No Dia da Consciência Negra, canal exibe ‘Green Book: Guia Para a Liberdade’

Documentário será apresentado nesta quarta, 20, no Smithsonian Channel
Eliana Silva de Souza

Imagem do documentário ‘Green Book’ (foto Smithsonian Channel)

O documentário Green Book: Guia Para a Liberdade estreia nesta quarta, 20, às 20h, no Smithsonian Channel. Escolhido para ser um dos destaques da programa neste Dia da Consciência Negra, filme traz a história que foi contada em livro por Victor H. Green. Ele, um carteiro do Harlem, em Nova York, decidiu montar essa espécie de guia, com o objetivo de ajudar os afro-americanos a viajar com relativa segurança pelas estradas do país, em uma de intensa segregação racial. Escrita e dirigida pela cineasta americana Yoruba Richen, produção reúne depoimentos de historiadores, empreendedores da época e viajantes negros que enfrentaram o preconceito e o temor de percorrer os Estados Unidos, momentos antes do movimento de luta pelos direitos civis.

DEBATE NECESSÁRIO
Nesta quarta, 20, o Opinião Nacional também vem temático, tendo o Dia da Consciência Negra como mote para discussão sobre a afirmação da identidade negra e o racismo em nossa sociedade. Apresentado por Andressa Boni, programa conta com a participação do jurista e filósofo Silvio Luiz de Almeida, criador do termo racismo estrutural, e a rapper e historiadora Preta Rara, criadora da página Eu, Empregada Doméstica, no Facebook. Atração vai ao ar, às 22h15, na TV Cultura.

TRISTE HISTÓRIA
Continuando na pegada do Dia da Consciência Negra, o Canal Curta! exibe nesta quarta, 20, às 22h30, A Última Abolição. Documentário faz um retrato da escravidão no Brasil, com enfoque no período da abolição, destacando os movimentos abolicionistas, a resistência escrava, o papel das mulheres negras na resistência, as discussões da elite do País no período, culminando com a assinatura da Lei Áurea e suas consequências. A direção é de Alice Gomez Duração.

LOUCURA POLICIAL  
Inédita no Brasil, a série Kepler, estreia nesta quarta, 20, às 20h25, no canal TV5Monde. Feita em oito episódios, traz a história do problemático policial Samuel Kepler (Marc Lavoine). Após uma operação policial desastrosa, ele volta ao trabalho, mas terá de encarar o serviço burocrático. No entanto, ele voltará para as ruas para investigar um homicídio.

NOVIDADE POR AÍ
A Netflix anunciou o início da produção de uma nova série original, a Sky Rojo, que traz a assinatura de Álex Pina e Esther Martínez Lobato. Produção conta a história de três prostitutas, uma brasileira, uma colombiana e uma espanhola.

Maryam Touzani mostra uma discreta janela árabe em ‘Adam’

Diretora e roteirista conta como surgiu o filme indicado pelo Marrocos para concorrer ao Oscar
Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

Intimismo. Mulheres, ações do cotidiano e o imenso talento de Lubna Azabal Foto: ARTEPLEX FILMES

Maryam Touzani conversa com o Estado de sua casa, em Casablanca. Nas últimas semanas, tem feito a rota para os EUA, mais exatamente a Costa Oeste. Seu longa Adam, que estreou na quinta, 14, foi indicado pelo Marrocos para concorrer a uma vaga no Oscar de melhor filme internacional. Tem conhecido muita gente. Voltou para casa porque haveria uma sessão com debate na universidade de Casablanca, e ela queria estar lá. Contou a gênese.

Estava grávida, e é um momento muito particular na vida de uma mulher. Veio-me uma história que vivi, ou da qual fui testemunha. Quando estava na faculdade, no estrangeiro, voltei para casa num período de férias. Minha mãe dera guarida a uma grávida que não teria como criar seu bebê. Ela o estava gerando para dar em adoção. Acompanhei o processo no seu final, a dor dessa mulher que não queria se apegar ao bebê. A história voltou quando gerava meu filho. Comecei a pensar, e se ocorresse comigo? O filme e o bebê foram gestados juntos. Lembro da excitação do primeiro chute, que foi um pouco semelhante ao momento em que o roteiro começou a tomar forma no computador. O filme que eu queria fazer.”

