Mostra ‘Mulheres Radicais’, na Pinacoteca, resgata produção latina feminina

Com um time de curadoras, exposição mapeia artistas mulheres da América Latina entre as décadas de 60 e 80

MADEIRA COLETA
As curadoras Andrea Giunta, Cecilia Fajardo-Hill e Valéria Piccoli, na montagem da nova exposição da Pinacoteca, ‘Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960 – 1985’, que fica em cartaz até novembro.  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Mesmo no Brasil, um dos poucos países que podem se orgulhar por ter mulheres entre os maiores cânones de sua história da arte, a produção feminina não é tão reconhecida quanto deveria. No restante da América Latina, a situação de esquecimento é ainda pior, mesmo no que diz respeito a uma fase de tanta efervescência no trabalho de artistas mulheres, como foi o período após a Segunda Guerra Mundial.

Para tentar resgatar essas histórias, uma dupla de curadoras, a venezuelana Cecilia Fajardo-Hill e a argentina Andrea Giunta, levou cerca oito anos para mapear e catalogar a produção dessas mulheres. O resultado é uma exposição, que chega ao Brasil neste sábado, 18, na Pinacoteca do Estado de São PauloMulheres Radicais – Arte Latino-Americana, 1960-1985 fez sua estreia no Hammer Museum, de Los Angeles, e passou também pelo Brooklyn Museum.

“Começamos com o plano de falar sobre o pós-guerra, mas tínhamos mais de 400 artistas, então decidimos focar num tema principal”, explica Giunta. O escolhido foi o corpo dessas mulheres, que se tornaram afirmações políticas, num momento em que elas lutavam por seus direitos e diversos países latinos enfrentavam a repressão. “Decidimos focar no corpo, mas não cronologicamente, queríamos encontrar preocupações em comum”, diz também Hill.

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Obras da artista argentina Liliana Maresca na exposição ‘Mulheres Radicais’, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Para Andrea, o mais importante da exposição é mostrar a mudança de olhar sobre esses corpos femininos. “O olhar, ao longo da história da arte, sempre foi de fora, mas agora está dentro, explora o corpo.” Para ilustrar, mais de 120 artistas foram selecionadas, algumas, principalmente as brasileiras, como Lygia Clark Lygia Pape, são bem conhecidas, mas o número de descobertas é gigantesco. As curadoras contactaram pesquisadores em diversos países, conversaram com artistas da época, e descobriram nomes que haviam sido esquecidos. “Todas elas são importantes. Não acreditamos em hierarquia. Se ela dedicou uma parte da sua vida à arte, merece estar nos livros”, acredita Hill.

O Brasil será o único país latino a receber a exposição, por conta do alto custo e também por ter algumas obras frágeis, que não aguentariam continuar a “turnê”. Além da inclusão de mais artistas brasileiras, a mostra na Pinacoteca contou também com o auxílio da curadora-chefe da instituição, Valéria Piccoli. “Pensamos a programação deste ano para trazer as mulheres à tona”, afirma. Com dois trabalhos na exposição, a artista paulista Lenora de Barros se diz honrada. “Fico feliz de estar ao lado dessas artistas. A mostra tem uma importância grande.” [Pedro Rocha – Estado]

MULHERES RADICAIS

Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2. Tel. 3324-1000. 4ª a 2ª, 10h às 18h. R$ 6, gratuito aos sábados. Até 19/11.

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Aretha Franklin foi ícone do feminismo e do movimento pelos direitos civis nos EUA

Algumas músicas que ela gravou no fim da década de 1960 como ‘Respect’ foi hino para mulheres
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Aretha Franklin canta no palanque presidencial ao lado do então presidente Barack Obama e primeira-dama MIchelle, durante cerimônia dedicada a Martin Luther King Jr. em Washington, em outubro de 2011 (Foto: Charles Dharapak/AP/Arquivo)

WASHINGTON – Aretha Franklin, além de rainha do soul, foi um ícone do feminismo e no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Canções que gravou no fim dos anos 1960, como “Respect”, “Do Right Woman – Do Right Man” e “Chain of Fools”, tornaram-se hinos para mulheres em todo o mundo. Em vez de sofredoras, eram agora fortes e indomáveis.

Os trechos de “Respect” — “Tudo o que eu peço é um pouco de respeito quando você chegar em casa” — não tratava apenas de como uma mulher desejava ser tratada pelo marido. Era também uma demanda por igualdade e liberdade.

