#HairForFreedom: Atrizes francesas cortam cabelo em apoio a protestos no Irã

Juliette Binoche, Isabelle Huppert e Marion Cotillard estão entre as que aderiram a campanha

Juliette Binoche, Isabelle Huppert e Marion Cotillard aderem à campanha #HairForFreedom – Reprodução

SÃO PAULO – Algumas atrizes francesas aparecem em um vídeo divulgado nesta quarta-feira (5) em apoio aos protestos que vêm acontecendo no Irã. Nas imagens, estrelas como Juliette BinocheMarion Cotillard e Isabelle Huppert aparecem cortando uma mecha do próprio cabelo.

A #HairForFreedom (cabelo pela liberdade, em tradução livre) faz referência a Mahsa Amini, que morreu aos 22 anos enquanto estava detida pela polícia moral iraniana. Ela era acusada de usar o véu de forma inadequada, deixando fios de cabelo à mostra, o que é proibido por lá desde a Revolução de 1979, que abriu espaço para o regime teocrático dos aiatolás.

O ato de cortar mechas dos próprios cabelos tem se repetido em diversos protestos contra a morte da jovem, que vêm se espalhando pelo Irã e por outros países do mundo. No país mulçumano, ativistas de direitos humanos vêm instando mulheres a retirarem o véu publicamente em protesto contra o código de vestimenta.

No vídeo da campanha, também aparecem no vídeo, entre outras, Berenice Bejo, Charlotte Gainsbourg, Isabelle Adjani, Jane Birkin e Mélanie Laurent, entre muitas outras. As atrizes estão divulgando a hashtag em suas redes sociais.

“Para as corajosas mulheres e homens do Irã que estão mudando o mundo neste exato momento, lutando pela liberdade”, escreveu Marion Cotillard na legenda do vídeo. “Estamos ao seu lado. #HairForFreedom”

Vencedora do Oscar por “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007), ela ainda publicou uma explanação sobre o tema que vem sendo usada nas publicações sobre a campanha. “Mahsa Amini era uma jovem de 22 anos”, diz o texto. “Em 13 de setembro, ela foi presa e maltratada pela polícia até a morte. Ela só foi acusada de usar o véu de forma inadequada. Ela morreu por deixar alguns fios de cabelo aparecerem. Sua morte indignou e comoveu o Irã e o mundo.”

“Desde a morte de Mahsa Amini, que ocorreu em 16 de setembro, o povo iraniano, com as mulheres na liderança, vem protestando contra o risco de suas vidas”, continua. “Essas pessoas só esperam ter acesso às liberdades mais essenciais. Essas mulheres e esses homens estão pedindo nosso apoio. Sua coragem e sua dignidade nos compelem.”

“É impossível não denunciar repetidas vezes esta terrível repressão”, afirma. “Já existem dezenas de homens e mulheres mortos, incluindo crianças. As prisões só aumentam o número de prisioneiros já detidos ilegalmente e muitas vezes torturados. Decidimos, portanto, responder ao chamado que nos foi feito cortando também algumas das nossas mechas.”

“Porque a luta deles é nossa”, finaliza. “Aquele que devemos liderar por um mundo mais justo e livre.”

L’Oréal abandona ‘extra clara’ e ‘morena mais’ em nomes de protetor solar

Multinacional francesa adota escala numérica para indicar cores e evitar expressões que pudessem ser vistas como racistas
Daniele Madureira

mulher negra, de óculos e jaleco branco, ao lado de homem branco, de óculos e jaleco branco
Lívia Ferreira, cientista do Laboratório Proteção Solar e líder da rede AfroSou da L’Oréal Brasil, e Humberto Martins, diretor da divisão Cosmetic da L’Oréal Brasil. – Eduardo Anizelli/ Folhapress

SÃO PAULO – A multinacional de cosméticos e maquiagens L’Oréal decidiu abolir definições como “extra clara”, “clara”, “morena” e “morena mais” nos seus protetores solares, nomes que costumam ter conotação racista. Outras nomenclaturas que deixam de ser usadas são “pele clara a média clara” e “pele média a negra”.

Os produtos passam a ostentar uma escala numérica de cores, que vão de 1.0 a 6.0. Além disso, a empresa acaba de desenvolver 11 novas fórmulas de proteção solar com cor, que ampliam de 32 para 43 a oferta de tons para a pele brasileira.

A novidade chega às linhas Anthelios (marca La Roche-Posay), Solar Expertise (L’Oréal Paris) e Capital Soleil (Vichy), todas elas marcas do grupo L’Oréal –multinacional francesa que faturou 18,3 bilhões de euros (R$ 94 bilhões) no primeiro semestre deste ano, alta de 21% na comparação anual. No Brasil, as vendas avançaram 15% no período.

Uma campanha com as atrizes Taís Araújo e Larissa Manoela, que deve estrear em novembro, vai anunciar as novidades para a linha Solar Expertise. Os investimentos não são revelados.

quatro caixas de protetor solar uma ao lado da outra, em uma escala de cores, da mais clara à mais escura
Protetor solar da linha Anthelios com a nova nomenclatura da L’Oréal, baseada em uma escala numérica. – Eduardo Anizelli/ Folhapress

“Me causava certo desconforto, como consumidora negra, ver a denominação por tons de pele”, disse à Folha a cientista Lívia Ferreira, do Laboratório Proteção Solar da L’Oréal Brasil e líder da rede de afinidades AfroSou, que está à frente do projeto da nova nomenclatura dos protetores com cor.

A AfroSou é uma das quatro redes de afinidades criadas entre colaboradores da L’Oréal Brasil (as demais são gênero, pessoas com deficiência e LGBTQIA+). Fundada em 2020, hoje conta com mais de cem integrantes e participa ativamente das discussões de negócio e marketing por meio dos conselhos consultivos –grupos de colaboradores que trazem a perspectiva dos consumidores à companhia.

“Com os lançamentos, passamos a atender melhor a gama de cor de pele das brasileiras”, diz Humberto Martins, diretor da divisão Cosmetic da L’Oréal Brasil, ressaltando que o objetivo é representar a sociedade local, na qual 56% se autodeclaram negros ou pardos.

Para auxiliar a consumidora na hora da compra, foi criada uma escala indicativa na embalagem para sinalizar a tonalidade que o produto abrange e qual o nível de cobertura da fórmula. Os preços variam entre R$ 39,90 (Solar Expertise Anti Oleosidade, da L’Oréal Paris) e R$ 99,90 (Capital Soleil UV-Age Daily Fluido SPF50+, da Vichy).

Existe um grande mito em torno da pele negra, de que ela seria mais resistente ao sol e, portanto, dispensaria o uso de proteção solar”, diz Lívia. “Na verdade, na pele branca os efeitos da radiação ultravioleta são muito mais visíveis, esta é a diferença”. Além disso, segundo Lívia, fototipos mais escuros também sofrem com manchas e fotoenvelhecimento sem a proteção adequada.

“O produto com FPS alto e que controla a oleosidade pode deixar a pele esbranquiçada –daí o desafio de fabricar um produto com cor que atendesse aos diferentes tons de pele da brasileira”, afirma Martins.

A motivação para a nomenclatura mais inclusiva surgiu de estudo feito pelo Estúdio Nina (agência especializada em consumidores negros), que ouviu dermatologistas, maquiadores, consumidores e outros especialistas negros, em parceria com a AfroSou. A pesquisa procurou entender como eram percebidos os antigos nomes adotados nos protetores com cor e quais as propostas para uma nova nomenclatura.

BRASIL É O 3º MAIOR MERCADO MUNDIAL EM PROTETOR SOLAR, ATRÁS DE CHINA E EUA

A escala de cores, por sinal, já é usada nas maquiagens da L’Oréal Brasil. O país é o quarto maior mercado de beleza do mundo e onde está situado um dos sete centros globais de pesquisa e inovação da empresa.

Entre maquiagens, cosméticos e produtos de beleza, o grupo francês trabalha com 21 marcas no país, entre elas, L’Oréal Paris, Maybelline, Garnier, Niely, Colorama, Kérastase, L’Oréal Professionnel, RedKen, La Roche-Posay, Vichy e SkinCeuticals.

A L’Oréal é uma das líderes no mercado de protetores solar no Brasil, dominando com folga o segmento de protetores com cor.

