No Japão, mães enfrentam jornadas intermináveis de trabalho

Mais mulheres estão ingressando no mercado de trabalho do Japão, mas os estritos papéis de gênero asfixiam suas ambições
Motoko Rich, The New York Times

Yoshiko Nishimasa trabalha  meio período e realiza a maior parte das tarefas domésticas. Seu marido raramente está em casa antes das 22h. Foto: Andrea DiCenzo para The New York Times

O trabalho nunca acaba para Yoshiko Nishimasa. Ela precisa completar diariamente os relatórios das crianças, sem falar nas inúmeras tarefas escolares que cuidadosamente deve conferir e aprovar. Ela mantém, inclusive, registros diários de suas conversas, atividades e refeições. Mas nenhuma dessas obrigações tem a ver com sua função. Tudo isso é exigido pela pré-escola dos filhos – antes de ela ir para o escritório.

Como tantas mães que trabalham no Japão, Yoshiko, 38, precisa desempenhar tarefas burocráticas que oneram esta força de trabalho em uma época na qual o país afirma precisar desesperadamente de mais mulheres como ela.

O objetivo explícito do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, é injetar mais energia na fraca economia do país, valorizando a contribuição da mão de obra feminina, iniciativa chamada “womenomics” (economia das mulheres).

No Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em janeiro, Abe elogiou o fato de 67% das mulheres japonesas estarem trabalhando, a cifra mais elevada de todos os tempos e “superior à dos Estados Unidos”. Entretanto, a maioria delas permanece em funções limitadas, e um dos maiores obstáculos para suas ambições – e da nação como um todo – é o ônus desproporcional que recai sobre seus ombros em casa.

É o legado das tradições do país e dos rígidos papéis de gênero. Embora as mulheres japonesas tenham ingressado na força de trabalho em patamares históricos, a avalanche de responsabilidades domésticas que lhes foram reservadas não diminuiu – e os homens não costumam ajudá-las. Na realidade, no Japão os homens dedicam menos horas às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos em comparação com as nações mais ricas do mundo.

Segundo uma análise de Noriko O. Tsuya, da Keio University de Tóquio, as mulheres que trabalham mais de 49 horas por semana costumam dedicar aos afazeres domésticos mais de 25 horas semanais – enquanto seus maridos contribuem em média com menos de cinco.

Vejamos a rotina diária de Yoshiko. A pré-escola dos filhos mais novos exige que a família mantenha registros diários de suas temperaturas e de sua alimentação duas vezes ao dia, além da descrição do seu humor, das horas de sono e do tempo que passam brincando. A escola elementar do filho de oito anos e o programa depois da aula exigem que um dos pais assine pessoalmente cada tarefa de casa da criança.

O expediente doméstico só está começando para ela. Um jantar típico japonês muitas vezes exige a preparação de diversos pratos pequenos. Os lanches para levar à escola podem ser verdadeiras obras de arte. E é preciso levar em conta que as lavadoras de pratos ainda não são tão comuns, e a roupas molhadas, em geral, são postas para secar em varais. Ela faz a maior parte deste trabalho.

Seu marido, um consultor administrativo, muitas vezes fica no escritório até tarde ou sai para beber com os clientes – todas essas também são expectativas profundamente arraigadas no Japão, particularmente para os homens.

Mas a economia do Japão precisa de mulheres com formação superior preparadas para usar todo o seu potencial no trabalho. Depois da Segunda Guerra Mundial, depois de se casar ou ter filhos, as mulheres japonesas deixavam de trabalhar para cuidar da casa enquanto os maridos dedicavam longas horas ao emprego a fim de impulsionar a expansão industrial japonesa.

No final dos anos 1970, as mulheres casadas começaram lentamente a ingressar na força de trabalho. Então, quando as bolhas de ações e imobiliária do Japão estouraram no início dos anos 1990, um grande porcentual delas voltou a trabalhar para impedir que as finanças da família afundassem. Depois disso, o Japão lutou para se erguer de um prolongado período de estagnação. Em 2011, foi superado pela China como segunda maior economia do mundo.

Agora, com o declínio e o envelhecimento da população, os empregadores japoneses lutam contra uma aguda escassez de mão de obra. O país ainda se opõe a intensificar a imigração, por isso Abe ressaltou a importância de as mulheres trabalhadoras ajudarem a sustentar a economia no longo prazo. Mas cerca da metade da mão de obra feminina só tem empregos de meio período, e mais da metade em contratos temporários.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, menos de 1% das mulheres empregadas no Japão ocupam cargos na administração, em comparação com uma média de 4,6% nas nações mais desenvolvidas.

