“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis

No Dia Internacional da Saúde Mental, 10 de outubro, a psicóloga Milena Reis conta à Glamour como é ser uma terapeuta negra em 2020 e dar apoio àqueles que estão passando pelos mesmos traumas que ela.
POR MALU PINHEIRO (@MARILUISAPP)

Young black depressed female character sitting on the floor and holding their knees, a cartoon scribble above their head, mental health issues (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

“Desde os 16 anos eu sempre quis ser psicóloga. Nunca fiz inscrição para outro curso no vestibular, nunca tive troca de carreira… A ideia da justiça social sempre me atraiu. Quando eu entrei na universidade, eu queria trabalhar com pessoas pretas em situações de risco. Eu mal sabia o que isso, de fato, era, mas eu queria – e hoje eu trabalho exatamente com isso.

Eu nunca fui ao psicólogo nem fiz terapia quando mais jovem, mas hoje percebo o quanto o teria feito diferença na minha vida, principalmente porque racismo não me atravessa na hora que eu entendo o que é racismo, ele me atravessa o tempo todo.

É importante a gente nomear as coisas. Às vezes, a experiência de uma pessoa preta parece que é pontual, que aquilo é só com ela. Por exemplo, existe um termo que chamamos de solidão da mulher preta. Adolescentes negras, em sua maioria, não têm namoradinhos – elas servem muito mais de ponte entre pessoas do que um destino de afeto. E eu achava que isso era só comigo por ser de um jeito ou de outro, mas quando você começa a ouvir as pessoas, você percebe que não, não é só com você.

Parece que a nossa experiência, principalmente para pessoas que vivem em lugares embranquecidos, é algo particular. Eu vivi 33 anos na região da Paulista, em São Paulo, em uma realidade completamente privilegiada – eu fiz inglês, eu fiz dois anos de cursinho. É importante a gente repensar nosso privilégio, claro, mas tem algumas situações que todo mundo passa: racismo te atravessa. E aí, você passa a entender como ele desumaniza a gente e tira da gente o que a gente é.

A psicologia fala de relações humanas, mas quando a relação é com outra pessoa preta, ela é ainda mais íntima. A gente vai percebendo algumas semelhanças e começa a propor objetos de estudo. Hoje eu faço uma especialização de prevenção e posvenção do suicídio e o tema do meu artigo é O racismo como fator de risco para o suicídio. O suicídio, em geral, é um tema amplamente discutido, mas só existe um livro publicado que relaciona população preta e LGBT com o suicídio. A gente não é tema.

“Atender pessoas pretas me atravessa, mas também me dá material para produzir conhecimento”Milena Reis

No código de ética do profissional da psicologia é indicado que o psicólogo deve contribuir para erradicar qualquer tipo de preconceito, discriminação e opressão – mas nem sempre se enxerga isso como um dever. É importante pensar que a gente vive em uma sociedade racista. Todas as nossas relações são baseadas a partir do racismo. A psicologia deveria ser instrumento antirracista? Deveria. Isso acontece na prática? Nem sempre. Toda vez que a gente tem um sistema de privilégio, as pessoas não querem deixar o privilégio para trás.

Psychologist african american woman and young girl patient in therapy session. Treatment of stress, addictions and mental problems. (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Eu ouço muito de pessoas pretas que passaram por psicólogos brancos, quando o racismo é assunto, existe um movimento de negá-lo. “Imagina, isso não acontece”, “A gente está em 2020” … Existe uma negação e negar o racismo é uma forma de silenciamento. Quando você fala isso, você principalmente nega o direito daquela pessoa de cuidar da sua própria saúde mental.

O racismo é uma ferida que não cicatriza. Você pode não se reconhecer como pessoa negra, mas o racismo vai chegar até você – as oportunidades são diminuídas. Me parece que o racismo estrutural normaliza a ideia de que pessoas pretas não são capazes.

Na psicologia, quando a gente atende alguém as questões do paciente podem se relacionar com a gente – seja pessoa branca, preta, hétero, trans, etc. Na experiência clínica, cada psicólogo desenvolve sua prática, priorizando a escuta ativa e a interpretação do discurso do paciente. Aliado a isso, eu faço terapia e supervisão dos casos, e sempre muito ligado como eu vou me relacionar com o discurso do paciente.

Sempre quando atendemos alguém, o racismo é pano de fundo. Eu preciso estar com o meu alerta ligado porque eu sou uma psicóloga preta e o racismo também chega até mim como profissional. Eu já escutei: “Mas e a psicóloga? Quando ela chega?”. Então, o alerta precisa estar ligado tanto para eu entender algumas questões do racismo chegando até essa psicóloga preta, mas também para eu entender o meu paciente. Preciso de munir de conhecimento, de técnica, refletir sobre a minha prática e, principalmente, fazer terapia.

Black community, african people gathered together, a set of male and female characters wearing casual clothes and different hairstyles (Foto: Getty Images/iStockphoto)
“Pacientes pretos sempre têm algo em comum. O racismo atravessa a nossa existência”, afirma a psicóloga Milena Reis (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Daí, surgiu a Clínica Preta – atender e começar a perceber que os pacientes pretos tinham alguma coisa em comum. Mas, a ideia não é só para atender clientes pretos, é uma clínica afrocentrada, uma psicologia pensando na valorização dos psicólogos pretos. A partir disso, a gente começa a trilhar atendimentos baseadas na técnica e na psicologia preta.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Toda pessoa negra terá que lidar com o racismo a sua vida toda. Como ele atravessa a nossa existência, hora ou outra ele vai aparecer na clínica. Ele pode não ter esse nome. E eu não preciso dizer isso para ela, mas eu entendo que a questão é um reflexo do racismo. Talvez, é preciso ser dito. Talvez, não. Mas o racismo está ali.”

Sedentarismo acelera perda de massa muscular: especialistas dão dicas de como voltar a se mexer em casa

Sarcopenia pode ser amenizada com exercícios de fortalecimento
O Globo

É possível se exercitar mantendo o distanciamento social Foto: RealPeopleGroup / Getty Images

Com o passar dos anos, é natural que a desaceleração do metabolismo impacte o tônus muscular. Mas essa perda, que começa por volta dos 40 anos e vai se intensificando, pode ser compensada por uma rotina de exercicos de fortalecimento. O isolamento social dos que podem ficar em casa, por conta da pandemia de Covid-19, afetou os hábitos físicos de muita gente. E depois de quatro meses de quarentena, os efeitos musculares já são evidentes, especialmente nos mais velhos. Por isso, sair do sedentarismo, mesmo sem sair de casa, é cada vez mais essencial.

