Dinâmica social reforça a síndrome do impostor, explica especialista

Estereótipos e vieses de gênero fazem mulher ter mais sentimento de ‘fraude’ no mercado de trabalho e pode prejudicar as chances de sucesso na vida profissional
Entrevista com
Letícia Rodrigues, sócia-fundadora da Tree Diversidade
Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

Letícia Rodrigues
Para Letícia Rodrigues, é preciso buscar evidências diárias de que somos capazes e merecemos as conquistas. Foto: Werther Santana/Estadão

“Eu não sou boa o suficiente para estar neste corpo docente. Algum equívoco foi feito no processo seletivo”, “Obviamente, eu estou nessa posição porque minhas habilidades foram superestimadas”. Essas frases e outras similares foram ditas por mulheres bem-sucedidas, em altos cargos de liderança, com grandes conquistas pessoais e acadêmicas. O motivo de elas considerarem que são uma fraude e que chegaram aonde estão por sorte é um só: a síndrome do impostor.

O fenômeno foi estudado, especificamente no público feminino, pelas psicólogas norte-americanas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, que em 1978 publicaram um estudo sobre o tema. Queriam entender o que levava mulheres com perfil superior a acreditarem que não eram brilhantes o suficiente e estavam enganando a todos apesar de suas conquistas.

As especialistas identificaram que as “impostoras” não se enquadram em uma categoria de diagnóstico, mas os sintomas clínicos frequentemente reportados são ansiedade generalizada, ausência de autoconfiança, depressão e frustração relacionada à incapacidade de atender aos padrões impostos por elas mesmas. Embora todos estejam suscetíveis a isso, estudos anteriores já mostravam que o fenômeno é mais prevalente nas mulheres.

“Isso tem muito a ver com a cultura de viver em um ambiente totalmente cheio de barreiras, estereótipos e vieses de gênero”, explica Letícia Rodrigues, sócia-fundadora da Tree Diversidade. A especialista em diversidade e inclusão tem experiência em projetos relacionados a gênero, além de ministrar cursos sobre liderança feminina, nos quais a síndrome do impostor aparece com bastante frequência, independentemente do nível hierárquico.

Em conversa com o Estadão, Letícia falou sobre as características do fenômeno, como ele pode prejudicar as chances de sucesso na vida profissional e como interromper esse ciclo. Confira a seguir.

Como podemos definir a síndrome do impostor?

Ao contrário do que muita gente pensa quando se fala em síndrome, não é uma doença. Alguns preferem chamar de fenômeno do impostor. É um conjunto de fatores, atitudes e sentimentos que as pessoas têm, com base em crenças sociais, que trazem insegurança, sentimento de fraude, de não pertencimento. As pessoas acham que, quando atingem um determinado sucesso, não deveriam estar ali, que aquilo foi devido a fatores externos como sorte ou o famoso “estar no lugar certo na hora certa”, mas que não tem a ver com competência e conquistas pessoais.

Por que as pessoas desenvolvem esse sentimento?

Não é unânime, mas a maioria dos pesquisadores acha que tem a ver com a dinâmica familiar desde a infância. No estudo que Clance e Imes fizeram, elas conseguiram classificar um grupo de mulheres em duas dinâmicas e, a partir daí, conseguiram descrever a síndrome. Mas existem outros fatores que têm a ver com a cultura na qual a gente está inserido, o fato de a gente viver em ambientes que são discriminatórios, cheios de estereótipos. E aí tem a questão do estereótipo de gênero, que é muito forte na sociedade, sendo um dos motivos para que as mulheres tragam mais a síndrome do impostor do que os homens.

Mesmo com grandes avanços sociais, movimentos de empoderamento feminino, você percebe que isso ainda é real? Por quê?

Os estudiosos ainda acreditam que a síndrome do impostor acontece mais nas mulheres e isso tem muito a ver mesmo com a cultura, de viver em um ambiente cheio de barreiras, estereótipos e vieses de gênero que acabam trazendo aspectos para a vida das mulheres, questões de insegurança.

Mas um dos fatores que já foram levantados é que os homens têm a síndrome, mas aparecem menos do que o porcentual real, e é por causa da cultura de novo. É esperado socialmente do homem que ele não demonstre fraqueza, insegurança, então muitas vezes eles se esforçam muito mais e conseguem disfarçar os aspectos relacionados à síndrome do impostor. Os psicólogos também dizem que, mesmo em consultório, os homens trazem o assunto muito menos. Então, é mais difícil descobrir e ter certeza de que os homens têm.

Isso é curioso, porque no artigo de Clance e Imes, elas descrevem que uma das dinâmicas familiares é da menina que é incentivada a acreditar em si, que ela pode tudo o que quiser. Parece que os meninos acreditam mais e levam para a vida futura.

Acho que não é só uma questão de que essa autoconfiança perpetua mais nos homens. Tem isso que você está falando, perpetua sim, mas a nossa cultura os obriga a mostrarem que são autoconfiantes, que não têm fraqueza nenhuma, não podem chorar, têm de ser o provedor, forte, o “macho alfa”. Então, muitas vezes, o homem está representando um papel social. Parece que eles carregam isso mais, mas é fruto da dinâmica social. Muitas vezes, a gente pensa que a nossa cultura limita as mulheres, mas limita demais o homem, que tem de ter papel de forte.

E como a síndrome do impostor afeta a vida profissional?

A pessoa que traz essa síndrome acha que é uma fraude e está enganando todo mundo, então ela gasta muita energia pensando sobre isso em vez de estar produzindo, com medo de ser “descoberta”. A pessoa acredita que não tem o talento e as habilidades que são necessários para estar naquele local, então carrega a falta de confiança. Nesse ponto, ela nem se candidata a uma vaga porque tem receio de ser descoberta. Ela atribui suas conquistas à sorte e acaba indo menos em busca de novos desafios.

Tem algumas características que as pessoas trazem de forma bem forte: ou ela vai para o perfeccionismo, afinal ela não deveria estar ali, então tem de fazer de uma forma bem perfeita, trabalha em excesso, fica revisando muito e adia a entrega porque sabe que será julgada; ou, quando alguém faz um elogio, ela diminui esse elogio em vez de se satisfazer e ratificar a conquista. Mas a carreira é feita disso: alguém tem de reconhecer o que você atingiu para poder te impulsionar para cima. Se ela diminui, a pessoa que fez o elogio fica com o pé atrás também. E ela está sempre enfraquecendo as próprias conquistas, apontando primeiro o que está errado.