Como muitas companhias japonesas, a empregadora de Yoshiko aceita que ela tenha suas responsabilidades domésticas. Até o filho mais novo entrar no terceiro ano, ela só pode dedicar ao trabalho sete horas diárias, embora com um salário 30% mais baixo. A empresa nunca pede a ela que faça as horas extras que conseguia fazer antes do nascimento dos filhos. Mas por causa disso, há oito anos Yoshiko não tem uma promoção e recebeu poucos aumentos salariais.

“Quando perguntei o motivo, meu chefe disse que a minha produção era menor porque trabalho menos horas”, disse.

Um verdadeiro malabarismo

Depois que Yoshiko se formou em uma importante universidade em Tóquio, trabalhou para uma editora de livros escolares. Casou-se quatro anos mais tarde. E ficou chocada quando, automaticamente, a companhia mudou sua situação no emprego para meio período.

“O meu chefe explicou: ‘Você não é mais adequada para esse tipo de trabalho porque provavelmente terá de sair e ter filhos, certo?'”, lembrou.

Yoshiko Nishimasa pega a condução todos os dias para o trabalho. Depois de um expediente de sete horas, busca as crianças mais novas na escola. Foto: Andrea DiCenzo/The New York Times

Procurou outro emprego, mas ouviu dos possíveis empregadores que ela provavelmente não poderia trabalhar até tarde. “Seu marido compreende quanto você estará ocupada?”, questionavam.

A editora na qual encontrou trabalho não perguntou sua situação conjugal. Mas as horas eram pesadas, e quando ela engravidou, aos 29 anos, não reduziu seu ritmo de trabalho; muitas vezes Yoshiko continuava no escritório até a meia-noite. Sofreu um aborto no início da gravidez.

Engravidou novamente, mas continuou mantendo uma extenuante rotina de trabalho. Às vezes, ela saía às 22h. “Como eu era a primeira a sair, precisava pedir perdão às minhas colegas”, lembra.

Depois do parto, Yoshiko nunca pensou em deixar o emprego. Mas seu marido precisa atingir rigorosas metas para conseguir aumentos e promoções, e ela teve de reduzir as horas de expediente. 

“Teoricamente, seria ideal que eu precisasse trabalhar menos horas e Yoshiko mais”, contou o marido, Kazuhiro Nishimasa. “Mas, realmente, não é viável”.

Igualdade: um sonho distante

Pouco mais da metade das mães japonesas volta ao trabalho depois do nascimento do primeiro filho. Mas, frequentemente, elas só conseguem ocupações de meio período, enquanto os maridos continuam trabalhando um número brutal de horas, contribuindo para um fenômeno chamado “karoshi”, ou “morte por excesso de trabalho”.

Segundo especialistas, a cultura do excesso de trabalho no Japão é desnecessária, leva à ineficiência e à baixa produtividade. Se todos trabalhassem menos horas, as mulheres poderiam recuperar o atraso em relação aos homens, e a sociedade japonesa como um todo se beneficiaria, afirmam. Mas as arraigadas expectativas culturais são outro obstáculo.

No ano passado, a construtora de imóveis residenciais Daiwa House realizou uma pesquisa com 300 casais que trabalham e constatou que as mulheres realizavam cerca de 90% das obrigações domésticas, muitas delas sem que os maridos se dessem conta. Os resultados tornaram-se virais na hashtag “namonaki kaji”, algo como “obrigações domésticas invisíveis”.

“A consciência dos homens ainda é muito baixa”, disse Kazuko Yoshida, 38, designer gráfica e mãe de duas crianças. “Meu marido não tem o conceito de igualdade de gênero”.

O marido, Takashisa Yoshida, diz que quer estar mais envolvido com a educação dos filhos. Mas não se sente seguro para lidar com duas crianças.

Mães multitarefas

Em uma tarde de sexta-feira, Yoshiko saiu correndo do escritório para apanhar a filha Mei, de 5 anos, e o filho mais novo, Haruki, 2, e foi direto para a salinha de repouso da pré-escola dos meninos, onde ficam os colchões. Arrancou lençóis e cobertores e colocou um jogo novo que lavara em casa. Depois pegou os sapatos que Mei usa em casa, antes que uma professora lhe desse algum papel para a tarefa no fim de semana: confeccionar uma bandeira.

