Andréa Beltrão desabafa sobre preconceito por idade: “Eu tenho 58 anos e me sinto maravilhosa”

Vídeo postado pela atriz teve apoio de outras celebridades, como Cristiana Oliveira, Patricia Pillar e Alinne Moraes
Glamour

Andréa Beltrão — Foto: Reprodução/Instagram
Andréa Beltrão — Foto: Reprodução/Instagram

Andréa Beltrão compartilhou um longo desabafo em suas redes sociais. No vídeo, a atriz de 58 anos fala sobre etarismo. “Nossa Andréa, você tem 58 anos? Mas você está ótima. Quando escuto isso eu sorrio… mas o que esse ‘mas’ quer dizer? Que eu deveria estar péssima? Se você é mulher e já passou dos 35, 40 anos, você já deve ter ouvido isso várias vezes ou talvez já tenha dito isso para outra mulher… é uma questão cultural, mas esse ‘mas’ carrega um preconceito gigante com a idade, mesmo que a intenção seja boa. Eu tenho 58 anos e estou ótima, eu tenho 58 anos e estou cheia de energia, eu tenho 58 anos e me sinto maravilha, estou superlegal, sem nenhum ‘mas'”, disparou.

A publicação da atriz teve o apoio de diversas celebridades e fãs. “Linda, maravilhosa!”, escreveu Fernanda de Freitas. “É isso!”, concordou Pathy Dejesus. “MARAVILHOSA! !! Gostosa querida talentosa amorosa ! Deusa!”, postou Bárbara Paz. “Perfeito!!! e “inteiraça”?! Tem coisa mais absurda e de mau gosto que dizer isso?Supostamente deveríamos estar em ruínas?”, analisou Bel Kutner.

Patricia Pillar, Alinne Moraes, Ana Beatriz Nogueira, Eduardo Moscovis, Malu Galli, Alice Wegmann, entre outros famosos, também deixaram emojis carinhosos na postagem.

Cristiane Oliveira e Thais de Campos fizeram questão de repostar o vídeo de Andréa. “Eu tenho 58 anos e Andréa Beltrão me representa!”, escreveu a atriz que interpretou Juma na primeira versão de Pantanal.

Dia Internacional da Menstruação: como o mercado de higiene menstrual evoluiu nos últimos anos

Com uma projeção de crescimento global de quase sete bilhões de dólares até 2025, o setor de cuidados íntimos enfrenta desafios que vão muito além da inovação e do lucro
GIULIANA CURY

No Dia Internacional da Higiene Menstrual, a Vogue faz um panorama sobre o mercado nacional do menstrual care (Foto: Harley Weir/Art Partner)

A conta é simples: na média, uma pessoa tem aproximadamente 450 ciclos menstruais durante a vida. O que equivale a cerca de sete anos. Durante o período menstrual, a expectativa é de que sejam usas mais ou menos 20 absorventes por ciclo, chegando à conta de quase dez mil absorventes higiênicos durante toda a idade fértil.

Analisando os números levantados pelo Fluxo Sem Tabu, projeto que fornece artigos de higiene íntima para vulneráveis, dá para enxergar o potencial desse mercado. Some-se a isso, mais esse dado: no Brasil, 30% da população menstrua. São 60 milhões de pessoas, segundo apuração da Girl Up, um movimento da Fundação das Nações Unidas para a igualdade de gênero, feita com base nos dados do Censo (IBGE, 2010). Sessenta milhões de potenciais consumidores de absorventes.

Com tanta gente menstruando, é natural que o setor global do segmento aumente na casa dos bilhões, como apontado pela agência americana MarktsandMarkts. No Brasil, a venda de absorventes também apresentou crescimento: foram quase 21% em 2021, segundo a ABIHPEC. Os números podem passar a impressão de que o cenário é positivo no mundo da higiene íntima. Mas não é. E no Dia Internacional da Higiene Menstrual, lembrado neste 28 de maio e que traz luz a como o mercado acolhe pessoas que menstruam, Vogue mergulha no tema.

Coletor menstrual (Foto: Getty Images)

Por mais difícil que seja acreditar, em pleno século XXI, mais de 500 milhões de mulheres em todo o mundo, cerca de 25% da população que menstrua, sofre de “pobreza menstrual”. Segundo a Days for Girls, organização norte-americana de caridade, são mais de 500 milhões de pessoas que não têm condições de adquirir o produto de higiene íntima. O cuidado menstrual ainda enfrenta grandes desafios, como tabus, preconceito, falta de informação, de equidade e de políticas públicas sociais e fiscais.

No Brasil, uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, encomendada pela Always, mostrou que 5,5 milhões de mulheres já faltaram no trabalho por não terem dinheiro para comprar absorvente, gerando prejuízo de R$ 2.4 bilhões por ano na economia brasileira. Quando falamos de falta na escola, o número sobe para 14 milhões de meninas. “O estudo mostrou que, apesar de ser um item essencial para a maioria das mulheres, muitas delas não têm acesso a ele”, disse Natalia Passarinho, diretora de marketing de Always, à Vogue. “Como marca, sabemos que temos o papel de levar informação sobre menstruação e apoiar a comunidade de diferentes formas. Uma das nossas iniciativas, a Aceleradora Social Always, é justamente para auxiliar projetos que ajudam pessoas em vulnerabilidade menstrual”, completa a executiva.

