Nobel masculino: mulheres são 5% dos premiados e minoria nos comitês de seleção

Responsáveis pela láurea dizem buscar equilíbrio entre os sexos; mudança, porém, acontece lentamente
Helene Dauschy, da AFP

Marie Curie (à esquerda), Malala Yousafzai e Madre Teresa de Calcutá: trio faz parte dos 5% das mulheres premiadas com o Nobel desde 1901 Foto: Editoria de arte

Marie Curie, Madre Teresa e Malala estão entre as 5% das mulheres que foram premiadas com o Nobel desde 1901. Elas também são minoria nas comissões que selecionam as vencedoras a cada ano.

Os Prêmios Nobel de Medicina, Física, Química, Literatura e Economia são concedidos na Suécia por comitês separados, enquanto o vencedor do Nobel da Paz é selecionado na Noruega.

Ambos os países escandinavos têm orgulho de sua reputação como defensores da igualdade de gênero. No entanto, nos comitês do Nobel, as mulheres representam apenas um quarto dos membros.

Neste ano, em Estocolmo, há apenas homens encarregados dos comitês do Nobel.

E os comitês de Economia (duas mulheres de 11 membros), Química (três de dez), Medicina (quatro de 18) e Física (uma de sete) estão longe da paridade. A Literatura (duas em sete) não foge à norma.

Para Eva Olsson, única mulher no comitê de Física, a explicação é em grande parte matemática, devido às poucas mulheres em sua disciplina.

A física reconhece que “os modelos são importantes para inspirar mais jovens estudantes”, embora assegure que “o trabalho na comissão não é afetado” pela falta de paridade.

Nos comitês, a proporção de mulheres aumentou nos últimos anos.

— É claro que a situação melhora progressivamente, mas lentamente — reconhece Göran K. Hansson, secretário-geral da Royal Academy of Sciences.

A exceção

Em Estocolmo, os comitês provêm principalmente de sua instituição de referência: a Academia Sueca de Literatura, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska de Medicina de Estocolmo e a Academia Real de Ciências de Física, Química e Economia.PUBLICIDADEhttps://8b6375a8936746a1cd2fe519dc04eeea.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Esses pequenos grupos não têm a palavra final na escolha dos premiados, que cabe à academia como um todo, mas são responsáveis por preparar a lista de possíveis vencedores.

Para o prêmio da Paz, o Parlamento norueguês, levando em conta o equilíbrio das forças políticas, designa os cinco membros da comissão que são responsáveis por examinar os candidatos e escolher os vencedores.

É a exceção em termos de paridade de gênero: nas últimas décadas as mulheres têm dominado, às vezes com quatro dos cinco cargos. Neste ano, porém, há apenas duas mulheres, mas uma é a presidente da comissão.

— A feminização provavelmente influencia a escolha dos vencedores — sublinha Olav Njølstad, secretário do Comitê de Paz em Oslo. — É normal pensar que as duas coisas andam de mãos dadas.

Desde 2001, 24 mulheres ganharam o Nobel, em comparação com 11 nas duas décadas anteriores.

Embora haja cada vez mais mulheres nas academias, “os homens ainda são a maioria na Royal Academy of Sciences”, diz Eva Mörk, a primeira mulher a participar do comitê para o prêmio de Economia, em 2011, e membro do comitê de 2020.

— Comitês científicos carregam a tradição de ter mais acadêmicos do sexo masculino — explica Olav Njølstad.

Para sempre

— Talvez nos últimos dez a vinte anos tenha começado a ficar mais equilibrado — entre os professores, diz Njølstad.

Nas instituições voltadas para o progresso, o processo de feminilização é travado por outro parâmetro: na maioria das academias de onde saem os comitês, os membros são eleitos vitalícios.

— Eles ficam muito tempo, então há um lapso de tempo com o panorama atual da pesquisa científica — enfatiza.

Os membros do comitê norueguês são nomeados para seis anos. Demorou até 1948 para uma mulher entrar, mas ultimamente eram maioria, tanto que brincavam sobre a necessidade de cotas para homens.

As ciências podem ter a desculpa de continuar sendo muito masculinas, mas por que a literatura fica para trás?

O comitê tem apenas duas mulheres, nenhuma delas membro titular da Academia Sueca.

— Nós nos esforçamos para alcançar um equilíbrio entre os sexos — diz Mats Malm, secretário do comitê. — Com a constituição da comissão (…) não se conseguiu um equilíbrio perfeito.PUBLICIDADEhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

A primeira mulher a se tornar secretária perpétua da Academia Sueca, Sara Danius, deixou o cargo em 2018 após o escândalo que abalou a instituição.

Michelle e Barack Obama completam 28 anos de casamento e pedem que americanos votem

Há anos, o casal faz campanha durante as eleições para incentivar a população a se registrar como votante, uma vez que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos
LUDIMILA HONORATO – O ESTADO DE S.PAULO

Michelle e Barack Obama se casaram em 1992. Foto: Lim Huey Teng/Reuters

Michelle Barack Obama completaram 28 anos de casamento neste sábado, 3, e ao compartilharem mensagem de amor e carinho em rede social, eles fizeram um pedido: que os americanos se registrem para votar nas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Há anos, o casal faz campanha durante o período eleitoral para encorajar a população do país, onde o voto não é obrigatório.

“28 anos com esse aqui. Eu amo Barack pelo seu sorriso, seu caráter e sua compaixão. Tão grata por tê-lo como parceiro em meio a tudo que a vida atirou contra nós. E este ano, nós temos um pedido para vocês: escolha uma pessoa na sua vida que pode não votar e garanta que ela vai (…) Essa é uma mensagem de aniversário do melhor tipo. Amo você, Barack”, escreveu Michelle ao publicar uma foto dos dois.

O ex-presidente dos EUA também compartilhou uma foto do casal e fez o mesmo apelo. “Mesmo com tudo que está acontecendo, eu queria tirar um momento para dizer feliz aniversário para o amor da minha vida. Cada dia com Michelle me faz um marido melhor, um pai melhor e um ser humano melhor. Este ano, enquanto apreciamos todos os seus votos de felicidade, o que realmente adoraríamos é que cada um de vocês estenda a mão para uma pessoa em sua vida que pode não votar. Ajude-as a se registrarem. Ajude-as a fazer um plano para votar”, disse Obama.

Uma vez que o voto não é obrigatório no país, quem deseja exercer esse ato precisa se registrar como votante. A carreira de Barack Obama é marcada pela atuação nas comunidades, incentivando as pessoas a fazerem o registro e votar. Antes mesmo de ser senador e presidente dos EUA, ele participava do Projeto VOTE!, que em 1992 tinha a meta de “registrar novos eleitores de Illinois a um ritmo alucinante de 10 mil pessoas por semana”, conta Michelle no livro de memórias Minha História.

