Levantamento encontra elo entre misoginia e assassinatos em massa

Alguns abusadores conseguem acesso às armas sem dificuldade
Julie Bosman, Kate Taylor e Tim Arango, The New York Times

Vigília em Dayton, Ohio, onde um atirador com histórico de misoginia matou nove pessoas esse mês. Foto: Maddie McGarvey para The New York Times

O homem que matou nove pessoas no início de agosto em Dayton, Ohio, rosnava para as colegas de classe e as ameaçava de violência. O homem que massacrou 49 pessoas em uma casa noturna de Orlando, em 2016, espancou a mulher durante a gestação, de acordo com o relato dela às autoridades. O homem que matou 26 pessoas em uma igreja de Sutherland Springs, Texas, em 2017, tinha sido condenado por violência doméstica.

As motivações dos homens que cometem assassinatos em massa são frequentemente confusas, complexas ou desconhecidas. Mas um elo em comum de muitos desses episódios é um histórico de ódio às mulheres, violência contra cônjuges, namoradas e parentes, ou o compartilhamento de opiniões misóginas na internet, apontam os pesquisadores.

Enquanto os Estados Unidos lidam com os tiroteios em massa do mês e novamente debatem a possibilidade de restrições à venda de armas, alguns defensores dessas medidas dizem que o papel da misoginia nesses ataques deve ser levado em consideração nas tentativas de evitá-los.

O fato de os tiroteios em massa serem cometidos quase que exclusivamente por homens “não consta no debate nacional”, disse o governador Gavin Newsom, da Califórnia. “Por que são sempre homens que cometem essas barbaridades?”

Ainda que uma das possíveis motivações para o atirador que assassinou 22 pessoas em El Paso, Texas, tenha vindo à tona – ele publicou um manifesto racista na internet dizendo que o ataque era uma resposta a uma “invasão hispânica do Texas” -, as autoridades tentam descobrir o que levou Connor Betts, 24 anos, a assassinar nove pessoas em Ohio, incluindo a própria irmã.

Os investigadores analisam seu histórico de antagonismo e ameaças a mulheres, e a possibilidade de isso ter desempenhado algum papel nos ataques.

Desde a matança, pessoas que conheciam Betts descreveram um homem estranho; outros citaram seus episódios de fúria e a obsessão com armas.

Esses episódios de agressividade eram frequentemente direcionados a conhecidas. No ensino médio, Betts fez uma lista de ameaças de violência física ou sexual contra seus alvos, a maioria garotas, de acordo com os ex-colegas de sala. As ameaças foram assustadoras a ponto de algumas garotas mudarem de comportamento: evitaram chamar a atenção dele, mas tampouco antagonizá-lo.

“Lembro que todos mantinham certa distância, sabendo que talvez fosse melhor não se relacionar com ele”, disse Shelby Emmert, 24 anos, ex-colega de sala. “Minha mãe queria que eu o evitasse. Ela me dizia para ficar longe de Connor Betts.”

Shannon Watts, fundadora de grupo que pede ação em relação aos ataques a armas, o Moms Demand Action for Gun Sense in America, citou uma estatística que desmente a ideia segundo a qual os tiroteios em massa são geralmente aleatórios: em mais da metade de todos os tiroteios em massa ocorridos nos EUA entre 2009 e 2017, uma cônjuge ou parente do assassino estava entre as vítimas (realizado pelo grupo de defesa do controle do acesso às armas Everytown for Gun Safety, o estudo definiu como tiroteio em massa os episódios em que mais de quatro pessoas foram mortas, excluindo o atirador).

“A maioria dos tiroteios em massa tem suas raízes na violência doméstica”, disse Shannon. “A maioria dos atiradores tem um histórico de violência doméstica ou familiar. É um sinal de alerta importante.”

A lei federal americana proíbe o acesso de pessoas condenadas por determinados tipos de crimes de violência doméstica às armas, e o mesmo vale para condenados por abuso sujeitos a medidas de restrição. Mas há muitas lacunas na legislação, e não há proteção para as mulheres envolvidas em relacionamentos sem estarem casadas, terem filhos com o abusador ou morarem com ele. Além disso, a lei federal não apresenta nenhum mecanismo para o confisco de armas na posse de abusadores.

Allison Anderman, associada sênior do Giffords Law Center to Prevent Gun Violence, disse que medidas para facilitar o confisco de armas em posse de abusadores “são um passo fundamental para salvar vidas de sobreviventes de abusos”. E ela disse que, diante do elo entre a violência doméstica e os tiroteios em massa, essas leis podem também ajudar a evitar massacres.

