Peitos de Bruna Marquezine são vítima da vez do julgamento online

O caso evidencia algo que vai muito além dos peitos de Bruna Maquerzine: a pressão por um ideal de beleza feminino impossível de ser alcançado.
Por Nathalia Levy

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(Instagram @brumarquezine/Reprodução)

No fim de janeiro, foi a vez de Rihanna. Como se o adjetivo fosse algo pejorativo, ela foi chamada de gorda na internet e questionada se estava grávida. Neste Carnaval, Bruna Marquezine virou o alvo. Após postar uma foto com seu look no Bloco da Favorita, uma enxurrada de fiscais do corpo alheio começaram a comentar sobre seus peitos. “Nossa, que feio. Parece que amamentou 500 filhos”. “Também concordo. Vá suspender esse peito com silicone. Tá horrível”, escreveram algumas pessoas no Instagram. Tanto a cantora de Barbados quanto a atriz brasileira sofreram body shaming e levantaram, mais uma vez, um debate sobre padrões de beleza.

Mesmo dentro de boa parte do que ficou conhecido como padrão estético, Bruna não ficou livre dos julgamentos — o que evidencia como é preciso desconstruir uma ideia única de beleza. Se Bruna tem ou não o que os usuários da rede social caracterizam como “peitos caídos” não está em debate, mas o julgamento que mulheres recebem, principalmente quando parecem estar livres e felizes com o que veem no espelho, sim. Como Rihanna poderia estar satisfeita tendo engordado? Como Bruna poderia estar tão confortável dentro de sua fantasia? E ainda carregar um detalhe tão afrontoso em seu corpo (ela estava com um adesivo no corpo com a sigla IDGAF, que significa I don’t give a fuck, algo como “não estou nem aí”)?

A discussão é mais embaixo, e as redes sociais só aglutinaram uma situação sexista e aparentemente insaciável na vida das mulheres. Provavelmente, se Bruna cedesse à pressão e resolvesse fazer uma cirurgia plástica, ela seria condenada por não valorizar a “beleza natural” e adotar um comportamento supostamente fútil. Há uma cobrança, na maioria das vezes invisível, para que mulheres estejam sempre “impecáveis”, baseadas em um padrão branco e um ideal de juventude — qualquer sinal de idade ou suposto descuido acaba virando um pesadelo. “Você deve amamentar”, diz a voz tradicional da sociedade. “Mas não pode ter nenhuma marca de que isso aconteceu”. O mais contraditório é que quando alguma delas cede à pressão, porém, um novo bombardeio é feito. Como esquecer do caso Renée Zellweger? Afinal, cirurgias plástica provam que o trabalho de conquistar o ideal da feminilidade é exatamente isso: trabalho. E, idealmente, a feminilidade nunca se mostra como uma construção, ela deve se apresentar como algo natural. O paradoxo da beleza.

O bom é que estamos em 2018. E as redes sociais também concentram boas iniciativas, especialmente criadas por elas, as mulheres que estão cansadas dos julgamentos. Lá no Reino Unido, uma blogueira de 23 anos chamada Chidera Eggerue criou a hashtag #SaggyBoobsMatter.

Cansada de ter que se desdobrar para encontrar maneiras de levantar seus peitos embaixo das roupas (sem que ninguém percebesse que isso estivesse acontecendo, é claro), ela resolveu criar essa rede online para que todas vissem que, olha só, é 100% normal não ter os peitos empinados que surgem em filmes e propagandas. A hashtag começou a encher e agora já concentra quase 800 fotos de mulheres corajosas com seus decotes. “Graças a má representação de peitos flácidos na mídia, nós fomos ensinadas que só há uma forma de ser bonita, e isso inclui ter peitos empinados. Mas a maioria desses filmes, campanhas e clipes são dirigidos por homens (que, na maior parte do tempo, nem sabem o que eles querem). Se eu tivesse visto mulheres com peitos caídos sendo também sendo glorificadas por sua beleza, eu não teria desenvolvido um complexo ainda na adolescência”, escreveu ela sobre o começo do movimento.