Essa perda de massa muscular é chamada de sarcopenia: “É um processo natural do envelhecimento em que ocorre uma redução generalizada do número e do volume de fibras musculares. Atingimos o pico de massa muscular em torno dos 30 anos e ela pode se manter alta até os 40. Depois disso, começa uma perda que pode ser agravada pelo sedentarismo e pela inatividade”, observa o ortopedista Márcio Schieffer.

Para compensar, ele aconselha atividades físicas que fortaleçam os músculos, como musculação. Os exercícios aeróbicos são bons para a saúde, mas não contribuem especificamente para esse problema. “Para os mais velhos, o exercício não serve apenas para ganhar massa, mas é essencial para manter e segurar essa perda”, avalia o especialista em fisiologia do exercício Marcos Ayala. Para ele, as pessoas precisam continuar ativas durante a pandemia mesmo que tenham que mudar o tipo de atividade física que pratiquem. “Faz bem não só para o corpo, mas para a saúde mental também, porque liberamos endorfina e cerotonina, substâncias que geram sensação de bem-estar”, reflete.

Ele recomeda a busca por aulas online: “É preciso achar algo compatível com seu estado físico. Os professores e academias estão disponibilizando aulas para diferentes níveis e há várias modalidades. Quem é sedentário precisa começar do zero”, diz. Pode-se usar pesos e objetos de casa para trabalhar a musculatura, mas sempre começando devagar e aumentando a carga aos poucos. “Outra ideia é fazer os exercícios em forma de circuito, ou seja, sem pausas para descanso entre um e outro”, sugere Ayala. “Assim dá para manter a frequência cardíaca alta ao longo do treino todo. Há um gasto calórico maior e aumento de metabolismo”, explica.

Fortalecimento combate a sarcopenia Foto: Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images
Fortalecimento combate a sarcopenia Foto: Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images

Sua principal recomendação para quem parou durante a pandemia é voltar devagar. É indicado baixar as cargas de peso para 30 ou 40% do que se costumava fazer e diminuir também o número de séries: “Ao invés de quatro ou cinco vezes na semana, comece fazendo três pelo menos nas primeiras semanas”, indica o preparador físico. Ao longo dos dias, pode-se aumentar gradativamente a carga e a intensidade dos exercícios. “O que mais vejo em consultório são lesões em quem começa a se exercitar já com intensidade alta”, conta Márcio Schieffer.

Ele ressalta que não é normal sentir dor na atividade física e isso pode ser um sinal de que ela está sendo feita de maneira inadequada: “Aquela dorzinha no dia seguinte, só no ventre muscular, é típica da atividade. Mas ela melhora em 48 horas. Dores que permanecem nas articulações, no joelho, no ombro, não são normais”, explica.

Ele destaca, ainda, que as mulheres tem mais dificuldades de ganhar massa muscular porque o principal hormônio para esse estímulo é a testosterona. “As mulheres também têm esse hormônio, mas em níveis menores. Elas podem ter mais dificuldades, mas com treinamento e alimentação adequados podem ganhar tanta massa muscular quanto os homens”, avalia.  Em termos de alimentação, a nutricionista Izabella Rocha chama atenção para a refeição pós-treino: “Quando ela não é feita corretamente, o corpo pode usar a massa muscular para repor energia gasta”, explica.

Assim, o ideal no pós-treino é fazer uma reposição de proteínas, com alimentos como carne, frango, peixe, ovos, iogurtes e suplementos proteicos. Em alguns casos, o whey protein pode ser indicado para ajudar a manter ou ganhar massa muscular: “Ele é uma ótima opção no combate à sarcopenia quando por alguma razão a quantidade de proteína torna-se insuficiente”, explica a nutricionista.

O Colégio Americano de Medicina Espotiva recomenda o exercício de 6 a 7 vezes por semana em intensidade de leve a moderada por pelo menos 40 minutos para a população em geral. Ayala comenta que isso reflete uma mudança nos exercícios: “Isso mostra que a  prática de atividade física tem cada vez mais deixado de ser algo estético para se ligar mais à saúde. É mais importante fazer o exercício mais vezes, mas com uma carga menor do que fazer algo em alta intensidade para manter a musculatura ativa”, acredita. O importante é começar.

Por que nossos cabelos caem mais no outono?

Conversamos com uma expert no assunto e te contamos aqui tudo o que você precisa saber para prevenir a queda capilar nessa época do ano
SOFIA FERREIRA (@SOFIACSF)

Por que nossos cabelos caem mais no outono? (Foto: Reprodução Instagram @adutakech)

Não é segredo para ninguém que entrar nas estações mais frias do ano exige uma reformulação da rotina de cuidados de beauté. Isso porque, enquanto caem as temperaturas o ar fica menos úmido – e consequentemente nossa pele cabelo mais ressecados. E é quando também ocorre comumente uma troca dos fios do nosso cabelo, e por isso a queda pode ser mais perceptível. “Normalmente nos perdemos, em média, 100 fios de cabelo por dia. Nessa época, a queda costuma aumentar em 10%”, explica a dermatologista paulistana Maria Angélica Muricy. O motivo? “O cabelo tem um ciclo de vida e, no verão, devido a maior exposição à luz do sol, existe uma foto ativação que acelera seu crescimento. Já no outono, três meses depois, com a redução da incidência solar, acontece mesmo uma queda e troca desses fios”, explica.

Mas não há motivos para se preocupar. Além de ser uma questão fisiológica, ou seja, natural no funcionamento seu organismo, existe uma série de hábitos que te ajudam a fortalecer seus fios e evitar até mesmo que essa queda seja perceptível. Aqui, te contamos três delas. Confira:

Dia a dia
“O cabelo é considerado um anexo cutâneo, e isso significa que sua manutenção não é prioridade para nosso organismo. Por isso, fatores como ter uma alimentação balanceada, praticar exercícios físicos, ter uma boa noite de sono, ser saudável como um todo, são essenciais para a saúde dos seus fios”, explica Maria Angélica.