As pragas da violência doméstica e dos tiroteios em massa nos EUA estão intimamente ligadas. O massacre da torre da Universidade do Texas, em 1966, geralmente considerado o marco inicial da era moderna de tiroteios em massa nos EUA, teve início na véspera, quando o atirador matou a mãe e a mulher.

Devin P. Kelley, que atirou contra os fiéis em uma missa dominical em Sutherland Springs, no dia 5 de novembro de 2017, tinha sido condenado por violência doméstica pela força aérea, por espancar a primeira mulher e partir o crânio do enteado, um bebê. Ao atacar a igreja, Kelley parecia ter como alvo a família da segunda mulher.

Um ódio declarado às mulheres é frequente entre os suspeitos no longo histórico de tiroteios em massa nos EUA.

Em 1991, em Killeen, no Texas, um homem entrou no Luby’s Cafeteria e matou a tiros 22 pessoas. Recentemente, o atirador tinha escrito uma carta aos vizinhos chamando as mulheres da região de “víboras”, e testemunhas oculares disseram que, durante o tiroteio, ele poupou homens para atirar nas mulheres.

Nos anos mais recentes, alguns desses homens se identificaram como incels, abreviação em inglês de celibatário involuntário, um subgrupo de homens que manifesta sua raiva das mulheres por não lhes oferecerem sexo, e fantasia frequentemente com a violência, celebrando os atiradores dos massacres em grupos de debate na internet.

Vigília em Santa Barbara - NYTIW
Elliot O. Rodger, que matou seis pessoas na Califórnia em 2014, se sentia rejeitado pelas mulheres. Vigília em Santa Barbara. Foto: Jae C. Hong/Associated Press

Nesses sites, reverência especial é demonstrada por Elliot O. Rodger, que matou seis pessoas em 2014 em Isla Vista, Califórnia, um dia depois de publicar um vídeo intitulado “Elliot Rodger’s Retribution” [A vingança de Elliot Rodger]. Nas imagens, ele se descreve como alguém torturado pela privação sexual e promete castigar as mulheres por rejeitá-lo. Vários atiradores disseram ter se inspirado nele.

Alek Minassian, que jogou uma van sobre uma calçada em Toronto, em 2018, matando 10 pessoas, tinha publicado uma mensagem no Facebook minutos antes do ataque, elogiando Rodger. “A rebelião incel já começou!” escreveu ele. “Saúdem o supremo Elliot Rodger!”

E Scott P. Beierle, que matou duas mulheres no ano passado em um estúdio de ioga em Tallahassee, Flórida, também tinha se mostrado simpatia a Rodger em vídeos na internet nos quais atacava as mulheres e as minorias, relatando histórias de rejeição amorosa. Beierle tinha duas acusações de agressão por mulheres que dizem ter sido assediadas fisicamente por ele.

Os especialistas dizem que os mesmos padrões que levam à radicalização de supremacistas brancos e outros terroristas podem se aplicar aos misóginos que recorrem à violência em massa: indivíduos solitários e perturbados que encontram na internet uma comunidade de pessoas que pensam como eles, bem como uma válvula de escape para sua fúria.

“São furiosos e suicidas, tiveram infâncias traumáticas e vidas difíceis, e chegam a um ponto em que precisam de algo ou alguém em quem depositar a culpa”, disse Jillian Peterson, fundadora da organização de pesquisa Violence Project, que estuda os tiroteios em massa. “Para algumas pessoas, a culpa é das mulheres, e estamos observando uma alta nesse tipo de pensamento.”

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Quem são os millennials que tentam salvar a Playboy?

Revista é repaginada sob nova direção – jovem e mais inclusiva
Jessica Bennett, The New York Times

Ana Dias fotografando a capa de julho, Teela LaRoux. As modelos em ensaios nus são agora fotografadas principalmente por mulheres Foto: Stephanie Noritz para The New York Times

LOS ANGELES – “Será um ensaio fotográfico com nu completo a ser realizado debaixo d’água”, dizia uma mulher ao telefone, cuja voz podia ser ouvida nos cubículos vizinhos. A pessoa do outro lado da linha parecia não compreender. “Estou dizendo que não será em terra firme.”

Era uma manhã na central da Playboy Enterprises, e os editores preparavam o fechamento da edição de verão. Debatiam as pautas enquanto, na cozinha, um barista decorava o café com leite desenhando orelhas de coelho na espuma. No seu escritório, Shane Singh, editor executivo da Playboy, explicava que o ensaio subaquático, a ser fotografado naquele fim de semana, seria para a capa da revista.