De acordo com a consultoria Euromonitor, o Brasil é o terceiro maior mercado mundial de protetores solares (com ou sem cor), só atrás de China e Estados Unidos. A diferença de tamanho dois dois primeiros para o Brasil, no entanto, é grande: em dólar, as vendas de protetores solares no ano passado somaram US$ 2,4 bilhões (R$ 12,3 bilhões) na China, US$ 2,1 bilhões (R$ 10,8 bilhões) nos Estados Unidos e US$ 641 milhões (R$ 3,3 bilhões) no Brasil.

No passado, as marcas que mais venderam no Brasil foram Sundown (da Johnson & Johnson), com 20,3% de participação; Nivea Sun (da Beiersdorf), com 14,3%, e a La Roche-Posay (L’Oréal), com 13,7%.

A pele negra tem sido foco da atenção das multinacionais de beleza, como resposta às críticas por tratamentos que respeitem e valorizem os diferentes biotipos. Foi assim que a multinacional alemã de beleza Beiersdorf, dona da Nivea, lançou, em agosto, a linha Beleza Radiante, de hidratantes voltados à pele negra.

Segundo a Nivea, a linha foi desenvolvida a partir de pesquisas feitas com mais de 500 mulheres negras em diferentes países, como Brasil, África do Sul e Nigéria. Algumas das principais queixas deste público era pele seca, incômodo com estrias e tom de pele irregular.

Tocofobia, medo excessivo da gravidez, escancara desconhecimento sobre reprodução humana

Mulheres tocofóbicas tendem a combinar métodos contraceptivos, fazer muitos testes por mês, sentir sintomas e associarem à gestação e até optar pela abstinência sexual
Por Yasmin Setubal — Rio de Janeiro

Ilustração de mulher sofrendo com a possibilidade de estar grávida – Foto: Shutterstock

Não se expor à mínima possibilidade de engravidar, para a advogada carioca Jéssica Mota, tornou-se quase uma obsessão. Mesmo que isso significasse abrir mão de sexo. Sem fazer o uso diário do anticoncepcional em função de um problema de saúde, que a fez recorrer à pílula do dia seguinte mais do que o indicado pelos ginecologistas (só em casos de emergência), a jovem, de 29 anos, chegou a optar por não ter relações sexuais com penetração por quatro meses. “O medo que eu sentia não podia ser normal”, pensou à época. “Começou em setembro do ano passado, quando estava terminando a última cartela do remédio e me vi insegura a ponto de ainda tomar uma pílula do dia seguinte depois de uma relação, apesar de sempre usar camisinha. Cheguei a fazer cinco testes de gravidez, de sangue, num período de dois meses. Passei a ser hiper vigilante na cama, não conseguia sentir prazer, comecei a ver o sexo como algo ruim. Melhorei depois de descobrir o que tinha numa sessão de terapia.”

Era tocofobia, nome dado “ao medo excessivo e irracional da gravidez e do parto. Aquele já conhecido caso da amiga, ou amiga da amiga, que sempre fica em pânico com a chance de ter ficado grávida. Questionamentos sobre a eficiência dos métodos contraceptivos, sintomas associados à gestação até em pleno período menstrual, testes e mais testes por mês e, às vezes, a opção pela abstinência sexual. Comportamentos que, para os que veem de fora, chegam a beirar o exagero, mas que, segundo especialistas, apontam um “tipo de transtorno de ansiedade, muito mais complexo”.

De acordo com a psicóloga Luísa Rodrigues, a tocofobia pode atingir mulheres de todas as idades, mas as jovens tendem a ser as mais afetadas. “O início da vida sexual, na adolescência, e o começo da fase adulta são os períodos nos quais geralmente o problema surge, por causa das consequências e do excesso de responsabilidade que uma gravidez traz”, explica. Ela ainda ressalta como ações mais frequentes a combinação de métodos contraceptivos: “Já atendi mulheres que usam anticoncepcional, têm DIU, usam camisinha e ainda tomam pílula do dia seguinte”.

A ginecologista Viviane Monteiro adverte sobre essa prática e pontua que todos os métodos contraceptivos, individualmente, têm entre 99,7% e 99,8% de eficácia, mas pondera sobre a queda dessa porcentagem decorrente a diversos fatores. “O que acontece é que existem métodos que não dependem da paciente e outros que dependem dela. No caso do anticoncepcional oral, a eficácia vai depender do uso correto, tomar na hora certa, não pular a pílula…”, esclarece. “Se for para combinar (métodos), que seja com o preservativo. É desnecessário fazer esse mix, isso pode acarretar em algum prejuízo. Se forem dois hormonais, por exemplo, a paciente pode ter uma sobrecarga, correr “o risco de ter uma trombose.”

Desconhecimento sobre saúde feminina é elencado pela estudante de Medicina Maria Júlia Ferreira como um dos principais motivos que levam à tocofobia. Para ajudar mulheres nessa situação, ela começou a produzir conteúdo e levantar debates sobre o assunto em seus perfis nas redes sociais, que já acumulam mais de 110 mil seguidores. “Sempre digo que não temos como ter certeza de nada. São probabilidades, que na maioria das vezes estão ao nosso favor, principalmente se nos cuidarmos e usarmos os métodos contraceptivos como se devem”, comenta. “Não vale a pena crucificar toda a nossa qualidade de vida, bem-estar “e saúde mental em prol de uma hipótese improvável.”

A ginecologista Mara Rubia desmistifica relatos que contradizem a ciência por trás das questões reprodutivas, como menstruar na gravidez e engravidar por meio de atos inusitados, que, uma vez compartilhados, podem contribuir para o desenvolvimento da fobia. “Grávida não menstrua. O útero está completamente ocupado pelo embrião. Se uma mulher sangrar grávida, ela tem um diagnóstico que precisa ser investigado”, sinaliza. “Toalha, banco e roupa sujos de sêmen não engravidam ninguém. O sêmen precisa encontrar o muco do período fértil para que o espermatozoide deslize nele e chegue onde tem que chegar.”

Identificada com as descrições de tocofobia, a estudante de Publicidade Ágatha Bahiense, de 22 anos, revelou que a ansiedade a faz passar a maior parte do tempo pesquisando sobre reprodução. Mesmo assim, bate ponto no consultório de sua ginecologista bimestralmente para pedir um exame Beta HCG. “Tomei duas pílulas do dia seguinte quando perdi minha virgindade. É uma ansiedade que não consigo controlar. Sonho com gravidez e acordo desesperada. Prefiro lidar com minha neura me preparando para tudo.” Que venha a ser nada.

Quem são as parlamentares indígenas, trans e feministas eleitas em 2022

Essas mulheres vão levar a pauta da diversidade de raça, gênero e sexualidade para o debate público
Por Malu Pinheiro (@mariluisapp)

Sônia Guajajara, Duda Salabert, Célia Xakriabá e Erika Hilton – Foto: Instagram | Arte: Vic Polak

Neste domingo, 2 de outubro, brasileiros foram às urnas para eleger presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Para entender o cenário que se formou, é preciso entender como funcionam as instituições no Brasil – que têm separação de poderes, garantindo que não sejam concentradas em um grupo específico de pessoas. Elas são: Legislativo, Executivo e Judiciário.

O poder Legislativo tem como função legislar e fiscalizar os atos do Executivo. Em outras palavras, são aqueles que irão elaborar, aprovar, administrar e julgar projetos de leis. No âmbito federal, o poder legislativo é exercido pelo Congresso Nacional – composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. No plano estadual, este poder é exercido pelas Assembleias Legislativas por meio dos deputados estaduais.

Congresso Nacional

Brasileiros elegeram 513 deputados federais que, pelos próximos quatro anos, representarão os estados do País no Congresso Nacional. Desse número total, 99 são do Partido Liberal e aliados do atual presidente da República Jair Bolsonaro, tornando-se a maior bancada do Parlamento e de ideologia alinhada à extrema-direita. Nomes como o da deputada Bia Kicis, Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello – todos do PL – obtiveram votação expressiva.