A saber: o hit foi originalmente lançado pelo cantor Otis Redding em 1965. Aretha gravou uma nova versão da música.

“Nos témos o poder. Nós somos muito engenhosas. Mulheres merecem respeito. Acho que mulheres, crianças e idosos são os três grupos menos respeitados em nossa sociedade”, disse à revista Elle em 2016.

A rainha do soul foi a primeira mulher a entrar para o hall da fama do Rock and Roll, dois anos depois de ter sido criado. Até 2017, quando foi destronada por Nicki Minaj, foi recordista de músicas no Billboard Hot 100, lista que mostra os maiores sucessos dos Estados Unidos com base em vendas e número de reproduções.

O pai da cantora, C.L Franklin era membro da Igreja Batista e ativista pelos direitos civis. Em 1963, organizou a Caminhada pela Liberdade de Detroit, o maior movimento de direitos civis na história dos Estados Unidos até então. Dois meses depois, a Marcha sobre Washington assumiu o pódio.

C.L Franklin era amigo de Martin Luther King Jr, que lhe entregou uma versão preliminar de “I Have a Dream” durante o ato em Detroit. O célebre discurso foi proferido durante a marcha na capital do país.

Em 1968, pouco antes de ser assassinado, King entregou a Aretha um prêmio da organização que presidia, a Southern Christian Leadership Conference (Conferência da Liderança Cristã do Sul), que lutava pelos direitos civis dos negros. Durante o funeral do líder, a cantora interpretou “Precious Lord, Take My Hand”.

Democrata, Aretha se apresentou na posse de Barack Obama, em 2009, e em eventos antes das posses de Jimmy Carter, em 1977, e Bill Clinton, em 1993. Também cantou na Convenção Nacional Democrata, ocorrida em meio a protestos contra a guerra do Vietnã. [Júlia Zaremba]

A geração empoderada que sofre em ser “a mulher da casa”

Colunista Fabiana Gabriel comenta o desconforto feminino e masculino em relação à dependência financeira

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A geração empoderada que sofre em ser “a mulher da casa” (Foto: Thinkstock)

Lembro, ainda adolescente, quando minha mãe comentou comigo da moça que trabalhava lá em casa. Toda semana pedia um adiantamento, empréstimo ou algo do tipo. Vivia numa dívida constante, quase sempre adquirida pelo marido. Ela era mais que o arrimo de família. Ela sustentava a casa, os vícios e fantasias de seu cônjuge. Minha mãe ficava revoltada e a julgava por se submeter emocionalmente a ele e, ao mesmo tempo, sustentá-lo.

Eu lembro de achar um pouco de graça disso tudo. Tanto da moça em si, que era louca pelo marido e sempre o perdoava, quanto da revolta da minha mãe. Ainda que levantando a bandeira genuína do que hoje chamamos de “empoderamento feminino”, carregava também um machismo embutido e não identificado – à época – por mim.

E foi com essa dualidade de conceitos e crenças que eu e uma fatia relevante de gerações de mulheres da classe média brasileira crescemos. Foi com uma mistura de “busque a sua independência” com “o homem é naturalmente um provedor” que nos formamos.

Acontece que, progressivamente, as últimas décadas, deram – em todas nós – um enorme “olé” comportamental. Não se trata apenas de novas tecnologias, novas formas de trabalho ou outras abordagens em relação à casa ou à maternidade. É sobre esse machismo tão arraigado que, ainda que levantemos a bandeira do empoderamento, o praticamos, descuidadamente.

Já perdi a conta de ver mulheres bem-sucedidas que sustentam seus maridos ou são responsáveis por mais de 70% da renda familiar. Nenhuma delas se queixa disso em público e jamais o fariam. Mas guardam, intimamente, uma certa frustração de não terem encontrado – na sua vez – o provedor que a geração das nossas mães e avós almejaram.

Elas não precisam deles, não dependem, em nada, da participação masculina. Tocaram suas carreiras e seu futuro de forma totalmente independente da construção do castelo que, outro dia, era condição si ne qua non para a mulher. Mas viram o barco virar de uma hora para outra quando se depararam com homens que já não as acompanhavam em suas trajetórias, seja pela falta de alguma ambição ou limite financeiro.

