Mulheres de Hollywood criam fundo de apoio a vítimas de assédio

Atrizes, diretoras, produtoras e cantoras criaram projeto que pretende oferecer subsídios para que sejam tomadas medidas legais contra os assediadores

Segundo o jornal The New York Times, a ação não tem líderes. Ela é dividida em comitês, responsáveis por diferentes áreas de atuação, como legislação, política corporativa, práticas de contratação e arrecadação de recursos. Shonda Rhimes, Reese Witherspoon, Natalie Portman, Emma Stone, Ava DuVernay, Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston, Kate Hudson, Viola Davis, Alicia Vikander, Amy Poehler, Taylor Swift e Jessica Chastain estão entre as principais vozes do movimento.

Nesta segunda-feira, a iniciativa publicou em seu site uma carta aberta às mulheres de Hollywood.

Chamado de Time’s Up, o movimento foi anunciado com uma carta aberta e inclui algumas ações, como:

  • Um fundo de defesa legal, com o dinheiro de doações, para mulheres menos privilegiadas – como zeladoras e enfermeiras que trabalham em locais como fazendas, fábricas, restaurantes, etc. – se protegerem contra má conduta sexual e as consequências da denúncia;
  • Legislação para penalizar companhias que toleram o assédio persistente e para desencorajar acordos não divulgados para silenciar as vítimas;
  • Um movimento para alcançar a igualdade de gêneros em estúdios e agências;
  • Um pedido para que as mulheres no tapete vermelho do Globo de Ouro falem e usem preto como forma de conscientização;

Confira abaixo um trecho do texto traduzido:
“Seguimos empenhadas em conscientizar nosso ambiente de trabalho, pressionando-o por mudanças rápidas e eficazes que tornem a indústria do entretenimento um lugar seguro e equilibrado. Também, buscamos mudar a forma como a sociedade enxerga e trata as mulheres, através de histórias de diversas mulheres, vítimas.”

Após o lançamento do movimento, vários artistas mostraram apoio nas redes sociais, como Bryce Dallas HowardJessica BielTessa ThompsonUzo AdubaAva DuVernayBrie LarsonEllen PageNina Dobrev, entre várias outras.

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Ser mãe em tempos de Black Mirror

Qual invenção vai nos ajudar a manter a sanidade mental nesse salto no abismo chamado maternidade?

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Cena do episódio Arkangel, 4a. temporada de Black Mirror


Você se distrai um minuto e seu filho some no parquinho/no shopping/na rua. Ou engasga mamando ou comendo pipoca. É desesperador e quase todos os pais e mães já passaram por um aperto desses na vida, quando o coração para, o ar falta,como eu fui me distrair, como deixei isso acontecer? Ser mãe é não ter o controle de nada, muito menos sobre o destino do seu filho mesmo cercando- o de todos os cuidados, repita isso ao sair da maternidade e por todos os dias de sua vida a partir de então.

E já há algum tempo mostramos que estamos abertos para tudo que possam nos oferecer para tentar driblar esse desamparo. Aceitamos, sem problematizar muito, as câmeras nas creches, que nos permitem assistir a um verdadeiro Big Brother dos nossos filhos na escola. Ao menor sinal de caos, tão comum quando existem várias crianças juntas, ligamos e chamamos a coordenadora, onde já se viu deixar meu filho ser mordido por outra criança? Cadê a professora? Também não nos opusemos às mochila-cabresto, com uma guia “de segurança” que pode ser puxada assim que nossos filhos ensaiam uma fuga em um lugar movimentado, evitando assim o desgaste de ter de explicar pela milésima vez que é necessário dar sempre a mão para o papai e a mamãe para não se perder. Talvez a gente não tenha se atentado para o absurdo que se avizinha por termos encarado esses novos itens como banais em um mundo onde, em nome da segurança, já foram inventados desde protetores de tomadas a babás eletrônicas, capazes de permitir que a gente se antecipe ao primeiro sinal de choro e desconforto dos nossos filhos (que talvez virassem para o lado e adormecessem sozinhos sem o nosso auxílio depois daquele gemido, jamais saberemos).

