História de amor entre duas freiras rouba a cena na conservadora Croácia

Documentário ‘Nun of your business’ ganhou o troféu principal do público no Festival de Cinema ZagrebDox
AFP

Marita Radovanovic e Fanika Feric, personagem do documentáiro 'Nun of your business', premiado pelo público no Festival ZagrebDox Foto: DENIS LOVROVIC / AFP
Marita Radovanovic e Fanika Feric, personagem do documentáiro ‘Nun of your business’, premiado pelo público no Festival ZagrebDox Foto: DENIS LOVROVIC / AFP

Marita era freira em uma ilha croata quando conheceu Fani, uma outra freira que viria a se tornar seu grande amor. A vida das duas inspirou um documentário recentemente apresentado no Festival de Cinema ZagrebDox, do qual saiu com o Prêmio do Público. “Nun of your business”, cujo título em inglês brinca com a palavra “nun” (freira) e a expressão “none of your business” (isso não é da sua conta), narra a vida das duas mulheres desde a infância em partes remotas da Croácia, passando pela decisão de entrar para a igreja e o encontro entre elas, que aconteceu há dez anos.

— É a história de um amor inesperado e incomum, mas me concentrei mais na questão da liberdade individual — disse a diretora Ivana Marinic Kragic à AFP.  — Elas encontraram forças para lutar por seu amor, algo que em geral não é aceito em nossa sociedade.

Marita Radovanovic, à direita, e Fanika Feric, à esquerda, com a diretora Ivana Marinic Kragic ao centro Foto: DENIS LOVROVIC / AFP
Marita Radovanovic, à direita, e Fanika Feric, à esquerda, com a diretora Ivana Marinic Kragic ao centro Foto: DENIS LOVROVIC / AFP

Kragic destaca que não queria provocar polêmicas, mas sim despertar empatia na conservadora sociedade croata, onde pessoas LGTBQ são vítimas de discriminação e onde a influente Igreja Católica considera a homossexualidade uma “deficiência” e uma “perversão”.

Marita Radovanovic, de cabelos curtos com mechas rosa, tinha 18 anos quando ingressou no convento da ilha de Korcula, no sul do país, onde nasceu. Incentivada por seu desejo de ajudar os outros, ela foi contra a vontade de sua família, que queria que ela levasse uma vida “normal”.

Decepção

No seminário, ela encontrou Fanica Feric, conhecida com  Fani. Mas a amizade que se formou no início só se transformou em relacionamento amoroso vários anos depois, quando Marita já havia deixado a Igreja.

Foi no convento que Marita, hoje com 36 anos, conheceu sua homossexualidade e teve seu primeiro relacionamento com uma mulher. Já Fani, 40, sempre soube que era lésbica, mas tinha medo de dizer isso em sua pequena cidade no leste da Croácia. Ela diz que foi atraída pela vida religiosa quando ouviu freiras e crianças cantando em um coro e entrou pra a vida monástica aos 23 anos.

— Não pensei para onde estava indo. Num convento há muitas mulheres — relembra, sorrindo.

Mas as duas acabaram decepcionadas. Marita percebeu que a comunidade religiosa não estava isenta do assédio e da mesquinhez típicas de outros grupos humanos.

— Antes, eu idealizava tudo, mas percebi que a estrutura (da Igreja) não combinava comigo. A palavra da minha ordem era “Veritas”. Depois de um tempo, decidi ser honesta comigo mesma e com Deus, que é amor.

— É difícil quando você não se encaixa por ser diferente — diz Fani. — Para os católicos, a homossexualidade é um grande pecado. Eu rezei a Deus para me curar da minha ‘doença’. Mas depois percebi que se Deus me fez assim, não havia nada para curar.

As duas começaram a conversar regularmente ao telefone depois que Marita abandonou o hábito para estudar em Split, em 2009.

— Eu pensava nela mais do que na Bíblia — brinca Fani, que morava em Zagreb na época.

Depois de uma fatídica visita de Marita, Fani pediu ao convento alguns dias para refletir sobre sua situação.

— Na juventude, quando via uma estrela cadente, sempre dizia: ‘Deus, por favor, mande alguém como eu’. Agora ela estava lá, então eu deixei o convento.PUBLICIDADE

A diretora Kragic levou sete anos para rodar seu filme. Ela precisava ganhar a confiança das duas mulheres e deixá-las confortáveis com sua nova vida “civil”. Depois de passar vários anos em Zagreb, uma trabalha no setor do turismo e a outra com restauração.

Elas moram em Korcula, onde a família de Marita as aceitou como são. E embora tenham se afastado da instituição religiosa, mantêm sua fé intacta e esperam convencer outros a seguirem seu próprio caminho.

— Foi o que eu fiz, tanto no convento quando percebi que não era para mim, quanto no que diz respeito ao Fani — enfatiza Marita.

Uma em cada vinte estudantes universitárias na França já foi vítima de estupro, diz pesquisa

Estudo também indica que uma em cada dez jovens foi vítima de agressão sexual ou de atos violento

Com vendas, mulheres protestam contra feminicídio e violência sexual em Paris
Com vendas, mulheres protestam contra feminicídio e violência sexual em Paris – Geoffroy Van der Hasselt – 29.nov.19/AFP

RFI – Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (12) afirma que uma em cada 20 estudantes universitárias na França já foi estuprada. O mesmo estudo indica que uma em cada dez jovens foi vítima de agressão sexual ou de atos violentos.

A constatação é fruto de uma pesquisa realizada pelo Observatório Estudantil de Violências Sexuais e Sexistas no Ensino Superior, órgão criado em maio de 2019 com o objetivo de analisar esses fenômenos na população universitária.

Entre abril e dezembro de 2019, um questionário online foi distribuído entre alunos de cerca de 50 universidades, faculdades e cursinhos preparatórios na França. Das mais de 10 mil respostas recebidas, a maioria (76%) vem de mulheres.

O dado mais impressionante do estudo, intitulado “Palavras de estudantes sobre as violências sexuais e sexistas”, foi o fato de 5% das alunas que responderam à pesquisa afirmarem já terem sido vítimas de estupro. Além disso, 11% das jovens dizem ter sofrido algum tipo de agressão sexual.

No caso dos homens, 5% afirmam já terem sido alvo de agressão sexual.

CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS

Segundo as respostas, o consumo excessivo de álcool (18%), a falta de educação dos estudantes (18%) e a impunidade (18%) seriam algumas das causas desses delitos.

O chamado “efeito de grupo”, com agressões durante festas, por exemplo, estaria na origem de 20% dos ataques. Entre os entrevistados, 34% declaram terem sido alvo ou testemunha de violência sexual, e 24% das vítimas foram agredidas quando estavam alcoolizadas.

De acordo com o relatório redigido após o estudo, os agressores, na maioria das vezes, também são estudantes universitários. “Na maior parte dos casos, trata-se de um amigo ou pessoa próxima da vítima.”

As agressões sexuais mais frequentes, segundo os entrevistados, são violência verbal (58%), contato físico não desejado (48%) e insultos de cunho homofóbico (40%).

SEXISMO

A pesquisa também se interessou pela questão do sexismo nas universidades. Para 35% dos homens ouvidos, as instituições de ensino superior respeitam a igualdade. Mas entre as mulheres essa porcentagem cai para 27%.

No entanto, o estudo aponta que, quanto mais avançados estão os entrevistados no percurso escolar, mais essa porcentagem aumenta.

“Nós partimos da hipótese de que os estudantes e as estudantes tomam consciência da realidade das violências sexistas conforme eles avançam na vida estudantil”, avalia o observatório.

DESCRENÇA NAS INSTITUIÇÕES

O relatório aponta ainda que os dispositivos existentes dentro das instituições para combater esse tipo de situação nem sempre são conhecidos pelos alunos.

Mais de um quarto das pessoas ouvidas não tinha informações sobre possíveis estruturas de apoio, e 18% afirmaram que esses dispositivos simplesmente não existiam.

Talvez por essa razão, apenas 11% dos entrevistados afirmam ter avisado as universidades após terem sido vítimas ou testemunhas de agressões.