Há que se desassociar a felicidade e o sucesso a partir de um ideal corporal. Não há como negar que ele afeta principalmente as mulheres, prejudicando a autoestima quando são ainda adolescentes e crescendo em desconexão com o próprio corpo. Se conectar com o natural é importante para a libertação como um todo. E há que se celebrar diferentes tipos de beleza, e mulheres que, juntas caminham, rumo à liberdade. 

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Oi? Dakota Johnson vê modelo para jovens em ’50 Tons’

Atriz faz uma espécie de Jogo do Contente de Pollyanna e se despede da trilogia enxergando algo de bom nos filmes que protagonizou
Por agência EFE

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Dakota Johnson 75th Annual Golden Globes 2018

As fantasias e intrigas eróticas de Cinquenta Tons de Cinza chegam ao fim com Cinquenta Tons de Liberdade — que alívio, dizem os críticos. Já Dakota Johnson faz uma espécie de Jogo do Contente de Pollyanna e se despede da trilogia enxergando algo de bom nos filmes que protagonizou. “Anastasia enfrenta grandes decisões e problemas nestes três filmes, e penso que sua lealdade consigo mesma e sua capacidade para ser sincera com sua curiosidade emocional e sexual, enquanto segue sendo amável, elegante e forte, é um grande exemplo e um modelo para as mulheres jovens”, diz Polly… ops, Dakota.

Sob a direção de James Foley, Cinquenta Tons de Liberdade, última parte da franquia baseada os livros da britânica E.L. James, começa com o casamento de Anastasia e Christian Grey (Jamie Dornan), que, além de lidar com problemas sentimentais e românticos de todos os tipos, deverão também lidar com alguns fantasmas do passado que ameaçam suas vidas.

A interpretação da inocente, mas audaz Anastasia Steele deu a Dakota Johnson (Austin, 1989) seu primeiro grande papel em Hollywood, razão pela qual a atriz se despede da personagem com boas lembranças, mas também com vontade de olhar para o futuro. “Sabe? Me sinto incrivelmente agradecida e muito orgulhosa destes filmes. Estou orgulhosa de ter tido a honra de interpretar Anastasia e também estou emocionada por seguir adiante”, comenta.

Cinquenta Tons de Liberdade, com pouco mais de comédia e de thriller que seus antecessores, mostra a face mais livre e contundente de Anastasia, que toma as rédeas de sua relação com Christian e que tem muito claro o que espera de seu casamento e da sua vida familiar.

A atriz também destaca a jornada de Christian Grey, um homem reticente ao amor e dedicado a experimentar o sexo que chega inclusive a subir no altar. “Ambos mudam não por eles mesmos, mas porque querem. Cada um se vê no outro e querem que (a relação) funcione, assim que tentam resolvê-la.”

As tórridas e abundantes cenas de sexo, muito pouco habituais em um filme de um grande estúdio de Hollywood, são a marca de Cinquenta Tons de Cinza, um fator que requeria uma grande cumplicidade entre os dois protagonistas.

“Levamos muito bem e tivemos verdadeiramente sorte porque, se não fosse assim, teria sido muito difícil”, afirmou Dakota sobre sua “incrível” sintonia profissional com Dornan.

Além disso, a artista considerou que a trama sexual de Cinquenta Tons de Cinza, que parte das experiências sadomasoquistas de Christian Grey, “encorajou as pessoas a terem a mente mais aberta na hora de falar de sexo”.

Ainda que os dois primeiros filmes da trilogia tenham sido muito criticados, Cinquenta Tons de Cinza (2015) e Cinquenta Tons Mais Escuros (2017) arrecadaram 952 milhões de dólares no total em bilheteiras de todo o mundo.

E o feitiço da saga com seus fãs parece continuar, tal como se viu em uma prévia do filme na última semana em Hollywood, onde os admiradores aplaudiram o casamento de Christian e Anastasia, logo no início do longa-metragem, como se fossem convidados da cerimônia e da festa.

Johnson não soube explicar as razões da forte conexão dos admiradores com os personagens de Cinquenta Tons, mas sugeriu que o aroma de “conto de fadas” pode ter seu peso nesse aspecto.

