheres trans. Em geral, as mensagens que eu recebia começavam com um texto vulgar, às vezes fotos de nus não solicitadas.

Eu morava em Morningside Heights, e fazia mestrado em comunicações estratégicas na Fordham University. Uma noite, eu estava acordada até tarde trabalhando quando recebi uma mensagem dele no Grindr, uma selfie. Entre o seu cabelo castanho claro, a barba de dois dias e um olhar meigo, sua camisa Lacrosse se destacou mais. Parecia um garoto de tipo esportivo com quem teria namorado no colégio.

Depois da foto, mandou um “Alô”.

As mensagens na minha caixa no Grindr em geral passavam direto para a caçada: “Tá a fim agora?” “No carro?” Os homens que entravam em contato comigo por suas fantasias a respeito de uma mulher trans tornavam difícil para mim sentir que estava sendo vista como uma pessoa em geral, e menos ainda como uma pessoa merecedora de respeito.

Embora meu interesse tivesse sido estimulado pela foto de Jack, foi sua gentileza que me atraiu.

Nossas breves conversas esporádicas ao longo de dois meses foram inofensivas. Eu o ignorava, mas quando eu ia para a faculdade e passava horas na biblioteca, ele se mostrava persistente.

“Meu desejo sexual está muito baixo atualmente”, escrevi. “Dê um tempo, eu vou ligar pra você”.

“OK”.

Quando voltei aos meus estudos, ele acrescentou: “Só para você saber, podemos fazer coisas que não têm a ver com sexo e apenas ficar juntos. Seria divertido”.

Este se tornou o nosso esquema: ele era suficientemente distante para mostrar interesse sem pressão, e eu gostava do seu jeito relaxado, considerando as exigências dos meus estudos. A sua tranquilidade me levou a confiar nele, e então marcamos um dia para nos conhecermos.

A primeira tarde em que Jack veio em casa, ele admirou a minha banheira e segurou o copo de água com ambas as mãos. A sua figura discreta em um casaco de lã bege e uma echarpe longa me lembrava, em sentido positivo, John Bender de O Clube dos Cinco. No meu quarto, ficou interessado nos meus bonecos da Power Ranger amarela, e notou o meu prêmio acadêmico enquadrado perto deles no peitoril da janela.

“Você foi para SUNY Oneonta?” ele perguntou. “Eu fui para a SUNY Potsdam”.

Eu imaginei meus amigos que também estudaram na Potsdam comendo na mesma lanchonete de Jack, ficando bêbados na mesma festa de fraternidade. De repente, a pessoa que eu vira como um estranho agora se enquadrava no meu mundo.

Eu imaginei que tipo de veado ele via da janela do dormitório dele, vagueando pela grama ao alvorecer. Ou como ele passaria o dia quando a escola cancelasse as aulas por causa da neve. Ou aonde ele poderia ter ido se seus pais pudessem pagar uma escola particular.

Sentamos na minha cama, me encostei na parede. Ele apoiou a cabeça na minha coxa e colocou os braços ao redor da minha cintura. “Que estranho!”, pensei. Tirando a intimidade sexual, os meus lances casuais eram tipicamente sem romantismos, sem abraços ou expressões de carinho.

Eu o beijei e rolei para cima dele. Tirei a camisa e ele me abraçou forte. Afundou o rosto no meu peito e disse: “Gosto de você. Acho você muito legal”.

Sem saber ao certo o que estava sentindo, disse: “Ah, acho você muito legal também”.

Na vez seguinte que estive com Jack, ele passou a noite no meu apartamento. Foi então que, acordada na minha cama às 4 da manhã, me dei conta de que nunca tinha deixado um cara dormir em casa antes. O seu calor esquentava a cama, então fui discretamente até o banheiro para me refrescar. Mandei uma selfie desorientada para os meus amigos pelo Snapchat, despenteada e com os olhos vermelhos.

“Como vocês conseguem lidar com essa coisa de passar a noite juntos?”, escrevi. “Eu não consigo dormir de jeito nenhum”.

Em geral, meus casos com homens estranhos eram breves. Eles não ficavam olhando a minha banheira nem se interessavam pela minha formação acadêmica antes do sexo, e depois eles não se demoravam a ficar.

Voltei para a cama, incomodada pelo trovão do seu ronco, mas o seu rosto adormecido no meu travesseiro me tocou. Pela primeira vez, a ideia de compartilhar a cama com um homem não era fruto da minha imaginação. Agora eu tinha uma imagem real desta fantasia; podia fingir que Jack era meu namorado, pegar no seu rosto e sussurrar: “Amo você, boa noite”, depois adormecer e encontrá-lo em algum lugar nos seus sonhos como se tivéssemos feito isto umas cem vezes antes.

No dia seguinte, ele viajou para visitar a família para as festas de fim de ano e as primeiras semanas do ano novo.

“feliz natal”, escrevi.

“pra você também, querida”, respondeu.

Depois da nossa noite juntos, não ouvi mais falar nele a não ser que eu tomasse a iniciativa – uma mudança inesperada, em vez de ceder à minha insegurança e achar que a noite juntos tivesse significado muito pouco para ele, e portanto que eu significava pouco, eu imaginei outros cenários: ele me pedindo para dormir na casa dele, para variar, ou espontaneamente ligando para mim enquanto eu estava na fila para comprar o meu café da manhã. Mas como eu supus um relacionamento baseado somente no sexo para começar, fiquei envergonhada por alimentar estes sentimentos.

