Site reúne perfis das 50 mulheres pioneiras na arquitetura americana

Nova iniciativa quer trazer visibilidade ao trabalho de arquitetas nos Estados Unidos
Por Giovanna Maradei I Fotos: Divulgação

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Ray Kaiser Eames (Foto: Divulgação)

São muitas as reivindicações dos movimentos feministas atuais.  O pagamento de salários iguais é um deles, o direito sobre o próprio corpo é outro, e por aí vai. Uma reivindicação, no entanto, parece estar no fundo de todas as outras. É a busca pelo reconhecimento da história, vivida e escrita pelas mulheres. Uma dívida que a cada dia fica mais cara, mas que começa a ser revertida por iniciativas como a Pioneering Women of American Architecture, tema da primeira reportagens da coluna Feito por Elas de 2018!

Criado pela Beverly Willis Architecture Foundation, o site lançado em dezembro de 2017, elege as 50 mulheres pioneiras na arquitetura norte-americana. A plataforma reúne informações sobre a carreira e o trabalho de profissionais de peso, todas nascidas antes dos anos 1940 e com duas características em comum: um trabalho de extrema relevância para a história da arquitetura nos EUA e um assustador anonimato.

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Norma Merrick Sklarek: primeira mulher afro-americana a receber a licença de arquiteta pela Universidade de Columbia e a tornar-se membro do Instituto Americano de Arquitetos (AIA).
Quando se formou, nenhuma firma de arquitetura quis contratá-la, levando Norma a trabalhar no Departamento de Serviços Públicos de Nova Iorque. Só foi possível exercer sua profissão 4 anos mais tarde, quando conseguiu um emprego fixo em um escritório de arquitetura. Após sair da firma, abriu seu próprio escritório em conjunto com mais duas arquitetas: “Siegel, Sklarek, Diamond”. Ela viveu até 2012.

O grupo de pesquisa, definido pelo próprio site como “um dos maiores a se dedicar exclusivamente às contribuições das mulheres para os EUA”, incluiu um júri de historiadores da arquitetura, que se responsabilizou pela escolha dos nomes, além de autores selecionados a dedo para mergulhar na história de cada uma dessas mulheres e traçar seus perfis independentes.

Para além da relevância histórica, o projeto se destaca por, indiretamente, deixar evidente duras consequências do machismo na sociedade, como a profunda ausência de nomes femininos nos registros históricos e a subvalorização do trabalho feminino, uma vez que profissionais com muitos louros e perfis bastante diversos, quando conhecidas pelo público, costumam ter sua obra reduzida a pequenas colaborações ao trabalho de seus renomados maridos (ou outros grandes profissionais homens).

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Marion Mahony Griffin (Foto: Divulgação)

É o caso, por exemplo, de Ray Eames, artista e designer que fez carreira ao lado do marido, Charles Eames e hoje divide até mesmo a página da Wikipedia como ele. E Marion Mahony Griffin; que fez inúmeros trabalhos ao lado de Frank Lloyd Wright, mas também foi eleita pelo crítico Reyner Banham “a primeira mulher arquiteta dos EUA (e talvez do mundo) que não precisa dar satisfações em um mundo de homens”.

“Mais para frente, esperamos que este projeto possa mover a arquitetura criada pelas mulheres para o centro da história arquitetônica e convidar mais mulheres jovens para estudar e praticar a arquitetura”, contam Mary McLeod e Victoria Rosner, codiretoras do projeto.

As pesquisadoras também fazem questão de ressaltar que, além dos marcantes trabalhos no desenvolvimento de projetos de urbanismo, arquitetura e design, as mulheres perfiladas “quebraram muitas barreiras, tanto sexuais quanto raciais, desafiando as instituições da própria arquitetura, bem como muitas das convenções sociais e estereótipos de gênero de seu tempo”. Apenas mais um grande motivo para celebrar suas trajetórias hoje e sempre.

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Entre ‘luto’ e glamour, Globo de Ouro expõe mundo de fachada de Hollywood

Não foram as tendências, tampouco as grifes milionárias os assuntos do tapete vermelho deste Globo de Ouro.

A campanha “Time’s Up” (ou “o tempo acabou”), engendrada por atrizes inconformadas com a lista quilométrica de mulheres assediadas pelo produtor Harvey Weinstein, escureceu a passarela do cinema com um infinito desfile de vestidos pretos.

Enlutadas, as atrizes, indicadas a prêmios ou só de passagem, aderiram ao movimento impulsionado nas redes sociais por Reese Whiterspoon e Kerry Washington.