Na saída, Yoshiko carregou os dois na bicicleta e pedalou até em casa. Chegaram pouco depois das 18h. Dez minutos mais tarde, chegou também o filho mais velho, Kazuaki, de 8 anos, que participa do programa depois das aulas.

No Japão, homens dedicam menos horas ao trabalho doméstico e ao cuidado com os filhos em comparação a outras nações desenvolvidas Foto: Andrea DiCenzo/The New York Times

Yoshiko começou, então, a preparar a variedade de pratos para o jantar. Engoliu um pouco de comida enquanto carregava a lavadora e preparava o banho. Verificou a lição de casa de Kazuaki, enxaguou os pratos e guardou as sobras. As crianças tomaram banho uma depois da outra.

Pouco antes das 22h, o telefone tocou. Não era o marido, que estava bebendo fora com uns clientes. Era outra mãe, perguntando quando poderiam se encontrar na manhã seguinte, enquanto os maridos ainda estariam dormindo. Yoshiko voltou ao trabalho, a revisão dos diários para a pré-escola. Em um último esforço, passou o aspirador na sala. Finalmente, todos se enfiaram no quarto do casal, porque as crianças ainda estavam com vontade de brincar.

“Estou cansado”, disse Haruki a certa altura.

“Também estou cansada!”, observou Yoshiko. “Vamos para a cama”.

A casa finalmente se aquietou perto 23h. O marido ainda não tinha chegado em casa.

“Quem trabalha muitas horas consegue uma promoção”, explicou. “Os chefes têm empregadas em tempo integral”. / Hisako Ueno contribuiu para a reportagem.

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Chega de calças e blusas largas. O uniforme de chefs agora é outro

As roupas de cozinha foram concebidas para homens, mas, até que enfim, o mundo culinário se distancia de uma mentalidade de clube do Bolinha
Por Khushbu Shah, do The New York Times

Mulheres chefs: Movimento #MeToo muda a mentalidade nas cozinhas  (Hero Images/Getty Images)

Os uniformes da chef doceira Natasha Pickowicz costumavam ser um problema diário. Ela percebeu que eles sempre eram muito grandes. Blusas enormes e calças largas eram a norma em muitos restaurantes. “O tamanho unissex é uma piada. Todas essas roupas são feitas para homens”, disse ela.

A vestimenta não só dava um ar desleixado, mas também atrapalhava na cozinha. “A blusa cai em cima do que você está fazendo, a calça arrasta no chão e te faz tropeçar”, contou Pickowicz.

Desde que se tornou o padrão na França do século XIX, o traje tradicional dos chefs é o conjunto formal e cheio de firulas conhecido como branco do chef: blusa justa com manga comprida e uma fileira dupla de botões na frente. Embora tecnicamente qualquer um pudesse ser chef, as roupas foram originalmente concebidas para os homens.

Mas, nos últimos anos, muitos proprietários de restaurantes e chefs adotaram uma nova estética em cozinhas profissionais que é menos hierárquica, mais confortável e inclusiva, para todas as formas, tamanhos e gêneros.

Conforme o mundo culinário vai se distanciando de uma mentalidade de clube do Bolinha – mais recentemente por causa do movimento #MeToo –, o mesmo acontece com empresas de uniformes de cozinha, como a Hedley & Bennett, a Tilit e a Polka Pants, que produzem roupas que são confortáveis e elegantes.

As três foram fundadas por ex-cozinheiros há quase seis anos para acabar com suas frustrações em relação aos uniformes tradicionais. A Hedley & Bennett, em Los Angeles, e a Tilit, em Nova York, estocam todos os seus estilos em tamanhos e cortes diferentes para homens e mulheres, para se ajustarem a uma grande variedade de corpos.

“Oferecer desde um PP feminino até um 4XG masculino era algo óbvio para nós”, disse Alex McCrery, que fundou a Tilit com sua esposa, Jenny Goodman. Ellen Bennett, fundadora da Hedley & Bennett, disse que criou produtos, como sua linha de avental “Big”, para se ajustarem a muitos tamanhos.

No Cafe Altro Paradiso e no Flora Bar, em Manhattan, a solução de Pickowicz foi uma camisa de manga curta branca e folgada com uma única fileira de botões ou colchetes no meio. Conhecida como camisa de lavar louças, já foi associada às pessoas que faziam o serviço sujo em restaurantes: limpeza e lavagem.

