‘A moda está presa a um ideal de beleza antigo’, diz a modelo Giorgia Narciso do longa ‘Favela é Moda’

Documentário que discute representatividade no mercado fashion vai ao ar nesta segunda-feira, no canal Curta!
Marcia Disitzer

Giorgia em desfile na Casa dos Criadores Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite
Giorgia em desfile na Casa dos Criadores Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

A carioca Giorgia Narciso, de 24 anos, guarda ótimas recordações e muitas sensações da época das filmagens do documentário “Favela é Moda”. O filme de Emilio Domingos, que vai ao ar nesta segunda-feira, às 16h30, no canal Curta!, e está disponível no Now, acompanha o desenvolvimento de modelos de uma agência que busca aumentar a representatividade de modelos negros e fora dos padrão estabelecidos pela moda. O longa faz parte da “trilogia do corpo” que conta com os documentários  “A Batalha do Passinho” e “Deixa a Régua”, do mesmo diretor.

“Estava com 20 anos e no início da minha transição. Cheguei a ser expulsa de casa, mas agora a minha família me aceita”, conta Giorgia. “Falo um pouco sobre esse assunto no filme”, diz ela, que hoje mora em São Paulo.

Ela ressalta que a moda é uma de suas formas de expressão, ao lado da arte. “Há dois anos e meio me mudei para São Paulo para fazer um curso de roteiro”, explica.

Como modelo, Giorgia participou do reality show “Born to Fashion”, do canal E!, que foi ao ar em agosto de 2020. Também fez desfiles, campanhas e editoriais; como artista, integrou exposições e oficinas em espaços como Instituto Tomie Ohtake e Museu Hélio Oiticica, entre outras experiências.

Giorgia vê uma evolução no mercado fashion. “Está melhor do que dez anos atrás, há um tensionamento social que vem cobrando isso. Porém, também existe muita resistência contrária da antiga moda. Eu, por exemplo, não me considero uma modelo trans e, sim, uma modelo. E o mercado vive querendo nos colocar em caixinhas que são limitadoras”, analisa. “A moda está presa a um ideal de beleza antigo.”

Emilio Domingos reflete sobre as mudanças. “Começamos a filmar o documentário seis anos atrás. Ainda há muito racismo, mas existe um número maior de modelos negros na moda em geral. Essa é uma conquista da sociedade, e as redes sociais têm ajudado bastante nesse sentido”, conclui o diretor.

Elon Musk chega ao topo de ranking do homem mais rico do mundo

Ações da Tesla se valorizaram e puxaram a fortuna do bilionário; alegria, porém, durou pouco

Musk chegou ao topo de ranking dos bilionários

Por um breve momento nesta quinta, 7, Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX, esteve no topo do ranking de bilionários da Bloomberg, ultrapassando Jeff Bezos, fundador da Amazon. A tomada da liderança aconteceu após as ações da Tesla se valorizarem 5%, o que elevou sua fortuna para US$ 184 bilhões. 

Posteriormente, as ações da Amazon subiram 2%, devolvendo Bezos ao topo. No momento, o ranking mostra Bezos com uma fortuna de US$ 184 bilhões, enquanto Musk aparece com US$ 181 bilhões. A lista, porém, tem atualização diária e ainda não tinha refletido a performance das ações das empresas nesta quinta. A decolagem de Musk é notória. Em julho de 2020, a fortuna de Musk estava estimada em ‘apenas’ US$ 66,2 bilhões. Em janeiro de 2020, ele ocupava o trigésimo quinto lugar do da lista.   

A colocação reflete os grandes resultados da Tesla no último ano. No fim de dezembro, a montadora entrou no seleto grupo da S&P 500, o que turbinou ainda mais o valor dos papéis. Com valor de mercado de cerca de US$ 751,8 bilhões, a Tesla é uma das companhias mais valiosas de Wall Street – os papéis se valorizaram 740% no último ano. Musk tem cerca de 20% das ações da Tesla, e três quartos de sua fortuna estão atrelados aos papéis. A fortuna de Bezos está atrelada aos 11% de ações que ele tem na Amazon. 