Não é luxo. É essencial

Criado em 2014 pela ONG alemã WASH United, o Dia Internacional da Higiene Menstrual veio com a missão de quebrar vários tabus sobre o tema, trazendo para a mesa de debates questões como a importância dos cuidados menstruais e de conscientizar o mundo sobre os problemas enfrentados por quem não tem acesso à produtos de higiene menstrual e nem de higiene básica. (A título de curiosidade: a data 28/5 foi escolhida porque o ciclo menstrual dura, em média, 28 dias e, a menstruação em si, cerca de cinco dias.)

A importância desse chamado se faz entender quando nos deparamos com dados como estes:

  • No Brasil, 713 mil meninas não possuem banheiro ou chuveiro em casa e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas. E ainda: 900 mil não têm acesso a água canalizada na residência e 6.5 milhões vivem em casas sem ligação à rede de esgoto.
  • Na Índia, cerca de 80% das meninas ainda usam panos gastos no lugar de absorvente.
  • No Quênia, aproximadamente 50% das meninas em idade escolar não têm acesso à produtos menstruais.
  • Em Pequim, quase 70% das estudantes entrevistadas em uma pesquisa admitiram que tentam esconder os absorventes higiênicos que carregam.
  • No Reino Unido, 52% das adolescentes entrevistadas para um estudo disseram que faltaram à escola no período menstrual e, dessas, quase 1 em cada 10 admitiu que faltaram por não poderem pagar ou acessar produtos de higiene.

“A falta de dignidade menstrual é um problema mundial, que engloba a desigualdade social, falta de estrutura e de educação sobre o tema”, falou Isabella Maimone, Senior Brand Manager da Johnson & Johnson Consumer Health Brasil, em entrevista à Vogue. Uma pesquisa de Sempre Livre realizada em 2021, em parceria com os Institutos Kyra e Mosaiclab, mostrou que quando não têm acesso às condições ideais, muitas pessoas afetadas pela pobreza menstrual fazem uso de itens não indicados para absorver a menstruação, como sacolinha de supermercado, roupas velhas, panos, filtro de café e até jornal ou miolo de pão. “Por isso, é de extrema importância que a população tenha informações corretas sobre o tema, além de condições dignas de higiene”, completa Isabella.

Outro ponto que acaba reforçado a pobreza menstrual é o chamado “Tampon Tax”, termo criado nos Estados Unidos para descrever o imposto sobre absorventes, que tributa os produtos menstruais como itens não essenciais. O termo correu o mundo e ganhou até uma expressão irmã, “Pink Tax” (imposto rosa), que se refere à discriminação baseada em gênero, apontando que produtos para mulheres são mais caros do que os similares masculinos. Para você ter uma ideia, no Brasil, o imposto dos absorventes é, em média, 34,48%, enquanto o do preservativo masculino é 18,75%. E mais uma diferença: preservativos são distribuídos gratuitamente pelo SUS. Absorventes, ainda não.

Agentes de mudança

Alguns países já entenderam a importância de dar dignidade e igualdade a quem menstrua. O Quênia foi o primeiro a abolir a tributação sobre produtos de higiene menstrual, em 2004. Austrália, Canadá, Índia, Jamaica, Nicarágua, Nigéria, Tanzânia, Líbano, Malásia, Colômbia, África do Sul, Namíbia, Ruanda e Reino Unido tomaram a mesma medida. Países membros da União Europeia não têm permissão para impostos com taxa zero, mas usam o imposto mínimo, 5%, enquanto não resolvem essa situação. Apenas a Irlanda, por enquanto, não cobra imposto nos absorventes – isso porque já não cobrava antes de entrar para UE. A Alemanha, por sua vez, adotou a classificação de itens essenciais para os  produtos menstruais e, assim, conseguiu reduzir o imposto sobre absorventes de 19% para 7%. Nos Estados Unidos, dos 50 estados, 30 ainda taxam absorventes.

No Brasil, a luta para acabar com o imposto desse item também se dá de forma local. Rio de Janeiro, Ceará, Maranhão, Bahia e São Paulo, por exemplo, isentaram o ICMS (imposto estadual sobre circulação de produtos) de absorventes íntimos, que ainda sofrem as taxações PIS (Programas de Integração Social) e Cofins (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social). Há várias ações sendo feitas também em estados e municípios para a distribuição de absorventes para estudantes de escolas públicas, nos presídios e para pessoas em situação de vulnerabilidade. Agora, essa iniciativa se tornou nacional com o decreto finalmente assinado pelo presidente da República em março.