Danny Bowien, o influente chef da Mission Chinese Food, em Manhattan e no Brooklyn, começou a usar camisas de lavar louças na cozinha há uma década. No Kismet, em Los Angeles, a maioria dos membros da equipe prefere o frescor e a mobilidade dessas camisas, que também têm um bom custo benefício para Sara Kramer, a chef e uma das proprietárias.

Kramer também faz rodízio de camisetas brancas e pretas e jeans. “Chego até mesmo a usar macacão ou outra peça nada característica dos chefs”, disse ela.

A chef Dominique Crenn muitas vezes rejeita completamente a formalidade, e trabalha com roupas normais e um avental em seus restaurantes Atelier Crenn e Bar Crenn, em San Francisco.

As origens exatas do uniforme clássico de chef são obscuras. Amy Trubek, professora da Universidade de Vermont e autora de “Haute Cuisine: How the French Invented the Culinary Profession”, disse que as roupas eram brancas, como os uniformes de muitas outras profissões em 1800, porque representavam “a ideia de pureza, saneamento e limpeza do século 19”. Mesmo que as roupas – agora tipicamente feitas de poliéster duro e quente – não fossem o máximo do conforto ou praticidade, foram o padrão por quase dois séculos.

A ex-cozinheira Maxine Thompson abriu a Polka Pants, uma linha de calças de chef resistentes, mas elegantes, para as mulheres do setor, tentando combater a roupa de trabalho feia e com caimento ruim. “Os uniformes unissex eram todos horrivelmente largões; você precisava arregaçar a calça até o joelho ou amarrar a cintura abaixo dos seios. Eu sempre dizia: ‘Por que preciso ter uma aparência tão ruim?’”

Depois de se formar em moda, Thompson começou a costurar suas próprias calças, que tinham cintura alta e caíam bem. Ela agora vende esse modelo em dois comprimentos, que servem em mulheres de todas as alturas.

Thompson se inspirou no futuro para criar suas calças, mas o chef Angelo Sosa, que dirige uma marca de aventais chamada AOSbySosa, buscou no passado a inspiração para criar seu primeiro avental para mulheres. Chamado de Her-loom, o avental é uma homenagem à década de 1930, com um caimento retrô e maior cobertura na área dos seios. Sosa disse que o avental tem “alças mais largas, para aumentar o apoio, e o tecido tem uma elasticidade natural que se adapta bem ao corpo”.

Mas por que o movimento de deixar de lado os trajes formais e desconfortáveis não ocorreu, digamos, duas décadas atrás? Thompson atribui o fato ao aumento recente da cozinha aberta. Os chefs não ficam mais escondidos da sala principal. Em muitos restaurantes, a equipe é quase tão visível quanto o pessoal de frente da casa, com alguns cozinheiros chegando até mesmo a levar os pratos para as mesas.

Goodman disse que o papel do chef se tornou mais proeminente graças à ascensão dos chefs celebridades, do Instagram e de programas de culinária na TV. Bennett conta que viu uma “mudança de mentalidade” quando as pessoas perceberam a importância do pessoal da cozinha, e que esse orgulho se traduziu em melhores uniformes.

Trubek colocou de outra maneira: “É o fim da hegemonia francesa.” Enquanto mais cozinhas abandonam a dinâmica de seus antepassados franceses formais, é natural que o mesmo aconteça com o uniforme.

Para Pickowicz, as roupas mais casuais denotam o fim do ambiente masculino que há muito domina o setor. “Acho que sempre haverá pessoas que vão manter essa tradição, mas, para mim, é realmente animador ver alguns começando a abrir mão disso.”

Angelina Jolie faz visita de três dias a campos de refugiados rohingyas em Bangladesh

Assentamento é o maior do mundo e abriga 1 milhão de muçulmanos

Angelina Jolie vista campos de refugiados – AFP

A atriz Angelina Jolie visitou nesta segunda-feira (4) o maior assentamento de refugiados do mundo, que abriga cerca de 1 milhão de muçulmanos rohingya, em uma tentativa de colocar a luta deles de volta nas manchetes antes da Organização das Nações Unidas (ONU) fazer um apelo por US$ 920 milhões de financiamento.

Mais de 730 mil rohingyas fugiram de Mianmar, país majoritariamente budista, 18 meses atrás, após uma onda de repressão militar descrita como um tipo de “limpeza étnica” por investigadores da ONU, e estão morando em campos de refugiados em Bangladesh sem sinal de que irão se mudar.