Hair care
Assim como na nossa pele, usar os produtos adequados para seus problemas capilares é essencial. “Além de cuidar do ressecamento dos fios, especialmente para os quimicamente tratados, é muito importante adequar seus produtos para as necessidades do couro cabeludo e em relação a produção de oleosidade”, ensina. “Também indicamos a chamada terapia rotacional, que consiste no revezamento de produtos para lavagem dos fios, evitando assim o desgaste da região por fórmulas muito ressecantes ou muito oleosos, por exemplo”, complementa a dermatologista.

De olho na temperatura
Especialmente nas estações mais frias do ano, a tendência é de aumentar o uso de águas mais quentes para a hora do banho. E mesmo que o momento seja muito relaxamente, para o cabelo esse hábito pode ser maléfico. “Recomendamos que a água seja sempre morna durante a lavagem dos fios. Assim evitamos o ressecamento do couro cabeludo e a estimulação da produção de oleosidade, causada pelo excesso de calor”, explica.

Dormir de cabelo molhado, jamais!
Dormir de cabelo molhado é uma prática que deve ser evitada em todas as ocasiões. “A umidade no couro cabeludo facilita a proliferação de fungos e bactérias que podem causar dermatites seborreicas e caspa, por exemplo”, ensina Maria Angélica. Por isso, se for lavar os fios a noite, a dermatologista recomenda o uso do secador (sempre com protetor térmico!), em temperatura média. 

Laurie Garrett, vencedora do Pulitzer e pesquisadora de Harvard, previu o coronavírus; o que ela tem a dizer sobre o pós-pandemia?

Para a jornalista Laurie Garrett, vencedora do Pulitzer e pesquisadora de Harvard, no melhor cenário possível ainda teremos 36 meses de crise
Frank Bruni, The New York Times

A jornalista Laurie Garrett, uma das vozes que previu a pandemia  Foto: Joshua Bright/The New York Times

Eu disse a Laurie Garrett que ela poderia trocar o seu nome por Cassandra. De qualquer maneira, todos a chamam assim, agora.

Eu e ela estávamos no Zoom (programa para videoconferência) – e ela pegou um livro de 2017, Warnings: Finding Cassandras to Stop Catastrophes. A obra observa que Laurie, Prêmio Pulitzer de jornalismo, previu não apenas o impacto do HIV, como também o surgimento e a propagação em todo o globo de patógenos mais contagiosos.

“Eu sou duplamente Cassandra”, disse Laurie. Ela é mencionada com grande destaque também em um recente artigo da Vanity Fair, de David Ewing Duncan, sobre “As Cassandras do coronavírus”.

Cassandra, como se sabe, era uma profetisa grega condenada a fazer previsões indesejadas. E o que Laurie previu mais diretamente – em seu best-seller de 1994, The Coming Plague, e nos livros e discursos que se seguiram, inclusive em palestras – é uma pandemia como a atual.

Laurie pressentiu que estava próxima. Por isso, em grande parte, o que queria perguntar a ela era o que ela vê no futuro próximo. Mantenham-se firmes. Sua bola de cristal está escura.

Apesar da queda da Bolsa em razão disso, o Remdesivir (medicamento antiviral) provavelmente não garantirá que possamos sair dessa, ela me disse. Ele não representa a cura, afirmou, e destacou que as conclusões mais importantes até o momento dizem respeito ao fato de que só encurtará a recuperação dos pacientes do covid-19. “Enquanto nós precisamos de uma cura ou de uma vacina”.

Mas ela não tem condições de prever uma vacina já no próximo ano, porque o covid-19 continuará sendo uma crise por muito mais tempo.

“Falo para todo mundo que minha previsão é de cerca de 36 meses e este é o melhor cenário possível,” afirmou.

“Tenho certeza de que virá em ondas”, acrescentou. “Não será um tsunami varrendo os Estados Unidos de uma só vez, que se retirará. Acontecerá em micro ondas surgindo em Des Moines e depois em Nova Orleans, então em Houston, e assim por diante, e afetará a maneira das pessoas de refletir sobre todo tipo de coisas.”

Elas terão de reavaliar a importância da viagens. Terão de reavaliar o seu uso dos transportes de massa. Reverão a necessidade de encontros de negócios pessoalmente. Reavaliarão o envio dos filhos para estudar em uma universidade em outro estado.Então, perguntei, se a frase “de volta ao normal”, à qual todos se aferram, é uma fantasia?

“Essa é a história se desenrolando bem na nossa frente”, disse Laurie. “Acaso ‘voltamos ao normal’ depois do 11 de Setembro? Não. Criamos um normal totalmente novo. Nós nos transformamos em um Estado contra o terror. E isto afetou todas as coisas. A partir dali, não pudemos entrar em um edifício sem mostrar a identidade e passar por um detector de metais, e não pudemos mais entrar em um avião como sempre fizemos. É o que vai acontecer neste caso.”

Não serão detectores de metais, mas uma mudança sísmica em relação às nossas expectativas, ao que suportamos, à maneira como nos adaptamos. Talvez também no engajamento político, apontou Laurie.

Se os EUA sofrerem a próxima onda de infecções por coronavírus “com os ricos que, no meio tempo, ficaram um pouco mais ricos graças à pandemia protegendo-se, vendendo a descoberto, fazendo todas as coisas repugnantes que costumam fazer, enquanto nós saímos das nossas tocas de coelhos e nos damos conta: ‘Oh, meu Deus, não só todos estão desempregados ou subempregados e não ganham o suficiente para se sustentar ou pagar o aluguel, como agora de repente estes cretinos que voavam de helicópteros particulares, voam em jatinhos particulares e são donos de uma ilha para onde costumam retirar-se, e não dão a mínima se as ruas são seguras ou não’, e acho que poderemos ter um gigantesco cataclismo político.” 

“Assim que sairmos das nossas tocas e virmos como é uma população de 25% de desempregados”, completou, “talvez vejamos também como é o ódio coletivo.”

Laurie Garrett tem estado no meu radar desde o início dos anos 1990, quando ela trabalhava para a Newsday e fez algumas das melhores reportagens em todo canto sobre a aids. O Pulitzer lhe foi conferido em 1996 pela cobertura do ebola no Zaire. Ela é pesquisadora na Escola de Saúde Pública de Harvard, foi membro do Conselho de Relações Exteriores e foi consultora no filme Contágio.

Em outras palavras, a sua experiência e capacidade vêm sendo solicitadas há muito tempo. Mas nunca como agora.