Vale destacar, ainda, iniciativas como as da Escócia e Peru, que aprovaram leis que garantem artigos de higiene menstrual para qualquer pessoa que menstrue. Outra boa notícia veio da Espanha, que aprovou, em maio, um projeto de lei que dá até três dias de licença no trabalho para mulheres com fluxo intenso ou que sofrem de cólicas fortes. O país se juntou ao grupo que já oferece licença menstrual: Japão, Coréia do Sul, Indonésia e Zâmbia.

Um mercado engajado

Além das questões tributárias, políticas e sociais, questionamentos como sustentabilidade, inclusão, disrupção, fizeram o mercado de higiene íntima se mexer nos últimos tempos. “Se pararmos para pensar que a última grande inovação em cuidados para menstruação tinha aparecido na década de 30, com o coletor menstrual em 1937, estava mais do que na hora de pensarmos em novas soluções, novas opções”, avalia a educadora menstrual Raíssa Kist. Junto com uma amiga da faculdade de engenharia química — e por meio de crowdfunding — Raíssa fundou a Herself, empresa que pensa e produz soluções para o período menstrual. É da marca a primeira linha brasileira de biquínis e maiôs absorventes reutilizáveis. “Acreditamos na moda como ferramenta de transformação e de inclusão. Por isso, criamos essa tecnologia que faz com que a menstruação não seja um fator limitante para a prática de esportes aquáticos ou mesmo para momentos de lazer”, diz Raíssa. São estampas e modelos diferentes em 16 tamanhos (do 30 ao 60). Esse ano, a marca lançou a primeira calcinha absorvente pensada para mulheres com deficiência, com abertura na lateral. Elas também atuam no social, com a Escola da Menstruação, que ministra aulas sobre o tema e oferece oficinas em presídios femininos, para ensinar as mulheres a produzirem absorventes reutilizáveis.

Absorvente lavável, Herself (Foto: Divulgação)

Preocupação com a sustentabilidade também foi um dos motivos que levaram duas amigas a lançarem a primeira marca nacional de absorventes descartáveis, a Amai, feitos com 100% algodão orgânico e sem plástico (usam bioplástico biodegradável). As empreendedoras Luri Minami e Erika Tomihama foram atrás de tecnologia para fazerem um produto que não causasse dano para as mulheres (sem fragrância, sem corantes, hipoalergênicos) nem para o planeta. Hoje, felizmente, já é possível encontrar outras marcas de absorventes 100% orgânicos. A Amai também atua no combate à pobreza menstrual, doando 1% de suas vendas para o projeto Fluxo sem Tabu.

Sejam empresas pequenas, médias ou gigantes do setor; com produtos reutilizáveis, como os coletores menstruais ou calcinhas absorventes; ou os descartáveis com responsabilidade ambiental. Com versões anatômicas, noturnas, pensadas para diferentes fluxos… Não importa. O que realmente interessa é que marcas, governos, entidades e sociedade se unam em torno de um único objetivo: levar dignidade para as pessoas que menstruam.

Linha do tempo do mercado de higiene menstrual

> 1800 – Eram usados para conter a menstruação tecidos dobrados e reutilizáveis.
> 1890 – Surge na Alemanha absorventes descartáveis feito com bandagens.
> 1894 – São criados nos Estados Unidos os primeiros absorventes para consumo, feitos de um tecido com capacidade de absorção e com uma cinta para prender à cintura.

A partir da década de 30 surgem os absorventes descartáveis como conhecemos:

1933 – É criado o absorvente interno.
1937 – O coletor menstrual é lançado.
2014 – Surge nos Estados Unidos a calcinha absorvente.

XP fecha acordo com Educafro após polêmica de foto só com pessoas brancas

O escritório Ável Investimentos terá que promover processos seletivos com vagas exclusivas para negros e mulheres, além de instituir canal de denúncias sobre discriminação e assédio. ONG reconhece ações da XP

Funcionários da Ável Investimentos no terraço da empresa, em Porto Alegre — Foto: Reprodução internet

caso da foto de uma equipe de agentes de investimentos da XP apenas com profissionais brancos, que foi publicada em agosto do ano passado e viralizou nas redes sociais levantando questionamentos sobre a falta de representatividade na empresa, teve um desfecho. A foto chamou a atenção pela falta de negros e também pela presença reduzida de mulheres, dois grupos subrepresentados no mercado financeiro, apesar do avanço de programas de diversidade em muitas empresas.

Uma ação civil pública movida pela ONG Educafro, que atua em favor da inclusão educacional e profissional de jovens negros, contra a corretora e o escritório Ável Investimentos, credenciado à XP e responsável pela reunião da foto, foi encerrada por meio de um acordo. Com isso, não haverá o pagamento de danos morais coletivos pedidos pela ONG.

A Educafro reconheceu ações adotadas pela XP desde então em prol da diversidade na empresa, bem como as boas práticas de ESG (sigla em inglês para iniciativas ambientais, sociais e de governança) demonstradas pela corretora fundada por Guilherme Benchimol.