Por outro lado, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a Antra, essa foi a eleição com o maior número de candidaturas trans no Brasil – foram 80 candidatas, sendo 38 federais e 41 estaduais. Apenas duas foram eleitas no Congresso. Erika Hilton (PSOL) foi eleita a primeira travesti na Câmara dos Vereadores de São Paulo em 2020 e, agora, obteve 256 mil votos como deputada federal. Já Duda Salabert (PDT) conseguiu a vaga no Congresso com 208 mil votos. Ela também foi a primeira vereadora trans de Belo Horizonte em 2020.

“Foram vitórias históricas, porque moramos no país em que 90% das travestis é transexuais estão na prostituição. Nossa expectativa de vida não supera 40 anos”, escreveu Duda em suas redes sociais. Ela, inclusive, foi vítima de diversas ameaças durante sua campanha e precisou ir votar com um colete à prova de balas.

Duas das cadeiras do Congresso Nacional também irão ser ocupadas por mulheres indígenas – uma vitória considerada histórica. Sônia Guajajara (PSOL) e Célia Xakriabá (PSOL) foram eleitas como deputadas federais. A primeira vez que o Congresso Nacional teve uma mulher indígena em sua composição foi em 2018 (tipo, ontem!) em mais de 190 anos de história.

“156.963 pessoas que acreditam que os povos indígenas devem estar no Congresso Nacional, ocupando os espaços de decisão. Isso é muito emocionante! Obrigada por acreditarem que podemos construir um futuro diferente, que respeite a vida das pessoas e da Mãe Terra”, escreveu Sônia.

Célia e Sônia terão um desafio e tanto pela frente, uma vez que a pauta ambiental e a proteção dessas culturas desidrataram no atual governo. Outro nome que terá que brigar pela pauta é o de Marina Silva (Rede), que também foi eleita deputada federal por São Paulo e, atualmente, é a maior defensora ambiental do Brasil. A título de comparação, Marina recebeu 237 mil votos – Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente e investigado por exportação ilegal de madeira, obteve 639 mil.

Assembleia legislativa

Nas Assembleias, também houveram pequenas vitórias. Linda Brasil (PSOL) se tornou a primeira deputada estadual trans eleita em Sergipe. No Rio de Janeiro, Dani Balbi (PCdoB) obteve o feito. Carolina Iara (PSOL) continua o legado de Erica Malunguinho em São Paulo. Em São Paulo, a Bancada Feminista (PSOL) cresceu e passou de 19 para 25 candidatas eleitas em 2023. Ainda assim, a Alesp terá apenas 27% das cadeiras ocupadas por mulheres.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 31 milhões de eleitores não foram votar. Este é o índice de abstenções no primeiro turno das eleições – 20,89%. São aqueles que poderiam ter ido às urnas mas, por algum motivo, não foram. Foi o maior índice de ausentes desde as eleições de 1998.

Vale lembrar que o processo eleitoral também é uma instituição – e muito importante para nossa democracia. “Às vezes, achamos que o nosso voto é pouco individualmente, e é mesmo, mas participar do processo eleitoral é se comprometer com a vida coletiva política que combinamos ter“, disse Gabriela Rosa, doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo, em entrevista à Glamour. A formação de cidadãos mais democráticos passa por uma participação ativa. Se, de um lado, a gente tem que se importar porque vivemos em uma democracia, do outro, a nossa democracia é tão mais saudável quanto mais a gente está engajada e informada. E seremos eternamente responsáveis por nossos votos (ou a omissão deles).

MacKenzie Scott, uma das principais acionistas da Amazon, está se divorciando novamente

Três anos após se separar de Jeff Bezos, quarta mulher mais rica do mundo volta ao time dos solteiros
Por Bruna Arimathea e Guilherme Guerra

MacKenzie Scott

A bilionária MacKenzie Scott, um dos maiores nomes da filantropia da atualidade, pediu divórcio do também bilionário Dan Jewett, com quem também mantinha uma parceria em doações. Esse é o segundo casamento de MacKenzie, que foi mulher do bilionário Jeff Bezos, fundador da Amazon e de quem herdou a fortuna após o divórcio.

De acordo com o jornal americano New York Times, MacKenzie entrou com a documentação de divórcio no tribunal de Washington na última segunda-feira, 26. O jornal teve acesso aos documentos em que a bilionária pediu a separação do professor. Jewett não contestou o divórcio na Justiça e a separação de bens deve acontecer de acordo com um contrato estabelecido entre o ex-casal na separação – as condições não se tornaram públicas.

Além disso, o New York Times afirma que já havia indícios do fim do casamento: cartas de doações antes assinadas a quatro mãos pelo casal passaram a ser firmadas somente por MacKenzie, sem a participação de Jewett.

O jornal americano tentou contato com os advogados de MacKenzie e Jewett, mas não houve resposta.

Segundo o ranking de fortunas da Bloomberg, MacKenzie tinha patrimônio estimado em US$ 62 bilhões em maio de 2019, quando a bilionária assinou a carta Giving Pledge — documento em que bilionários se comprometem a se desfazer de parte do próprio patrimônio para uma boa causa.

Hoje, no entanto, a fortuna da filantropa é de US$ 27,8 bilhões, muito em parte da queda no mercado de ações (que prejudica o desempenho da Amazon, empresa do qual MacKenzie tem 4% de participação) e por doações formalizadas nos últimos anos.

Segundo a Forbes, MacKenzie já somou cerca de US$ 12,5 bilhões em filantropia em menos de dois anos. Somente em março deste ano, a bilionária anunciou doações para 465 instituições espalhadas pelo mundo – 15 delas no Brasil.

Entre as organizações financiadas filantropicamente por MacKenzie estão as brasileiras Politize, Fundo Brasil de Direitos Humanos, Fundo Casa Socioambiental, Fundo Baobá e Instituto Sou da Paz. Até então, o valor já doado por MacKenzie representava cerca de seis vezes a soma de fundos para caridade de Jeff Bezos, seu ex-marido.

Ainda não há informações sobre como o divórcio pode impactar na composição de acionistas da Amazon.

The Story Of Iman | Supreme Models

The 1970s and the Battle of Versailles. Casting agents, celebrities, fashion designers, magazine editors, and top models discuss the impact and importance of the Battle of Versailles and how Black models conquered the runways of Europe while fighting racism in advertising and fashion in America. Examined are the careers, friendship, and lives of trailblazers Bethann Hardison and Iman.

Supreme Models is a 6-part documentary. New episodes premiere Mondays.

A década de 1970 e a Batalha de Versalhes. Agentes de elenco, celebridades, designers de moda, editores de revistas e top models discutem o impacto e a importância da Batalha de Versalhes e como as modelos negras conquistaram as passarelas da Europa enquanto lutavam contra o racismo na publicidade e na moda na América. Examinadas são as carreiras, amizade e vida dos pioneiros Bethann Hardison e Iman.

Supreme Models é um documentário em 6 partes. Novos episódios estreiam às segundas-feiras.

Music Featured:
“I’m That”
Written by Thamar Noel, Edvin Danelian, Karen Petrosyan, Rhapsody and Michael Anthony Nathan Jr.
Performed by TeaMarrr
Courtesy of Raedio

“Bugout”
Written by Kenneth Robert Vasoli and Ryan Zimmaro
Performed by Vacationer
Courtesy of Beatclub

“Bad Habits”
Written by Kiran Gandhi and Zach Witness
Performed by Madame Gandhi
Courtesy of Sony Masterworks
By arrangement with Sony Music Entertainment

“Game Face”
Written by Jamie Shield
Performed by MNKN
Courtesy of Beatclub

“Stick Up Kid”
Written by Payton Augustus Long
Performed by Raedio
Courtesy of Raedio

“Die Dia”
Written by Mate J
Performed by Dasona
Courtesy of MicDrop

“Into You”
Written and performed by Paul Pacey
Courtesy of ALIBI Music

“Rising Up”
Written and performed by Brent Lindsay
Courtesy of ALIBI Music

0:00 Intro 0:32 The 1970’s: The Next Step 3:01 The Battle Of Versailles 7:57 Bethann Hardison’s Story 10:22 Iman, the Icon 16:24 Black Foundation 18:56 Halima Aden’s Story

Alunas de escola pública são premiadas por absorvente sustentável de R$ 0,02

O SustainPads surgiu quando uma das jovens descobriu que a mãe viveu a pobreza menstrual
Tatiana Cavalcanti

Três mulheres posam para foto vestidas com jaleco; elas seguram amostras de absorventes que eas criaram em laboratório
As alunas do ensino médio e técnico Laura Drebes e Camily Pereira com a professora e orientadora Flávia Twardowski; elas ganharam prêmio na Suécia por desenvolverem absorvente sustentável e acessível – Divulgação/IFRGS

SÃO PAULO – Foi numa conversa dentro de casa que a estudante Camily Pereira dos Santos, 18, deparou-se com a pobreza menstrual pela primeira vez. Ainda durante a pandemia, ela descobriu que a mãe não teve acesso a absorventes na juventude e precisava improvisar o bloqueio do fluxo com panos velhos e tecidos.

