Grupo Arquitetas Negras faz vaquinha virtual para lançar revista

Projeto quer levantar o debate pelo fim do racismo e discriminação de gênero no setor

arquitetas_negras_mg.jpgCriado em março deste ano, o projeto Arquitetas Negras tem como objetivo levantar o debate pelo fim do racismo e da discriminação de gênero na arquitetura. Com as arquitetas Gabriela de Matos e Bárbara Oliveira à frente da organização, o grupo agora encara um novo desafio ao lançar na internet uma “vaquinha” no site Benfeitoria para lançar uma revista impressa com conteúdo pensado e produzido exclusivamente por arquitetas negras. Para isso, elas precisam arrecadar R$ 96.307 até o dia 30 de outubro.

“Apesar de puxarmos para a arquitetura, é uma discussão de todas as áreas, é da sociedade, sobre qual é o lugar da mulher negra”, diz Gabriela.

Entre os problemas que as participantes do grupo relatam, aparece a falta de reconhecimento na profissão. “Muitas reclamam também de não serem aceitas pela estética negra em grandes escritórios”, disse Gabriela. “Nós subimos esse degrau, queremos estar bem representadas, mostrando que estamos produzindo, que nosso trabalho tem conteúdo.”

O projeto participa junto a outros quinze do edital Canal Negras Potências, criado pelo portal Benfeitoria junto ao Fundo Baobá e o Movimento Coletivo (plataforma de investimento social da Coca-Cola Brasil). Pelo modo matchfunding, cada R$ 1 arrecadado pelo Arquitetas Negras é somado a mais R$2 do Movimento Coletivo até que a meta total do projeto seja atingida. Caso contrário, o dinheiro é devolvido aos doadores.

Para a produção da revista, também estão sendo selecionados projetos de arquitetura feitos por mulheres negras, inscritos no edital proposto pelas organizadoras. Para isso, é preciso passar por uma seleção de curadores reunidos pelo Arquitetas Negras.

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Na política americana, mulheres são alvo de ataques

Candidatas a diversos cargos chegam a desistir de concorrer por casos de vandalismo e ameaças de estupro e de morte
Maggie Astor, The New York Times

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Erin Schrode, 27, foi assediada durante a sua campanha ao Congresso em 2016. As ameaças continuam até hoje, acrescentou Foto: Erika P. Rodriguez para The New York Times

Quatro dias antes das primárias do Congresso em 2016, em seu distrito no Norte da Califórnia, Erin Schrode acordou com dezenas de milhares de mensagens. Estavam em toda parte, no seu e-mail, no celular, no Facebook, no Twitter e no Instagram.

“Todos riam da ideia de estuprá-la em grupo e depois esmagar sua cabeça”, uma delas dizia.

“É engraçado ficar imaginando se ela aguentaria uns vinte mais ou menos por 8 ou 10 horas”, afirmava outra, sugerindo novamente um estupro em grupo.

Isto aconteceu há dois anos, desde que Erin, hoje com 27, foi derrotada nas primárias democratas e foi em frente. Mas as ofensas – a lama venenosa das provocações online, repletas de misoginia e antissemitismo, que incluía imagens retocadas do seu rosto no formato de um abajur nazista, e referências a “pré aquecer os fornos” – nunca pararam.

“Ela precisa parar de mexer as mãos como uma drogada”, disse um tuíte este ano. “Mais um plano feminazi fracassado!” proclamou outro.

O ciclo eleitoral americano de 2018 trouxe uma verdadeira onda de mulheres que decidiram candidatar-se. Um número recorde aspirara, no passado ou agora, a uma cadeira no Senado, na Câmara dos Deputados e ao cargo de governadora, segundo informa o Center for American Women and Politics da Rutgers University de Nova Jersey.

Muitas outras se candidataram aos legislativos estaduais e a uma cadeira nas Câmaras Municipais. Ao longo de todo o processo, elas estão descobrindo que o assédio e as ameaças, já comuns para as mulheres, podem agigantar-se nas disputas políticas – principalmente se a candidata pertence a um grupo minoritário.

