‘Um de vocês é um diabo’

Livro-reportagem reconstitui o histórico surto de feitiçaria em Salem, em 1692
Luciano Trigo

‘As bruxas’ — Foto: Divulgação

O ano de 1692 ficou marcado, na História norte-americana, como aquele em que se promoveu, literalmente, a mais terrível caça às bruxas. O episódio do surto de feitiçaria em Salem, aldeia puritana na baía de Massachussets, na Nova Inglaterra, com pouco mais de mil habitantes, já rendeu diversas obras, destacando-se o clássico romance de Nathaniel Hawtorne “A casa das sete torres” (1851) e a peça teatral de Arthur Miller “The Crucible” (1953), mas não se tinha notícia de uma reconstituição rigorosa do que realmente aconteceu. O desafio foi enfrentado pela historiadora Stacy Schiff, autora do best-seller “Cleópatra” e vencedora do Prêmio Pulitzer, em “As bruxas – Intriga, traição e histeria em Salem” (Zahar, 324 pgs. R$ 89,90).

A primeira manifestação de bruxaria aconteceu em janeiro daquele ano, com duas meninas enfeitiçadas rosnando e dando gritos horrendos. Após um bizarro processo judicial, o primeiro enforcamento se deu em junho. Até setembro, de um total de 400 acusados, com idade que variava dos 5 aos 80 anos, foram enforcadas 14 mulheres, cinco homens e até mesmo dois cachorros – todos acusados de pacto com o demônio. Vale lembrar que, no código legal fixado pelos colonos puritanos, a bruxaria aparecia como crime capital mais grave que o assassinato.

Mas a história não terminou aí: diante dos sinais de que as sentenças se basearam em testemunhos mentirosos e confissões obtidas na base da ameaça e coerção, os juízes e toda a comunidade sobrevivente de Salem tiveram que conviver com a culpa pelo resto de suas vidas. O silêncio envergonhado que se seguiu ao episódio deixou claro que o objetivo dos julgamentos não tinha sido investigar a verdade das acusações, mas estabelecer a culpa dos suspeitos. O processo de superação dessa “suja mancha na nossa História” foi longo: as primeiras vítimas das execuções foram inocentadas e reabilitadas judicialmente em 1710; as últimas, somente em 2001.

Leia aqui um trecho de “As bruxas – Intriga, traição e histeria em Salem”.

Stacy Schift fez algumas opções curiosas na reconstituição do caso. Em vez de condenar, com os olhos do presente, o surto de irracionalidade que tomou conta da aldeia, ela tenta fazer o registro dos acontecimentos tais como eram percebidos com os olhos da época – quando não se duvidava da realidade da bruxaria, como não se duvidava da verdade da Bíblia. É uma estratégia narrativa eficiente, pois mergulha o leitor no cotidiano de terror e medo em que viviam os colonos: era um mundo no qual um pastor podia gritar para seus paroquianos “Um de vocês é o diabo!”, e no qual, basicamente, só havia três opções: acusar, confessar ou ser acusado e preso, possivelmente enforcado.

“As bruxas” ganha, assim, contornos de um suspense forense, de um thriller psicológico opressivo. Somente nas páginas finais do livro a autora intervém como intérprete dos acontecimentos, analisando as diferentes teorias já formuladas para explicar o fenômeno de Salem: “tensões geracionais sexuais, econômicas, eclesiásticas e de classe; hostilidades regionais importadas da Inglaterra; envenenamento alimentar; histeria adolescente; fraude, impostos, conspiração; trauma de ataques indígenas”.

Felizmente, Stacy evita a armadilha de tratar o tema como metáfora lacradora para acontecimentos do presente: não se vê, por exemplo, nenhuma referência a Donald Trump nem ao retrocesso a tempos sombrios no qual supostamente vivemos, nem a obscurantismo religioso que, na cabeça de alguns, está mandando pessoas para a forca. Se existe alguma atualidade no tema de “As Bruxas”, ela não reside em qualquer imagem de opressão e resistência (como na alusão ao macarthismo, na peça de Arthur Miller), mas no perigo da convicção absoluta de estar do lado do bem.

