Um ano de progressos para as mulheres no jazz

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O álbum de estreia de Jaimie Branch, à esquerda, foi um dos destaques de 2017. (Mark Abramson para The New York Times)

Em setembro, durante 77 horas seguidas, a baixista e vocalista Esperanza Spalding transmitiu ao vivo no Facebook seu processo de composição, ensaio e gravação de um álbum inteiro. Intitulado de “Exposure”, o projeto foi uma demonstração de capacidade e confiança.

Os espectadores (alguns milhares por vez) acompanharam enquanto Esperanza mostrava partes complexas ao pianista, ou enquanto decidia aproveitar ou descartar cada tomada. “Exposure” mostrou que é possível transformar o processo técnico e obsessivo da gravação do jazz num espetáculo público. Transpareceu o fato de os estúdios de gravação estarem entre os espaços mais dominados pelos homens na indústria musical, e Esperanza ser com frequência a única mulher presente.

“Exposure” foi um dos muitos notáveis lançamentos de mulheres jazzistas em 2017. As mulheres tiveram um ano de dolorosas revelações e acertos de contas nos ambientes de trabalho dos Estados Unidos, e o mesmo valeu para o jazz. Mas 2017 também pareceu marcar um momento de progresso.

Talvez pela primeira vez, os organizadores de festivais não puderam escapar das críticas, incluindo uma ou duas mulheres para acompanhar uma porção de homens. “A visibilidade da desigualdade entre homens e mulheres no universo do jazz chegou a uma espécie de encruzilhada”, disse Terri Lyne Carrington, 52 anos, baterista de talento reconhecido. “Em termos do reconhecimento de um maior número de mulheres instrumentistas, seja em termos de álbuns ou participações em festivais, as melhorias são constantes.”

O ano começou com um lembrete do trabalho que ainda precisa ser feito. Em março, o pianista e blogueiro Ethan Iverson publicou uma entrevista com Robert Glasper, destacado pianista do gênero fusion, na qual Glasper dizia compreender as expectativas das ouvintes de jazz. “Elas não gostam de muitos solos”, disse ele. “Quando chegamos a um ritmo melódico e nos atemos a ele, é como um clitóris musical. Mantemos o groove, e os olhos delas se fecham, balançando como num transe.” Parece não ter ocorrido a ele que a maneira mais simples de atrair mais mulheres para o jazz seria colocar mais delas entre os músicos no palco.

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Sasha Berliner, 19 anos, estudante de jazz de Nova York, publicou em seu blog um texto de 6 mil palavras falando do sexismo no jazz. (SF JAZZ)

Sasha Berliner, 19 anos, estudante de jazz e vibrafonista da New School, de Nova York, respondeu com um texto de 6 mil palavras em seu blog. Na publicação, ela conta de casos em que foi subestimada ou ignorada pelos professores, apesar do seu talento formidável, e revela ter sofrido assédio sexual por parte de alguém de quem ela depende para conseguir apresentações em San Francisco.

“Vi esse tipo de coisa acontecer muitas vezes com minhas colegas, que são muito jovens, e isso as desestimulou”, disse ela em entrevista.

Talvez os mais notáveis álbuns de estreia no jazz deste ano tenham sido “Fly or Die”, da trompetista Jaimie Branch, e “Mannequins”, da baterista Kate Gentile. Kate toca composições originais um pouco sujas, bastante fortes, e cheias de ímpeto. Jaimie usa técnicas avançadas e a abstração para obter efeitos incríveis.

A flautista Nicole Mitchell, 50 anos, mentora de Jaimie, teve também um ano inesquecível. O destaque foi o álbum “Mandorla Awakening II: Emerging Worlds”, gravado com a banda Black Earth Ensemble, de oito membros, que inclui oito instrumentos de percussão e cordas de todo o mundo.

A violoncelista Tomeka Reid, outra discípula de Nicole, passou o ano ocupada com apresentações de requinte. Lançou um álbum com o saxofonista Nick Mazzarella e outro com o trio de cordas Hear in Now, de poderosas instrumentistas. “Quando comecei a me interessar pela música de improviso”, disse Tomeka, “vi mulheres na liderança, compositoras. Vi mulheres realizando seus projetos”. [Giovanni Russonello]

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Fernanda Torres revela detalhes da vida pessoal e os planos para o futuro

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Fernanda Torres na Marie Claire de janeiro (Foto: Christian Gaul)

São 2 da tarde de um dia ensolarado no Rio, quando Fernanda Torres recebe Marie Claire  para a primeira de duas longas conversas, no apartamento onde mora com o marido, o diretor Andrucha Waddington, e os filhos, Joaquim, 18, e Antonio, 9. Enquanto faz um café, Nanda, como os amigos a chamam, fala sobre sua preocupação com os haters. Poucos dias antes, sua mãe, a atriz Fernanda Montenegro, havia participado de uma campanha pela liberdade de expressão. O vídeo, que viralizou, foi hostilizado e a atriz, ameaçada. “Uma pessoa escreveu que, se visse minha mãe na rua, passaria com o carro em cima. Denunciamos ao Facebook e a resposta foi que o post não feria sua ‘política’. Fiquei chocada.”