Durante o ano, o valor da Tesla cresceu puxado pelo potencial dos carros elétricos e a boa execução de suas metas de produção, após passar anos envolvida em problemas em suas fábricas. Em 2020, a empresa praticamente atingiu a meta de entregar 500 mil veículos, o que no passado foi um de seus maiores problemas. https://platform.twitter.com/embed/index.html?dnt=false&embedId=twitter-widget-0&frame=false&hideCard=false&hideThread=false&id=1347204606414131200&lang=pt&origin=https%3A%2F%2Flink.estadao.com.br%2Fnoticias%2Fempresas%2Celon-musk-chega-ao-topo-de-ranking-do-homem-mais-rico-do-mundo%2C70003573628&theme=light&widgetsVersion=ed20a2b%3A1601588405575&width=550px

Well, back to work …— Elon Musk (@elonmusk) January 7, 2021

Antes disso, a companhia já havia se tornado a maior fabricante de veículos do mundo. Ao longo do ano, a empresa superou companhias como Volkswagen e Toyota em valor de mercado – atualmente, ela tem valor de mercado cinco vezes o de GM e Ford juntas. No último trimestre, a empresa se beneficiou de incentivos regulatórios para carros que não poluem o meio ambiente, faturando US$ 397 milhões com essa área. Senão fosse esse setor, a empresa não teria tido lucro. A previsão, porém, é que essa receita vai sumir em breve conforme mais companhias vendam modelos elétricos próprios. 

Além da Tesla, a SpaceX vem apresentando resultados bastante satisfatórios em 2020. A  empresa se tornou a primeira empresa privada a enviar astronautas para a órbita terrestre em maio, numa parceria com a Nasa – e repetiu o feito na semana passada.  Com o reaproveitamento de foguetes como estratégia, a companhia parece ter encontrado um caminho de sucesso em um negócio de alto risco. Musk tem 48% da Tesla, segundo a Bloomberg

Banco N26: veja tudo sobre a fintech alemã que já pode operar no Brasil

Empresa recebeu permissão para operar no Brasil, aumentando expectativa de interessados nos serviços

Banco alemão N26 já tem autorização para operar no País 

O banco digital alemão N26 recebeu autorização do Banco Central no fim de 2020 para funcionar no Brasil. Com capital social de R$ 2 milhões, a startup de serviços bancários terá sua sede brasileira na cidade de São Paulo, ampliando a presença da empresa cuja base de 5 milhões de clientes é da Europa e dos Estados Unidos. 

Quem coordena o negócio no Brasil é Eduardo Prota, gerente geral do N26, que tem passagem pelo Santander e pela Cielo. Embora a pandemia do coronavírus não tenha tido impacto negativo nos negócios, o N26 havia suspendido no ano passado a incursão em novos mercados, incluindo o Brasil, segundo uma entrevista de Valentin Stalf, CEO da fintech, à Reuters. A autorização do Banco Central, porém, indica uma mudança de decisão. 

Os interessados em ter uma conta da N26 devem se inscrever em uma lista de espera. Veja o que se sabe até agora sobre a operação no País.

O que é o N26?

N26 é um banco digital alemão criado em 2013 por Valentin Stalf e Maximilian Tayenthal, que atuam respectivamente como CEO e CFO da fintech. Atualmente, a startup de serviços bancários está presente na Europa e nos Estados Unidos e tem uma carteira de 5 milhões de clientes, segundo o site da empresa.

Quem coordena o negócio no Brasil é Eduardo Prota, gerente geral do N26, que tem passagem pelo Santander e pela Cielo. “Meu objetivo pessoal enquanto integrante do time do N26 é dar aos brasileiros a mesma oportunidade de usufruir de um banco de varejo flexível, transparente e que dialogue com o estilo de vida digital de hoje em dia”, escreveu Prota em sua conta no LinkedIn. 

Como faço para ter uma conta na N26? 

Por enquanto, os brasileiros podem se inscrever em uma lista de espera no site do N26.

Quando será possível ter uma conta na N26? 

A fintech não divulgou datas específicas para começar a operar no País. No último sábado, 2, a N26 interagiu com um usuário brasileiro do Twitter que pediu para que o banco viesse para cá. “Já anunciamos que lançaremos nosso produto no Brasil. Assim que estivermos prontos para começar, faremos questão de te avisar. Enquanto isso, você pode se inscrever na nossa lista de espera.”