Como Michelle e Barack se conheceram

Antes de se tornar uma Obama, Michelle era Robinson e trabalhava como advogada associada júnior em um escritório de advocacia em Chicago, o Sidley & Austin. Ela foi designada para ser mentora de um jovem Barack, estudante do primeiro ano de direito, que passaria uma temporada de verão no local.

Na autobiografia, Michelle conta que ele chegou atrasado no primeiro dia, atitude que a deixava “louca”, como descreve, pois “considerava sinal de pura arrogância”. O histórico estudantil de Barack era exemplar, mas a advogada “estava cética”.

“Somente depois de mais de dez minutos que ele chegou à recepção do nosso andar, saí para encontrá-lo sentado em um sofá – o tal Barack Obama, vestindo um terno escuro ainda um pouco úmido pela chuva. Ele sorriu timidamente e pediu desculpas pelo atraso quando apertou minha mão. Tinha um sorriso largo e era mais alto e magro do que eu imaginava – um homem que claramente não era de comer muito e também parecia não ter o costume de usar roupas formais”, ela relata no livro.

Os dois eram os poucos, talvez os únicos, afro-americanos no escritório e, para Michelle, seria estranho que os dois se envolvessem amorosamente, porque traria muitos estereótipos. Além disso, um era o oposto do outro, até mesmo pela criação que cada um teve: enquanto ela vinha de uma família estruturada, ele cresceu sem a presença do pai, teve um padrasto, morou com os avós e passou por diferentes países. Enquanto ela tinha um espírito mais contido, ele era aventureiro.

Apesar das diferentes visões de mundo, inclusive sobre casamento – Michelle achava importante, mas Barack não via necessidade, os dois começaram a namorar, se casaram em 1992 e tiveram duas filhas, Malia e Sasha. A convivência fez com que eles aprendessem a lidar com as diferenças, mas não de forma romantizada. Em um momento da vida deles, chagaram a consultar um terapeuta de casal. Atualmente, os dois atuam em diferentes projetos e valorizam o poder das relações pessoais e das comunidades.

Ana Paula Araújo: “A cultura do estupro permeia a vida de todas nós”

Por que o estupro é um crime tão comum no Brasil? Por que a vítima muitas vezes é tão – ou mais – julgada pela sociedade do que o próprio criminoso? Por que é tão difícil fazer uma denúncia e tantas mulheres sofrem em silêncio? São essas e outras perguntas que a jornalista e apresentadora do “Bom Dia Brasil” responde em “Abuso – A cultura do estupro no Brasil”, seu primeiro livro
MANUELA AZENHA – MARIE CLAIRE

Abuso – A cultura do estupro no Brasil é o livro de estreia da jornalista e apresentadora do Bom Dia Brasil (Foto: Reprodução Instagram)

Durante quatro anos, a jornalista Ana Paula Araújo percorreu o Brasil, país onde um estupro acontece a cada 11 minutos, para responder à pergunta: por que a violência sexual contra mulheres e meninas é tão recorrente? As mais de cem entrevistas, feitas com vítimas e familiares, acusados e condenados por estupro, juízes e diversos especialistas no tema, viraram o livro Abuso – A cultura do estupro no Brasil (Globo Livros, R$ 49,90, 320 páginas).

Apresentadora do jornal Bom Dia Brasil, da TV Globo, Ana Paula não conseguiu a resposta que tanto buscava. Cara a cara com homens e meninos presos por estupro, eles tampouco souberam ou quiseram explicar o que os levaram a cometer um estupro.

O livro, diz a jornalista, é uma tentativa de alertar a sociedade para aquilo que permeia o dia a dia de toda mulher: “É uma vida inteira com medo de ser tocada contra a vontade, atacada, violentada. Quis dar a minha contribuição para tentar mudar isso”.

Em conversa com Marie Claire, Ana Paula conta do processo de produção da publicação e de como a pesquisa impactou a sua própria vida.

MARIE CLAIRE Por que decidiu escrever esse livro? Qual a sua ligação com esse tema?
ANA PAULA ARAÚJO 
A minha ligação é total, acho que todas as mulheres têm ligação com esse assunto. Eu conto no livro do episódio que eu passei, de abuso dentro de um ônibus. Já passei por outros, mas prefiro não falar sobre isso até porque o livro não é sobre mim. Mas percebi que a cultura do estupro permeia a vida de todas nós. É uma vida inteira com medo de ser tocada contra a vontade, atacada, violentada. Todas as minhas amigas têm algum caso para contar, de estupro ou daqueles do dia dia, que a gente normaliza. Situações dentro da família, no transporte público, na faculdade, em festas, nos quais mulheres não se dão conta de que é um crime. Tenho uma filha de 14 anos, e vejo na geração dela um olhar muito mais atento a esse tema. Quis dar a minha contribuição.

MC Foi uma experiência difícil ler o livro, tive que parar algumas vezes para depois continuar. Imagino o quão duro deve ter sido produzi-lo.
APA 
Eu também tive que dar essas pausas para conseguir escrever o livro. O livro demorou quatro anos para ficar pronto. Continuei com meu trabalho na tevê, e como eu queria fazer entrevistas pelo Brasil todo, viajava no final de semana, fazia bate e volta. Foram mais de cem entrevistas, com certeza. Viajei para Belém, Marajó, Piauí, Recife, São Paulo, Rio, Porto Alegre, não sei se estou esquecendo de algum lugar. Mas o que demorou também foi que, na hora de escrever era tão difícil que eu precisava parar e pensar em outra coisa, senão ficava muito pesado. O que procurei fazer para deixar o livro menos pesado foi intercalar as histórias com informações mais técnicas de legislação, dados.

MC Qual foi a entrevista mais dura de ser feita? Foi mais difícil entrevistar vítimas e familiares ou condenados por estupro?
APA 
Os dois são igualmente difíceis, mas por motivos completamente diferentes. Quando entrevistava vítima, eu ficava  impactada, sofrendo junto. Com o criminoso me dava ódio, eu tinha que me segurar. Eu ficava com um nó na garganta nos dois casos. A entrevista mais difícil foi a que fiz com uma criança que tinha a mesma idade que a minha filha na época: 10 anos. Ela era muito doce. Contou que tinha sido violentada pelo pai durante um ano, quando a mãe saía para trabalhar.  Um dia a mãe voltou para casa mais cedo e pegou o marido no flagra, pegou uma cadeira, arremessou no homem. A mãe era baixinha, mas criou uma força sei lá de onde e conseguiu salvar a filha. Ele está foragido até hoje, mas nunca mais incomodou a família. Esse caso eu acompanho de perto. A menina falava com aquela vozinha de criança, a mãe contando do desespero quando descobriu. Que ela percebia algo errado, mas que não tinha dinheiro para ir ao médico. A filha não falava nada por medo do pai. Fiquei pensando na minha filha em casa. Imagina se acontecesse com ela. Esse tipo de coisa pode acontecer em qualquer casa, qualquer classe social. Foi a única entrevista em que chorei. A menina tão pequena, tão doce. Ela me deu um abraço, me disse que tinha gostado de mim. Antes de fazer a entrevista seguinte tive que abaixar a cabeça na mesa e chorar. Foi muito duro. É muita maldade. Pelo menos nesse caso a mãe conseguiu descobrir e se livrar do homem. Muitas mães botam a culpa na filha, muitas vítimas escondem o que aconteceu com elas por uma vida inteira. Teve vítima adulta que tava ali contando para mim pela primeira vez. 