Apesar de tantas conquistas, ainda hoje estamos despreparadas emocionalmente para sermos “a mulher da casa” e as responsáveis por todos os encargos econômicos do casal e filhos. Ainda que a gente esteja, cada vez mais, convivendo com esse cenário, existe uma dose grande de desconforto frente aos parceiros que – por motivos diversos – depositam alguma dependência financeira em nós. Quase que, frivolamente, nos esquecemos que, historicamente, essa foi a realidade dos homens em relação ao gênero feminino, por séculos.

Estou longe de querer aqui afirmar que nós, mulheres, deveríamos bancar ou arcar com os gastos dos homens porque, no passado – em condições bem diversas – eles fizeram isso por nós. Acredito mesmo que o melhor caminho para as relações e boa convivência entre os pares é a independência financeira de cada um dos indivíduos, a despeito de gênero, orientação sexual e estilo de relacionamentos. Mas acho também que poderíamos, todos nós, pensar em como lidar melhor com a condição de “Mulher da Casa”. Um lugar que, aparentemente nem tanto o homem, nem a mulher, ainda se sentem confortáveis.

Maior estrela pop viva, Madonna, 60, defende o feminismo e renova sonoridade

Cantora é a artista solo (homem ou mulher) com maior número de sucessos na parada de canções dos EUA

madonna Screen-Shot-2017-08-16-at-11.16.59As estrelas são eternas, não são? Norma Desmond, a personagem de Gloria Swanson em “Crepúsculo dos Deuses” se negava a admitir que a fama havia há muito ficado para trás, mas essa frase dita em uma das cenas finais do filme de Billy Wilder poderia batizar a biografia da mais longeva e bem-sucedida cantora pop.

Madonna Louise Ciccone fará 60 anos em 16 de agosto. Na carreira iniciada em 1982 com o lançamento do single “Everybody”, números superlativos aparecem aos montes.

Vendeu mais de 300 milhões de cópias de disco. É a artista solo (homem ou mulher) com maior número de sucessos na parada de canções dos Estados Unidos. Sua última turnê, com 82 shows em 2015 e 2016, faturou R$ 640 milhões.

Mesmo sexagenária, Madonna não para. A cantora se mudou no ano passado para um palacete nos arredores de Lisboa com os quatro filhos mais novos (ela tem seis). Na capital de Portugal, é vista em lugares como o Tejo Bar, em que canta e toca com músicos locais. Depois de uma saída, postou uma foto nas redes sociais com os pés doloridos.

E com a influência de nomes portugueses do pop, da eletrônica e até do fado, ela prepara o 14º disco da carreira, ainda sem nome (uma música já é conhecida, “Beautiful Game”). O produtor francês Mirwais é um dos que trabalham no álbum que sairá neste ano.

Quando Madonna surgiu, ela tinha 24 anos e era uma mulher que chocava —tinha postura lasciva e visual agressivo, combinando bandanas, botas pretas e lingerie aparente. Aos 60, Madonna choca porque não se comporta como deveria se comportar uma mulher de 60 anos.

No ano passado, à revista Harper’s Bazaar, a cantora foi direta: “Não acredito que exista uma idade em que não podemos mais falar ou sentir e nem ser o que somos. Tenho amantes que são três décadas mais novos do que eu. Isso faz as pessoas se sentirem desconfortáveis. Me recuso a ter uma vida convencional”.

A vida e a carreira de Madonna não são nada convencionais, mas para tentar explicar quem é Madonna, é simplista afirmar que existem muitas Madonnas tendo como parâmetro as várias mudanças estéticas pelas quais sua música passou nesses anos todos.

Madonna ainda mantém a mesma motivação que tinha quando trocou Detroit por Nova York para tentar a carreira primeiro como dançarina e depois como cantora.

Quer ser a maior e a melhor artista do planeta, não importa se está milionária ou dura.

Sua primeira fita demo, ainda no final dos anos 1970, foi gravada em Manhattan sem nenhum músico de apoio.

“Ela tirava um som das guitarras, do teclado e da bateria para chegar a uma estrutura e depois colocava a letra. Madonna tinha um som próprio. Eu não precisava inventar as coisas do nada”, disse Jon Gordon, que gravou aquela primeira demo com quatro faixas em um estúdio montado em uma antiga igreja na rua 57.