Vendido nas entrevistas como ponto de virada na história da indústria, o projeto mostrou, sob a ótica do estilo, todas as formas de usar a cor sem cair no marasmo —mas, quanto ao propósito ativista, ele só expôs o mundo de fachada em que vive a constelação de Hollywood.

Agentes de relações públicas sabem que é “cool” ser engajado. Sendo assim, mesmo que seus clientes tenham ficado calados durante anos, condescendentes com o histórico de abusos de Weinstein, nada diferente do pretinho básico cairia bem.

Também não cairia bem escolher um vestido da grife que, até o ano passado, era uma das “preferidas” das atrizes nesse tipo de evento.

A Marchesa, da estilista e ex-mulher do produtor acusado, Georgina Chapman, não deu as caras no tapete vermelho. Mesmo com a separação do casal, nenhuma atriz estendeu uma mão à designer, que, aliás, sempre posou para a foto ao lado dessas mesmas celebridades.

Foi a vez, então, de grifes e estilistas desconhecidos terem seus segundos de fama. Como no vestido Kaufman Franco de Yvonne Strahovski, atriz da série “Handmaid’s Tale”, ou no Giambattista Valli da modelo Kendall Jenner.

O “ponto de virada” talvez tenham sido mesmo as dezenas de ideias possíveis para usar um vestido preto.

Do “bandage” anos 2000 de Mariah Carey ao deslumbrante Chloé da francesa Isabelle Hupert, as atrizes misturaram proporções, variaram nos decotes e escolheram bem transparências como há muito não se via na festa.

Millie Bobby Brown, a personagem Eleven de “Stranger Things”, despiu o princesismo de outrora e virou nova fashionista em seu Calvin Klein curto; Dakota Johnson, de Gucci, foi uma das várias que jogaram com aplicações de elementos prateados; e Catherine-Zeta Jones foi uma das poucas que não se importaram em mostrar pele demais.

Os homens também aderiram ao preto total, como apoio à causa feminina. Mais uma vez, outro exemplo de como uma roupa pode, pelo menos na foto, mascarar o silêncio de tantos anos. [Pedro Diniz]

Oprah Winfrey faz discurso poderoso contra assédio e racismo

Apresentadora foi homenageada no Globo de Ouro com o prêmio honorário Cecil B. DeMille

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Oprah Winfrey homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille no Globo de Ouro (Kevin Winter / Getty Images)

Oprah Winfrey foi a homenageada da 75ª edição Globo de Ouro, na noite deste domingo, com o tradicional prêmio honorário Cecil B. DeMille. No ano anterior, a honraria foi entregue à Meryl Streep, que viu seu discurso viralizar na internet ao criticar Donald Trump e defender estrangeiros. Como esperado, Oprah também entregou um discurso forte, voltado para a defesa das mulheres e contra o assédio e o racismo.

“Em 1964, eu era uma menina, sentada no chão da casa da minha mãe, assistindo Sidney Poitier vencer o prêmio de melhor ator”, lembrou Oprah sobre o Oscar e o Globo de Ouro recebido pelo ator na época pelo filme Uma Voz Nas Sombras. “Ao palco veio o homem mais elegante que eu já vi. Me lembro da gravata branca e sua pele negra. Eu nunca tinha visto um negro homenageado assim. Depois, ele ganhou este mesmo prêmio. Tentei várias vezes explicar o que aquele momento significava para uma criança de um lugar tão humilde. Minha mãe entrou em casa, cansada de limpar a casa dos outros. E nesse momento, não consigo deixar de pensar que pode existir alguma pequena menina me assistindo receber este prêmio. Sou a primeira mulher negra a ganhá-lo. É uma honra, e um privilégio compartilhar a noite com todas elas, e todos os homens e mulheres que me inspiraram, me desafiaram e me trouxeram até aqui.”

Em seguida, a apresentadora agradeceu à Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, responsáveis pelo Globo de Ouro, e aproveitou para homenagear aos membros da imprensa. “Vemos a imprensa sofrer um cerco hoje em dia. É preciso ter dedicação para se revelar a verdade, a injustiça. Revelar os tiranos e suas vítimas. Quero dizer que eu valorizo a imprensa mais do que nunca. Estamos tentando viver esse tempo difícil. Por isso, vou falar, que sei ao certo, que dizer a sua verdade é a ferramenta mais poderosa que temos. Tenho orgulho e me inspiro nas mulheres que tiveram a força e o poder de falar e compartilhar suas histórias particulares. Neste ano, somos a história.”