“Nunca imaginei que essa questão estivesse tão próxima de mim“, diz Camily.

Foi então que a aluna do curso técnico em informática do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, integrado ao ensino médio, em Osório (RS), teve certeza de qual seria seu objeto de estudos: um absorvente sustentável feito a partir de subprodutos industriais que fosse ecologicamente correto, barato e acessível.

Funcionária pública desde 2010, a professora Flávia Twardowski logo abraçou a iniciativa e passou a orientá-la. Laura Nedel Drebes, 19, estudante do curso técnico em administração da mesma instituição –e que já tinha conhecimento prévio sobre plástico biodegradável, fundamental para uma das camadas do absorvente–, logo se uniu a elas.

Foram quase nove meses trabalhando por cinco horas diárias durante a pandemia para chegar ao protótipo laureado em agosto na Suécia com o Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, onde as cientistas foram contempladas com US$ 3.000 (cerca de R$ 15.500).

“Quando foram anunciar o prêmio e falaram sobre a questão da dignidade humana, foi o momento em que a Laura e eu nos olhamos e demos as mãos. Eu sussurrei: ‘não acredito, é a gente’. Nos levantamos e nos abraçamos”, afirma Camily.

Laura explica que cada quilograma de algodão usado para produzir o produto convencional precisa de 10 mil litros de água. O processo do absorvente sustentável, que ganhou o nome de SustainPads, usa 99% menos água, segundo a aluna.

O algodão, explica Camily, é substituído por fibras do pseudocaule da bananeira e do açaí de Juçara, planta típica da Mata Atlântica. “Usamos essa matéria-prima no lugar do plástico feito de recursos não renováveis.”

O produto criado por elas tem um custo médio de R$ 0,02 a unidade (refil mais invólucro de tecido que o envolve) e segue padrões nacionais e internacionais de segurança para absorventes, segundo o grupo.

A equipe, ainda durante a estadia na Suécia, foi sondada por uma empresa europeia que tem trabalhos sociais na África. Organizações brasileiras e o sistema carcerário também demonstraram interesse no produto e, com isso, o grupo decidiu abrir processo de patente do protótipo.

“O próprio Unicef [Fundo das Nações Unidas para a Infância] nos mandou mensagem para uma parceria”, afirma a professora Flávia.

Até a conquista no exterior, as alunas passaram por uma série de desafios: muitas tentativas e erros em seu experimento, além da falta de um laboratório e de equipamentos básicos para trabalhar, como prensa e o aparelho para fazer os testes mecânicos dos filmes.

Para substituir o algodão que reveste a parte interna do absorvente, elas tentaram usar sabugo de milho e casca de arroz.

“Mas esses não foram materiais tão bons e tão absorvente quanto o algodão. Ficamos, então, com as fibras do pseudocaule da bananeira, que se mostraram ser capaz de absorver 17% mais que o absorvente convencional”, afirma a professora.

Para extrair essa fibra que substitui o algodão, elas precisaram improvisar, na falta do equipamento adequado. “Então veio a ideia de literalmente atropelar o insumo com a roda do meu carro como se fosse uma prensa”, afirma a orientadora.

Apesar da importância social do absorvente sustentável, as três brasileiras não tinham expectativa de ganhar o prêmio na Suécia. Elas já haviam passado pela etapa nacional, no Rio de Janeiro, e foram as escolhidas para representar o Brasil em Estocolmo, onde concorreram com outros 35 países.

“Foi muito inusitado [vencer]. Quando fizemos a inscrição, não imaginávamos que nosso projeto estava tão relacionado com a água. Havia trabalhos como tratamento de fluentes, por exemplo, que pareciam mais prováveis de vencer”, afirma Laura.

A aluna lembra, ainda, um encontro especial que teve em Estocolmo. “Conhecemos a princesa Vitória da Suécia [primeira na linha de sucessão ao trono sueco], patrona do prêmio.”

Para a professora Flávia, o prêmio expõe a relevância do ensino público. “Mostramos que o Brasil também produz bom conhecimento e que as meninas podem fazer ciência, inclusive na educação básica e em uma escola pública.”

As estudantes esperam ter seu produto no mercado em, no máximo, cinco anos. “Que o SustainPads chegue a um custo bom e acessível às consumidoras no mundo inteiro para reduzir a pobreza menstrual”, afirma Camily.

As alunas Camily Pereira e Laura Nedel Drebes no laboratório do Instituto Federal do Rio Grande do Sul; elas ganharam prêmio internacional por absorvente sustentável
As alunas Camily Pereira e Laura Nedel Drebes no laboratório do Instituto Federal do Rio Grande do Sul; elas ganharam prêmio internacional p Divulgação/IFRGS/Divulgação

No Brasil, mais de 4 milhões de mulheres não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas, de acordo com dados da Unicef. Isso inclui falta de acesso a absorventes e instalações básicas nas instituições de ensino, como banheiros e sabonetes.

Em março, o governo estadual de São Paulo afirma ter repassado R$ 35 milhões para o Programa Dignidade Íntima, que distribui absorventes nas escolas da rede como forma de combate à pobreza menstrual, com destaque para alunas em situação de vulnerabilidade.

Na mesma época, após polêmica do veto do presidente Jair Bolsonaro, foi promulgada a Lei 14.214/2021, que cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. A norma determina que estudantes dos ensinos fundamental e médio, mulheres em situação de vulnerabilidade e presidiárias recebam absorventes para sua higiene pessoal gratuitamente.

Ambição ‘loira’ de Ana de Armas: como ela canalizou o corpo e a alma de Marilyn Monroe para o NC-17 Gamble da Netflix

Por Daniel D’Addario
Fotografias de Marc Hom para Variety

MARC HOM PARA VARIEDADE

Alguns anos atrás, Ana de Armas precisava convencer a Netflix de que ela poderia ser Marilyn Monroe.

Ela já era a primeira escolha do diretor Andrew Dominik, cujo filme ” Blonde “, uma visão surrealista da vida e morte da lenda do cinema, teria sido escalado com várias protagonistas antes de pousar em De Armas, mas “Knives Out”… o filme de sucesso em que o ator até então pouco conhecido estava no centro do mistério – ainda não havia sido lançado. Em 2019, poucos sabiam o nome dela.

De Armas trouxe seu treinador de sotaque para o teste de tela pessoal com a Netflix. “Eu não tinha o treinamento e a voz e tudo mais”, diz de Armas, que nasceu e cresceu em Cuba. “Então meu treinador estava agachado no chão, debaixo da mesa.” As apostas eram altas. “Eu sabia que tudo o que fizéssemos naquele dia seria o teste definitivo para o filme ter luz verde ou não.” A cena era aquela em que Monroe implora ao marido Joe DiMaggio para deixá-la se mudar para Nova York para que ela possa “começar do zero, longe de Hollywood”, lembra de Armas; a paixão tinha que entrar na voz de Monroe, tudo enquanto a mulher debaixo da mesa alimentava de Armas as pronúncias corretas das falas.

A performer, alternando entre ouvir e falar em sua segunda língua, enquanto tentava estar no momento, ficou sobrecarregada. “Estava ficando cada vez pior e pior – era um lembrete constante de que eu não era boa o suficiente”, diz de Armas, sua voz subindo em frustração simplesmente lembrando seus sentimentos de três anos atrás. “Não importa o que eu diga ou como eu diga, ainda não é bom o suficiente. E eu não vou ser aceito para isso.” E se ela não fosse aceita, ela não seria Marilyn.

O teste de tela foi bem-sucedido? Pois bem, “Loira” chega à Netflix em 28 de setembro. De Armas conseguiu aproveitar a tensão do momento para se tornar um personagem que temia a rejeição. “Usar minhas emoções – como me senti ao interpretar o papel – foi a maneira como abordei todo o filme”, diz ela, “abraçando meus medos e minha vulnerabilidade, meu desconforto e minhas inseguranças”. Com uma risada, ela observa: “Meu treinador não estava debaixo da mesa o tempo todo”.