No ciclo do impostor, primeiro, a pessoa recebe uma tarefa e aquilo gera ansiedade, insegurança e preocupação. Com isso, ela vai ter dois caminhos: ou procrastinar, mas fazer, ficar aliviada quando entregar, mas atribuir à sorte quando receber feedback positivo; ou vai trazer uma preparação exagerada e vai atribuir ao esforço. Com essa percepção de esforço e sorte, vai ter aumento de insegurança e ansiedade.

É possível que a síndrome se manifeste apenas na vida pessoal ou na profissional?

Normalmente, as duas coisas estão interligadas, mas ela acaba aparecendo mais na vida profissional e acadêmica, que são ambientes com mais competitividade, onde a pessoa está lidando com outros indivíduos, com os limites dela.

Clance e Imes fizeram a pesquisa com mulheres de altos níveis profissional e acadêmico. Existe relação entre nível hierárquico e grau da síndrome?

Desconheço qualquer estudo que fale sobre isso. Mas temos exemplos até mesmo de pessoas famosas que foram a público e falaram que têm a síndrome do impostor. Kate WinsletMichelle Obama (que fala do tema no documentário Becoming, da Netflix). O fato de a gente saber que outras pessoas têm a síndrome do impostor ajuda demais, porque durante muito tempo a gente acredita que somos os únicos.

O ambiente de trabalho pode contribuir para que alguém desenvolva essa síndrome, mesmo que não tivesse antes?

Sim, a gente pode ter alguns momentos da vida em que está enfrentando essa questão. Tem vários gatilhos e o ambiente profissional é um deles. Mas é importante a gente saber que não é só porque a pessoa chegou ao ambiente corporativo que isso ocorre, é todo um contexto. A gente está falando da dinâmica familiar, da cultura da sociedade. Tudo isso já está ali dentro, a pessoa já teve essas vivências e, no ambiente corporativo e de maior pressão, ela vai vivenciar as características da síndrome.

Quais são os caminhos para se “curar” da síndrome?

Para mim, a forma principal é buscar evidências. Se buscar, a gente tem evidência de que somos capazes, inteligentes, temos conquistas e diversas habilidades que às vezes a gente acha que não tem. É importante buscar o autoconhecimento, saber quais são nossos pontos mais fortes e quais ainda têm para desenvolver. Pensar que qualquer experiência que a gente passa na vida é uma oportunidade de aprender. Comemorar as conquistas, até para ficar mais evidente para nós mesmos como aquilo foi importante, difícil e conseguimos. Ocupar espaços e aproveitar as oportunidades, se expor mais. E entender que cada um de nós tem valores únicos.

O que as cotas para negros nas universidades podem ensinar ao Nubank

Por Alexandre Rodrigues

Cristina Junqueira, uma das fundadoras do Nubank: pedido de desculpas após repercussão de declaração sobre dificuldades para contratar executivos negros Crédito: Divulgação

Uma das fundadoras do Nubank, Cristina Junqueira publicou nas redes sociais um pedido de desculpas por ter dito no programa Roda Viva, da TV Cultura, que tem dificuldades de contratar executivos negros por falta dos requisitos técnicos que julga necessários.

Questionada se a alta exigência não é a barreira que a separa de talentos negros, respondeu que a empresa “não pode nivelar por baixo”. No vídeo de desculpas, agradeceu a “todo o feedback” que recebeu após a repercussão negativa “porque todo mundo tem o que aprender”. E, desarmada de seu rigor, admitiu: “falar de diversidade racial, gente, não é fácil”.

De fato, não é fácil atuar num mercado altamente competitivo como o financeiro. E é preciso aprender muita coisa para fazer a diferença numa empresa movida a inovação. Mas para alguém encarar esse desafio, é preciso oportunidade.

Um dos principais argumentos contra as cotas raciais adotadas em universidades públicas a partir de 2012 era o de que colocariam em risco a excelência acadêmica “nivelando por baixo”. Em 2018, pretos e pardos passaram a ser mais que 50% dos alunos. Segundo dados do Enade 2019 divulgados na terça-feira, somente 6,3% dos cursos de graduação avaliados tiveram nota máxima, mas 80% deles estão nas instituições públicas.

Os universitários negros não ameaçaram a qualidade da universidade pública. Ao contrário, são hoje parte do diferencial. No entanto, ainda não chegaram às salas de reuniões de empresas como o Nubank.

Essa dissonância faz do mercado de trabalho o novo campo de batalha das ações afirmativas. Em vez da busca incessante por profissionais perfeitos, um atributo muitas vezes contaminado pelo viés racial, empresas interessadas em cabeças diferentes precisam aprender com as universidades sobre a importância do acesso.

Ações afirmativas no ensino superior ou nas empresas são instrumentos de aceleração da diversidade, mas que não prescindem de melhorias na educação dos negros. Enquanto isso não vem, compensar uma ou outra deficiência dentro da empresa não dá prejuízo. Segundo evidências no próprio mundo corporativo, pelo contrário.

Feministas protestam contra indicação de juíza conservadora para a vaga de Ruth Bader Ginsburg na Suprema Corte dos EUA

Presidente Donald Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett, conhecida por tomar decisões guiadas por dogmas, para ocupar a vacância deixada pela magistrada que virou símbolo do progressismo nos Estados Unidos. Houve manifestações de apoio à juíza

Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS

Pessoas protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: TASOS KATOPODIS / AFP

Pessoas participam de um protesto, na capital Washington, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: ERIN SCOTT / REUTERS

Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS


Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS

Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS
Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS


Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS

Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: TASOS KATOPODIS / AFP
Mulher usa uma máscara de rpoteção com imagens da falecida juíza Ruth Bader Ginsburg enquanto as pessoas participam da Marcha das Mulheres no parque Washington Square em Manhattan, Nova Iorque Foto: EDUARDO MUNOZ / REUTERS
Pessoas participam da Marcha Feminina de 2020, no parque Washington Square, em Manhattan, Nova Iorque Foto: EDUARDO MUNOZ / REUTERS
Pessoas participam da Marcha Feminina de 2020, no parque Washington Square, em Manhattan, Nova Iorque Foto: EDUARDO MUNOZ / REUTERS
Pessoas participam da Marcha Feminina de 2020, no parque Washington Square, em Manhattan, Nova Iorque Foto: EDUARDO MUNOZ / REUTERS
Pessoas participam da Marcha Feminina de 2020, no parque Washington Square, em Manhattan, Nova Iorque Foto: KENA BETANCUR / AFP
Vestidos como servas do seriado "O Conto da Aia", manifestantes participam da Marcha das Mulheres na Freedom Plaza, na capital Washington Foto: TASOS KATOPODIS / AFP
Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS
Ativistas da Marcha das Mulheres protestam, na Freedom Plaza, em Washington DC, contra a decisão do presidente dos EUA Donald Trump de ocupar a vaga na Suprema Corte deixada pelo falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg Foto: MICHAEL MCCOY / REUTERS