Todas as manhãs, ela abre o seu e-mail e “lá estão solicitações da Argentina, de Hong Kong, Taiwan, África do Sul, Marrocos, Turquia”, contou. “Sem falar em todas as solicitações americanas.” Foi aí que fiquei mal por estar tirando mais de uma hora de seu tempo, no dia 27 de abril. Mesmo assim, pedi mais 30 minutos para o dia 30 de abril.

Ela disse que não estava surpresa pelo fato de o coronavírus ter provocado tamanha devastação, que a China minimizou o que estava ocorrendo ou que a reação em vários países foi descuidada e lenta. Afinal, ela é Cassandra.

Mas há uma parte da história que ela não poderia prever: que o termo de comparação no que se referiu a descuido e a lentidão seriam os Estados Unidos.

“Nunca poderia imaginar isto”, afirmou. “Jamais”.

Entre os destaques, em sentido negativo, está a aceitação inicial do presidente Donald Trump das garantias feitas pelo presidente Xi Jinping de que tudo se resolveria bem; sua escandalosa complacência, do final de janeiro até meados de março; sua defesa de tratamentos não comprovados; suas reflexões sobre curas absurdas; sua abdicação da sólida orientação federal aos estados; e o fato de ele se furtar, mesmo neste momento, a apresentar uma ampla e detalhada estratégia para conter o coronavírus.

Como acompanho há muito tempo o trabalho de Laurie Garrett, posso atestar que ela não está ligada a partidarismos. Por exemplo, ela elogiou George W. Bush pelo seu combate ao HIV na África.

No entanto, ela disse que Trump “é o bufão mais incompetente e temerário que se possa imaginar”.

E está chocada pelo fato de os EUA não terem condições de liderar uma resposta global a esta crise, em parte também porque a ciência e os cientistas são tão degradados por Trump.

Referindo-se aos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de Atlanta e a seus análogos no exterior, contou: “Ouvi depoimentos de todos os CDC do mundo – o CDC europeu, o CDC africano, o da China – e eles afirmam: ‘Em geral, nós sempre recorremos em primeiro lugar a Atlanta, mas não ouvimos nenhuma resposta’. Nada acontece ali. Eles o destruíram, o amordaçaram. Não consigo quaisquer respostas de lá. Ninguém ali está se sente seguro para falar. Já viu alguma coisa importante e vital sair do CDC?”

O problema, segundo ela, é maior do que Trump e mais antigo do que a sua presidência. Os EUA nunca investiram suficientemente em saúde pública. Os ricos e famosos costumam procurar os médicos que encontram maneiras novas e melhores para tratar as doenças cardíacas, o câncer etc. O grande debate político é sobre o acesso dos indivíduos ao sistema de saúde.

E aquilo de que os EUA precisam mais neste momento, apontou, não é esse estardalhaço a respeito de testes, testes, testes, porque nunca haverá testes super rápidos, super confiáveis para determinar na hora quem pode entrar com segurança em um ambiente de trabalho lotado ou em qualquer outro ambiente, aliás, o cenário que algumas pessoas têm em mente. 

Os EUA precisam de informações confiáveis, de inúmeros estudos rigorosamente estruturados sobre o predomínio e a letalidade das infecções do coronavírus em determinados subgrupos de pessoas, de modo que governadores e prefeitos possam elaborar leis para o distanciamento social e reaberturas sensíveis, sustentáveis de acordo com a situação de cada lugar.

Os EUA precisam de um governo federal que promova afirmativamente e ajude a coordenar esta estratégia, não um governo em que especialistas como Tony Fauci e Deborah Birx pisam em ovos ao redor do ego paternal do presidente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

5 dicas de especialistas para dormir melhor

Pesadelos, sono agitado e insônia estão incomodando os quarenteners. Saiba como se prevenir e melhorar a qualidade do seu sono
NATHALIA FUZARO

Dieta do sono? Sim, ela existe! (Foto: Reprodução/Vogue Espanha)

Se você se interessou por essa matéria, talvez se identifique com o tema ou conheça alguém que está enfrentando problemas para dormir. Você ou seus familiares/amigos estão tendo mais pesadelosinsônia ou noites agitadas? Não à toa: diversos fatores da quarentena podem causar distúrbio no sono, tais como a ansiedade, o medo, o estresse, a mudança na rotina (consequentemente, nos horários de acordar e dormir, nos hábitos alimentares e na prática de exercícios físicos, por exemplo)… Mas, então, o que podemos fazer dormir melhor? Especialistas respondem abaixo:

Desconecte-se

Segundo neurologista Letizia Borges, os sonhos ocorrem durante a fase REM, que tem intensa atividade cerebral. “E os pesadelos são um reflexo do que sentimos, das nossas inseguranças mais profundas. Como estamos nesse contexto de sofrimento pela pandemia, com medo, é natural que os pesadelos aumentem”, explica a doutora. “Por isso, é importante que as pessoas evitem ter contato com uma quantidade exagerada de notícias ruins e ler sobre a Covid-19 à noite. Antes de ir para o quarto, é melhor ficar com a família, assistir a um seriado, ler livros, meditar e escutar uma música relaxante.” Nada novo, mas que fazem ainda mais sentido agora.

Cuide da coluna e do pescoço

Taí outra recomendação conhecida, mas que normalmente menosprezamos. Em casa, as pessoas tendem a ficar mais tempo sentadas e deitadas, o que pode comprimir a coluna e dificultar a vascularização – ainda mais em tempos de home office. Mas o que isso tem a ver com o sono? “Quando as artérias da parte de trás do corpo são comprimidas, a carótida (que fica na parte da frente) tem que trabalhar mais para irrigar o cérebro. Só que é justamente essa parte frontal do cérebro a responsável por nos colocar em estado de alerta, então o sono acaba sendo prejudicado”, esclarece o Dr. Lucas Rech, criador do Centro de Quiropraxia Casa da Coluna e do estúdio de condicionamento físico QuiroGym. Para amenizar os efeitos da quarentena, ele recomenda fazer exercícios de alongamento e fortalecimento da coluna e dos músculos estabilizadores do pescoço, principalmente o trapézio e o escaleno.

Mantenha a rotina

Sem ter que encarar o trânsito, há quem esteja aproveitando para dormir um pouco mais. Mas a Dra. Letízia ressalta a importância de estipular horários para acordar e dormir – e consequentemente comer, trabalhar, descansar. “Levantando mais cedo, o sono virá mais cedo também. Além disso, é essencial ter um ritual com atividades relaxantes para ir acalmando a mente. Evite usar o celular à noite, por exemplo, pois além de estimular o cérebro com um excesso de informações a luz emitida pela tela reduz a produção do hormônio do sono, a melatonina.”