Hi Eric! We already announced that we’ll launch our product in Brazil As soon as we’re ready to roll out, we’ll make sure to let you know! In the meantime you can sign up to the waitlist from this page: https://t.co/tjHiw6bYbM

Thanks a lot for your interest!— N26 Support (@N26_Support) January 2, 2021

Expansão

As notícias sobre a chegada da N26 ao Brasil circulam pelo menos desde 2019, quando Prota havia dito que o início das operações no País seria a primeira estratégia para expandir os negócios no mercado latinoamericano

Embora a pandemia do coronavírus não tenha tido impacto negativo nos seus negócios, a N26 suspendeu a incursão em novos mercados, incluindo planos de lançamento no Brasil, e está se concentrando em seus principais mercados Alemanha, França, Espanha e Itália, disse Stalf, o CEO da empresa, à Reuters no fim do ano passado

A reportagem não conseguiu contato com a N26 e o Banco Central não comenta situações específicas de entes regulados no que diz respeito aos serviços oferecidos.

Korg Opsix Altered FM Synthesizer Demo

De volta ao show da NAMM de janeiro no início deste ano, o estande da Korg apresentava algumas peças conceituais e equipamentos “em breve” pendurados atrás de um vidro protetor. Um dos protótipos particularmente interessantes era um sintetizador FM de aparência sofisticada chamado Opsix. E hoje, finalmente temos a chance de ver na prática o que o produto final é capaz. Veja como Natalie demonstra o que alguns dos Korg Opsix podem fazer e como funcionam.

Netflix testa programação linear, como um canal de TV tradicional

Livre da influência dos algoritmos, Netflix Direct transmite produções americanas e francesas disponíveis na plataforma

Netflix testa programação linear para ajudar indecisos 

Netflix resolveu dar uma ajuda para os indecisos, que não sabem o que assistir na plataforma. A empresa está testando na França uma ferramenta que transmite ‘ao vivo’ programação linear, como se fosse um canal de TV tradicional. O Netflix Direct transmite produções americanas e francesas disponíveis na plataforma livre da influência dos algoritmos. 

O recurso funciona apenas na versão para navegadores de internet, excluindo apps para celulares, smart TVs e decodificadores de TV. Ainda não há informações sobre a disponibilidade do recurso para outros países, incluindo o Brasil.

A plataforma deve avaliar o impacto do recurso no consumo de conteúdo, e segue experimentando novas formas de como oferecer isso aos assinantes – para muitos usuários é comum perder muito tempo na tela inicial do site em busca do que assistir. Em agosto, a plataforma iniciou testes com um botão de “shuffle”, uma espécie de “sorteador”, que seleciona, baseado nas preferências do perfil, algum filme ou série para o usuário assistir.

Lovecraft Country vai de Nós a Faça a Coisa Certa em episódio desconcertante

Pegada de horror slasher acelera as coisas neste começo de clímax da temporada
MARCELO HESSEL

De todos os eventos históricos citados em Lovecraft Country, e que frequentemente surgem com efeito paradidático para contextualizar o espectador, nenhum parece mais crucial do que o assassinato de Emmett Till. Em 1955, o negro de 14 anos foi preso em Money, Mississippi, acusado de ofender uma mulher branca, e terminou linchado e assassinado por dois policiais. Emmett saíra de Chicago e estava de viagem pelo Sul dos EUA; seu funeral foi testemunhado por milhares de pessoas na cidade natal e virou um dos estopins da batalha por direitos civis no país.

1955 é também o ano em que se passa a série, e desde o princípio o espectro do adolescente ronda Lovecraft Country, porque a viagem de Tic, Leti e George pelo “território racista” no episódio de estreia evoca silenciosamente o assassinato e poderia ter terminado da mesma maneira. Se a Guerra da Coreia parece ter um peso circunstancial sobre Tic, eventos como o homicídio de Emmett Till se acumulam para moldar a realidade dos personagens de forma mais definitiva.

Não por acaso, logo no começo deste oitavo episódio, Tic diz que o fato de sua jovem prima testemunhar o funeral é importante como um rito de passagem. Pois é justamente isso que “Jig-a-Bobo” faz com Diana “Dee” Freeman – a mulher escolhida da vez para ser a protagonista de seu próprio episódio – numa vertiginosa história de formação. O evento histórico não serve apenas de contexto e está intrinsecamente ligado à jornada de Dee, que era amiga de Emmett no universo ficcional da série e responde ao assassinato com a desorientação raivosa que se esperaria de uma adolescente que, agora, acumula três lutos na sequência depois da morte do pai e do desaparecimento da mãe.