No ano passado, abusos de caráter sexista e antissemita contribuíram para fazer com que Kim Weaver, democrata de Iowa, abandonasse a sua candidatura contra o deputado Steve King.

Alguém entrou em sua propriedade durante a noite e colocou uma tabuleta escrita “vende-se”. O site neonazista The Daily Stormer publicou um artigo (que não está mais disponível) com o título “A prostituta que concorre contra Steve King”, lembra Kim, engrossando o teor das ameaças.

Um conhecido no governo alemão até telefonou para alertá-la por ter visto uma conversa ameaçadora em um quadro de recados extremista, e perguntou se ela dispunha de um segurança pessoal.

“Normalmente, eu sou uma pessoa bastante corajosa, mas quando você se sente em um aquário e não sabe quem lhe está atirando pedras, a situação se torna desconcertante”, disse Kim, 53. “Você não sabe se se trata de uma pessoa que está sentada no subsolo da casa da mãe, na Flórida, ou se é um branco supremacista que adora armas e odeia você, e mora a um quarteirão de distância”.

Quando Kim se retirou da disputa, King sugeriu que ela havia inventado as ameaças. “Eu queria #KimWeaver na disputa – e não fora”, ele tuítou. “Os democratas a tiraram da disputa – não foram os republicanos. As ameaças de morte provavelmente nem existiam, foram inventadas”.

Emily Ellsworth , 31, republicana de Utah, disse que quando procurou o apoio de delegados do partido para concorrer ao Senado Estadual, este ano, um delegado a assediou em diversos eventos e mandou uma dezena de mensagens pelo Facebook. Só parou depois que ela desativou sua conta.

As mensagens não eram de cunho explicitamente sexual, ela disse, mas fizeram com que ela sentisse que  “ele realmente queria forçar um relacionamento mais pessoal e tinha dificuldade para aceitar os limites que eu havia estabelecido”.

Morgan Zegers, 21, uma republicana que concorria à Assembleia do Estado de Nova York, contou que foi chamada de “a perfeita dona de casa republicana”, e frequentemente teve de deletar comentários vulgares de sua página do Facebook. Lauren Underwood, 31, candidata a Câmara dos Deputados em Illinois, lembra que quando estava visitando um apoiador, um cidadão republicano local parou perto dela e se ofendeu ao saber que Lauren concorria contra um amigo seu no Congresso.

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“É importante para mim mostrar um bom diálogo sobre as questões políticas e não assustar as mulheres que pretendem candidatar-se”, diz Morgan Zagers, que apaga regularmente comentários vulgares em sua página do Facebook Foto: Nathaniel Brooks para The New York Times

“Ele se endireitou, postou-se na minha frente com grande imponência, curvando-se como se fosse me agredir porque eu tinha a audácia de concorrer ao cargo”, disse Lauren, acrescentando que o seu partidário a defendeu.

O assédio não é nenhuma novidade para as mulheres na política, ou em qualquer outro lugar – os homens o enfrentam também, principalmente se são afro-americanos ou judeus. Mas, no caso das mulheres, o assédio se dá a toda hora, frequentemente é de cunho sexual, e só veio à tona nestas eleições, em parte porque há muitas mulheres concorrendo e em parte porque elas passaram a expor abertamente as experiências pessoais.

Participantes do Women Win, um fórum realizado em junho pelas mulheres democratas que concorrem no Texas, afirmaram que descobriram um sentimento de camaradagem na iniciativa.

“Estar na sala com todas essas mulheres que falam dos mesmos problemas que eu tenho fez com que eu me sentisse muito mais normal”, comentou Samantha Carrillo Fields, 31, uma candidata à Câmara do Texas, referindo-se não apenas à questão da segurança, mas também a outras formas de misoginia durante a campanha. “Foi muito bom receber esta confirmação”, afirmou.