Seleção de textos da poeta Audre Lorde editada por Roxane Gay chega às livrarias dos EUA

A nova coletânea reúne uma seleção vasta da poesia de Lorde e 12 peças de prosa, a maioria ensaios, e um longo trecho de “The Cancer Journals”, diário que ela escreveu depois de receber o diagnóstico de câncer de mama
New York Times

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Saiu nos EUA coletânea de textos da poeta e ensaísta Audre Lorde (esq.) editada pela acadêmica Roxane Gay Foto: Arte

Em suas aparições públicas, Audre Lorde se apresentava da mesma maneira: “Sou uma negra, lésbica, mãe, guerreira, porta.” Havia variações ocasionais: “Sou negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta fazendo o meu trabalho, vindo perguntar se você está fazendo o seu.” Mas havia sempre essa coletânea de identificantes — e não só porque ela não poderia ser definida por uma palavra apenas. Ela queria, como disse Angela Davis, “desmitistificar a suposição de que esses termos não podem habitar o mesmo espaço: negra e lésbica, lésbica e mãe, mãe e guerreira, guerreira e poeta.”

Lorde morreu em 1992, aos 58 anos. Ela deixou riquezas: poemas, ensaios, duas memórias definidoras do gênero “Zami” e “The cancer journals”. Seu trabalho é um estuário, um ponto de confluência para todas as identidades, todos os aspectos mantidos tão vigorosamente segregados? Poesia e política, sentimento e análise, análise e ação, sexualidade e intelecto.

“Não há, para mim, nenhuma diferença entre escrever um bom poema e me mover ao sol em direção ao corpo da mulher que eu amo”, ela escreveu certa vez.

Qualquer oportunidadde de contemplar Lorde seria motivo de celebração. “The Selected Works of Audre Lorde” (“Os Trabalhos selecionados de Audre Lorde”, em tradução livre), editados e com introdução de Roxane Gay, chegam em um momento especialmente interessante. O trabalho de Lorde nunca foi tão influente como agora — ou mal-compreendido.

The Selected Works of Audre Lorde, com edição e introdução de Roxane Gay Foto: NYT
The Selected Works of Audre Lorde, com edição e introdução de Roxane Gay Foto: NYT

Mais do que escândalo um biógrafo de má qualidade,  a cotabilidade de um escritor pode garantir um pós-morte difícil. As linhas de Lorde soam como mantras, com candências fortes e alertas em néon. “Seu silêncio não o protegerá”; “As ferramentas do mestre nunca desmontarão a casa do mestre”. Quantas vezes suas ideias são arrancadas de seu trabalho, cortadas e arranhadas, tornadas citações e usadas para enfeitar ideias muito estranhas. Sua noção de autocuidado como “guerra política”, como ela descreveu depois do segundo diagnóstico de câncer, tem sido arrebatado como uma crença de bem-estar genérico.

Ela teria ficado consternada, mas nunca surpresa. Ela testemunhou o mau uso de suas palavras em seu tempo. Em sua carta aberta à escritora feminista Mary Daly, de 1979, ela constestou a forma grosseira como Daly a citou. “A pergunta vem a minha mente, Mary, você lê o trabalho de mulheres Negras?”, ela escreveu. “Você alguma vez leu as minhas palavras, ou apenas as percorreu procurando citações, que pensou que poderiam apoiar valorosamente uma idea já concebida sobre uma conexão velha e distorcida entre nós?”

Lode, como James Baldwin e Toni Morrison, é vulnerável a citações. Escritores negros podem ser lidos como oráculos, lidos simbolicamente, com referências preguiçosas; seu trabalho é resumido em autoajuda ou polêmica, a mensagem extraída e todas as torçoes e contradições (geralmente, aquelas que catalizam o escritor) suavizadas. É o tipo de leitura que nós dá uma Audre Lode simplificada, neutralizada e desenraizada de suas raízes radicais.

A nova coletânea reúne uma seleção vasta da poesia de Lorde e 12 peças de prosa, a maioria ensaios, e um longo trecho de “The Cancer Journals”. Um dos maiores prazeres não ditos nas antologias é lamentar o que não entrou na edição, fantasiando com a própria seleção. Mas esta é uma seleção equilibrada e representativa da escrita de Lorde. Eu gostaria apenas de contexto e mais reparação. Na introdução, Roxane Gay reconhece a longa tradição de apropriação indevida do trabalho de Lorde, mas eu gostaria de um ajuste de contas maior de sua imaginação política e por que ela é persistentemente mal lida, com cinismo e sentimentalismo.

Lorde está  em todos os lugares hoje; vemos o florescer de suas ideias mais sutis. No ensaio “Poetry Is Not a Luxury” (“Poesia não é um luxo”, em tradução livre), ela descreve a poesia como ” a arquitetura das nossas vidas”: “Ela forma a qualidade da luz em que nós atribuímos nossas esperanças e sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro em linguagem, depois em ideia e em uma ação mais tangível.” A ascensão do movimento que pede a abolição da prisão seguiu décadas de ativismo de Lorde e ooutras escritoras feministas, incluindo o coletivo Combahee River Collective e outros. Ela está presente em todo pedido para reconceber os modelos de cuidado e justiça  — no trabalho da organizadora Mariame Kaba, por exemplo e da acadêmica Akwugo Emejulu, que recentemente falou em uma série de conversas sobre a abolição inspiradas por Lorde. Eu ouço as palavras de Lorde nos ensaios de Arundhati Roy aobre a Covid-19: “Historicamente, as pandemias forçaram humanos a romper com o passado e imaginar um novo mundo. Essa é diferente. É um portal.”

Mas, para Lorde, sem a comunidade, não há liberação.” E comunidade, para ela, envolvia analisar e honrar a diferença. Em seu tempo, como no nosso, falar de diferença pode gerar divisões, até oportunismo, mas ela via isso como um fundo de criatividade e conexão — a mudança para afiar as nossas coragens.