A filha de Melanie Griffith e Don Johnson também fez uma reflexão sobre as recentes reivindicações feministas dos movimentos “Time’s Up” (Acabou o tempo) e “Me Too” (Eu também) surgidos por causa da onda de escândalos sexuais em Hollywood. Neste sentido, opinou que a igualdade de salários e o respeito profissional entre homens e mulheres são fundamentais. “As mulheres devem ter mais acesso a trabalhos nesta indústria. Gostaria de ver mais diretoras e quero ver histórias de mulheres feitas por mulheres. Acredito que isto está ocorrendo e vai ganhar mais força ainda”, assegurou.

Por fim, a atriz falou sobre o seu novo projeto junto ao cineasta italiano Luca Guadagnino, o diretor do aclamado Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e com quem já trabalhou em A Bigger Splash (2015).

Johnson e Guadagnino unirão esforços em Suspiria, um novo olhar ao filme de terror homônimo de 1977 de Dario Argento e para o qual a artista prometeu ao público uma experiência fora do comum. “É bastante selvagem e me pergunto o que as pessoas pensarão dela”, finalizou.

Angelina Jolie conta como educa as filhas para o feminismo

“Qualquer um pode usar vestido e maquiagem. É sua mente que irá definir você”, diz às meninas

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A atriz Angelina Jolie na companhia das filhas Shiloh Nouvel Jolie-Pitt e Zahara Marley Jolie-Pitt (Foto: Getty Images)

Capa da ELLE americana de março, mês do Dia Internacional da Mulher, Angelina Jolie conversou com o político John Kerry, em um bate papo para a revista que envolveu feminismo, direitos humanos e imigração. Para a atriz, a educação para as questões sociais deve começar em casa.

“Eu digo às minhas filhas: ‘O que te diferencia é o que você está disposto a fazer pelos outros. Qualquer um pode usar vestido e maquiagem. É sua mente que irá definir você. Descubra quem você é, o que você pensa e o que você representa. E lute para que os outros tenham essas mesmas liberdades. Uma vida de serviço vale a pena ser vivida’ “, contou a mãe de Zahara, Vivienne e Shiloh.

Angelina também criticou as últimas propostas de Donald Trump, que limitam os direitos de americanos que começaram a viver nos Estados Unidos quando crianças. “Eu sou muito patriota, e para mim isso anda de mãos dadas com o orgulho do que a América representa. Por exemplo, eu sou a única pessoa na minha casa que nasceu na América”, comentou. “E só posso ter essa família porque somos um país baseado em pessoas de diferentes origens e festejos que se unem. Minhas filhas têm as liberdades que têm por serem americanas. E fazemos o nosso melhor quando lutamos para que os outros tenham os mesmos direitos. Particularmente outras mulheres”.

Até tu, J.K. Rowling?

Todos os valores ensinados pela saga a longo de uma década vêm sendo minados pouco a pouco pela autora

J. K. Rowling
Foto: Reprodução/ site oficial

Eu fui uma daquelas crianças que cresceu com um livro de Harry Potter embaixo do braço. Sou da geração que praticamente se alfabetizou com a série e até hoje procuro refúgio na história do jovem bruxo em momentos de indecisão, medo ou insegurança. Esses livros são, para mim e outros milhões de pessoas, uma importante fonte de empatia e de repassar valores importantes (o valor da amizade, do amor, o poder das escolhas, entre outros).

E não podia ser diferente: os sete livros originais foram escritos por uma mulher recém-divorciada, com filhas para criar e em dificuldade financeira. Há quem diga inclusive que JK Rowling sofreu agressão do primeiro marido. Depois de criar o universo que a tornou mundialmente famosa a autora ainda tomou diversos nãos até conseguir a publicação – não sem antes mudar seu nome artístico para J.K Rowling em uma estratégia para vender mais livros, já que a abreviação poderia sugerir que o autor era um homem.

Rowling criou uma saga referência em empatia e tolerância. E por isso é tão decepcionante que a escritora esteja fazendo cair por terra tudo que construiu em mais de uma década.

A franquia de Harry Potter está viva através de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que terá 5 filmes no total. O ator que interpreta o principal personagem é ninguém menos que o sabidamente agressor Johnny Depp. Por conta disso, os fãs da série cobraram muito um posicionamento da autora, pedindo coerência com tudo que “Harry Potter” representa. A criadora do universo mágico ficou em silêncio por um bom tempo, bloqueando no Twitter os fãs que criticavam a escalação de Depp. Quando resolveu se pronunciar, foi para defender a permanência do ator.

