‘Nunca imaginei que seria um símbolo no Brasil’, diz Rebeca Andrade

Ginasta fala sobre sobre infância, terapia e relação com a maquiagem: ‘Estou amando esse universo de beleza, moda e recebidos’
Karina Hollo

Rebeca Andrade Foto: Divulgação
Rebeca Andrade Foto: Divulgação

Não bastasse a história de superação, coragem e determinação, Rebeca Andrade é doce. A ginastaolímpica de 22 anos que trouxe duas medalhas para o Brasil é daquelas personagens que mostram que resiliência leva ao sucesso. No último fim de semana, ela conquistou uma medalha de ouro no salto e uma de prata nas barras assimétricas no Mundial de Ginástica, no Japão.

Encarando dificuldades como molas propulsoras, ela saltou da periferia de São Paulo para o mundo — e aterrisou com as pernas juntas, a espinha ereta e o coração tranquilo. 

Rebeca conversou com a ELA sobre a relação com Daiane dos Santos, os anos de terapia e o orgulho que tem de si mesma.

O GLOBO: Como é ter se tornado influenciadora, um símbolo não só dentro do esporte como um símbolo feminino no Brasil?

Nunca imaginei que seria um símbolo no Brasil. Ter me tornado alguém que influencia outras pessoas me traz muito orgulho. Eu fui influenciada no meu início na ginástica e sei como isso fez diferença na minha vida. Hoje, eu inspiro com a minha fala, trajetória e tudo o que eu vivi não só crianças e adolescentes, como também adultos. Ver que o Brasil tem um carinho muito grande por mim é uma coisa que eu não consigo explicar com palavras, sabe?  Eu tento sempre ser o melhor que posso. Sou muito alegre e gosto de passar isso nas minhas redes. E gosto de falar das dificuldades que eu enfrentei e saber que foram importantes. Foi daí que veio o meu crescimento pessoal e profissional. Eu gosto sempre de passar que precisamos ser fortes. Que os obstáculos vão estar sempre lá, mas que a gente precisa lutar pelo o que a gente quer. 

Você é a estrela da nova coleção de maquiagem da Vult. Qual sua relação com a maquiagem?

Minha relação com a maquiagem é muito boa. Não uso todos os dias, mas quando uso, ela retrata aquilo que estou sentindo. Quando vou para competição, uso uma make que me mostre mais forte, determinada e, ao mesmo tempo, graciosa — que é o que se pede muito do lado artístico. No dia a dia, sou mais tranquila: uso base, rímel, gloss. Estou amando esse universo de beleza, moda e recebidos. É uma coisa muito nova e diferente pra mim pois eu sempre fui muito voltada para o esporte. Estou conhecendo várias pessoas, vários estilos, maquiagens…

Como se sente sabendo que várias garotas querem ser Rebeca?

Acho muito legal, mas eu busco sempre dizer que elas não precisam ser iguais a mim. Eu quero que elas tenham os próprios sonhos, mas que lutem como eu lutei para alcançar o que eu alcancei. Eu acho que isso faz a diferença. Você usar a força do outro como base para conquistar o que quer faz toda a diferença. Entender que os obstáculos vão estar lá, mas que você tem força suficiente para ultrapassá-los. Vencer seu medo é muito importante. Curti cada momento. Nas dificuldades, eu consegui dar um sorriso, ver o lado positivo.

O CT de Guarulhos, onde você treina, está lotado de Rebequinhas. Meninas que querem ser uma atleta como você. Que conselhos daria a elas?

Meu conselho é: lutem muito pois a vida é difícil e os obstáculos estarão sempre aí. Para alcançar aquele sonho é preciso lutar, acreditar, confiar e ter pessoas que ajudem você a chegar lá. E ser grato, pois ninguém chega a lugar nenhum sozinho.

Daiane dos Santos era sua inspiração e você é a dessa geração. Como é isso?

É incrível! A Dai foi uma pessoa em quem eu me inspirei demais para iniciar e continuar na ginástica. Então, não tem outra palavra que não seja gratidão. Minha relação com a Dai é muito boa. Desde a primeira vez que eu a conheci, a gente se deu muito bem. Eu era muito novinha e ela até me ensinou a fazer um exercício! Conforme o tempo foi passando, fui amadurecendo. Ela foi diversas vezes no ginásio, dava dicas. Depois da Olimpíada, eu ainda não consegui encontrar com ela, mas a gente já conversou e eu lembro da emoção que ela teve ao me ver conquistando as medalhas. Gerações e gerações esperavam por essa medalha. Esperavam por essa notícia e foi muito lindo. A sensação era de que eu não estava lá sozinha mesmo. Parecia que o Brasil inteiro estava no pódio com a gente.

Rebeca Andrade Foto: Divulgação

 Durante as Olimpíadas, lemos muitas matérias falando das dificuldades que você passou na infância. É verdade que chegou a andar duas horas a pé porque não tinha dinheiro para o  ônibus?

Sim. Eu já tive que andar a pé para ir para o ginásio, fui de bicicleta, de ônibus, de perua. Mas lembro com muito carinho disso tudo. Eu ia com meus irmãos, minha mãe. E lembro que foi difícil mas nunca sofrido, porque eu sempre fiz tudo com muito amor. E meus irmãos fizeram tudo por mim com muito carinho. Então, eu tenho uma gratidão enorme. No começo, eu só era a Rebeca. Eu não era a Rebeca Andrade, eu não sabia o que eu seria hoje. Então, a força que a minha família me deu, no início, o incentivo de me deixar sair de casa, a confiança da minha mãe – porque não é fácil pra uma mãe deixar o seu filho partir. E ao mesmo tempo, ela entendeu que aquilo seria uma oportunidade incrível para mim. Para amadurecer, me lapidar como ser humano e atleta. Eu aprendi muita coisa. O essencial, o que realmente vale a pena levar da vida, eu aprendi desde quando eu nasci até os meus 10 anos, quando precisei sair de casa. O resto eu fui aprendendo com o tempo.

Como faz para manter a cabeça no lugar e não se deslumbrar com a fama e o sucesso? A terapia ajuda?

Esta questão de fama e sucesso, trabalho na minha mente há tempos. As pessoas sempre esperaram muito de mim, desde cedo. Mas aí eu tive minhas lesões e as minhas conquistas acabaram sendo adiadas. Minha mãe também sempre colocou o meu pé no chão, sabe? Ela falava: “Você tem talento, é uma menina incrível, tem um coração de ouro, mas você precisa saber de onde veio, saber o que importa”. Ela nunca deixou que eu me deslumbrasse. Queria que eu fosse feliz, grata e sabendo o que realmente era importante. Com certeza, a terapia me ajudou muito também. Tenho acompanhamento psicológico desde os 13 anos e isso fez toda a diferença. A minha psicóloga me conhece como a minha mãe. Sempre conto tudo para elas! Acho que o que realmente importa na vida é ser capaz de ajudar o próximo. Fama e sucesso são maravilhosos porque mostram uma conquista do seu trabalho. Mas tenho consciência do que realmente vale a pena. Descobri isso muito cedo com a minha mãe, e trabalhei muito cedo com a psicóloga.

Teve medo de sofrer com a depressão que Simone Biles sofreu?

Não e sou muito grata por não ter precisado enfrentar algo tão grande e difícil. É uma questão psicológica que você precisa de muito tempo pra resolver, complicada. Fingir pras pessoas que está tudo bem, que está tudo certo, acho que deve ser uma das coisas mais assustadoras da vida. Eu não consegui falar com ela nas Olimpíadas porque a gente tinha que seguir os protocolos. Então, o máximo que disse foi um ‘oi’ e segui reto porque a gente não poderia conversar. Não sei, talvez se a gente se encontrar em uma outra competição, possa falar. Verdade que eu não falo inglês, então fica difícil (rs). Ela sempre foi muito carinhosa comigo, um amor de pessoa quando a conheci, em 2016 e em outras competições onde a gente acabou se encontrando. Simone falou coisas maravilhosas sobre meu esporte. Disse que eu era uma menina incrível, muito talentosa. Falou pra eu não desistir e isso foi muito legal e importante. Espero que ela melhore logo.