Nesse ponto, a coletânea tem umas poucas omissões — as peças que revelam o que significa negociar a diferença, como todas os riscos e recompensas. Senti falta de “Eye to Eye,” talvez o texto mais autocrítico e revelador que Lorde escreveu, sobre as fonets de raiva entre mulhres Negras. Senti falta da carta a Daly, também, e suas conversas públicas com Adrienne Rich e James Baldwin, que pareceram eventos genuínos no tempo dela.

Lorde adorava estar em diálogo, amava pensar com os outros, com seus camaradas e amores. Ela nunca está sozinha na página. Mesmo seus ensaios curtos vêm enfeitadas com longas linhas de reconhecimento aqueles que aguçaram suas ideias. Ela escreve aos ancestrais e às mulheres que encontra nas manchetes do jornal — mulheres desaparecidas, assassinadas, ela dá nome ao maior número delas que pode, o tipo de socorro e cuidado que é visto no trabalho de Saidiya Hartman e Christina Sharpe. Nos “The Cancer Journals”, em que ela documenta o diagnóstico de câncer de mama, ela nota, “Eu Carrego tatuado no meu coração uma lista de nomes das mulheres que não sobreviveram, e há sempre espaço para mais um, o meu.”

The Selected Works of Audre Lorde (ainda sem tradução no Brasil)
Editado e com introdução de Roxane Gay
W.W. Norton & Company
US$ 16,95 (à venda nos EUA)

Diversidade é caminho sem volta e torna as empresas melhores, diz fundador da XP

Guilherme Benchimol diz que a meta da empresa é chegar a 2025 com 50% das mulheres na equipe

Guilherme Benchimol, um dos fundadores da XP Investimentos, na sede da corretora em São Paulo
Guilherme Benchimol, um dos fundadores da XP Investimentos, na sede da corretora em São Paulo Joel Silva/Folhapress

Desde julho, quando divulgou a meta de chegar a 2025 com as mulheres ocupando 50% da equipe, em todos os níveis hierárquicos, a XP afirma que elas já representam 40% das novas contratações. Em setembro, o recrutamento feminino triplicou em relação à média do primeiro semestre, segundo a empresa.

Para Guilherme Benchimol, presidente da XP, o aumento da participação das mulheres na companhia é um caminho sem volta.

“Essa é a grande pauta que os empresários precisam entender. A despeito da inclusão, de termos de ajudar a construir, a defender as minorias e fazer a sociedade mais justa, diversidade deixa a empresa melhor”, afirma ele.

Atualmente, dentre as 13 cadeiras no conselho de administração da empresa, apenas uma é ocupada por mulher. Benchimol acredita que a meta de equilibrar em 50% pode ser alcançada antes de 2025. “Só de botarmos a boca no trombone, já faz com que muita coisa aconteça”, diz.

Como nasceu a ideia de aumentar a presença feminina na empresa? A XP sempre foi meritocrática. O ponto de partida foi perceber que realmente a diversidade deixava a empresa melhor. Mais de 50% da população é mulher. Times diversos entregam mais resultado no final. E diversidade não é só homem e mulher.

Essa foi a ficha que caiu para nós. A gente começou a medir internamente as equipes e percebeu que aquelas que entregaram mais resultados tinham mais diversidade.

Não tem como negar que o mercado financeiro é um ambiente mais masculino e pouco inclusivo.

Então, se a gente quisesse montar uma empresa cada vez melhor para o nosso cliente, diversidade era um tema que teria que estar na pauta. Não apenas pela inclusão, mas também ficou evidente que a empresa ia ser melhor.

Essa é a grande pauta que os empresários precisam entender. A despeito da inclusão, de termos de ajudar a construir, a defender as minorias e fazer a sociedade mais justa, diversidade deixa a empresa melhor.

O que aconteceu desde o início do programa em julho? O compromisso é chegar a 2025 com 50% de mulheres na empresa em todos os cargos. Hoje temos 24%. Já temos em diretoria e conselho. De julho para cá temos contratado muito mais mulheres do que antes. Chegou a 40% das novas contratações. Temos que crescer mais, senão, não chega na meta de 2025. A cada mês vamos aumentando a barra.

Tem uma série de iniciativas para tentar descaracterizar que o mercado financeiro é só para homens porque tem uma questão cultural. Quanto mais a gente mostra isso, a gente percebe como é grande a quantidade de mulheres que adorariam entrar no mercado financeiro mas não tinham oportunidade.

No conselho de administração da XP tem só um nome feminino. Não é curto o prazo para ter 50% em 2025? Só tem uma mulher por enquanto. Não é tão curto o prazo. Se abrir espaço, chega até antes. Só de botarmos a boca no trombone, no bom sentido, já faz com que muita coisa aconteça. Temos de acompanhar de perto.

Tem pessoas que acabam tendo um pouco mais de preconceito e não entendem a questão da meritocracia. Trabalhar com diversidade é deixar a empresa melhor. Foi essa a pegada que a gente tem tentado conscientizar todos os nossos líderes, além de deixar a sociedade mais equilibrada.

O programa da XP tem um treinamento para eliminar viés inconsciente na liderança e na equipe. Como está sendo a sua experiência pessoal com isso? Em algumas poucas áreas, as pessoas que são cabeça um pouco mais fechada, que é a minoria absoluta na empresa, ficam com a sensação de que isso é mimimi, que a gente não é mais meritocrático, que a empresa agora quer fazer inclusão e não se preocupar em ser a melhor empresa possível.

Depois que você explica, com dados e fatos, que a gente quer ser ainda melhor, e que uma área diversa entrega mais no final, você descaracteriza aquele viés. E a gente tem conseguido uma aceitação muito grande na empresa.

Eu diria que praticamente todos os líderes hoje já entenderam que é um caminho sem volta e que é a melhor forma de tornar a nossa empresa cada vez melhor.

Também foi criado um coletivo feminino em julho na XP. Elas encaminham essas discussões diretamente a você? Como eu tenho sido o capitão dessa transformação dentro da empresa, fica mais fácil. Quando o principal líder da empresa encampa a causa e entende a importância disso, as outras pessoas acabam aderindo naturalmente.

Todas as mulheres da empresa se sentem empoderadas e com mais espaço, e se sentem capazes de competir com os homens com as mesmas condições. Isso é bom.

Na verdade, o que faltava era essa autoestima e, quando você começa a se comprometer com isso, você valoriza as mulheres que já estão na casa e aquelas que querem entrar no mercado.