“sinto sua falta”, ele escreveu numa manhã.

“verdade?”

Ficamos em contato e ocasionalmente nos víamos, com algumas semanas entre os encontros. Em uma manhã quente, ele roncou atrás de mim enquanto estava sentada no chão ao lado da minha cama, trabalhando na minha tese. Ele colocou a mão no meu rosto, para que eu percebesse que ele estava acordado. Sem tirar os olhos da tela do laptop, peguei a sua mão e dei beijinhos na palma, deliciada por estas alegrias tão comuns – o tipo de carinho que aos poucos me senti confortável em demonstrar.

Querendo ser mais do que um caso para ele, procurei uma terapeuta para me orientar em relação aos meus crescentes sentimentos.

As mensagens periódicas de Jack de “sinto sua falta” continuaram, agora com emojis de coração, uma intimidade sem precedentes. E eu retribui o sentimento. Eu me sentia feliz por expressar a minha adoração de modo tão direto, até que as semanas entre um encontro e outro e troca de mensagens transformaram-se em meses de silêncio.

Recorri ao Grindr como o meu porto seguro porque namorar sendo trans é muito complicado. Transar sem compromisso era mais fácil para mim. A minha barra de exigência era muito baixa, e então conheci Jack, que me viu como alguém que é mais do que um corpo, apenas para ter sua saída misteriosa ecoando uma insegurança incipiente que eu evitara durante anos: ser trans implica que eu não sou suficientemente real para merecer um tratamento decente.

Desmoronei na terapia, procurando reunir a coragem de dizer em voz alta o que era inegavelmente a verdade: “Ele me deixou”.

“Não tenho intenção de culpar você”, disse a terapeuta, “mas acaso o fato de ele ser um homem cis e você uma mulher trans não teria influenciado?”

Não queria culpar o Jack, que me mostrou uma novo forma de carinho que fez com que o desejo fosse algo tão simples quanto quando um garoto e uma garota se gostam. Mas ele também tornou o abandono algo simples; tudo isto ainda não seria o suficiente.

Lá no fundo, neguei quanto minha mera existência de mulher trans poderia custar para ele. Jack, ao me cortejar, alimentou a possibilidade de que as minhas fantasias românticas pudessem se realizar, que eu  poderia ser vista como uma pessoa complexa em lugar de uma figura fetichizada da imaginação de alguém. Depois de ter sido abandonada por ele, ruminei sobre a minha insegurança de que sendo uma trans isso me negava até um simples adeus.

E, no entanto, eu sei que sou real porque a minha transição, quando adolescente, exigiu uma certeza excepcional. Os médicos e os psiquiatras perguntavam constantemente sobre a minha decisão.

“Sim, tenho certeza”, eu repetia, e me tornei mais real a cada ano. Com Jack, eu me senti ainda mais real. Não só ele me viu como uma mulher, mas como uma mulher que vale a pena ter.

Podia me culpar por ser trans pelo desaparecimento de Jack, mas talvez não tivesse nada a ver com isto. Talvez ele odiasse o seu emprego. Talvez a sua família tenha se desmantelado. Talvez o prazer que sentimos juntos tenha sido o contraste de alguma dor que carregávamos.

Nos dias de solidão, eu me imagino no SUNY Potsdam. Em uma festa de fraternidade, eu danço meio bêbada na direção de Jack, com luzes azuis baratas roçando as curvas dos nossos rostos, o suor pingando como vaga-lumes. Sweet Caroline de Neil Diamond berra na festa. “Os bons tempos nunca pareceram tão bons”, todos gritam. “Eu estava inclinada a acreditar que nunca seriam”. Eu me vejo na lanchonete onde Jack e eu nos aproximamos ao mesmo tempo do buffet de saladas. Quando ele me vê, dá uns passos para trás e diz: “Você primeiro”, com um sorriso tão largo que eu precisaria de ambas as mãos para segurá-lo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

‘Bullying e estupros’: investigação revela problemas na escola de ioga multinacional Sivananda

A jornalista da BBC Ishleen Kaur era professora de ioga da Sivananda, um dos maiores movimentos de ioga do mundo, até que uma postagem desconcertante de rede social a levou a descobrir várias denúncias de abuso sexual.
Por BBC

‘Para mim, a Sivananda acabou’, diz Ishleen Kaur — Foto: Acervo Pessoal/Ishleen Kaur via BBC

Aviso: esta reportagem contém descrições de abuso sexual.

A jornalista da BBC Ishleen Kaur era uma dedicada professora de ioga da Sivananda, um dos maiores movimentos de ioga do mundo, até que uma desconcertante postagem de rede social a levou a descobrir várias denúncias de abuso sexual que ocorreram durante décadas até os dias atuais. Este é o seu relato:

Desde que descobri a ioga, nos meus 20 e poucos anos, ela se tornou uma grande parte do meu mundo. Assim como para muitos iogues devotos, não era apenas uma aula de ginástica para mim, mas um estilo de vida. Não apenas dei aulas no centro Sivananda local, como me voluntariei para cozinhar e limpar. Os ensinamentos da Sivananda influenciaram todos os aspectos da minha existência.

Mas, em dezembro de 2019, recebi uma notificação no meu celular. Era uma postagem no meu grupo da Sivananda no Facebook sobre o venerado fundador do movimento, Swami Vishnudevananda, já falecido.

Uma mulher chamada Julie Salter havia escrito que Vishnudevananda havia abusado sexualmente dela durante três anos na sede da Sivananda, no Canadá.