A explicação é uma lástima: em nenhum momento Rowling se dá ao trabalho de citar o nome de Amber Heard (ex-mulher agredida pela nova estrela da franquia), mas ela se dá sim ao trabalho de dizer que está satisfeita com a presença de Depp no elenco, mesmo após as análises de seu histórico criminoso. E aí há que se pesar que James Waylett, que interpretava o personagem Crabbe nos filmes originais (que nem falas tinha) foi suspenso do elenco por ter sido apreendido com maconha. Mas o agressor de mulheres continuou.

Como se não bastasse, recentemente o diretor da nova franquia, David Yates, declarou que o próximo filme não mostrará a homossexualidade de Alvo Dumbledore. É a cereja do bolo da falta de respeito com uma base de fãs que clama por mais representação.

Para os não familiarizados com o universo de Harry Potter, basta saber que Dumbledore é tido como um dos maiores bruxos de todos os tempos e é uma espécie de mentor para Harry Potter. Ainda em 2007 JK Rowling declarou que o personagem era gay, embora isso não fosse mostrado nos livros. Na época, foi um enorme passo à frente, expondo a homossexualidade de um dos personagens mais queridos da franquia.

Pois bem, os novos filmes mostram justamente a juventude de Dumbledore e de sua paixão da época, interpretada por Johnny Depp. Não há oportunidade mais adequada para retratar essa característica do bruxo – que é apenas uma entre tantas outras. E ainda assim sua orientação sexual será ocultada.

Resumindo: não dá pra te defender, JK Rowling. Não dá para colocar a culpa em contrato quando você é a criadora do universo e uma das roteiristas. E também não dá para relevar, como talvez relevássemos caso a história pertencesse a pessoas sem o menor comprometimento com a igualdade, o respeito e a tolerância.

Estes são valores que você se esforçou em defender por sete livros e que tweetou outras milhares de vezes. Por isso, ver uma franquia que mora em nossas histórias e corações tornar-se aliada de homens agressores e constrangida (para dizer o mínimo) de sua representação LGBT é tão dolorido. Sim, nós somos compreensivos – aprendemos com você -, mas exigir nossa aceitação para isso é não compreender o mundo que você mesma deu vida e força.

Os atuais caminhos de Harry Potter desonram uma série fenomenal. Mas pelo menos nos trazem mais uma lição: escrever a respeito é sim importante, mas o que realmente faz a diferença é o que fazemos quando as escolhas difíceis se colocam à nossa frente.

“São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.” – Alvo Dumbledore em Harry Potter e a Câmara Secreta. [Nana Soares]

Reese Witherspoon fala sobre relacionamento abusivo que teve quando era mais jovem

Em entrevista a Oprah, a atriz contou que terminar esse namoro foi um marco na sua vida

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Reese Witherspoon – 2018 InStyle and Warner Bros Golden Globes After Party in LA

Em entrevista à Oprah Winfrey, a atriz Reese Witherspoon falou pela primeira vez sobre um relacionamento abusivo que teve quando era mais nova. Ela disse que terminar o namoro foi um dos marcos em sua vida e que se tornou muito mais confiante de si mesmo pela decisão.

“Um limite foi ultrapassado e uma chave simplesmente virou no meu cérebro. Eu sabia que seria difícil [sair do relacionamento], mas não conseguiria manter aquilo”, disse a atriz, que comentou que sofreu abusos verbais e psicológicos. “Eu era jovem, muito jovem. Nunca conseguiria ser a pessoa que sou hoje se isso não tivesse acontecido. Foi uma experiência que me mudou em nível celular”, comentou.

Reese também falou sobre a dificuldade que é chegar até esse ponto de esclarecimento. “Deixar essas situações não é fácil porque mexem com seu compasso interno, principalmente se a relação danifica a sua autoestima. Pessoas que me conheciam na época hoje dizem que sou uma pessoa completamente diferente, mas é porque naquela época eu não tinha autoestima nenhuma”, falou. “Sim, hoje sou ambiciosa e tenho autoestima porque alguém tentou me tirar essas coisas no passado”, concluiu.