Para além da diversidade de gênero, teve o exemplo recente da Magazine Luiza, que fez o programa de trainees para profissionais negros. Como a XP está trabalhando isso? Quando se fala em diversidade, a gente fala em tudo. A meta de cada líder de equipe é conseguir trazer pessoas que possam ter a amostragem da população brasileira. No final, é isso que vai fazer com que a gente consiga atender o cidadão brasileiro.

Chega de ‘casinhas perfeitas’: mulheres dos subúrbios se rebelam contra Trump

Em Connecticut, elas formaram um grupo conhecido como SWAT, que faz campanha pela chapa de Joe Biden e Kamala Harris
Da AFP

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Mulheres do Subúrbio contra Trump (S.W.A.T, na sigla em inglês): Shira Tarantino (à esq.) e Brook Manewal fazem campanha contra a reeleição do presidente americano nos subúrbios de Stamford,em Connecticut Foto: TIMOTHY A. CLARY / AFP

NOVA YORK. Donald Trump garante que as mulheres dos subúrbios vão reelegê-lo presidente, mas, nos grandes subúrbios de Nova York, assim como em outros do país, muitas fazem campanha contra ele e rejeitam sua concepção dos subúrbios, que consideram racista e antiquada.

O grupo “Mulheres dos subúrbios contra Trump” (S.W.A.T., na sigla em inglês) se formou no início de agosto, quando o presidente americano, dirigindo-se a elas, disse que seu rival, o candidato democrata Joe Biden, “destruirá seu bairro e seu sonho americano”, com a construção moradias sociais.

“Fiquei em choque com como ele tentava pintar este quadro das mulheres do subúrbio que se integram ao seu bando e o quão racista era”, disse a cofundadora Brook Manewal em uma reunião do “S.W.A.T Team”. “Ele nos apresenta como se tivéssemos medo de perder nossos muros brancos, nossas casinhas perfeitas e jardins perfeitos, e não acho que isso retrate em nada as pessoas que eu encontro por aqui”, afirmou.

Naquela mesma noite, essa advogada de 43 anos enviou uma mensagem de texto para uma amiga e vizinha de Stamford, Shira Tarantino, sugerindo criar uma organização, com o objetivo de convencer as mulheres dos subúrbios a votarem em Biden.

S.W.A.T. nasceu como um pequeno grupo de Facebook. Cresceu rapidamente, graças ao boca a boca e às redes sociais. Agora, conta com 9 mil membros em 35 estados, segundo Manewal, uma advogada mãe de quatro filhos. As mulheres ligam para potenciais eleitores todos os dias e enviam pelo correio lembretes sobre a importância de se registrar e votar.

Também arrecadam fundos para a campanha de Biden, publicam informações on-line e estão organizando uma marcha para este sábado em Stamford. Também estão enviando 10 mil cópias de uma carta para a Casa Branca, dizendo a Trump: “Você NÃO nos conhece, você NÃO fala por nós e você NÃO representa o tipo de líder que respeitamos”.

No evento realizado na quarta-feira (14), as ativistas fizeram cartazes para a marcha de sábado com as legendas “Não retrocederemos” e “Se afaste do meu corpo”, uma referência à afirmação de Trump de que a Suprema Corte poderá revisar a lei que permite o aborto. Elas garantem que já conseguiram o apoio de algumas simpatizantes republicanas, embora afirmem que esse não é seu objetivo.

“Não acho que estamos aqui, necessariamente, para mudar a mente de pessoas que já decidiram o que vão fazer”, disse Tarantino, de 49 anos e mãe de dois meninos. “Acredito que o que estamos fazendo aqui é estimular as pessoas que normalmente não votam a saírem e ir votar”, disse esta executiva de uma organização sem fins lucrativos.

As mulheres brancas, incluindo as que vivem nos subúrbios, tiveram um papel significativo na inesperada vitória de Trump, que derrotou Hillary Clinton em 2016. Segundo o centro de pesquisa Pew Research Center, o percentual de mulheres brancas que votou em Trump chegou a 47%, contra 45% para Clinton.Entre as mulheres brancas com título universitário, 61% votaram em Trump, e apenas 34%, em Hillary. Estes votos foram cruciais para o presidente em estados como Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, onde ganhou por apenas 44 mil votos (menos de 1%).

Em agosto, Trump tuitou: “A mulher dos subúrbios votará em mim”, no dia 3 de novembro. Na última terça, em um ato de campanha na Pensilvânia, não se mostrou tão seguro. “Mulheres do subúrbio, posso lhes agradar, por favor? Salvei seu maldito bairro, ok?”, disse à multidão. O pedido surgiu depois de uma pesquisa do jornal The Washington Post e da rede ABC News, mostrando que, em agosto, Biden abriu 13 pontos em relação a Trump entre as mulheres dos subúrbios.

“Ele não tem ideia de como são nossas vidas. Não somos ‘donas de casa’, e estes não são os anos 1950”, disse à AFP uma das fundadoras do S.W.A.T., Katie Paris.

História de amor entre duas freiras rouba a cena na conservadora Croácia

Documentário ‘Nun of your business’ ganhou o troféu principal do público no Festival de Cinema ZagrebDox
AFP

Marita Radovanovic e Fanika Feric, personagem do documentáiro 'Nun of your business', premiado pelo público no Festival ZagrebDox Foto: DENIS LOVROVIC / AFP
Marita Radovanovic e Fanika Feric, personagem do documentáiro ‘Nun of your business’, premiado pelo público no Festival ZagrebDox Foto: DENIS LOVROVIC / AFP

Marita era freira em uma ilha croata quando conheceu Fani, uma outra freira que viria a se tornar seu grande amor. A vida das duas inspirou um documentário recentemente apresentado no Festival de Cinema ZagrebDox, do qual saiu com o Prêmio do Público. “Nun of your business”, cujo título em inglês brinca com a palavra “nun” (freira) e a expressão “none of your business” (isso não é da sua conta), narra a vida das duas mulheres desde a infância em partes remotas da Croácia, passando pela decisão de entrar para a igreja e o encontro entre elas, que aconteceu há dez anos.

— É a história de um amor inesperado e incomum, mas me concentrei mais na questão da liberdade individual — disse a diretora Ivana Marinic Kragic à AFP.  — Elas encontraram forças para lutar por seu amor, algo que em geral não é aceito em nossa sociedade.