Em um vídeo de 2017 realizado pelo Womens’s Media Center, as que foram eleitas descreveram suas experiências como parte de uma campanha chamada #NameItChangeIt, que encoraja as mulheres a se manifestarem sobre o assédio. E as mulheres, agora, se mostram mais dispostas a fazê-lo em comparação a alguns anos atrás.

Quando Rebecca Thompson, democrata, concorreu à Câmara de Michigan em 2014, notou que uns estranhos começaram a segui-la até em casa, à saída de alguns eventos, e passavam devagar de automóvel várias vezes em frente à sua casa. A certa altura, alguém arrombou o seu carro. No final da campanha, contou, passou a dormir na casa do seu companheiro porque tinha medo de ficar na sua.

“Eu me senti desprotegida durante toda a campanha”, afirmou Rebecca, 35 anos. “Parecia quase uma guerra psicológica, como se tentassem me enlouquecer. Fiquei apreensiva o tempo todo, porque não sabia aonde podia ir, em qualquer lugar da cidade, sem ter a sensação de estar sendo seguida”.

Na época não se sentiu à vontade para falar a este respeito. “Dizia a mim mesma que tinha de aguentar esta situação. Se essas coisas acontecessem agora, acho que me sentiria segura para denunciá-las”.

Mesmo assim, algumas candidatas entrevistadas disseram inicialmente que não haviam sido assediadas – mas quando foram mencionados alguns exemplos, como ameaças em mensagens na mídia social, acabaram falando que, de fato, já haviam passado por isto. Como muitas participantes do movimento #MeToo, estas candidatas observaram que certo grau de misoginia já é tão esperado que parece uma coisa banal.

“As coisas que as pessoas falam acabam se tornando comuns”, disse Mya Whitaker, 27, democrata que se candidatou à Câmara Municipal de Oakland, Califórnia. “O fato de ser uma mulher negra e de existir, em alguns casos, é suficiente para irritar as pessoas”.

Um tipo diferente de percepção de normalidade ocorre no outro extremo do espectro, em que o assédio é tão perverso e constante que ultrapassa a capacidade de reação.

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Mya Whitaker disse que o fato de ser uma mulher negra é suficiente para ser assediada por algumas pessoas Foto: Cayce Clifford para The New York Times

Desenvolvedora de videogames independente em 2014, Brianna Wu foi alvo de abuso durante o GamerGate, quando mulheres que trabalhavam neste setor foram vítimas de assédio.

Agora, Wu, 41, democrata que concorre ao Congresso em Massachusetts, disse que as ameaças de morte e de estupro são tão rotineiras que parou de se preocupar tanto. Mesmo quando as pessoas atiraram objetos pela sua janela ou vandalizaram o carro do seu marido, e até quando enviaram fotos dela, ao estilo paparazzi, em sua própria casa.

“Muitas vezes, olhava aquilo e pensava: eu sei que deveria sentir alguma coisa neste momento. Sei que deveria ficar apavorada, irada ou estressada. A esta altura, já não sinto mais nada”, contou. “É quase como se o medo fosse um músculo sobrecarregado, e não conseguisse fazer mais nada no meu corpo”.

Muitas afirmam que, por princípio, não se intimidam a ponto de calar. Outras dizem que seus ideais políticos são muito mais importantes do que isto.

Frequentemente, Wu e outras insistiram com possíveis candidatas para que não se deixassem dissuadir. Morgan Zegers contou que foi por isso que deletou os comentários sexistas do Facebook.

“Muitas mulheres leem a minha página. Para mim, é importante mostrar um bom diálogo sobre as questões políticas e não assustar as mulheres fazendo com que desistam de se candidatar”.

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Brianna Wu disse que o assédio que ela sofreu como desenvolvedora de videogame em 2014 fez com que se tornasse insensível ao que agora sofre como candidata ao Congresso Foto: Kayana Szymczk para The New York Times

Algumas consideram o assédio uma dificuldade que terão de superar se quiserem mudar os sistemas que a mantêm.