Essa convicção leva pessoas normais a se aliarem na perseguição e no esfolamento de inocentes, com vizinhos acusando vizinhos, maridos acusando esposas, filhos acusando pais. A atmosfera crescentemente claustrofóbica em Salem gerou um denuncismo desvairado e um surto coletivo que seguramente guardam paralelo com o que acontece em certos meios, no Brasil de hoje. No final das contas, a mensagem que fica é que, venha de onde venha, é preciso evitar a histeria de massa, porque, uma vez instalada, é difícil escapar dela.

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As lições da Capitã Marvel para se tornar um super profissional

Você consegue reconhecer os vilões da sua vida profissional? Especialista em aprendizado destaca como o filme da Marvel pode ajudar sua carreira
Por Luísa Granato

Capitã Marvel: em todos os momentos difíceis, ela se levanta e tenta novamente (©Marvel Studios 2019/Divulgação)

São Paulo – “Eu não tenho que te provar nada”, diz a super-heroína Capitã Marvel na hora de encerrar com apenas um golpe a luta com o vilão.

Parece uma resposta certa para o filme que recebeu críticas antes mesmo de ser lançado e é o primeiro da Marvel com uma protagonista mulher. E também resume as características da personagem que pode servir de inspiração para sua vida profissional.

De acordo com Flora Alves, coach e especialista de treinamento e em design de aprendizagem, o filme mostra a busca por autoconhecimento, uma jornada que diversos profissionais traçam no mundo atual.

Interpretada pela atriz Brie Larson, a heroína começa o filme como parte de uma equipe dos alienígenas Kree lutando uma inacabável guerra contra a civilização Skrull. Ela não lembra nada do seu passado e até seu nome, Vers, foi dado por outros.

De volta ao planeta Terra, ela redescobre sua história e identidade: ela é Carol Danvers, uma ex-piloto de caças da Força Aérea dos Estados Unidos.

“Quando ela descobre quem é, ela se liberta e alcança seu verdadeiro potencial”, diz Flora.

Com uma bilheteria mundial que ultrapassou o marco de US$ 1 bilhão, o filme inspirou e agradou os fãs do universo Marvel. Para a coach, o filme é impressionante por costurar múltiplos temas em sua trama, mostrando desde a força da diversidade dentro de um time até a responsabilidade de conhecer seus pontos fortes.

“No final da história, o filme mostra que ninguém é capaz de fazer você chegar na sua melhor versão do que você mesmo. A personagem toma decisões de acordo com suas próprias convicções. Na vida profissional, muitos vão tentar mostrar que seu sucesso depende de forças externas, mas é justamente o contrário: o super poder está dentro de cada um”, diz a especialista.

As lições para o crescimento pessoal e profissional são muitas e a especialista fez uma leitura do filme com o foco no mundo corporativo.

Primeiro poder: Ignorar quem só diz “não”

Muita gente disse “não” para Carol Danvers. Em suas memórias da infância, seu pai dá bronca nela por querer participar de brincadeiras e esportes “de menino”. No exército, os colegas riem dela por cair e falhar no treinamento.

Com joelhos ralados e ossos quebrados, ela aparece perdendo e ouvindo que não é capaz repetidas vezes. E, em todos os momentos, ela se levanta e tenta novamente.

“Em termos de carreira, muito vão tentar te convencer de que não é capaz. Você precisa focar nas suas potencialidades, não no que dizem que você deveria ser melhor. A heroína é curiosa e rebelde, irreverente e sempre busca ultrapassar seus limites”, explica Flora.