Já a Ável se comprometeu a concluir o plano de letramento em Diversidade e Inclusão que implementa, por meio de uma consultoria especializada, já contratada.

Desse modo, a Educafro considerou que o plano de diversidade apresentado pelo escritório de agentes autônomos é suficiente para tornar o quadro de colaboradores mais diverso.

Como parte do acordo, a Ável terá que criar processos seletivos com vagas exclusivas para populações vulnerabilizadas, notadamente negros e mulheres, e também promover a educação profissional para essas populações, visando sua capacitação e inserção no mercado de trabalho.

XP quer aumentar presença de negros de 20% para 32% dos funcionários

Nos últimos anos, a XP assumiu compromissos públicos para aumentar a diversidade na organização. As mulheres representam 34% do total de membros, o que equivale a um avanço de 12 pontos percentuais em apenas dois anos. Há o compromisso de atingir equidade de gênero até 2025.

Dentre os colaboradores, 20% se declaram como negros. Em 2020 eram 17%. O objetivo é chegar a pelo menos 32% de pessoas negras nos próximos três anos.Além de ter um Comitê de Diversidade e grupos de afinidade para fomentar os debates sobre o tema, a empresa terá que disponibilizar um canal confidencial para denúncias sobre comportamentos ofensivos de assédio ou discriminatórios, gerido de forma independente.

“Os autores reconhecem, de forma expressa, que a XP Investimentos elabora estratégia e desenvolve ações de curto, médio e longo prazo para a promoção da equidade e inclusão quanto à raça, gênero e orientação sexual, idade e de pessoas com deficiência no âmbito de seu ambiente de trabalho e de seu ecossistema de negócio, implementando e promovendo as melhores práticas de recrutamento, capacitação e treinamento e realizando seu adequado monitoramento, com foco na superação progressiva das metas estabelecidas, reconhecendo a efetividade das iniciativas apontadas (nos autos do processo)”, diz um trecho do acordo.

‘O amor das mães não é perfeito e incondicional’, diz colombiana Pilar Quintana, apontada como nova García Márquez

Em entrevista, escritora fala sobre eleições em seu país, que pode levar a esquerda pela primeira vez ao poder, e sobre o romance que lança no Brasil, uma reflexão sobre maternidade
Por Janaina Figueiredo — Buenos Aires

A escritora colombiana Pilar Quintana, autora de Os Abismos — Foto: Divulgação
A escritora colombiana Pilar Quintana, autora de Os Abismos — Foto: Divulgação

Já nas primeiras páginas de seu novo romance, “Os abismos”, a escritora colombiana Pilar Quintana abre as portas de um debate que considera fundamental para finalmente começar a derrubar tabus sobre as mulheres e a maternidade. A pequena Claudia pergunta à sua mãe, que tem o mesmo nome, se gostaria de ter tido mais filhos. A resposta é quase um manifesto: “Ui, não. Me deixem em paz. Além do mais, você já maltratou o meu corpo mais do que o suficiente.”

A cena acontece no apartamento onde a família, formada por Claudia, sua mãe e seu pai, Jorge (cerca de 20 anos mais velho que sua mulher), vive na cidade de Cali, terra natal da escritora. Poderia ser perfeitamente a casa onde Pilar nasceu e cresceu, com uma mãe que, como Claudia, sacrificou uma vida profissional em nome de ter a família que a sociedade esperava que tivesse. Como a maioria de suas amigas e familiares que, contou a escritora em entrevista ao GLOBO, inspirou uma história que busca revelar a maternidade real, com suas dores, cansaços e raivas.

— Meu principal recado para as mulheres é que elas não precisam ser perfeitas, essa é a maior liberação — afirma Pilar.

A escritora teve seu único filho, hoje de 7 anos, aos 43.

— Com este livro fiz as pazes com a geração de minha mãe. Percebi que, se para mim foi difícil a maternidade, para essas mulheres foi muito mais — frisa a autora, que em 2020 lançou “A cachorra”, em que conta a história de Damaris, uma mulher de vida sofrida, frustrada por não ter conseguido engravidar e que canaliza esse desejo por meio de Chirli, uma cachorra.

Prêmio Alfaguara

“Os abismos” venceu o renomado Prêmio Alfaguara 2021, e a consagrou como um dos maiores nomes contemporâneos da literatura latino-americana. Alguns a catalogam como a nova García Márquez, mas Pilar, embora se reconheça vaidosa, assegura que trabalha para que essas comparações não afetem a sua escrita e as histórias que quer contar.

Numa América Latina na qual os movimentos feministas se fortaleceram nos últimos tempos, mas onde ainda têm enorme influência setores conservadores, machistas e misóginos, Pilar busca ser uma voz poderosa que represente as mulheres de várias gerações. Uma voz que questione imagens idealizadas, como as das mães que ainda hoje aparecem em comerciais de fraldas e margarinas.

— Mostram mulheres que devem ser perfeitas, que não desejam, que não são infiéis. Que sacrificam tudo e têm um amor incondicional por seus filhos O amor das mães é realmente perfeito e incondicional? A resposta é não, é um amor imperfeito como todos os amores — afirma a escritora.