Na Nova York da virada dos anos 1970 para os 1980, quase falida, a violência estourando, Madonna entrou para uma cena em que circulavam gente como os artistas Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Havia a disco music, o pós-punk. E ali estava nascendo o hip-hop.

Um lugar da moda na cidade era o clube Danceteria. O DJ Mark Kamins discotecava ali quando Madonna foi à cabine e pediu que ele tocasse uma música dela. Era “Everybody”.

Kamins e Madonna namoraram por um tempo, e ele lembra que, para ela, namorar era secundário. “Ela sabia usar a sexualidade para manipular os homens, todos eles.”

Uma das principais críticas à cantora até hoje é a de que ela se submete ao desejo masculino e se coloca como objeto sexual passivo e obediente.

Nada mais rasteiro. Autora de livros como “Personas Sexuais” e “Sexo, Arte e Cultura Americana”, Camille Paglia escreveu para o New York Times em 1990 que a cantora de “Into the Groove” expunha “o puritanismo e a ideologia sufocantes do feminismo” nos EUA.

“Madonna ensina mulheres jovens a serem inteiramente sexuais e femininas e ainda assim ter total controle de suas vidas. Ela mostra às garotas como ser atraente, sensual, enérgica, ambiciosa, agressiva e engraçada —tudo ao mesmo tempo”, argumentou.

Em 2016, Madonna foi eleita a “mulher do ano” pela Billboard. Em seu discurso, disse que “as mulheres têm sido tão oprimidas há tanto tempo que acreditam no que os homens têm a dizer sobre elas”.

Também naquele discurso, a cantora defendeu que mulheres reconhecessem seu próprio valor e “procurassem mulheres fortes para fazer amizade”, descartando a crença de que precisam dos homens para realizar trabalhos.

Sem títuloSem título.jpg1Madonna afirmou ser uma sobrevivente. Verdade. Está no topo há mais de três décadas. Outras cantoras de sua geração, como Cyndi Lauper, perderam o rumo. E Michael Jackson, que também faria 60 anos, no dia 29 deste mês de agosto, morreu há nove anos.

Madonna já foi uma garota meio rebelde (na fase dos discos “Like a Virgin”, de 1984, e “True Blue”, de 1986); a jovem reflexiva e mística de “Like a Prayer”, de 1989; a femme fatale de “Erotica”, de 1992; uma hedonista espiritualizada em “Ray of Light”, de 1998, e “Music”, de 2000, e a adorável inconsequente de “Hard Candy”, de 2008, e “MDNA”, de 2012.

Mas Madonna também é uma só. Ainda é aquela mulher que vai jovem para Nova York decidida a virar uma estrela. Entende que para isso deve usar todos os recursos, inclusive dominar qualquer homem que se coloque como barreira à sua ascensão. [Thiago Ney]

Madonna chega aos 60 ainda provocadora, madura e sem complexos

A cantora que mais vendeu em todos os tempos não é a primeira a se manter ativa na terceira idade
AFP

madonnajoanadarcSexo, religião e faturamento: desde que iniciou sua carreira, Madonna não para de testar os limites. No próximo 16 de agosto, completará 60 anos ainda provocadora, agora na pele de uma mulher madura e sem complexos.

Madonna dá um novo significado às seis décadas. Relaciona-se com homens bem mais jovens, mantém um corpo invejavel e, em sua última turnê, apresentou um show provocante, que simulava atos sexuais.

A cantora que mais vendeu em todos os tempos não é a primeira a se manter ativa na terceira idade. Ela segue os passos de Aretha Franklin, Cher, Dolly Parton e Stevie Nicks, que estão nos 70.

Mas Madonna, que entrou para a cultura pop ao mesmo tempo em que a MTV, representa o culto à juventude como poucas artistas fizeram, e, enquanto outras se reiventaram ou protagonizaram retornos nostálgicos, a Material Girl nunca passou mais de quatro anos sem lançar um álbum desde a sua bem-sucedida estreia, em 1983.

O título de uma música de seu álbum mais recente, Rebel Heart, resume sua atitude decidida: Bitch I’m Madonna.

Freya Jarman, uma estudiosa de música na Universidade de Liverpool que editou um livro sobre Madonna, diz que a artista pop deixou um legado e influenciou artistas mais jovens, como Lady Gaga, mas que, agora, mostra um novo tipo de relevância.