Pelo menos 22% das pessoas consultadas consideram que denunciar a agressão junto às instituições “não adianta nada”, enquanto 9% alegam que as denúncias não serão levadas a sério.

Os autores do estudo lembram que a pesquisa é uma iniciativa lançada pelos próprios estudantes. No entanto, eles ressaltam que os métodos escolhidos e aplicados no estudo foram validados por um grupo de trabalho formado por profissionais qualificados.

Economista Mercedes D’Alessandro explica como é o primeiro orçamento com perspectiva de gênero na História da Argentina

Em entrevista a CELINA, Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero no Ministério da Economia argentino, explica que o Orçamento 2021 foi construído para atacar as desigualdades entre homens e mulheres que ainda persistem no país
Leda Antunes

A economista Mercedes D’Alessandro é autora de um livro sobre economia feminista (ainda inédito no Brasil) e, neste ano, assumiu o cargo de diretora nacional de Economia, Igualdade e Gênero do Ministério da Economia argentino Foto: Reprodução/Twitter

Pela primeira vez na história, o governo da Argentina enviou ao Congresso um orçamento com perspectiva de gênero. A ideia é que as ações do Estado contidas no orçamento de 2021 efetivamente contribuam para reduzir as disparidades de gênero na Argentina e possam assegurar direitos às mulheres. O projeto traz uma relação de 55 medidas especificamente identificadas, com recursos que correspondem a 15% do Orçamento total e a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Por trás da iniciativa está a economista Mercedes D’Alessandro, 42 anos, que atualmente comanda a Direção Nacional de Economia e Igualdade de Gênero do Ministério da Economia argentino.

D’Alessandro é uma das maiores referências no país quando o assunto é a economia feminista, uma vertente de pensamento que se dedica a repensar os principais conceitos da economia tradicional a partir de uma perspectiva que considera o valor do trabalho doméstico e de cuidado, feito majoritariamente por mulheres, para o funcionamento do sistema econômico.

Criada na província de Missiones, D’Alessandro concluiu o doutorado em Economia na Universidade de Buenos Aires e foi professora universitária por mais de 15 anos. Mudou-se para os Estados Unidos e, em 2015, na esteira do movimento “Ni Una Menos”, que discute violência de gênero e reivindica os direitos das mulheres na Argentina, criou o blog “Economia Feminista” para debater a igualdade de gênero sob uma perspectiva econômica. O sucesso foi tamanho que o blog se transformou em uma ONG especializada no assunto e virou livro: “Economía feminista. Cómo construir una sociedad igualitaria (sin perder el glamour)”, lançado em 2016 e ainda sem edição no Brasil.

Quando o economista Martín Guzmán assumiu o ministério da Economia do governo de Alberto Fernandez, eleito no ano passado, chamou D’Alessandro para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero, que hoje conta com seis pessoas na equipe subordinadas apenas ao ministro e ao vice-ministro, mas deve chegar ao fim do ano com 14.

Em entrevista a CELINA por Skype, ela falou sobre a construção do orçamento 2021, explicou quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina e os principais desafios para reduzir as disparidades entre homens e mulheres em um contexto de pandemia e crise econômica.

CELINA: Como surgiu o convite para criar a Diretoria Nacional de Economia e Igualdade de Gênero?

MERCEDES D’ALESSANDRO: Conheci Martín Guzmán, nosso atual ministro da Economia, quando estava nos EUA. Nos encontrávamos habitualmente para conversar sobre temas econômicos de interesse mútuo. E aí, quando lhe ofereceram o cargo de ministro, ele me convocou dizendo que queria criar no ministério um espaço institucional de economia com perspectiva de gênero.

Então voltei para Argentina para criar esse espaço, que não existia antes. Em termos de estrutura, acima de nós estão o ministro e o vice-ministro. A diretoria se desenhou dessa forma para que a nossa área tenha capacidade de incidir de maneira transversal em todas as demais áreas que formam o Ministério de Economia, como políticas macroeconômicas, políticas tributárias, finanças e energia.PUBLICIDADE

A missão da diretoria é trabalhar a economia e a igualdade de gênero. Isso é importante porque temos brechas de desigualdade gigantes, temos muita riqueza concentrada em poucas mãos e muita pobreza repartida. E isso, sob a perspectiva de gênero, se amplifica. A pobreza está feminizada e a riqueza está nas mãos dos homens. É um debate sobre desigualdade e sobre a necessidade da perspectiva de gênero para a transformação dessa estrutura de desigualdade.

Qual foi a sua função na elaboração do orçamento e o que significa ter um orçamento com perspectiva de gênero?

Um orçamento que se apresenta ao Congresso é como um plano de governo. Se esse governo entende que as mulheres têm maiores níveis de desemprego, de precarização e de pobreza, o plano que faz para o ano seguinte tem que responder a isso. O que fizemos foi sentar com a Fazenda, que é onde o orçamento é feito, e começar a procurar as políticas que têm como efeito diminuir as desigualdades. Identificamos que as despesas atribuídas para reduzir as disparidades de gênero correspondem a 15% do orçamento nacional que se apresenta para 2021. E isso equivale a 3,4% do PIB.

Além disso, elaboramos, junto com a Fazenda, uma mensagem ao Congresso para falar das condições de vida das mulheres e mostrar onde estão esses problemas e quais são as soluções. No processo, também falamos com cada um dos ministérios para saber quais políticas pensavam executar em 2021 para combater a desigualdade de gênero. Chamamos todas as pessoas responsáveis das áreas que entram no orçamento para pensar o que já estavam fazendo e onde, ou se não estavam fazendo e o porquê.

Também criamos ferramentas para medir os impactos dessas políticas, se o que foi atribuído foi executado, se cumpriu seu objetivo, se faltam recursos ou não, se a mesma política será mantida no ano seguinte. Isso também servirá para o público e para sociedade civil como uma ferramenta de transparência, para que se possa ver  o que o governo está fazendo de fato.

Mercedes D'Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino
Mercedes D’Alessandro, diretora nacional de Economia e Igualdade de Gênero, e Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina Foto: Reprodução/Governo Argentino

É a primeira vez que isso é feito na Argentina? Na América Latina houve algo parecido?

Não conheço como funciona em cada lugar, mas, na Argentina, sim, é a primeira vez. Quando se fala no programa de governo para o próximo ano, ele tem cinco pilares e um deles é a perspectiva de gênero e diversidade. Também é a primeira vez na História que um programa de governo propõe isso como um dos seus pilares.O discurso de gênero esteve presente em muitos governos, mas não nos decretos, nas leis e tampouco no orçamento. Uma coisa é falar de algo, outra é propor leis e a atribuir recursos para executá-las. Isso é único na Argentina.

Pode exemplificar algumas políticas que vão receber esses recursos e que desigualdades de gênero elas vão atacar?

A aposentadoria da dona de casa, como chamamos aqui, é uma das maiores despesas orçamentárias. Ela reconhece que o trabalho doméstico não remunerado é uma contribuição para a sociedade que precisa ser retribuída de alguma maneira pelo Estado. Essa política não é nova, mas agora podemos reconhecê-la e mostrá-la por essa perspectiva. É uma política que esteve em risco no governo anterior, que queria eliminá-la, mas a mobilização de muitas pessoas que estão perto de se aposentar o impediu.PUBLICIDADE

Outro exemplo é a criação do Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade. É a primeira vez que temos um ministério inteiro com essa função. Antes existia um instituto, com uma estrutura menor, mas agora o ministério tem um orçamento 13 vezes maior.

Uma das maiores propostas desse ministério para o próximo ano é uma política que se chama “Acompanhar.” Na Argentina, e em muitos países da América Latina, a mulher agredida por seu companheiro ou outra pessoa da família muitas vezes não tem condições financeiras para sair de casa. Esse programa, que é o maior do Ministério das Mulheres, concede o equivalente a um salário mínimo durante seis meses, além de acompanhamento psicológico e social, para que essas mulheres possam encontrar outro lugar para viver com segurança. É uma política nova, que vai começar a ser executada já no fim desse ano.