Ela escreveu que quando finalmente encontrou forças — décadas depois — para denunciar o episódio ao conselho de administração da Sivananda, “as reações variaram do silêncio à tentativa de silenciar”.

Já entrevistei 14 mulheres que acusam professores veteranos da Sivananda de cometer abusos, muitas das quais não compartilharam isso com a família ou amigos, muito menos divulgaram isso publicamente. Também falei com uma ex-funcionária que disse que suas preocupações não foram levadas em conta pelo conselho da Sivananda.

Minha investigação revelou denúncias de abuso de poder e influência dentro da organização que eu tanto prezava.

Lembro claramente do meu primeiro dia no ashram (centro de meditação e ensino religioso) da Sivananda em Kerala, no sul da Índia, onde me formei como professora de ioga em 2014. Na parede, havia uma foto magnífica de Swami Vishnudevananda, o falecido fundador da Sivananda, e o homem que Julie viria a denunciar.

Seus ensinamentos eram tão poderosos que muitos iogues renunciaram a todas as conexões mundanas e dedicaram suas vidas à organização.

Eu conseguia entender por quê. Estava passando por um momento muito desafiador, e a Sivananda me trouxe de volta a paz. Os asanas — ou posturas — me deram força física; os princípios de karma, pensamento positivo e meditação da Sivananda nutriram minha alma.

Ishleen no ashram da Sivananda em Kerala, na Índia — Foto: Acervo Pessoal/Ishleen Kaur via BBC
Ishleen no ashram da Sivananda em Kerala, na Índia — Foto: Acervo Pessoal/Ishleen Kaur via BBC

Em 2015, casei com um homem que morava em Londres. Fiquei assustada com a ideia de me mudar para ficar com ele, até que descobri que havia um centro Sivananda em Putney, não muito longe da nossa nova casa. Meu marido costumava brincar que o centro era meu primeiro amor, não ele.

Dois meses após a postagem de Julie Salter no Facebook, dois membros do conselho da Sivananda vieram da Europa para conversar com a equipe de Putney. Eu esperava que eles respondessem pelo menos algumas das muitas perguntas que eu tinha na cabeça. Mas a resposta deles foi vaga, e eles pareceram defensivos durante a sessão de perguntas e respostas que se seguiu.

Sabia que eu mesma teria de falar com Julie.

Nascida na Nova Zelândia, Julie tinha 20 anos e estava em uma viagem a Israel quando conheceu os ensinamentos da Sivananda. Ela rapidamente entrou no movimento e, em 1978, se mudou para a sede deste, no Canadá.

Vishnudevananda estava baseado lá, e Julie foi convidada a ser sua assistente pessoal, algo que ela inicialmente considerou um privilégio.

Mas ela conta que sua jornada era cruel. Trabalhava das 5h até quase meia-noite, sete dias por semana — tudo isso sem remuneração. E diz que Swami Vishnudevananda se tornou imprevisível, muitas vezes gritava com ela.

“Então, é claro, meus próprios limites estavam ficando cada vez mais fragilizados”, afirma.

Até que os eventos tomaram um rumo mais sombrio.

Um dia, quando Julie estava trabalhando na casa de Vishnudevananda, ela o encontrou deitado ouvindo fitas de devoção. Ele pediu que ela deitasse ao lado dele. Quando Julie disse que não entendia o que ele queria, ele disse a ela: “Tantra ioga” — uma prática de ioga que se tornou associada ao sexo espiritual, mas simplesmente significa trabalhar a iluminação espiritual por meio do relaxamento profundo. No entanto, Julie diz que Vishnudevananda só havia feito referência a isso em termos teóricos, durante uma palestra.

Ishleen no palco fazendo uma demonstração de Sivananda — Foto: BBC
Ishleen no palco fazendo uma demonstração de Sivananda — Foto: BBC

“Eu disse: ‘Não entendo’ e, apesar de tudo em meu corpo e na minha mente dizer ‘não’, eu deitei. E então houve o contato sexual. E depois, eu estava lá embaixo novamente, trabalhando, com muita vergonha — e tudo mais — angústia, me culpando, culpada.”

Julie diz que foi coagida a vários atos sexuais, incluindo sexo com penetração, por mais de três anos.

Saiba mais

  • A Sivananda, que também está presente no Brasil, é uma forma de ioga clássica que enfatiza o bem-estar físico e espiritual;
  • Fundada por Swami Vishnudevananda em 1959, em Montreal, no Canadá, ganhou este nome em homenagem a seu guru Swami Sivananda;
  • Há cerca de 60 ashrams e centros de Sivananda em 35 países ao redor do mundo e cerca de 50 mil professores de Sivananda formados;
  • Vários outros gurus de ioga renomados foram acusados ​​de abusar de sua posição nos últimos anos, incluindo Bikram Chaudhry, Pattabhi Jois e Bhagwan Rajneesh;
  • “Guru” é uma investigação da BBC conduzida por Ishleen Kaur e produzida por Louise Adamou. Ouça o podcast (em inglês).

O relacionamento guru-discípulo, conhecido na ioga como guru shishya parampara, é um acordo tácito de que o seguidor se renderá aos desejos do guru.

Ela agora considera as ações de Vishnudevananda como estupro, já que estava num posição frágil para consentir, dada a “dinâmica de poder” em jogo.

“Eu estava bastante isolada, morando do outro lado do mundo, da família, de tudo o que conhecia no passado. Dependia financeiramente da organização.”