“A água deve representar a fluidez sexual e de gênero”, disse Singh. As mulheres posando na água – os membros entrelaçados como em uma pose de balé – não eram apenas modelos, mas também ativistas. Uma delas usa a arte performática  e a mídia digital para compartilhar histórias a respeito da epidemia de AIDS. Outra é uma dançarina subaquática que promove a preservação dos oceanos. A terceira, uma artista belga, filmou a si mesma caminhando nua por um bairro de judeus ortodoxos no Brooklyn durante um feriado (foi expulsa por uma turba).

Trata-se de uma nova Playboy, mais inclusiva – se acreditarmos nos seus executivos, e se estivermos dispostos a aceitar mais uma reinvenção dessa antiga marca. Faz tempo que se debate o lugar de uma publicação cujo lema é “Entretenimento para homens” em um mundo mais igualitário. Mas, quando o fundador da Playboy, Hugh Hefner, morreu em 2017, essa discussão ganhou força: teria sido ele uma voz visionária da libertação sexual e da liberdade de expressão, ou um safado que fomentava a misoginia?

Na época, a Playboy vivia uma atordoante sequência de tentativas de recomeço. Nos anos mais recentes, a revista teve a tiragem e periodicidade reduzidas; os anúncios deixaram de ser impressos; diretores executivos foram substituídos; e, mais notável, a nudez foi brevemente banida – antes de ser trazida de volta, com a campanha “Nudez é normal”. No início do ano passado, o financista Ben Kohn, que ajudou a fechar o capital da Playboy em 2011 e atua agora como diretor executivo, disse ao Wall Street Journal que pensava em se livrar da revista, para se concentrar no licenciamento e nas parcerias.

Mas a Playboy foi relançada este ano – dessa vez com papel de luxo, sem anúncios, e com periodicidade trimestral. É editada por um triunvirato da geração millennial: Singh, declaradamente gay, 31 anos; Erica Loewy, 26 anos, diretora de criação; e Anna Wilson, 29 anos, supervisora de fotografia e multimídia. O resultado é uma revista virtualmente irreconhecível, totalmente diferente daquela criada por Hefner. Uma porta-voz da Playboy disse que a família Hefner não detém mais nenhuma participação financeira na empresa.

A edição de verão, atualmente nas bancas, traz uma entrevista com Tarana Burke, fundadora do movimento MeToo; quadrinhos queer; e uma reportagem a respeito de brinquedos eróticos unissex. Durante o seu auge, nos anos 1960 e 1970, a Playboy chegava a quase sete milhões de assinantes, publicando obras de Andy Warhol, Margaret Atwood e Hunter S. Thompson, além de entrevistas com Martin Luther King Jr. e Fidel Castro.

Mas então vieram revistas mais explícitas como Penthouse e Hustler, e então a internet, que desfez o modelo do erotismo e da pornografia impressa e paga, tornando-a digital e gratuita. A Playboy estava perdendo dinheiro e, com isso, Hefner obteve um financiamento para fechar o capital da empresa.

Certos aspectos da marca continuaram rendendo: destilados e perfumes da Playboy; colaborações com grifes da moda; um cassino em Londres; uma casa noturna recentemente reaberta em Nova York e mais – especialmente na China, onde a marca tem mais de três mil lojas, disse Kohn. De acordo com ele, os consumidores gastam cerca de US$ 3 bilhões nos produtos e serviços da marca a cada ano. O relançamento da revista fazia sentido como forma de “extensão da marca”.

“Falamos muito a respeito do que é o olhar de Playboy e da necessidade de diversificar isso”, disse Rachel Webber, 37 anos, diretora de marketing. Ela chegou no ano passado vindo da National Geographic em parte por causa da oportunidade de trazer uma marca “tradicional” para a era moderna. “É um pouco como estar em uma aula de estudos de gênero”. Indagada a respeito da possiblidade de reinventar a Playboy, Joanna Coles, ex-editora-chefe da Cosmopolitan, disse: “Sob a ótica atual, Hugh Hefner é grotesco, e as mulheres dele são vítimas. A publicação pertence ao passado, como o figurino de Hugh”.

De acordo com Kohn, a revista alcança atualmente “uns duzentos mil” assinantes. Três quartos desse público são de homens. Depois de assumir o comando, dois anos e meio atrás, ele disse ter recuperado cerca de US$ 15 milhões em parcerias e acordos de licenciamento de produtos que “não representavam mais a marca”. Ele acrescentou que a empresa deseja expandir suas atividades para o ramo da cannabis, cuidados com a pele, brinquedos eróticos e bem estar sexual.