Um porta-voz do alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) disse que Angelina Jolie, uma enviada especial da agência, passará três dias visitando os campos para “avaliar” as necessidades dos rohingyas e os desafios que Bangladesh enfrenta para recebê-los.1 88

Angelina, 43, também irá se encontrar com a primeira-ministra de Bangladesh, Sheikh Hasina, que tem sido elogiada internacionalmente por se comprometer a não repatriar nenhum rohingya involuntariamente, e com o ministro de Relações Exteriores do país, AK Abdul Momen.

O porta-voz do Acnur disse que as falas de Angelina irão se centrar “na necessidade de soluções seguras e sustentáveis para a luta de uma das minorias mais perseguidas, os rohingyas”.

Segundo o porta-voz, a visita acontece antes do lançamento de um novo apelo que busca arrecadar US$ 920 milhões para continuar a atender às necessidades básicas dos rohingyas. No ano passado, as agências da ONU solicitaram US$ 950,8 milhões para a situação dos rohingyas. REUTERS

Ativista Sabrina Bittencourt que reuniu mulheres para denunciar João de Deus comete suicídio, diz ONG

Sabrina Bittencourt era mãe de três filhos e deixou carta com as razões para tirar sua vida, segundo informou ONG da qual ela fazia parte

Sabrina Bittencourt Foto: Reprodução/Facebook

BARCELONA – A ONG Vítimas Unidas informou que a ativista Sabrina Bittencourt, que ajudou a reunir mulheres para denunciar os abusos sexuais cometidos pelo médium João de Deus, cometeu suicídio neste sábado. Sabrina ajudou a reunir mulheres para denunciar os abusos sexuais cometidos contra elas pelo médium João de Deus. Ela tinha 38 anos e três filhos.

“O grupo Vítimas Unidas comunica com pesar o falecimento de Sabrina de Campos Bittencourt ocorrido por volta das 21h deste sábado, 02 de fevereiro, na cidade de Barcelona, na Espanha, onde vivia atualmente. A ativista cometeu suicídio e deixou uma carta de despedida relatando os porquês de tirar sua própria vida”, diz o texto, assinado por Maria do Carmo Santos, presidente do grupo Vítimas Unidas, e por Vana Lopes, fundadora.

O GLOBO entrou em contato com Vana que, por mensagem, afirmou que estava muito abalada e havia sido medicada depois que recebeu a informação da morte através do ex-marido de Sabrina Bittencourt, Rafael Velasco

Luisa Arraes reflete sobre ser mulher em tempos conservadores: “Feminismo é necessidade”

Aposta de Marie Claire para 2019, a atriz conta como decidiu se aprofundar no feminismo: “Não é escolha. Um dia você acorda e diz para si mesmo: ‘vou estudar isso’”
Karla Monteiro

Luisa Arraes (Foto: Karine Basílio)

“Escrevo da terra das feias, para as feias, as velhas, as machonas, as frígidas, as malfodidas, as infodíveis, as histéricas, as taradas…”: Luisa vai recitando, enquanto serve o café que acabou de preparar na cozinha do seu charmoso apartamento no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. “Morava aqui com uma amiga. Duas Luisas. Ela foi casar e eu fiquei”, conta. Nascida Arraes, sobrenome que remete à gênese da esquerda brasileira, neta de Miguel Arraes, tem política no sangue, embora diga que narrar o best-seller feminista Teoria King Kong, da francesa Virginie Despentes, seja algo análogo ao tempo: “Não houve um despertar para o feminismo. É coisa de geração. Fico feliz de estar junto.”

Aos 25 anos, Luisa Arraes emite aquela coisa inominável que deixa qualquer um à vontade. Autenticidade talvez seja a palavra. O ano que passou foi para ela um marco. Na TV, viveu a encantadora e rebelde Manu, de Segundo Sol, que a alçou ao time das protagonistas. No teatro, percorreu o país com Grande Sertão: Veredas, adaptação de Bia Lessa da obra-prima de Guimarães Rosa. E, no lusco-fusco de 2018, estreou Rasga Coração, filme de Jorge Furtado que transporta para hoje o conflito geracional, social e político escrito por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, nos tumultuosos anos pós-AI-5. Em 2019, duas estreias no cinema prometem a consagração como atriz: Vertigem, de Carol Jabor, e Grande Sertão: Veredas, a versão de Bia Lessa para o cinema do livro de Guimarães.