Não foi a primeira vez que Nanda teve de lidar com o ódio na rede. Em 2016, escreveu um texto para o blog #AgoraÉqueSãoElas, no site da Folha de S.Paulo, em que dizia: “A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que machismo”. Despertou a ira das feministas e levou uma chamada do filho mais velho. Logo em seguida, pediu desculpas em um novo artigo. “Me senti uma mulher do século passado. Foi Joaquim quem me localizou no tempo e no espaço. Tanto que se tornou meu revisor nesse texto”, diz. “Descobri que o meu discurso era de exceção. Sou neta de operários e jamais meu avô proibiu minha mãe de ser atriz, numa época em que, para isso, era preciso ter carteirinha de puta. Os direitos foram dados a mim, sem que eu precisasse lutar por eles”, reflete.

Sua juventude não teve nada de trivial: foi nos bastidores do teatro, acompanhando Fernanda e Fernando Torres. “Fui criada na coxia e foi uma infância tristíssima: meus pais trabalhavam de terça a domingo, sem fim de semana nem feriado. Ir ao teatro era fazer parte da vida deles”, relembra.

Desse período, no entanto, sobram histórias divertidas, como a primeira viagem internacional da família, quando Nanda tinha 9 anos. “Meus pais ganharam duas passagens e decidiram levar a mim e ao meu irmão, Cláudio, à Europa. Seriam 45 dias para conhecer tudo. Foi um périplo exaustivo, dois dias em cada cidade, e ainda cruzamos o oceano rumo à Disney e a Nova York, onde finalmente eu poderia comprar brinquedos”, lembra ela. “Meu sonho era ter uma Barbie e, quando chegamos à loja, escolhi uma para a minha prima e, quando peguei a minha, mamãe disse: ‘Pra que duas? Brinca com a dela’. Resignada, trouxe o Ken pra mim”, fala, às gargalhadas. “Contei isso numa entrevista e, no meu aniversário de 40 anos, minha mãe me deu a Barbie. Ficou horrorizada de eu ter esse trauma.”

Com ou sem Barbie, Nanda teve pouco tempo para as bonecas. Aos 13 anos, estreou no teatro. Aos 16, recusou o primeiro papel em um filme por influência dos pais. “Foi a única vez em que eles falaram: ‘Esse não dá para você fazer’.” Não por acaso, nesse longa, ela seria uma ninfeta, com muitas cenas de nudez. “Na época, a pornochanchada sustentava o cinema. Se não tirasse a roupa, não dava público. Como parte do lançamento, era comum a atriz já assinar com a Playboy”, conta ela, que nunca topou posar para a revista.

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Fernanda Torres é a capa de janeiro da Marie Claire (Foto: Christian Gaul)

A decisão foi correta. Após esse episódio, acumulou sucessos no teatro, no cinema e na TV. Antes dos 30 anos, Nanda tinha até um troféu de melhor atriz em Cannes. Então, cansou. Não queria mais atuar. “Lamentei ter saído do colégio aos 17 e não ter feito faculdade. Foi quando comecei a escrever.”

Sem saber, construía uma nova versão de si mesma. Primeiro, fez roteiros de filmes como O Redentor, dirigido pelo irmão, Cláudio. Depois, passou a assinar crônicas para jornais e revistas. Em 2013, publicou o primeiro livro, Fim (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 39,90), sucesso instantâneo, com mais de 180 mil exemplares vendidos e traduzido para sete línguas. Em paralelo, assumiu de vez o humor ácido com o qual encara essa “tragicomédia que é a vida”, e que a inspirou a compor a Vani, de Os Normais, e a Fátima, de Entre Tapas e Beijos.

É nessa nova persona que ela aposta agora, enquanto prepara a volta à TV, na série Sob Pressão, no ar em junho, e lança o segundo romance, A Glória e Seu Cortejo de Horrores (Companhia das Letras, 216 págs., R$ 44,90) – que a colocou entre as escritoras de ficção mais vendidas do Brasil. Desde que chegou às lojas em dezembro, o livro ganhou inúmeros elogios, foi destaque na revista The New Yorker e será traduzido para o francês. [Adriana Ferreira Silva]

Edição De Moda Larissa Lucchese