A escritora observa com otimismo as jovens gerações de mulheres latino-americanas e acredita que para elas tudo será mais fácil. Hoje ainda lamenta que o progressismo esteja forte dentro de uma bolha, sobretudo virtual, e que fora dela mulheres vulneráveis de toda a região ainda vivam em condições de submissão e com muitos menos direitos do que outras, de setores que chama de privilegiados.

— Me preocupam os governos de direita na região. Nosso país, por exemplo, acaba de assinar um tratado contra o aborto, sendo que o aborto é legal na Colômbia. Se continuarmos tendo governos de direita, perderemos muitas das lutas que já vencemos — lamenta Pilar.

Os colombianos irão às urnas no próximo domingo (29) e a esquerda nunca esteve tão perto de uma vitória. A escritora está ansiosa, na expectativa de uma mudança inédita em seu país.

Seu motor na vida é tirar máscaras, desfazer poses e contar experiências reais. Pilar é uma provocadora nata que, num país ainda profundamente conservador, desafia o status quo e sonha com um mundo no qual cada mulher possa ser quem quiser ser, sem tanto preconceito e julgamento.

No romance, através da relação de Claudia e sua mãe, que por sua vez também teve uma mãe muito pouco maternal, Pilar expõe as emoções negativas da maternidade, muitas vezes silenciadas. Expõe, até mesmo, o arrependimento que, por momentos, muitas mães sentem pelas escolhas de vida que fizeram.

— Amamos nossos filhos, mas a maternidade é dura. Algumas mulheres inclusive se arrependem — aponta a escritora, que ao escrever “Os abismos” disse ter percebido o quanto julgou sua própria mãe. — Não a via como uma mulher, apenas como mãe. E todos avaliamos as mães com parâmetros impossíveis de serem alcançados.

Infidelidade em família

A mãe de Claudia, que se casa muito jovem por forte pressão social, vive um intenso romance com o marido de sua cunhada. A infidelidade é descoberta pela filha e, posteriormente, pelo marido e por toda a família. Claudia mãe mergulha numa depressão que tenta disfarçar como rinite aos olhos de sua pequena filha, que vê sua vida ruir como um castelo de cartas.

A relação entre ambas se deteriora, e passa por momentos de profundo distanciamento e rancor por parte da pequena Claudia. Além do que vivia em sua própria casa, suas fantasias infantis são regadas a casos reais de celebridades que apareciam em revistas de fofocas que sua mãe comprava. Grace Kelly, Natalie Wood e Karen Carpenter surgem para aumentar a angústia de uma menina que luta entre o amor e o ódio a sua mãe. Um retrato de toda relação de mãe e filha, diz Pilar.

Os abismos, livro da colombiana Pilar Quintana — Foto: Divulgação
Os abismos, livro da colombiana Pilar Quintana — Foto: Divulgação

“Os abismos”
Autor: Pilar Quintana. Tradução: Elisa Menezes. Editora: Intrínseca. Páginas: 272. Preço: R$ 59,90.

Vibrador: médicos devem prescrever uso regular do acessório para mulheres, afirmam pesquisadores

Os benefícios da prática incluem melhora na saúde do assoalho pélvico e na saúde sexual de forma geral, além de redução da dor vulvar

Os vibradores podem e devem ser considerados dispositivos terapêuticos, não apenas brinquedos sexuais, afirmam os pesquisadores. — Foto: Unsplash

Pesquisadores do Cedar-Sinai Medical Center, nos Estados Unidos, afirmam que médicos deveriam prescrever o uso regular de vibradores para suas pacientes mulheres. Em artigo publicado recentemente na revista The Journal of Urology, a equipe concluiu que a prática comprovadamente traz benefícios médicos, como melhora na saúde do assoalho pélvico, redução da dor vulvar e melhorias na saúde.

Diversas pesquisas já haviam indicado os impactos positivos da masturbação feminina frequente na saúde física e mental. Entretanto, haviam poucas informações sobre o uso de vibradores como auxílio à masturbação e se eles têm impactos positivos na saúde. para averiguar essa questão, eles revisaram bancos de dados de estudos sobre o assunto. Foram encontrados 558 artigos, mas apenas 21 foram incluídos no estudo por se adequarem em todos os critérios estabelecidos pelos pesquisadores.

Em sua análise, os pesquisadores encontraram evidências de uma série de benefícios do uso regular do vibrador, incluindo melhora na saúde do assoalho pélvico, redução da dor vulvar e melhorias na saúde sexual geral. Eles também encontraram casos de uso regular de vibradores levando a melhorias na incontinência urinária, juntamente com aumento da força muscular do assoalho pélvico.

De acordo com a equipe, liderada pela pesquisadora Alexandra Dubinskaya, usar vibrador durante a masturbação reduz o tempo que uma mulher leva para atingir o orgasmo e também ajuda a alcançar orgasmos múltiplos, o que contribui para a redução do estresse e melhora na saúde sexual geral, segundo informações de outros estudos.