Marc Hom para Variedade

Algumas dessas inseguranças seguiram De Armas fora do set. Já se passaram três anos desde que “Blonde” foi filmado na era pré-pandemia. Desde a filmagem, “Knives Out”, bem como um relacionamento agora concluído com Ben Affleck, fizeram dela uma estrela em demanda e um ímã de paparazzi. E “Blonde” tem sido objeto de intenso escrutínio.

“Tem sido uma montanha-russa de emoções”, ela me diz tomando chá verde na sala de um hotel em Manhattan, 10 dias antes da estreia do filme no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde “Blonde” receberia um filme de 14 minutos. aplausos de pé – mais do que qualquer outro filme, tornando-o um vencedor nesta corrida armamentista da temporada do Oscar. “Houve momentos em que pensei que talvez esse filme nunca fosse lançado.”

O que significaria que o público nunca poderá ver tudo o que essa estrela pode fazer. Antes da estreia do filme em Veneza, parecia possível que o COVID e os atrasos na sala de edição pudessem condenar “Blonde”. A Netflix manteve o filme por mais de um ano em meio ao que de Armas chama de “problemas com o corte” – um vai-e-vem sobre um filme brutalmente explícito e desafiador. Mas na adaptação de Dominik do romance de Joyce Carol Oates de 2000, agora podemos ver de Armas encarnar Monroe de todos os ângulos, não apenas se transformando em uma campainha para Monroe, mas evocando a angústia da estrela sobre seus sentimentos de abandono por pais que não poderia amá-la e uma cultura que só a desejava. Neste filme NC-17, o primeiro que a Netflix produziu com essa classificação, de Armas é levado ao limite quando Monroe explode de angústia e sofre violência e degradação sexual genuinamente brutais. O que está em jogo para o streamer é um ponto de dados potencialmente conclusivo sobre se vale a pena fazer grandes oscilações artísticas. Para de Armas, o risco é mais pessoal.

Enquanto esperava para saber se o mundo veria seu trabalho, a atriz realizou exibições para amigos e artesãos do filme; ela assistiu com sua equipe de cabelo e maquiagem “Loira” em Praga enquanto filmava o filme de ação da Netflix “O Homem Cinzento”. “Não consegui me conter nesses três anos e não mostrar para a equipe, porque eles merecem assistir”, diz ela. Afetando uma leveza um tanto tensa, ela acrescenta: “Eu estava tipo, ‘É hora do filme’”.

O que eles viram é o que o público verá em breve: uma estrela de cinema emergente trazendo a humanidade de volta a um ícone incognoscível. “Acho que esta foi uma das primeiras oportunidades que ela teve de realmente afundar os dentes em algo incrivelmente exigente”, diz Chris Evans, sua co-estrela em “Knives Out” e “The Gray Man”. “Eu não vi um pouco de medo; Eu vi emoção.”

Quando de Armas mostrou pela primeira vez a Evans uma foto de seu teste de câmera, ele disse: “Lembro-me de olhar para ela e dizer: ‘OK, essa é Marilyn… onde está sua foto? É você? Puta merda! Você vai ganhar um Oscar por isso!’”


Certamente parece possível. “Loira” é o tipo de vitrine com a qual um ator sonha, uma que parece muito diferente da cinebiografia convencional. Seguindo a cartografia emocional do livro de Oates, “Blonde” traça um caminho através da vida de Norma Jeane Baker, desde sua infância sem amor até seu surgimento como uma estrela em busca perpétua de consolo e afeto. O gentilmente nostálgico “My Week With Marilyn”, isso não é: “Blonde” tem uma forte semelhança com “Jackie” e “Spencer”, os filmes subvertidos de imagem dirigidos por Pablo Larraín sobre Jacqueline Kennedy e a princesa Diana que ganharam indicações ao Oscar para Natalie Portman e Kristen Stewart. Mas pulsa com um pulso mais rápido, usando metáforas visuais surreais para empurrar De Armas para uma angústia crua e quebrada.

Marc Hom para Variedade

Está tudo a serviço de um ponto doloroso: Monroe, em busca de algo tão simples quanto o amor, conseguiu um dos negócios mais crus que nossa cultura ofereceu a uma mulher aos olhos do público. Suas mudanças no tempo e na estética fazem dele o que seu diretor chama de “um filme de sonho, ou um filme de pesadelo”, sondando hipnoticamente a vida pública de Monroe e a dor que ela sofreu em sua vida privada como Norma Jeane Baker – de múltiplos abortos à morte. impossibilidade de conhecer o pai. “Loira” está ansiosa para empurrar seu sofrimento para frente, para colocar De Armas no inferno para que nós também possamos sentir suas chamas.

“O desempenho é notável”, escreve Oates por e-mail. “Em certo sentido, Norma Jeane Baker representa o eu autêntico – já que todos nós possuímos ‘eus autênticos’ geralmente escondidos sob camadas de personalidades defensivas. ‘Marilyn Monroe’ é o eu performático que realmente existe apenas quando há uma audiência.”

Como Monroe, de Armas não pode deixar de dar um show de bravura, especialmente para uma formação de homens que não a merecem, incluindo DiMaggio de Bobby Cannavale e Arthur Miller de Adrien Brody; como Norma Jeane, de Armas é um nervo tão cru que seu entorpecimento com substâncias começa a fazer sentido.

É por isso que o casting de Armas é um golpe de mestre. Na conversa, seus olhos arregalados e sua aparente incapacidade de esconder o que está sentindo fazem o ouvinte se inclinar para frente, esperando o que ela dirá em seguida. “Ela tem um campo de força emocional incrível”, diz Dominik, que é mais conhecido por dirigir Brad Pitt em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”. “Ela é realmente convincente em qualquer situação – você sempre pode senti-la.”

Dominik descreve o elenco de Armas como finalmente encaixando o filme no lugar: “Algo mudou quando a encontramos”. No teste de tela em que De Armas ficou cada vez mais confuso e canalizou sua frustração, “era tão óbvio”, diz ele, “ela tinha essa coisa – e essa é a razão pela qual o filme aconteceu”.

E aconteceu em uma era diferente para a Netflix; “Blonde” recebeu luz verde em um momento em que cineastas como Dominik receberam um cheque em branco para realizar qualquer visão que quisessem.

Mas agora, com suas ações em queda livre e nova concorrência para assinantes da Disney+, HBO Max e Hulu, a Netflix não pode mais ser tão indulgente. Esta corrida de prêmios pode ser uma canção de cisne: parece improvável que o streamer produza dramas tão arriscados e dirigidos por autores neste clima. De um certo ponto de vista, isso faz com que o lançamento de “Blonde” seja uma coisa afortunada. E que a preparação para seu lançamento tenha sido prolongada não incomoda Dominik. “Tem sido um filme de muita sorte em seu caminho”, diz o autor australiano. “Sempre que parecia que algo estava atrapalhando, acabou sendo boa sorte. Encontrei Ana depois de tentar fazer o filme por mais de uma década – estou acostumado a esperar por ‘Blonde’”.

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O romance de Oates, apesar dos esforços de Dominik, dificilmente era um candidato óbvio para a tela grande. (Foi adaptado para a CBS em 2001, com Poppy Montgomery no papel principal.) Sua visão da vida de Monroe como uma jornada através de um tormento americano particular exige ser contada na íntegra (“Blonde” tem 166 minutos) e com um artista. disposta a rastrear o estado emocional de Monroe, bem como as violações físicas que ela sofreu nas mãos de seus amantes (incluindo, em uma cena chocante, o presidente John F. Kennedy, interpretado por Caspar Phillipson, forçando-a a fazer sexo oral nele enquanto ele fala no telefone).

“Ele e eu dedicamos um tempo para construir essa confiança entre nós”, diz de Armas sobre seu relacionamento com Dominik. “Senti desde o início o respeito que ele tinha por Marilyn. Você não persegue e luta tanto por algo por mais de 10 anos se você realmente não acredita nisso. Ele era tão apaixonado e seguro.”