Em seu apartamento, sobre a mesa da sala, o livro A Morte da Verdade – Notas Sobre a Mentira na Era Trump, da jornalista Michiko Kakutani. “Você tem de ler, é uma loucura”, recomenda, contando como foi parar nas praças do centro do Rio nos dias que antecederam o pleito que elegeu Jair Bolsonaro: “Havia um clima de ódio aos artistas, aquela mentirada de Lei Rouanet. Resolvemos voltar ao simples, conversar com as pessoas. Na rua, foi um ufa, tinha afeto”.

Ela não sabe se seguirá a carreira apenas como atriz: “Penso em fazer mestrado. Me formei em letras e queria continuar, tenho vontade de focar num objeto de estudo”. Filha do diretor Guel Arraes e da atriz Virgínia Cavendish, a profissão nunca lhe foi óbvia, embora tenha estreado nela aos 10, no filme Lisbela e o Prisioneiro, com o pai na direção e a mãe no elenco: “Entrei porque estava ali sentada e precisavam de uma criança. Fui fazendo pontinhas. Virei adolescente e parei. Entrei em cinema na PUC-RJ, larguei e fui fazer teatro com o Antunes em São Paulo, depois fiz CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), aí descobri o curso de letras e me apaixonei”.

No momento, debruça-se sobre a literatura feminista. Acabou de debulhar Explosão Feminista, de Heloisa Buarque de Hollanda. Está lendo Calibã e a Bruxa, da historiadora italiana Sílvia Federici. “Feminismo: um assunto vasto. Quantos feminismos existem?”, questiona, lembrando um episódio que aconteceu na Escola Parque, colégio da classe média alta, no alto da Gávea: “Um coleguinha me perguntou quais haviam sido as mulheres que mudaram o mundo, citou Einstein, Freud… Eu não sabia responder. Perguntei para uma amiga mais velha, ela falou Dorothy Parker, Virginia Woolf… Falou três autoras, decorei duas”.

Talvez tenha sido este o início de uma jornada: “Não é escolha. Um dia você acorda e diz para si mesmo: ‘vou estudar isso’. Vai encontrando pessoas que vão te dizendo coisas e você pensa, ‘pera aí, isso que você está dizendo me machuca muito e nem sei por quê’. Nesse sentido, é uma necessidade. Isso é que é interessante”.

Luisa usa top e bermuda Cacete CO. colar Bulgari (Foto: Karine Basílio)

Mulheres afegãs temem que paz com o Taleban signifique guerra contra elas

Grupo negocia acordo com os EUA e o governo do Afeganistão

Rob Nordland Fatima Faizi

Jovens afegãs se preparam para participar de festival de dança em Cabul – Rahmat Alizadah – 24.jan.2019/Xinhua

CABUL – Quando Rahima Jami ouviu dizer que os americanos e o Taleban estavam próximos de um acordo de paz, ela pensou sobre seus pés.

Jami hoje é legisladora no Parlamento afegão, mas em 1996, quando os insurgentes do Taleban tomaram o poder, ela era diretora de escola – até que foi forçada a deixar o emprego, e informada de que só poderia sair de casa usando uma burca que a cobrisse até os tornozelos.

Certo dia de calor, no mercado, seus pés estavam visíveis, e por isso a polícia religiosa a surrou com um chicote até que ela mal conseguia se manter em pé.

Histórias sobre os horrores infligidos pelo Comitê da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, criado pelo Taleban, são comuns entre todas as mulheres afegãs com boa escolaridade e idade superior a 25 
anos. Agora, elas têm uma nova história de horror: a possibilidade de que as tropas americanas deixem o Afeganistão como parte de um acordo de paz com o Taleban.

Seis dias de negociações, encerradas no sábado com a promessa de uma retomada para breve, deixaram as duas partes mais próximas de um acordo do que em qualquer outro momento dos 17 anos desde que o Taleban foi tirado do poder.

A simples possibilidade de progresso concreto quanto à paz gerou uma onda de entusiasmo e esperança entre muitos afegãos, de todos as correntes políticas, quanto ao possível fim de quase quatro décadas de guerra ininterrupta.

Para muitas mulheres, porém, a esperança despertada pelo possível fim dos combates vem combinada a um sentimento inegável de pavor.

“Não queremos uma paz que torne a situação pior do que a atual, quanto aos direitos da mulher”, disse Robina Hamdard, diretora do departamento jurídico da Rede das Mulheres Afegãs. A organização é uma coalizão, bancada por verbas internacionais, entre importantes entidades de defesa da mulher no país.