Diante disso, os pesquisadores concluem que os vibradores podem e devem ser considerados dispositivos terapêuticos, não apenas brinquedos sexuais. Eles sugerem que é hora de especialistas em medicina pélvica feminina, cirurgia reconstrutiva e até mesmo médicos em geral começarem a prescrever vibradores para suas pacientes.

Quem é a chef argentina Paola Carosella, alvo de boicote por apoiadores do governo

Com mais de 5 milhões de seguidores no Instagram, a chef e ativista declarou que ‘é muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro’

Paola Carosella é chef e militante — Foto: Divulgação

A chef argentina Paola Carosella, de 49 anos, chegou em São Paulo em 2001, quando veio passar uma temporada por aqui ajudando o então patrão, Francis Mallmann, a montar o restaurante Figueira Rubaiyat. Nesse período, aconteceu o Corralito, confisco de depósitos bancários que transformou o dólar em peso, fazendo uma brutal desvalorização nos investimentos e poder de comprados argentinos. Quando voltou para a Argentina, vendeu a casa da mãe, o carro, doou móveis e roupas e se mudou de vez para São Paulo. Com quatro malas na mão e sem conhecer absolutamente ninguém. Justo ela, que hoje é uma celebrity chef, dona do badalado Arturito, aberto em 2008 em Pinheiros, e de La Guapa Empanadas, em vários pontos da cidade, soma mais de 5 milhões de seguidores no Instagram e volta e meia causa frisson nas redes por seu ativismo, geralmente ao redor de temas que vão de política a defesa do alimento fresco e de qualidade, passando por movimentos que falam do desperdício de alimentos.

O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução
O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução

O status de celebridade, Paola sabe, vem muito por conta do programa “Masterchef”, da TV Bandeirantes, que participou desde 2014 e fez sete temporadas. Ela é parada na rua por fãs e seus empreendimentos são sucesso. Famosa por não temer dar suas opiniões sobre assuntos muitas vezes polêmicos, agora, ela está envolvida em mais um caso que vêm abalando as redes sociais. Na segunda-feira, durante uma entrevista ao DiaCast, canal do YouTube, a argentina criticou os eleitores de Jair Bolsonaro (PL). Ela declarou que é “muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro”, disparou. Em outro momento, declarou que “já ficou muito claro que não teve programa de governo, que (ele) não faz a mínima ideia do que está fazendo, que está lutando contra um comunismo que não existe”.

Isso bastou para ela entrar na mira de apoiadores do presidente, que foram ao Google boicotar o restaurante Arturito, que recebeu uma enxurrada de avaliações negativas fez com que a classificação do lugar passasse de 4,5 estrelas ao meio-dia de segunda-feira para 1,7 estrelas no início da tarde desta terça, dia 24 de maio. O número de comentários saltou de 3,8 mil para mais de 40 mil. Além disso, a hashtag #VoltaParaArgentinaCozinheira ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução
Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução

Por outro lado, ela também teve apoiadores. Felipe Neto, por exemplo, foi ao Twitter para defendê-la. “Paola Carosella está certíssima. Todo bolsonarista ou é escroto, ou burro. O único erro dela foi porque eu colocaria um ‘colossalmente’ antes de cada adjetivo. Bolsonarista não é apenas ‘escroto’, é ‘colossalmente escroto’ ou ‘colossalmente burro'”, escreveu o Youtuber, que ainda comentou sobre as sugestões de boicote aos restaurantes da chef. “Morrendo de rir com bolsonaristas achando que vão cancelar uma das melhores chefs de cozinha do mundo. Só 36% do país aprovam esse genocida aliado da milícia. Vocês não cancelam mais ninguém. Não conseguiram comigo e não conseguirão com a Paola”, disparou Felipe.

Apesar de na Internet a imagem de Paola e seu restaurante ter perdido popularidade por conta da campanha de apoiadores do presidente, na terça-feira o Arturito manteve seu sucesso: a fila de espera para uma mesa de duas pessoas chegava a 40 minutos às 12h30 e as reservas para sexta, sábado e domingo já estavam esgotadas.

O valor dos pratos, apesar de estarem na média de restaurantes de São Paulo, também têm sido alvo de internautas que ficaram com raiva da declaração da chef. O menu do dia, chamado de prato do agricultor, sai por R$ 55. Já os pratos mais caros do cardápio são a anchova assada no forno a lenha com molho tahine verde e abóbora assada (R$ 120) e o corte de carne brasileira sustentável (com bois criados sem veneno, pastando livremente) com gratin de mandioca, mandioquinha e batata e molho chimichurri (R$ 180).