O governo ainda é composto majoritariamente de homens que nunca sofreram assédio sexual, enquanto “um número enorme de mulheres experimenta este tipo de coisa”, disse Lauren.

“Acho que faz parte da oportunidade de concorrer em nome do progresso”, acrescentou. “É uma oportunidade de consertar isto e impedir que aconteça no futuro”.

Ariana Grande teria sido assediada por pastor em velório de Aretha Franklin; vídeo

Durante o discurso, o pastor Charles H Ellis ficou abraçado à cantora e tocou seu seio direito

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Ariana Grande no funeral de Aretha Franklin (Foto: Getty Images)

Ariana Grande foi escolhida para homenagear Aretha Franklin, que morreu no último dia 16, em seu funeral nesta sexta-feira (31), em Detroit. Durante a homenagem, a cantora passou por um momento, no mínimo, desconfortável, e teria sido assediada pelo pastor Charles H Ellis. [Confira o vídeo abaixo]

Após a performance da jovem para o clássico You Make Me Feel Like [A Natural Woman], o pastor Charles, que conduzia a cerimônia, foi visto tocando os seios de Ariana. Ele abraçou a garota para agradecê-la por sua participação e disse não conhecer o trabalho da intérprete de God is a Woman.

“Quando vi Ariana Grande na programação, pensei que era algum prato novo do Taco Bell”, ‘brincou’ o pastor Charles, se referindo a uma famosa rede de fast-food dos Estados Unidos. Nesse momento, o pastor já estava com os braços em volta da cantora, tocando o seio direito dela.

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Ariana Grande fez uma homenagem no funeral de Aretha Franklin (Foto: Getty Images)

Em um vídeo, publicado por um fã-clube da cantora no Twitter, é possíver perceber que Ariana não conseguiu esconder o constrangimento. “Esta é só mais uma de muitas provas de que vivemos numa sociedade composta por homens desrespeitosos, exigimos respeito”, dizia a publicação.

Além dele, o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton também teve a postura condenada por usuários no Twitter, por olhar as costas de Ariana, de cima a baixo, repetidas vezes.

No Twitter, a #RespectAriana, uma referência a canção feminista da própria Aretha, traz mensagens de apoio para a cantora. “Uma pena ver que assediadores como esse homem ganham palco em um lugar onde as pessoas vão para exercer sua fé e religião. Como sempre a hipocrisia e a falta de noção dominam”, escreveu outra usuário da Twitter. [Marie Claire]

Livro chamado de “Black Mirror feminista” reúne contos diversos

O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado, foi lançado pela Editora Planeta

2010817062Editora Planeta lança este mês no Brasil O Corpo Dela e Outras Farras, obra de Carmen Maria Machado. A obra mostra uma coletânea de contos da autora finalista do National Book Award que envolvem realismo, ficção cientifica, comédia, horror, fantasia e fábula. Confira:

Uma esposa se recusa a remover a fita verde de seu pescoço, mesmo após súplicas de seu marido. Uma mulher relata seus encontros sexuais lentamente, como uma praga que consome a humanidade. Uma vendedora descobre algo terrível dentro das costuras dos vestidos de festa de uma loja. Uma cirurgia de redução de peso resulta em um hospedeiro indesejado.

A obra alterna entre violência brutal e o sentimento mais rebuscado, sendo considerado um Black Mirror feminista.

Asos faz absorventes para mulheres do Quênia com sobras de tecidos

‘Iniciativa do conhecimento’ quer evitar que meninas percam aulas por causa da menstruação

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O casaco na foto é uma das peças da coleção Made in Kenya Foto: Instagram.com/asos

Asos, rede de fast fashion britânica que está cada vez mais levantando a bandeira da inclusão e da diversidade, decidiu mais do que fabricar apenas roupas da moda e contratar modelos com vários tipos de corpo. A empresa se uniu a SOKO Community Trust, empresa de tecelagem que dá aulas para meninas em Kasigua, no Quênia, para criar The Kujuwa Initiative (a iniciativa do conhecimento, em português).