“Como uma cantora popular que está envelhecendo e ainda se mostra tão presente entre o público, ela é absolutamente relevante”, assinala Freya. “Madonna se destaca como sempre fez, sempre se interessou em provocar. Muitas estrelas parecem sair do foco e retornar, enquanto Madonna não parece se abater.”

​’Envelhecer é um pecado’

Como em toda a sua carreira, Madonna enfrentou comentários duros com o passar dos anos.

Uma ex-namorada de um de seus antigos companheiros, o modelo brasileiro Jesus Luz, chamou-a de “velha ridícula”. Muitos usuários das redes sociais fizeram chacota quando ela beijou na boca no festival de Coachella o jovem Drake, e os tabloides são obcecados pelas mãos da cantora, uma das partes do corpo que mais revelam a idade.

Durante a entrega de um prêmio da revista musical Billboard em 2016, Madonna disse que a sociedade permitia às mulheres serem “lindas, dóceis e sensuais”, mas não que expressassem suas opiniões ou fantasias sexuais.

“E, finalmente, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Será criticada, será desprezada e, definitivamente, não tocarão sua música no rádio”, criticou Madonna, provavelmente referindo-se à decisão da BBC Radio 1 de não divulgar um de seus singles recentes, no momento em que busca uma audiência mais jovem.

Madonna também persiste em seus compromissos políticos. No ano passado, fez um discurso duro na Marcha das Mulheres, um dia depois da posse do presidente Donald Trump, e afirmou que as mulheres não aceitarão “esta nova era da tirania”.

Sensual e maternal

Madonna também desafiou os conceitos de maternidade e adotou quatro crianças do Malauí, que se somaram a seu filho e à sua filha biológicos.

A artista, que se mudou no ano passado para Lisboa, onde um de seus filhos frequenta uma escola juvenil de futebol, incentivou que seus fãs, em seu 60º aniversário, façam doações à sua obra de caridade para crianças no Malauí.

Após se tornar mãe, Madonna continuou se relacionando com homens bem mais jovens. “Como feminista, tenho apenas coisas boas a dizer de Madonna. Se essa é a sua preferência sexual, está realizando uma fantasia que muitas mulheres não podem ou não querem realizar”, comenta Pepper Schwartz, socióloga da Universidade de Washington, em Seattle, que estuda o envelhecimento e a sexualidade.

Pepper estima que Madonna, como várias atrizes veteranas de Hollywood, oferece um novo modelo para as mulheres de sua geração, a do “baby boom”. “Essa geração, que sempre buscou dar uma nova definição para o sexo e o gênero, tenta dizer: ‘Não estamos prontas para desaparecer só porque estamos mais velhas.'”

Tecnologia dá nova escala a abuso doméstico

Vítimas relatam manipulação remota do ar-condicionado e acionamento de luzes
Danielle Brant & Anaïs Fernandes

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Erica Olsen, diretora do Projeto Rede de Segurança, na Rede Nacional pelo Fim da Violência Doméstica – Tony Luong/NYT

NOVA YORK e SÃO PAULO – Durante os 15 anos em que ficou casada, Nicole* (nome fictício) foi vítima de abuso psicológico e físico por parte do parceiro. Decidiu sair de casa, pedir o divórcio e começar uma vida nova. Único porém: em todo lugar aonde ia, o ex-marido aparecia.

No supermercado, no cinema, em uma saída com as amigas. Nicole começou a achar que estava ficando louca. Procurou ajuda da Genesis Women’s Shelter, organização que dá apoio a mulheres que sofreram violência doméstica.

Lá, Jan Langbein, presidente da entidade, achou que poderia se tratar de uma perseguição a distância. Vasculharam o carro de Nicole e descobriram um GPS instalado. “Conseguimos reportar à polícia, porque é ilegal. Mas, quando foi à Justiça, não conseguimos provar que foi ele que colocou, porque ele pode ter pedido a um conhecido para colocar, por exemplo”, diz Langbein.

Resultado: o ex-marido foi inocentado. O caso retrata uma discussão que tem ganhado força, a do uso de novas tecnologias como ferramentas para se cometer abuso doméstico. E também as dificuldades de punir os responsáveis por um crime que, muitas vezes, deixa poucos rastros.