A questão do preço sempre foi uma preocupação de Paola. Defensora de que comida de qualidade não precisa custar tanto, diz que o preço final do prato tem que ser uma porcentagem da matéria-prima (todos os fornecedores são escolhidos por ela), da folha de pagamento, dos custos de manter o lugar, da “grande fatia de impostos do Brasil” e de uma fatia de “lucro lógico” para o chef que, “com muita sorte, não deve ser superior a 12%”. “Muita gente vem ao Arturito e diz que o restaurante não é nada demais. Não é nada demais mesmo. Quem vem esperando um Alex Atala não encontra. A pesquisa dele é outra. O que eu faço é um delicioso frango com batata”, disse ela em entrevista ao “Ela”. 

Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos  — Foto: Reprodução
Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos — Foto: Reprodução

Além da fama de boa cozinheira, Paola tem 1,77 metro, uma beleza exótica de traços fortes e fala doce. Pensa bastante antes de expressar sua opinião. Não faz dieta. Mas, se come duas empanadas no almoço toma somente sopa no jantar. Adora acompanhar o programa pelo Twitter, “para saber o que as pessoas estão pensando”. Já foi convidada para posar nua, mas recusou, afinal, diz : “Sou uma mera cozinheira.”

A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução
A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução

Cozinheira que nasceu de uma família de classe média baixa, de imigrantes italianos, na periferia de Buenos Aires. O pai era bipolar e passava longos períodos internado. Ele e a mãe de Paola, filha única, se separaram quando era ainda pequena. “Fomos sempre nós duas mesmo. Nos mudamos para Buenos Aires, minha mãe foi fazer faculdade de Direito. Nossa vida foi bem difícil, melhorando aos poucos”, conta Paola.

Aos 18 anos, ela sabia o que queria fazer da vida. Foi trabalhar como secretária e o patrão, quando soube que cozinhava bem, convidou-a para preparar os almoços da empresa. Aí foi conseguindo outros empregos por restaurantes em Buenos Aires. Até que a mãe lhe deu, em 1992, uma viagem para Paris, onde estagiou por seis meses. Cinco anos depois, estava no importante grupo de Francis Mallman na Argentina, onde fez carreira até chegar a São Paulo com quatro malas.

Cartaz com nomes de 129 mulheres assassinadas é estendido no Festival de Cannes

Ato de coletivo feminista francês ocorreu na tradicional escadaria do Palácio dos Festivais neste domingo (22)

Membros do coletivo feminista Les Colleuses seguram um cartaz com os nomes de mulheres vítimas de violência doméstica no Festival de Cannes – Patricia de Melo Moreira/AFP

CANNES (FRANÇA) | AFP – Um longo cartaz com os nomes de 129 mulheres assassinadas na França desde o último Festival de Cannes foi estendido neste domingo (22) por feministas na escadaria do Palácio dos Festivais, onde acontece o evento.

A ação ocorreu durante a exibição de “Holy Spider”, longa sobre um serial killer que assassina prostitutas em uma das maiores cidades do Irã que concorre à Palma de Ouro nesta edição do festival.

As 129 vítimas morreram na França desde julho do ano passado, quando foi celebrado o último festival. Nomes como Angélique, Evelyne, Sofya, Nadia, apareceram escritas em tinta preta num longo e estreito cartaz branco, estendido lentamente na tradicional escadaria do Palácio dos Festivais, e segurado pelas ativistas do coletivo feminista francês Les Colleuses.

Algumas delas, vestidas de preto, ergueram o punho no alto da escadaria. A cena foi imortalizada pelo fotógrafo francês Raymond Depardon, cujo filho, Simon, dirigiu com Marie Perennès o documentário “Riposte Féministe”, que mostra estas ativistas colando cartazes à noite nos muros das cidades francesas para denunciar a violência contra as mulheres.

No sábado uma mulher nua da cintura para cima e com o corpo pintado com dizeres contra a Guerra da Ucrânia invadiu o tapete vermelho gritando palavras de ordem feminista antes de ser contida pelos seguranças.

Calvin Klein celebra nossa família escolhida dentro da comunidade LGBTQIA+ em sua campanha “This is Love”

por Gabriel Córdoba Acosta

Mais uma vez este ano, a Calvin Klein mostrou seu apoio incondicional à comunidade L G B T Q I A + através de sua última campanha, “ This is Love ”, que celebra a família que escolhemos dentro da comunidade LGBTQIA+: amigos, parceiros, amantes , vizinhos, aliados e muito mais.

A campanha, fotografada por John Edmonds em estilo nostálgico álbum de fotos, apresenta pioneiros, artistas e defensores LGBTQIA+, incluindo: o cineasta John Waters; as atrizes/atores Mink Stole, Sasha Lane e Sergio Lane, Nic Ashe e Justice Smith; a musicista Snail Mail e sua equipe, a lendária casa de dança House of Xtravaganza; a cabeleireira Holli Smith e seu noivo Pony e o coletivo de arte afro-futurista TRIBE Collective.

Mas, além de tudo isso, três funcionários do The Trevor Project , a maior organização de prevenção ao suicídio e intervenção em crises para jovens lésbicas, gays, transgêneros, queer e questionadores de gênero, patrocinada pela Calvin Klein, também estão presentes. Para quem ainda não sabe do que se trata a organização, ela oferece suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana por telefone, mensagens de texto e chat, programas de prevenção ao suicídio e outros recursos para jovens LGBTQIA+, suas famílias, educadores e apoiadores.