E qual seria a próxima invenção para nos ajudar a manter a sanidade mental nesse salto no abismo chamado maternidade?, poderíamos nos perguntar. Black Mirror, série da Netflix, uma “antologia de ficção científica”, segundo ela mesma, arrisca algumas respostas a essa pergunta, sempre tendo a tecnologia como pano de fundo. O segundo episódio da quarta temporada da série, “Arkangel”, conta a história de Marie, vivida pela atriz americana Rosemarie DeWitt. Ela é mãe solo e se mostra extremamente fragilizada após a filha sumir por alguns longos minutos, assim que se distrai conversando com outra mãe. Traumatizada, aceita participar de um experimento vendido como “super seguro”: o implante de uma espécie de chip na cabeça da filha, a pequena Sara. Logo descobre que além de saber a localização da menina, também consegue informações sobre a saúde da garota, além de impedir que veja cenas impróprias que a vida tem a oferecer a todo o instante, uma espécie de classificação indicativa do mundo real. Violência? Nem pensar. Sangue, palavrões e até o cachorro do vizinho que assusta a menina com seus latidos acabam “censurados” pela mãe preocupada. Em vez de ver a cara de brava do bicho, dentes cerrados, Sara vê uma imagem borrada, ininteligível. O susto passa, mas não porque ela ganhou autoconfiança, e sim porque não precisa mais enfrentar a imagem aterradora do cachorro diariamente. Clicando em outro botão, Marie descobre ser possível assistir ao que que a filha está vendo, em tempo real. Será que está bem na escola/com a babá/com o avô? O chip “retransmite as imagens óticas” da criança, ou seja, você pode espioná-la, tudo sempre em nome de sua segurança. Não precisa conhecer muito a mente humana para saber que esse tipo de controle é irresistível, principalmente para mães.

Mas, fiquem tranquilos, não vou dar spoilers. Termino por aqui dizendo que Sara passa parte da vida sendo poupada de tudo que possa lhe causar dor e sofrimento e os conflitos não tardam a aparecer. O auge da crise chega com a adolescência, claro, esse período cabeludo que faz que a gente sinta saudades das peripécias dos nossos filhos quando crianças.

E se engana quem pensa que esse futuro pintado por Black Mirror está longe de virar realidade. Uma empresa dos Estados Unidos já colocou o chip “à disposição” de seus funcionários com as melhores das boas intenções, claro. Ele traz “comodidade”, abolindo o uso de crachás e senhas. Também oferece “segurança”, dizem. Os cachorros, aqueles que inspiraram as coleiras para crianças, já carregam chips. Não vai demorar nada para oferecerem esse serviço na maternidade para evitar trocas de bebês e sequestros, pode apostar. 

Claro que saberíamos onde está a menina Madeleine McCain se ela tivesse um chip implantado. E também o destino de várias outras crianças desaparecidas. Poderíamos também impedir que nossos filhos fossem vítimas de abuso sexual. E ainda teríamos como saber a identidade de seus abusadores. Poderíamos solucionar sequestros, impedir que os adolescentes se envolvessem com drogas e más companhias, etc, etc, etc. Sim, sim e sim. Mas não temos esse direito, simplesmente não temos o direito de invadir a privacidade dos nossos filhos. As discussões sobre até onde podemos ir sempre são eclipsadas quando o medo, esse bicho de sete cabeças, aparece. Mas ele é nosso convidado desde que damos à luz nossos filhos, simplesmente chega, puxa uma cadeira e se instala em nossa vida, acostume-se se não quiser pirar. 