O uso de dispositivo de localização para monitorar os passos do parceiro é só um dos exemplos. Há relatos de manipulação remota da temperatura do ar-condicionado, acionamento de luzes dentro de casa quando a vítima está sozinha ou mesmo casos em que geladeiras conectadas foram desligadas a distância, estragando os alimentos.

“Como você prova que não foi você quem desligou a geladeira? O abusador consegue distorcer a realidade da vítima a ponto de ela achar que está louca”, afirma Langbein.

“O cérebro desregula e distorce. Na escola, a professora ensinou que 2 + 2 são 4. Se o abusador te dá vários exemplos de que 2 + 2 são 5, você começa a achar que o resultado é 5”, complementa.

O aumento dos casos de abuso com uso de tecnologia nos Estados Unidos fez com que, em 2002, a organização National Network to End Domestic Violence (algo como rede nacional para eliminar a violência doméstica) criasse o Safety Net Project.

O objetivo era mapear esse uso indevido da tecnologia e desenvolver estratégias para apoiar as vítimas, diz Erica Olsen, diretora do projeto. “As casas inteligentes são o que temos de mais emergente, discutimos isso há quatro anos. Mas esse tipo de abuso está evoluindo”, avalia.

São campainhas acionadas remotamente pelo abusador, mas quando a vítima vai atender não tem ninguém à porta. São senhas de wi-fi trocadas sem conhecimento, códigos de acesso eletrônico alterados sem que a vítima saiba, deixando-a trancada para fora de casa.

É a música que toca de madrugada, e a culpa aparente é do aparelho.

São câmeras que permitem monitorar os passos dos moradores, saber quando um deles saiu e quanto tempo ficou na rua.

“Falamos da tecnologia como se fosse algo novo, mas é uma extensão de outros tipos de abuso, só que com uma complexidade de cenário maior”, diz Olsen.

Uma dessas dificuldades é justamente quando o abuso é transportado para o mundo jurídico. No Brasil, as casas inteligentes ainda são uma realidade pouco comum.

A Lei Maria da Penha prevê punição para quem cometer violência não só física e sexual contra mulheres, mas também psicológica, patrimonial ou moral.

Adicionar o fator tecnologia não torna, necessariamente, mais fácil transpor o caso para a Justiça. “Casos de violência psicológica são marcados, em geral, pela ausência de provas físicas e de testemunhas”, diz Marina Ruzzi, sócia do escritório Braga & Ruzzi.

“Hoje em dia, no Brasil, o que temos usado cada vez mais é a valorização da palavra da vítima. Uma série de diretrizes dos tribunais superiores tem essa orientação. Claro que muitos juízes ainda não seguem, mas percebemos que isso vem sendo cada vez mais aceito”, afirma.

Alguns documentos ajudam. Se a vítima procurar assistência psicológica, é possível apresentar laudos dos atendimentos. A orientação é tentar ao máximo registrar as ocorrências.

“Ela pode deixar o celular gravando uma conversa, ou filmar se a campainha estiver tocando toda hora sem ninguém à porta. Quanto mais registros tivermos, mais munição a gente dá para a polícia iniciar uma investigação ou para conseguir o deferimento de medidas protetivas de urgência”, diz Ruzzi.

Se o abusador invadiu o email, mídias sociais ou acessou remotamente um dispositivo, pode deixar como rastros o IP do aparelho usado, diz Daniel Pitanga, sócio da área de direito digital do Siqueira Castro Advogados.

“Esses rastros abrem possibilidade de ajuizar uma ação para que aquele serviço possa indicar quem é essa pessoa que está tentando praticar o crime de forma virtual”, diz.

O advogado acrescenta que os portais são obrigados a coletar o IP dos usuários e mantê-los preservados por seis meses.

Apesar dos avanços, revezes como o de Nicole desestimulam outras denúncias, avalia Jan Langbein, da Genesis.

“É um sinal verde para o abusador, de que ninguém vai proteger a vítima. O comportamento do abusador é reforçado. A única maneira de mudar isso é responsabilizá-lo”, afirma.

Nesse contexto, o movimento #MeToo, de denúncia de abuso sexual, serviu para que outras mulheres denunciassem esses tipos de violência.

“É isso que precisamos fazer. As mulheres não podem ter medo de relatar o abuso. Se isso acontecer, vão se isolar mais. Precisamos achar uma forma de remover esse isolamento”, afirma Langbein.