MC. Uma das histórias mais marcantes do livro é a da família da Ilha de Marajó, no Pará, que você visita com a freira Henriqueta Cavalcante e o delegado de polícia Rodrigo Amorim. Você pode contar como foi essa experiência?
APA. 
Esse caso é bizarro. São duas irmãs, acho que tinham uns 16 anos na época, abusadas pelo pai. Ele já tinha sido denunciado por algum vizinho, foi preso, mas na Justiça as meninas negaram – provavelmente por pressão da família, da mãe. Ele foi solto e voltou para a mesma casa. Foi nesse momento que a gente chegou lá. Demos de cara com o homem e ele negando tudo, dizendo que não tinha acontecido nada daquilo. Uma cara de cínico que estava me irritando. Eu fui para dentro da casa conversar com as duas meninas. A freira que estava me acompanhando, da Pastoral, já estava falando com elas e elas estavam contando tudo de como eram violentadas. O pai do lado de fora, não dava para ouvir. Elas falavam muito baixinho. A mãe estava junto com a gente e falou que era um absurdo, mas que o marido a ameaçava e por isso ela não fazia nada. Quando o delegado soube o que as meninas tinham nos contado, disse que poderia tirá-las dali. Perguntei para o barqueiro se cabia todo mundo no barco, o motorista disse que sim e fomos. Tinha um filho também, que não queria ir porque apoiava o pai. A mãe começou a chorar. Enfim, uma situação limite. Quando a gente estava saindo, a cena mais inusitada foi a da freira, que passou pelo pai da família, apontou na cara dele e falou: “Você é um filho da puta!”. Eu olhei, com o olho desse tamanho, pensando “que mulher corajosa!”. As meninas prestaram queixa, eu e a freira estávamos como testemunhas, ele foi preso, mas na audiência não chamaram a mim e nem a freira, as meninas negaram tudo de novo, e o cara foi solto de novo. Triste pensar que 10% dos casos são denunciados, e na maioria esmagadora não dá em nada.

MC O livro fala com as vítimas mas também dedica bastante espaço aos acusados e condenados por estupro. Qual o papel dos homens no combate à cultura do estupro?
APA
 Eu fiquei pensando demais nessa questão. Saí absolutamente frustrada de todas as entrevistas com os criminosos porque nenhum deles sabia me responder a pergunta: “por quê?”. É basicamente a violência pela violência, não tem nenhum lucro envolvido, como roubo ou tráfico. Os que estão na cadeia são, em na grande maioria, aqueles que atacam no meio da rua, com várias denúncias. A minoria dos presos são aqueles que atacam dentro de casa e são denunciados por alguém da família. Esses que atacam na rua são psicopatas. A psicopatia fica no limite entre loucura e sanidade, a pessoa sabe exatamente o que está fazendo. É até uma questão jurídica bem delicada. Mas nos outros casos, dentro de casa, no trabalho, acho que é simplesmente o machismo o que os move. Acham que podem. Muitas mulheres também normalizam essa conduta. Entrevistei uma mulher que, quando finalmente contou à mãe, já adulta, a mãe respondeu que homem era assim mesmo. Mas é importante os homens estarem nessa luta. A gente fica o tempo todo ensinando a menina a não se expor, a ficar de olho, mas a preocupação tem que ser com os meninos para que eles saibam que ele não têm nenhum poder sobre a mulher, que nada pode ser feito contra a vontade dela.

MC Como foi o processo para conseguir entrevistar os presos por estupro? Tem uma entrevista que você faz com um homem que acaba de chegar na cadeia, por exemplo, com a camisa ainda suja de sangue. E como os presos reagiam à sua presença ali?
APA
 Nosso produtor, Marcos di Genova, que conseguiu o acesso aos presídios. Aqui em Bangu, no Rio de Janeiro, eu que pedi autorização. Entrevistamos os presos que queriam falar. É uma burocracia, mas nesse caso que você citou, de Porto Alegre, o preso tinha acabado de chegar. Foi por um acaso. Achei que era sangue do crime na roupa dele, mas era dele mesmo porque tinha sido linchado pelos vizinhos. Ele topou na hora e fizemos a entrevista. Eles nunca sabem falar o porquê fizeram aquilo. Os estupradores quase não falavam comigo, olhavam para baixo, uma postura mais arisca. Nas cadeias, os presos acusados de estupro são odiados ali dentro, ficam isolados para não serem violentados ou mortos. Os outros presos puxavam mais papo comigo, falavam que me viam de manhã no jornal. Teve um, preso por homicídio, que pediu autógrafo. Eu não sabia o que fazer.

MC No livro você fala de diversas decisões judiciais controversas que absolveram homens acusados de estupro. Por que não colocou o nome de nenhum desses juízes e juízas?
APA 
Para não identificar a vítima. Eu fiquei nessa questão também. Teve uma sentença que a juíza proferiu uma decisão completamente incoerente e não coloquei o nome dela para não levar à identificação da vítima. Foi só por isso.

MC Quando você teve a ideia de escrever o livro, qual era o público alvo em mente?
APA
Tendo a achar que mais mulheres lerão o livro porque nos toca mais, mas gostaria muito que os homens lessem. Eles precisam se sensibilizar mais. As mulheres também precisam sensibilizar mais com outras mulheres. Muitas tendem a culpar vítimas de estupro porque dessa maneira acham que com elas não vai acontecer. Com aquela ali, de roupa curta andando sozinha à noite, pode acontecer. Mas comigo não. E isso contribui com a marginalização da vítima, que sofre um massacre. Homens precisavam ler também e refletir sobre tudo isso. Acompanhei um trabalho do Tribunal de Justiça de São Paulo, que infelizmente não existe mais, que era uma espécie de curso para homens flagrados abusando de mulheres no transporte público. Algumas horas, aos domingos, sobre violência de gênero. Acho interessante, não sei até que ponto traz efeito, mas daquelas pessoas ali, nenhuma foi pega reincidindo. Podem ter feito de novo e só não terem sido pegos, mas acho que é uma alternativa para levar esclarecimento, empatia.