Todos os ministérios têm políticas com perspectiva de gênero?

A metade dos ministérios tem alguma despesa, e alguns têm políticas que não foram identificadas. Como é algo novo, alguns não puderam identificar ou fazer esse filtro a tempo, ou têm iniciativas menores, que não foram declaradas. No ano que vem, vamos registrar muito mais políticas, porque é um processo que vai se internalizando. E funciona graciosamente como um chamado, uma declaração de competência. Todos querem mostrar que fazem algo com a perspectiva de gênero e começam a pensar sobre isso.PUBLICIDADEhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Esse orçamento pode reduzir ou proteger as mulheres da violência de alguma forma?

Sim. O orçamento não reflete só as políticas econômicas ou de redução de desigualdades, mas também que protegem as mulheres da violência e que permitem que elas acessem serviços básicos de saúde. Por exemplo, uma despesa no orçamento que possibilita que haja maior atenção para a detecção precoce do câncer de mama, contraceptivos gratuitos nos hospitais e educação sexual e integral em todas as escolas públicas.

Outra novidade é que, além da Argentina já ter a Lei de Identidade de Gênero e o casamento igualitário garantido em lei, foi criada uma cota para profissionais travestis e transexuais no serviço público. Isso significa que 1% do emprego no Estado tem que estar reservado para pessoas transgênero. Pessoas travestis e trans, em geral, trabalham na prostituição, não têm acesso à educação e têm dificuldade para acessar o mercado laboral. Essa política está orientada para melhorar esse acesso.

Em 2021, a Argentina também realizará o censo, que é feito de dez em dez anos, e, pela primeira vez, será incluída uma pergunta sobre qual é a identidade de gênero autopercebida. Esse registro estatístico vai nos permitir identificar a situação das pessoas travestis e trans no país. Isso não está incluindo no orçamento, mas da mesma forma tem perspectiva de gênero.

Quais são as principais desigualdades de gênero na Argentina? E o que é mais difícil de atacar?

O mais difícil é a distribuição das tarefas de cuidado: 76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres, que trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades. Acho que é igual em toda a América Latina. As mulheres estão associadas a cuidar dos filhos, cozinhar, lavar a roupa, cuidar da casa. Quando dizemos que há uma assimetria na divisão dessas tarefas, os homens sempre dizem “na minha casa eu cozinho” ou “mas eu tiro o lixo”. Sempre querem mostrar que fazem algo e não entendem o que isso significa para as mulheres.

Fizemos um estudo desde a eleição para colocar um preço nas atividades de cuidado. Elas representam 16% do PIB da Argentina. Se considerarmos que o trabalho feito pelas mulheres no interior dos seus lares é um setor produtivo da nossa economia, ele seria o setor com o maior peso, antes mesmo da indústria e do comércio. 

'76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades', diz a economista argentina Mercedes D'Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino
‘76% do trabalho doméstico é feito pelas mulheres. Elas trabalham três vezes mais que os homens nessas atividades’, diz a economista argentina Mercedes D’Alessandro Foto: Reprodução/Governo Argentino

Analisamos os impactos da pandemia, com as escolas fechadas e os filhos em casa o tempo todo. Com isso, o setor do cuidado passou de 16% para 22% do PIB. Quer dizer que esse é o setor que mais cresce, enquanto todos os outros caem. Assim como aumentam os trabalhos essenciais, que não puderam deixar de ser realizados na pandemia, e que em grande parte são feitos por mulheres: professoras, enfermeiras e cozinheiras nos comedores populares.PUBLICIDADE

Eu sempre questiono meus colegas sobre como vamos retomar a economia se as crianças não podem ir à escola. Se isso acontecer, quem vai acabar deixando de trabalhar para ficar em casa vai ser a mulher. Isso é um problema, que está acontecendo agora no Brasil, no México, na Argentina e no Chile. Os empregos mais rapidamente retomados são os dos homens, e as mulheres estão ficando fora do mercado de trabalho. Esse é o maior desafio que temos: convencer nossos colegas que trabalham na produção, no transporte, na energia, todos setores muito masculinizados, que é preciso tomar medidas e pensar soluções. É muito difícil. Vejo as perguntas, mas não as soluções.

Sentiu alguma resistência para implementar a perspectiva de gênero no orçamento? O será mais desafiador quando ele for votado no Congresso?

O governo atual é aberto à perspectiva de gênero. Mas o maior problema que encontro é que, nessa crise que vivemos, tendemos a usar os instrumentos conhecidos. E esses instrumentos não têm perspectiva de gênero. Transformá-los leva tempo, e penso que os debates não serão suficientes. O orçamento é uma ferramenta gigantesca e que serve para fazer esse debate profundo, que se reflete em dinheiro. Porque é preciso de dinheiro para fazer as coisas.

No Congresso, hoje, não creio que as despesas de gênero serão motivo de discussão, mas, sim, a crise geral da Argentina. O orçamento prevê que o PIB vai cair 12 pontos em 2020. Em todo caso, o que está no foco da discussão é o que será feito no próximo ano para recuperar a economia. O maior desafio é compreender que essas políticas de gênero são políticas para a recuperação. Sem elas, não teremos como recuperar.

Dia Internacional da Menina: ‘Nada me preparou para o ódio que encontrei na internet’, diz estrela da série da Netflix ‘Eu Nunca…’

Maitreyi Ramakrishnan admite ter precisado de bastante desenvoltura para conseguir lidar com a reviravolta no roteiro de sua vida.
FERNANDO DUARTE

Maitreyi Ramakrishnan – Lara Solanki/Netflix

A jovem canadense de 18 anos alcançou a fama ao conquistar o papel principal de “Eu Nunca…”, série de comédia da Netflix, depois de deixar para trás 15 mil concorrentes.

Da noite para o dia, ela passou a ser exaltada como o destaque desta história de amadurecimento que retrata uma adolescente indo-americana de primeira geração. A série se tornou um grande sucesso de público, sendo um dos programas originais mais assistidos na plataforma de streaming em 2020.

Mas se de um lado Ramakrishnan afirma à BBC que transita pela grande maioria dos comentários nas redes sociais sociais, de outro ela revela que foi pega totalmente de surpresa por um aspecto da súbita fama.

“Eu me preparei para a série em si e para coisas como esta entrevista. A única coisa para a qual não pude me preparar foi para o ódio”, diz.

O ódio a que Ramakrishnan se refere são os ataques violentos nas redes sociais. “Eu sabia que isso aconteceria porque é o mundo em que vivemos. Você sabe o que é um comentário nojento ou uma ameaça de morte… Mas é diferente quando isso acontece de verdade.”

A atriz canadense afirma ter recorrido a afastamento temporários de suas contas de rede social quando se sentiu oprimida por experiências negativas.

“Eu me garanto de que todas as minhas contas de rede social sejam operadas por mim, pois quero ser minha voz autêntica”, explica. “Mas às vezes tenho feito pausas e me distanciado.”

‘MAIORIA DAS MULHERES ATACADAS ONLINE’

Infelizmente, Ramakrishnan não está sozinha, e então ela se tornou uma embaixadora da Plan International, uma ONG de direitos da criança focada na igualdade de gênero para ajudar a aumentar a conscientização sobre esta batalha contínua.

Mais de 14 mil meninas e jovens mulheres, de 15 a 22 anos, de 20 países diferentes responderam a uma pesquisa recente sobre vivenciar experiências semelhantes na internet. Os resultados, divulgados para coincidir com o Dia Internacional das Meninas (11 de outubro), apontam um quadro preocupante.

Mais da metade das entrevistadas (58%) disse ter sofrido ataques ou abusos nas plataformas de rede social. E quase 9 em cada 10 afirmaram ter sofrido vários tipos de assédio, desde o uso de linguagem abusiva e ofensiva até comentários racistas e ameaças de violência sexual.

“Isso não está certo”, diz Ramakrishnan. “A internet é uma ferramenta incrível de se ter quando se trata de encontrar respostas e aprender mais sobre o que está acontecendo no mundo, mas ataques são ataques e essa situação só aumenta a pressão que as meninas já enfrentam”, acrescenta.