Além de denunciar o criminoso, a vítima também pode adotar algumas medidas para se proteger. Se achar que o telefone está sendo monitorado, troque de telefone.

Nos Estados Unidos, a Verizon tem, desde 2001, um programa que coleta aparelhos, recicla e revende. O dinheiro recolhido é destinado a organizações de combate à violência doméstica.

A vítima deve trocar a senha do email e verificar se não há, em funcionamento, algum aplicativo que informe sua localização.

A orientação é também prestar atenção a sinais do abuso. Se achar que o parceiro tem informação demais sobre sua rotina ou conhecimento de fatos que você não relatou, pode estar ocorrendo algum tipo de monitoramento por câmera, GPS ou microfone.

Antes de se livrar dos dispositivos, porém, é importante tomar cuidado com a segurança. Isso porque muitos abusadores podem se tornar agressivos caso sejam descobertos. Vale tomar precauções, como continuar usando o aparelho em algumas situações para não chamar atenção.

Diane von Furstenberg sobre empoderamento feminino: “Requer prática todos os dias”

Referência na moda, a designer explica a sua relação com o feminismo, a importância da iniciativa #INCHARGE e como a moda é uma ferramenta desse processo empoderador
Por Marcela de Mingo

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Diane Von Furstenberg

Diane von Furstenberg é referência quando se fala em moda – e é impossível pensar no cenário fashion, hoje em dia, sem considerar os impactos do trabalho desenvolvido por ela. Além de ser a precursora do icônico vestido envelope, e ela sempre fez questão de unir o seu trabalho com um de empoderamento feminino.

Atualmente, além de tudo o que já desenvolve para a moda, Diane criou projetos que trabalham essa nova visão da mulher diante da sociedade. Um deles é o chamado #INCHARGE. Lançada no Dia Internacional da Mulher 2018, a iniciativa começou com uma discussão sobre o que significa ser uma mulher #INCHARGE (“no comando”, na tradução livre em português), e ofereceu uma linha de camisetas empoderadoras que teve 100% dos lucros revertidos para RME – a Rede Mulher Empreendedora -, e os estoques esgotados em poucos dias.

Agora, na sua segunda edição, a ideia ganha uma nova coleção de t-shirts incríveis, que serão vendidas na loja DVF aqui no Brasil, no Shopping Iguatemi, mantendo a doação dos lucros totais da linha para a RME (com os respectivos valores identificados nas etiquetas de casa modelo), além de uma nova rodada de conversas sobre o assunto.

Em entrevista exclusiva para Marie Claire, a própria Diane explicou que a ideia por trás do projeto veio das próprias consumidoras da sua marca: “Eu sempre disse que a mulher DVF é a mulher ‘no comando’. Nós criamos roupas para ela, para entregar a ela as ferramentas para ser a mulher que ela quer ser”.

A seguir, confira o nosso bate-papo com a estilista, que dá insights preciosos sobre o papel da mulher na sociedade, a ligação com a moda e como podemos evoluir para uma visão mais igualitária de mundo:

Qual a importância, no atual cenário da sociedade, de encorajar o empoderamento feminino?
Todas as mulheres são fortes, mas elas precisam ser encorajadas a não esconderem a sua força. Um movimento feminista começou mais uma vez este ano, e nós devemos dar continuidade a ele. Minha missão de vida é empoderar mulheres e dar a elas confiança.

Como você acredita que as mulheres podem transformar o empoderamento em algo praticável?
Eu acredito que elas precisam começar a agir para fazerem uma mudança positiva no mundo.

Como a moda está ajudando esse processo de empoderamento?
Confiança é essencial… roupas que fazem com que você se sinta bem ajudam.

Você acredita que encontrar o seu estilo pessoal pode ajudar com isso? Como?
Sim! Ser você mesma e construir o seu caráter são o primeiro passo.

O que significa, para você, ser uma mulher empoderada?
Isso requer prática todos os dias. Quando eu acordo me sentindo diminuída, eu me lembro que “Se você duvidar do meu poder, você dá poder para as suas dúvidas”.

Você é uma mulher que está sempre #INCHARGE, mas que também passou por desafios na sua vida pessoal e profissional. Como você superou essas dificuldades?
Quando você está de frente com obstáculos, você tem que enfrentá-los, e não ser iludida por eles.