MC Como é a cultura do estupro dentro do jornalismo e, mais especificamente, dentro da televisão?
APA 
Todas as empresas têm um pouco da cultura machista. A sociedade é machista e isso se reflete dentro das empresas. O que vejo é que as empresas estão sendo obrigadas a se posicionar mais contra assédio moral e sexual. É uma grande conquista das mulheres. Quando minha filha entrar para o mercado de trabalho, ela encontrará um ambiente melhor.

MC Esse livro te mudou de alguma forma? Te deixou com mais ou menos medo de sofrer uma violência sexual? Mudou a relação com a sua filha? Com os homens?
APA 
Emocionalmente me afetou bastante. Toda vez que lembro dessas histórias me dá um aperto no coração. Por outro lado, entrevistei tanta gente que conseguiu superar o trauma, conseguiu sobreviver ao que acontecer, que me deu esperança também. Passei a ter uma visão mais crua da humanidade, pro bem e pro mal. Também me deixou mais atenta às questões de violência sexual do dia a dia e a comportamentos que não são exatamente violentos mas que acabam criando uma cultura onde a violência contra a mulher é aceita. Comentários e piadas machistas, mão boba. Coisas que levamos como normal e que precismos ficar mais atentas. Outra coisa é ver como as vítimas de estupro são completamente desamparadas. Primeiro porque elas quase nunca falam, então não conseguem atendimento médico e psicológico, nem apoio de amigos ou da família. Nada. Quando buscam, encontram instituições completamente falhas. 90% dos municípios do Brasil não têm delegacia da mulher. A nossa grande luta tem que ser também por um atendimento que funcione. As pessoas têm medo de denunciar porque sabem que não vai dar em nada e porque não recebem atendimento.

Pessoas trans ainda são criminalizadas em 13 estados-membros da ONU, aponta relatório

Em contrapartida, 9 países tomaram medidas para tornar mais fácil para as pessoas trans alterarem seu nome e classificação de gênero em documentos oficiais, como certidões de nascimento
Thomson Reuters Foundation

Membros da comunidade trans do Paquistão protestam contra a morte de uma transexual em Lahore Foto: AFP

Pelo menos 13 estados-membros das Nações Unidas ainda criminalizam as pessoas trans, enquanto outros usam as leis de moralidade e indecência para reprimir a comunidade trans, mostrou o levantamento “Trans Legal Mapping Report”, feito pela organização de direitos LGBT+ ILGA World e divulgado esta semana.

Nigéria, Omã e Líbano estão entre as nações com leis anti-trans explícitas, de acordo com o relatório. A pesquisa detalha a legislação e as políticas trans em 143 estados-membros da ONU e em 19 outras jurisdições.

Muitos outros países aplicam regulamentos “aparentemente inócuos” cobrindo crimes como “perturbação pública, indecência, moralidade (e) vadiagem” para policiar comunidades trans, afirma o relatório. No entanto, pelo menos 96 estados-membros da ONU agora têm disposições para o reconhecimento legal da identidade de gênero, de acordo com a pesquisa.

Violações dos direitos de pessoas trans ocorreram em todo o mundo, afirmou a diretora de programas da ILGA World, Julia Ehrt.

— Algumas das nações mais brilhantes quando se trata de reconhecimento legal de gênero estão localizadas no sul global, como a Argentina — acrescentou. Oito anos atrás, a Argentina se juntou a um punhado de países que permitem que pessoas trans mudem de gênero em documentos oficiais de identidade, sem testes físicos ou psicológicos.

Na Reino Unido tem havido um debate feroz nos últimos anos sobre a reforma da Lei de Reconhecimento de Gênero de 2004, colocando algumas feministas contra partes da comunidade trans. O governo britânico lançou uma consulta há dois anos sobre a revisão da lei para permitir a “identidade pessoal” na Inglaterra e no País de Gales — uma reforma que os oponentes disseram que poderia permitir que homens predadores acessassem espaços exclusivos para mulheres, como banheiros.

— No Reino Unido, o debate é particularmente acirrado quando você o compara com outros debates em estados europeus e eu acho que (ele) foi, de certa forma, exportado para muitos dos outros países da Commonwealth — disse Ehrt.

O relatório também destacou alguns desenvolvimentos positivos para as pessoas trans nos últimos dois anos. Desde 2018, nove países tomaram medidas para tornar mais fácil para as pessoas alterarem seu nome e classificação de gênero em documentos oficiais, como certidões de nascimento.

O legislador britânico Crispin Blunt, presidente do Grupo Parlamentar sobre Direitos LGBT+, disse que a decisão do governo descartar a proposta de “auto-identificação” significava que era “uma época particularmente miserável no Reino Unido”.

— A Grã-Bretanha continua reivindicando a liderança global em direitos LGBT+, mas apenas decidiu não atualizar seus próprios processos. Agora, 25 nações, com mais a seguir, nos mostram um exemplo melhor de como respeitar os direitos humanos básicos de pessoas trans e de gênero diverso — afirmou.

Longe dos holofotes, Leila Cravo morre esquecida na Urca

Por Ana Cláudia Guimarães

Leila Cravo na capa da revista “O Cruzeiro” e hoje em dia, no apartamento onde mora atualmente, na Urca. A atriz tinha 67 anos |

Morreu no dia 5 de agosto a atriz  Leila Cravo (1953-2020), que também era  escritora e empresária. Ela estreou como atriz nos meados dos anos de  1970, em novelas,  e ficou muito conhecida no cinema  por interpretar personagens notáveis em pornochanchadas. Leila também apresentou o “Fantástico”, foi capa de muitas  revistas, posou nua e era comparada a Sandra Bréa.

Em 1975, ela foi vítima de espancamento e estupro, por três homens, no Motel Vips. Ao chegar no quarto do motel com um homem, ela encontrou outros dois dentro do quarto. Um deles, ministro de Estado (ela nunca revelou o nome) da ditadura. Leila sofreu politraumatismo craniano por ter recebido uma coronhada de revólver que deixou 34 minifraturas no rosto e sequelas. Ela ficou em coma por 13 dias e dizia que havia sobrevivido por “milagre”. Leila foi encontrada dentro de um lençol na rua, na frente do motel, na Avenida Niemeyer, tendo convulsões, e com um papel nas mãos como se ela tivesse tentado o suicídio. A versão do suicídio nunca foi confirmada. 

Leila Cravo dizia que havia contado tudo para a polícia. Mas na capa dos relatórios oficiais, publicavam uma foto retratando uma espécie de  suicídio (com o bilhete na mão). O motivo seria o  término de um  relacionamento com um homem casado. 

Leila Cravo deixa uma filha.