‘Heroína é quem acolhe migrantes’, diz Angelina Jolie em Roma

Atriz é uma das estrelas do filme de super-heróis ‘Eternals’
ANSA, Agência

Angelina Jolie
Angelina Jolie em foto tirada em 24 de outubro de 2021, no 16º Festival Internacional de Cinema de Roma Foto: Fabio Frustaci/EFE/EPA

Estrela do filme de super-heróis Eternals, a atriz Angelina Jolie afirmou neste domingo, 24, que as verdadeiras heroínas são as mulheres que dedicam sua vida a acolher migrantes e refugiados.

A declaração foi dada durante a apresentação de Eternals na Festa do Cinema de Roma, encerrada justamente neste domingo e que deu amplo espaço à crise migratória no Mediterrâneo.PUBLICIDADE

Questionada pela imprensa sobre quem seriam as “super-heroínas de hoje”, Jolie respondeu: “As mulheres que estão na linha de frente e dedicam cada minuto de suas vidas a acolher migrantes e pessoas que fugiram para evitar a guerra e dar segurança às suas famílias”.

A atriz de 46 anos também é ativista pelos direitos humanos e tem um longo histórico de envolvimento com a causa dos refugiados.

Em Eternals, Jolie interpreta a guerreira Thena, integrante de um grupo de guerreiros eternos que se reúnem após milhares de anos para proteger a Terra e a humanidade.

Refugiados

Quem também levou o tema dos refugiados para a Festa do Cinema de Roma foi o filme Mediterraneo: The Law of the Sea (Mediterrâneo: A Lei do Mar, em tradução livre), de Marcel Barrena.

O longa venceu o prêmio do público no festival e se baseia na história do ativista espanhol Òscar Camps, fundador da ONG ProActiva Open Arms, uma das mais ativas nos resgates de deslocados internacionais no Mediterrâneo.

“Esse prêmio nos dá força, nos dá esperança, porque nos faz lembrar que o mundo precisa ouvir essa história”, declarou Barrena em uma mensagem em vídeo.

O filme conta a história de dois salva-vidas espanhóis, Òscar e Gerard, que viajam à ilha grega de Lesbos após terem visto uma foto chocante de um menino afogado no Mediterrâneo.

A partir disso, eles descobrem a realidade das pessoas que se arriscam no mar para fugir de conflitos em seus países, e decidem iniciar um trabalho de socorro marítimo para evitar a perda de mais vidas.

Ignorados, influenciadores com deficiência querem mais espaço na publicidade

Público representa apenas 1% das campanhas e não ganha espaço nem no mês dedicado ao tema
Victoria Damasceno

Duas fotos semelhantes, uma ao lado da outra, de uma mulher ruiva, de cabelos longo e cacheados, de blusa amarela e calça cinza, sentada em uma cadeira de rodas. O que difere uma foto da outra é que na primeira foto a mulher está com a mão no queixo e está levemente sorrindo. O fundo é neutro, dividido em uma parece em tom de azul claro embaixo e o céu em cima
A influenciadora Zannandra Fernandez, 19, percebeu que nem no setembro verde pessoas com deficiência são lembradas pela publicidade – Aterio M. Alighieri

SÃO PAULO – Com a chegada do setembro verde, mês que marca a inclusão da pessoa com deficiência, a influenciadora e modelo Zannandra Fernandez, 19, esperava que a procura pelas suas postagens publicitárias crescessem, já que ela faz parte deste público —mas isso não aconteceu.

“Eu fiz alguns trabalhos, mas nenhum querendo enfatizar que é setembro verde”, conta.

Além de não ter visto sua demanda aumentar, notou que as campanhas veiculadas na televisão, nas redes sociais e em outros meios dificilmente incluíam pessoas com deficiência. Fez, então, coro àqueles que quiseram chamar a atenção para a baixa representatividade deste público nas peças publicitárias.

“Já que nenhuma marca quer investir em mim nesse Mês da Pessoa com Deficiência, deixa que eu mesma faço isso”, postou em seu Twitter ao lado de duas fotos profissionais.

Poucas marcas convidam as pessoas com deficiência para que estampem suas campanhas. Isso fez com que influenciadores com deficiência chamassem a atenção para sua baixa representatividade mesmo no setembro verde.

Isto é, porém, um sintoma de uma invisibilidade diária. Pessoas com deficiência participam de aproximadamente apenas 1% dos anúncios publicitários do país, de acordo com a pesquisa “Diversidade na Comunicação de Marcas em Redes Sociais”, realizada pela consultoria Elife e a agência SA365.

O estudo avaliou 1.900 postagens de 50 marcas em 2020. Os grupos analisados foram de homens, mulheres, negros, amarelos, indígenas, brancos, LGBTQIA+, gordos, idosos e deficientes físicos.

As pessoas brancas foram representadas em 74% das publicações, liderando o ranking. Em seguida aparecem as mulheres, presentes em 62% –neste caso, não foi feito recorte racial. Ao lado dos indígenas, as pessoas com deficiência foram o grupo menos representado, ambos com 1%.

Cerca de 46 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, de acordo com o Censo de 2010. Isso corresponde a 24% da população do país.

A youtuber e mestre em políticas públicas Mariana Torquato postou um vídeo chamando atenção para o dia 21 de setembro, que marca a luta das pessoas com deficiência —e que não ganhou grande destaque

“Nem no dia da luta da pessoa com deficiência aqui no país a gente tem uma notinha na mídia ou a gente ganha um destaque dentro das grandes empresas. Até mesmo as grandes celebridades que dizem apoiar a inclusão. [Não] tem nada, minha gente”, disse.

Já o influenciador Eduardo Victor destacou que as poucas marcas que propõem parcerias no setembro verde não querem remunerar os criadores de conteúdo. Ele salientou que a autonomia financeira é um dos fatores determinantes para a independência das pessoas com deficiência.

“Falar sobre acessibilidade é falar sobre a possibilidade de acessar os lugares com o nosso dinheiro, com a nossa independência. E falar sobre independência e deficiência são coisas muito difíceis em uma sociedade que não nos enxerga como pessoas capazes”, destacou Victor.

A consultora de diversidade e inclusão na comunicação, e fundadora do projeto Propaganda de Responsa, Anna Castanha, atribui a falta de representatividade à necessidade de se incorporarem mais pessoas com deficiência nos processos criativos. Não basta, porém, que façam parte do cotidiano das agências de publicidade, marketing ou do dia a dia das marcas, precisam estar nos cargos de liderança.

“Se nesse patamar de hierarquia [de liderança] não tem essas pessoas, a coisa não vai acontecer. Não importa quantas pessoas com deficiência existam dentro de uma empresa, não são elas que vão fazer a coisa mudar, as lideranças precisam querer. Não só uma questão de representatividade, mas de equidade e voz”, diz.

Seu trabalho envolve uma checagem dos projetos antes que eles cheguem às ruas, como uma espécie de consultoria de bom senso. É ela quem avisa quando percebe que um anúncio não vai ser bem recebido por um público –ou pode até gerar um processo, por exemplo.

Em seu trabalho como consultora, ela percebeu que não há um esforço para inclusão das pessoas com deficiência, mas que as empresas apenas preenchem as cotas estabelecidas por lei. A legislação é alvo frequente de discriminação.

O artigo 93 da Lei 8213/1991 determina que empresas com mais de 100 funcionários contratem um percentual deste público, que varia de acordo com o número de colaboradores do local. Até 200 pessoas, este número é de 2%. Sobe para 3% caso tenha entre 201 e 500 empregados. De 501 a 1.000 funcionários, a cota é de 4%. De 1.001 em diante, são 5%.

“O que é para uma agência contratar um diretor de arte surdo? O que é para uma empresa contratar um planner [estrategista] que é cego, por exemplo? As agências não querem se adaptar à realidade das pessoas”, afirma Castanha.

Se escolhem alguém para estrelar uma campanha, Lorrane Silva, apelidada de Pequena Lo, é uma das favoritas. Com 4,8 milhões de seguidores nas redes sociais, ela foi uma das primeiras influenciadoras com deficiência a ser popularmente reconhecida. Ainda assim, também não viu crescer o número de publicidades nas suas redes sociais no mês passado.

“Apareceram algumas falando sobre o setembro verde, mas não foi um aumento”, diz.