O projeto recolhe as sobras de tecidos da coleção Made In Kenya(feito no Quênia, em português), que são fabricadas pela SOKO, serão doados para que costureiras locais as transformem em absorventes para meninas que são obrigadas a faltar na escola durante o período menstrual por causa da dificuldade em obter produtos de higiene pessoal.

Além de um kit que contém duas calcinhas, dois absorventes de pano reutilizáveis, que duram até três anos, uma barra de sabonete e uma sacola a prova d’água, elas também terão aulas sobre saúde.

Primeiro antidepressivo para pós-parto é submetido à aprovação

Medicamento submetido à aprovação das agências de saúde dos Estados Unidos e da Europa será o primeiro composto desenvolvido para a depressão pós-parto
Por Giulia Vidale

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Diagnóstico precoce - A mãe e o recém-nascido: a disfunção pode ter começo ainda durante a gravidez (Westend61/Getty Images)

Duas em cada dez mulheres no Brasil vivem uma das situações mais paradoxais da existência humana: estar com o bebê desejado e saudável nos braços e, no entanto, sentir uma tristeza abissal por tê-lo no colo. Acontece: ser mãe e com a maternidade virem o sentimento de culpa, o choro incontrolável e a prostração severa. Para a medicina, não há dúvida: trata-se de depressão pós-parto. A alta incidência do transtorno e a falta de clareza no diagnóstico, contudo, nunca foram capazes de produzir um tratamento específico para o distúrbio. Diz Eduardo Zlotnik, ginecologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “Havia duas barreiras, o tabu que ainda gira em torno da condição da mulher e os mecanismos muito específicos desse transtorno”. Ao menos o segundo obstáculo está próximo de ser superado com o primeiro medicamento desenvolvido para a depressão pós-parto. Com o nome de brexanolona, o novo composto foi submetido à aprovação das agências americana e europeia de saúde, FDA e EMA. Ambas as instituições já o classificaram como remédio “prioritário e inovador”.

Uma das principais hipóteses para as causas da depressão pós-parto é a gangorra nos níveis de hormônios no organismo feminino. Durante a gravidez, a mulher tem um aumento brutal de uma substância chamada alopregnanolona. Ela tem relação direta com um neurotransmissor de efeito calmante no organismo, o Gaba. No período pós-­parto, a queda da alopregnanolona é abrupta e algumas mulheres não se adaptam à diferença radical, o que leva à instabilidade emocional. O medicamento agora anunciado funciona como uma alopregnanolona sintética. “É uma abordagem refinada”, diz Joel Rennó Júnior, psiquiatra e diretor do Programa Saúde Mental da Mulher, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Até agora o tratamento mais popular para a depressão pós-parto tem empregado os antidepressivos comuns. Em especial os que agem na serotonina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar. O remédio, porém, leva um longo período para produzir efeito — não menos que duas semanas. A grande qualidade da brexanolona, injetável e administrável numa única dose, está justamente no tempo do início de ação no organismo: 48 horas. A diferença no calendário quanto ao começo do efeito é uma enormidade para quem sofre do terrível abatimento.

A brexanolona foi testada em 226 mulheres com idade entre 18 e 45 anos, com bebês de até 6 meses de vida. Todas elas haviam sido diagnosticadas com depressão pós-parto com vários graus de intensidade. As pacientes com depressão grave que receberam uma única dose da medicação tiveram redução considerável na intensidade do transtorno — apesar da presença de efeitos colaterais como sonolência e tontura. Conclusão: as portadoras de depressão severa passaram a sofrer da forma moderada ou leve do distúrbio. É como se uma mulher que não conseguisse levantar-se da cama para lidar com o filho pequeno passasse a fazer isso com alguma facilidade. Ela ainda tem o problema, sim, mas nada que a impeça de cuidar do filho. Como ainda não existem dados sobre a segurança do tratamento para a criança, as participantes tiveram de interromper a amamentação durante o estudo. A brexanolona deixa ainda em aberto uma questão fundamental: uma infusão é suficiente para o tratamento da doença ou serão necessárias novas doses em caso de retorno do transtorno? Por enquanto, os pesquisadores não conseguiram responder à pergunta.