Segundo poder: Inteligência emocional para tomar decisões

Yon-Rogg, interpretado por Jude Law, é o mentor Kree da Vers. No início do filme, enquanto treinam, ele fala que as emoções são o ponto fraco dela e que precisa encontrar um equilíbrio para ser uma grande guerreira.

“Para nós, o equilíbrio é encontrado através da inteligência emocional, assim você pode ter foco para ver um cenário com clareza e tomar as melhores decisões. Se deixar levar pelas emoções prejudica sua análise da realidade presente”, comenta a coach.

O conselho parece bom de primeira, mas o personagem coloca a si mesmo como quem vai ajudar Vers a resolver seu ponto fraco.

Já na Terra, Carol reencontra sua melhor amiga, Maria Rambeau, que aponta todos os seus pontos fortes. Ela mostra para a protagonista que ela tem os mecanismos para contornar suas falhas e vencer.

“Conhecer a minha reação às emoções, conversar com elas e depois usá-las a meu favor é o certo. Na carreira, se existe uma situação que causa um desconforto, você escolhe como reagir. Para isso, você deve compreender de onde veio o sentimento”, explica.

O mentor mostra o negativo e coloca a responsabilidade pelo crescimento dela do lado de fora. A amiga mostra como olhar para dentro de si. “Isso é chave para o profissional de hoje”, fala a coach.

Terceiro poder: O verdadeiro empoderamento

Quando percebe seu potencial, Carol reflete: estava lutando com uma mão amarrada nas costas, e agora, o que consigo realizar?

“A partir desse momento, ela resolve tudo muito rápido. Ela vê quem é quem, toma decisões e faz em 15 minutos o que não fez no filme inteiro. Ela se empodera e assume a responsabilidade por fazer acontecer”, diz a especialista.

É como um aviso que lembra uma máxima do universo Marvel: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.

A personagem avança sempre, mas seus grandes feitos – salvar o mundo – apenas trazem desafios ainda maiores, como se tornar a protetora de diferentes galáxias. “Ela não pode pensar mais só em si mesma”, fala.

No trabalho, é necessário estar atento não somente aos benefícios, mas às responsabilidades implícitas em novos projetos e desafios. Um novo líder deve pensar e cuidar de todos em sua equipe.

Quarto poder: Transparência

“Vivemos um momento em que a transparência se mostra fundamental nas corporações. Em todos os níveis e planos, a prática desenvolve um clima de confiança, responsabilidade, respeito e cooperação nas empresas”, comenta Flora.

Em Capitã Marvel, e outros filmes de super-heróis, os personagens precisar colocar de lado os interesses individuais em favor do bem coletivo. Assim, momentos de transparência e testes de confiança são vitais para a trama se resolver.

Vemos isso no momento que o comandante Skrull se revela como uma vítima da guerra contra os Kree. Ele compartilha com a protagonista, até então sua inimiga, as informações que encontrou, seu passado e suas intenções e pede por ajuda para sua família.

Com a confiança estabelecida, um time inabalável se forma: os Skrulls, Danvers, Maria, Fury e um gato chamado Goose. Apesar de suas diferenças, cada membro se torna vital para missão final (sim, até mesmo o gato).

Quinto poder: Intuição

Quando seu inimigo pode ser qualquer pessoa, como reconhecê-lo?

Essa que é questão que o personagem Nicholas Fury (que os fãs reconhecem de outros filmes da Marvel) coloca para Carol Danvers quando entende que os Skrull possuem a capacidade de imitar a aparência de qualquer pessoa.

A coach adorou a cena que mostra Carol vasculhando um vagão de trem em busca de um Skrull infiltrado. Ela olha nos olhos de cada pessoa com muito cuidado. Ela encontra seu inimigo no rosto de uma senhora idosa aparentemente inofensiva.

Sua intuição pode parecer um super poder, mas Flora Alves acredita que todos podem adquirir essa habilidade ao se permitirem ter atenção plena.