Oprah usou o fim de seu discurso para falar sobre o tema da noite: abuso sexual. “Não sofremos abuso só na indústria do entretenimento. É um problema que transcende local de trabalho, raça, cultura. Quero prestar um tributo às mulheres que suportaram anos de abuso e violência. Elas, como minha mãe, tinham contas para pagar, filhos para alimentar e sonhos para correr atrás. São mulheres com nomes que nunca saberemos. São trabalhadoras domésticas, em fabricas, em restaurantes, no mundo da tecnologia, militares.”

Ela finalizou lembrando a história de Recy Taylor, uma mulher negra que, em 1944, foi sequestrada e estuprada por seis homens armados enquanto voltava da igreja. “Ela procurou justiça em uma época que não havia justiça. Recy morreu há dez dias. Ela viveu em uma cultura de homens brutais. De pessoas que não acreditariam nela. Mas chegou a hora. O tempo dessas pessoas brutais acabou”, disse, antes de ser aplaudida de pé pela plateia.

“Espero que Recey tenha morrido sabendo que a verdade dela. e de tantas outas mulheres atormentadas naquela época, foi ouvida. Eu entrevistei e interpretei pessoas que passaram por coisas horríveis na vida, e todas elas tinham a capacidade de manter a esperança por um dia melhor. Mesmo nas noites mais terríveis. Que as meninas assistindo esta noite saibam que um novo dia está chegando. Quando esse dia chegar, será por que muitas mulheres magnificas, muitas que estão aqui a noite, e homens fenomenais, que as ajudaram, lutaram para serem os líderes que conduziram esse tempo em que ninguém mais precisa dizer ‘me too” (eu também)”, disse, lembrando o movimento online em que mulheres compartilharam casos de abuso com a hashtag #metoo.

Participação da mulher negra na publicidade brasileira aumentou em 2017, mas ainda com destaque para celebridades

Comunidade LGBT e pessoas com algum tipo de deficiência seguem “invisíveis” na propaganda

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Taís Araújo (Foto: Fabio Bartelt – Monster Photo) 

Pelo quinto ano consecutivo, a Heads Propaganda realiza a pesquisa “TODXS?”, que funciona como uma análise da representatividade na publicidade brasileira. O destaque para os resultados referentes a 2017 vai para o aumento da participação da mulher negra em campanhas de TV.

Em 2015, apenas 1% das mulheres em comerciais eram negras. Em 2016, 13%, e agora em 2017, 21%. O número ainda é baixo, e dentro dele, 69% dessas protagonistas negras são celebridades, mostrando que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que a mulher negra fora dos holofotes seja mesmo representada.

imageQuando analisados sob a ótica do empoderamento, os comerciais que “empoderam ao quebrar estereótipos” chegaram a 31% do total e superam as campanhas que reforçaram estereótipos de gênero. Número ainda longe do ideal, mas superior aos 12% registrados em 2015 e aos 25% em 2016.

Já os comerciais que reforçam estereótipos de gêneros são 18%, mesmo percentual do período anterior.

Entre os homens, 87% dos protagonistas são brancos, o que mostra que a situação dos homens negros dentro da publicidade brasileira continua estagnada em apenas 7%, mesmo número dos anos anteriores.

image-1Comunidade LGBT e pessoas com deficiência
Embora reúna milhões de pessoas em todo o Brasil, o grupo formado por pessoas com algum tipo de deficiência ainda é invisível para a publicidade brasileira. De acordo com o estudo, somente 0,12% dos 2.451 comerciais de TV analisados tinham entre os personagens alguém com algum tipo de deficiência. Ou seja, três entre todos.

A mesma invisibilidade vale para a população LGBT, com apenas 0,33% da mesma representada em elencos de campanhas,  o que significa apenas oito comerciais entre os quase três mil analisados.

Campanhas digitais
Além da televisão, 142 marcas de 24  segmentos diferentes foram analisadas no Facebook, revelando que o quadro geral não é muito diferente. Entre as protagonistas mulheres, apenas 16% são negras, um resultado menor que da TV.

Já entre os homens, 19% dos protagonistas são negros, índice maior que os 11% de um ano atrás, mas ainda distante do ideal. Os brancos somam 72% de brancos.

Na rede social, 18% dos posts “empoderam ao quebrar estereótipos”, enquanto outros 6% reforçam estereótipos de gêneros. Já 73% são considerados neutros. O número elevado se justifica pela característica das redes de muitos posts com produtos, objetos em geral ou animações. [Soraia Alves]

Lourdes Maria junta-se à mãe Madonna pelo direito de não se depilar

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(Reprodução/Instagram)

Lourdes Maria, 21 anos, a filha de Madonna, 59 anos, uniu-se à mãe pelo direito de não se depilar em uma foto compartilhada no Instagram da cantora na última segunda-feira (1º). Na imagem, a jovem aparece com as axilas sem estarem depiladas com a legenda “estamos prontas para você, 2018!”