De Armas e Dominik discutiram por que era necessário apresentar a experiência sexual de Monroe de maneira tão crua: “Estamos contando a história dela”, diz de Armas, “do ponto de vista dela. Estou fazendo as pessoas sentirem o que ela sentiu. Quando tivemos que filmar esse tipo de cena, como aquela com Kennedy, foi difícil para todos. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que tinha que ir lá para descobrir a verdade.”

De Armas estava disposta a se comprometer e, diz Dominik, ela não é uma artista que leva muito tempo para entrar na zona. “Ela vai permitir que a sala fique tensa se ela precisar desse espaço – e ao fazer isso, ela coloca ainda mais pressão sobre si mesma para entregar.” Uma pedra de tropeço que Dominik colocou em seu caminho: ela não tinha permissão para mostrar raiva.

“Ele me colocou em um estado emocional muito, muito específico”, diz de Armas. “Imagine por um segundo que você não pode expressar raiva. O que isso faz com você definitivamente não é saudável.”

Para se distanciar de Monroe, de Armas não ficou no personagem entre as tomadas: “Quando estou fazendo meu cabelo e maquiagem, sou só eu, sou Ana”. Mas ela descreve seu estado de espírito ao interpretar Monroe como “profundamente triste. Eu me senti pesado. Eu me senti impotente por não poder mudar o que estava acontecendo. Eu só tive que passar por uma história que eu sei como vai terminar.”

Isso aconteceu durante um período de atividade intensa para de Armas: ela estava se preparando para seu teste final de tela de “Loira” no meio das filmagens de “Facas para fora”, seu filme inovador, e ela se aproximou do dever duplo sem medo. “Ela estava literalmente assumindo o filme inteiro, mas ainda assim entrou com foco incrível, confiança incrível, convicção incrível”, diz Evans.

Depois de horas em “Knives Out”, de Armas fazia duas horas por dia de aulas de sotaque e voz de Monroe; em “Blonde”, ela passava suas horas de folga aprendendo a coreografia para números musicais recriados e cenas de filmes. (Por exemplo, ela teve que ficar perfeita para sua recriação do famoso número “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” em um único fim de semana.) No dia seguinte ao final de “Blonde”, de Armas voou para Londres para filmar ” No Time to Die”, em que sua personagem, Paloma, aparece na tela como uma parceira digna de James Bond, em combate e em réplica.

As cenas de ação efervescentes foram filmadas enquanto ela ainda sentia uma espécie de tristeza. “Eu não poderia dizer adeus”, diz ela. “Eu não conseguia me livrar disso. Eu não podia deixá-la ir. Fui visitá-la em seu cemitério algumas vezes – gostaria de ir mais uma vez.” Afastar-se de Monroe exigiu um processamento emocional que de Armas não teve tempo de fazer; o benefício surpreendente pode ter sido que tudo de melhor de Monroe encontrou uma saída adicional. “Se você pensar em Paloma agora”, ela diz, “tenho certeza de que há um pouco de Marilyn lá. Há! Sua energia e seu charme e essa coisa onde ela era iluminada por dentro – Paloma roubou um pouco dela.”

Marc Hom para Variedade

Marilyn e Paloma pareciam prontas para estrear em 2020, o ano que deveria cimentar a trajetória pós-Knives Out de Armas como uma nova protagonista. Durante o período que antecedeu o lançamento de seus filmes, de Armas começou a namorar Ben Affleck, seu colega de elenco no thriller erótico “Deep Water”, que foi lançado no Hulu no início deste ano. O filme, no qual de Armas interpreta a esposa e parceira de Affleck em um jogo complicado de ciúme sexual, apresenta sua atuação afiada e carismática. Mas em outra decepção para de Armas, o filme foi um desastre, recebendo críticas ruins e um despejo vergonhoso no streaming. “Aprendi que não posso comprometer um diretor”, diz ela sobre o filme, dirigido por Adrian Lyne, de “Atração Fatal”. “Porque no final das contas, é isso que o filme vai ser,

À medida que seus longas-metragens foram congelados durante os primeiros dias de permanência em casa da pandemia, ela ficou conhecida de uma nova maneira: como uma figura de intriga e fixação de tablóides. Seu papel contínuo parecia ser o de parceira em passeios românticos com Affleck em Los Angeles, diante de fotógrafos invasivos. Isso não era exatamente novo para De Armas, cuja carreira no cinema começou na Espanha depois de estudar teatro em Cuba. “Quando eu morava em Madri, eu era uma atriz muito conhecida e tinha imprensa e paparazzi atrás de mim. É algo que você aprende, infelizmente.”

Mas a intensidade do foco na vida romântica de De Armas a assustou. “Eu nunca fui alguém que quer qualquer atenção que não seja sobre o meu trabalho”, diz ela. “Então, quando a atenção não é sobre o meu trabalho, é perturbador, parece desrespeitoso, parece inadequado, perigoso e inseguro. Mas, especialmente neste país, não sei como você pode encontrar proteção. Eu não sei como você pode impedir que isso aconteça, além de ir embora.” Seu rompimento com Affleck foi relatado pela primeira vez no início de 2021; agora, de Armas vive em Nova York.

Ainda assim, ela continua sendo objeto de intenso fascínio por razões além de seu talento. “Foi uma das coisas que me aproximou de Marilyn”, diz ela. Afinal, Monroe levava a sério a atuação, mesmo sendo vista apenas como um objeto. “Ela amava o que fazia”, diz de Armas. “Ela amava a profissão e a respeitava muito. Ela simplesmente não recebeu isso de volta.”

Retornar a conversa ao seu papel como Monroe traz de Armas de volta à sua zona de conforto: “Só estou interessada no meu trabalho”, diz ela. “Quero ser lembrado por isso. Por outro lado, não estou interessado. Algumas pessoas se divertem mais fazendo as pazes com isso. Algumas pessoas até gostam. Estou no grupo de pessoas que prefeririam não ter isso.”

“Blonde” representa a última e melhor chance de De Armas de reorientar sua personalidade de uma vez por todas em torno de seus dons como performer. Muitas das críticas de Veneza eram brilhantes. Mas o filme vem com pontos de discórdia, entre eles o escândalo sobre o quão longe ele leva o personagem de Monroe. De Armas diz: “Fiz coisas neste filme que nunca faria por mais ninguém, nunca. Eu fiz isso por ela e fiz isso por Andrew.”

Inesperadamente, de Armas traz à tona a ideia de que clipes de seu corpo nu – disponíveis para qualquer pessoa com assinatura da Netflix – circularão pelo mundo, fora do contexto do filme. “Eu sei o que vai viralizar”, ela diz, “e é nojento. É perturbador só de pensar nisso. Eu não posso controlá-lo; você não pode realmente controlar o que eles fazem e como eles tiram as coisas do contexto. Eu não acho que isso me deu segundas intenções; só me deu um gosto ruim pensar no futuro desses clipes.” Mas isso também existe fora do mundo do trabalho de de Armas e, com a mesma facilidade com que ela trouxe o assunto, ela o abandona.


O truque ousado de “Blonde” é o que Oates pode chamar de sua energia Marilyn/Norma Jeane: como Monroe, de Armas claramente chega lá, conjurando a vitalidade e o espírito da estrela de “Some Like It Hot”. De Armas se lembra de um dia no set em que seu cabeleireiro, assistindo de Armas e filmagens de Monroe em monitores separados, acabou perplexo porque as correções que ela estava fazendo no cabelo de Armas não estavam grudando; Acontece que os dois pareciam tão parecidos que ela confundiu estrela e assunto. Dominik diz que se esforçou para nunca chamar “corta”, para que seu ator principal pudesse surpreendê-lo: “Ela tentou se surpreender – sempre as melhores tomadas são aquelas em que o ator diz: ‘Eu não sei o que diabos fez.'”

Chegar a esse lugar de liberdade exigia um domínio do porte e cadência de Monroe, mas também uma compreensão do que estava por trás do desempenho de Monroe. “Pude ver Norma mais rápido do que Marilyn”, diz de Armas. “Eu podia senti-la em meu corpo.” Encontrar Monroe exigiu entender o que a fez atuar: “A voz de alguém tem muitas qualidades”, diz de Armas. “Não é apenas um sotaque ou o tom ou a respiração. Você pode imitar alguém muito bem e não tem alma. Por mais que eu quisesse chegar o mais próximo possível da voz dela, se aquela voz não tivesse um sentimento, isso não significava nada para mim.”