Para Lo, a situação piora quando as empresas tentam incluir, mas não fazem do jeito certo. Veiculam campanhas com termos incorretos, palavras ofensivas e até colocam as pessoas com deficiência em situações constrangedoras.

“Falta muita informação antes para falar sobre um assunto sério. Algumas empresas estão falando só por falar. Tem que ter uma procura, uma pesquisa antes. Sobre os termos principalmente. Pessoas especiais, por exemplo, ainda é bem usado, e não é o correto”, afirma.

Castanha acredita que a representatividade de pessoas com deficiência deve crescer nos próximos anos. De acordo com ela, a publicidade escolhe causas e esta não é a bola da vez. Crê que em um futuro próximo as empresas começarão a responder a essa cobrança, assim como fizeram com as mulheres, pessoas negras e o público LGBTQIA+.

“Por ser uma tendência de mercado, as marcas começam a aumentar a presença em seus anúncios dos grupos da vez, mas as pessoas com deficiência ainda não são a tendência do momento”, explica.

Carta antirracismo sobre morte de George Floyd expõe conflitos em condado branco dos EUA

Superintendente escolar negra da região de Maryland se demite após pressão de pais de alunos
Erica L. Green

Andrea Kane
Andrea Kane em seu último dia como superintendente no condado de Queen Anne – Michael A. McCoy -3.jun.2021/The New York Times

CENTREVILLE (MARYLAND) | THE NEW YORK TIMES – Quando Andrea Kane sentou-se para escrever uma carta aos pais de alunos de seu distrito escolar, dias após a morte de George Floyd em 2020, imagens do negro implorando por sua vida, preso sob o joelho de um policial branco do Minnesota, a assombravam.

Kane, superintendente do distrito escolar, enxergava Floyd nos rostos dos estudantes negros. Quando conversava com seus filhos, ouvia a voz dele chamando por sua mãe. Assim, ela iniciou a carta avisando que não queria apenas transmitir boas notícias, mas também fazer as pessoas encararem a realidade.

Apesar da pandemia, seu distrito escolar na costa leste de Maryland encerrara o ano com motivos de orgulho. Porém, ela escreveu, como o resto do país, a comunidade tinha outra crise para enfrentar. “O racismo está vivo em nosso país, nosso estado, no condado de Queen Anne e em nossas escolas”, redigiu na carta, enviada por email aos pais de todos os 7.700 alunos do distrito.

Suas palavras espelharam as que centenas de outros superintendentes escolares disseram na esteira da morte de Floyd e dos protestos que se seguiram. Muitos dos educadores aproveitaram o ensejo para reafirmar seu compromisso com a justiça racial.

Mas a mensagem transmitida por Kane, primeira superintendente negra das escolas públicas do condado de Queen Anne, mergulharia a comunidade pequena e de maioria branca num turbilhão.

“Assim que apertei ‘enviar’, tudo implodiu”, recorda.

Ao longo do ano passado, os protestos e a reflexão desencadeados pela morte de Floyd reverberaram em distritos escolares de todo o país. Conselhos e Legislativos estaduais debateram como e o que os estudantes devem aprender sobre raça e racismo, desde a história da escravidão e segregação racial até o movimento Black Lives Matter.

A discussão tem enfocado os currículos, desde que ativistas conservadores passaram a tachar uma gama de tópicos, incluindo iniciativas em prol da diversidade, como “teoria racial crítica” —perspectiva acadêmica que encara o racismo como estando entranhado no direito e outras instituições modernas.

Hoje o termo é empregado com frequência para desancar qualquer discussão de raça e racismo nas salas de aula dos EUA, colocando em campos opostos educadores que se sentem na obrigação de ensinar sobre a realidade do racismo e pais e políticos, em sua maioria brancos, que consideram que as escolas estariam forçando alunos brancos a sentir vergonha de sua raça e seu país.

Diretores têm sido ameaçados, assediados ou despedidos, acusados de tentar “doutrinar” alunos, segundo Daniel A. Domenech, presidente da Aasa, a Associação de Superintendentes Escolares.

Pedagogos negros, em especial, têm sentido a oposição como algo pessoal e doloroso. Só 2% dos superintendentes escolares nos EUA são negros, e muitos preveem que essa parcela vai encolher.

“Muitos administradores escolares afro-americanos são injustamente tachados de ativistas e examinados de perto para detectar qualquer atitude que possa ser interpretada como equivocada”, afirma Michael D. McFarland, presidente da Aliança Nacional de Educadores Escolares Negros.

“Especialmente em comunidades de maioria branca, é mais difícil para um superintendente negro fazer o trabalho que foi contratado para fazer, que dirá posicionar-se sobre questões de igualdade e justiça social.”

Andrea Kane refletiu profundamente sobre o custo de guardar silêncio.

Ela sabia que o movimento Black Lives Matter divide opiniões —mesmo na comunidade negra—, mas nem por isso a mensagem era menos verdadeira. “Como eu podia deixar de ajudar os estudantes a entender o significado de um corpo negro sendo destruído na rua?”

Com tudo isso em mente, a superintendente refletiu longamente sobre cada palavra da carta que escreveu em 5 de junho de 2020.

“Quando digo que ‘Vidas Negras Importam’, a ideia não é fazer pouco caso de nenhuma outra raça”, escreveu. “É reconhecer a brutalidade discriminatória e o racismo aberto que é vivenciado apenas pelas pessoas negras na América, entre as quais me incluo.”

UMA FAÍSCA SE ESPALHA NO FACEBOOK

Nos dias seguintes, a caixa de entrada de Kane ficou cheia, principalmente de respostas manifestando apoio e gratidão. Um mês mais tarde, porém, apareceu o email “Ação Urgente Necessária”.

Kane reconheceu o nome da mãe de aluno que a enviara: Gordana Schifanelli. Semanas antes alguém alertara a superintendente para o Kent Island Patriots, grupo no Facebook criado por Schifanelli; seus membros estavam furiosos com a carta da educadora.

Segundo uma captura de tela à qual o NYT teve acesso, em post escrito em 16 de junho, Schifanelli declarou: “A Dra. Kane precisa encerrar seu contrato no condado de Queen Anne e ir embora! As pessoas neste grupo têm que ligar e falar em alto e bom som que a escola precisa continuar a ser apolítica e que a carta dela aos pais promovendo o Black Lives Matter não será tolerada”.

O post prosseguiu: “As crianças precisam saber que os indivíduos que morreram sob custódia da polícia eram criminosos, não heróis! Nossos filhos não serão doutrinados pelas opiniões políticas de ninguém na escola e não devem JAMAIS sentir que sua pele branca os torna culpados de escravismo ou racismo!”.

Quando Schifanelli escreveu diretamente a Kane, em 6 de julho, o grupo no Facebook já contava com 2.000 integrantes.

Em sua carta, Schifanelli disse que perdeu confiança na capacidade de Kane de liderar o distrito. Descrevendo-se como “imigrante neste país”, acrescentou: “Sou um exemplo vivo do próprio sonho americano que a senhora conseguiu macular com suas declarações racistas”.

Kane não recuou.

No cargo ela colhera evidências de racismo sistêmico e declarado no condado conservador e semirrural, onde apenas 6% dos alunos são negros. Sob sua liderança, o distrito começara a analisar dados para investigar as diferenças grandes de aproveitamento escolar entre estudantes negros e brancos. E firmara contratos com empresas que promovem iniciativas em prol da igualdade.

As tensões foram crescendo ao longo do verão, e o grupo Kent Island Patriots fez circular uma petição pedindo a demissão de Kane. Um grupo comunitário chamado Sunday Supper Committe lançou outra, de apoio a ela.

Em agosto, um ato público pró-Kane atraiu mais de cem moradores do condado. A educadora achou que essa manifestação de apoio calaria o furor —até deparar-se com mais posts no Facebook. Um deles descreveu pessoas negras como “animais”. Um meme zombou de negros mortos pela polícia.

Schifanelli se recusou a ser entrevistada para esta reportagem. Em comunicado por email, disse: “Como imigrante que encontrou amor e paz entre pessoas de todas as raças, antecedentes e crenças, acho o ativismo político em escolas públicas repugnante e contrário aos interesses dos alunos em minha comunidade, meu estado e o país”.