Mafalda feminista: livro com tirinhas de Quino sobre o tema sai no Brasil em dezembro

Publicado na Argentina em 2018, ‘Mafalda: feminino singular’ será lançado no país pela editora WMF Martins Fontes
Ruan de Sousa Gabriel

Tirinha estrelada por Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino Foto: Quino / Reprodução

SÃO PAULO — Nos últimos anos, Mafalda, a menina sabichona e progressista criada pelo cartunista Quino, morto nesta quarta-feira (30), passou a ser vista com um lenço verde na cabeça em manifestações em defesa do direito ao aborto na Argentina. O próprio Quino autorizou a convocação de sua personagem. Não é de hoje que Mafalda flerta com pautas feministas. A menina nunca se conformou que a mãe desperdiçasse a vida cuidando da casa. Em 2018, o selo argentino Ediciones de la Flor publicou “Mafalda: feminino singular”, reunião de tirinhas nas quais a personagem questiona os espaços ocupados e os papéis desempenhados pela mulher no mundo. A edição Brasileira, preparada pela WMF Martins Fontes, chega às livrarias em dezembro.

— As tiras reunidas no livro tratam de temas que estamos discutindo ainda hoje em relação ao feminismo e também à criação das meninas — disse ao GLOBO Luciana Veit, editora da WMF Martins Fontes. — Por que ao se elogiar uma menina se fala primeiro da beleza e não da inteligência? Você vê a Mafalda irritadíssima com isso, querendo tratar da paz mundial ou ser a presidenta nas brincadeiras com os meninos. E o trabalho doméstico, a discussão que voltou com essa pandemia, está lá, nas tiras, personificado na mãe da Mafalda.

“Até parece que a Mafalda não falaria das mulheres!”, escreve escritora Patricia Kolesnicov no prefácio à edição argentina, que será reproduzido na versão brasileira. “Como passaria despercebido que ela não pode ser presidenta (e o Manolito, sim, pode); que sua mãe não tem vida própria – o famoso ‘o que você queria ser se estivesse viva?’ – porque casa e trabalho são a mesma coisa; que o futuro que ela vê, olhando no fundo de bobes de cabelo, começa com o amor romântico e termina na cozinha? Como ela não perceberia isso, se ela é uma garota dos anos 60 e, à sua volta, estão os Beatles e o Vietnã e, de repente, a ‘tendência’ é a metralhadora?”

Mafalda, a personagem contestadora criada pelo argentino Quino Foto: Quino / Reprodução

Patricia aponta que Quino não se furtava a apontar o machismo de seus personagens, como Miguelito, que berra com Mafalda (“Você é igual a todas as outras!”) quando descobre que ela tem outros amigos, Felipe, que diz não gostar de “discutir mecânica com mulheres”, e até Susanita, que sonha com um príncipe encantado. “Atento a momentos de mudança social, Quino tem a inteligência de ver o lugar das mulheres, o dos homens, o da família. Como todos os grandes, prediz não por ser vidente, mas porque lê com precisão o mundo que o rodeia. E agora, o futuro chegou.”

No prefácio escrito especialmente para a edição brasileira, a escritora Maria Clara Carneiro descreve Mafalda como uma “feminista em formação tenta emancipar seu corpo dos papéis atribuídos a seu gênero” e afirma que “essa menininha ainda tem revoluções importantes a nos incitar, e nos formar”.

Debora Diniz: ‘A criminalização do aborto mata, persegue e não reconhece a capacidade de escolha das mulheres’

No Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe, a antropóloga Debora Diniz, uma das principais pesquisadoras do tema no Brasil, celebra o movimento de mulheres latinoamericanas como o ‘mais vibrante do mundo’ e acredita que a resposta ao autoritarismo que ganha força na região ‘virá do feminismo’

Debora Diniz pesquisa o aborto no Brasil há 25 anos Foto: Arquivo Pessoal

aborto não saiu do debate público desde que o caso da menina do Espírito Santo, grávida aos 10 anos de idade após ser estuprada por um tio, veio à tona no mês passado. A pressão sofrida pela criança para manter a gravidez, mesmo tendo o direito legal de interrompê-la, e as cenas de extremistas religiosos em frente ao hospital onde ela seria atendida a chamando de assassina geraram revolta.

Pouco tempo depois, a mobilização se voltou para a uma portaria editada pelo Ministério da Saúde que dificultava o acesso ao aborto legal em caso de estupro ao obrigar os profissionais de saúde a notificarem à polícia ao acolher mulheres vítimas de violência sexual e a informarem a gestante sobre a possibilidade de visualização do feto por meio de ultrassonografia.

A medida foi imediatamente repudiada por uma série de especialistas em direitos reprodutivos e representantes do movimento de mulheres, e a pressão para que o governo recuasse fez o tema chegar até o Supremo Tribunal Federal, que avaliaria a constitucionalidade das novas regras na última sexta-feira (25). O julgamento acabou sendo adiado após o governo reeditar, na véspera, o texto da portaria.

Na nova redação, foi retirado o trecho sobre a visualização do feto, mas o ponto mais controverso permaneceu: apesar de retirar a palavra “obrigatoriedade”, a nova portaria ainda diz que os profissionais da saúde “deverão” denunciar o caso à polícia, independentemente da vontade da vítima.

Para a antropóloga Debora Diniz, que há 25 anos faz pesquisas sobre o aborto no Brasil e defende que o tema seja tratado como questão de saúde pública, a portaria foi usada como “termômetro” pelo bolsonarismo.

— É importante assinalar que esse processo serviu como termômetro de até onde o bolsonarismo poderia ir com aquilo que sempre foi sua força motriz, que é a perseguição ao tema do aborto e das questões de gênero — diz a pesquisadora, que desde 2018 vive fora do Brasil em função das ameaças de morte que passou a receber depois de apresentar os dados de sua pesquisa sobre aborto e defender a descriminalização do procedimento em audiência pública no STF, também naquele ano.

Conversei com Debora em duas ocasiões. A primeira em 31 de outubro, por Skype. Ao longo de uma hora, a pesquisadora falou sobre o debate em torno do aborto no Brasil, o movimento de mulheres na América Latina, a atuação de Damares Alves à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e a crise gerada para as mulheres com a pandemia de Covid-19 (a primeira parte da entrevista foi publicada em 4 de setembro).

Para ela, não é possível dissociar a defesa da descriminalização do aborto da luta feminista. A antropóloga vê com bons olhos o fortalecimento da mobilização de mulheres na América Latina, acredita que os movimentos feministas da região vivem um momento de “revigoramento” e acredita que os valores feministas serão fundamentais no futuro pós-pandemia.

—  A pandemia nos mostrou que não vivemos sem cuidar, sem assumirmos nossa interdependência. E isso é um valor feminista, porque é um valor sobre a vida das mulheres — afirma a antropóloga.