“Você precisa estar presente para ver os sinais ao seu redor, sem dividir sua mente com notificações do celular ou tarefas pendentes. Ao falar com as pessoas, você poderá ver o suficiente para reconhecer no olho do outro se está sendo verdadeiro”, diz.

Quem é a brasileira Lily Safra que doou milhões para reconstrução de Notre-Dame?

Lily Safra (Foto: Getty Images)

A destruição de parte da Catedral de Notre-Dame nesta semana mobilizou conglomerados de moda e empresários pela reconstrução do histórico prédio em Paris. Além do grupo LVMH, da bilionária família Arnault, que doou € 200 milhões (R$860 milhões), e do bilionário marido de Salma Hayek, François-Henri Pinault, (R$430 milhões), uma brasileira aparece na lista de doadores que enviaram quantias significativas para Paris.

Trata-se de Lily Safra. Segundo o  “Le Monde”, ela teria reservado 10 milhões de euros (R$ 44 milhões), via fundação de seu ex-marido Edmond Safra, para os responsáveis pela reconstrução da igreja. O ato de generosidade chamou a atenção para sua fortuna, estimada em US$ 1,3 bilhão (R$ 5,1 bilhões).

Lily é viúva do banqueiro Edmond Safra e reconhecida na França. Ela recebeu uma Légion d’Honneur e tem uma sala no Museu do Louvre com seu nome e do marido, a Galerie Edmond et Lily Safra.

O pai de Lily era um inglês do ramo de ferrovias que chegou ao Brasil no início do século XX. Quando ela completou 19 anos, deixou a casa dos pais para se casar com um argentino milionário, Mario Cohen,  e teve três filhos. O casamento, porém, chegou ao fim e, pouco tempo depois, ela se casou com Alfredo Monteverde, dono da rede Ponto Frio, com teve outro filho.

Em 1969, o empresário se matou com um tiro no peito e Lily se mudou para Londres. Menos de 10 anos depois, ela conheceu Edmond Safra, com quem se casaria após uma breve união com o inglês Samuel Bendahan.

Solidão em rede: nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários

Para os nascidos a partir dos anos 80, o celular é o principal meio de interação com o mundo – e com os outros. Por isso, os millennials saem menos de casa, namoram menos, casam menos, engravidam menos e morrem menos em decorrência da violência urbana do que jovens de outras décadas. O resultado emocional desta nova equação social é também uma geração muito mais sozinha, mas não necessariamente deprimida

Solidão em rede (Foto: Ilustração Carolina Teixeira (ITZÁ))

Robinson Crusoé, o náufrago mais famoso da ficção literária, foi obrigado a ficar sozinho em uma ilha por 28 anos. Primeiro, ficou assustado, depois deprimido, até encontrar as benesses advindas do isolamento total. O personagem de Daniel Defoe é citado pela escritora inglesa Sara Maitland, autora do livro Como ficar sozinho (Objetiva, 192 págs., R$ 32,90), publicado no Brasil pelo selo The School of Life. Há uma certa identificação entre os dois: Sara, que agora tem 69 anos, também está há mais de duas décadas em estado de isolação, morando em uma das regiões com menor densidade demográfica da Europa, na Escócia – ali, o mercado mais próximo é a 15 quilômetros de distância. Inicialmente, a decisão ocorreu por conta do término de seu casamento. Mas, depois de um tempo, acabou virando fonte de prazer – tal qual Robinson Crusoé.

Em entrevista a Marie Claire, ela conta: “Robinson Crusoé foi colocado nessa situação contra sua vontade. Porém, se estar sozinho é uma escolha de vida, as coisas ficam mais fáceis e divertidas. Acredito que deveríamos ensinar às crianças os prazeres de se estar sozinho. Por exemplo: não colocá-las para ficarem reclusas no castigo. A solidão deveria ser uma recompensa. Você se comportou bem, agora pode ter algumas horas por conta própria”. Depois de sua intensa experiência com a própria companhia e nenhuma mais, Sara não tem dúvidas: “É possível estar sozinho, mas não solitário, porque a pessoa simplesmente gosta de estar assim”. “Vivemos em uma sociedade que diz que quem está sozinho é, de alguma forma, alguém que falhou como humano”, continua ela, que entrega: se por acaso sente a solidão, marca um Skype com um dos netos.