Falei então com duas mulheres que responderam em poucos minutos ao post de Julie no Facebook, alegando que Vishnudevananda havia abusado delas também.

Pamela me contou que Vishnudevananda a estuprou durante um retiro em 1978 no Castelo de Windsor, no Reino Unido, quando ela estava deitada em um profundo estado de relaxamento, conhecido na ioga como postura do cadáver.

Lucille relata que ele a estuprou três vezes em meados dos anos 1970 no ashram canadense. Ela conta que, nas duas primeiras vezes, ela ingenuamente justificou o ato como ioga tântrica, mas na terceira vez ele deu dinheiro a ela, e ela se sentiu “como uma prostituta”.

Vishnudevananda morreu em 1993, mas Julie levou mais seis anos para encontrar forças para deixar a organização.

Sua única esperança é que, ao se manifestar publicamente agora, ela possa salvar outras pessoas do sofrimento que ela passou. Porque, como eu viria a descobrir, Vishnudevananda pode ter morrido, mas o abuso dos devotos da Sivananda não morreu com ele. A postagem de Julie no Facebook abriu a porteira.

Desde então, conversei com 11 mulheres que fizeram sérias acusações contra dois outros professores da Sivananda, um dos quais a BBC acredita ainda estar ativo na organização.

Entre as acusações chocantes está o relato de Marie (nome fictício), que diz que foi aliciada por um professor — que não podemos identificar por motivos legais — durante vários anos.

Ela conta que ficou muito confusa quando o relacionamento deles se tornou sexual, mas sentiu que não tinha escolha a não ser seguir em frente. Depois de mais de um ano sem qualquer contato sexual com ele, ela se lembra de uma ocasião em que ele entrou em seu quarto sem ser convidado. Silenciosamente, subiu em cima dela, a penetrou, ejaculou e saiu sem dizer uma palavra.

Cinco outras mulheres me disseram que esse mesmo homem abusou sexualmente delas. Elas não se conhecem, mas todas as suas histórias seguem um padrão semelhante de aliciamento e abuso.

Catherine (nome fictício) contou que tinha apenas 12 anos e participava de um acampamento infantil da Sivananda no Canadá, nos anos 1980, quando o professor começou a se interessar por ela. Ela diz que o homem fazia massagem e tocava na sua bunda. Quando ela fez 15 anos, ele começou a tocá-la de forma mais explícita, pegando nela entre as pernas e tocando seus seios. Ela afirma que a última vez que foi abusada por ele tinha 17 anos. Ela estava tirando uma soneca e acordou com ele em cima dela. Ela deixou a organização naquele dia.

Outra mulher afirma que foi abusada pelo mesmo homem em 2019.

Entramos em contato com esse homem, mas ele não respondeu às acusações que apresentamos. A BBC entende que ele ainda está ativamente envolvido com a Sivananda na Índia, embora a organização negue isso.

O outro professor acusado de abuso é Maurizio Finocchi, também conhecido como Swami Mahadevananda. Conversei com oito mulheres que apresentaram acusações contra ele. Uma delas, Wendy, trabalhava como assistente pessoal de Mahadevananda na sede do Canadá ,em 2006.

Uma de suas tarefas era imprimir seus e-mails e levá-los até sua cabana. No dia em questão, ele pediu para ela levar os e-mails e seu café da manhã no quarto, onde ele estava sentado na cama. Quando entregou a bandeja, ela conta que ele agarrou seu braço e puxou o lençol, e ela percebeu que ele estava se masturbando. Ela diz que ele ejaculou no seu braço.

“Eu só me lembro de sentir que praticamente não era humana para ele. Eu era realmente um meio para um fim.”

Wendy diz que se as mulheres abordassem seus superiores para reportar um comportamento preocupante — e em alguns casos, criminoso —, a equipe colocaria isso no âmbito de um ensino espiritual chamado “graça do guru”.

“Se algo fosse problemático ou confuso — e estou falando até de coisas administrativas… mas certamente de relações sexuais e relacionamentos questionáveis —, diriam a você: ‘Não, o fato de você estar tendo um problema é, na verdade, ‘graça do guru’.”

“Como se você estivesse aprendendo algum tipo de lição valiosa.”

Entramos em contato com Mahadevananda para oferecer a ele a oportunidade de responder às acusações, mas nossa solicitação não foi respondida.

A BBC, no entanto, viu uma cópia de um e-mail que ele enviou a uma advogada que recebeu financiamento coletivo de um grupo da comunidade Sivananda no Facebook, chamado Project Satya, do qual me tornei membro. No e-mail, ele se desculpa pelo que chama de seus “erros” e promete “se esforçar para não fazer isso de novo”.

Outra coisa que eu queria entender era: quanto disso a administração da Sivananda já sabia?

Julie me contou que finalmente encontrou forças para denunciar seu abuso em 2003, quando compareceu a uma reunião com um membro do Conselho de Membros Executivos (EBM, na sigla em inglês) — o conselho criado por Vishnudevananda para cuidar da Sivananda após sua morte. Ela diz que o membro do conselho era Swami Mahadevananda.

“Ficamos lá por um tempo, mas basicamente ele reconheceu que sabia disso havia anos.”

Swami Mahadevananda é um dos outros professores alvo de acusações de abuso sexual — mas na época Julie não sabia disso.

Julie diz que compartilhou as acusações com mais quatro membros do conselho nas semanas seguintes.