Vigie o que come

Por falar em melatonina, a nutrição pode ser uma boa aliada! Alguns alimentos, como aveia e cereja, são fontes naturais que ajudam na sua secreção. Além disso, escolhas estratégicas podem melhorar ainda seu humor e sua disposição. A nutricionista esportiva e bariátrica Natália Bisconti, da Clínica Franco e Rizzi, enumera algumas recomendações: “Mantenha a ingestão adequada de proteínas, como carnes magras, ovos, leite desnatado e seus derivados, cogumelos e grãos. Diversos neurotransmissores como a serotonina e a dopamina dependem de aminoácidos essenciais para serem secretados. Também atente para o consumo de gorduras boas, principalmente o Ômega 3, tais como peixes, azeite de oliva, sementes, abacate e oleaginosas, pois a deficiência dos ácidos graxos pode estar relacionada com o aumento da depressão. Evite alimentos gordurosos à noite, pois dificultam o processo de digestão e podem prejudicar o sono. E, por fim, capriche no uso de chás como camomila, melissa e maracujá, que têm efeito calmante”.

Prepare o cenário

Ajude seus cinco sentidos a entenderem que é hora de descansar. O tato pode ser beneficiado por um colchão e um travesseiro adequados. “Veja na tabela de densidade qual corresponde ao seu tipo físico, pois o colchão deve dar suporte à coluna. E o ideal é dormir de lado com um travesseiro confortável, na altura da curvatura natural do pescoço”, lembra a neurologista. Já o olfato pode ser estimulado com o uso de óleos essenciais. “Eles funcionam como uma chave que abrem e fecham receptores em nosso cérebro, auxiliando nos níveis de estresse e em outras funções fisiológicas”, explica Paloma Doro, diretora de marketing da Young Living Essential Oils. Ela recomenda pingar essências de lavanda ou o blend Peace & Calming no difusor e deixar alguns minutos no quarto antes de deitar. “Para quem não tem difusor, aplique duas gotas nos pés com uma gota no travesseiro ou duas gotas nas mãos, esfregue uma à outra e inspire algumas vezes profundamente.”

Terapia com led acelera recuperação do cabelo após quimioterapia

Radiação permite que células capilares recebam mais nutrientes e criem fios de melhor qualidade
LUDIMILA HONORATO – O ESTADO DE S.PAULO

O cabelo começa a crescer de dois a três meses após o fim do tratamento com quimioterapia de maneira mais lenta. Foto: Unsplash/@danielapodaca96

queda de cabelo em decorrência da quimioterapia varia de acordo com o tipo de droga utilizada no tratamento, que pode ser mais ou menos agressiva ao organismo. Quando a perda ocorre, o crescimento dos fios se dá após dois ou três meses do término das sessões, mas é possível acelerar o processo por meio da ledterapia, que estimula as células capilares a trabalharem mais e com melhores resultados.

A técnica não é uma novidade no universo de tratamento dos fios. Segundo o cirurgião vascular Álvaro Pereira, já se sabe há muito tempo que essa radiação, na dose e frequência certas, estimula o crescimento do cabelo. Ela já é utilizada por quem sofre com a perda por outros motivos que não o efeito colateral da quimioterapia.

No caso do tratamento contra o câncer, o medicamento tem o objetivo de atingir as células de crescimento acelerado, que é o caso das células cancerígenas. Mas ele não diferencia as tumorais das boas e aquelas que dão origem aos fios, saudáveis, também se enquadram nessa categoria e são afetadas paralelamente, causando a queda do cabelo.

Para recuperá-lo com a ledterapia após esse processo, a pessoa usa um boné ou capacete que emite uma radiação com frequência específica, de baixa potência. Os raios vão promover a dilatação dos vasos sanguíneos, o que aumenta a entrada de nutrientes e oxigênio nas células capilares. Com isso, também cresce a produção de energia celular e, consequentemente, a capacidade de produzir mais fios de cabelo de melhor qualidade.

E é justamente por causa do efeito de vasodilatação que a ledterapia só é indicada após o fim do tratamento quimioterápico. Se ela for utilizada durante, o medicamento tende a penetrar ainda mais nas células e provocar o resultado contrário. Assim, a técnica não é uma prevenção contra a perda do cabelo, mas um acelerador de crescimento pós-quimioterapia.

Pereira observa que, caso a pessoa ainda opte por fazer ledterapia durante o tratamento contra o câncer, é preciso esperar cerca de três dias após a sessão de quimioterapia para garantir que a droga não esteja mais no organismo. Algumas podem durar menos tempo no corpo, porém, no geral, a orientação é usar no final. “A cada sessão de quimio, a ledterapia não vai ser suficiente para ‘inibir’ a queda tanto quanto se fizer depois da quimio.”

A decoradora Luciana Bottura de Medeiros, de 48 anos, começou a usar o boné de ledterapia após o segundo tratamento contra o câncer. Aos 40 anos, ela descobriu um tumor na mama esquerda, que foi totalmente retirada, e teve de fazer 30 sessões de radioterapia, que não afetou o cabelo. Quatro anos depois, a doença voltou mais agressiva, em outros órgãos, e ela passou por 26 sessões de quimioterapia. “Fiquei careca 20 dias após a primeira sessão”, conta.

Luciana relata que, após o fim do tratamento, o cabelo começou a crescer lentamente, mais fino e com falhas. Na clínica onde se tratou, uma dermatologista indicou a terapia de led com boné, que pode ser usado em casa. Em novembro de 2019, ela começou a usar o produto uma vez ao dia durante dez minutos. Antes, ela lava o cabelo e passa algumas gotas de minoxidil, fármaco que também promove vasodilatação e é comumente usado para recuperação do cabelo.

“Percebo que os fios estão mais encorpados e o crescimento foi acelerado tendo em vista a comparação com outras meninas que não usaram o boné. Para mim, o resultado tem sido bastante satisfatório, me sinto bem e confiante que logo estarei com meu cabelo mais comprido para conseguir fazer um corte bem estiloso”, comenta Luciana.