Marita Radovanovic, à direita, e Fanika Feric, à esquerda, com a diretora Ivana Marinic Kragic ao centro Foto: DENIS LOVROVIC / AFP
Marita Radovanovic, à direita, e Fanika Feric, à esquerda, com a diretora Ivana Marinic Kragic ao centro Foto: DENIS LOVROVIC / AFP

Kragic destaca que não queria provocar polêmicas, mas sim despertar empatia na conservadora sociedade croata, onde pessoas LGTBQ são vítimas de discriminação e onde a influente Igreja Católica considera a homossexualidade uma “deficiência” e uma “perversão”.

Marita Radovanovic, de cabelos curtos com mechas rosa, tinha 18 anos quando ingressou no convento da ilha de Korcula, no sul do país, onde nasceu. Incentivada por seu desejo de ajudar os outros, ela foi contra a vontade de sua família, que queria que ela levasse uma vida “normal”.

Decepção

No seminário, ela encontrou Fanica Feric, conhecida com  Fani. Mas a amizade que se formou no início só se transformou em relacionamento amoroso vários anos depois, quando Marita já havia deixado a Igreja.

Foi no convento que Marita, hoje com 36 anos, conheceu sua homossexualidade e teve seu primeiro relacionamento com uma mulher. Já Fani, 40, sempre soube que era lésbica, mas tinha medo de dizer isso em sua pequena cidade no leste da Croácia. Ela diz que foi atraída pela vida religiosa quando ouviu freiras e crianças cantando em um coro e entrou pra a vida monástica aos 23 anos.

— Não pensei para onde estava indo. Num convento há muitas mulheres — relembra, sorrindo.

Mas as duas acabaram decepcionadas. Marita percebeu que a comunidade religiosa não estava isenta do assédio e da mesquinhez típicas de outros grupos humanos.

— Antes, eu idealizava tudo, mas percebi que a estrutura (da Igreja) não combinava comigo. A palavra da minha ordem era “Veritas”. Depois de um tempo, decidi ser honesta comigo mesma e com Deus, que é amor.

— É difícil quando você não se encaixa por ser diferente — diz Fani. — Para os católicos, a homossexualidade é um grande pecado. Eu rezei a Deus para me curar da minha ‘doença’. Mas depois percebi que se Deus me fez assim, não havia nada para curar.

As duas começaram a conversar regularmente ao telefone depois que Marita abandonou o hábito para estudar em Split, em 2009.

— Eu pensava nela mais do que na Bíblia — brinca Fani, que morava em Zagreb na época.

Depois de uma fatídica visita de Marita, Fani pediu ao convento alguns dias para refletir sobre sua situação.

— Na juventude, quando via uma estrela cadente, sempre dizia: ‘Deus, por favor, mande alguém como eu’. Agora ela estava lá, então eu deixei o convento.PUBLICIDADE

A diretora Kragic levou sete anos para rodar seu filme. Ela precisava ganhar a confiança das duas mulheres e deixá-las confortáveis com sua nova vida “civil”. Depois de passar vários anos em Zagreb, uma trabalha no setor do turismo e a outra com restauração.

Elas moram em Korcula, onde a família de Marita as aceitou como são. E embora tenham se afastado da instituição religiosa, mantêm sua fé intacta e esperam convencer outros a seguirem seu próprio caminho.

— Foi o que eu fiz, tanto no convento quando percebi que não era para mim, quanto no que diz respeito ao Fani — enfatiza Marita.

Uma em cada vinte estudantes universitárias na França já foi vítima de estupro, diz pesquisa

Estudo também indica que uma em cada dez jovens foi vítima de agressão sexual ou de atos violento

Com vendas, mulheres protestam contra feminicídio e violência sexual em Paris
Com vendas, mulheres protestam contra feminicídio e violência sexual em Paris – Geoffroy Van der Hasselt – 29.nov.19/AFP

RFI – Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (12) afirma que uma em cada 20 estudantes universitárias na França já foi estuprada. O mesmo estudo indica que uma em cada dez jovens foi vítima de agressão sexual ou de atos violentos.

A constatação é fruto de uma pesquisa realizada pelo Observatório Estudantil de Violências Sexuais e Sexistas no Ensino Superior, órgão criado em maio de 2019 com o objetivo de analisar esses fenômenos na população universitária.

Entre abril e dezembro de 2019, um questionário online foi distribuído entre alunos de cerca de 50 universidades, faculdades e cursinhos preparatórios na França. Das mais de 10 mil respostas recebidas, a maioria (76%) vem de mulheres.

O dado mais impressionante do estudo, intitulado “Palavras de estudantes sobre as violências sexuais e sexistas”, foi o fato de 5% das alunas que responderam à pesquisa afirmarem já terem sido vítimas de estupro. Além disso, 11% das jovens dizem ter sofrido algum tipo de agressão sexual.

No caso dos homens, 5% afirmam já terem sido alvo de agressão sexual.

CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS

Segundo as respostas, o consumo excessivo de álcool (18%), a falta de educação dos estudantes (18%) e a impunidade (18%) seriam algumas das causas desses delitos.

O chamado “efeito de grupo”, com agressões durante festas, por exemplo, estaria na origem de 20% dos ataques. Entre os entrevistados, 34% declaram terem sido alvo ou testemunha de violência sexual, e 24% das vítimas foram agredidas quando estavam alcoolizadas.

De acordo com o relatório redigido após o estudo, os agressores, na maioria das vezes, também são estudantes universitários. “Na maior parte dos casos, trata-se de um amigo ou pessoa próxima da vítima.”

As agressões sexuais mais frequentes, segundo os entrevistados, são violência verbal (58%), contato físico não desejado (48%) e insultos de cunho homofóbico (40%).

SEXISMO

A pesquisa também se interessou pela questão do sexismo nas universidades. Para 35% dos homens ouvidos, as instituições de ensino superior respeitam a igualdade. Mas entre as mulheres essa porcentagem cai para 27%.

No entanto, o estudo aponta que, quanto mais avançados estão os entrevistados no percurso escolar, mais essa porcentagem aumenta.

“Nós partimos da hipótese de que os estudantes e as estudantes tomam consciência da realidade das violências sexistas conforme eles avançam na vida estudantil”, avalia o observatório.

DESCRENÇA NAS INSTITUIÇÕES

O relatório aponta ainda que os dispositivos existentes dentro das instituições para combater esse tipo de situação nem sempre são conhecidos pelos alunos.

Mais de um quarto das pessoas ouvidas não tinha informações sobre possíveis estruturas de apoio, e 18% afirmaram que esses dispositivos simplesmente não existiam.