Desde janeiro, Rachel trabalhava com sua equipe na redação de uma declaração de missão da empresa refletindo a nova direção seguida. De acordo com ela, o objetivo é alcançar um público metade feminino. “Para mim, ser relevante é mais importante do que pensar em um público-alvo”, disse ela. “Mas acredito que, para sermos relevantes, temos que assumir posicionamentos em relação às questões e interessar igualmente a todos os gêneros.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Como Madonna se tornou ícone das mulheres quando se trata de autonomia sobre o próprio corpo

Completando 61 anos nesta sexta-feira, a rainha do pop nunca se rendeu à imagem que esperavam dela
O Globo com “The Independent”

Madonna completa 61 nesta sexta-feira, 16 de agosto Foto: Arte sobre foto de Divulgação

Madonna completa 61 anos nesta sexta-feira. E continua mais poderosa em seu Instagram do que muitas celebridades com um terço de sua idade. As influências da rainha do pop na moda e na música são bem documentadas, mas Madonna também é uma grande inspiração para muitas mulheres quando se trata de autoaceitação do corpo.

Ao longo dos anos, a rainha do pop sofreu ataques por, teoricamente, promover um modelo de corpo feminino difícil de alcançar para a maioria das mulheres. No entanto, a artista sempre deixou claro que tinha benefícios por trabalhar com as melhores equipes de treinadores e que os exercícios físicos sempre fizeram parte de sua carreira. 

Madonna nunca se colocou como um modelo a ser seguido, e sim como uma inspiração para que as mulheres não cedessem às críticas e não reformulassem o seu corpo segundo os padrões impostos. Foi o que aconteceu, por exemplo, há dez anos, quando a cantora foi duramente atacada por seus braços musculosos, sem nunca se render à imagem que esperavam dela, e, sim, abraçando a sua força, aptidão e direito de ter o corpo do jeito que quisesse.

Madonna continua não dando a mínima para o que pensam sobre seu corpo — e se está “na moda” ou não. Ela e os seus tão criticados braços musculosos inspiram até hoje mulheres a não aceitar a negatividade que recebem. Como Laura Hoggins, personal trainer de 33 anos e conhecida pelos seus bíceps.

— Tenho orgulho do meu corpo e trabalho duro para manter a minha forma. Mas nem sempre sou considerada “feminina”. Eu cresci escutando Madonna. Eu vi o seu físico evoluir ao longo dos anos. Ela sempre foi muito aberta sobre a sua paixão pela atividade física. Força não tem idade ou limite. Espero que eu continue treinando quando chegar aos 61 anos.

A personal acrescenta que Madonna sempre foi um modelo e uma influência positiva em sua vida.

— Ela sempre foi sincera e com muita convicção no que acredita. Madonna sofre diariamente com críticas sobre o seu corpo, mas se levanta desafiadora e orgulhosa.

O físico da Madonna de dez anos atrás, curiosamente, não receberia críticas nos dias de hoje, uma vez que muitas mulheres buscam sair dos padrões esbeltos e migram para corpos mais musculosos. Isso só prova que o que é considerado atraente, na verdade, é determinado pelos padrões impostos pela sociedade em determinada época. 

Carly Rowena, uma influenciadora fitness de 30 anos, diz que Madonna foi a motivação para ela se tornar mais saudável e amar o seu corpo independentemente do que outros pensam sobre ele.

— Eu amo ver todas as formas corporais sendo celebradas e sinto que Madonna abriu o caminho para que muitas mulheres se sinta empoderadas.

No final das contas, parece que, apesar das críticas, a rainha do pop fez com que muitas mulheres quisessem ter corpos com mais músculos, antes associados só aos homens, por meio da construção da autonomia feminina e do amor-próprio — quebrando padrões como ela está tão habituada a fazer.

Levis e Wrangler prometem proteger de abuso sexual mulheres que fabricam suas roupas

Trabalhadoras de cinco fábricas eram forçadas a fazer sexo para manter empregos

Roupas da Levis, uma das marcas signatárias do acordo. Foto: REUTERS/Mike Blake

Três grandes marcas de roupas norte-americanas prometeram combater os abusos em fábricas em Lesoto nesta quinta-feira, 15, depois que uma investigação descobriu que mulheres estavam sendo forçadas a fazer sexo para manter seus empregos

Levi Strauss & Co, a Kontoor Brands -que é proprietária das marcas Wrangler e Lee – e a The Children’s Place assinaram acordos para acabar com práticas de assédio sexual disseminadas em cinco fábricas onde cerca de dez mil mulheres trabalham fazendo roupas no pequeno país no sul da África.