Os conselheiros negam que Julie tenha discutido suas denúncias com eles em 2003. No entanto, a BBC viu um e-mail de Mahadevananda no qual ele confirma que encontrou com Julie naquela época. Ele descreve o encontro como informal, mas diz que depois dessa reunião as denúncias se tornaram “de conhecimento amplo”.

Em 2006, Julie participou de uma reunião mediada com a EBM, em que ocorreram discussões sobre algum tipo de apoio financeiro para ela. As denúncias de abuso também foram levantadas.

Os conselheiros disseram à BBC que ambos os lados ficaram satisfeitos com os resultados na época, mas Julie afirma que nada se materializou. Portanto, no ano seguinte, o advogado de Julie escreveu ao conselho pedindo uma compensação e ameaçando entrar com uma ação de indenização.

Em resposta, ela recebeu uma carta do advogado da EBM questionando por que Julie estava levantando o assunto tanto tempo depois do suposto abuso.

A Sivananda afirma que, após a reunião com Julie, eles começaram a implementar protocolos para membros e convidados destinados a oferecer a todos um ambiente seguro para se falar sobre tais denúncias.

Perguntamos por que eles continuam a reverenciar o homem que abusou dela sexualmente. A “Organização Sivananda honra sua linhagem e seus ensinamentos”, foi a resposta deles.

Quanto a Mahadevananda, nossa investigação encontrou evidências de que o conselho sabia de sua suposta impropriedade sexual já em 1999. Porque ele mesmo admitiu isso a eles.

Swami Saradananda, uma mulher americana que fazia parte do EBM na época, contou que em 1998/99 recebeu um telefonema da diretora do ashram de Nova Déli (Índia) aos prantos. A diretora disse a ela que Mahadevananda estava andando sem calça — o que Saradananda interpretou como de cueca.

Quando ela telefonou para questionar Mahadevananda, ele explicou que não era verdade. Ele não estava de cueca — estava nu. E essa não foi sua única revelação.

“Ele me disse que não usava nada abaixo da cintura e entrou no escritório onde [a diretora de Déli] estava trabalhando e se masturbou na frente dela.”

Swami Saradananda, profundamente desconcertada, diz que levantou essa questão na reunião seguinte do EBM.

Ela diz que todos os dispositivos de gravação foram desligados, e a secretária retirada da sala.

Mahadevananda estava presente e, segundo ela, confirmou que seu relato era verdadeiro.

“E ele disse: ‘Mas se ela não quiser que eu faça isso, tudo bem, grande coisa. Não vou mais fazer.'”

Quando ela interrompeu para perguntar como iriam lidar com a confissão de Mahadevananda, um dos membros do conselho respondeu: “Bem, ele já disse que não vai mais fazer isso. O que você quer? O sangue dele?”

Em poucos meses, Saradananda recebeu um fax informando que ela havia sido removida por votação do conselho. Apresentamos essa alegação ao EBM, mas eles não responderam.

As revelações de Saradananda podem ser responsáveis ​​pela falta de surpresa que Wendy testemunhou em 2006, quando disse a um membro sênior da equipe na sede canadense que Mahadevananda havia ejaculado nela.

A resposta dele, segundo ela, foi: “Droga, de novo não”.

O membro da equipe disse a ela para não se preocupar — a organização havia providenciado uma terapia para Swami Mahadevananda.

“Eu não sabia que no Canadá isso seria definido como abuso sexual. E não sabia naquela época que isso poderia ter sido levado à polícia”, diz Wendy.

Treze anos depois, o EBM acabou investigando Mahadevananda e este anunciou sua aposentadoria em sua revista mensal — uma aposentadoria que eles admitiram que estão financiando. A nota dizia que a diretoria executiva agradecia seu “serviço dedicado e inspirador”.

Carol Merchasin, a advogada contratada por financiamento coletivo pelo Project Satya, diz que conversou com de 25 a 30 mulheres que fizeram denúncias de abuso sexual contra funcionários da Sivananda. E diz que descobriu que cada um dos relatos é crível.

No caso de Catherine, ela questiona por que o incidente não foi denunciado à polícia depois que os conselheiros tomaram conhecimento das acusações. Quando, muitos anos depois, os pais dela descobriram e os confrontaram, Carol conta que disseram a eles que nada poderia ser feito sem evidências.

Segundo o EBM, o professor acusado de abusar de Catherine e outras mulheres foi suspenso de suas funções enquanto investigavam o caso. Mas fomos informados por várias fontes que ele ainda está envolvido nos ashrams indianos da Sivananda, e quando liguei para o ashram de Kerala, me disseram que ele de fato ministrou um curso completo lá no início deste ano.

O EBM recusou o pedido de entrevista, mas nos enviou uma declaração que reproduzimos a seguir na íntegra:

“O Conselho de Administração se solidariza totalmente com aqueles que se manifestaram e oferece a qualquer indivíduo que sinta que pode ter sido afetado pela conduta referida [na investigação da BBC] a garantia de que não vai tolerar abusos ou ignorar comportamento impróprio. E se desculpa sem reservas por quaisquer erros históricos cometidos ao abordar as denúncias detalhadas na [investigação].