Talvez por essa razão, apenas 11% dos entrevistados afirmam ter avisado as universidades após terem sido vítimas ou testemunhas de agressões.

Pelo menos 22% das pessoas consultadas consideram que denunciar a agressão junto às instituições “não adianta nada”, enquanto 9% alegam que as denúncias não serão levadas a sério.

Os autores do estudo lembram que a pesquisa é uma iniciativa lançada pelos próprios estudantes. No entanto, eles ressaltam que os métodos escolhidos e aplicados no estudo foram validados por um grupo de trabalho formado por profissionais qualificados.

Economista Mercedes D’Alessandro explica como é o primeiro orçamento com perspectiva de gênero na História da Argentina

Em entrevista a CELINA, Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero no Ministério da Economia argentino, explica que o Orçamento 2021 foi construído para atacar as desigualdades entre homens e mulheres que ainda persistem no país
Leda Antunes

A economista Mercedes D’Alessandro é autora de um livro sobre economia feminista (ainda inédito no Brasil) e, neste ano, assumiu o cargo de diretora nacional de Economia, Igualdade e Gênero do Ministério da Economia argentino Foto: Reprodução/Twitter

Pela primeira vez na história, o governo da Argentina enviou ao Congresso um orçamento com perspectiva de gênero. A ideia é que as ações do Estado contidas no orçamento de 2021 efetivamente contribuam para reduzir as disparidades de gênero na Argentina e possam assegurar direitos às mulheres. O projeto traz uma relação de 55 medidas especificamente identificadas, com recursos que correspondem a 15% do Orçamento total e a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Por trás da iniciativa está a economista Mercedes D’Alessandro, 42 anos, que atualmente comanda a Direção Nacional de Economia e Igualdade de Gênero do Ministério da Economia argentino.

D’Alessandro é uma das maiores referências no país quando o assunto é a economia feminista, uma vertente de pensamento que se dedica a repensar os principais conceitos da economia tradicional a partir de uma perspectiva que considera o valor do trabalho doméstico e de cuidado, feito majoritariamente por mulheres, para o funcionamento do sistema econômico.

Criada na província de Missiones, D’Alessandro concluiu o doutorado em Economia na Universidade de Buenos Aires e foi professora universitária por mais de 15 anos. Mudou-se para os Estados Unidos e, em 2015, na esteira do movimento “Ni Una Menos”, que discute violência de gênero e reivindica os direitos das mulheres na Argentina, criou o blog “Economia Feminista” para debater a igualdade de gênero sob uma perspectiva econômica. O sucesso foi tamanho que o blog se transformou em uma ONG especializada no assunto e virou livro: “Economía feminista. Cómo construir una sociedad igualitaria (sin perder el glamour)”, lançado em 2016 e ainda sem edição no Brasil.

Quando o economista Martín Guzmán assumiu o ministério da Economia do governo de Alberto Fernandez, eleito no ano passado, chamou D’Alessandro para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero, que hoje conta com seis pessoas na equipe subordinadas apenas ao ministro e ao vice-ministro, mas deve chegar ao fim do ano com 14.

Em entrevista a CELINA por Skype, ela falou sobre a construção do orçamento 2021, explicou quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina e os principais desafios para reduzir as disparidades entre homens e mulheres em um contexto de pandemia e crise econômica.

CELINA: Como surgiu o convite para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero?

MERCEDES D’ALESSANDRO: Conheci Martín Guzmán, nosso atual ministro da Economia, quando estava nos EUA. Nos encontrávamos habitualmente para conversar sobre temas econômicos de interesse mútuo. E aí, quando lhe ofereceram o cargo de ministro, ele me convocou dizendo que queria criar no ministério um espaço institucional de economia com perspectiva de gênero.

Então voltei para Argentina para criar esse espaço, que não existia antes. Em termos de estrutura, acima de nós estão o ministro e o vice-ministro. A diretoria se desenhou dessa forma para que a nossa área tenha capacidade de incidir de maneira transversal em todas as demais áreas que formam o Ministério de Economia, como políticas macroeconômicas, políticas tributárias, finanças e energia.PUBLICIDADE

A missão da diretoria é trabalhar a economia e a igualdade de gênero. Isso é importante porque temos brechas de desigualdade gigantes, temos muita riqueza concentrada em poucas mãos e muita pobreza repartida. E isso, sob a perspectiva de gênero, se amplifica. A pobreza está feminizada e a riqueza está nas mãos dos homens. É um debate sobre desigualdade e sobre a necessidade da perspectiva de gênero para a transformação dessa estrutura de desigualdade.

Qual foi a sua função na elaboração do orçamento e o que significa ter um orçamento com perspectiva de gênero?

Um orçamento que se apresenta ao Congresso é como um plano de governo. Se esse governo entende que as mulheres têm maiores níveis de desemprego, de precarização e de pobreza, o plano que faz para o ano seguinte tem que responder a isso. O que fizemos foi sentar com a Fazenda, que é onde o orçamento é feito, e começar a procurar as políticas que têm como efeito diminuir as desigualdades. Identificamos que as despesas atribuídas para reduzir as disparidades de gênero correspondem a 15% do orçamento nacional que se apresenta para 2021. E isso equivale a 3,4% do PIB.

Além disso, elaboramos, junto com a Fazenda, uma mensagem ao Congresso para falar das condições de vida das mulheres e mostrar onde estão esses problemas e quais são as soluções. No processo, também falamos com cada um dos ministérios para saber quais políticas pensavam executar em 2021 para combater a desigualdade de gênero. Chamamos todas as pessoas responsáveis das áreas que entram no orçamento para pensar o que já estavam fazendo e onde, ou se não estavam fazendo e o porquê.

Também criamos ferramentas para medir os impactos dessas políticas, se o que foi atribuído foi executado, se cumpriu seu objetivo, se faltam recursos ou não, se a mesma política será mantida no ano seguinte. Isso também servirá para o público e para sociedade civil como uma ferramenta de transparência, para que se possa ver  o que o governo está fazendo de fato.

Mercedes D'Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino
Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino

É a primeira vez que isso é feito na Argentina? Na América Latina houve algo parecido?

Não conheço como funciona em cada lugar, mas, na Argentina, sim, é a primeira vez. Quando se fala no programa de governo para o próximo ano, ele tem cinco pilares e um deles é a perspectiva de gênero e diversidade. Também é a primeira vez na História que um programa de governo propõe isso como um dos seus pilares.O discurso de gênero esteve presente em muitos governos, mas não nos decretos, nas leis e tampouco no orçamento. Uma coisa é falar de algo, outra é propor leis e a atribuir recursos para executá-las. Isso é único na Argentina.