A foto é similar a uma imagem publicada por Madonna em 2014. Na ocasião, a diva do pop aparece também com a axila sem depilação e descreve a imagem da seguinte forma: “pelo comprido… não me importo!”

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Madonna: “pelo comprido… não me importo!”

Tanto a imagem de Madonna com a filha quanto a que a cantora aparece sozinha fazem parte do movimento #Sobaquember, em que mulheres compartilham fotos suas com as axilas sem depilar nas redes sociais a fim de eliminar o tabu social com os pelos femininos.

Assim, Lourdes soma-se a mãe e a outras famosas que também costumam aparecer com as axilas não depiladas, como Miley CyrusDrew BarrymoreScout Willis, Lola KirkeGigi Hadid, entre outras, como protesto aos padrões de beleza.

Mulheres de Hollywood criam fundo de apoio a vítimas de assédio

Atrizes, diretoras, produtoras e cantoras criaram projeto que pretende oferecer subsídios para que sejam tomadas medidas legais contra os assediadores

Segundo o jornal The New York Times, a ação não tem líderes. Ela é dividida em comitês, responsáveis por diferentes áreas de atuação, como legislação, política corporativa, práticas de contratação e arrecadação de recursos. Shonda Rhimes, Reese Witherspoon, Natalie Portman, Emma Stone, Ava DuVernay, Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston, Kate Hudson, Viola Davis, Alicia Vikander, Amy Poehler, Taylor Swift e Jessica Chastain estão entre as principais vozes do movimento.

Nesta segunda-feira, a iniciativa publicou em seu site uma carta aberta às mulheres de Hollywood.

Chamado de Time’s Up, o movimento foi anunciado com uma carta aberta e inclui algumas ações, como:

  • Um fundo de defesa legal, com o dinheiro de doações, para mulheres menos privilegiadas – como zeladoras e enfermeiras que trabalham em locais como fazendas, fábricas, restaurantes, etc. – se protegerem contra má conduta sexual e as consequências da denúncia;
  • Legislação para penalizar companhias que toleram o assédio persistente e para desencorajar acordos não divulgados para silenciar as vítimas;
  • Um movimento para alcançar a igualdade de gêneros em estúdios e agências;
  • Um pedido para que as mulheres no tapete vermelho do Globo de Ouro falem e usem preto como forma de conscientização;

Confira abaixo um trecho do texto traduzido:
“Seguimos empenhadas em conscientizar nosso ambiente de trabalho, pressionando-o por mudanças rápidas e eficazes que tornem a indústria do entretenimento um lugar seguro e equilibrado. Também, buscamos mudar a forma como a sociedade enxerga e trata as mulheres, através de histórias de diversas mulheres, vítimas.”

Após o lançamento do movimento, vários artistas mostraram apoio nas redes sociais, como Bryce Dallas HowardJessica BielTessa ThompsonUzo AdubaAva DuVernayBrie LarsonEllen PageNina Dobrev, entre várias outras.

Ser mãe em tempos de Black Mirror

Qual invenção vai nos ajudar a manter a sanidade mental nesse salto no abismo chamado maternidade?

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Cena do episódio Arkangel, 4a. temporada de Black Mirror


Você se distrai um minuto e seu filho some no parquinho/no shopping/na rua. Ou engasga mamando ou comendo pipoca. É desesperador e quase todos os pais e mães já passaram por um aperto desses na vida, quando o coração para, o ar falta,como eu fui me distrair, como deixei isso acontecer? Ser mãe é não ter o controle de nada, muito menos sobre o destino do seu filho mesmo cercando- o de todos os cuidados, repita isso ao sair da maternidade e por todos os dias de sua vida a partir de então.

E já há algum tempo mostramos que estamos abertos para tudo que possam nos oferecer para tentar driblar esse desamparo. Aceitamos, sem problematizar muito, as câmeras nas creches, que nos permitem assistir a um verdadeiro Big Brother dos nossos filhos na escola. Ao menor sinal de caos, tão comum quando existem várias crianças juntas, ligamos e chamamos a coordenadora, onde já se viu deixar meu filho ser mordido por outra criança? Cadê a professora? Também não nos opusemos às mochila-cabresto, com uma guia “de segurança” que pode ser puxada assim que nossos filhos ensaiam uma fuga em um lugar movimentado, evitando assim o desgaste de ter de explicar pela milésima vez que é necessário dar sempre a mão para o papai e a mamãe para não se perder. Talvez a gente não tenha se atentado para o absurdo que se avizinha por termos encarado esses novos itens como banais em um mundo onde, em nome da segurança, já foram inventados desde protetores de tomadas a babás eletrônicas, capazes de permitir que a gente se antecipe ao primeiro sinal de choro e desconforto dos nossos filhos (que talvez virassem para o lado e adormecessem sozinhos sem o nosso auxílio depois daquele gemido, jamais saberemos).