“Estes importantes acordos estabelecem um exemplo para o resto da indústria do vestuário sobre como abordar os problemas do assédio e do abuso”, disse Rola Abimourched, diretora de um programa do Consórcio de Direitos dos Trabalhadores (WRC, na sigla em inglês), que descobriu as violações. 

A manufatura de roupas – com foco nas exportações de jeans – cresceu e se tornou, nas últimas três décadas, o maior setor de empregos formais no país de dois milhões de habitantes, fornecendo empregos para cerca de 40 mil pessoas. 

O WRC averiguou que mulheres eram forçadas a praticar regularmente atividades sexuais com seus supervisores para conseguir ou manter seus empregos em três fábricas de propriedade da fabricante global de jeans Nie Hsign Textile, deTaiwan, que produzem jeans para as marcas norte-americanas.

A Nien Hsing Textile emprega um quarto da força de trabalho total da pequena nação africana. 

Jornalista e cineasta ucraniana Anastasia Mikova fala sobre filme que dá voz a mulheres de 50 países

Anastasia Mikova conversou pessoalmente com mil personagens para o documentário; cem delas estarão no filme “Woman”
Fernando Eichenberg, de Paris

Ao longo de três anos e meio, Anastasia conversou pessoalmente com mil personagens para o documentário; cem delas estarão no filme, que também vai virar livro e exposição Foto: Divulgação/Peter Lindbergh

Mikova , 37 anos, exibia um sorriso de satisfação ao chegar para a entrevista em um ensolarado pátio no bairro de Montmartre, na capital francesa, nas proximidades de sua casa. Há dois dias, havia finalizado a fase de montagem de seu mais novo filme, “Woman” , codirigido pelo célebre fotógrafo e cineasta francês Yann Arthus-Bertrand . Foram mais de duas mil entrevistas com mulheres, realizadas por três anos e meio em cerca de 50 países. A ideia surgiu durante as filmagens da precedente obra da dupla, “Human” (2015), uma imersão no ser humano por meio de depoimentos recolhidos pelos quatro cantos do planeta. “Ao fazer entrevistas para o ‘Human’, me impressionou uma necessidade visceral nas mulheres de contar suas histórias, bem mais do que nos homens. Quando sua voz é oprimida por séculos, torna-se algo quase físico. E quando libera, é um poço sem fundo. Encontramos mulheres nos mais diferentes e longínquos lugares, por quem nunca ninguém se interessou, e dissemos a cada uma delas: ‘Você é importante, quero ouvir a sua história’. No início, elas se mostravam desconfiadas, mas depois que entendiam o que fazíamos, passava-se algo incrível, se abria uma porta, como um vulcão que entrava em erupção”, conta.

O gosto pela descoberta e a curiosidade pelo humano e o mundo emergiram cedo em sua vida. Seu modelo “total e absoluto” é a mãe, Rita, que, adolescente, partiu sozinha da aldeia em que vivia em Nagorno-Karabakh, região entre a Armênia e o Azerbaijão, para estudar em Kiev, na Ucrânia. “Ela nasceu em uma família pobre de cinco irmãos. Sua mãe morreu quando ela tinha apenas dois anos. Aos 17, disse que ia para a universidade. Ninguém a encorajou. Foi para casa de um tio, em Kiev. Durante vários anos foi duro, tinha três trabalhos e estudava ao mesmo tempo. Quando vejo tudo o que ela conseguiu, quem sou eu ao seu lado?”, indaga.

A partir dos anos 1990, quando se abriram as fronteiras do bloco soviético, a mãe enviava a jovem Anastasia para temporadas na Itália ou na França, em programas para vivenciar outras culturas e aprender novos idiomas. “A cada verão, passava um mês em algum país estrangeiro. Tinha 10, 11 anos, e ela me dizia: ‘Vá viajar, ver o mundo e como vivem as outras pessoas, quero que você tenha um horizonte mais amplo’”. O pai, Igor, já falecido, fazia documentários, a maioria com temática do reino animal, uma influência também nos destinos da filha. “Ele estava sempre com uma câmera na mão. Cheguei a essa profissão de forma inconsciente, nunca me disse que era minha vocação. Mas, intrinsecamente, já tinha isso desde a infância”.

Em 1998, aos 17 anos, a exemplo da mãe, Anastasia partiu para estudar em outro país. Escolheu cursar História em Paris. “Não era um sonho, mas uma evidência. Fui preparada para uma vida independente. Não conhecia ninguém em Paris, uma enorme cidade, com muitas coisas acontecendo. Isso faz você se questionar e amadurecer muito rápido”.