Produtora principal da série, Misha Green assume pela primeira vez a cadeira de diretora, e conduz “Jig-a-Bobo” com a urgência que a circunstância pede, num exercício virtuose que casa a fotografia estilizada com escolhas arrojadas de trilha sonora, a começar com a entrada de “Cruel Summer”, uma canção de 1983 que logo de cara soa anacrônica em 1955. Hit do trio feminino inglês Bananarama, “Cruel Summer” fala das pressões sobre a adolescência no calor do verão e se popularizou na trilha de Karatê Kid em 1984. Em Lovecraft Country, a opressão do “verão cruel” ganha uma outra conotação, sem deixar de ser sobre as dores da juventude.

Se o caldeirão da tensão racial sob “o dia mais quente do ano” evoca o Spike Lee de Faça a Coisa Certa, o anacronismo da canção escolhida ajuda a traçar essa paralelo com os anos 1980 de modo mais imediato. Green mal deixa essa impressão assentar, porém, e já emenda outro salto no tempo, até 2019, em uma reminiscência de Nós, de Jordan Peele, quando associa Dee às pickaninnies de A Cabana do Pai Tomás, o romance de 1852 que sedimentou caricaturas raciais como essa das crianças negras mirradas porém joviais (que a palavra “pickaninny” seja uma variação de “pequenino” diz muito sobre a dominação portuguesa na história do tráfico de escravos africanos). A escrava Topsy do livro não vira exatamente uma doppelgänger de Dee no seriado (inclusive ela parece ser duplicada no episódio justamente para evitar essa interpretação de que é literalmente um duplo de Dee), mas é inevitável pensar em Nós, e em Peele, que afinal é um dos produtores de Lovecraft Country.

A impressão que fica, então, depois desses saltos vertiginosos que conectam 1852 a 1955 a 1983/89 a 2019, é que as questões de opressão da América negra se repetem ciclicamente como um pesadelo, do qual é impossível despertar. O formato de pesadelo slasher deste oitavo episódio reforça essa impressão: Dee não vai se livrar facilmente do feitiço de que foi alvo porque, afinal, é como se estivesse fadada a essa sina desde o nascimento. Sua vitória não é desfazer o feitiço mas sim se posicionar politicamente diante da proposta de negociar uma derrota. São um par de cenas muito fortes, uma fala catártica (“fuck you pig” também evoca 2019/2020), e pronto: com seu vestido de missa e seu boné de beisebol, Dee está no jeito para inspirar a fantasia oficial do Halloween deste ano.

De resto, o calor delirante que impõe a velocidade de marcha cinco (com jump cuts nas cenas de Dee e uma mudança sempre imprevisível entre os núcleos de Tic, Leti e Christina) ajuda demais a construir este início de clímax de Lovecraft Country, no seu antepenúltimo episódio. É como se “o dia mais quente do ano” forçasse à resolução todos os conflitos que se colocavam até aqui (Tic/Montrose, Tic/Christina, Ji-Ah/Leti, Leti/Ruby, Ruby/Christina) de forma mais ou menos autônoma. A confluência é vertiginosa e Misha Green pega o espectador no contrapé com visível prazer, ao brincar com convenções de scifi e fantasia, como na cena que menciona viagem no tempo de uma forma absurdamente desafetada.

No geral, é como se o seriado tivesse passado sete episódios testando formatos, discursos, para então juntá-los nessa apoteose que, acima de tudo, refina os formatos e os discursos. A misoginia que se percebia antes, por exemplo, é colocada em contexto e as cenas de violência contra a mulher são usadas como catalisador de algo e não apenas como válvula de sensacionalismo. Até o próprio fan service que se esperava acontece de forma orgânica, e não como muleta dramática, quando Tic cita as mudanças que foram feitas por Misha Green na adaptação do romance de Matt Ruff.

Para Dee, que termina sentindo o racismo literalmente na pele, o assassinato de Emmett Till é um evento fundador como foi o massacre de Tulsa em Watchmen. Com um oitavo episódio irrepreensível, Lovecraft Country também finca raízes, numa combinação que transcende história real, ficção e metalinguagem.

Mulheres negras lutam, literalmente, pela preservação da vida selvagem em ‘Akashinga’, produzido por James Cameron

Akashinga: guerreiras em nome da preservação da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

“Akashinga” é um termo que significa “corajosa” na língua xona, de origem bantu e falada no norte do Zimbábue. Tal denominação não poderia ser mais pertinente para o trabalho de 170 guardas florestais mulheres que todos os dias saem de suas casas para defender a preservação de animais sob risco de extinção pela caça furtiva, como elefantes e rinocerontes.