Veja abaixo a entrevista que Reese Witherspoon deu para a Oprah.

Rompendo o silêncio sobre casos de estupro no Japão

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Shiori Ito diz que a polícia abandonou a investigação de sua acusação de estupro. (Jeremie Souteyrat para The New York Times)

TÓQUIO — Era noite de sexta feira quando um dos jornalistas mais famosos da TV japonesa convidou Shiori Ito para um drinque. O estágio dela num serviço de notícias de Tóquio estava chegando ao fim, e ela tinha perguntado a respeito da possibilidade de outro estágio na emissora dele.

Os dois se encontraram num bar e, em seguida, saíram para jantar. Posteriormente, ela disse à policia que sua última lembrança da noite é de quando sentiu uma tontura e pediu licença para ir ao banheiro, onde desmaiou. Ela disse que, naquela noite, foi levada inconsciente para o quarto de hotel dele e estuprada.

O jornalista, Noriyuki Yamaguchi, então diretor da sucursal de Washington da Tokyo Broadcasting System e biógrafo do primeiro-ministro Shinzo Abe, negou a acusação e, depois de uma investigação, os promotores abandonaram o caso. Então Shiori decidiu fazer algo que as mulheres raramente fazem no Japão: ela abriu a boca.

Numa coletiva de imprensa realizada em maio e nas páginas de um livro publicado em outubro, ela contou que a polícia obteve imagens do circuito interno do hotel que pareciam mostrar Yamaguchi a segurando de pé, desmaiada, enquanto os dois passam pelo saguão do hotel. A polícia também encontrou e identificou o taxista, que confirmou que a passageira estava inconsciente. Investigadores disseram a ela que prenderiam Yamaguchi, mas, subitamente, voltaram atrás.

Em outras partes do mundo, as alegações dela poderiam causar indignação. Mas, no Japão, atraíram pouca atenção.

A história de Shiori é um claro exemplo de como o abuso sexual ainda é um tema a ser evitado no Japão, onde poucas mulheres relatam à polícia os casos de estupro e, quando o fazem, as queixas raramente resultam em prisões ou processos.

No papel, o Japão registra níveis relativamente baixos de violência sexual. Num levantamento realizado em 2014, uma em cada 15 mulheres dizia ter sido vítima de estupro (comparativamente, nos Estados Unidos, essa proporção é de uma em cada cinco mulheres). Mas os especialistas dizem que as japonesas são menos propensas do que as ocidentais a descrever o sexo não consensual como estupro. As leis contra o estupro no Japão não falam em consentimento, e a ideia de um estupro durante um encontro causa uma reação diferente.

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‘’Não fiz nada de ilegal’’, disse Noriyuki Yamaguchi. ‘’Não houve abuso sexual.’’ (Jeremie Souteyrat para The New York Times)

Em vez disso, o estupro é frequentemente retratado nos quadrinhos e na pornografia como uma extensão da satisfação sexual.

A polícia e os tribunais tendem a definir o estupro de maneira mais categórica, levando a cabo os processos nos casos em que há sinais de uso de força física e autodefesa, tratando com menos seriedades os episódios em que acusado e vítima teriam bebido. Mesmo quando os estupradores são processados e condenados, às vezes não cumprem pena de detenção: cerca de 1 em cada 10 réus condenados desse tipo recebem apenas sentenças suspensas.

“O preconceito contra as mulheres é profundo e extremo”, disse Tomoe Yatagawa, palestrante da Universidade Waseda.

Shiori, 28 anos, deu entrada num processo civil contra Yamaguchi.

Yamaguchi, 51 anos, negou ter cometido estupro. “Não houve abuso sexual”, disse ele. “Nenhum crime ocorreu naquela noite.”

Além do caso de Shiori Ito, o parlamento aprovou no ano passado mudanças na legislação para crimes sexuais no Japão, as primeiras em 110 anos, ampliando a definição de estupro para incluir sexo oral e anal, e também os homens como potenciais vítimas. Os legisladores também aumentaram as sentenças mínimas. Mas a lei ainda não menciona o consentimento, e os juízes ainda podem suspender sentenças.