Depois de ter passado pelas revistas “Figaro Magazine” e “Marie Claire”, foi trabalhar na série documental sobre ecologia “Vu du ciel”, para a tevê pública francesa, onde encontrou Arthus-Bertrand, amigo e parceiro profissional até hoje. Ter participado da equipe do filme “Human” transformou sua maneira de encarar a vida. “Encontrei pessoas pelo mundo que partilharam comigo coisas difíceis que viveram, em histórias que nunca haviam contado para ninguém. Só em falar nisso me sinto arrepiada. Desde esse momento, não há mais fronteira na minha vida entre o que faço e o que sou, tornou-se um todo. É algo que te penetra de alguma forma. Em tudo que faço, hoje, procuro um sentido talvez exacerbado. É quase uma missão. ‘Human’ foi o momento em que me conscientizei disso”.

Anastasia com Denilse, de 16 anos, que conheceu em um mercado de Cabo Verde Foto: Divulgação
Anastasia com Denilse, de 16 anos, que conheceu em um mercado de Cabo Verde Foto: Divulgação

A experiência se aprofundou em “Woman”, em que fez mais da metade das duas mil entrevistas realizadas para o filme, com pré-estreia mundial no Festival de Veneza, que começa no fim do mês, e tem lançamento previsto no início de 2020. Apenas cem aparecerão na versão de 1h45min para o cinema, mas todas as demais estarão presentes de alguma forma no formato digital, na exposição e livro que acompanham o projeto. Segundo ela, 70% do filme poderia, infelizmente, tratar somente das violências sofridas pelas mulheres: “Mas fizemos a escolha de mostrar que elas não são apenas isso. Além de educação ou emancipação, abordamos também temas íntimos, como menstruação, orgasmo, a relação com o corpo. Ainda assim, boa parte do filme é dedicada à violência, porque se trata de uma realidade. O Brasil me surpreendeu por isso, é um país em que a violência está tão normalizada, a mulheres falam como uma evidência e, por vezes, não se mostram revoltadas”.

A palavra que resume, para ela, o teor do projeto “Woman” é “resiliência”: “A resiliência das mulheres pode fazer milagres. Estamos em um momento crucial da História: as mulheres estão prontas a ver o mundo de forma diferente e, sobretudo, não querem mais que os homens decidam por elas. Este filme é um espelho para as mulheres — de alguma forma, todas se reconhecerão nele —, mas não é feito por elas somente para elas, mas também para os homens, pois é uma janela para um mundo que eles não conhecem. Tudo o que fazemos, eu e Yann, é sobre o viver junto. Tentemos nos compreender mais e certamente que vai melhorar, para os dois lados.”

Dia dos Pais: novas configurações familiares ressignificam a data, celebram a diversidade e mostram que o amor não cabe em um só formato

Celina conversou com três famílias que trazem um novo sentido para datas comemorativas tradicionais
Alice Cravo e Leda Antunes

Novas configurações familiares ressignificam o Dia dos Pais, celebram a diversidade e mostram que a felicidade não cabem em um só formato Foto: Arte de Nina Millen

O conceito de família mudou e com ele o significado das datas comemorativas tradicionais, como o Dia dos Pais. Com as novas configurações familiares se tornando cada vez mais comuns na sociedade, casais lésbicos, homens trans e casais gays trazem um novo sentido para a celebração.

CELINA conversou com três dessas famílias para mostrar como elas lidam coma data e a ressignificam, celebrando a diversidade e mostrando que o amor e a felicidade não cabem em um formato único.

‘O importante é a família, pessoas que estão juntas pelo amor’

Na casa da arquiteta Cinthia Monteiro e da radialista Giseli Domingos, ambas de 38 anos, o Dia dos Pais é uma data para celebrar a família. As duas são mães do Miguel, de 4 anos, e, em alguns meses, terão mais um filho — Cinthia está grávida de três meses.

Giseli, Miguel e Cinthia Foto: Arquivo pessoal

— A gente sempre explicou para o Miguel que o importante é a família, que são as pessoas que estão juntas pelo amor um pelo outro. Então podem ser dois pais, duas mães, os avós, os tios. Na nossa família, fomos mudando aos poucos a ideia de que a data é só para celebrar a figura do pai. Nós celebramos a família — conta a arquiteta.

Os domingos de Dia dos Pais costumam ser comemorados com as famílias das duas, mas nem sempre foi assim. Juntas há 10 anos, elas contam que, como vêm de famílias bastante tradicionais do interior de São Paulo, no início enfrentaram algumas dificuldades para que o relacionamento fosse bem aceito. Mas, alguns anos depois, quando decidiram ter o primeiro filho, as famílias demonstraram mais curiosidade pelo processo do que resistência.