Pode exemplificar algumas políticas que vão receber esses recursos e que desigualdades de gênero elas vão atacar?

A aposentadoria da dona de casa, como chamamos aqui, é uma das maiores despesas orçamentárias. Ela reconhece que o trabalho doméstico não remunerado é uma contribuição para a sociedade que precisa ser retribuída de alguma maneira pelo Estado. Essa política não é nova, mas agora podemos reconhecê-la e mostrá-la por essa perspectiva. É uma política que esteve em risco no governo anterior, que queria eliminá-la, mas a mobilização de muitas pessoas que estão perto de se aposentar o impediu.PUBLICIDADE

Outro exemplo é a criação do Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade. É a primeira vez que temos um ministério inteiro com essa função. Antes existia um instituto, com uma estrutura menor, mas agora o ministério tem um orçamento 13 vezes maior.

Uma das maiores propostas desse ministério para o próximo ano é uma política que se chama “Acompanhar.” Na Argentina, e em muitos países da América Latina, a mulher agredida por seu companheiro ou outra pessoa da família muitas vezes não tem condições financeiras para sair de casa. Esse programa, que é o maior do Ministério das Mulheres, concede o equivalente a um salário mínimo durante seis meses, além de acompanhamento psicológico e social, para que essas mulheres possam encontrar outro lugar para viver com segurança. É uma política nova, que vai começar a ser executada já no fim desse ano.

Todos os ministérios têm políticas com perspectiva de gênero?

A metade dos ministérios tem alguma despesa, e alguns têm políticas que não foram identificadas. Como é algo novo, alguns não puderam identificar ou fazer esse filtro a tempo, ou têm iniciativas menores, que não foram declaradas. No ano que vem, vamos registrar muito mais políticas, porque é um processo que vai se internalizando. E funciona graciosamente como um chamado, uma declaração de competência. Todos querem mostrar que fazem algo com a perspectiva de gênero e começam a pensar sobre isso.PUBLICIDADEhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Esse orçamento pode reduzir ou proteger as mulheres da violência de alguma forma?

Sim. O orçamento não reflete só as políticas econômicas ou de redução de desigualdades, mas também que protegem as mulheres da violência e que permitem que elas acessem serviços básicos de saúde. Por exemplo, uma despesa no orçamento que possibilita que haja maior atenção para a detecção precoce do câncer de mama, contraceptivos gratuitos nos hospitais e educação sexual e integral em todas as escolas públicas.

Outra novidade é que, além da Argentina já ter a Lei de Identidade de Gênero e o casamento igualitário garantido em lei, foi criada uma cota para profissionais travestis e transexuais no serviço público. Isso significa que 1% do emprego no Estado tem que estar reservado para pessoas transgênero. Pessoas travestis e trans, em geral, trabalham na prostituição, não têm acesso à educação e têm dificuldade para acessar o mercado laboral. Essa política está orientada para melhorar esse acesso.

Em 2021, a Argentina também realizará o censo, que é feito de dez em dez anos, e, pela primeira vez, será incluída uma pergunta sobre qual é a identidade de gênero autopercebida. Esse registro estatístico vai nos permitir identificar a situação das pessoas travestis e trans no país. Isso não está incluindo no orçamento, mas da mesma forma tem perspectiva de gênero.

Quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina? E o que é mais difícil de atacar?

O mais difícil é a distribuição das tarefas de cuidado: 76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres, que trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades. Acho que é igual em toda a América Latina. As mulheres estão associadas a cuidar dos filhos, cozinhar, lavar a roupa, cuidar da casa. Quando dizemos que há uma assimetria na divisão dessas tarefas, os homens sempre dizem “na minha casa eu cozinho” ou “mas eu tiro o lixo”. Sempre querem mostrar que fazem algo e não entendem o que isso significa para as mulheres.

Fizemos um estudo desde a eleição para colocar um preço nas atividades de cuidado. Elas representam 16% do PIB da Argentina. Se considerarmos que o trabalho feito pelas mulheres no interior dos seus lares é um setor produtivo da nossa economia, ele seria o setor com o maior peso, antes mesmo da indústria e do comércio. 

'76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades', diz a economista argentina Mercedes D'Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino
‘76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades’, diz a economista argentina Mercedes D’Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino

Analisamos os impactos da pandemia, com as escolas fechadas e os filhos em casa o tempo todo. Com isso, o setor do cuidado passou de 16% para 22% do PIB. Quer dizer que esse é o setor que mais cresce, enquanto todos os outros caem. Assim como aumentam os trabalhos essenciais, que não puderam deixar de ser realizados na pandemia, e que em grande parte são feitos por mulheres: professoras, enfermeiras e cozinheiras nos comedores populares.PUBLICIDADE

Eu sempre questiono meus colegas sobre como vamos retomar a economia se as crianças não podem ir à escola. Se isso acontecer, quem vai acabar deixando de trabalhar para ficar em casa vai ser a mulher. Isso é um problema, que está acontecendo agora no Brasil, no México, na Argentina e no Chile. Os empregos mais rapidamente retomados são os dos homens, e as mulheres estão ficando fora do mercado de trabalho. Esse é o maior desafio que temos: convencer nossos colegas que trabalham na produção, no transporte, na energia, todos setores muito masculinizados, que é preciso tomar medidas e pensar soluções. É muito difícil. Vejo as perguntas, mas não as soluções.

Sentiu alguma resistência para implementar a perspectiva de gênero no orçamento? O será mais desafiador quando ele for votado no Congresso?

O governo atual é aberto à perspectiva de gênero. Mas o maior problema que encontro é que, nessa crise que vivemos, tendemos a usar os instrumentos conhecidos. E esses instrumentos não têm perspectiva de gênero. Transformá-los leva tempo, e penso que os debates não serão suficientes. O orçamento é uma ferramenta gigantesca e que serve para fazer esse debate profundo, que se reflete em dinheiro. Porque é preciso de dinheiro para fazer as coisas.

No Congresso, hoje, não creio que as despesas de gênero serão motivo de discussão, mas, sim, a crise geral da Argentina. O orçamento prevê que o PIB vai cair 12 pontos em 2020. Em todo caso, o que está no foco da discussão é o que será feito no próximo ano para recuperar a economia. O maior desafio é compreender que essas políticas de gênero são políticas para a recuperação. Sem elas, não teremos como recuperar.