Seu marido, o advogado Marc, enviou um post em que ela se dizia chocada com declarações racistas feitas na página do Kent Island Patriots e ameaçava expulsar os membros do grupo que as escreveram.

“Fui uma criança que cresceu em um país comunista [a então Iugoslávia]”, ela disse a um podcast conservador. “Comunistas vieram ao meu colégio, me chamaram para fazer parte da organização marxista deles, e eu não quis ir.”

Ela disse que o movimento Kent Island Patriots está se propagando. “Só queremos a volta do bom senso. Estamos retomando nosso país!”

PAIS LANÇAM ATAQUES ‘DOLOROSOS’

Christine Betley foi uma das primeiras professoras do distrito a manifestar-se publicamente quando tomou conhecimento do clima de discórdia crescente. Enviou uma carta ao conselho escolar apoiando os esforços de Andrea Kane.

Conhecido como porta de entrada para as praias de Maryland, Queen Anne tem relação histórica com a pesca e a agricultura. É um dos últimos redutos conservadores do Maryland: mais de 60% dos eleitores do condado votaram em Donald Trump nas últimas eleições. Mas a vida idílica e tranquila dessa área litorânea tem atraído cada vez mais progressistas.

Betley disse que o que ocorreu no verão passado lhe abriu os olhos. “Há uma profundida disparidade entre estudantes brancos, por um lado, e negros e pardos, do outro, e ela fica oculta.”

Um grupo no Facebook no qual Betley e outros professores ingressaram para trocar informações sobre a pandemia em pouco tempo converteu-se em plataforma para defender Kane e as discussões promovidas por ela.

Em sua página Kent Island Patriots, Schifanelli postou os nomes dos profissionais, acusando os educadores de promover “a lavagem cerebral política de nossos filhos, usando a questão racial para isso”.

O que se seguiu —semanas de assédio online— foi devastador para a professora de 5º ano Gina Crook.

“Vi alguns nomes do grupo e pensei: ‘São pessoas cujos filhos eu amei, orientei e aos quais eu dei o melhor de mim, e agora estão aqui me atacando’”, diz.

No outono de 2020 Schifanelli foi excluída do Facebook. Mais ou menos na mesma época a superintendente foi avisada que os Patriots estavam preparando uma campanha para tentar conquistar três das cinco vagas no conselho escolar em novembro. Um dos nomes de sua chapa de “candidatos patriotas” era Marc Schifanelli.

“Foi nesse momento que percebi que estavam se preparando para uma guerra prolongada, que eu não queria travar e não conseguiria vencer”, diz Kane.

UMA SUPERINTENDENTE COM UMA MISSÃO

Kane nunca falou muito sobre o fato de ser a primeira superintendente escolar negra do condado. Mas preocupava-a a possibilidade de ser a última. “Eu sabia que, como mulher negra, não bastava ser boa no meu trabalho”, explicou. “Eu precisava ser excelente.”

Formada em economia, ela teve uma carreira bem-sucedida como gerente de banco, mas queria fazer o trabalho que amava de fato. Em 1996, foi trabalhar como professora substituta enquanto estudava para obter o certificado de professora.

Depois, foi galgando escalões, passando a diretora escolar e então a superintendente-assistente. Obteve seu doutorado em 2016 e assumiu o cargo mais alto no condado Queen Anne.

Ela nunca foi ingênua a ponto de pensar que seu trabalho seria fácil. No dia em que assinou contrato, em 2017, um membro branco do conselho escolar se recusou a falar com ela.

Foi uma das muitas interações hostis que ela teve. Em janeiro, moveu uma queixa contra o conselho escolar junto à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, detalhando incidentes que remontavam a 2018, dizendo que foi sujeita a um ambiente de trabalho hostil e discriminatório.

Em um dos casos citados na queixa, uma ex-presidente do conselho escolar, uma mulher branca, lhe enviou uma mensagem de texto usando palavrões depois de Kane lhe pedir para marcarem uma hora para estudar documentos. Meses mais tarde, a mesma mulher admitiu ter desfigurado uma foto de uma professora negra exibida na sede do distrito, desenhando chifres, bigode e barbicha na foto.

Richard A. Smith, nomeado para uma vaga no conselho escolar em 2019 e atual presidente da entidade, se negou a comentar a queixa de Kane. Entrevistado, disse que o órgão não tentou derrubar a educadora e descreveu-a como “profissional”, afirmando disse que sua raça é irrelevante.

“Não somos um condado racista e não temos um conselho racista.”

Ele destacou que em agosto de 2020 o conselhou emitiu comunicado manifestando apoio aos esforços de Kane, mas concordou com algumas das críticas feitas a ela e disse que o email da educadora o surpreendeu. “Não sei se aquele foi o momento mais indicado para externar essa posição, em vista de tudo o mais que estava acontecendo, como a Covid. Foi algo que causou muita perturbação.”

‘ME FIZERAM ME SENTIR SUB-HUMANA’

Algumas semanas após o início do ano letivo de 2020-21, a controvérsia estava cobrando seu preço de Andrea Kane. Durante uma reunião tensa do conselho escolar em outubro, na qual os membros tentaram limitar o poder dela de gastar recursos destinados ao combate à Covid, ela abandonou o recinto.

“Percebi naquele momento que ela cortara completamente seus laços com a comunidade”, recordou Crook. “E quem podia culpá-la por isso?”

Dois dias mais tarde Kane tirou licença médica.

Até hoje ela tem dificuldade em descrever o estado mental e físico em que ficou na época. Não conseguia dormir. Ficava assustada quando ia ao posto de combustível ou ao mercado. Temendo por sua segurança, foi viver fora do condado.

“Nem me fale em vulnerável —eles me fizeram me sentir sub-humana”, falou, referindo-se ao conselho escolar e os Kent Island Patriots. “Me deixaram completamente exposta, nua.”

Quando retornou ao trabalho, em dezembro, a chapa dos Patriots vencera a eleição e controlava o conselho escolar. Marc Schifanelli seria eleito vice-presidente.

Andrea Kane
Andrea Kane no seu último dia como superintendente de escolas em Queen Anne – Michael A. McCoy -3.jun.2021/The New York Times

Kane anunciou que ia deixar o distrito, e a busca por um novo superintendente começou.

“Não existe racismo sistêmico contra ninguém em nossas escolas públicas”, disse Gordana Schifanelli em entrevista à Fox News, “e não podemos inventar um racismo só porque essa é a moda política do momento.”

Imediatamente após sua participação na emissora, mensagens de ódio começaram a chegar à caixa de entrada de Kane, de perto e de locais afastados como o Kansas.

Nas semanas seguintes, ela assistiu à plataforma do Kent Island Patriots ir lentamente transformando as políticas do distrito escolar.

Numa reunião do conselho em maio, Marc Schifanelli conseguiu votos suficientes para eliminar um livro do currículo do ensino médio porque a bobra adotava tom favorável a um garoto cujo pai estava ameaçado de deportação. “Eles queriam eliminar tudo exceto a experiência branca”, diz Kane. “E foi o que fizeram.”

LÁGRIMAS E TROVOADAS

Um dia em junho, quase exatamente um ano depois de Kane ter escrito o email, sua voz elevou-se acima do som de trovoadas quando ela discursou para uma multidão diante do Centro Kennard do Patrimônio Cultural Afro-americano.

Um dos primeiros eventos promovidos no local tinha sido o de dar as boas-vindas a Andrea Kane. Naquele dia, ela estava se despedindo. “Há um barulho lá fora, e é um barulho perverso”, disse Kane ao grupo. “Deem tempo a ele: o mal vai consumir a si próprio. Sempre que deixamos os alunos exprimir quem são e sempre que lhes damos exemplos do que é certo, não erramos.”

Apesar das dificuldades que Kane enfrentou, foi enquanto ela comandou o distrito escolar que este teve sua primeira escola a receber o título nacional Blue Ribbon, conservando seu ranking de primeiro lugar em índices de formação de alunos, e ofereceu seu primeiro curso de estudos afro-americanos.