“Como resultado dessas denúncias, a Sivananda encomendou uma investigação independente e nomeou especialistas jurídicos que ajudaram a revisar e implementar políticas de proteção e colocar em prática o treinamento apropriado. A Organização Sivananda estabeleceu um sistema de denúncia confidencial para qualquer pessoa que esteja preocupada com abusos. É uma prioridade absoluta para a Organização Sivananda que qualquer pessoa que entre em contato com ela, em qualquer função, esteja protegida de abuso ou sofrimento. A Organização Sivananda é uma ordem monástica dedicada à saúde física, mental e espiritual e é comprometida com a segurança de todos os seus membros. “

Eu vi quatro dos relatórios da investigação sobre o professor que não podemos identificar, todos os quais concluem que, com base no juízo de probabilidade, as vítimas são confiáveis ​​e seus testemunhos são verdadeiros, e que duas delas relataram seus abusos ao EBM.

Em abril, voltei ao ashram de Putney, onde passei os últimos cinco anos como professora e devota. Mas, desta vez, não entrei.

Me ocorreu que a natureza avassaladora da Sivananda que me atraiu também era o que a tornava tão perigosa. Todas as mulheres com quem conversei me disseram que era fácil perder o senso de realidade, o que tornava mais difícil questionar o que estava acontecendo.

E estou ciente de que, durante nossa investigação, as mulheres que se manifestaram eram todas ocidentais. Mas parece que também há vítimas indianas — vi e-mails de mulheres detalhando o que aconteceu com elas, mas estavam com muito medo de falar comigo.

Para mim, a Sivananda acabou.

*Investigação produzida por Louise Adamou

Eduardo Leite assume homossexualidade no ‘Conversa com Bial’: ‘Sou um governador gay, e não um gay governador’

Governador do Rio Grande do Sul conversa com Pedro Bial na noite de quinta-feira, 1/7

Foto: Reprodução/TV Globo

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), é o entrevistado do Conversa com Bial de quinta-feira, 1/7. De São Paulo, onde discute as prévias do PSDB para as eleições à presidência da República, o governador mais jovem do Brasil se conectou com Pedro Bial e falou sobre sua orientação sexual, assumindo-se publicamente homossexual pela primeira vez.

“Eu nunca falei sobre um assunto que eu quero trazer pra ti no programa, que tem a ver com a minha vida privada e que não era um assunto até aqui porque se deveria debater mais o que a gente pode fazer na política, e não exatamente o que a gente é ou deixa de ser”, explica. Nas palavras do governador, “nesse Brasil com pouca integridade a gente precisa debater o que se é”.

“Eu sou gay. E sou um governador gay, e não um gay governador, tanto quanto Obama nos Estados Unidos não foi um negro presidente, foi um presidente negro. E tenho orgulho disso.”

Atual governador do Rio Grande do Sul conversa com Pedro Bial — Foto: Reprodução/TV Globo
Atual governador do Rio Grande do Sul conversa com Pedro Bial — Foto: Reprodução/TV Globo

Transgêneros amarelos lidam com racismo da comunidade LGBT e transfobia de comunidades asiáticas

Relatos apontam xenofobia, padrão em que o ‘gay ideal’ é branco e resistência dentro de famílias tradicionais

Jéssica Nakamura
Susana Terao

A jornalista Gui Takahashi, 34 – Danilo Verpa/Folhapress

Yumie Thomas enfrentava uma depressão tão profunda aos 16 anos que chegou a pesquisar na internet formas de se suicidar. No meio dessa busca, acabou encontrando uma carta escrita pela adolescente americana transgênero Leelah Alcorn antes de tirar a própria vida. “Me descobri trans lendo uma carta de suicídio”, conta o produtor de arte, que até então acreditava que, para se identificar como homem, precisava necessariamente passar pela cirurgia de redesignação sexual.

Embora sua experiência seja similar à de inúmeras pessoas que não se identificam com o sexo biológico com que nasceram, existem particularidades vivenciadas apenas por pessoas trans amarelas—como são classificados os grupos étnico-raciais do Leste e Sudeste Asiático e seus descendentes no Brasil.

“A parte mais próxima do Japão com que eu tive contato parou de falar comigo quando eu me assumi lésbica. Eu frequentava a comunidade nikkei [de descendentes de japoneses] no Rio, onde moro, mas me sentia muito julgado. Aí nunca mais fui”, conta Thomas, que hoje tem 23 anos.

Descendente de holandeses, indígenas e japoneses, a estilista paulista Teodora Oshima, 31, também diz ter sentido resistência da parte asiática da família. Como a relação com seu pai “já não era muito verbal”, a revelação de que se identificava como mulher trans se deu por email.

“Ele nunca respondeu, mas sempre perguntava de mim para minha mãe e minha irmã”, conta, ressaltando que isso não significa que ele não a aceite. “Não enxergo como algo proposital. Ele demonstra amor de outras maneiras. São duas barreiras, a da masculinidade e a da cultura japonesa.”

Para Rodrygo Tanaka, fundador da página Asiáticos pela Diversidade no Facebook, não se pode ignorar o conservadorismo que existe dentro das comunidades de imigrantes e descendentes, mas também é preciso entender os fatores culturais e históricos que essas instituições carregam. “O principal desafio continua sendo a dupla luta: contra o racismo e a xenofobia que existem dentro da comunidade LGBT e contra a LGBTfobia que existe dentro das nossas comunidades raciais”, diz Tanaka.

“Eu vivi durante muito tempo nesse meio gay tóxico, que é muito xenofóbico, racista, gordofóbico”, conta a jornalista paulista Gui Takahashi, 34, que, na época, era preterida pelos homens, muitos dos quais colocavam em aplicativos de encontro que “não curtiam pessoas amarelas”.