arte-depressao-pos-partoApenas 30% das mães passam ­absolutamente incólumes por essa fase inicial tão delicada e intensa. As demais sofrem de depressão ou de tristeza. A tristeza, decorrente sobretudo da exaustão, das incertezas em relação a ter um bebê e da adaptação à nova vida, é completamente diferente da doença. Conhecida como baby blues, a tristeza é um sentimento deflagrado na primeira semana após o nascimento do bebê, em geral no terceiro dia, e termina espontaneamente por volta de duas semanas depois. A persistência ou a intensificação do abatimento são sinais de alerta para um quadro mais grave que requer tratamento. Deixada a seu próprio curso, a depressão chega a incapacitar para as atividades cotidianas, destrói laços afetivos, solapa a autoestima e provoca alterações abruptas de humor. Em cerca de 1% dos casos, as mulheres desenvolvem psicose pós-parto e podem chegar até a matar o bebê.

A vulnerabilidade da mulher ao descompasso hormonal da depressão é um histórico campo de estudos da medicina. Sabe-se, por exemplo, que problemas financeiros, conflitos com o parceiro e histórico familiar da doença podem ser o gatilho para o transtorno. Mas novos achados mostram um dado revelador: casos severos de depressão pós-parto podem ter tido sua origem ainda durante a gravidez, segundo trabalho publicado na revista científica The Lancet Psychiatry. Ou seja, o tratamento poderia, em tese, começar antes mesmo do parto. Não é uma decisão fácil, pois há sempre a sensação de que a chegada daquele pedacinho gostoso de gente possa resolver todos os problemas. O fato é que nem sempre é assim e, infelizmente, muitas vezes é tarde demais para perceber a escuridão.

Atriz Alyssa Milano, líder do #MeToo sobre Asia Argento: “Abusados também podem ser abusadores”

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Alyssa Milano – Women’s March 2018

As acusações de que Asia Argento, uma das líderes do #MeToo, teria abusado sexualmente o ator James Bennett quando ele ainda era menor de idade não vão desqualificar o movimento de acordo com a atriz Alyssa Milano. Ela, que também exerce papel de liderança, não defendeu a atriz italiana e falou que os resultados da mobilização estão sendo positivos.

“Aqueles que foram abusados também podem ser abusadores”, disse Milano sobre Argento. “O fato de que as pessoas ainda estão se apresentando e ainda expondo as pessoas responsáveis ​​por suas ações, independente de ser homem ou mulher, para mim, é a prova de que o movimento ainda funciona e que progresso está sendo feito”, acrescentou.

Depois que a história entre Asia Argento e James Bennett veio à tona, Ben Brafman, advogado de Harvey Weinstein, produtor que a italiana acusa de ter cometido abuso sexual anos atrás, disse que o movimento é “hipócrita”.

“Pode vir”, falou Alyssa Milano sobre as acusações de Brafman. “Não tenho nenhum medo sobre o movimento #MeToo. Eles podem chamar o movimento do jeito que quiserem. Para mim, a única coisa que ele faz é permitir que nós identifiquemos problemas para discuti-los”, defendeu a atriz.

Milano ainda afirmou que Asia não é líder do movimento e que sua voz é como a de qualquer outra vítima.

“Eu nunca a conheci. Nunca falei com ela. Esse é um movimento onde homens e mulheres se posicionam contra abusos de poder e responsabilizam essas pessoas. Não é como se houvesse algum conselho consultivo. Acho que ela é uma voz que tornou pública a sua história, mas tem muitas outras histórias como da Asia”, concluiu. [Guilherme Raia]