Tratamento evita queda de cabelo durante quimioterapia

A dermatologista Estrela Machado, especialista em oncologia e tricologia, do Centro Paulista de Oncologia, afirma que a crioterapia é um dos tratamentos que se mostraram mais eficazes para minimizar a queda de cabelo devido à quimioterapia. A touca que permanece com temperaturas entre 18 e 22 graus Celsius tem de ser usada enquanto a pessoa faz a sessão de quimio. Curiosamente, o método de resfriamento da cerveja foi o que inspirou a criação do equipamento.

A técnica tem duas ações importantes: o congelamento das células capilares, que vão deixar de ter crescimento acelerado e de serem vistas como ‘más’ pelo quimioterápico, e o estreitamento dos vasos sanguíneos, fazendo com que menos droga chegue até as células do cabelo. Pela literatura médica, Estrela diz que a melhora da queda de cabelo com a crioterapia é em torno de 50%, algo que ela observa na própria experiência clínica.

A touca inglesa (crioterapia) permite que o couro cabeludo fique a uma temperatura entre 18ºC e 22º C.
A touca inglesa (crioterapia) permite que o couro cabeludo fique a uma temperatura entre 18ºC e 22º C. Foto: Paxman/Divulgação

“Tem casos de muito bom resultado e outros que são ruins, em torno de 30% de preservação dos fios. Mas, independente do resultado, quando acaba a quimioterapia, a recuperação é superior a de pacientes que não fazem e vem com qualidade muito melhor. A quimio faz cair e nascer três meses depois, mas nunca igual”, diz a médica.

A variação dos resultados depende, por exemplo, do tipo de quimioterápico utilizado, do tempo de infusão da droga e da quantidade de ciclos do tratamento. Por observação, a dermatologista aponta que quem já tem alguma patologia no couro cabeludo, haste dos fios mais fina e usa muitos produtos químicos no cabelo pode ter um resultado pouco satisfatório também.

Estrela diz que durante o tratamento quimioterápico pode haver uso de minoxidil e cisteína, que garante a qualidade dos fios, mas, segundo ela, os resultados só dessas substâncias são pobres. Outro problema é que o uso de medicamentos orais por quem faz quimioterapia pode deixar a pessoa mais sensível e haver intercorrência. “O que mais entrega resultado é a crioterapia.”

Tratamentos capilares após a quimioterapia

Passado o tratamento contra o câncer, a dermatologista também aponta a terapia com led como benéfica, pois a ação dos lasers de baixa potência aumenta o número de fios. O cirurgião vascular Álvaro Pereira é sócio da Cosmedical e idealizador de um capacete de ledterapia da Capellux que pode ser usado em casa.

A versão em boné do produto foi a utilizada pela Luciana e é mais indicado para quem tem pouco cabelo, que é o caso dela. “Para quem tem mais cabelo, o boné não é tão eficiente quanto o capacete com espícula, que é como um dente de pente que atravessa os cabelos e encosta direto no couro cabeludo”, explica o médico.

Luciana percebeu que com o uso da ledterapia, o cabelo dela cresceu mais rápido e com melhor qualidade do que das pessoas que não usaram.
Luciana percebeu que com o uso da ledterapia, o cabelo dela cresceu mais rápido e com melhor qualidade do que das pessoas que não usaram. Foto: Arquivo pessoal

No dia do fechamento desta reportagem, o boné era vendido por R$ 984 e o capacete, R$ 2,5 mil no site da marca. Pereira diz que os dispositivos também estão disponíveis em farmácias de manipulação e lojas distribuidoras. Clínicas médicas podem oferecer o serviço que, segundo ele, é com um aparelho de maior potência.

Para a dermatologista, o resultado da técnica é bastante potencializado com outros tratamentos, não sozinho. “Vai usar [a ledterapia] para crescer mais rápido, com medicações a base de vitamina e tópicos que vão fazer vasodilatação para chegar mais nutrientes ao cabelo.” Outras técnicas que ela cita são: suplementação oral, microagulhamento e aplicação de produtos dentro da derme capilar.

Economistas da Casa Branca alertaram em 2019 que uma pandemia poderia devastar os EUA

Estudo de setembro de 2019, antes do coronavírus, foi ignorado
E-INVESTIDOR
einvestidor@estadao.com

(Jim Tankersley, The New York Times News Service) – Economistas da Casa Branca publicaram um estudo em setembro de 2019 que alertou que uma doença pandêmica poderia matar meio milhão de americanos e devastar a economia. Foram ignorados dentro da administração. No final de fevereiro e início de março, quando a pandemia de coronavírus começou a se espalhar da China para o resto do mundo, os principais assessores econômicos do presidente Donald Trump minimizaram a ameaça que o vírus representava para a economia e a saúde pública dos EUA.

“Não acho que o corona seja uma ameaça tão grande quanto as pessoas imaginam”, disse o presidente em exercício do Conselho de Assessores Econômicos, Tomas Philipson, a repórteres durante um briefing de 18 de fevereiro, no mesmo dia em que mais de uma dúzia de passageiros de navios de cruzeiro americanos que haviam contraído o vírus foram evacuados para casa.

“As ameaças à saúde pública normalmente não prejudicam a economia”, disse Philipson. Ele sugeriu que o vírus não seria tão ruim quanto uma temporada de gripe normal.

O estudo de 2019 alertou o contrário – especificamente pedindo aos americanos que não confundam os riscos de uma gripe típica e uma pandemia. A existência desse aviso mina as alegações dos funcionários do governo dos Estados Unidos nas últimas semanas de que ninguém poderia antever o vírus danificando a economia.

O estudo foi solicitado pelo Conselho de Segurança Nacional, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto. Um dos autores do estudo, que desde então deixou a Casa Branca, agora diz que faria sentido para o governo efetivamente encerrar a maioria das atividades econômicas por de dois a oito meses para retardar o vírus.

Vidas perdidas

O coronavírus se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos e por sua economia, matando mais de 3 mil americanos e fazendo o país mergulhar no que os economistas preveem que será uma profunda recessão. Um número crescente de governadores e autoridades locais efetivamente interrompeu grandes quantidades de atividade econômica e ordenou que as pessoas permanecessem em suas casas na maioria das situações, na esperança de diminuir a disseminação e aliviar a pressão sobre os hospitais.

Autoridades do governo divulgaram na terça-feira, 31, modelos de saúde pública que impulsionaram essas decisões, incluindo projeções de quando as taxas de infecção podem atingir o pico nacional e local. Oficiais do governo estimaram que o patógeno mortal poderia matar entre 100 mil e 240 mil americanos.