E que filme era esse? “Um filme intimista, pequeno no formato, mas com uma ambição. Queria dar voz às mulheres, filmar sua condição humana e social. Samia está na rua, terá esse filho e se livrará dele para poder voltar para casa. Abla cria a filha sozinha, após a morte do marido. Tudo o que as separa também as aproxima.”

Na trama de Adam, Samia, acolhida por Abla, começa a ajudá-la em seu pequeno negócio. Pães, massas. Um lugar pequeno, apertado. Uma janela para o mundo, que passa ali fora.

Ecos de Alfred Hitchcock, mas Janela Indiscreta era sobre um crime. Claro, Hitchcock é sinônimo de suspense. Maryam queria apenas olhar o mundo, recriar o mundo lá fora. Os efeitos sobre as mulheres aqui dentro. Seu marido, o cineasta Nabil Ayouch, foi o produtor. “Me deu as condições de fazer o filme, mas dizia que a obra era minha e não ia interferir em nada.”

Na fase da escrita, Maryam via Samia com a cara daquela jovem que havia conhecido. Pensou em fazer o filme com não profissionais, mas resolveu mesclar atrizes com o espetáculo da vida lá fora, e dosar situações recriadas com flagrantes arrancados à realidade. Filmou com Lubna Azabal, que fora atriz de seu marido e hoje mora na Bélgica. “Ela topou, mas eu queria que fosse uma autêntica mulher da Medina. Lubna viveu a rotina. Foi ao mercado, fez o pão, a massa. É um filme simples, mas verdadeiro, feito de emoções sinceras”, define.

Na África Ocidental, o ‘#MeeToo’ esbarra no ‘#EntãoProve’

Onda de casos de violência sexual no país (e no mundo) alerta sobre as dificuldades que vítimas têm para denunciar
Julie Turkewitz, The New York Times

Depois de acusar o pastor da igreja que frequentava de estupro, Busola Dakolo soube que estava sendo investigada. Foto: KC Nwakalor / The New York Times

LAGOS, NIGÉRIA – Ela afirmou que aquilo era um segredo tão dolorido que não conseguia mais guardar. Então, aos 34 anos, Busola Dakolo, uma conhecida fotógrafa nigeriana, foi à TV e finalmente falou. Ela disse que tinha sido estuprada duas vezes quando era adolescente, pelo pastor da igreja que frequentava, Biodun Fatoyinbo, líder religioso cujos cultos atraem milhares de pessoas e que começou a ser chamado de “pastor Gucci” pelos fãs, impressionados com seu suntuoso estilo de vida. Ele nega a acusação.

Depois de anos em que o silêncio a respeito de estupros e assédios sexuais foi a regra, a África Ocidental tem testemunhado uma onda de denúncias ligadas ao movimento #MeeToo (#EuTambém). As acusações vêm de uma rainha da beleza do Gâmbia que afirmou ter sido estuprada pelo ex-presidente; de uma ex-assessora presidencial de Serra Leoa que disse ter sofrido um ataque sexual de um líder religioso; e de uma jornalista nigeriana da BBC que obteve imagens de câmera escondida de professores solicitando sexo em troca de admissões e notas.

As gravações provocaram indignação e levaram à suspensão de pelo menos quatro professores. Mas muitas mulheres que tornaram públicos crimes sexuais enfrentaram fortes retaliações, incluindo ataques contra sua reputação e acusações de terem mentido a respeito das denúncias.

Enquanto os detratores afirmam estar meramente aplicando o ceticismo adequado a acusações que não foram provadas, quem apoia as denunciantes afirma que essa reação revela como é difícil para as mulheres da região se abrir.

Medo de denunciar

Mulheres de muitos países foram vítimas de retaliações. Mas as vítimas de ataques sexuais na África Ocidental dizem ter medo de outras coisas, como envergonhar suas famílias, afastar maridos em potencial ou enfrentar instituições poderosas. “Tudo ainda gira em torno de proteger esses homens”, afirmou Busola. A acusação que ela fez resultou em uma visita da polícia, que lhe disse que ela estava sendo investigada em um caso de associação para cometer crimes.

Fatoyinbo afirmou no Instagram que muitas pessoas usaram acusações similares para tentar extorqui-lo. “Nunca estuprei ninguém na minha vida, mesmo quando era um incrédulo”, escreveu o líder religioso, que se recusou a conceder entrevista.