Esse tipo de abuso está afastando algumas mulheres das redes sociais. Os pesquisadores da Plan International descobriram que a angústia causada por esse ataques online fez com que pelo menos 1 em cada 5 mulheres parasse ou reduzisse significativamente seu tempo na plataforma de rede social onde acontecia mais abusos.

De acordo com a pesquisa, isso ocorreu principalmente no Facebook e no Instagram. A CEO da Plan International, Anne-Birgitte Albrectsen, afirmou à BBC que tal afastamento em massa das redes sociais foi bastante prejudicial, especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando as jovens dependiam tanto de suas vidas digitais.

“Tirar as meninas dos espaços online é extremamente ‘desempoderador’, em um mundo cada vez mais digital, e prejudica a capacidade delas de serem vistas, ouvidas e de se tornarem líderes”, diz Albrectsen.

“Esses ataques podem não ser físicos, mas geralmente são ameaçadores, implacáveis e limitam a liberdade de expressão das meninas.”

ATIVISTA ATACADA COM XENOFOBIA E AMEAÇAS DE VIOLÊNCIA

Tudo isso é algo muito familiar para Nadiuska, ativista feminista de 19 anos, que participou da pesquisa da Plan International.

A nicaraguense diz que teve de lidar com “uma boa quantidade de ataques em seu país”, mas foram os incidentes no exterior que a chocaram seriamente.

Enquanto estava na Espanha no ano passado, para participar de uma marcha contra as mudanças climáticas, ela disse que recebeu ameaças em suas contas de rede social.

“Eu recebi uma mensagem xenófoba de um perfil me dizendo que eles tinham modos de me deportar e de me agredir”, relembra. “Eu fico com medo. Não me senti segura online.”

Nadiuska diz que episódios frequentes de ataques violentos afetaram sua saúde mental e teve que fazer terapia e tomar medicamentos para lidar com as emoções desencadeadas pelo abuso.

A pesquisa da Plan International descobriu que as mulheres engajadas em causas sociais são particularmente visadas por agressores, que também atingem desproporcionalmente pessoas de minorias raciais ou pessoas que se identificam como LGBTQ+.

“Como movimentos como #MeToo e Black Lives Matter mostraram, a mídia social se tornou um espaço cada vez mais importante para o ativismo”, diz Albrectsen, da Plan International. “Os números são mais ou menos iguais em todas as regiões, e isso é bastante preocupante.”

A Europa foi a região onde uma maior porcentagem de meninas relatou ataques online (63%), enquanto a América do Norte foi a menor, com 52%. A América Latina tem uma taxa de 60%.

“As redes sociais estão permitindo mais abuso contra essas jovens mulheres do que elas encontrariam na sociedade em geral”, afirma Albrectsen. Defensores da igualdade de gênero temem que esses ataques possam ser particularmente prejudiciais às tentativas de aumentar o número de mulheres online.

‘QUANTIDADE CHOCANTE DE FOTOS ÍNTIMAS NÃO SOLICITADAS’

As recém-chegadas ao ambiente online podem ser desestimuladas rapidamente, como lembra Cathy, uma ugandense de 20 anos.

A jovem começou a usar a internet há apenas três anos, pois para ela estar online e usar as redes sociais era uma distração muito necessária de uma rotina de trabalho duro como alfaiate, função que exerce para ajudar a sustentar sua mãe, sua irmã e seu irmão.

Mas ela disse no levantamento da ONG que logo depois de entrar no Facebook foi bombardeada por diversas fotos de nudez de um homem que conheceu online.

“Um cara veio à minha caixa de entrada e falou ‘oi’. Eu respondi ‘oi’. Ele disse ‘como você está?’, e eu respondi. Mas no dia seguinte, quando acordei, encontrei várias imagens bizarras. Ele tinha me mandado várias fotos pelado. Foi chocante e triste”, disse.

Histórias como a de Cathy estão longe de serem raras. Quase 40% das garotas e jovens mulheres entrevistadas na pesquisa registraram ter sofrido assédio sexual.

Há uma pressão crescente para que as plataformas de redes sociais combatam o assédio. As empresas dizem ter adotado nos últimos anos uma série de medidas voltadas para combater o abuso online e têm se comprometido publicamente em acabar com ele.

O Facebook, que também é dono do Instagram e do WhatsApp, afirma usar inteligência artificial para buscar conteúdo de bullying e diz monitorar constantemente denúncias de abuso feitos por usuários. E que sempre remove ameaças de estupro, por exemplo.

“É crucial manter as mulheres e garotas seguras em nossos aplicativos. Nós investimos em tecnologia para banir abusos de nossas plataformas e trabalhamos com mais de 200 organizações de segurança ao redor do mundo para proteger mulheres de ataques online, comentários ofensivos e atenção indesejada”, afirma em nota Cindy Southworth, chefe de segurança da mulher do Facebook.

“Pesquisas como essa (da Plan International) nos ajudam a entender mais profundamente como as mulheres e as meninas estão sendo afetadas por essas questões. Como parte da campanha da Plan International, estamos trabalhando com eles para abrir sessões de escuta com jovens mulheres para que elas compartilhem suas experiências e para quem nós possamos apoiá-las mais no Facebook, no Instagram e no WhatsApp”, acrescenta Southworth.

Procurado pela reportagem, o Twitter afirma que também usa ferramentas tecnológicas para identificar conteúdo abusivo, e que a maioria dos tuítes abusivos agora são identificados usando essas ferramentas, algo que faz com que não se dependa apenas de denúncias de usuários. A empresa também disse que lançou recursos para melhorar o controle dos usuários sobre suas conversas.

Até o momento da publicação desta reportagem, o Snapchat e o TikTok não haviam respondido aos pedido de comentários feitos pela BBC. Parte dos ativistas quer ver mais ações concretas de empresas e também de governos em termos de mudanças na legislação.

‘É PRECISO MAIS AÇÃO’

“No momento, o ônus de lutar contra o assédio online é das vítimas”, diz Chenai Chair, pesquisadora sobre gênero e direitos digitais na Web Foundation, organização criada pelo inventor da World Wide Web, Sir Tim Berners-Lee.

A atriz Maitreyi Ramakrishnan agora é também outra voz que amplia a pressão. Ela é uma das milhares de pessoas que assinaram uma carta aberta da Plan International pedindo às companhias de mídia social que “criem mecanismos de denúncia de violência mais eficazes”.

“As pessoas precisam entender que o assédio dói, mesmo quando vem de uma pessoa aleatória. Não devemos descartar o que as vítimas passam”, diz ela. “Eu denuncio comentários de ódio, mas acho que as plataformas não deveriam permitir isso antes de mais nada.”

BBC NEWS BRASIL

“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis

No Dia Internacional da Saúde Mental, 10 de outubro, a psicóloga Milena Reis conta à Glamour como é ser uma terapeuta negra em 2020 e dar apoio àqueles que estão passando pelos mesmos traumas que ela.
POR MALU PINHEIRO (@MARILUISAPP)

Young black depressed female character sitting on the floor and holding their knees, a cartoon scribble above their head, mental health issues (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

“Desde os 16 anos eu sempre quis ser psicóloga. Nunca fiz inscrição para outro curso no vestibular, nunca tive troca de carreira… A ideia da justiça social sempre me atraiu. Quando eu entrei na universidade, eu queria trabalhar com pessoas pretas em situações de risco. Eu mal sabia o que isso, de fato, era, mas eu queria – e hoje eu trabalho exatamente com isso.

Eu nunca fui ao psicólogo nem fiz terapia quando mais jovem, mas hoje percebo o quanto o teria feito diferença na minha vida, principalmente porque racismo não me atravessa na hora que eu entendo o que é racismo, ele me atravessa o tempo todo.

É importante a gente nomear as coisas. Às vezes, a experiência de uma pessoa preta parece que é pontual, que aquilo é só com ela. Por exemplo, existe um termo que chamamos de solidão da mulher preta. Adolescentes negras, em sua maioria, não têm namoradinhos – elas servem muito mais de ponte entre pessoas do que um destino de afeto. E eu achava que isso era só comigo por ser de um jeito ou de outro, mas quando você começa a ouvir as pessoas, você percebe que não, não é só com você.