Enquanto os funcionários debatem quando podem começar a reabrir os setores fechados do país, não está claro como a Casa Branca está contabilizando os benefícios e custos potenciais – em números de dólares e vidas humanas – de cronogramas de ação concorrentes.

Questionado pela Fox News no último domingo (29) sobre o efeito econômico e se os Estados Unidos estavam em recessão, o secretário do Tesouro Steven Mnuchin se recusou a dizer. “Vamos ter atividade econômica reduzida neste trimestre? Absolutamente”, ele disse. “Acho que no próximo trimestre, depende muito da rapidez com que a curva da situação médica funciona”.

O diretor do Conselho Econômico Nacional, Larry Kudlow, disse à ABC News no domingo que “pode ​​demorar quatro semanas, pode levar oito semanas” antes do início da atividade econômica. “Eu digo isso com esperança”, disse ele, “e digo isso em oração”.

Economia fechada por quase oito meses?

Economistas externos vêm realizando análises sobre a duração ideal de um desligamento quase diariamente. Um que foi compartilhado com funcionários da Casa Branca vem de Anna Scherbina, uma autora do estudo de 2019 que agora é economista da Brandeis University e do American Enterprise Institute.

Ele procura determinar a duração ideal de uma supressão nacional da atividade econômica, que Scherbina não define precisamente no artigo. Em uma entrevista, ela disse que abrangeria o fechamento de escolas, fechando muitas empresas e o tipo de ordens de permanência em casa que muitos, mas não todos, os estados impuseram.

“O que isso implica é algo o mais drástico possível”, disse Scherbina. Nos Estados Unidos, no momento, ela acrescentou: “não temos em todos os lugares”.

O artigo de Scherbina avalia as compensações envolvidas na desaceleração da economia para combater a propagação do vírus, como o artigo coloca, “equilibrando seus benefícios incrementais com os enormes custos que a política de supressão impõe à economia dos EUA”.

No melhor cenário, conclui Scherbina, uma supressão nacional da atividade econômica para achatar a curva de infecção deve durar pelo menos sete semanas. Na pior das hipóteses, onde o desligamento se mostra menos eficaz em diminuir a taxa de novas infecções, seria economicamente ideal manter a economia fechada por quase oito meses.

Os esforços de supressão causam danos consideráveis ​​à economia, reduzindo a atividade em cerca de US$ 36 bilhões por semana, estima o estudo. Mas os esforços salvariam quase 2 milhões de vidas quando comparados a um cenário em que o governo não fez nada para frear a atividade econômica e a propagação do vírus, estima Scherbina, porque não fazer nada imporia um custo de US$ 13 trilhões à economia – igual a cerca de dois terços da quantidade de atividade econômica que os Estados Unidos deveriam gerar este ano antes do ataque do vírus.

Scherbina baseou suas estimativas nos modelos que construiu quando economista sênior do Conselho de Assessores Econômicos e principal autora do artigo de setembro, “Atenuando o impacto da gripe pandêmica por meio da inovação de vacinas”, que alertou sobre o número de mortes potencialmente catastróficas e danos econômicos causados ​​pela gripe pandêmica nos Estados Unidos.

“Acumulei todo esse conhecimento e, em seguida, o coronavírus apareceu”, disse Scherbina em uma entrevista por telefone. “Então eu pensei: eu deveria usá-lo.”

As estimativas do estudo

O estudo da Casa Branca de 2019 pediu novos esforços federais para acelerar o tempo necessário para desenvolver e implantar novas vacinas. Ele não previu especificamente o surgimento do coronavírus – em vez disso, modelou o que aconteceria se os Estados Unidos fossem atingidos por uma pandemia de gripe semelhante à gripe espanhola de 1918 ou à chamada gripe suína de 2009. Ela projetou mortes e perdas econômicas dependendo de quão contagioso e mortal o vírus seria.

Mesmo nas taxas mais altas que modelou, a gripe pandêmica no exercício ainda era menos contagiosa e menos mortal do que os epidemiologistas dizem agora que o coronavírus poderia estar nos Estados Unidos.

O estudo da Casa Branca estimou que uma gripe pandêmica poderia matar até 500.000 americanos e infligir até US$ 3,8 trilhões em danos à economia. Essas estimativas não foram responsáveis ​​por nenhuma perda econômica incorrida por “pessoas saudáveis, evitando o trabalho por medo de serem infectadas por colegas de trabalho”.

A estimativa de danos de ponta do estudo teria sido ainda maior que US$ 3,8 trilhões, disse Scherbina, mas a versão final do documento foi alterada dentro do Conselho de Assessores Econômicos para descontar o valor econômico atribuído à vida dos americanos mais velhos. Ele atribuiu um valor de US$ 12,3 milhões por vida para americanos entre 18 e 49 anos, em comparação com US $ 5,3 milhões para aqueles com 65 anos ou mais.

Funcionários do Conselho disseram na terça-feira, 31, que Philipson não estava disponível para uma entrevista. Ele não deu nenhuma indicação este ano de que o estudo e suas previsões haviam influenciado os funcionários do governo em sua resposta inicial ao surto de coronavírus.

As possíveis fontes de vitamina D durante o isolamento social

Ossos, músculos e imunidade fortalecidos são alguns dos benefícios da vitamina D – especialmente importantes para as mulheres 50+
POR OLGA PENTEADO

O sol é a principal fonte de vitamina D, sintetizada na pele pela radiação UVB | Foto: Foto: Ivan Erick / Acervo Vogue Brasil

Mesmo em um país tropical como o nosso, a carência de vitamina D, fabricada pelo nosso organismo a partir da radiação solar, se tornou um problema. “Sua falta pode ser considerada epidêmica em populações específicas, como idosos, gestantes, pacientes com osteoporose e doentes crônicos. Nestes casos, as taxas de insuficiência e deficiência variam de 20 a 70%”, afirma Victória Borba, endocrinologista de Curitiba e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Isso é uma questão porque a vitamina D é vital para a formação da saúde óssea, uma vez que favorece a absorção do cálcio. “Portanto, ela é muito importante para as mulheres no climatério e na menopausa, fases de maior risco para a osteoporose”, explica Silvia Lagrotta, geriatra e gerontóloga do Rio de Janeiro, fundadora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV).