Ninguém precisa convencer as mulheres afegãs da necessidade de pôr fim ao derramamento de sangue. Elas sepultaram número imenso de maridos, filhos e irmãos. Mas temem que uma paz que confira poder ao Taleban possa prenunciar uma nova guerra contra as mulheres, e querem que os negociadores não as esqueçam.

“As mulheres afegãs também querem a paz”, disse Jami. “Mas não a qualquer custo”.

Quando recorda a ocasião em que foi surrada, diz, “as lembranças me deixam a ponto de perder os sentidos”.

E como muitas mulheres, Jami está convencida de que qualquer acordo de paz que dê parte do poder ao Taleban virá à custa da liberdade das mulheres afegãs. “Quando essa hora chegar, eles completarão seus sonhos incompletos, e serão mais cruéis do que no passado”, disse Jami.

Para agravar essa preocupação, existe temor entre as mulheres de que tenham sido marginalizadas no processo de paz, e de que quando os afegãos enfim se sentarem à mesa para negociar a paz, não haverá 
mulheres presentes.

“Não queremos ser vítimas do processo de paz com o Taleban”, disse Laila Haidari, empreendedora que também trabalha com assistência a viciados em drogas.

O trabalho de Haidari não teria sido autorizado sob o regime do Taleban, período em que ela viveu exilada no Irã. “Mas o governo do Afeganistão ignora totalmente as mulheres afegãs no processo de paz”, ela diz.
Shukria Paykan, outra legisladora, recorda ter passado os anos do Taleban “forçada a viver dentro de uma caverna escura sempre que saía de casa – estou falando da burca”.

O processo de paz está apenas começando, e as negociações da semana passada em Doha, no Qatar, não incluíram quaisquer representantes oficiais do governo do Afeganistão – homens ou mulheres.

As autoridades dos Estados Unidos esperam persuadir o Taleban a negociar diretamente com representantes do governo, posteriormente, o que o movimento se recusa a fazer, e questões como a constituição, que garante os direitos da mulher, estariam em debate, então.

Algumas mulheres que têm postos no governo expressaram satisfação por as negociações terem ao menos começado. “As mulheres precisam erguer suas vozes para não serem esquecidas”, disse Habiba Sarabi, membro do Alto Conselho da Paz em Cabul – uma das 15 mulheres no organismo de 75 integrantes, apontado pelo governo. “Sem as mulheres, será uma paz inviável, Mas estamos otimistas quanto às negociações de paz”.

Saira Sharif, poeta e líder política na província afegã de Khost, disse que os esforços anteriores de negociação entre o governo e o Taleban excluíram as mulheres.

“O governo afegão garantiu às mulheres muitas vezes que os direitos da mulher não serão afetados negativamente depois de um acordo de paz com o Taleban”, ela disse. “Mas as mulheres não estiveram envolvidas em negociações anteriores com o Taleban e precisamos participar no futuro. 

Percorremos um longo caminho para conquistar os direitos que temos agora, e não queremos perdê-los depois de um acordo de paz”. Ryan Crocker, que foi embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão, 
tinha um posto diplomático chave em Cabul em janeiro de 2002, e ajudou a estabelecer o primeiro governo pós-Taleban no país. “Conferimos muita importância às mulheres já desde o começo”, ele disse. “Uma das 
primeiras coisas que fizemos foi colocar escolas para meninas em operação”.

Crocker disse que estava preocupado com a possibilidade de que a retirada das tropas americanas tenha consequências negativas, não importa qual venha a ser o papel do Taleban.

“O que realmente me incomoda é – o que vai acontecer às mulheres e meninas afegãs?”, ele disse. “A misoginia aguda no Afeganistão vai bem além do Taleban. Sem uma mão forte dos Estados Unidos no país, as coisas não ficarão boas para mulheres do Afeganistão. Eles poderão fazer o que 
quiserem com elas quando partirmos”.
 THE NEW YORK TIMES

Tradução de Paulo Migliacci.