Imagina se seus pais pudessem ter assistido, de camarote, àquele fora que você tomou no ensino médio? E se fossem propor uma DR cada vez que te vissem não lidando bem com algo que você achou por bem não dividir com mais ninguém? Viver se tornaria insuportável. Claro que temos a obrigação de educar nossos filhos e continuamos querendo saber por onde andam e com quem estão. Mas para conseguir essa resposta eu prefiro perguntar, em vez de bisbilhotar. [Rita Lisauskas]

A perigosa (e criminosa) prática sexual do ‘stealthing’

Termo em inglês, que se refere à prática de remover a camisinha durante o sexo sem avisar o parceiro, é considerado agressão sexual

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Stealthing: uma nova “tendência” sexual perigosa e considerada violação

Você já ouviu falar em ‘stealthing‘? Talvez não. Em português, a tradução literal seria algo como “dissimulação”, mas, o termo em inglês designa a prática, também considerada agressão, sexual de retirar a camisinha durante o sexo, sem o consentimento do parceiro. Embora pareça uma novidade de mau gosto, segundo um artigo escrito pela advogada americana Alexandra Brodsky, publicado recentemente no periódico científico Columbia Journal of Gender and Law, a prática é comum entre pessoas jovens sexualmente ativas e ainda pouco discutida.

O artigo teve grande repercussão nas redes sociais internacionais – com reações variando de indignação até vítimas relatando seu depoimento – por ter trazido à tona uma discussão ética sobre esse assunto controverso, de certa forma, e pouco discutido. Controverso porque, embora para muitas mulheres pareça óbvio que a prática foi um abuso, outras apenas a consideram um “sexo ruim”. Quando falamos dos homens que cometem, é ainda mais grave. Eles não só acreditam que isso é um “direito natural”, como disseminam a prática pela internet e até mesmo dão dicas de como remover o preservativo sem a parceira perceber. Segundo o estudo, os homens que praticam e promovem o stealthing “enraizam suas ações em misoginia e na crença da supremacia sexual masculina” frequentemente citando seu “direito de homem” de “espalhar sua semente”.

Embora não haja um registro de quantas pessoas passaram por isso – o abuso é mais comum em mulheres, mas homens homossexuais também já foram vítimas – Alexandra afirma que tem sido cada vez mais comum. Seu artigo baseia-se em relatos de vítimas e no aumento do número de ligações relatando o abuso a uma hotline de denúncias de estupro nos Estados Unidos. E ela conta que desde o que o artigo foi publicado, no último fim de semana, houve um aumento expressivo no número de histórias que chegaram até ela.

“Eu estou impressionada com o número de e-mails, tweets e mensagens pessoais que tenho recebido dizendo ‘isso aconteceu comigo’”, disse.

Alexandra escreveu o artigo enquanto ainda era uma estudante na Escola de Direito da Universidade Yale, nos Estados Unidos, após saber de relatos da prática. Rebecca (nome fictício, como o de todas as vítimas entrevistadas no estudo), por exemplo, doutoranda que trabalha em uma hotline de denúncias de estupro, notou o aumento de ligações de mulheres dizendo terem sofrido o abuso. Ela, inclusive, já passou por isso com um ex-namorado.

Rebecca conta que os relatos geralmente começam com a seguinte frase ” ‘Eu não tenho certeza se isso é estupro, mas…’. Todas elas se sentem violadas, mas não têm o ‘vocabulário’ que descreva exatamente o que aconteceu.’”, relata. E é justamente isso que Alexandra busca mudar com seu artigo: uma denominação formal e legal da prática, que a configure como um crime. Pois, muitas da vítimas sabem que sofreram uma agressão, mas não sabem como denunciar o abuso. Ou, quando o fazem, enfrentam diversos preconceitos.

Gravidez e DST
Segundo informações da rede americana CBS, todas as vítimas entrevistadas por Alexandra expressaram o medo de uma gravidez indesejada e de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Elas também relataram uma “clara violação da autonomia sobre seus corpos e da confiança que erroneamente colocaram no seu parceiro sexual”. Algumas, perceberam que o parceiro havia tirado o preservativo no momento da re-penetração, enquanto outras só perceberam na ejaculação. Em um caso, a mulher disse não ter percebido e só soube quando, no dia seguinte, o parceiro contou.