Conheça Mariane Ibrahim: a galerista determinada a levar diversidade para o mundo da arte em Paris

A artista acaba de inaugurar sua nova galeria na cidade-luz e tem como objetivo abrir espaço para artes que possam ser vistas por um público mais amplo
BRUNA MARTINS | FOTOS: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM @MARIANEIBRAHIMGALLERY

Conheça Mariane Ibrahim, galerista negra determinada a diversificar o mundo da arte em Paris (Foto: Reprodução/Instagram @marianeibrahimgallery)

Levar diversidade para o mundo das artes de Paris. Esse é o objetivo de Mariane Ibrahim, galerista negra que acaba de criar seu espaço de exposições na capital francesa próximo a grandes nomes da arte, como Almine Rech e Emmanuel Perrotin.

De origem franco-somaliana, Ibrahim já possui galerias com seu nome nas cidades de Seattle e Chicago, nos Estados Unidos, e agora chega para ocupar de vez seu espaço na cidade-luz. Na verdade, trata-se de um retorno: a artista viveu por lá antes de partir para a América do Norte há mais de 10 anos.

A nova galeria em Paris possui quase 400 metros quadrados distribuídos entre três níveis, atrás de uma porta discreta na famosa avenida Matignon. O interior, diferente do que se espera por quem observa a fachada, é grande, fluido e aberto.

Conheça Mariane Ibrahim, galerista negra determinada a diversificar o mundo da arte em Paris (Foto: Reprodução/Instagram @marianeibrahimgallery)
Conheça Mariane Ibrahim, galerista negra determinada a diversificar o mundo da arte em Paris (Foto: Reprodução/Instagram @marianeibrahimgallery)

A exposição inaugural, chamada J’ai deux amours, homenageia a famosa música da artista norte-americana Joséphine Baker. Morta em 1965, Baker se tornou símbolo da resistência francesa contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, além de figura história da luta antirracista. Recentemente, o governo francês anunciou que a artista será a primeira mulher negra a entrar no Panteão de Paris.

Conheça Mariane Ibrahim, galerista negra determinada a diversificar o mundo da arte em Paris (Foto: Reprodução/Instagram @marianeibrahimgallery)

Em entrevista ao site Architectural Digest, Ibrahim afirmou que sua missão sempre foi abrir suas portas pra um público mais amplo, fazendo com que jovens de todo o mundo possam conhecer seus espaços, as obras expostas e voltar para casa com esperança e inspiração. Ela acredita que Paris está prestes a se tornar uma grande força na luta para tornar as artes mais diversificadas.

Por que dezenas de mulheres esportistas estão falando sobre o direito ao aborto

Atletas apresentam petição à Suprema Corte dos EUA, que vai julgar caso ligado ao tema
Kurt Streeter

Ex-nadadora Crissy Perham, favorável ao direito ao aborto
A ex-nadadora Crissy Perham defende o direito ao aborto – Adria Malcolm/The New York Times

NOVA YORK | THE NEW YORK TIMES – Crissy Perham jamais tinha falado em público sobre a sua escolha.

Em 31 anos, Perham, ganhadora de três medalhas olímpicas, só tinha contado a algumas poucas pessoas como havia sido difícil engravidar quando ainda estava no segundo ano da universidade e decidir fazer um aborto.

Ela manteve o silêncio sobre a liberdade e a segunda chance que a decisão de encerrar sua gestação lhe propiciou, manteve o silêncio sobre como isso abriu caminho para sua carreira na natação e para o sucesso que ela encontrou depois que seus dias no esporte chegaram ao fim.

Mas agora ela sente que falar é uma obrigação.

“Tenho 51 anos. E a esta altura eu não deveria me sentir embaraçada sobre uma decisão que tomei pelo bem de minha saúde reprodutiva”, disse Perham. Segundo ela, ninguém mais deveria se sentir envergonhada e embaraçada ao contar histórias parecidas, como frequentemente acontece. “Especialmente quando existe tanta coisa em jogo.”

​Perham foi uma das mais de 500 mulheres esportistas que apresentaram uma petição surpreendente à Suprema Corte dos Estados Unidos na semana passada, em uma demonstração audaciosa de apoio aos direitos reprodutivos quanto a um caso pendente que pode reverter a decisão do mais alto tribunal do país no caso Roe x. Wade, que legalizou o aborto em todos os estados americanos 48 anos atrás.

Uma versão resumida da história de Perham, muito direta e honesta, é contada como parte da petição, que recebeu a adesão de um amplo elenco de atletas –entre as quais muitas atletas universitárias menos conhecidas, atletas olímpicas atuais e do passado, estrelas conhecidas do esporte, como Megan Rapinoe e Sue Bird, e o sindicato das jogadoras da WNBA.

A afirmação primária da petição? Se as mulheres não tiverem o aborto como opção, suas vidas poderão ser prejudicadas e elas não prosperarão no esporte no nível que nos acostumamos a ver – como provaram recentemente os Jogos Olímpicos de Tóquio, os playoffs da WNBA e o Aberto dos Estados Unidos de tênis, em Nova York.

Que uma mulher tenha a capacidade de dizer quando ou se deseja se tornar mãe está diretamente conectado a um ingrediente chave que alimentou o sucesso das mulheres no esporte de alto nível: a capacidade de controlar, condicionar e conduzir o corpo ao seu limite, sem pausas de meses ou anos de duração. E sem as mudanças físicas, às vezes permanentes, que uma gestação pode causar.

Em diversas conversas para esta reportagem, Perham se estendeu mais sobre sua história e se abriu com um jornalista pela primeira vez quanto à difícil decisão que tomou quando era uma nadadora de 19 anos de idade na Universidade do Arizona.

Ela falou sobre as ondas de medo brutal que sentiu quando a pílula anticoncepcional que usava falhou. Lembra-se de ter compreendido que não era madura o suficiente para criar um filho e que tampouco teria os meios para isso. Perham sabia, lá no fundo, que ter um filho tiraria dos trilhos os sonhos atléticos que a definiam havia anos.

Algumas mulheres atletas conseguem ter filhos e se manter nos escalões mais altos do esporte. Isso é excelente. Mas considere o outro lado: a forma pela qual optar por não ser mãe, às vezes por meio do aborto, permite que as atletas se mantenham concentradas no esporte e que preservem o equilíbrio em suas vidas.

A jogadora de futbeol Megan Rapinoe é uma das esportistas que assinam a petição enviada à Suprema Corte dos Estados Unidos – Christian Hartmann – 30.jul.21/Reuters

Por toda espécie de motivo, talvez o maior dos quais seja a vergonha social, é raro que atletas mulheres que decidiram encerrar suas gestações falem a respeito dessa escolha.

Perham falou sobre dirigir sozinha no carro pelas ruas de Tucson, em uma manhã de janeiro de 1990, para ir a uma clínica da Planned Parenthood, e de ser recebida por uma equipe médica acolhedora e respeitosa, que executou o aborto com cuidado.

“Ao pôr fim na minha gravidez, tomei uma decisão sobre a direção em que minha vida deveria seguir”, disse. “Outra pessoa poderia ter decidido tomar caminho diferente, e isso é completamente normal. Mas aquela foi a melhor decisão para mim.”

Passar por aquela crise a ajudou a amadurecer, diz ela, e manter um foco ainda mais firme nas aulas e na piscina. Sete meses depois, ela venceu o campeonato de natação dos Estados Unidos na categoria 100 metros borboleta. Em seguida, conquistou dois títulos universitários nacionais na mesma prova.

No ano seguinte, venceu de novo o campeonato nacional. Perham diz que deixou de ser uma atleta “em que pessoa nenhuma apostava como parte da equipe nacional” e se tornou uma das melhores nadadoras do planeta.

Nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, pouco depois de seu primeiro casamento e competindo com o nome Crissy Ahmann-Leighon, ela foi capitã da equipe feminina de natação dos Estados Unidos e conquistou duas medalhas de ouro em provas de revezamento e uma de prata nos 100 metros borboleta.

Medalhas da ex-nadadora Crissy Perham, favorável ao direito ao aborto
As medalhas obtidas por Crissy Perham nos Jogos de 1992 – Adria Malcolm/The New York Times

Agora, rememorando aquele período com o benefício da experiência, Perham não consegue imaginar que as partes boas de sua vida teriam acontecido se ela tivesse se tornado mãe aos 19 anos –não só sua carreira nas piscinas mas seu segundo casamento, bem-sucedido, seus empregos como treinadora escolar de natação e seu papel como mãe de dois rapazes que já passaram dos 20 anos.