Parece que a nossa experiência, principalmente para pessoas que vivem em lugares embranquecidos, é algo particular. Eu vivi 33 anos na região da Paulista, em São Paulo, em uma realidade completamente privilegiada – eu fiz inglês, eu fiz dois anos de cursinho. É importante a gente repensar nosso privilégio, claro, mas tem algumas situações que todo mundo passa: racismo te atravessa. E aí, você passa a entender como ele desumaniza a gente e tira da gente o que a gente é.

A psicologia fala de relações humanas, mas quando a relação é com outra pessoa preta, ela é ainda mais íntima. A gente vai percebendo algumas semelhanças e começa a propor objetos de estudo. Hoje eu faço uma especialização de prevenção e posvenção do suicídio e o tema do meu artigo é O racismo como fator de risco para o suicídio. O suicídio, em geral, é um tema amplamente discutido, mas só existe um livro publicado que relaciona população preta e LGBT com o suicídio. A gente não é tema.

“Atender pessoas pretas me atravessa, mas também me dá material para produzir conhecimento”Milena Reis

No código de ética do profissional da psicologia é indicado que o psicólogo deve contribuir para erradicar qualquer tipo de preconceito, discriminação e opressão – mas nem sempre se enxerga isso como um dever. É importante pensar que a gente vive em uma sociedade racista. Todas as nossas relações são baseadas a partir do racismo. A psicologia deveria ser instrumento antirracista? Deveria. Isso acontece na prática? Nem sempre. Toda vez que a gente tem um sistema de privilégio, as pessoas não querem deixar o privilégio para trás.

Psychologist african american woman and young girl patient in therapy session. Treatment of stress, addictions and mental problems. (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Eu ouço muito de pessoas pretas que passaram por psicólogos brancos, quando o racismo é assunto, existe um movimento de negá-lo. “Imagina, isso não acontece”, “A gente está em 2020” … Existe uma negação e negar o racismo é uma forma de silenciamento. Quando você fala isso, você principalmente nega o direito daquela pessoa de cuidar da sua própria saúde mental.

O racismo é uma ferida que não cicatriza. Você pode não se reconhecer como pessoa negra, mas o racismo vai chegar até você – as oportunidades são diminuídas. Me parece que o racismo estrutural normaliza a ideia de que pessoas pretas não são capazes.

Na psicologia, quando a gente atende alguém as questões do paciente podem se relacionar com a gente – seja pessoa branca, preta, hétero, trans, etc. Na experiência clínica, cada psicólogo desenvolve sua prática, priorizando a escuta ativa e a interpretação do discurso do paciente. Aliado a isso, eu faço terapia e supervisão dos casos, e sempre muito ligado como eu vou me relacionar com o discurso do paciente.

Sempre quando atendemos alguém, o racismo é pano de fundo. Eu preciso estar com o meu alerta ligado porque eu sou uma psicóloga preta e o racismo também chega até mim como profissional. Eu já escutei: “Mas e a psicóloga? Quando ela chega?”. Então, o alerta precisa estar ligado tanto para eu entender algumas questões do racismo chegando até essa psicóloga preta, mas também para eu entender o meu paciente. Preciso de munir de conhecimento, de técnica, refletir sobre a minha prática e, principalmente, fazer terapia.

Black community, african people gathered together, a set of male and female characters wearing casual clothes and different hairstyles (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Daí, surgiu a Clínica Preta – atender e começar a perceber que os pacientes pretos tinham alguma coisa em comum. Mas, a ideia não é só para atender clientes pretos, é uma clínica afrocentrada, uma psicologia pensando na valorização dos psicólogos pretos. A partir disso, a gente começa a trilhar atendimentos baseadas na técnica e na psicologia preta.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Toda pessoa negra terá que lidar com o racismo a sua vida toda. Como ele atravessa a nossa existência, hora ou outra ele vai aparecer na clínica. Ele pode não ter esse nome. E eu não preciso dizer isso para ela, mas eu entendo que a questão é um reflexo do racismo. Talvez, é preciso ser dito. Talvez, não. Mas o racismo está ali.”

‘No dia em que Eloisa reencontrar a filha, metade dos problemas dela serão solucionados’, diz ex-agente de modelo alagoana

A modelo estadunidense e atiPaulo Fernando Santos trabalhou com modelo encontrada em comunidade carioca
Joana Dale

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas em pé e casamento
Eloisa e sua filha Azurra desfilando para a Dolce & Gabbana em 2015 Foto: Divulgação

“No dia em que Eloisa reencontrar a filha, metade dos problemas dela serão solucionados. Testemunhei a infelicidade dela por ter que viver longe da menina”, conta ele.

Paulo lembra que a relação de Eloisa com Andre sempre foi difícil:

“Durante a gravidez, ele batia nela.”


De acordo com o booker, o russo – que atualmente mora em Londres com a menina – ganhou a guarda da criança ao apresentar fotos de Eloísa em “cenas comprometedoras” e a acusou de ser uma “modelo prostituta”. 
 
“São fotos em ato sexual, feitas pelo próprio. Ela sofre muito com essas imagens, que foram publicadas em alguns sites.

Agente de Eloisa Pinto Fontes durante um ano e meio em Nova York, o carioca Paulo Fernando Santos acredita que os problemas psicológicos pelos quais a modelo alagoana está passando são consequência de ela ter perdido a guarda da filha, Azzurra, para o ex-companheiro, o modelo e produtor executivo russo Andre Birleanu.

Em 2016, a modelo posou com a filha para a capa da “Elle” romena. No ano anterior, ela foi fotografada com o então companheiro para uma campanha da Dolce & Gabbana. Eloisa e André se conheceram em 2012, em São Paulo, e se casaram em 2014. Ele ficou conhecido pela sua participação no programa americano “America’s most smartest model” . 

Filha de uma família humilde, Eloisa deixou mãe e os sete irmãos em Alagoas para ir tentar a vida de modelo em São Paulo, aos 17 anos.PUBLICIDADE

“Assim como muitas mulheres brasileiras, que são abusadas às vezes dentro de casa por familiares, o mesmo pode ter acontecido com ela. Claro não podemos confirmar o que não temos certeza, mas é infelizmente uma realidade.”

Paulo, que hoje trabalha na agência Ford em Nova York, a conheceu na cidade americana quando ela fazia parte do casting da agência Marylin.

“Ela era modelo fotográfica, fazia look books, fotos para e-commerce. Poucas vezes faltava a um casting ou chegava atrasada. Era trabalhadora e ganhava seu dinheiro”. 

Paulo torce para que Eloisa reencontre, em breve, a filha, que atualmente tem 7 anos.

“Espero que ela não tenha que esperar a menina fazer 18 anos para ter autonomia para conseguir descobrir quem é sua mãe. Afinal, toda história tem dois lados.”

A equipe tentou contato com o ex-marido da modelo, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Entenda o caso

Na última terça-feira, dia 6, agentes da Operação Ipanema Presente localizaram a modelo, de 26 anos, que estava sendo procurada pela família há um ano. Eloisa estaria vivendo no interior do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio, e no momento em que foi encontrada, aparentava estar desorientada.

De acordo com a polícia, Eloisa foi levada para a base do Ipanema Presente, na Praça General Osório, onde recebeu apoio social. De lá, ela foi encaminhada para o Instituto Municipal Philippe Pinel, onde passou por uma avaliação psiquiátrica e ficou internada para cuidados de sua saúde mental.

Em junho de 2019, a modelo foi dada como desaparecida em Nova York, onde vivia e trabalhava. Cinco dias depois, ela foi vista andando, visivelmente desorientada, em uma rua de White Plains, cidade do estado de Nova York que fica a cerca de 30 minutos de trem do centro de Mahanttan. Um transeunte a encontrou na rua e chamou a polícia, que a identificou. Eloisa foi levada para um hospital de White Planis, onde ficou internada durante cerca de um mês.