Na última sexta-feira (25), voltei a falar com Diniz para saber como ela avaliava as últimas mudanças feitas na portaria do Ministério da Saúde e o que pensava sobre a posição de Damares Alves, que durante entrevista ao jornalista Pedro Bial, também na semana passada, defendeu que a menina do Espírito Santo deveria ter mantido a gravidez por mais duas semanas para ser submetida a uma cesárea, ao invés de ter feito o aborto. Confira os principais trechos:

Feminismo e descriminalização do aborto

“Um grande problema de quando você tem cabelo branco é que você se torna quem define algo. Eu não estou aqui para definir o que o feminismo pode ou não fazer e ser. Mas eu defendo um feminismo inclusivo que não use a lei penal contra necessidades de saúde das mulheres. Eu não acredito que possa existir, na diversidade dos feminismos, uma variação sobre uma das questões centrais, como aborto. Podemos elencar outras. Mas me sinto segura sobre aborto e sobre a violência contra as mulheres. Não há um feminismo que não lute contra o fim da violência contra as mulheres e meninas, que naturalize ou que chame dilema, porque as mulheres não conseguem sair ou porque acabam retornando a situações violentas. Eu tenho outras explicações para esses fenômenos ao invés de chamá-los de dilemas. Da mesma forma com o aborto.

A criminalização do aborto mata, persegue e não reconhece um dos valores centrais do feminismo que é a capacidade de as mulheres fazerem suas escolhas sobre quando ser mãe, como ser mãe e como cuidar dos seus filhos, mas também de não usar a lei penal para persegui-las e a força do Estado para transformá-las em criminosas. Eu não posso imaginar nenhum feminismo na sua pluralidade que não reconheça o direito de cidadania e dignidade das mulheres. Eu não queria jamais que fosse a minha cabeça branca a dizer ‘é isso que é o feminismo.’ Mas teria muitas dificuldades de reconhecer no tema da violência contra mulher e do aborto qualquer forma de relativismo, porque o dilema é relativizar, é não assumir que há absolutos no feminismo. E eu defendo que sim, há absolutos.”

A discussão sobre o aborto

“A violência contra mulher já não é mais tão relativizada, mas o aborto ainda é porque a narrativa patriarcal ainda é hegemônica para definir as perguntas. Nós íamos a debates em que as pessoas perguntavam quando a vida humana tem início. Eu paro e me pergunto: porque eu preciso responder a essa pergunta, que nem a ciência sabe, para explicar porque uma mulher não deve ser presa por aborto? Eu estou tentando olhar o real e determinar que perguntas importam para prender, perseguir e matar mulheres. É uma pergunta filosófica e metafísica? Ou é uma pergunta sobre dignidade, cidadania e equidade? Nós ainda não fomos capazes de reescrever as perguntas que importam para a cena pública.” [Leda Antunes]

Shere Hite, a mulher que ‘chocou o mundo’ há 40 anos perguntando a mulheres sobre orgasmo

Shere Hite protestou contra a propaganda que havia estrelado para pagar estudos
MARGARITA RODRÍGUEZ

Shere Hite foi uma figura controversa nos EUA nas décadas de 70 e 80 – BBC News/Santi Visalli/Getty Images

Imagine uma mulher loira atraente com olhos azuis e batom vermelho na frente de uma máquina de escrever.

A imagem era de um anúncio com um slogan que dizia: “A máquina de escrever que é tão inteligente que ela não tem que ser.”

Quando a jovem modelo concordou em participar da propaganda, desconhecia que essa seria a mensagem.

Na verdade, ela pensou que havia sido selecionada porque “datilograva muito bem”, lembrou Joan Smith, escritora britânica e ativista de direitos humanos.

Mas, no momento em que a jovem modelo viu o anúncio, ficou indignada e não foi a única.

Integrantes da Organização Nacional de Mulheres dos Estados Unidos se reuniram em frente aos escritórios da empresa de publicidade em Nova York.

Ela se juntou ao grupo e protestou contra a propaganda que havia estrelado para pagar seus estudos de pós-graduação em História Social na Universidade de Columbia, em Nova York, uma das mais renomadas dos EUA.

Era a década de 1970 e a modelo em questão se chamava Shere Hite.

Anos depois, Hite acabaria se tornando uma heroína do feminismo e seu livro revolucionaria os conceitos sobre a sexualidade feminina.

A BBC News Mundo relembra sua história após sua morte no último dia 9 de setembro, aos 77 anos.

Seu primeiro livro, "The Hite Report", foi publicado em 1976
Seu primeiro livro, “The Hite Report”, foi publicado em 1976 – BBC News/Getty Images

3.500 mulheres

Após o incidente do anúncio, Hite começou a participar de reuniões da Organização Nacional para Mulheres.

Em uma delas surgiu o tema orgasmo e uma das questões que gerou silêncio entre as participantes foi: todas as mulheres o experimentam?

Isso foi lembrado por Smith no artigo “Shere Hite: On female sexuality in the 21st century” (“Shere Hite: Sobre a sexualidade feminina no século 21”, em tradução livre para o português), publicado em 2006 no jornal britânico The Independent.

Alguém sugeriu a Hite que investigasse o assunto e ela aceitou o desafio.

Para isso, ela elaborou questionários sobre a vida sexual que foram respondidos, de forma anônima, por cerca de 3,5 mil mulheres nos Estados Unidos.

Não eram questões de múltipla escolha – as participantes podiam escrever abertamente sobre suas experiências sexuais.

Qual é a função do orgasmo feminino?

Assim nasceu o livro: “The Hite Report: Nationwide Study of Female Sexuality” (“O Relatório Hite: Um estudo nacional sobre Sexualidade Feminina”, em tradução livre para o português), que foi publicado em 1976 e que “quebrou tabus e escandalizou o mundo”, como Smith apontou.

A obra tornou-se um best-seller. Estima-se que 50 milhões de cópias foram vendidas em todo mundo.

“30 anos atrás, um livro de uma escritora americana desconhecida tomou o mundo de assalto. Sua autora, uma jovem estudante de graduação, havia desmascarado um dos grandes mitos sobre a sexualidade feminina: que a maioria das mulheres deveria ser capaz de atingir o orgasmo através da relação sexual”, escreveu Smith.

Manifestação do movimento pelos direitos das mulheres em Washington em 1970
Manifestação do movimento pelos direitos das mulheres em Washington em 1970 – BBC News/Don Carl Steffen/Gamma-Rapho Via Getty Images

“Credibilidade”

Jack Halberstam, professora de Estudos de Gênero do Instituto de Pesquisa sobre Mulheres, Gênero e Sexualidade da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, lembra que o livro de Hite surgiu em um momento em que o movimento pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos ganhava força e mudanças começavam a ser observadas na sociedade.

Muitas mulheres se organizaram, por exemplo, para falar sobre o aborto; outras sobre comunidades lésbicas e relações patriarcais.