A atuação destas guerreiras armadas (e remuneradas) se tornou foco de um curta-metragem documental produzido por ninguém menos que James Cameron, diretor de “Titanic” e “Avatar”. “Akashinga – The brave ones” vai ao ar nesta terça-feira (22), no canal a cabo National Geographic – a versão original, sem legendas em português, está disponível no site nationalgeographic.com ou no YouTube.

A unidade de protetoras da vida selvagem foi fundada em 2017 por Damien Mander, um australiano veterano da Guerra do Iraque. Akashinga é o desdobramento de uma viagem feita por ele oito anos antes ao continente africano, quando Mander criou a International Anti-Poaching Foundation (IAPF), organização com foco no combate à caça furtiva.

Treinamento de guardas do projeto Akashinga, no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts
Treinamento de guardas do projeto Akashinga, no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

No projeto Akashinga, as mulheres recebem não apenas treinamento voltado para a gestão administrativa de áreas de preservação. Elas também são preparadas para possíveis confrontos físicos, com aulas de autodefesa e manejo de armamentos.

Mas se já existia uma entidade voltada para a preservação antes, qual a motivação para criar um braço formado apenas por mulheres?

– As forças predominantemente masculinas são prejudicadas pela corrupção contínua, nepotismo, embriaguez, agressividade para com as comunidades locais – conta Damien Mander – Decidimos inovar, usando uma equipe feminina para administrar uma reserva natural inteira no Vale do Baixo Zmabeze, no Zimbábue, e ficamos surpresos com a transformação e o potencial. Nos primeiros dois anos e meio, Akashinga ajudou a impulsionar uma redução de 80% na caça furtiva de elefantes na região.

Ele pontua que a inspiração para o projeto Akashinga veio da atuação de um grupo feminino atuante na Reserva Natural Balule, na África do Sul. Chamadas de Black Mambas, as patrulheiras cercam o perímetro como monitores ambientais desarmados, apoiando uma unidade armada e privada contra a caça furtiva dentro da reserva.

Armas em punho para a presevração da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts
Armas em punho para a presevração da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

A meta de Mander é empregar no Akashinga 1.000 mulheres até 2025, protegendo uma rede de 20 reservas naturais. Ele conta que quando o programa foi inaugurado, foi decidido criar oportunidades para os membros mais marginalizados e vulneráveis da comunidade. As 87 mulheres que passaram pela primeira seleção eram todas sobreviventes de graves agressões sexuais, violência doméstica, órfãs da AIDS, mães solteiras, esposas abandonadas e profissionais do sexo.

– Akashinga é uma maneira diferente de olhar para filantropia, empoderamento, aplicação da lei, desenvolvimento rural, saúde e bem-estar, e gestão de terras na África – analisa Mander – Tudo isso contribui para uma narrativa global mais ampla e impacta a pobreza, as mudanças climáticas e a crise de conflitos.

Da violência domestica à luta pela preservação

Uma das protagonistas desta história é Nyaradzo Auxillia Hoto. Ela tem 28 anos e uma filha de 8, chamada Tariro. Nyaradzo cresceu na vila Huyo, Nyamakate, localizada no Vale do Zambeze, no Zimbábue. Nascida em uma família muito pobre ao lado de oito irmãos, ela era brilhante na escola, mas seus pais não tinham dinheiro suficiente para que ela continuasse seus estudos, o que obrigou Nyaradzo a desistir da escola. Em desespero, ela se casou aos 20 anos, achando que não havia outra opção para sobreviver.

Guerreiras em formação: mais um dia de trabalho no projeto Akashinga Foto: Kim Butts / Kim Butts
Guerreiras em formação: mais um dia de trabalho no projeto Akashinga Foto: Kim Butts / Kim Butts

Presa em um relacionamento abusivo e vítima de violência, ela tomou coragem para se divorciar em 2014, passando a fazer bicos com jardinagem e venda de tomates. Três anos depois, tomou conhecimento do projeto Akashinga. Dali em diante, sua vida se transformou.

– Antes eu não pensava em animais, mas agora tenho uma forte paixão pela vida selvagem e pela natureza. Além disso, adquiri uma carteira de motorista, o que é um grande negócio para uma mulher rural africana – conta Nyaradzo, que também conseguiu comprar um terreno, onde hoje vive com a filha Tariro.