Integrantes da banda Pussy Riot são presas após protesto pró-LGBT na Rússia

Duas artistas do grupo punk feminista foram detidas um dia depois de organizarem ato com bandeira de arco-íris
Polina Ivanova

Membros do grupo Pussy Riot durante ação na quarta (7) em que penduraram bandeiras LGBT na fachada de prédios públicos em protesto contra Putin Foto: Pussy Riot/Facebook/Divulgação

MOSCOU | REUTERS – A polícia russa deteve duas integrantes da banda punk Pussy Riot nesta quinta-feira (8), segundo o ativista Pyotr Verzilov, um dia depois de o grupo pendurar bandeiras de arco-íris em edifícios do governo no dia do aniversário do presidente Vladimir Putin para defender os direitos da população LGBT.

Pyotr Verzilov, ativista anti-Kremlin associado ao Pussy Riot, publicou vídeos nas redes sociais que mostram policiais detendo duas mulheres que ele identificou como as artistas Maria Alyokhina e Nika Nikulshina. O conteúdo também foi publicado no Twitter da banda.

O motivo da prisão, no entanto, não foi oficialmente anunciado pelas autoridades locais. ​O Pussy Riot ganhou fama em 2012, quando suas integrantes foram presas por fazerem um protesto contra Putin, em uma catedral ortodoxa de Moscou. Desde então o grupo se tornou símbolo de ações de protesto anti-Kremlin.

Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna recebem Nobel de Química pela descoberta de ‘tesouras genéticas’ para editar DNA

Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham recebido o Nobel de Química. É a primeira vez que duas mulheres recebem o prêmio juntas
Roberta Jansen e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

BREAKING NEWS: The 2020 #NobelPrize in Chemistry has been awarded to Emmanuelle Charpentier and Jennifer A. Doudna “for the development of a method for genome editing.”

As pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7, com o Prêmio Nobel de Química 2020 por seus trabalhos pelo “desenvolvimento de métodos para editar o genoma”. O secretário geral da Academia Real de Ciências da SuéciaGöran Hansson, resumiu as descobertas como a “reescrita do código da vida”.

A dupla da França e dos Estados Unidos recebeu o prêmio pela descoberta, como definiu o comitê do prêmio, de “uma das ferramentas mais afiadas da tecnologia genética: a tesoura genética CRISPR/Cas9”. Segundo a academia, a partir dessa ferramenta hoje é “possível alterar o DNA de animais, plantas e microrganismos com extrema precisão”.

O trabalho é considerado revolucionário ao abrir caminho para novas terapias contra cânceres, assim como “pode tornar realidade o sonho de curar doenças hereditárias”, aponta o comitê. As duas vão dividir igualmente o prêmio de 10 milhões de coroas suecas

“Há um poder enorme nessa ferramenta genética, que afeta a todos nós. Não só revolucionou a ciência básica, mas também resultou em colheitas inovadoras e levará a novos tratamentos médicos inovadores”, disse Claes Gustafsson, presidente do Comitê do Nobel de Química, durante a apresentação do prêmio.

Segundo ele, essa “tesoura genética” transformou a ciência molecular. “Hoje podemos editar basicamente qualquer genoma e responder todos os tipos de perguntas. E isso pode ser usado para corrigir falhas genéticas, como a que causa anemia falciforme. Você pode praticamente tirar a célula hematopoética, consertar e voltar para o paciente”, explicou.

“Fiquei muito emocionada, muito surpresa, parece que não é real”, afirmou Emmanuelle Charpentier, em participação na coletiva, com a voz embargada.

Como costuma acontecer na ciência, a descoberta dessas tesouras genéticas foi inesperada. Emmanuelle Charpentier estudava o streptococcus pyogenes, uma das bactérias mais danosas para a Humanidade e acabou descobrindo uma molécula até então desconhecida, tracrRNA. O trabalho de Charpentier mostrou que a tracrRNA fazia parte do antigo sistema imunológico da bactéria, CRISPR/Cas, capaz de desarmar vírus cortando seu DNA.

Emmauelle Charpentier e Jennifer Doudna foram laureadas pelo desenvolvimento do método de tesoura genética

Emmanuelle publicou sua descoberta em 2011. No mesmo ano, ela começou a trabalhar com Jennifer Doudna, uma experiente bioquímica com vasto conhecimento em RNA. Juntas, elas conseguiram recriar as tesouras genéticas da bactéria em laboratório, simplificando seus componentes de forma a torná-las mais fáceis de usar.

Em um experimento que marcou época, elas reprogramaram as tesouras genéticas. Originalmente, as tesouras reconheciam o DNA dos vírus, mas as duas cientistas provaram que poderiam controlá-la de forma a cortar qualquer molécula de DNA em lugares específicos. Quando o DNA é cortado, fica fácil reescrever o código da vida.

Desde que Emmanuelle e Jennifer descobriram a CRISPR/Cas9 em 2012, seu uso se popularizou em todo o mundo. Esta ferramenta contribuiu para muitas descobertas importantes da pesquisa básica. Pesquisadores que trabalham com plantas foram capazes de desenvolver novas variantes, resistentes a secas e vários tipos de pestes. Na Medicina, testes clínicos com novas terapias contra o câncer estão em desenvolvimento e o sonho de conseguir curar uma doença herdada está prestes a se tornar realidade. As tesouras genéticas levaram as ciências da vida para uma nova era, trazendo grandes benefícios para a Humanidade.

Quem são as vencedoras do Nobel de Química de 2020

Emmanuelle Charpentier nasceu em 1968 em Juvisy-sur-Orge, França. Obteve seu PhD. em 1995 no Instituto Pasteur, em Paris, França. É diretora da Unidade Max Planck para a Ciência de Patógenos, em BerlimAlemanha.

Jennifer A. Doudna nasceu em 1964 em Washington, D.C, nos EUA. Obteve seu PhD. em 1989 na Escola Médica de Harvard, em Boston, EUA. É professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA e pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes.

As duas cientistas se somam a um grupo de pouquíssimas mulheres que já receberam o Nobel de Química. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham sido laureadas. É primeira vez que duas mulheres são laureadas juntas.  Desde 1901, foram 185 agraciados, entre eles, apenas sete mulheres, contando a premiação desta quarta-feira. 

“Espero que essa premiação ofereça um exemplo positivo, especialmente para as jovens que queiram seguir o caminho das ciências, mostrando que as mulheres também podem ganhar prêmios mais importantes e ter um impacto positivo nas pesquisas”, disse Emmanuelle.

Saiba quem foram os premiados em anos anteriores

Prêmio Nobel de Química 2019: John Goodenough, da Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, do Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, do Japão

Em 2019, os pesquisadores John Goodenough, nascido na Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, nascido no Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, japonês, foram laureados pelo desenvolvimento das baterias de lítio. O trio criou “mundo recarregável”, nas palavras do comitê do Prêmio Nobel.

Prêmio Nobel de Química 2018: Frances H. Arnold, George P. Smith, ambos dos Estados Unidos, Gregory P. Winter, do Reino Unido

Em 2018, Frances H. Arnold, nascida nos Estados Unidos, levou o prêmio por uma invenção conhecida como evolução dirigida de enzimas. Ela dividiu a honraria com o americano George P. Smith e o britânico sir Gregory P. Winter, laureados pelo pioneirismo no desenvolvimento de uma técnica conhecida como “phage display”.

Prêmio Nobel de Química 2017: Jacques Dubochet, da Suíça, Joachim Frank, da Alemanha, e Richard Henderson, da Escócia

Em 2017, o prêmio foi dividido entre o suíço Jacques Dubochet, o alemão Joachim Frank e o escocês Richard Henderson. Eles se destacaram pelo desenvolvimento de métodos de microscopia que revolucionaram a bioquímica utilizando temperaturas muito baixas.

Prêmio Nobel de Química 2016: Jean-Pierre Sauvage, da França, J. Fraser Stoddart, do Reino Unido, e Bernard L. Feringa, da Holanda

O prêmio de 2016 foi compartilhado pelo francês Jean-Pierre Sauvage, o britânico sir J. Fraser Stoddart e o holandês Bernard L. Feringa por seus trabalhos no design e síntese de máquinas moleculares.