“Como existe uma certa hegemonia racial dentro da comunidade LGBT, em que o branco é o corpo universal, o ‘gay ideal’ é o gay branco”, explica o cineasta Hugo Katsuo, que pesquisa a representação de corpos amarelos na pornografia ocidental. “Nos parâmetros que temos atualmente, a masculinidade branca é a ideal, a asiática é emasculada e a negra extrapola os níveis considerados aceitáveis.”

Depois da transição, no entanto, Gui Takahashi diz ter conhecido “o outro lado da moeda”, passando a ser muito mais procurada: “Mas era muito com essa fala de objetificação e fetichização, tanto pela questão trans como pela racial.”

A designer gráfica carioca Yuki Hayashi, 28, relata experiência semelhante. “Eu saí desse lugar de não desejo que ocupava quando era um menino gay e passei a receber assédio de homens, muitos deles casados, me procurando para realizar fantasias, sempre no sigilo, nesse lugar do fetiche mesmo”, conta ela, que se considera lésbica e namora uma travesti negra desde a época em que as duas se identificavam como homens gays —elas passaram juntas pelo processo de transição.

O fotógrafo Narumi Tsuruta, 34, revela ainda outra camada do preconceito. Nascido no Japão e criado em São Paulo, ele diz que, por ter sotaque, algumas pessoas tentam corrigir os artigos e pronomes que usa. “Acham que estou falando português errado, dizem ‘você tem que falar obrigada, obrigado quem fala é homem’”, conta. “Eu compreendo que é uma luta diária, mas parei de pensar nisso porque minha masculinidade não depende dessas coisas.”

O fotógrafo Narumi Tsuruta, 34 – Danilo Verpa/Folhapress

Por muito tempo, Narumi não conseguia descrever as agressões que sofria, tanto em termos raciais quanto de gênero. “Eu sentia que não tinha lugar de fala. Embora preconceito não se compare, não conseguia chamar o que passava de racismo, porque negros sofrem mais. Também não podia reclamar de transfobia, porque mulheres trans sofrem mais.”

Foi esse sentimento de desamparo que o motivou a produzir e vender diários de transição —cadernos para registrar as mudanças corporais e organizar os sentimentos ao longo da terapia hormonal— e criar o perfil Transasiáticos (@transasiaticos) no Instagram, junto de Yumie Thomas.

Já Oshima, a estilista, contou com o apoio da designer Hayashi, única pessoa amarela que ela conhecia que estava passando pela mesma experiência. Hoje em dia, as duas se identificam como travestis. “Eu não conheço nenhuma pessoa trans que trabalhe em equipe de estilo. Tive sorte porque entrei no mercado antes de ter transicionado. Eu era vista como homem gay, aí era aceita. Se fosse depois da transição, talvez eu não tivesse nem conseguido entrar no mercado”, diz.

Gui Takahashi conta que sempre quis trabalhar com moda, mas, por pressão da família, acabou se formando em direito. Após fazer um curso de jornalismo de moda, conseguiu entrar no mercado que sempre almejou, especializando-se também na área da beleza. “Por estar num mercado que tem muitos cabeleireiros e maquiadores LGBT, não senti tanto esse preconceito e não tive muita dificuldade para me inserir, mas imagino que outros segmentos sejam bem piores”, diz.

“Historicamente, quando falamos nessas pessoas, pensa-se em salão de beleza. O mercado da beleza é onde somos bem-vindas”, diz Gabriela Augusto, fundadora da Transcendemos, consultoria que tem como principal objetivo ajudar outras organizações a se tornarem mais inclusivas.

Ela ressalta a importância de se investir na capacitação dessa população, que muitas vezes não consegue terminar os estudos porque precisa sair de casa muito cedo, devido ao preconceito da família. “A exigência das vagas é alta, aí você acaba esbarrando em várias outras questões sociais”, diz.

A estilista Teodora Oshima, 31
A estilista Teodora Oshima, 31 Cai Ramalho/Divulgação

Além da representatividade no mercado de trabalho, Hayashi aponta também a importância de ter se enxergado na tela do cinema na figura de Julia Katharine, 44, protagonista e corroteirista de “Lembro mais dos Corvos” (2017), filme a que assistiu no início de seu processo de transição. “Foi a primeira vez que eu vi uma travesti de ascendência asiática no cinema, algo que nunca tinha nem pensado que existia”, conta.

Primeira realizadora trans a ter um filme exibido em circuito comercial no Brasil, Katharine acredita que corpos como o seu precisam ser naturalizados nas telas. “Gostaria de conviver mais [com a comunidade], mas eu me sinto um pouco excluída por ser uma pessoa trans, tenho muito medo da rejeição, do abandono, de não ser compreendida”, explica.

Para o cineasta Hugo Katsuo, não basta colocar esses corpos nas telas. É preciso pensar também em formas de apresentá-los que não os reduzam apenas a violência, racismo, LGBTfobia. “Não que essas denúncias não devam existir, mas elas não podem ser a única forma de representação desses corpos. Precisamos entendê-los como pessoas que têm anseios, felicidade e sonhos como qualquer ser humano.”

“Temos uma mania muito grande de ver tudo de forma muito separada: no âmbito racial só se debate raça, no de gênero só se debate gênero, no de orientação sexual só se debate orientação sexual. Para construir algo que abarque essa pluralidade de vivências, precisamos entender as coisas de uma forma menos segmentada”, defende.