As vítimas também descreveram o pouco caso do parceiro em relação à suas preocupações.  “Nada disso o preocupou. Não o perturbou. Minha potencial gravidez e DST, era meu fardo.”, disse Rebecca.

Denúncia
Em seu relatório, Alexandra detalha um vasto número de opções legais que as vítimas podem procurar, nos Estados Unidos, embora nenhuma das entrevistadas tenha feito esse percurso e não haja registro de um caso denunciado que tenha chegado a julgamento no país, seja como acusação criminal ou ação civil.

O único caso conhecido de condenação por stealthing  aconteceu em janeiro, na Suíça. Uma mulher conheceu um homem pelo Tinder, aplicativo de encontros. Os dois marcaram um encontro e tiveram relações sexuais. Durante o ato, a mulher reparou que o parceiro tinha retirado o preservativo sem a avisar e sem consentimento. Após ser denunciado, o agressor foi condenado por estupro, na primeira vez em que um caso semelhante foi julgado como tal.

Entretanto, esse é apenas um caso. Na maioria, Alexandra reconhece que a lei falha em dar suporte à vítimas de violência sexual. “Juízes e juri tendem a simpatizar menos com vítimas que tiveram um relacionamento sexual prévio com o agressor e esse sempre sera o caso no stealthing.”, conta ela ressaltando que não gosta do termo stealthing. “Soa como algo trapaceiro e desagradável, mas como uma moda passageira “. Por isso, prefere “remoção não-consensual do preservativo”.

Danos emocionais e físicos
Alexandra acredita que, se houver um novo estatuto que nomeie explicitamente a remoção não-consensual de preservativo como uma agressão sexual, as vítimas conseguirão justiça. “Não é porque não acredito que existam instrumentos legais disponíveis, mas acho que um novo delito que especifica de forma muito específica a remoção não-consensual de preservativos como um dano nos ajudará a evitar alguns dos obstáculos comuns que as vítimas de violência de gênero enfrentam quando buscam justiça através dos tribunais “, afirma.

Afinal, essas vítimas experienciam danos emocionais, financeiros e físicos reais, para os quais, segundo ela, a lei deve providenciar solução por meio de compensação ou da simples oportunidade de serem ouvidas.

Abuso sexual no Brasil
Desde 2009, a legislação brasileira ampliou o conceito de estupro para praticamente qualquer contato físico não consentido – no que se inclui, naturalmente, apalpar a genitália de uma mulher, mas provavelmente aqui as vítimas também enfrentariam problema para configurar a remoção não-consensual de preservativo como estupro, já que, inicialmente, a relação sexual foi consensual.

Um ano de progressos para as mulheres no jazz

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O álbum de estreia de Jaimie Branch, à esquerda, foi um dos destaques de 2017. (Mark Abramson para The New York Times)

Em setembro, durante 77 horas seguidas, a baixista e vocalista Esperanza Spalding transmitiu ao vivo no Facebook seu processo de composição, ensaio e gravação de um álbum inteiro. Intitulado de “Exposure”, o projeto foi uma demonstração de capacidade e confiança.

Os espectadores (alguns milhares por vez) acompanharam enquanto Esperanza mostrava partes complexas ao pianista, ou enquanto decidia aproveitar ou descartar cada tomada. “Exposure” mostrou que é possível transformar o processo técnico e obsessivo da gravação do jazz num espetáculo público. Transpareceu o fato de os estúdios de gravação estarem entre os espaços mais dominados pelos homens na indústria musical, e Esperanza ser com frequência a única mulher presente.

“Exposure” foi um dos muitos notáveis lançamentos de mulheres jazzistas em 2017. As mulheres tiveram um ano de dolorosas revelações e acertos de contas nos ambientes de trabalho dos Estados Unidos, e o mesmo valeu para o jazz. Mas 2017 também pareceu marcar um momento de progresso.