“Bons encontros podem acontecer a partir da internet”, acredita a psicanalista Bianca Dias. “Mas pode sim aumentar a solidão quando os encontros não se efetivam na presença do corpo.” Esse diagnóstico encontra eco na experiência da jornalista gaúcha Stefanie Cirne, 26. “Desde a pré-adolescência, muitos dos meus contatos mais próximos eram virtuais, que eu conhecia em fóruns temáticos de discussão. Achava mais fácil encontrar pessoas com quem me identificasse do que na escola, onde tinha afinidade com poucos. A distância pode trazer facilidades valiosas. Existem questões íntimas que só contei para amigas que fiz on-line, justamente porque estão removidas do meu círculo imediato, e eu sentia que assim meu segredo estava seguro, ou o meu desabafo seria ouvido com mais objetividade.”

Stefanie percebeu os desgostos das relações majoritariamente virtuais em uma comemoração. “Há uns quatro anos, tentei planejar a festa da formatura da faculdade e percebi que quase não teria quem convidar, porque alguns dos meus amigos mais queridos moravam em outros estados ou até mesmo países.” Não houve festa, mas pelo menos a experiência serviu como aprendizado: “Hoje espero coisas diferentes de cada amizade. Sei que o colo de uma amiga que mora em outro estado não é igual ao de uma que mora a minutos de mim, e que preciso equilibrar as relações on e off para não me sentir solitária”.

Stefanie faz parte da ala mais jovem da geração dos millennials, indivíduos nascidos entre 1979 e 1995. Mas a relação entre celular e vida cotidiana fica ainda mais acentuada entre aqueles que nasceram após esse período – afinal, já eram adolescentes na época do lançamento do iPhone. As gerações mais jovens bebem menos, transam menos, engravidam menos, dirigem menos e ficam mais tempo no celular. Por outro lado, morrem menos por mortes violentas – um reflexo da diminuição dos encontros presenciais. O Brasil, por exemplo, teve, nos primeiros nove meses de 2018, uma redução de 12,4% no número de mortes violentas com relação ao mesmo período de 2017 – o dado é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Chamo a geração pós-millennial de iGen. São jovens que estão 100% moldados pelo uso do celular. Eles ficam até mais tarde na casa dos pais, saem muito pouco para encontrar os amigos na rua, mas nem por isso melhoraram a relação com a família. Continuam distantes, solitários, cada um com seu celular e seu mundo particular”, explica Jean Twenge, psicóloga especialista em diferenças geracionais, autora do livro iGen (Martins Fontes, 368 págs., R$ 52). “Normalmente, um fator não é o suficiente para definir uma geração. Mas as mídias sociais e o aumento do uso de celulares causaram um terremoto de uma magnitude há muito tempo não vista”, continua ela, em um artigo para a revista norte-americana The Atlantic.

Existe uma razão concreta e pragmática para isso: a crise econômica que se estende no mundo desde 2008. Sair, beber, ir a festas – e assim conhecer pessoas ao vivo e a cores – custa dinheiro. Acaba sendo mais barato que a interação ocorra num quarto vazio através do celular. Acontece que a solidão tem consequências físicas: elevam-se os níveis de cortisol – o hormônio do estresse –, a resistência à circulação de sangue aumenta e certos aspectos da imunidade diminuem. Esse modus operandi também tem relação com os índices de depressão e suicídio. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão é a doença que mais cresce no mundo. São 322 milhões de pessoas, representando 4,4% da população mundial, acometidas por ela. Até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Só no Brasil, 75 mil pessoas foram afastadas do trabalho por esse motivo em 2016.