Busola afirmou que fez a revelação depois que ela e seu marido, um astro pop, souberam que o pastor tinha continuado a atacar sexualmente outras frequentadoras da igreja. Mas o custo pessoal, ela acrescentou, foi alto – e incluiu ameaças, assédios e uma difícil conversa com seus três filhos a respeito de estupro. “Você começa a se perguntar, será que fiz a coisa certa?.”

Religião

A religião tem uma força enorme na Nigéria, país de 200 milhões de pessoas dividido entre cristãos e muçulmanos. Nos últimos anos, Fatoyinbo aumentou a presença de sua congregação, a Assembleia da Comunidade de Sion, para cinco cidades. Ele prega a cada vez mais popular teologia da prosperidade, que postula que o sucesso econômico pode ser obtido por meio da fé e das doações para a igreja.

Mas Busola encontrou-se com Fatoyinbo aproximadamente duas décadas atrás, quando ele era um astro em ascensão e ela, ainda uma adolescente. Quando ela tinha 17 anos, o pastor a estuprou em duas oportunidades, ela afirmou, uma vez na casa dela e outra em uma beira de estrada em um lugar isolado. Busola disse que o pastor se desculpou, pondo no diabo a culpa pelo seu comportamento.

A entrevista que Busola concedeu em junho ao jornalista Chude Jideonwo, na qual ela acusou Fatoyinbo pela primeira vez, inspirou um protesto do lado de fora de sua igreja e o forçou a tirar uma licença. Mas Busola logo se viu sob pesadas suspeitas. Em um domingo, recentemente, milhares de fiéis se reuniram na igreja da Fatoyinbo para vê-lo pregar a respeito da importância de resistir “a tudo que o inimigo usa para tentar nos seduzir.”

Do lado de fora, alguns diziam que o pastor não poderia ter feito nada de errado. Outros admitiam que um encontro sexual poderia ter acontecido, mas encorajavam o pastor a seguir em frente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

“Perdoar e esquecer”, afirmou Stephen Yakubu, de 52 anos. “Não é isso que Deus diz?”

Acusação de estupro contra Polanski atinge estreia de seu filme J’accuse na França

Grupo de feministas protestaram nesta quarta-feira, 13, contra o lançamento do longa; no Twitter, internautas convocaram um boicote ao diretor
Christophe Archambault/ AFP, Agências

Roman Polanski
Feministas protestam contra Polanski durante a estreia do filme ‘J’accuse’ em Paris, na França Foto: Christophe Archambault/ AFP

A estreia do último filme de Roman Polanski na França, nesta quarta-feira, 13, foi marcada por protestos, devido a uma nova acusação de estupro contra o diretor, que abalou o apoio de que desfruta na indústria francesa do cinema.

A promoção de J’accuse, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza, foi alterada e seus protagonistas Jean Dujardin e Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski, tiveram de cancelar as costumeiras entrevistas de promoção.

Várias feministas bloquearam na última terça-feira, 12, a pré-estreia do filme em um cinema parisiense, aos gritos de ‘estuprador Polanski’, enquanto no Twitter circulava um apelo ao boicote da obra.

O cineasta franco-polonês de 86 anos foi acusado na sexta-feira passada, 8, por uma francesa, Valentine Monnier, de tê-la estuprado depois de espancá-la em 1975, na Suíça, quando ela estava com 18 anos, segundo testemunho publicado no jornal Le Parisien. Por meio de seu advogado, Polanski negou essas acusações e disse que estuda uma ‘ação legal’.

O diretor é considerado foragido da Justiça dos Estados Unidos, onde, em 1977, foi acusado de estuprar uma menor de 13 anos. Outras mulheres alegaram terem sido abusadas sexualmente por ele nos últimos anos.

Perseguição

Denunciando o “séquito incondicional de intelectuais e artistas” que continuam a apoiar o diretor, Valentine disse que decidiu tornar público seu testemunho para contrariar comparações entre o cineasta e seu último filme.

J’accuse conta o erro judicial histórico de que o militar judeu Alfred Dreyfus foi vítima no final do século XIX, na França, por razões antissemitas. “Estou familiarizado com muitas das performances do aparato de perseguição exibido no filme”, disse o diretor, que afirma ter sido injustamente criticado durante anos pela opinião pública.