Talvez pela primeira vez, os organizadores de festivais não puderam escapar das críticas, incluindo uma ou duas mulheres para acompanhar uma porção de homens. “A visibilidade da desigualdade entre homens e mulheres no universo do jazz chegou a uma espécie de encruzilhada”, disse Terri Lyne Carrington, 52 anos, baterista de talento reconhecido. “Em termos do reconhecimento de um maior número de mulheres instrumentistas, seja em termos de álbuns ou participações em festivais, as melhorias são constantes.”

O ano começou com um lembrete do trabalho que ainda precisa ser feito. Em março, o pianista e blogueiro Ethan Iverson publicou uma entrevista com Robert Glasper, destacado pianista do gênero fusion, na qual Glasper dizia compreender as expectativas das ouvintes de jazz. “Elas não gostam de muitos solos”, disse ele. “Quando chegamos a um ritmo melódico e nos atemos a ele, é como um clitóris musical. Mantemos o groove, e os olhos delas se fecham, balançando como num transe.” Parece não ter ocorrido a ele que a maneira mais simples de atrair mais mulheres para o jazz seria colocar mais delas entre os músicos no palco.

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Sasha Berliner, 19 anos, estudante de jazz de Nova York, publicou em seu blog um texto de 6 mil palavras falando do sexismo no jazz. (SF JAZZ)

Sasha Berliner, 19 anos, estudante de jazz e vibrafonista da New School, de Nova York, respondeu com um texto de 6 mil palavras em seu blog. Na publicação, ela conta de casos em que foi subestimada ou ignorada pelos professores, apesar do seu talento formidável, e revela ter sofrido assédio sexual por parte de alguém de quem ela depende para conseguir apresentações em San Francisco.

“Vi esse tipo de coisa acontecer muitas vezes com minhas colegas, que são muito jovens, e isso as desestimulou”, disse ela em entrevista.

Talvez os mais notáveis álbuns de estreia no jazz deste ano tenham sido “Fly or Die”, da trompetista Jaimie Branch, e “Mannequins”, da baterista Kate Gentile. Kate toca composições originais um pouco sujas, bastante fortes, e cheias de ímpeto. Jaimie usa técnicas avançadas e a abstração para obter efeitos incríveis.

A flautista Nicole Mitchell, 50 anos, mentora de Jaimie, teve também um ano inesquecível. O destaque foi o álbum “Mandorla Awakening II: Emerging Worlds”, gravado com a banda Black Earth Ensemble, de oito membros, que inclui oito instrumentos de percussão e cordas de todo o mundo.

A violoncelista Tomeka Reid, outra discípula de Nicole, passou o ano ocupada com apresentações de requinte. Lançou um álbum com o saxofonista Nick Mazzarella e outro com o trio de cordas Hear in Now, de poderosas instrumentistas. “Quando comecei a me interessar pela música de improviso”, disse Tomeka, “vi mulheres na liderança, compositoras. Vi mulheres realizando seus projetos”. [Giovanni Russonello]

Fernanda Torres revela detalhes da vida pessoal e os planos para o futuro

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Fernanda Torres na Marie Claire de janeiro (Foto: Christian Gaul)

São 2 da tarde de um dia ensolarado no Rio, quando Fernanda Torres recebe Marie Claire  para a primeira de duas longas conversas, no apartamento onde mora com o marido, o diretor Andrucha Waddington, e os filhos, Joaquim, 18, e Antonio, 9. Enquanto faz um café, Nanda, como os amigos a chamam, fala sobre sua preocupação com os haters. Poucos dias antes, sua mãe, a atriz Fernanda Montenegro, havia participado de uma campanha pela liberdade de expressão. O vídeo, que viralizou, foi hostilizado e a atriz, ameaçada. “Uma pessoa escreveu que, se visse minha mãe na rua, passaria com o carro em cima. Denunciamos ao Facebook e a resposta foi que o post não feria sua ‘política’. Fiquei chocada.”