“O ‘Relatório Hite’ foi muito importante porque deu uma espécie de credibilidade científica às afirmações que as mulheres, especialmente as brancas heterossexuais, estavam fazendo sobre profunda insatisfação com suas vidas domésticas e com o casamento heterossexual”, diz Halberstam à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Segundo a especialista, as constatações do ‘Relatório Hite’ levaram a muitas discussões sobre a relação desigual de mulheres e homens no que diz respeito ao prazer em uma dinâmica heteronormativa, e “acho que uma das grandes revelações de sua obra foi que poucos mulheres relataram ter orgasmos” ao praticar sexo com penetração convencional.

É que mais de 70% das mulheres que participaram do estudo disseram que não conseguiam chegar ao orgasmo por meio do sexo com penetração e que precisavam de estimulação no clitóris para alcançá-lo.

Hite escreveu: “Os pesquisadores devem parar de dizer às mulheres o que elas devem sentir sexualmente e começar a perguntar como elas se sentem sexualmente”.

Milhares de mulheres nos Estados Unidos se organizaram para discutir questões que as afetavam não apenas do ponto de vista político e social, mas também sexualmente
Milhares de mulheres nos Estados Unidos se organizaram para discutir questões que as afetavam não apenas do ponto de vista político e social, mas também sexualmente – BBC News/Don Carl Steffen/Gamma-Rapho Via Getty Images

“Uma bomba”

Não é que o orgasmo feminino ou a sexualidade das mulheres não fossem temas discutidos antes, esclarece Halberstam.

Cada período da história teve uma narrativa diferente sobre o prazer feminino. Por exemplo, no século 16, este era considerado chave para a reprodução.

“Acreditava-se que uma mulher precisava ter um orgasmo para conceber um bebê. Porém, mais tarde, quando as pessoas perceberam que o orgasmo feminino não era necessário para a concepção, surgiu um novo conjunto de suposições sobre o prazer feminino que se fundiu com o estilo vitoriano”, diz Halberstam.

O que diferencia o livro de Hite é o contexto em que foi produzido.

“No cenário psicológico americano, a incapacidade de uma mulher de chegar ao clímax em um encontro heterossexual era entendida como seu fracasso, atribuído à sua frigidez ou talvez houvesse algo errado com ela fisicamente”, acrescenta Halberstam.

“Mas a obra de Hite mostrou que um grande número de mulheres não pode atingir facilmente o orgasmo em relacionamentos heterossexuais penetrativos. Essa foi uma grande bomba lançada sobre a sociedade americana.”

“Diria que foi um desafio para o ego masculino”, reflete a professora.

“Muitos homens pensavam que apenas estar lá levava as mulheres a paroxismos de alegria e prazer, mas estava muito claro que as mulheres relataram altos graus de insatisfação em suas vidas de casadas e isso foi impactante.”

Hite escreveu: “Muitos homens ainda parecem acreditar, de uma forma bastante ingênua e egocêntrica, que o que os faz se sentir bem é automaticamente o que faz as mulheres se sentirem bem.”

Luta pela igualdade de gênero nos Estados Unidos atraiu mulheres de diferentes grupos sociais
Luta pela igualdade de gênero nos Estados Unidos atraiu mulheres de diferentes grupos sociais – BBC News/Ann E. Zelle/Getty Images

‘A verdadeira revolução sexual’

Jornalista, escritora e pesquisadora britânica, Julie Binder participa, desde 1979, de campanhas de combate à violência contra mulheres e meninas.

Para ela, foi Hite quem, de muitas maneiras, “deu início à verdadeira revolução sexual para as mulheres”.

“Embora a revolução sexual dos anos 1960 tenha popularizado a pílula anticoncepcional, o que obviamente significou que as mulheres puderam evitar uma gravidez indesejada, e isso gerou um impacto enorme na vida delas, os homens saíram mais beneficiados desse processo, porque tiveram acesso desenfreado às mulheres”, argumenta Bindel.

“Por meio do estudo de Shere, ficamos sabendo que muitas mulheres, que usavam o risco de engravidar como desculpa para evitar o sexo com penetração, passaram a achá-lo doloroso, desagradável e nem um pouco estimulante”, acrescenta Bindel.

Quando Hite realizou seu estudo, percebeu que havia sexólogos homens que tendiam a analisar a sexualidade feminina sob uma perspectiva masculina.

“Eles achavam que se a mulher não gostava de penetração era porque ela tinha um problema, que poderia ser psicológico ou físico e que talvez justificasse o uso de um medicamento ou cirurgia”, diz Bindel.

Hite argumentou que isso não fazia sentido e que para as mulheres desfrutarem da sexualidade, deviam ter uma excitação sexual adequada.

“Dizia que a penetração não excitava as mulheres e que isso incomodava terrivelmente algumas pessoas”, explicou Hite ao jornal britânico The Guardian em uma entrevista em 2011.

Lésbicas também realizaram manifestações e debates em defesa dos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Esta foto é de 1978
Lésbicas também realizaram manifestações e debates em defesa dos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Esta foto é de 1978 – BBC News/Ann E. Zelle/Getty Images

“Um mundo de possibilidades”

Hite perguntou às mulheres sobre suas experiências com o orgasmo porque “as respostas sexuais das mulheres foram ignoradas” e havia sexólogos que insistiam que a maneira de encontrar prazer era através da penetração, explica Bindel.

O que Hite revelou em seu primeiro livro foi “o que as mulheres já sabiam”, mas sobre o que dificilmente se falava na época: a importância da estimulação clitoriana para atingir o orgasmo.

“Foi revolucionário porque permitiu que as mulheres falassem sobre assuntos que eram extremamente incômodos e até embaraçosos, porque nos disseram que não devíamos falar sobre sexo, mas que tínhamos de aguentar”, diz Bindel.

“Isso abriu um mundo de possibilidades para nós. Passamos a poder ter essas conversas sem nos sentirmos estranhas ou constrangendo as pessoas ao nosso redor”, acrescenta.

Na década de 1970, falar sobre masturbação era um tabu. Mas, para Hite, se tratava de um assunto fundamental, pois seu estudo mostrou a importância para as mulheres de encontrar prazer sexual em si mesmas.

“Ela não estava atacando os homens, mas tentando educar os dois sexos sobre os fatos biológicos por trás do prazer sexual”, disse Smith.

“Mas se sua insistência para que as mulheres fossem ouvidas foi inovadora, sua vinculação das relações sexuais aos direitos humanos, a ideia de que o que acontece durante as relações sexuais levanta questões de igualdade e justiça foi revolucionária”, acrescentou.