A vida que ela conhece, a vida que ela ama, foi produto daquela decisão, disse Perham. “Isso não é incomum”, afirmou, acrescentando que muitas atletas têm histórias semelhantes.

Em maio, a Suprema Corte anunciou que julgaria um recurso do Mississipi contra a decisão de uma instância inferior que bloqueou a lei estadual que proíbe o aborto depois da 15ª semana de gestação.

Na decisão do caso Roe, a Suprema Corte legalizou o aborto até o momento de viabilidade fetal, que em geral acontece por volta da 25ª semana de gestação. A decisão reconheceu que decidir se uma gestação deve ou não ser continuada, o que afeta o bem-estar e o futuro de uma mulher, é uma questão de escolha individual.

Os ativistas pelo direito ao aborto acreditam que, se os juízes decidirem em favor da proibição imposta por Mississipi, os direitos conferidos no caso Roe serão severamente restringidos. Não se sabe ao exatamente a proporção das mulheres no esporte se opõem ao direito de aborto, mas uma coisa é certa: a ameaça a ele incomodou e mobilizou muitas esportistas que querem vê-lo protegido.

A petição de 73 páginas, uma das dezenas encaminhadas à corte por partes interessadas no processo, tem por objetivo expressar apoio ao direito de escolher. Submetida na semana passada pelo influente escritório de advocacia Boies Schiller Flexner, a petição representa mais um sinal do avanço acelerado no poder das atletas.

Estimuladas a se pronunciar sobre questões que vão bem além do esporte, elas estão formando novas alianças. Perham, por exemplo, foi informada sobre a petição duas semanas atrás pela ativista Casey Legler, ex-nadadora olímpica que se tornou jornalista e proprietária de restaurantes em Nova York.

“Foi como se existisse toda essa rede de base que nem sabíamos que estava lá”, disse Legler. “Tínhamos nadadoras ligando para jogadoras de futebol, que ligavam para os seus agentes, que ligavam para a jogadora de basquete cuja namorada faz saltos ornamentais e conhece alguém que jogava hóquei. Todas sabemos o que está em jogo”, acrescentou.

Em 1º de dezembro, a Suprema Corte deverá ouvir as partes envolvidas no caso de Mississipi, e a decisão poderá sair no começo do terceiro trimestre de 2022.

Não importa o que venha a acontecer –e, dadas a maioria conservadora no tribunal e a presença de dois juízes cujos votos variam, existe ansiedade dos dois lados quanto à decisão–, mais de 500 mulheres do esporte deixaram sua opinião bem clara.

Tradução de Paulo Migliacci

Rayssa Leal revela planos de ganhar o mundial e competir nas Olímpiadas de Paris

Em sua primeira capa de revista, Rayssa Leal, medalha de prata nas Olimpíadas de Tóquio, mostra porque aos 13 anos é uma das grandes estrelas do esporte. A “Fadinha do skate”, como é conhecida depois de ter um vídeo viralizado enquanto fazia manobras, já é, há um bom tempo, uma das líderes do ranking mundial. E sua trajetória está apenas começando
LAURA ANCONA LOPEZ

Rayssa Leal durante o shooting para a capa de Marie Claire (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

Foi em 2015, menos de um ano antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, que Lilian Mendes Rodrigues Leal postou no YouTube o vídeo de sua filha Rayssa, então com 7 anos, arriscando um heelflip em uma calçada de Imperatriz, no Maranhão, onde a família vive. A menina havia acabado de deixar um desfile em homenagem à Independência do Brasil, no 7 de setembro, e tentava executar a manobra de grande dificuldade, que consiste em levantar o skate do chão com os pés, dar um giro inteiro para o lado, e cair perfeitamente em cima dele novamente. Nas duas primeiras vezes, Rayssa não se equilibrou. Na terceira, vestiu as asas de sua fantasia de fadinha e executou a manobra com maestria. Orgulhosa do desempenho da pequena, Lilian decidiu dividir aquele momento na plataforma de vídeos, e foi dormir. Não é exagero dizer que, ao acordar, a vida de Rayssa – e da família Leal como um todo – nunca mais foi a mesma.

“Quando acordei, estava lá o tuíte dele”, me conta Rayssa pela tela do Zoom, enquanto toma um sorvete – ela havia acabado de sair da aula online. Quando pergunto: “Tuíte de quem?”, responde: “Do Tony, ué!”, enquanto dá mais uma lambida em seu sorvete. Rayssa refere-se a uma das maiores lendas do skate, o estadunidense Tony Hawk, a quem hoje chama carinhosamente de “Tonynho”. Em sua conta no Instagram, ele reproduziu o vídeo do 7 de setembro, com a legenda: “Não conheço nada sobre ela [Rayssa], mas isso é incrível: um verdadeiro conto de fadas de heelflip no Brasil”. Foi o que bastou para que a “Fadinha do skate” ficasse conhecida mundo afora. Curioso é que a própria Rayssa não liga muito para o apelido. “Sabia que não gosto tanto dele?”, conta, dando risada. “Tá bom, não é que não gosto, mas quero ser conhecida pelo meu nome. Eu sou a Rayssa Leal. Só que agora já era, né? Então, estou me acostumando, é divertido me chamarem de Fadinha. Mas meu nome é Rayssa!”

Sobre isso, certamente Rayssa não tem com o que se preocupar. Dias antes de nossa entrevista, eu e ela nos encontramos pessoalmente para a sessão de fotos deste editorial e da capa de Marie Claire. Quando chegamos à locação, uma pista de skate street, modalidade que pratica, em um parque na Zona Norte de São Paulo, a recepção foi digna da medalhista olímpica que é. Centenas de crianças, adolescentes e praticantes de skate se reuniram para vê-la – a notícia correu como uma fagulha em um palheiro, e a equipe de segurança do parque precisou atender ao chamado da produção, tamanha a quantidade de gente. Todos queriam ver “a Rayssa!”. O tempo era escasso e tínhamos muito o que fazer, então pedimos aos fãs que aguardassem o fim do shooting para fazerem fotos e pedirem autógrafos. A própria Rayssa prometeu atendê-los ao final da sessão, e assim o fez: só foi embora depois que conseguiu dar atenção a todos.
Pequenina – ela tem apenas 1,47 metro e pesa 35 quilos –, a garota parece ter zero deslumbre com o momento que vive. Afinal, está onde sempre quis e sonhou. Desde que o tuíte de Tony viralizou (hoje os dois são próximos e ele é uma espécie de conselheiro da menina), as coisas começaram a acontecer para ela. Depois de uma reportagem do Esporte Espetacular em que conheceu sua ídola, Letícia Bufoni – campeã mundial de skate em 2015 e uma grande amiga hoje –, começou a amealhar patrocinadores e acumular campeonatos. Na estrada desde cedo, lembra com orgulho do primeiro de que participou, em que a família juntou recursos com uma rifa para poder viajar. “Tinha só 6 anos e ganhei. Só que a rifa só dava para a viagem de ida. Para voltar, pedimos ajuda para um pessoal que vendia os lanches nos food trucks. Foram dois dias inteiros para conseguir voltar de ônibus, paramos em Brasília no meio do caminho”, lembra. A mãe, Lilian, que hoje é sua treinadora e a acompanhou em Tóquio, trabalhava como caixa em um mercado. O pai, Haroldo, era vidraceiro.
 

Foi a partir dessa vitória que a família de Rayssa – não só os pais – começou a acreditar que a menina poderia levar adiante a vida de atleta. “Eles começaram a mudar a mente para eu poder andar, né?” Ninguém da família praticava skate antes de Rayssa. Um amigo de seu pai, Matheus, foi quem a introduziu na prática. “Ele gostava muito de esportes radicais, patins, patinete, skate”, lembra. “Um dia apareceu em cima de um skate, olhei pra aquilo e disse: ‘Preciso subir, preciso tentar’. O Matheus pediu pra eu ir com cuidado, que era difícil. Eu disse: ‘Não, relaxa’. Subi e saí andando. Ele me perguntou: ‘Você já tinha subido num skate alguma vez?’, e eu: ‘Nunca vi um antes na vida’. Foi amor à primeira vista, mesmo.” Ao perceber o interesse da filha, o pai disse que daria um skate para ela, se conseguisse descer uma rampa em uma pista em que Matheus a levou. “Fui lá e desci. Foi no meu aniversário, ganhei um skate novinho! A partir daí, comecei a andar, andar, andar e evoluir”. O treino era todo feito com base em vídeos de profissionais no YouTube que Rayssa tentava copiar – muitos de Letícia, entre eles.
 