As alegações contra Yamaguchi não afetaram suas funções na Tokyo Broadcasting System, mas ele deixou o cargo no ano passado sob pressão da rede depois de publicar um artigo considerado belicoso. Ele ainda trabalha como jornalista freelance no Japão.

O livro que Shiori publicou recebeu alguma atenção da grande mídia japonesa.

“Ainda sinto que preciso ser forte”, disse ela, “e continuar falando no episódio até que isso não seja mais tratado com indiferença”. [Motoko Rich]

“The Post” estreia com Meryl Streep na pele da primeira publisher de um grande jornal

Em novo filme de Steven Spielberg, a atriz vive Katherine Graham, a primeira publisher do sexo feminino de um grande jornal, que ajudou a mudar a história dos Estados Unidos

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Meryl Streep vive a jornalista Katharine Graham em The Post – A Guerra Secreta. À direita, a publisher que é tema do filme (Foto: Getty Images e Reprodução)

Em 30 de junho de 1971, o jornal The Washington Post publicou o primeiro da série de documentos que mudaria a história dos Estados Unidos para sempre. Chamados de Papéis do Pentágono, o dossiê expunha as reais intenções do governo americano sobre a Guerra do Vietnã.

A divulgação de tais registros foi seguida do escândalo de Watergate, um ano depois, que levou a renúncia do presidente Richard Nixon (1913-1984), em 1974. O que poucos sabem é que uma mulher estava por trás da publicação no The Washington Post dos documentos que sacudiram o país: Katharine Graham (1917-2001), a primeira publisher do sexo feminino de um grande jornal.

É a história desse momento encabeçado por Graham que o novo longa The Post – A Guerra Secreta, de Steven Spielberg, traz à luz. Com lançamento marcado para esta quinta-feira (01.02), o filme finalmente dá a Katharine o crédito que é seu por direito.

A americana, vivida por Meryl Streep nas telonas, ficará conhecida como a mulher que, em um momento crítico da política americana dos anos 70, lutou pela liberdade de imprensa, tema que voltou a ser extremamente atual. Na época, tal reconhecimento foi dado apenas ao seu editor-executivo, Ben Bradlee (1921-2014).

Para Spielberg, cujo filme tem também Tom Hanks no papel de Bradlee, Graham abriu espaço para toda uma geração.”Ela estabeleceu um novo padrão para as mulheres mundo afora. Mostrou que, mesmo em meio a uma enorme pressão, ser mero espectador não era uma opção – e ainda não é”, diz o diretor.

Graham gostava de ousadia. Apesar da aparência séria e discreta, sempre vestida com looks de Oscar de la Renta (mesmo na praia), ela era extremamente corajosa, assim como seu pai, Eugene Meyer.

Ele começou trabalhando como corretor de ações, ganhou muito dinheiro e, em 1933, comprou o falido The Washington Post por uma ninharia. Quando Phil Graham, um modesto, porém incrivelmente carismático funcionário da Suprema Corte, pediu sua filha em casamento (depois do segundo encontro), Meyer decidiu dividir a administração do Post com ele.

Phil, no entanto, tornou-se perigosamente instável, em grande parte devido a um transtorno bipolar não diagnosticado. Ele diminuía Katharine na frente de outras pessoas e arranjou uma amante. Então, certo dia, em 1963, chegou em casa após um período internado em um hospital psiquiátrico e se matou com um tiro. Katharine encontrou seu corpo no banheiro da casa de campo do casal.

Foi após esse traumático incidente que ela surpreenderia o mundo e a si mesma. Ao descobrir que o The Washington Post havia definhado durante os turbulentos anos finais de Phil, ela agarrou a oportunidade e se apaixonou pela segunda vez – não por um homem, mas por uma profissão, à qual se doou inteiramente.

Antes do início das filmagens de The Post, Meryl Streep disse que havia acabado de ouvir as fitas gravadas pela própria Graham, nas quais conta sua história. “Estou extasiada com sua energia, inteligência, elegância, humor e humildade, qualidades tão escassas hoje em dia”, disse Streep. [Kati Marton]