— Ninguém entendia muito como ia funcionar, ninguém tinha conhecimento de como é uma fertilização — diz Cinthia. — Depois que o Miguel nasceu, a gente viu nossa família se transformar. O Miguel mudou a nossa vida de uma maneira muito intensa e especial — completa.

Cinthia e Giseli afirmam que desde cedo explicaram para Miguel que não há diferença entre as diversas formações familiares e que ele não questiona o fato de ter duas mães. O menino inclusive participa das apresentações de Dia dos Pais na pré-escola homenageando às duas.

— Na escolinha está sendo tratado o Dia dos Pais, aí ele nos questiona se pode cantar para as duas mamães . E é claro que pode. A gente trata com muita naturalidade essa questão para não estigmatizar. Se ele tem vontade, ele participa, e nós participamos junto com ele — afirma Cinthia.

— A gente sempre explica que se dá o nome de pai quando é um menino que tem um filho e nome de mãe quando é uma menina. Mas aí pode ser pai e mãe, mãe e mãe, pai e pai. Para ele, não existe a falta de uma figura paterna — reforça Giseli.

Elas contam que nunca tiveram problemas nas escolas onde Miguel estudou, mas já insistiram para que seja comemorado o Dia da Família, para que todas as composições familiares sejam contempladas no ambiente escolar. A mudança ainda enfrenta resistência e, enquanto ela não vem, elas participam das comemorações do Dia dos Pais, para que Miguel não se sinta excluído dos rituais. Neste domingo, em casa, a comemoração será um pouco diferente porque apenas o pai de Cinthia está na cidade. Mas, sem dúvida, será repleta de amor.

‘Quando ele me chamou de pai foi o dia mais feliz da minha vida’

O pequeno Pedro tinha apenas um mês de vida quando conheceu Kauê. Com o passar dos meses, Pedro começou a chamá-lo de “pai”, antes mesmo de chamar sua mãe de “mãe”. Para o Dia dos Pais desse ano, Kauê, de 25 anos, escolheu um lugar especial para a comemoração: o Parque Madureira.

Kauê e Pedro, de três anos Foto: Arqueivo pessoal

— O Pedro ama carro e lá tem muito. Ele vai gostar, vai ficar feliz — conta Kauê.

Jogador de futebol, Kauê faz parte do time BigTBoys, formado por homens trans. Embora Pedro seja seu fã número um, o menino de três anos prefere mesmo os super heróis.

A relação dos dois começou com a amizade do Kauê com Thais, a mãe do Pedro. Na época, o pai biológico do menino não era muito presente e Kauê acabou virando “pai do coração”.

— Eu sempre amei criança, era maluco para ser pai. Quando o Pedro me chamou de pai, eu vi que ele sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele. Foi o momento mais feliz da minha vida — conta Kauê. — Hoje, o Pedro passa o Dia dos Pais com o pai biológico, mas não deixamos de comemorar. Ele é o meu filho, um anjo que apareceu na minha vida.

‘Foi uma adoção diferenciada’

Há três anos e oito meses, Gabriel e Roberto se tornaram pais da Liz e do Bento. Ao mesmo tempo, Rômulo, irmão de Roberto, e sua esposa, Júlia, se tornaram pais de Nina e Elisa. As quatro crianças, que são irmãs, foram adotadas pela família, criando uma configuração familiar inusitada, formada por primos-irmãos.

— A gente estava na fila de adoção, habilitados, e o meu irmão estava bem atrás da gente. Quando chegou a minha vez, descobri que eram quatro irmãos. Seria muito complicado para a gente — conta Roberto, que falou sobre o irmão com o assistente social. — Sugeri de deixar duas crianças comigo e duas crianças com ele. Assim, elas seriam adotadas juntas, continuariam na mesma família, ia ser bom pra todo mundo. Deu certo!

As crianças não são do Rio de Janeiro, estado da família. Durante nove meses, de 15 em 15 dias, Gabriel, Roberto, Julia e Rômulo viajavam para visitar os quatro e fazer a aproximação. Roberto conta que foi uma verdadeira “gestação” a espera da chegada das crianças.

Na hora de trazer as crianças para o Rio, a dúvida chegou: como escolher a casa de cada um? A solução encontrada pela família foi deixar que as crianças escolhessem. E foi um processo bem natural. 

— Foi uma adoção diferenciada, viabilizou a adoção dos quatro. No início, as crianças se confundiam um pouco. A Julia acabou engravidando e o Bento achava que o bebê era irmão dele também. Ele levou um tempo para entender que eles eram só primos — conta Roberto aos risos.