Não foi a primeira vez que Nanda teve de lidar com o ódio na rede. Em 2016, escreveu um texto para o blog #AgoraÉqueSãoElas, no site da Folha de S.Paulo, em que dizia: “A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que machismo”. Despertou a ira das feministas e levou uma chamada do filho mais velho. Logo em seguida, pediu desculpas em um novo artigo. “Me senti uma mulher do século passado. Foi Joaquim quem me localizou no tempo e no espaço. Tanto que se tornou meu revisor nesse texto”, diz. “Descobri que o meu discurso era de exceção. Sou neta de operários e jamais meu avô proibiu minha mãe de ser atriz, numa época em que, para isso, era preciso ter carteirinha de puta. Os direitos foram dados a mim, sem que eu precisasse lutar por eles”, reflete.

Sua juventude não teve nada de trivial: foi nos bastidores do teatro, acompanhando Fernanda e Fernando Torres. “Fui criada na coxia e foi uma infância tristíssima: meus pais trabalhavam de terça a domingo, sem fim de semana nem feriado. Ir ao teatro era fazer parte da vida deles”, relembra.

Desse período, no entanto, sobram histórias divertidas, como a primeira viagem internacional da família, quando Nanda tinha 9 anos. “Meus pais ganharam duas passagens e decidiram levar a mim e ao meu irmão, Cláudio, à Europa. Seriam 45 dias para conhecer tudo. Foi um périplo exaustivo, dois dias em cada cidade, e ainda cruzamos o oceano rumo à Disney e a Nova York, onde finalmente eu poderia comprar brinquedos”, lembra ela. “Meu sonho era ter uma Barbie e, quando chegamos à loja, escolhi uma para a minha prima e, quando peguei a minha, mamãe disse: ‘Pra que duas? Brinca com a dela’. Resignada, trouxe o Ken pra mim”, fala, às gargalhadas. “Contei isso numa entrevista e, no meu aniversário de 40 anos, minha mãe me deu a Barbie. Ficou horrorizada de eu ter esse trauma.”

Com ou sem Barbie, Nanda teve pouco tempo para as bonecas. Aos 13 anos, estreou no teatro. Aos 16, recusou o primeiro papel em um filme por influência dos pais. “Foi a única vez em que eles falaram: ‘Esse não dá para você fazer’.” Não por acaso, nesse longa, ela seria uma ninfeta, com muitas cenas de nudez. “Na época, a pornochanchada sustentava o cinema. Se não tirasse a roupa, não dava público. Como parte do lançamento, era comum a atriz já assinar com a Playboy”, conta ela, que nunca topou posar para a revista.

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Fernanda Torres é a capa de janeiro da Marie Claire (Foto: Christian Gaul)

A decisão foi correta. Após esse episódio, acumulou sucessos no teatro, no cinema e na TV. Antes dos 30 anos, Nanda tinha até um troféu de melhor atriz em Cannes. Então, cansou. Não queria mais atuar. “Lamentei ter saído do colégio aos 17 e não ter feito faculdade. Foi quando comecei a escrever.”

Sem saber, construía uma nova versão de si mesma. Primeiro, fez roteiros de filmes como O Redentor, dirigido pelo irmão, Cláudio. Depois, passou a assinar crônicas para jornais e revistas. Em 2013, publicou o primeiro livro, Fim (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 39,90), sucesso instantâneo, com mais de 180 mil exemplares vendidos e traduzido para sete línguas. Em paralelo, assumiu de vez o humor ácido com o qual encara essa “tragicomédia que é a vida”, e que a inspirou a compor a Vani, de Os Normais, e a Fátima, de Entre Tapas e Beijos.

É nessa nova persona que ela aposta agora, enquanto prepara a volta à TV, na série Sob Pressão, no ar em junho, e lança o segundo romance, A Glória e Seu Cortejo de Horrores (Companhia das Letras, 216 págs., R$ 44,90) – que a colocou entre as escritoras de ficção mais vendidas do Brasil. Desde que chegou às lojas em dezembro, o livro ganhou inúmeros elogios, foi destaque na revista The New Yorker e será traduzido para o francês. [Adriana Ferreira Silva]

Edição De Moda Larissa Lucchese