Prêmio Nobel de Química 2015: Tomas Lindahl, da Suécia, Paul Modrich, dos Estados Unidos, Aziz Sancar, da Turquia

Em 2015, o prêmio foi para o sueco Tomas Lindahl, o americano Paul Modrich e o turco Aziz Sancar por seus estudos sobre reparação do DNA danificado.

Prêmio Nobel de Química 2014: Eric Betzig, William E. Moerner, ambos dos Estados Unidos, e Stefan W. Hell, da Romênia

A edição de 2014 do Prêmio Nobel de Química laureou o americano Eric Betzig, o romeno Stefan W. Hell e o americano William E. Moerner pelo desenvolvimento da microscopia de fluorescência de super-resolução

Prêmio Nobel de Química 2013: Martin Karplus, da Áustria, Michael Levitt, da África do Sul, e Arieh Warshel, de Israel

O prêmio de 2013 foi concedido ao austríaco Martin Karplus, ao sul-africano Michael Levitt e ao israelense Arieh Warshel pelo desenvolvimento de modelos multiescala para sistemas químicos complexos

Prêmio Nobel de Química 2012: Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka, ambos dos Estados Unidos

Em 2012, os americanos Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka foram premiados pelos estudos sobre os receptores acoplados a proteínas G.

Prêmio Nobel de Química 2011: Dan Shechtman, de Israel

A edição de 2011 premiou o israelense Dan Shechtman por seu trabalho com semicristais.

Prêmio Nobel de Química 2010: Richard F. Heck, dos Estados Unidos, Ei-ichi Negishi, da China, Akira Suzuki, do Japão

Em 2010, o prêmio foi entregue ao americano Richard F. Heck, ao chinês Ei-ichi Negishi e ao japonês Akira Suzuki pelo catalisador de paládio de acoplamento cruzado em sínteses orgânicas.

Prêmio Nobel de Química 2009: Venkatraman Ramakrishnan, da Índia, Thomas A. Steitz, dos Estados Unidos, e Ada E. Yonath, de Israel

O prêmio de 2009 foi concedido ao indiano Venkatraman Ramakrishnan, ao americano Thomas A. Steitz e à israelense Ada E. Yonath pelos seus estudos sobre a estrutura molecular do ribossomo.

Sobre o Prêmio Nobel

Cada um dos vencedores dos prêmios deste ano, anunciados entre 5 e 12 de outubro, receberá um cheque de dez milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6,2 milhões) – um valor que não era pago há dez anos. Em 2011, a Fundação Nobel reduziu o valor do prêmio de dez milhões para oito milhões de coroas suecas. Em 2017, a instituição aumentou o valor para nove milhões. Somente este ano voltará ao valor original.

A Fundação Nobel administra os bens de Alfred Nobel, que deixou a maior parte de sua fortuna para a criação do prêmio com o seu nome em testamento feito em Paris, em 1895. Nobel inventou a dinamite em 1866, criação que o tornou rico.  A fundação concede os prêmios de medicinafísicaquímicaeconomialiteratura e paz.

Pela primeira vez desde 1944, a cerimônia de premiação física em 10 de dezembro foi cancelada, por conta da pandemia de covid-19, e substituída por um evento on-line, no qual os laureados receberão os prêmios em seu país de residência. Uma cerimônia ainda está marcada em Oslo para o Prêmio da Paz, mas reduzida ao mínimo.

O tradicional banquete dos prêmios Nobel, celebrado todo ano em dezembro em Estocolmo, na Suécia, também foi cancelado. O banquete do Nobel foi cancelado anteriormente durante as duas guerras mundiais. Também não ocorreu em 1907, 1924 e 1956.

Arquitetura dos direitos reprodutivos e ameaças ao aborto legal e seguro

Em artigo, Jacqueline Pitanguy e Silvia Pimentel fazem um histórico da conquista de direitos sexuais e reprodutivos pelas mulheres brasileiras e apontam o risco de retrocesso
Jacqueline Pitanguy e Silvia Pimentel

Abortos feitos sem condições mínimas de saúde e higiene são a quarta causa de mortalidade materna no Brasil Foto: Arte de Paula Cruz

Iniciamos esta reflexão homenageando a menina de 10 anos, negra e pobre, engravidada por seu tio sob violência e que conseguiu um aborto legal e seguro, assim como homenageando as pessoas e entidades – feministas, profissionais de saúde, da justiça, da sociedade civil e instâncias de governos estaduais – que se mobilizaram para que esta menina pudesse usufruir um direito assegurado e constantemente negado a tantas outras meninas e mulheres que sofrem violência sexual. Homenageamos também a antropóloga Debora Diniz por ter expressado, de forma poética e dramática que com muito esforço aprend(eu) a conhecer… as dores das mulheres e meninas, que… violentadas sexualmente e por consequência grávidas, exercem – ou não conseguem exercer – seu direito legal de interromper esta gestação.

O objetivo deste artigo é trazer os caminhos percorridos pelas mulheres na afirmação de seus direitos sexuais e reprodutivos e alertar o público leitor para a necessidade de defendê-los.

Há uma pré-história de lutas, alianças estratégicas, consensos, definição de aliados e de contendores que antecede a introdução do conceito de direitos reprodutivos na gramática dos direitos humanos e que se confunde com a própria história do movimento feminista no Brasil, que, ainda nos anos 1970, trouxe para o debate público questões ligadas à sexualidade e à reprodução.

“Nosso corpo nos pertence” e “O corpo é político” são slogans deste movimento que evidenciam as relações estruturais entre corpo e sociedade, corpo e poder. Em 1986, o Brasil regulamentou o Programa Integral de Saúde da Mulher (PAISM), que reconhece a dimensão da nossa saúde independente do binômio materno-infantil e que traçou, por primeira vez, uma política de saúde sexual e reprodutiva. No mesmo ano de 1986, em grande encontro organizado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), foi aprovada a Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, que afirma o princípio de que Saúde é um direito de todas as pessoas e um dever do Estado e demanda, ainda, a garantia de assistência integral à saúde da mulher, livre opção pela maternidade, direito de interrupção da gravidez e gratuidade dos anticoncepcionais.

É importante ressaltar que há mais de três décadas as mulheres brasileiras não separam o abortamento do seu ciclo reprodutivo. O corpo que evita a gravidez é o mesmo corpo que tem direito de gerar a vida e ter acesso aos serviços da área da saúde, conforme estabelece a Constituição Federal de 1988 (CF/88), em especial o direito de ter garantidos seu pré-natal, parto e puerpério assistidos pelo SUS. O mesmo SUS que deve garantir seu direito à saúde quando, em determinadas circunstâncias, recorre à interrupção da gravidez com base no direito brasileiro. (Código Penal, 1940)

Nós mulheres alcançamos o reconhecimento, na Constituição de 1988, do direito de escolher livremente o número de filhos, bem como o reconhecimento do dever do Estado em fornecer informação e meios para tal (Artigo 226, §7º). Lutamos também contra movimentos internacionais autodenominados Prólife e seus seguidores nacionais em sua sanha por gerar retrocesso no direito adquirido desde 1940, que permite a interrupção da gravidez em casos de estupro e risco de vida, situações reconhecidas em praticamente todos os 193 Estados-parte das Nações Unidas.

Trazemos aqui um dado do Center for Reproductive Rights: em todo o mundo apenas 5% das mulheres em idade reprodutiva vivem em países que proíbem o aborto em quaisquer circunstâncias. E chamamos atenção para o fato de que hoje, no Brasil, são poderosas as forças no executivo, no legislativo e mesmo no judiciário que pretendem jogar as mulheres brasileiras neste grupo, tornando-as párias no âmbito mundial.

Isto significa que, na imensa maioria dos países, é permitida a interrupção da gravidez, com variações nas circunstâncias em que este procedimento é legal. No sentido inverso, acentuam-se no Congresso Nacional Brasileiro os projetos de lei com o intuito de impedir avanços e, especificamente, retroceder com a proibição da interrupção da gravidez em qualquer circunstância.