Um protesto popular o forçou em 2017 a recusar o convite para presidir o Prêmio César, o Oscar do cinema francês. Já a senadora socialista e ex-ministra Laurence Rossignol disse nesta quarta-feira que não irá assistir ao filme. “É um filme que não vou ver, porque não se pode premiar Polanski com isso. Não se pode virar a página”, afirmou, ao convocar o boicote.

Eu abuso

No Twitter, alguns internautas compartilharam a hashtag #BoicotePolanski, enquanto circulavam outras modificando o título do filme, como Eu abuso. Outros apoiaram o diretor, de família judia. “É muito sério agredi-lo neste momento, quando há um aumento do antissemitismo na Europa“, disse a diretora Nadine Trintignant.

Na pré-estreia oficial de terça-feira na Champs-Élysées, em Paris, à qual Polanski compareceu, muitos dos convidados disseram ‘diferenciar o homem do cineasta’. “Venho ver o trabalho do diretor. Não sei se do que é acusado é verdadeiro, ou não”, disse à AFP uma das espectadoras, Seny Carette.

Mas o escândalo levou a Sociedade Civil de Autores, Produtores e Produtores (ARP), da qual Polanski faz parte, a anunciar que estudará medidas contra membros que foram julgados por agressão sexual. “A seriedade do momento força nosso conselho de administração a se expressar”, declarou o ARP.

A decisão da ARP também veio depois da primeira vez em que uma conhecida atriz francesa, Adèle Haenel, denunciou na semana passada ter sido vítima de um ataque sexual na indústria. Ela acusou o diretor Christophe Ruggia de “assédio permanente”, quando ela era adolescente.

Glamour US The ‘Women of the Year’ Issue 2019

Charlize Theron, Megan Rapinoe, Ava DuVernay

Glamour US The ‘Women of the Year’ Issue 2019: Charlize Theron, Greta Thunberg, Ava DuVernay, Megan Rapinoe, Yara Shahidi, Margaret Atwood e Tory Burch

As realizações dos homenageados do Glamour Women of the Year Awards são vastas, mas todas as suas histórias têm uma coisa em comum: essas mulheres não estão esperando que o mundo se torne um lugar melhor – elas estão criando um. Eles abrangem uma ampla variedade de idades, origens e profissões – um autor, um diretor, um atleta, um designer, atores e ativistas lutando para fazer uma diferença duradoura. Eles são todos guerreiros na linha de frente da mudança.

Hospedado por Busy Philipps no Alice Tully Hall no Lincoln Center da cidade de Nova York em 11 de novembro, o Glamour 2019 Women of the Year Awards foi um dos nossos maiores. Durante todo o ano, vimos mulheres subirem mais, pensarem mais e exigirem mais. Um número recorde de mulheres venceu as eleições para o Congresso no outono passado. Mais mulheres estão começando negócios do que nunca. Continuamos compartilhando nossas histórias #MeToo e nossas demandas por segurança no local de trabalho e em nossos relacionamentos. Insistimos em oportunidades iguais e salários iguais, especialmente para mulheres de cor.

Na noite de segunda-feira, 11 de novembro, comemoramos essas mensagens de esperança, força e resiliência – e as mulheres que usam suas plataformas para divulgá-las.

Perfil: Quem é Jane Fonda, atriz que adotou as sextas-feiras como ‘dia para ser presa’

Dona de uma carreira impecável, ela conquistou dois prêmios Oscars enquanto protestava contra a Guerra do Vietnã; veja mais na biografia feita pelo ‘Estado’
Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

Atriz faz graça aos fotográfos após ser presa pela polícia na sexta-feira de 18 de outubro. Jane tem longo histórico de ativismo. Foto: Sarah Silbiger/ Reuters

Como hoje é sexta-feira, pode-se imaginar o que, desde cedo, está se passando na capital dos Estados Unidos. Uma senhora prepara-se para ser presa em algum momento do dia, alguém da guarnição prepara-se para prendê-la. A dama é uma famosa estrela de cinema e TV, Jane Fonda, que resolveu seguir o exemplo de uma garota sueca – Greta Thunberg – e instituiu as sextas-feiras como dia para tentar salvar o planeta.