O que significa que de Armas habita a maneira de falar de Monroe – a insegurança e o desempenho que sustentam sua respiração – enquanto um pouco da própria voz e sotaque de De Armas sangra. “Ela soa como um ser humano completo, em oposição a um recorte de papelão”, diz Dominik. “O que muitas pessoas pensam que Marilyn Monroe soa é provavelmente uma imitação que eles ouviram tanto quanto é a pessoa real.”

Ainda assim, de Armas pode ter tido uma barra extra para superar ao lidar com o papel de falante nativo de espanhol. “Ela não tem dúvidas sobre si mesma como atriz”, diz Dominik, “mas os músculos de seu rosto, sua boca e sua língua se formaram de forma diferente de uma pessoa que é falante nativa de inglês. É uma grande pergunta.” De Armas passou nove meses treinando para o papel, “e honestamente, se eu tivesse mais um ano inteiro, eu o teria usado”, diz ela. “E não apenas porque sou cubana interpretando Marilyn Monroe. Qualquer um ficaria apavorado.”

Em representações de tela anteriores de Monroe, Dominik diz: “Eu não vejo o motivo de tanta confusão; com a Ana, eu entendo o motivo do alarido. O fato de ela ter nascido em Cuba não era uma vantagem para ela quando se tratava de conseguir o papel, mas não deixaríamos isso atrapalhar”.

De fato, a identidade cubana de De Armas não entrou em seu cálculo pessoal sobre assumir o papel de uma mulher que também é um símbolo americano. “Como estudantes de teatro, fizemos Tennessee Williams”, diz ela. “Fizemos Shakespeare em espanhol. Para mim, esse conceito de ‘Você não pode tocar isso ou aquilo’ – o que isso significa? Eu sou uma atriz, eu quero fazer esse papel.” Seus olhos brilham. “É um desejo e ambição pessoal interpretar papéis que eu não deveria interpretar. Para mim, a arte deve ser repetida, replicada e reinterpretada; esse é o ponto principal da cultura. E eu mereço esse desafio.”

Perseguir o desafio é uma meta de De Armas desde pelo menos 2006, quando, ainda adolescente, embarcou em um voo para a Espanha para tentar a carreira de atriz. “Eu disse isso em voz alta para meus pais, apenas como uma ideia, com convicção, mas não sabia o que eles iam dizer. Imediatamente, recebi um sim.”

De Armas sabia que sempre poderia voltar a Cuba, mas sentiu a necessidade de tentar: “Acho que, às vezes, ser ignorante, no melhor sentido da palavra, ajuda”, diz ela. “Porque eu simplesmente não sabia o que havia do outro lado.” Entrar na indústria de entretenimento europeia depois de crescer sem fitas VHS ou DVDs ajudou de Armas a se tornar mais desorganizado. “Suas habilidades de sobrevivência assumem o controle”, diz ela. “Sempre fui muito corajoso e gosto de correr riscos.”

“Blonde” pode começar um novo capítulo na carreira de De Armas, em que partes dramáticas ousadas caem com mais frequência em seu colo. Questionada sobre como o equilíbrio entre sucessos de bilheteria e papéis de personagens está funcionando para ela, de Armas ri. “Bem, não muito ultimamente, porque ‘Blonde’ demorou tanto para sair que depois de Bond, tudo o que aconteceu foi nessa linha.” Depois de fazer “No Time to Die”, de Armas reservou papéis em “The Gray Man”, bem como em “Ghosted”, um romance de ação da Apple (e seu terceiro filme ao lado de Evans), e “Ballerina”, um “John Wick”. ” spinoff, que ela vai filmar neste outono.

“Sem eu planejar, estou fazendo todos esses filmes de ação que são divertidos”, diz ela, “mas me tocam de uma maneira diferente. Espero que agora eu possa começar a equilibrar as duas coisas, porque parecia muito uma nota. Já fiz muitos juntos.”

Dominik abriu o universo criativo de De Armas, tanto que a espera por “Blonde” foi especialmente pesada. Ao contrário de Monroe – que, em “Blonde”, fica enojada e desanimada ao se ver na tela – de Armas se consolo ao rever o filme. E suas exibições de “Blonde” foram uma espécie de teste emocional de tornassol. “Durante três anos”, diz ela, “muita coisa aconteceu na minha vida pessoal, então toda vez que assisto ao filme, uma parte diferente me toca mais”.

Os anos desde que “Loira” foi filmado foram turbulentos para De Armas, e o filme mudou radicalmente de significado ultimamente. Quando pergunto a ela o que mais a toca em “Blonde” agora, ela imediatamente se emociona. “Há um ano e meio”, diz ela, “perdi meu pai”. O filme lida em termos francos com a angústia de Norma Jeane sobre a falta de uma figura paterna. A confissão de De Armas tem toda a crueza e o momento aleatório da dor; sua perda reformulou a experiência de “Loira” para ela e tornou o filme quase poderoso demais para assistir. “Eu vejo este filme completamente diferente agora. Há dias em que assisto e não penso nisso – ou saio da sala. Tive um pai incrível por 32 anos. E não tendo isso agora, eu só posso imaginar o que teria sido, não ter nada.”

Seu pai não viu “Loira”, mas de Armas trouxe sua mãe, que mora em Cuba, como acompanhante para Veneza. Sua mãe já havia visto um corte sem legenda de “Blonde”, apesar de não falar inglês. Foi outra visão em que de Armas registrou algo novo: desta vez, foi a atenção de sua mãe. “Ela entendeu tudo. Não havia nada que eu precisasse explicar para ela.” De Armas parece por um momento mais uma vez lacrimoso, então funga e sorri. A verdade emocional de Monroe veio à tona. “Se ela pode entender isso sem legendas”, conclui de Armas, “então acertamos o alvo”.


Transmitir a realidade de Monroe de forma tão vívida apresenta um caso de teste para o quão longe Hollywood chegou – ou não – desde seus dias. “Pode-se dizer que as coisas mudaram drasticamente”, diz Oates em seu e-mail, “pelo menos para artistas fortes como Madonna e Lady Gaga, que forjaram identidades notavelmente”.

De Armas pode não ser famosa no nível de Gaga, mas ela certamente está disposta a atravessar limites incalculáveis ​​para explorar o que a celebridade faz com as mulheres. Ao revelar tanto de si mesma na tela em todos os sentidos, de Armas testa se a manchete será sobre seu corpo ou seu espírito; ao fazer um filme sobre a figura mais perseguida pela mídia do século 20, ela tenta deixar sua própria era de paparazzi para trás definitivamente. O sucesso de “Blonde” será medido nas paradas da Netflix e, talvez, no Oscar; seu impacto de cauda mais longa pode vir na forma dos papéis que de Armas recebe.

“De certa forma, Ana não sabe o quão boa ela é”, diz Dominik. “Certamente, quando estávamos filmando o filme, acho que ela não tinha a menor ideia de quão extraordinário realmente era.”

A próxima vez que falo com De Armas é por telefone, dois dias depois da estreia do filme em Veneza. Fotos dela no tapete vermelho em um vestido rosa “Os Homens Preferem as Loiras” viajaram muito, assim como as notícias de que ela chorou durante a ovação de pé. De Armas já havia pensado que uma ovação não importaria muito – ela sabia o que sentia sobre o trabalho. “’Quantos minutos são seus aplausos?’ Por que isso é uma coisa a ser considerada? Por que isso é importante?” de Armas diz por telefone. “Mas então parece tão autêntico quando isso acontece.”

De Armas diz que chorou por algumas razões, se a razão pode ser aplicada à emoção. Um aspecto da experiência parecia estranhamente meta: embora ela tivesse visto o filme muitas vezes para contar, ela nunca o tinha visto com um público de estranhos. “Desta vez foi muito mais imersivo. É tão grande, está em cima de você. É inegável.” Ela estava na sacada, e a partir daí a degradação de seu personagem parecia crua e poderosa. De Armas assistiu o público consumir a história de Monroe – uma tragédia na qual a direção sedutora e hipnótica de Dominik os implicou. “Era como uma imagem dupla. Estávamos olhando para as pessoas olhando para ela. Foi um ponto de vista tão surreal.”