A legislação brasileira com relação ao aborto é das mais restritivas do mundo. Apenas em 2012, o STF autorizou a interrupção em casos de anencefalia. Problemas de saúde da gestante, outras anomalias fetais incompatíveis com a vida e condições socioeconômicas vulneráveis, por exemplo, não estão consideradas no direito brasileiro.

Na década de 1990, houve a realização de importantes Conferências Internacionais das Nações Unidas (ONU), como a II Conferência Mundial de Direitos Humanos, em Viena, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, e a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim. Documentos dessas conferências, apoiados pelo Brasil, afirmam e reafirmam que os direitos humanos são universais, indivisíveis e interdependentes, e que os direitos das mulheres são direitos humanos. Afirmam, também que a autonomia e a saúde reprodutiva são direitos humanos; que o aborto é uma questão de saúde pública; que o acesso ao aborto seguro deve ser assegurado pelos governos nas situações em que é permitido; que todas as complicações do aborto, mesmo que ilegal, devem ser tratadas pelo sistema de saúde; e que sejam revistas as punições contra mulheres que praticam o aborto. Lembramos que o aborto inseguro é a terceira causa de morte materna no Brasil, atingindo majoritariamente mulheres pobres e negras. As taxas de mortalidade materna em nosso país são vergonhosamente elevadas, mesmo se comparadas a países mais pobres.

‘Profissionais de saúde não são agentes de segurança’

No Brasil, também por força dos movimentos de mulheres, avançamos em regulamentar o parágrafo 7º do artigo 226 da CF/88, advogando pela Lei de Planejamento Familiar, promulgada em 1996. Outro passo na construção de políticas públicas para o exercício dos direitos reprodutivos se refere à regulamentação, a partir de 1999, através de Normas Técnicas do Ministério da Saúde, da atenção a vítimas de violência sexual, incluindo o acesso à contracepção de emergência, a profilaxia para infecções sexualmente transmissíveis e ao abortamento, caso o estupro resulte em gravidez. São normas que afirmam também a separação absoluta entre as esferas policiais e de saúde. Profissionais da saúde não são agentes de segurança. Qual o sentido de uma pessoa chegar a um hospital esfaqueada ou baleada e, antes de ser atendida, ter que prestar queixa na delegacia, responder a um interrogatório, além da obrigatoriedade dos médicos em notificar à polícia deste atendimento? Não é assim que a atenção à saúde funciona. A prática médica é regida pelo Código de Ética Médica, no qual a confidencialidade da atenção ao paciente é central. Nada disso é levado em conta pelas duas recentes Portarias do Ministério da Saúde, em agosto e setembro, respectivamente: Portaria 2.282/20 e Portaria 2.561/20, que serão retomadas mais adiante.

Diante de uma realidade em que são ainda escassos os serviços de atendimento a vítimas de violência sexual em nosso país, estes têm sido reduzidos e constantemente atacados por forças radicais fundamentalistas ideológicas-religiosas e laicas – que hoje ocupam espaços de poder no governo e utilizam recursos e energias para demolir o que já foi construído no país em matéria de direitos reprodutivos, incluindo o aborto legal e seguro.

Os tempos hoje são de fechamento do ciclo virtuoso de afirmação de direitos e enfrentamos uma arquitetura de sua demolição. Assim, no recente dia 28 de setembro, quando é celebrada a autonomia reprodutiva e o direito ao aborto, invocamos o que foi conquistado e renovamos energias para impedir retrocessos.

Forças políticas no Poder Executivo, no Legislativo e em setores de segurança e justiça vêm atuando tanto no plano nacional como internacional, deslocando gênero, sexualidade, reprodução, direitos sexuais e reprodutivos para um espaço de transcendência espiritual no qual tais conceitos representam o perigo, o malefício, o demoníaco, a contaminação a ser aniquilada em uma cruzada entre o bem e o mal. Essa cruzada ideológica se apresenta em nome da família tradicional, patriarcal, de valores cristãos ocidentais, contra a ciência, o comunismo, a globalização, o meio ambiente, a diversidade, afetando diretamente as políticas educacionais, culturais, de saúde, ambientais dentre outras.

Internacionalmente a “sagrada cruzada” leva o Brasil a aliar-se a países onde as mulheres são ainda cidadãs de segunda categoria, como Arábia Saudita, Afeganistão e Paquistão condenando, nas esferas da ONU, o uso de conceitos de gênero e de saúde reprodutiva que já integram há décadas o vocabulário de seus documentos oficiais. O Brasil já não se apresenta como um país laico e plural e, lamentavelmente, se afasta, cada vez mais, dos acordos multilaterais que assinou.

As duas iniciativas do Ministério da Saúde acima mencionadas o distanciam da saúde sexual e reprodutiva das mulheres brasileiras, especialmente se considerarmos a interseccionalidade dos marcadores sociais de gênero, raça e classe. Antes disto, já havia acontecido o episódio de suspensão de uma Nota Técnica elaborada pela equipe da Coordenação de Saúde da Mulher deste ministério, com orientações cruciais para garantir o acesso das mulheres a serviços de saúde sexual e reprodutiva, instando a que não houvesse interrupção nestes serviços durante a pandemia da Covid-19, em consonância com orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Editada em 1º de junho, esta Nota Técnica foi imediatamente revogada pelo Ministro, e a equipe responsável por sua elaboração, afastada.

A Portaria de agosto foi publicada com o objetivo de tornar obrigatória a notificação, à autoridade policial, dos casos de violência contra mulheres e meninas atendidos em serviços públicos ou privados de saúde. Trouxe também a perversa orientação de que a equipe médica informe à gestante acerca da possibilidade de visualização do feto ou embrião por meio de ultrassonografia. Nesse momento, o governo escancara seu papel de coator e violador dos direitos das mulheres. Diante da repercussão negativa da Portaria, com forte reação dos mais diversos setores, o texto foi alterado em alguns artigos e, assim, aqueles mais execráveis foram revogados através da Portaria de setembro. O novo texto continua a coibir a autonomia reprodutiva das mulheres, pois insiste em regulamentar, detalhadamente, o procedimento de interrupção legal da gravidez, mantendo o dever dos médicos de comunicar as violências à autoridade policial. Desta forma, reafirma a exclusiva preocupação com a segurança jurídica do médico.

Na mesma toada e seguindo igual propósito, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos acaba de prenunciar (30/09) outra perversidade, travestida de boas intenções, ao divulgar um acordo de cooperação técnica com o Conselho Federal de Medicina. Cria-se mais uma comunicação externa aos serviços de saúde, através de um canal de denúncias anônimas de violações de direitos humanos, notificação e confirmação de casos suspeitos de violência autoprovocada, ou seja, suspeitas de suicídio e automutilação – expressamente estabelecidas no texto. Vale alertar sobre a nossa grande preocupação/intuição de que o objetivo mascarado neste acordo de cooperação técnica admitiria a interpretação extensiva ao abortamento. O canal preservaria apenas a identidade do médico denunciante.

Não somos apenas expectadoras de nossa História. Não podemos apenas assistir a arquitetura de demolição de direitos sexuais e reprodutivos em curso no país. Concluímos, homenageando a grande filosofa Hannah Arendt e o seu genial pensar e agir, em que nos ensina a pensar criticamente o passado e o presente para agir politicamente na construção do futuro. A ação política – e, portanto, pública, onde o pensar crítico se movimenta – é o fio condutor que une experiências do passado e do presente, permitindo-nos imaginar e construir futuros melhores.

* Jacqueline Pitanguy, socióloga, coordenadora Executiva da CEPIA, cofundadora da Comissão de Cidadania e Reprodução, integrou o Conselho Editorial da revista Health and Human Rights do Centro Xavier Bagnoud da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard

* Silvia Pimentel, professora doutora em Filosofia do Direito, integrante do Comitê CEDAW/ONU de 2005 a 2016 e sua presidente entre 2011 e 2012; cofundadora do CLADEM, da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Consórcio Lei Maria da Penha