Rayssa Leal (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))
Rayssa Leal  e seu skate: “Foi amor à primeira vista”, diz ela  (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

Amigas, sim
O clima de sororidade entre as atletas do skate nas Olimpíadas de Tóquio chamou a atenção do mundo – não por menos, Rayssa levou o prêmio do COI (Comitê Olímpico Internacional) por melhor representar o espírito olímpico em 2021. Nas pistas de street e park, cada atleta (muitas delas, menores de idade) dava o seu melhor e ficava frustrada se não conseguia executar uma boa volta. Do lado de fora, torciam genuinamente umas pelas outras e consolavam as colegas que não conseguiam nota suficiente para chegar às finais. Além de Letícia, Rayssa é particularmente próxima da inglesa Sky Brown, também de 13 anos, e uma das melhores atletas do mundo na categoria park. Com acompanhamento terapêutico da CBSk (Confederação Brasileira de Skate) durante os campeonatos, Rayssa não cansa de repetir que o que quer de verdade é se divertir. “Dificuldade sempre vai ter, já passei por várias, mas, se eu colocar um sorriso no rosto, me esforçar e me divertir fazendo uma coisa que amo, vai passar rapidão”, diz, enquanto termina seu sorvete.

Apesar da tenra idade – ela completa 14 anos em 4 de janeiro –, diz ter muitos planos para o futuro próximo, mas não só. “O que quero mesmo, de verdade, é poder incentivar as meninas a começarem a andar de skate no Brasil todo”, diz. “Quero mudar a mente das pessoas que acham que skate é coisa só de homem. Você acredita que tem um monte de gente que ainda pensa isso?”, me pergunta, incrédula. E as ambições de Rayssa continuam: “Também quero poder pegar um troféu da Super Coroa do Mundial. Ganhar o Mundial mesmo, sabe? Porque o que ganhei agora foi ‘só’ uma etapa. Vou focar muito para poder competir direito. Quero estar 100%, dar o melhor que tenho e me divertir bastante para ganhar esse troféu tão importante”. Os próximos Jogos Olímpicos também fazem parte da meta. “Quero ir pras Olimpíadas de Paris também, dessa vez com meus dois pais [devido à pandemia de covid-19, só Lilian pôde acompanhá-la]. Meu pai já está até estudando francês!”, conta, aos risos.
Nos planos de Rayssa, por enquanto, só não está uma mudança imediata para a Califórnia, nos Estados Unidos, a meca do skate, onde mora boa parte dos atletas de alto rendimento (como a própria Letícia). “Tenho o sonho de terminar o ensino médio na minha escola em Imperatriz. Eles sempre me apoiaram e incentivaram”, diz. “Foi a primeira escola particular que me abriu as portas, antes estudava em uma municipal. Pretendo, do fundo do meu coração, terminar de estudar ali. Meu pai quer que a gente vá para a Califórnia, mas já disse que antes quero finalizar o ensino médio lá, vai ser importante pra mim.” Uma menina que sabe exatamente o que quer e que faz tudo que está ao seu alcance para merecer. Que grande garota é Rayssa Leal.
 

Rayssa Leal (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))
Rayssa Leal: nos planos da menina estão ganhar o mundial de skate e as Olímpiadas de Paris (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

Campanha da Nike reforça importância do top ideal para diferentes mulheres

Projeto complementa outras iniciativas da marca de se conectar com as mulheres e ajudá-las na busca pelo top perfeito e no incentivo ao esporte
Soraia Alves

Imagem: Divulgação/Nike

Para inspirar as mulheres a partir de histórias reais e ajudar na escolha do top esportivo ideal para o seu corpo, a Nike preparou um hub de conteúdo especial na loja Nike.com, com a participação de Rafa Brites (apresentadora), Nicolle Merhy (gamer), Bia Ferreira (boxeadora), Alice Yuri (corredora), Mayara Rosa (dançarina do grupo Turmalinas Negras), Letticia Munniz (modelo, body activist e apresentadora), Aisha Mbikila (modelo e DJ) e Thawany Peroli (curadora e DJ). O projeto complementa outras iniciativas da marca de se conectar cada vez mais com as mulheres e ajudá-las na busca pelo top perfeito e no incentivo ao esporte.

Grávida do segundo filho, Rafa Brites ressalta a importância da prática esportiva em sua vida: “Eu amo praticar exercícios. Para mim, representa saúde mental, autoestima, disposição e também é uma fonte de prazer. A sobrecarga que as mulheres acumulam por causa de vários motivos impostos pela sociedade fazem do esporte um momento de autocuidado e prazer, quase como um ato político em que a mulher se volta para o seu bem-estar, se apropriando da sua história e do seu corpo. Agora que estou grávida, quando uso o top ideal, me sinto segura e é uma peça indispensável para o meu bem-estar”.

Segundo a Nike, a partir de relatos como esse será possível compreender a experiência de cada uma das protagonistas na busca pelo top esportivo perfeito para a atividade que praticam – yoga, corrida, dança, boxe, entre outros. Além disso, as consumidoras poderão aprender detalhadamente sobre a importância do modelo correto para cada corpo, sabendo que a procura pelo top é também uma jornada de autoconhecimento e autocuidado.

Divulgação/Nike

O hub, desenvolvido em parceria com a agência live, contará com diversos conteúdos exclusivos – fotos, vídeos, quiz e ilustrações – que serão divididos em três pilares: inspiração, educação, e tecnologia de produtos para guiar as mulheres nessa jornada pelo top mais adequado. A conversa ainda continua nas redes sociais das próprias influenciadoras convidadas, que produzirão conteúdos sobre o tema.

“As mulheres, em geral, são desencorajadas a praticarem esportes ainda muito novas por diversos fatores, inclusive, pelo desconforto de não encontrarem um top que as façam se sentir seguras. Foi pensando nisso que criamos um hub de conteúdo didático e trouxemos a trajetória de cada uma dessas mulheres para que a nossa consumidora todo suporte na escolha do seu top. Nossos novos produtos resgatam a autoconfiança e fomentam mudanças positivas para o esporte feminino, já que oferecem ainda mais tecnologias para atender mulheres de diferentes corpos e que pratiquem atividades físicas diversas”, afirma Aline Cupido, gerente de marca para mulheres da FISIA, Distribuidora Oficial Nike no Brasil.

Seguindo o objetivo de proporcionar mais suporte e liberdade de movimentos durante a prática esportiva, os últimos tops da Nike foram criados a partir de tecnologias únicas desenvolvidas pela empresa: a compressão e o encapsulamento. A compressão envolve os seios por um tecido super macio e leve, que pressiona os seios contra o corpo, resultando em um balanço mínimo durante a atividade. O encapsulamento consiste em bojos individuais que mantém os seios isolados como se estivessem em “cápsulas”, proporcionando pouco espaço para distrações. Além disso, os tops esportivos atendem todos os tipos de seios e corpos e podem ser encontrados em três tipos de suporte: leve, médio ou alto.

Divulgação/Nike

A Tecnologia Zip Front, último lançamento da marca, foi desenvolvida a partir dos insights das atletas que buscavam um top esportivo que fosse mais adequado à sua necessidade, confortável e fácil de vestir, principalmente quando estivessem suadas. O modelo conta com um zíper frontal que facilita o modo de colocá-lo, além de contar com a tecnologia Dri-FIT, que afasta o suor da pele para o lado externo do top auxiliando na rápida evaporação, e com bojos removíveis. Na parte de trás, o top possui uma tela ventilada que auxilia na transpiração do corpo. Parte da jornada da Nike em rumo a zero emissão de carbono e zero desperdício, os modelos foram produzidos com pelo menos 70% de material reciclado. Esta tecnologia Zip Front está presente em 3 modelos de Tops: Indy, Swoosh e Shape, atendendo aos três tipos de suporte.