Uma análise feita na Universidade de Chicago – de 70 estudos combinados, com mais de 3 milhões de participantes – vai além e demonstra que a solidão aumenta o risco de morte em 26%, quase o mesmo que a obesidade. O fato de que mais de uma em cada quatro pessoas em países industrializados pode estar vivendo em plena solidão deveria, sim, nos preocupar.

#nofilter

O Instagram é a rede social da inveja, dizem. Ali, todos parecem estar em viagens idílicas, em festas inesquecíveis e em uma vida familiar harmônica. Até mesmo o emprego, outrora um aspecto que era permitido odiar sem culpa, ganha a hashtag #ilovemyjob. Um estudo publicado pela Universidade da Pensilvânia relacionou o uso das redes sociais (Instagram, Facebook e Snapchat) com uma maior capacidade de desenvolver ansiedade, depressão e solidão. G*., 32, entendeu recentemente que sofre do terceiro. Era 2012 quando ela saiu da casa dos pais para morar sozinha em São Paulo, onde desde então ganha a vida como programadora freelancer. O máximo de tempo em que ficou sem sair do apartamento em que vive na tumultuada rua da Consolação foi onze dias. Onze dias seguidos sem colocar os pés na rua. G. diz que estar por tanto tempo fisicamente sozinha não lhe parecia uma questão até dias atrás, quando se deu conta de que não tinha com quem dividir uma “grande conquista”, a compra, “à vista”, do primeiro apartamento.

“Não ligaria para os meus pais para contar, não sem antes ter a documentação nas mãos. Mas me deu vontade de dar a notícia para um amigo e percebi que não poderia fazer isso com nenhum deles. Não porque não são amigos em que confio, mas porque não mantenho contato frequente com eles. Me pareceu estranho telefonar para eles, do nada. Diria o quê? Comprei um apartamento e desculpa pelo sumiço de seis meses?” G., que pediu anonimato para essa entrevista, não tem Facebook ou Instagram. Sua única conta em uma rede social é no Twitter. E é através da plataforma que se relaciona com outras pessoas e até conhece novas. “No Twitter, só interajo quando desejo e não sofro com as postagens dos outros. É um bom filtro para quem quer aparecer só de vez em quando”, afirma.

Solidão em rede (Foto: Ilustração Carolina Teixeira (ITZÁ))

É possível ser feliz sozinho

“Não acredito que a solidão tenha aumentado com as redes sociais, e sim diminuído. E isso é um problema”, opina a filósofa brasileira Viviane Mosé. “As pessoas estão o tempo inteiro convivendo com os outros através da internet. E, por isso, deviam ficar mais desconectadas, para conviver consigo mesmas e assim conseguirem filtrar seus desejos e avaliar seus afetos.” Portanto, é importante entender: do que falamos quando falamos sobre solidão? “Solitude é a descrição de um fato: você está consigo mesmo. Solidão é a resposta emocional negativa a isso”, define Sara Maitland numa entrevista ao jornal inglês The Guardian. “Mas há um problema cultural sério em relação à solitude. Ser sozinho em nossa sociedade suscita uma questão sobre identidade e bem-estar. É como se fosse um infortúnio. Não precisa ser assim. Estar só pode nutrir trabalhos artísticos. É algo que permite o desenvolvimento de gostos pessoais, da originalidade, da gestão do tempo e da independência do pensamento. Dormir sozinho melhora a qualidade do sono. Mas a maior surpresa é a descoberta de que sozinho você é, de fato, uma pessoa interessante, com recursos inesperados”, defende Sara.