E em breve, o trabalho assombrado de Armas em “Blonde” estará disponível em todos os laptops, tablets e smartphones assinantes da Netflix na Terra. Depois de Veneza, ela parece cansada e pronta. “É muito estressante! Porque literalmente não é apenas um cinema – é todo mundo”, diz de Armas. “O mundo vai ver. Então, estou muito animado – e é hora de deixar ir.”


Cenário: Justin Rocheleau/ Procurado-se PD; Styling: Samantha McMillen/The Wall Group; Maquiagem: Melanie Inglessis/Forward Artists; Cabelo: Jenny Cho/A Frame Agency; Manicure: Ashlie Johnson/The Wall Group/Dior Vernis; Look 1 (capa): Louis Vuitton; Look 2 (usando chapéu): Chapéu: Janessa Leone; Suéter; Louis Vuitton; Jóias: Shay e Anita KO; Look 3 (roupa branca): Top: Nili Lotan; Saia e Cachecol: Louis Vuitton; Jóias: Shay e Anita KO; Look 4 (suéter bege): Suéter: Louis Vuitton; Meia: Wolford

Entenda como morte da jovem Mahsa Amini por causa de véu desencadeou protestos no Irã

Muitos iranianos veem caso da morte de Mahsa Amini em poder da polícia de costumes como mais uma evidência da repressão na república islâmica.Vídeos publicados em redes sociais mostram mulheres jogando seus hijabs em uma fogueira, cortando o cabelo, entre outras demonstrações que desafiam o regime.
Por Associated Press

Mahsa Amini em imagem sem data — Foto: Reprodução/Via Reuters

Protestos eclodiram em todo o Irã nos últimos dias depois que uma mulher de 22 anos morreu enquanto estava detida pela polícia dos costumes por violar o código de vestimenta islâmico estritamente aplicado do país.

A morte de Mahsa Amini, presa porque seu véu (ou hijab) estaria solto, desencadeou demonstrações de desafio às autoridades por parte da população nas ruas.

Muitos iranianos, particularmente os jovens, veem a morte de Amini como uma evidência da repressão do governo da república islâmica e do tratamento cada vez mais violento da polícia dos costumes às mulheres jovens.

O que está acontecendo no Irã?

Protestos tomam conta de ruas de Teerã, capital do Irã — Foto: Associated Press
Protestos tomam conta de ruas de Teerã, capital do Irã — Foto: Associated Press

Nos protestos de rua, algumas mulheres tem arrancado seus hijabs, girando-os no ar. Vídeos publicados em redes sociais mostram mulheres jogando seus hijabs em uma fogueira, cortando o cabelo e várias outras demonstrações de protesto.

Os Basij, voluntários da Guarda Revolucionária paramilitar do Irã, reprimiram violentamente protestos no passado, incluindo os direitos à água e a economia do país.

No entanto, alguns manifestantes ainda gritam “morte ao ditador”, visando tanto o líder supremo aiatolá Ali Khamenei quanto a teocracia do Irã, apesar da ameaça de prisão e até mesmo a possibilidade de sentença de morte.

Como foi a morte de Mahsa Amini?

A polícia dos costumes do Irã prendeu a jovem curda chamada Mahsa Amini em 13 de setembro, em Teerã. Ela desmaiou em uma delegacia e morreu três dias depois.

Os oficiais a detiveram por usar seu hijab muito frouxo. O Irã exige que as mulheres usem o véu de uma forma que cubra completamente os cabelos quando estiverem em público. Apenas o Afeganistão, agora sob o domínio do Talibã, aplica ativamente uma lei semelhante. Até mesmo a ultraconservadora Arábia Saudita diminuiu a pressão sobre como as mulheres se vestem nos últimos anos.

A polícia nega que Amini tenha sido maltratada e diz que ela morreu de ataque cardíaco. O presidente Ebrahim Raisi prometeu uma investigação.

A família de Amini diz que ela não tinha histórico de problemas cardíacos e que foram impedidos de ver seu corpo antes de ela ser enterrada. As manifestações eclodiram após seu funeral na cidade curda de Saqez, no sábado, e rapidamente se espalharam para outras partes do país, incluindo Teerã.

O que é o ‘hijab’ e por que ele é importante?

O “hijab” tem origem na palavra árabe “hajaba”, que significa esconder, se ocultar dos olhares, estabelecer distância. Este véu esconde os cabelos, as orelhas e o pescoço, e só deixa visível o rosto.

Seu uso é disseminado no mundo muçulmano, onde substitui roupas tradicionais que remontam à época romana como o “haik”, do norte da África, uma grande peça de lã ou algodão de 5 m por 1,6 m, que disfarça as formas do corpo e esconde o rosto.

Conheça os diferentes tipos de véus islâmicos. — Foto: Arte G1
Conheça os diferentes tipos de véus islâmicos. — Foto: Arte G1

O véu também se chama “litham” (esconde nariz) ou “khimar”, termo genérico que designa tudo o que cobre a cabeça e que em geral chega até a cintura, como o xale, a echarpe e a mantilha.

A ideia é manter a mulher longe de qualquer objetificação sexual, por isso seu corpo fica coberto.

Como as mulheres são tratadas no Irã?

Iranianas torcem em estádio em Teerã durante partida eliminatória para a Copa do Mundo de 2022, entre Irã e Camboja, na quinta-feira (10). Esta foi a primeira vez que torcedoras tiveram permissão para assistir jogo em estádio em quase 40 anos — Foto: Atta Kenare/AFP
Iranianas torcem em estádio em Teerã durante partida eliminatória para a Copa do Mundo de 2022, entre Irã e Camboja, na quinta-feira (10). Esta foi a primeira vez que torcedoras tiveram permissão para assistir jogo em estádio em quase 40 anos — Foto: Atta Kenare/AFP

As mulheres iranianas têm pleno acesso à educação, trabalham fora de casa e ocupam cargos públicos. Mas elas são obrigadas a se vestir modestamente em público, o que inclui usar o hijab, bem como túnicas longas e folgadas. Homens e mulheres solteiros são impedidos de se misturar socialmente.

As regras, definidas após a Revolução Islâmica de 1979, são aplicadas pela polícia dos costumes. A força, oficialmente conhecida como Patrulha de Orientação, fica geralmente patrulhando áreas públicas. É formada por homens e também por mulheres.

A aplicação foi relaxada sob o ex-presidente Hassan Rouhani, um líder relativamente moderado que a certa altura acusou a polícia dos costumes de ser excessivamente agressiva. Em 2017, o chefe da força disse que não prenderia mais mulheres por violar o código de vestimenta.

Imagem de Ebrahim Raisi, presidente do Irã, em junho de 2021 — Foto: Atta Kenare/AFP
Imagem de Ebrahim Raisi, presidente do Irã, em junho de 2021 — Foto: Atta Kenare/AFP

Mas sob Raisi, um líder mais linha-dura eleito no ano passado, os agentes da polícia dos costumes parecem ter sido mandados de novo às ruas. O escritório de direitos humanos da ONU diz que mulheres jovens foram esbofeteadas no rosto, espancadas com cassetetes e empurradas para dentro de veículos da polícia nos últimos meses.

Como o Irã respondeu aos protestos?

Protestante devolve bomba de gás lacrimogênio durante protesto em Teerã — Foto: Associated Press
Protestante devolve bomba de gás lacrimogênio durante protesto em Teerã — Foto: Associated Press

Os líderes iranianos prometeram investigar as circunstâncias da morte de Amini enquanto acusam países estrangeiros não identificados e grupos de oposição exilados de aproveitá-la como pretexto para fomentar divergências. Esse tem sido um padrão comum durante os protestos nos últimos anos.

Os clérigos governantes do Irã veem os Estados Unidos como uma ameaça à república islâmica e acreditam que a adoção dos costumes ocidentais prejudica a sociedade.

As tensões têm sido especialmente altas desde que o então presidente Donald Trump se retirou do acordo nuclear de 2015 com o Irã e impôs duras sanções. O governo Biden vem trabalhando com aliados europeus nos últimos dois anos para reviver o acordo.

As negociações parecem estar em um impasse, já que especialistas em não proliferação alertam que o Irã tem urânio altamente enriquecido suficiente para uma bomba nuclear, se optar por construir uma. Os iranianos insistem que seu programa é pacífico.