Grupo de manifestantes protesta contra concurso Miss Mundo nos Estados Unidos em dezembro de 1970
Grupo de manifestantes protesta contra concurso Miss Mundo nos Estados Unidos em dezembro de 1970 – BBC News/W. Breeze/Evening Standard/Getty Images

Elemento emocional

Bindel destaca que outro mérito de Hite é que ela convidou para a conversa não apenas mulheres com alto nível de escolaridade ou da elite social, mas também as da classe trabalhadora, aquelas que não tinham acesso aos debates nas universidades.

Em pesquisas subsequentes, a autora abordou o elemento emocional na sexualidade feminina, um tema que as mulheres também queriam discutir.

“Naquela época, o movimento de libertação das mulheres estava criando grupos nos quais as participantes expressavam que estavam sexualmente, emocionalmente e romanticamente insatisfeitas e que sentiam que os homens tendiam a não fazer um esforço para que se sentissem bem consigo mesmas e com o relacionamento”, diz a escritora.

Hite levou muitas mulheres a considerar que poderiam fazer exigências na esfera mais íntima e também a exercer controle sobre suas experiências sexuais: sua obra “libertou muitas mulheres da insatisfação”, diz Bindel.

A jornalista Katharine Q. Seelye, do jornal americano The New York Times, concorda.

“Para todas as mulheres que fingiram orgasmos durante a relação sexual, o ‘Relatório Hite’ ajudou a despertar seu poder sexual e foi visto como um avanço rápido na liberação feminina”, escreveu ela no obituário de Hite.

Líderes icônicas do movimento feminista, como Gloria Steinem (foto), e Barbara Ehrenreich defenderam Hite
Líderes icônicas do movimento feminista, como Gloria Steinem (foto), e Barbara Ehrenreich defenderam Hite – BBC News/Getty Images

Críticos

O livro de Hite foi, no entanto, duramente criticado por alguns setores da sociedade americana, que apontaram nele falhas metodológicas, como uma amostra pouco representativa das mulheres.

Mas as críticas não se restringiam à metodologia. Conservadores, sobretudo grupos religiosos, acusaram Hite de querer destruir a família e os relacionamentos.

A revista Playboy, para a qual ela posara uma vez, chamou sua obra de “The Hate Report” (“O Relatório do Ódio”, em tradução livre).

Outros disseram que ela deveria mudar seu nome para “Sheer Hype” (“Puro Hype”), um trocadilho com seu nome que sugeria que Hite estava apenas buscando se promover.

Alguns até disseram que ela odiava homens.

“Hite sofreu muitas críticas injustas, assédio e difamação”, lembra Bindel.

Feministas americanas importantes, como Gloria Steinem e Barbara Ehrenreich, vieram em sua defesa e denunciaram que os ataques contra ela eram fruto do machismo e contra o feminismo.

Hite acabou recebendo ameaças de morte e decidiu deixar os EUA.

Depois de deixar os Estados Unidos, Hite se estabeleceu na Europa. Ela morreu em Londres
Depois de deixar os Estados Unidos, Hite se estabeleceu na Europa. Ela morreu em Londres – BBC News/Yvonne Hemsey/Getty Images

Sobre homens

Apesar das críticas, ela seguiu adiante e, como aponta Bindel, mergulhou ainda mais em suas pesquisas.

Assim nasceu o livro: “The Hite Report on Men and Male Sexuality” (“O Relatório Hite sobre Homens e Sexualidade Masculina”), publicado em 1981, e no qual participaram mais de 7 mil homens.

Isso porque uma das abordagens de Hite era em que medida os homens também eram vítimas de pressupostos culturais.

“Os direitos humanos dos homens são ignorados ao dizermos a eles que eles sempre precisam ter uma ereção?”, questionou ela.

Em 1987, Hite lançou “Women and Love: A Cultural Revolution in Progress” (“Mulheres e Amor: Uma Revolução Cultural em Andamento”, em tradução livre).

“Um dia, ela aparecia no talk show de Oprah Winfrey (apresentadora de TV americana) e no dia seguinte, em frente a uma plateia lotada na Universidade de Oxford, na Inglaterra, oferecendo ao público uma rara entrada no santuário interno dos quartos de outras pessoas”, escreveu Emily Langer, repórter do jornal americano The Washington Post, em outro obituário de Hite.

Seus estudos continuaram a receber críticas por razões semelhantes: metodologias de pesquisa não rigorosas. Na verdade, alguns acadêmicos e cientistas sociais os chamaram de pseudociência.

Até o número muito limitado de entrevistados foi questionado.

“Em uma entrevista que fiz com ela, ela me lembrou que (Sigmund) Freud entrevistou apenas três mulheres como base para seu trabalho mais conhecido”, lembra Bindel.

Em 1995, Hite renunciou à cidadania americana e se estabeleceu na Europa.

Ela continuou a ser uma figura polêmica, mas vários especialistas concordam que Hite não só ajudou muitas mulheres a pensar sobre sua própria sexualidade, mas também mudou a perspectiva de alguns homens, talvez por isso, alguns também se lembrem dela como educadora sexual.BBC NEWS BRASIL

Paris prepara sua primeira estátua de uma heroína negra contra a escravidão

Solitude teve atuação emblemática na ilha francesa de Guadalupe no Caribe, no início do século XIX
AFP

A prefeita de Paris Anne Hidalgo posa ao lado de Jean-Marc Ayrault, presidente da Fundação para a Memória da Escravidão, durante a cerimônia de inauguração do “Jardim Solitude” que leva o nome de uma figura histórica e heroína na luta contra a escravidão na Guadalupe francesa Foto: BERTRAND GUAY / AFP

PARIS — A prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo, inaugurou neste sábado um parque na capital francesa onde será instalada a primeira estátua de uma heroína negra que lutou contra a escravidão na ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, no início do século XIX.

A mulher, chamada Solitude, foi uma “histórica heroína dos escravizados de Guadalupe (…), nascida em 1772” e “filha de uma escravizada africana e de um marinheiro branco”, segundo indica a Cidade de Paris em um comunicado.

Hidalgo afirmou que a estátua será instalada no jardim inaugurado em Paris, chamado Solitude em homenagem à “mulher que, por sua valentia e seu compromisso com a justiça e a dignidade, abriu junto com outros o caminho para uma abolição definitiva da escravidão na França”.

— Em breve, uma estátua desta heroína, a primeira de uma mulher negra em Paris, será colocada aqui neste parque — disse a prefeita.

Em maio de 1802, uma expedição francesa desembarcou em Guadalupe, seguindo ordens de Bonaparte, para restabelecer a escravidão abolida em 1794.

Diante das tropas francesas, a resistência se organizou, apoiada por ex-escravizados, entre eles várias mulheres e a própria Solitude, que se juntou aos combates mesmo grávida.

Solitude foi presa e condenada à morte. Em 29 de novembro de 1802, no dia seguinte a dar à luz, foi executada por enforcamento.