No fim, talvez seja bom prestar atenção no que escreve Carlos Drummond de Andrade: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
MARIA CLARA DRUMMOND

Jessica Chastain critica lista da ‘Time’ após inclusão de Brett Kavanaugh, juiz da Suprema Corte dos EUA acusado de assédio

Atriz disse estar ‘decepcionada’ com a revista, que incluiu juiz e a autora da denúncia na mesma lista

Jessica Chastain. Foto: Instagram

A atriz Jessica Chastain criticou a lista Time 100 divulgada nesta quarta-feira, 17, pela revista Time. Entre os 100 nomes listados estava o de Brett Kavanaugh, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos que já foi acusado de assédio, e o de Christine Blasey Ford, autora a denúncia. 

“Vocês a colocam na mesma lista que o homem que a assediou. Tão decepcionante”, escreveu a atriz de Histórias Cruzadas e O Zoológico de Varsóvia. Em seguida, acrescentou ambos os nomes com um símbolo de superioridade para Christine.

Christine Blasey Ford é professora universitária e acusou Kavanaugh de assédio sexual. De acordo com seu relato, o crime ocorreu quando ainda eram adolescentes em 1982.

Pesquisa: Há mais homens que apoiam feminismo do que mulheres que se definem feministas

Pesquisa do Datafolha divulgada hoje indica também que o movimento é mais bem avaliado entre eles do que entre elas. Estereótipos seriam explicação para o afastamento das mulheres

Chimamanda – Blusa Renata Buzzo. Brincos acervo. Tradução: Julia Romeu (Foto: Helena Wolfenson)

Uma pesquisa do Datafolha divulgada neste domingo (14) aponta que há mais homens (52%) que apoiam o feminismo do que mulheres que se consideram feministas (39%). O resultado explicaria como ideias estereotipadas sobre o movimento, como a de que feministas não se depilam, não usam maquiagem, nem gostam de homens, ainda afasta mulheres, especialmente as mais pobres.

A pesquisa mostra também que o feminismo é mais bem avaliado entre o público masculino. 48% deles vê mais benefícios do movimento para as mulheres, enquanto (41%) veem mais prejuízo do que benefício.

Entre elas, 43% enxergam mais benefícios e 41% mais prejuízos.

As mulheres negras e pardas são as que mais enxergam benefícios do feminismo para a sociedade do que as brancas. 38% das mulheres se consideram feministas no Brasil.

No entanto, mais de dois terços do total de homens e mulheres concordam com causas feministas, como a de que o espaço para mulheres na política é menor que o suficiente.

A pesquisa ouviu 2.086 brasileiros com mais de 16 anos entre os dias 2 e 3 de abril em 130 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

FEMINISMO POP
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, capa de abril de Marie Claire, se tornou um dos principais ícones do feminismo atual após lançar o livro “Sejamos Todos Feministas”. Sua popularidade cresceu ainda mais ao ser citada por Beyoncé na introdução da música “Flawless”. O movimento também ganhou popularidade com frases estampadas em camisetas da Dior e palestras da atriz Emma Watson.

Feminismo em Israel: A luta das mulheres para orar em voz alta

Cristiano Dias de Jerusalém, O Estado de S.Paulo

Judias rezam com traje que ortodoxos reservam a homens Foto: Ronen Zvulun / Reuters

JERUSALÉM – Na manhã de sexta-feira, 8 de março, centenas de mulheres foram ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. A data era especial. Elas celebravam o Rosh Chodesh, primeiro dia do mês no calendário hebraico, que coincidia com o Dia Internacional da Mulher e os 30 anos da fundação do grupo Mulheres do Muro, um movimento feminista religioso que luta pelo direito das mulheres de rezarem no local mais sagrado do judaísmo usando lenços e lendo a Torá em voz alta.

A confusão começou antes de qualquer oração. Adolescentes religiosas chegaram cedo, em ônibus fretados por rabinos, e ocuparam o pequeno cercadinho do Muro das Lamentações designado para isolar as mulheres. Do lado masculino, judeus ultraortodoxos, debruçados na mureta que divide os dois mundos, xingavam, cuspiam e ameaçavam as mulheres que ousavam rezar em voz alta. A polícia teve trabalho. Houve empurra-empurra e bate-boca, principalmente no lado masculino, entre ultraortodoxos e judeus moderados, incluindo líderes de grupos reformistas que foram apoiar as Mulheres do Muro. 