Todos eles posaram na campanha com seus entes queridos em momentos de conexão e momentos íntimos de intimidade usando roupas da coleção “This is Love”, composta principalmente por roupas básicas, roupas íntimas e esportivas, inspiradas nas cores do Pride bandeira.

Cada peça inclui uma etiqueta tecida que revela o que cada cor da bandeira representa: preto para beleza, marrom para poder, rosa para sexo, laranja para cura, amarelo para sol, canela para harmonia, branco para gênero não binário, turquesa para magia e azul para serenidade.

No caso da roupa íntima, inclui faixas e tecidos com combinações dessas cores em um aceno à interseccionalidade que existe em todo o espectro das sexualidades LGBTQIA+, identidades de gênero e características sexuais.

Por último, mas não menos importante, a Calvin Klein prometeu este ano doar US$ 400.000 em apoio a ONGs que lutam pela equidade, advocacia e justiça LGBTQIA+ e continuar a apoiar as iniciativas da ILGA World como a voz internacional das redes e comunidades LGBTQIA+ e movimentos comprometidos em moldar um mundo onde todos possam viver com segurança, igualdade e liberdade.

Confira as imagens abaixo para descobrir a campanha completa da Calvin Klein “This is Love”.

Sob ordens do Talibã, afegãs cobrem o rosto para ir ao ar na TV

Regime fundamentalista vem impondo restrições para mulheres fazerem atividades em público

Mulher com véu preto que cobre o cabelo, boca e nariz em frente a fundo azul
A apresentadora da Tolo News Thamina Usmani cobre seu rosto no estúdio da emissora em Cabul – Wakil Kohsar – 22.mai.22/AFP

CABUL | AFP – Apresentadoras de diferentes canais de TV do Afeganistão começaram neste domingo (22) a cobrir o rosto para ir ao ar, obedecendo às ordens do regime do Talibã.

Desde que retomaram o poder no país asiático em agosto, após a retirada das tropas ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, os talibãs impuseram uma série de restrições à sociedade civil, muitas delas direcionadas a mulheres.

No início do mês, o chefe supremo do Talibã emitiu uma ordem para que as mulheres se cobrissem por inteiro para sair em público, idealmente vestindo a tradicional burca. Até então, panos que cobrissem o cabelo já bastavam.

O Ministério da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício recorreu a ameaças para garantir que as apresentadoras de TV do país passassem a cobrir o rosto a partir deste domingo. Até a véspera, as profissionais de imprensa seguiam expondo o rosto.

Neste domingo, apresentadoras dos canais Tolo News, Ariana Television, Shamshad TV e 1TV acataram a decisão e apareceram no ar com máscaras, deixando apenas os olhos expostos.

“Nós resistimos, somos contra o uso [do véu completo]”, disse à agência de notícias AFP Sonia Niazi, apresentadora da Tolo News. “Mas a emissora sofreu pressões, [os talibãs] disseram que qualquer apresentadora que aparecesse na tela sem cobrir o rosto deveria ser deslocada para outra função.”

“Seguiremos nossa luta usando nossa voz. Serei a voz de outras mulheres afegãs”, afirmou a âncora após apresentar o jornal. “Vamos trabalhar até que o emirado islâmico nos retire do espaço público ou nos obrigue a ficar em casa.”

Lima Spesaly, apresentadora da 1TV, foi na mesma linha e, alguns minutos antes de entrar no ar com o rosto coberto, disse: “Vamos continuar com nossa luta até o último suspiro”.

O diretor da Tolo, Khpolwak Sapai, afirmou que o canal havia sido obrigado a reforçar a ordem a suas profissionais. “Ontem [sábado] me telefonaram e me disseram em termos estritos que acatássemos a regra. Portanto, não o fazemos por escolha própria, fomos obrigados.”

Ao longo do dia, os homens que trabalham no escritório da Tolo News em Cabul cobriram o rosto em solidariedade às apresentadoras. E, à noite, apresentadores do canal e da 1TV foram ao ar usando máscaras pretas, numa forma de protesto.

O porta-voz do Ministério da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício, Mohamad Sadeq Akif Mohajir, afirmou que as autoridades não tinham a intenção de obrigar as apresentadoras a deixar seu emprego. “Estamos felizes que os canais exerceram corretamente a sua responsabilidade”, disse à AFP.

Funcionárias públicas que desrespeitarem a ordem de cobrir o rosto correm o risco de serem demitidas.

Antes das ordens de vestimenta, o Talibã já havia proibido as afegãs de viajarem desacompanhadas e imposto a separação de meninas e meninos nas escolas.

Assim, o grupo radical vai abandonado o discurso de moderação adotado quando retomou o poder no ano passado e restabelecendo restrições que vigoravam durante o primeiro período em que governo o Afeganistão, entre 1996 e 2001.