Cada vez mais ativista, Aline Weber conta como vai conciliar a vida de modelo com as causas sociais

Aline Weber dá sua voz às causas || Créditos: Divulgação

Aline Weber está entre as grandes modelos de sua geração. Conhecida pelos closes em campanhas para as grifes mais bombadas do mundo, neste momento a catarinense tem se dedicado e muito ao ativismo social e ecológico e deseja usar sua influência, conquistada ao longo de 15 anos de carreira, para levantar questões importantes sobre a relação com o meio ambiente e proteção aos animais. Inclusive, Weber já deu entrada em uma petição em Nova York pela preservação da Floresta Amazônica. Também já esteve no Kuarup, o principal festejo dos índios do Xingu, onde ficou dez dias dormindo na tribo para conhecer a relação deles com a natureza e reforçar cada vez mais sua luta pela causa dos animais. Em entrevista ao site Glamurama, ela entrega um pouco mais sobre esta empreitada.

Glamurama – Você começou a carreira de modelo aos 14 anos e foi para o mundo. Desde sempre esteve ligada com os animais e o meio ambiente?
Aline – “Desde criança fui muito ligada aos animais. Tinha gato, cachorro e sempre que ia para o interior visitar minha avó, adorava brincar na natureza e com os animais que tinham por lá.”

Glamurama – Quando percebeu que precisaria se manifestar sobre as questões que envolvem o meio ambiente e a proteção aos animais?
Aline – “Foi quando comecei a viajar pelo mundo que percebi a importância da preservação, da proteção aos animais de rua, e como tudo é interligado. Cada coisa que fazemos terá um impacto maior lá na frente.”

Glamurama – Conte um pouco sobre a petição que deu entrada em Nova York pela preservação da Floresta Amazônica.
Aline – “Iniciei um protesto pela proteção da floresta Amazônica junto com duas amigas. Lá ficamos o dia todo recolhendo assinaturas das pessoas que passavam pela Union Square. Começamos com poucos participantes no protesto e no final do dia já estávamos com muita gente. Foram três mil assinaturas, além da repercussão que teve nas redes sociais. Isso aconteceu durante a Semana de Moda de NY, época de intensa circulação de pessoas pela cidade (mais do que o normal). Aproveitamos o momento para protestar contra o decreto do governo que liberava uma grande área da Amazônia para exploração mineral.”

Glamurama – Qual a melhor forma de incentivar mais pessoas às causas?
Aline – “A melhor forma é explicar, dividir informações. Por exemplo, as atitudes do dia a dia tem um impacto muito grande no meio ambiente e no mundo, como o uso de plástico, que demora uma média de 450 anos para se decompor. Já existem pesquisas que falam que se continuarmos a usar tanto plástico (canudos, sacolas de supermercados, garrafas) em 2050 teremos mais plástico nos oceanos do que peixes. Um levantamento da ONU mostra que 80% de todo o lixo marinho já é composto por plástico. Com pequenas mudanças podemos reverter a situação.”

Glamurama – Para uma pessoa leiga nos assuntos, qual a melhor forma de começar?
Aline – “Em casa. Mudar alguns hábitos no dia a dia e dividir informações com pessoas próximas como amigos e família.”

Glamurama – Como foi sua experiência ao participar do Kuarup. O que você levou de mais valioso e como aplica na sua vida?
Aline – “Passei 10 dias com eles, comendo a mesma coisa que eles (exceto carne, pois sou vegetariana), dormindo em redes e interagindo com a comunidade. Foi uma experiência muito rica e o que eu levo deles e reforço ainda mais nos meus posicionamentos é o respeito com a natureza, como a tratam de forma nobre, só tirando dali o que precisam.”

Glamurama – Você continua com sua carreira de modelo?
Aline – “Continuo com minha carreira de modelo transitando na maior parte do tempo entre Nova York [onde mora há mais de 10 anos] e Brasil. Na moda quero estar cada dia mais aliada a trabalhos que dialoguem com a forma que penso e ajo: consumo consciente, produção inteligente que respeite o meio ambiente… Acredito que a moda esteja levantando pautas importantes que refletem aquilo que a sociedade vive. Sabemos que se não nos atentarmos agora ao modo como tratamos a natureza, as consequências serão preocupantes.”

Glamurama – Quais os planos para 2019?
Aline – “Meu plano para 2019 é continuar no trabalho que amo e cada vez mais tentar coincidir a moda com o que acredito. Também quero melhorar como ser humano, no sentido de me conectar mais espiritualmente fazendo yoga e meditação. Quero ajudar no que for possível em relação ao planeta e meio ambiente, dividir e compartilhar conhecimento em busca da proteção ambiental e animal. E, por último, pretendo viajar bastante. Estou planejando minha próxima viagem para Índia ou Tailândia. A cultura deles é muito rica e eu adoraria fazer um retiro de Yoga e meditação nesses países.”