Vestida com um casaco vermelho cintilante, ela tem protestado em frente ao Capitólio. Tem ido com amigos – Catherine KeenerRosanna ArquetteTed Danson -, ocupando as escadarias com chamamentos sobre a urgência da crise ambiental, que o presidente Donald Trump e seus epígonos ao redor do mundo insistem em minimizar.

Confiscam-lhe o celular, ela vai presa, batem a identidade. Terminam por libertá-la. Na semana que vem tem mais. Já foram quatro sextas-feiras, essa será a quinta e Jane, de 81 anos – nasceu em 1937 -, pretende continuar sendo presa até meados de janeiro, quando recomeça a produção da que está sendo anunciada como última temporada de Grace & Frankie, sua série (com Lily Tomlin) da Netflix. Para ela, a militância ecológica talvez seja uma novidade, mas não propriamente a militância. Nos anos 1960/70, Jane participou de manifestações nos campi das universidades norte-americanas. Com o então companheiro, Tom Hayden, foi ativista contra a Guerra do Vietnã. Chegou a ir a Hanói, via Paris, onde viveu com outro marido – o cineasta Roger Vadim -, para se solidarizar com os norte-vietnamitas, que sofriam ataques de napalm. Era chamada, pelo establishment militar, de Hanói Jane.

Jane Fonda
Da esquerda para a direita: Jane Fonda e Lily Tomlin durante a estreia de ‘Grace and Frankie’, série produzida pela Netflix Foto: Mario Anzuoni/ Reuters

Filha de Henry Fonda, um astro que pertencia à aristocracia de Hollywood, a mãe era uma socialite de Nova York. Não admira que tenha sido batizada como Lady Jayne. A mãe suicidou-se, e ela e o irmão, Peter Fonda – que morreu este ano -, foram enviados para internatos. O pai seguiu a rotina de casamentos e divórcios – só muitos anos mais tarde, quando Henry já estava no fim, Jane acertou os ponteiros com ele. Decidida a ser atriz, iniciou a carreira em casa – Hollywood -, mas foi para a França e se ligou a Vadim. Ele, que já iniciara o mito de Brigitte Bardot em E Deus Criou a Mulher, fez dela um mito sexual em Barbarella. Alternando Europa e EUA, Jane ganhou o primeiro Oscar – em 1972, por Klute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula – e filmou com Jean-Luc Godard (e Yves Montand), Tout Va Bien, que foi seguido por Letter to Jane. Foi às ruas com os estudantes, apanhou da polícia protestando contra a guerra, foi chamada de antipatriótica por veteranos.

Jane Fonda
Jane Fonda virou um símbolo sexual ao interpretar uma viajante do espaço em ‘Barbarella’, filme de Roger Vadim lançado em 1968 Foto: IMDB/ Divulgação

Tudo isso faz parte de sua biografia. Ganhou outro Oscar de melhor atriz – em 1979, por Amargo Regresso, de Hal Ashby, justamente sobre a dificuldade de adaptação de veteranos da guerra. Casou-se com Ted Turner, virou garota propaganda dos benefícios das academias na busca da eterna juventude. Essa fase passou, mas agora uma outra Jane – outra? A mesma! – está de volta às ruas, e aos protestos. A causa ambiental, o aquecimento global. A série vai bem, obrigado. Grace & Frankie aborda com humor temas importantes de gênero. Como hoje é sexta, vale repetir, é dia de Jane Fonda ser presa. O tempo passa e ela não desiste do engajamento. Jane, em Hollywood, foi sempre assim. Não uma diva, uma esfinge inatingível. Uma mulher do seu tempo.

Atriz francesa Adèle Haenel acusa diretor Christophe Ruggia de assédio sexual e sacode cinema francês

‘Os monstros não existem. É nossa sociedade, nós, nossos amigos, nossos pais. É nisto que devemos prestar atenção’, afirmou a atriz
AFP

A atriz francesa Adèle Haenel (DOMINIQUE CHARRIAU VIA GETTY IMAGES)

As acusações de assédio sexual da atriz francesa Adèle Haenel contra o diretor Christophe Ruggia provocaram uma onda de comoção que pode contribuir para quebrar o silêncio sobre esta questão no cinema francês, dois anos depois do surgimento do movimento #MeToo.