Mas não é só isso. Além de ser fundamental para a absorção de cálcio e outros minerais, a vitamina D tem ainda outros benefícios, entre eles, papel ativo na modulação do sistema imunológico, auxiliando na regulação das células de defesa. E manter a imunidade em dia é mais do que desejável quando nos deparamos como uma pandemia de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

O sol é a principal fonte de vitamina D. “Cerca de 90% desta vitamina é sintetizada na pele humana pela radiação UVB”, afirma Silvia. Ela também é encontrada nos alimentos, mas em menor concentração. Neles, as fontes principais são os peixes gordurosos como salmão selvagem, atum, sardinha e também o óleo de fígado de bacalhau, além dos alimentos suplementados. “Mesmo assim, o consumo alimentar não é suficiente para manter seus níveis adequados”, reforça Victória. Temos capacidade de armazená-la no fígado e na camada de gordura, mas esses estoques precisam ser constantemente renovados com a exposição solar adequada e habitual. “Basta caminhar ao ar livre por 15, 20 minutos com os braços expostos”.

Isso numa situação normalizada, claro. Mas como sintetizar a vitamina D respeitando o isolamento social solicitados pelas autoridades? Uma parte dos médicos recomenda pequenas exposições no jardim da residência, na varanda ou simplesmente na janela do apartamento. “Nesses tempos, em que a exposição solar fica bastante prejudicada, podemos utilizar alguns artifícios para potencializar a produção, como a exposição solar naquele momento que geralmente desaconselhamos em situações normais, a partir das 10 horas da manhã até as 15 horas, porém em curta exposição, de 15 a 20 minutos”, diz a médica paulistana Aline Lamaita, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e do American College of Lifestyle Medicine.

Mas essa não é uma indicação unânime. A Sociedade Brasileira de Dermatologia, preocupada com a incidência crescente de câncer de pele no Brasil, não alterou a sua posição. “Não indicamos a exposição intencional — aquela em que a pessoa vai para o sol para produzir vitamina D — nem mesmo agora, durante o isolamento social. Essa exposição não controlada representa riscos”, afirma Hélio Miot, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e professor-assistente na Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Botucatu (SP). Mas não há, segundo o porta-voz da SBD, contraindicação para exposição habitual — que hoje pode ser traduzida em brincar com as crianças ou o cachorro no quintal ou na varanda. “Mesmo com fotoproteção e em horário de sol mais suave, é o suficiente para a produção de vitamina D em níveis adequados”, pontua o médico.

Como não há consenso na comunidade científica sobre a exposição solar, o melhor a fazer é  entrar em contato com seu médico — por telefone ou outra mídia — para, em conjunto, definirem o caminho mais adequado para você. Já em relação à suplementação, principalmente para grupos de risco, os médicos são unânimes em recomendá-la caso haja carência apontada em exames. Mas vale lembrar: não use o suplemento por conta própria, porque vitamina D em excesso também pode prejudicar a saúde.

Outra recomendação é manter a atividade física em casa. “O isolamento social pode levar ao sedentarismo, à perda de massa magra e à redução de deposito de cálcio nos ossos, maximizando o risco de pessoas com osteoporose. É importante ter uma atividade ainda que pequena nesse período, além de uma alimentação regrada e com boas fontes de vitamina D”, diz Hélio. Assim, quando tudo isso passar, você estará firme e forte para voltar à rotina normal.

‘Previsão sem dados não é ciência, é opinião’, diz Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do Labdaps, da USP

Diretor do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde, Alexandre Chiavegatto Filho está à espera de dados confiáveis para desenvolver algoritmos brasileiros contra o covid-19
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do Labdaps, da USP

Alexandre Chiavegatto Filho acredita que a inteligência artificial (IA) poderá ter um papel muito importante ainda na atual crise do coronavírus. Ele comanda o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (Labdaps) da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolve pesquisas de IA em saúde. Hoje, a especialidade do centro são estudos para predizer óbito ou sobrevivência após condições específicas de saúde. 

Ele afirma que os pesquisadores estão de plantão à espera dos dados para treinar algoritmos para o novo coronavírus. Segundo o pesquisador, os sistemas poderão ajudar hospitais a dar prioridade a UTIs e ou a fazer diagnósticos que possam compensar a ausência de testes específicos para covid-19.

O uso de IA sempre soa futurista. Como ela pode ser usada agora para combater o coronavírus? 

Ela pode ser usada em todas as áreas que precisem de decisões inteligentes, como a prioridade para uso de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs). É uma forma de predição: quais pacientes vão se beneficiar mais ao serem transferidos para UTI? Outra área crítica é a prioridade na ventilação pulmonar. Testes também são importantes: não existe teste para todos, então é preciso fazer planos de predição para priorizar quais pacientes podem dar positivo. A IA pode ajudar predizer gravidade e ajudar com a  intervenção apropriada para os diferentes tipos de pacientes. 

Por que isso não está sendo usado agora? 

Tudo depende dos dados. A IA está demorando para entrar na conversa da covid-19 porque precisamos de dados de qualidade. Até agora, não tínhamos dados confiáveis. Fazer previsão sem dados não é ciência, é quase opinião. O aprendizado de máquina precisa de dados do passado para entender regras e projetar o futuro. 

Dados de outros países não podem ajudar? 

A China não tem histórico de transparência de dados, então perdemos essa informações. Agora, começam a chegar dados de outros países e surgem pesquisas nesse sentido. O problema é que outros países têm distribuições socioeconômicas, demográficas e genéticas diferentes do Brasil. Porém, estão aumentando o número de exames e casos confirmados no País, então existe um potencial grande para usarmos esse dados e desenvolver algoritmos que se adequarão melhor aqui do que os de outros países. 

O volume de dados no Brasil ainda não parece ser grande. Ainda assim, dá para treinar um algoritmo ‘local’? 

O importante em aprendizado de máquina não é tanto o número de pessoas, mas sim ter variáveis preditoras fortes. Às vezes, com poucas pessoas é possível ter bons resultados. Estamos publicando um estudo de predição de óbito por febre amarela com apenas 40 pessoas, mas com resultados muito bons. Ter resultados de exames clínicos é muito importante.  

Vai dar tempo de usar esses algoritmos no Brasil ainda durante a crise?

Sim, os hospitais têm esses dados. Todo prontuário de exame é registrado. Ao ser digitalizado, está pronto para análise. Nosso grande desafio é conseguir os dados, meu laboratório está de plantão aguardando o recebimento. Em termos técnicos, temos bons computadores e algoritmos que estão no estado da arte. Estamos nos preparando há anos para uma emergência como essa.