Os Tops já estão disponíveis na loja virtual da Nike e em revendedores selecionados. Os modelos variam entre R$ 219,99 a R$ 229,99.

Princesa Isabel: A aristocrata dona de escravos que ‘apenas assinou’ a Lei do Ventre Livre

Princesa Isabel, filha do imperador Dom Pedro II | Reprodução

Uma aristocrata sem interesse na política e desconectada da causa abolicionista. Assim a Princesa Isabel é descrita em “O castelo de papel: Uma história de Isabel de Bragança” (editora Rocco, 2013), da pesquisadora e professora Mary del Priore. No livro, a autora conta que a filha do então imperador Dom Pedro II não tinha nenhum envolvimento com a luta contra a escravidão e apenas assinou a Lei do Ventre Livre, que está completando 150 anos nesta terça-feira.

Segundo a historiadora, Isabel era dona de negros escravizados e nem sequer participou dos debates que levaram ao ato promulgado em 28 de setembro de 1971. Ela só assinou a Lei do Ventre Livre porque seu pai estava em viagem pela Europa, assim como ocorreu 17 anos depois, quando Isabel firmou a Lei Áurea, “abolindo” a escravidão no Brasil. Ambos os atos foram precedidos por muita luta de ativistas negros e brancos abolicionistas. Mas a princesa pouco atuou nesse sentido. 

Diz a Lei do Ventre Livre que: “Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre”. No aniversário de 150 anos de sua promulgação, o termo “Princesa Isabel” vem sendo intensamente buscado no Google. Para ajudar a contextualizar a discussão, o Blog do Acervo resgata, na íntegra, uma entrevista publicada originalmente em 2013, na qual Mary del Priore conta sobre sua pesquisa e esclarece quem foi a integrante da família real que, ao longo da História, teve o nome associado ao fim do sistema escravagista no Brasil. Leia abaixo:

Princesa Isabel ao piano do Palácio das Laranjeiras | Reprodução

FORMAÇÃO. “Sim, ela teve aquele excesso de aulas, de latim à religião, passando por geografia e tantas outras coisas. Mas, como a própria condessa de Barral escreve, ela raramente termina as aulas, alegava sempre uma dor de dente, uma dor de barriga, mostrando que o aproveitamento de todas essas aulas não era tão grande assim e acabou por não se traduzir em um conhecimento consistente. Quando chega a Pernambuco, ela escreve para o pai: ‘O que foi mesmo que aconteceu em Pernambuco?’ Ela não tinha disposição, e seu preparo era inócuo.

DONA DE CASA. “Fica bem demonstrado, por meio de vários documentos e frases dela, que detestava a vida política. Havia uma incompatibilidade com o projeto que lhe atribuíam. Não achei nenhuma frase dela que demonstrasse qualquer interesse pelo assunto. Estava mais preocupada com a vida familiar, as gravidezes.”

INCENTIVO DO IMPERADOR. “Além de todas essas questões, o próprio dom Pedro II não a aproximou da vida política, não a incentivou. Então, ela tinha uma vida social muito privada, ficava muito tempo em Petrópolis, às voltas, primeiro, com as questões da sua esterilidade e, depois, com a criação dos filhos e as viagens para a Europa. Não tem exatamente um círculo de amizades. O casal não tem visibilidade, não vai ao espaço público.”

ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE. “Foi um casamento arranjado, mas eles se gostaram muito, foram muito amigos. Ninguém queria casar com aquelas princesas pobres, de um império sem projeção. E o Brasil era completamente desconhecido. A única coisa que sabiam sobre os brasileiros era que eram escuros e gostavam de cuspir no cão. Gastão, por sua vez, era hostilizado por outros oficiais por ser primo do rei da Espanha. Ele também, de certa forma, era um príncipe pobre, sem muita oportunidade. Então considerou bom o arranjo. Ela, como toda mulher do século XIX, mostrou-se logo apaixonada. Ele foi muito lúcido, chegou a dizer que ela era muito feia e não tinha sobrancelhas, mas que a situação toda era boa para ele. No fim, ele acaba gostando muito dela. Eles foram muito felizes. Um casal que se queria bem e que ficou junto até o final. Foram muito companheiros até o fim da vida.”

 RELIGIOSIDADE. “Preparada por uma mãe piedosa e uma aia (a condessa de Barral) que também vai se tornando piedosa, ela era uma católica praticante, que regularmente organizava festas na igreja. Mas a perda da irmã e a perda da primeira filha são eventos muito dramáticos, que vão empurrá-la cada vez mais para os braços da igreja. Ela espera milagres o tempo todo. Quando engravida, atribui isso a uma visita a um lugar de peregrinação. Sua vida vai se tornando, cada vez mais, a de uma católica beata.”

FILANTROPIA. “Não vejo muita originalidade. A filantropia, na Europa, era uma prática das elites, voltada, sobretudo para pacificar as chamadas classes perigosas. Naquela época, os sindicatos eram fortes, o Partido Comunista se fortalecia. E havia um movimento grande no sentido de enfraquecer uma eventual tentativa mais forte de luta de classes. Era um modismo, um modismo europeu, e acho que a Abolição entra nesse mesmo pacote.”

BEATIFICAÇÃO. “Em uma de suas regências, ocorreu a maior seca do Nordeste, um momento dramático. E ela passa por isso como gato por brasa. Menciona numa carta que é um desígnio de Deus, que nada podemos fazer. E ainda teve o episódio dos filhos de Leopoldina (a irmã que morreu), que acabaram esquecidos. Acho que essa ideia da beatificação não se justifica.”

ESCRAVOS. “Ela tinha escravos, escravos que sequer tinham rosto, que ela registra em seus escritos como ‘negrinha’, ‘escravo de quarto’, ‘negros’ ou ‘pretos’. Não é uma pessoa que tivesse um envolvimento direto com a questão. Não participou dos debates na época da Lei do Ventre Livre. Por isso, digo com todas as letras: é um abolicionismo muito epidérmico. Ela sequer participa dos debates, só assina a lei.”

ESCRAVIDÃO NO BRASIL. “Havia escravos ainda no Norte Fluminense, no sul de Minas e no Vale do Paraíba. No resto do Brasil, não havia mais escravidão. O Nordeste todo, com a crise da cana-de-açúcar, havia feito com que os senhores de engenho vendessem seus escravos para o Sudeste. Já não havia praticamente escravos no país. Eram, ao todo, uns 600 mil, um número baixo.”

ABOLIÇÃO. “Eu diria que ela surfou nessa onda, que nasce em 1870; essa onda da formação da imprensa reformista, do partido republicano e da resistência cada vez maior à existência dos escravos. Há ainda o aparecimento de grandes figuras, grandes abolicionistas, todo um movimento que vai empurrando, por assim dizer, a Abolição. Ela teve inúmeras oportunidades de se manifestar. Em Recife, foi recebida por um monte de abolicionistas, inclusive mulheres; era um movimento que poderia ter esposado ou, ao menos, demonstrado simpatia. O primeiro gesto dela em direção ao movimento é de 1878, em Petrópolis. É a batalha de flores que ela organiza. Foi um único passeio, com um carro todo decorado, uma ideia que ela trouxe da França. Sai do palácio, com o carro todo enfeitado. Cai uma chuvarada, os meninos começam a espirrar, e ela volta correndo. Ou seja, um primeiro gesto abortado. Depois disso, ela organiza dois bailes. E só.”

LEI ÁUREA. “É importante que se diga que (a Abolição) foi um processo, que começou por volta de 1870. Foi uma longa luta, que envolveu escravizados, descendentes de escravizados, a mudança da mentalidade em todo o país. Nada disso se faz da noite para o dia, é um acúmulo de tendências que levou à assinatura de papel. E havia várias correntes. A conservadora, por exemplo, achava que apenas com Lei do Ventre Livre a escravidão se esgotaria, como havia ocorrido em Portugal. Havia os abolicionistas radicais, em sua maioria paulistas, que já trabalhavam com imigrantes nas plantações de café. E ainda outros.