A atriz, de 30 anos, que está abrindo caminho na cena internacional com o recente filme Retrato de uma jovem em chamas, acusou Ruggia de tê-la assediado quando ela era adolescente.

Suas declarações, apoiadas com uma investigação do jornal Mediapart, suscitaram o apoio de colegas, como a vencedora do Oscar Marion Cotillard, ao mesmo tempo em que a Promotoria de Paris abriu uma investigação preliminar.

Haenel denunciou na segunda-feira o “controle” que Ruggia exerceu sobre ela durante a filmagem de Les Diables, assim como o “assédio sexual permanente”, os “toques” repetidos e os “beijos forçados no pescoço” que ocorreram na casa do diretor e em vários festivais de cinema quando ela tinha entre 12 e 15 anos.

Ruggia, de 54 anos, voltou a refutar as acusações nesta quarta, mas admitiu ter “cometido o erro de brincar de ser um pigmaleão com os mal-entendidos e os obstáculos que esta postura suscita”.

“Não percebi que minha adulação (…) podia lhe parecer, devido a sua juventude, penosa em alguns momentos”, disse, pedindo-lhe “perdão”, em uma reação ao Mediapart.

A Sociedade de Diretores de Filmes da França, uma associação profissional que reúne 300 membros, reagiu no dia seguinte, expulsando Ruggia e oferecendo seu “apoio total” a Haenel.

Consequências

Embora outras atrizes francesas tenham acusado anteriormente um diretor, ou produtor, de assédio sexual, é a primeira vez que se trata de uma figura reconhecida, ganhadora de dois prêmios César, e que a acusação é feita abertamente, com o apoio de várias testemunhas.

“Estamos diante de um momento de mudança. É a primeira vez na França que uma atriz conhecida internacionalmente, que trabalha muito e está muito cotada, toma a palavra sobre este assunto”, afirma a jornalista Véronique Le Bris, fundadora do site cine-woman.fr, para quem as acusações de Haenel terão “consequências obrigatoriamente”.

Para a professora universitária Iris Brey, especialista na representação do gênero no cinema, “até agora, na França, não se tinha querido manter estas conversas pós #MeToo“.

Haenel explicou em uma emissão transmitida ao vivo no site Mediapart que havia decidido dar um passo à frente, porque o “mundo mudou”.

“Devo o fato de poder falar agora a todas aquelas que falaram no âmbito do #MeToo”, disse.

“Os monstros não existem”

“Para mim, é uma responsabilidade, porque posso me permitir, porque trabalho o suficiente”, desabafou a atriz. “Os monstros não existem. É nossa sociedade, nós, nossos amigos, nossos pais. É nisto que devemos prestar atenção”, advertiu.

Haenel decidiu não denunciar Ruggia à Justiça, lamentando que haja “tão poucas” condenações nesse tipo de casos. A Promotoria de Paris anunciou, porém, ter aberto uma investigação preliminar por “agressões sexuais” a uma menor por parte de uma “pessoa com autoridade”, assim como por “assédio sexual”.

Em sua intervenção, Haenel estimou ainda que há uma “violência sistêmica contra as mulheres no âmbito judicial”, algo que fez a ministra desta pasta reagir.

“Acredito que, pelo contrário, sobretudo com o que ela disse, deveria comparecer perante a Justiça, que pode se encarregar desse tipo de situação”, disse a ministra Nicole Belloubet.

O diretor francês Christophe Ruggia Foto: Francois Guillott / AFP

O testemunho de Haenel gerou uma avalanche de reações nas redes sociais.

“Adèle, sua coragem é um presente de uma generosidade sem igual”, escreveu Cotillard. “Você rompeu um silêncio tão pesado…”, acrescentou.

“Uma grande admiração por Adèle Haenel, que fala por todas aquelas que estão na sombra”, disse no Instagram a atriz Julie Gayet, companheira do ex-presidente François Hollande.

Ruggia afirmou que sua “exclusão social está em andamento”, lamentando que hoje em dia se acuse à margem da justiça, “no pelourinho midiático”.

Unifrance, organismo encarregado da promoção do cinema francês no exterior, também ofereceu seu apoio, “condenando sem reservas qualquer ato violento, ou comportamento inapropriado”. O órgão anunciou a elaboração, em breve, de um código de conduta dirigido aos profissionais que participam de seus eventos.