O que Britney Spears enfrentou não teria acontecido a um homem

Artistas masculinos costumam ser presumidos como competentes e capazes, não importando seu passado; já as mulheres têm que provar várias vezes sua competência e sanidade
Helaine Olen , Washington Post

Britney Spears
Britney Spears em foto de 2019; cantora depôs a tribunal sobre sua tutela Foto: Jordan Strauss/Invision/AP

Sejamos claros: o que aconteceu a Britney Spears jamais teria acontecido com uma versão masculina de Britney Spears.

Em 24 minutos de um devastador testemunho perante a corte nesta semana, Spears descreveu em detalhes gráficos uma rígida existência, resultado de uma tutela à qual foi submetida desde 2008, após seu infame colapso. A tutela, conduzida por seu pai – e à qual Spears tem procurado colocar um fim por anos, de acordo com reportagem do New York Times – tem controlado quase todos os aspectos de sua vida desde então – uma vida em que ela, ao menos em alguns momentos, não pode carregar seu próprio cartão de crédito, telefone ou passaporte sem permissão, mesmo se ela for forçada a se apresentar em casas de show lucrativas em Las Vegas, às vezes contra a sua vontade.

Na corte, Britney descreveu uma vida sem privacidade. Ela foi informada de que não poderia tirar férias em Maui a não ser que concordasse em ver um terapeuta pessoalmente duas vezes por semana. Ela não poderia dirigir o carro do namorado sem permissão. Em um momento particularmente arrepiante, ela informou ao juiz que gostaria de casar e ter outro filho – ela já tem dois – mas a tutela não concordou em deixá-la remover seu DIU [dispositivo contraceptivo]. 

Isso não é mero paternalismo. É violação de direitos humanos. E totalmente assustador.

Agora pense nos incontáveis artistas homens que embarcaram em aparições públicas enlouquecidas, vício em drogas ou comportamento emocionalmente perturbado. Em poucos segundos, posso citar Michael JacksonKanye West e Robert Downey Jr., que uma vez foi levado pela polícia após entrar na casa de um vizinho pelado e dormir na cama de uma criança. Quando ligaram para o 911 [número da polícia nos Estados Unidos], você podia ouví-lo roncando ao fundo.

Há então o pai de Britney, Jamie – um homem tão raivosamente inapropriado que o ex-marido de Spears pediu e recebeu uma ordem de restrição para mantê-lo longe de seus dois filhos. 

A teoria da gestão mostrou que homens costumam ser presumidos como competentes e capazes, não importando seu passado. Nós, mulheres, por outro lado, temos que provar várias e várias vezes: nossa competência, nossa perspicácia financeira, nossa sanidade. E tutelas e comprometimentos involuntários foram usados ao longo da história para controlar homens e tomar o controle de suas finanças.

Spears – razoavelmente – gostaria de encerrar aquilo que ela considera um controle inadequado de sua vida e dinheiro. Até agora, sem sorte. “São 13 anos”, ela contou à corte. “Não faz sentido algum para o Estado da Califórnia literalmente me vigiar… Dar sustento a tantas pessoas, e pagar tantas pessoas… E ser contado de que não sou boa o bastante”.

Nós não temos como saber se tudo que Britney Spears contou à corte é preciso. Mas há várias evidências que sugerem que ela não está exagerando. Spears paga as contas e despesas legais de seu pai. Seu pai ganha uma taxa administrativa em acordos que comissiona por ela. Seus advogados recentemente cobraram-na em US$ 890 mil por quatro meses de trabalho. 

O advogado de Britney, a quem ela não escolheu, ganhou mais que US$ 3 milhões desde que começou a representá-la em 2008. Ela diz que ele nunca informou-a de que ela tinha o direito de contestar a situação legal. Nós só temos a sua palavra quanto a isso, mas é válido citar que o Times notificou o advogado de Spears por reportar Britney aos advogados de seu pai por – espere por isso – falar um palavrão em frente aos seus filhos. (Se isso realmente fosse um padrão parental, eu teria perdido o direito de ficar com meus filhos sem supervisão meses após seus nascimentos). 

Britney, enquanto isso, recebe uma mesada de US$ 2 mil por semana, mesmo que seu patrimônio tenha atingido US$ 60 milhões, e ela tenha lançado múltiplos álbuns entre os mais vendidos e se apresentado centenas, se não milhares de vezes. 

Nós não sabemos os verdadeiros detalhes da saúde mental de Britney Spears. Mas parece altamente improvável que o controle exercido pela tutela seja necessário ou certo.

Geralmente, o meio das celebridades ou Hollywood providencia o atendimento de todos os desejos de uma estrela, não importa o quão estranhos. No caso de Spears, ocorre o oposto. Essa suposta mulher louca no sótão está bancando um elenco de milhares enquanto eles lucram mantendo sua benfeitora prisioneira. É material para um filme de terror.

É fácil para muitos repudiar os obssessivos fãs por trás do movimento #FreeBritney. Em uma era de aceitação semi-massiva de teorias da conspiração, essa se parecia com qualquer outra – o conto gótico de uma cantora presa por uma tutela legal feita ostensivamente para protegê-la. Agora, ao que parece, a história é pior do que qualquer um imaginava.

Spears tem 39 anos de idade. Ela passou a maior parte de sua vida adulta cativa a esse acordo. “Eu mereço ter uma vida”, ela disse à corte. Sem dúvida ela merece – mesmo que isso implique com que ela se relacione com homens inapropriados ou desperdice a sua fortuna. É a vida dela, e isso deveria ser sua escolha.

Estou com os fãs. Já passou do tempo de termos #FreeBritney (Britney livre).