“A polícia não atua. Ela sempre diz que nós provocamos e somos culpadas”, disse ao Estado Tammy Gottlieb, de 30 anos, que faz parte da direção das Mulheres do Muro. “Nós não queremos rezar no mesmo espaço que os homens. Queremos apenas que nós, as mulheres, tenhamos o direito de rezar em voz alta. A lei está do nosso lado, mas isso não impede que as agressões sejam constantes.” 

Em 2013, a Justiça deu ganho de causa às Mulheres do Muro, afirmando que orações em voz alta não perturbam a ordem pública. Para Gottlieb, o conflito tem relação com o caráter religioso do Estado de Israel e o excessivo poder dado aos religiosos. “Em geral, as sociedades estão ficando cada vez mais liberais. Isso deixa em pânico os ultraortodoxos. Eles têm medo da mudança, de perder o poder. Por isso, eles estão cada vez mais intolerantes.”

Ultraortodoxos gritam contra ativistas no Muro das Lamentações Foto: Natalie Behring / Reuters

A ativista Anat Hoffman, diretora e fundadora do grupo, também criticou os ultraortodoxos e sugeriu razões políticas para o tumulto. “A maioria dos ônibus veio de assentamentos na Cisjordânia. Eles chegaram lotados 15 minutos antes de nossa celebração começar. Eu fico me perguntando quem se beneficiaria com essa demonstração de força a um mês da eleição”, disse Hoffman, em referência à votação da semana passada, vencida pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, com apoio dos conservadores religiosos.

No dia seguinte ao quiproquó no lugar sagrado, o Haaretz, jornal israelense de tendência progressista, acusou o governo do premiê de usar o Muro das Lamentações como ferramenta política. “Netanyahu deu a si mesmo o poder de decidir quem é mais e quem é menos judeu, se apropriando da religião e agindo como se fosse o Vaticano do judaísmo”, escreveu o jornal, em editorial. “Netanyahu age como o papa dos judeus.”

O Muro das Lamentações é parte sensível da vida judaica – é o único vestígio do Segundo Templo de Jerusalém, destruído pelos romanos, no ano 70 d.C. Além das orações, muitos fiéis depositam desejos escritos em bilhetes enfiados entre as pedras. Antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o lugar era administrado pela Jordânia, que não permitia o acesso de judeus.

No terceiro dia da guerra, paraquedistas israelenses ocuparam a Cidade Velha de Jerusalém. “O Monte do Templo está em nossas mãos. Repito. O Monte do Templo está em nossas mãos”, anunciou Shlomo Goren, rabino-chefe do Exército. Yitzhak Rabin, então comandante das Forças Armadas, descreveu a chegada de seus soldados ao lugar como o episódio mais emocionante da Guerra dos Seis Dias

Por um breve período, os judeus, homens e mulheres, puderam rezar juntos, sem restrições, no Muro das Lamentações. Mas logo o local passou a ser controlado pelos ultraortodoxos, que impuseram a separação. “Com o tempo, muitos líderes conservadores de Israel se esqueceram que democracia não é apenas o governo da maioria”, disse Hanna Herzog, socióloga da Universidade de Tel-Aviv. “É preciso haver equilíbrio e também respeito aos direitos das minorias.”

Boa parte dos israelenses se vê como ocidental. “A única democracia do Oriente Médio”, dizem. Israel tem universidades de ponta, alto investimento em pesquisa e tecnologia. Diferentemente dos vizinhos árabes, a base do sistema político é um dinâmico parlamentarismo multipartidário, com eleições livres e um Judiciário independente.