E qual seria a próxima invenção para nos ajudar a manter a sanidade mental nesse salto no abismo chamado maternidade?, poderíamos nos perguntar. Black Mirror, série da Netflix, uma “antologia de ficção científica”, segundo ela mesma, arrisca algumas respostas a essa pergunta, sempre tendo a tecnologia como pano de fundo. O segundo episódio da quarta temporada da série, “Arkangel”, conta a história de Marie, vivida pela atriz americana Rosemarie DeWitt. Ela é mãe solo e se mostra extremamente fragilizada após a filha sumir por alguns longos minutos, assim que se distrai conversando com outra mãe. Traumatizada, aceita participar de um experimento vendido como “super seguro”: o implante de uma espécie de chip na cabeça da filha, a pequena Sara. Logo descobre que além de saber a localização da menina, também consegue informações sobre a saúde da garota, além de impedir que veja cenas impróprias que a vida tem a oferecer a todo o instante, uma espécie de classificação indicativa do mundo real. Violência? Nem pensar. Sangue, palavrões e até o cachorro do vizinho que assusta a menina com seus latidos acabam “censurados” pela mãe preocupada. Em vez de ver a cara de brava do bicho, dentes cerrados, Sara vê uma imagem borrada, ininteligível. O susto passa, mas não porque ela ganhou autoconfiança, e sim porque não precisa mais enfrentar a imagem aterradora do cachorro diariamente. Clicando em outro botão, Marie descobre ser possível assistir ao que que a filha está vendo, em tempo real. Será que está bem na escola/com a babá/com o avô? O chip “retransmite as imagens óticas” da criança, ou seja, você pode espioná-la, tudo sempre em nome de sua segurança. Não precisa conhecer muito a mente humana para saber que esse tipo de controle é irresistível, principalmente para mães.

Mas, fiquem tranquilos, não vou dar spoilers. Termino por aqui dizendo que Sara passa parte da vida sendo poupada de tudo que possa lhe causar dor e sofrimento e os conflitos não tardam a aparecer. O auge da crise chega com a adolescência, claro, esse período cabeludo que faz que a gente sinta saudades das peripécias dos nossos filhos quando crianças.

E se engana quem pensa que esse futuro pintado por Black Mirror está longe de virar realidade. Uma empresa dos Estados Unidos já colocou o chip “à disposição” de seus funcionários com as melhores das boas intenções, claro. Ele traz “comodidade”, abolindo o uso de crachás e senhas. Também oferece “segurança”, dizem. Os cachorros, aqueles que inspiraram as coleiras para crianças, já carregam chips. Não vai demorar nada para oferecerem esse serviço na maternidade para evitar trocas de bebês e sequestros, pode apostar. 

Claro que saberíamos onde está a menina Madeleine McCain se ela tivesse um chip implantado. E também o destino de várias outras crianças desaparecidas. Poderíamos também impedir que nossos filhos fossem vítimas de abuso sexual. E ainda teríamos como saber a identidade de seus abusadores. Poderíamos solucionar sequestros, impedir que os adolescentes se envolvessem com drogas e más companhias, etc, etc, etc. Sim, sim e sim. Mas não temos esse direito, simplesmente não temos o direito de invadir a privacidade dos nossos filhos. As discussões sobre até onde podemos ir sempre são eclipsadas quando o medo, esse bicho de sete cabeças, aparece. Mas ele é nosso convidado desde que damos à luz nossos filhos, simplesmente chega, puxa uma cadeira e se instala em nossa vida, acostume-se se não quiser pirar. 

Imagina se seus pais pudessem ter assistido, de camarote, àquele fora que você tomou no ensino médio? E se fossem propor uma DR cada vez que te vissem não lidando bem com algo que você achou por bem não dividir com mais ninguém? Viver se tornaria insuportável. Claro que temos a obrigação de educar nossos filhos e continuamos querendo saber por onde andam e com quem estão. Mas para conseguir essa resposta eu prefiro perguntar, em vez de bisbilhotar. [Rita Lisauskas]