Roberto conta que a família é muito unida e costuma passar sempre os domingos na casa do seu pai. Mesmo assim, o Dia dos Pais é dia de festa.

— Meu pai adora receber a gente, já temos o hábito de estar sempre por lá. No Dia dos Pais não é diferente. As crianças passam o dia na piscina brincando, a gente almoça… somos muito unidos — conta Roberto.

Roberto e Gabriel tinham união estável desde antes da adoção das crianças. Mas, em janeiro de 2018, graças a um pedido da filha Liz, os dois oficializaram a união com uma cerimônia de casamento.

— A gente já tinha essa vontade. Mas quando o pedido veio da Liz não teve como, era o que faltava. Depois da cerimônia, a Liz chamou a gente em um canto e disse que precisava falar uma coisa muito séria com a gente, e a sós. Ela então perguntou se a gente aceitava a chave do coração dela — relembra Roberto.

(Todos os nomes são fictícios) 

Google muda algoritmo para que palavra ‘lésbica’ não seja associada à pornografia nas buscas

Após uma campanha de ativistas nas redes sociais, a mais famosa ferramenta de buscas da internet alterou os resultados para o termo na França
Leda Antunes

@SEO_lesbienne

Depois de inúmeras reivindicações de ativistas do movimento lésbico da França, o Google reformulou o seu algoritmo para que a busca pelo termo “lesbienne” (lésbica, em francês) mostre, com destaque, mais resultados informativos e menos conteúdo pornográfico.

O algoritmo foi alterado depois de uma extensa campanha liderada pela página no Twitter @SEO_lesbienne para combater a hipersexualização das mulheres lésbicas nos resultados das ferramentas de busca online. Foi observado que, em francês, a palavra lésbica era associada em seus primeiros resultados a páginas de pornografia, enquanto os termos “queer” e “trans” traziam mais informação, com artigos e notícias de blogs especializados.

Esse tipo de resultado para o termo “lesbienne” era visto como mais uma manifestação da fetichização das mulheres lésbicas — recorrente dentro da cultura patriarcal e machista que entende a heterosexualidade como norma e o corpo feminino como objeto  — passível de incentivar comportamentos violentos mesmo fora da web. Em julho, um casal de namoradas foi agredido em um ônibus em Londres após um grupo de homens exigir que elas se beijassem.

Segundo o site de notícias francês Numerama , em junho, um porta-voz do Google de passagem por Paris reconheceu que havia um problema, mas disse que a ferramenta de busca queria respondê-lo com uma solução mais global, e não com uma simples alteração dos resultados. Até porque a queixa não é recente. Há alguns anos a busca pela palavra “teen” (adolescente, em inglês) também esteve no centro de um debate para que não fosse relacionada a resultados pornográficos e ofensivos. A ferramenta também já foi questionada por permitir que links não confiáveis com notícias falsas e teorias da conspiração aparecessem em destaque nas buscas sobre tiroteios e termos como holocausto e mudanças climáticas.

De acordo com o site francês, desde o mês passado, após uma alteração no algoritmo do Google, os primeiros resultados para a palavra “lesbienne” na França trazem páginas informativas, como o artigo de definição de “Lesbianismo” da Wikipédia, ou publicações de veículos de mídia sobre o tema. A notícia da alteração foi repercutida por sites de tecnologia e cultura como o Gizmodo e Dazed e comemorada por ativistas lésbicas nas redes sociais, inclusive aqui no Brasil.

Procurado, o Google Brasil confirmou a alteração no algoritmo e o posicionamento global da empresa. A companhia informou, em nota, que trabalha “para evitar que conteúdo potencialmente ofensivo apareça nos resultados da busca quando os usuários não estiverem pesquisando explicitamente por esse conteúdo.”

Disse ainda que os resultados para a consulta “lesbienne”, em francês, estão “abaixo das expectativas” e que foi desenvolvida uma “solução algorítmica para fornecer resultados de alta qualidade não apenas para essa consulta, mas para vários outros tipos.”

Confira a nota na íntegra:
“Trabalhamos muito para evitar que conteúdo potencialmente ofensivo apareça nos resultados da Busca quando os usuários não estiverem pesquisando explicitamente por esse conteúdo. Reconhecemos que os resultados para a consulta “lesbienne” em francês estão abaixo das nossas expectativas e, como parte de nosso trabalho contínuo para melhorar a Busca, desenvolvemos uma solução algorítmica para que possamos fornecer resultados de alta qualidade não apenas para essa consulta, mas para vários outros tipos.”