O sorriso de Nyaradzo Hoto, uma das 'rangers' do projeto Akashinga Foto: Reprodução
O sorriso de Nyaradzo Hoto, uma das ‘rangers’ do projeto Akashinga Foto: Reprodução

A “ranger”, como gosta de se autodenominar, também precisa conciliar a vida de guarda florestal com a rotina acadêmica. Nyaradzo voltou às salas de aula e, hoje, cursa Ciências em Vida Selvagem, Ecologia e Conservação na University of Zimbabwe.

Ela conta que sua comunidade, que antes zombava da possibilidade de mulheres se tornarem guardas responsáveis pela preservação de tantas espécies em extinção, agora admira a força do projeto. Um legado importante também para a filha Tariro, que já demonstra a vontade de ingressar futuramente no Akashinga.

– Quero garantir a todas as mulheres do mundo que o céu é o limite. Nenhum trabalho é feito só para homens. Nada é impossível, tudo que você precisa é coragem, comprometimento, caráter e dedicação – prega Nyaradzo – Eu sou forte hoje porque fui fraca antes. Estou destemida hoje porque tive medo antes.

Em meio a tensão racial, marcha reúne milhares em Washington e evoca movimento de Martin Luther King

Quase 60 anos depois, americanos renovam o pedido feito por Martin Luther King neste mesmo dia: o de que negros e brancos sejam tratados iguais nos EUA
Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

Nova marcha em Washington; quase 60 anos depois, americanos renovam pedido de Martin Luther King Foto: Eric Baradat/AFP

Sob sol e calor de 34°C (com sensação térmica de 38°C), milhares de americanos ocuparam nesta sexta-feira, 28, os arredores do longo espelho d’água diante do memorial de Abraham Lincoln, em Washington, para uma manifestação por igualdade racial. Alguns levantaram a barra da calça e foram para o meio da água, com cartazes e camisetas com mensagens contra o racismo

A imagem remete às fotos da célebre Marcha de Washington, de 1963, quando o líder do movimento por direitos civis nos EUA, o pastor Martin Luther King, fez o icônico discurso I Have a Dream (“Eu tenho um sonho”). A manifestação de hoje foi uma releitura do movimento contra o racismo impulsionado por King. 

Em 28 de agosto de 1963, o ativista discursou para cerca de 300 mil pessoas aos pés do memorial. Quase 60 anos depois, o mesmo lugar foi ocupado para renovar a campanha pela igualdade racial. Mekeda Smith, de 38 anos, carregava um cartaz com uma foto em preto e branco de uma manifestante da década de 60, colada entre a frase “Minha avó fez, agora é a minha vez!” “Esta na foto é a minha avó”, conta Mekeda. “Ela marchou esta mesma marcha em 1963 e eu senti que precisava vir aqui hoje e mostrar que, tanto tempo depois, nós continuamos brigando por justiça.”

Photo Credits: Before NYT After Jason Andrew/The New York Times

Protestos contra o racismo e a violência policial contra negros se espalharam por mais de 150 cidades americanas no início de junho, depois que George Floyd, um negro de 46 anos, foi morto após um policial branco ajoelhar sobre seu pescoço e sufocá-lo por quase nove minutos. 

O vídeo em que Floyd repete que não conseguia respirar fez multidões irem às ruas por várias semanas nos EUA. A marcha de hoje em Washington começou a ser organizada em junho, com a força do movimento antirracismo, e ganhou nova motivação nesta semana, depois de mais um caso de violência policial contra um negro, desta vez em Kenosha, no Estado de Wisconsin. Jacob Blake levou sete tiros nas costas à queima-roupa e ficou paralisado da cintura para baixo. 

A morte violenta de um americano negro após abordagem feita por policiais brancos é uma notícia que vem se repetindo e já causou protestos similares ao longo da história. Os negros são 13% da população americana, mas mais de 30% dos mortos pela polícia. Em junho, o caso de Floyd, somado ao pano de fundo social e econômico de um país em recessão e com o maior número de mortos por coronavírus no mundo, colaboraram para que as manifestações fossem comparadas aos protestos de 1968, depois da morte de Martin Luther King.

A pandemia de coronavírus limitou os planos dos organizadores do evento desta sexta-feira. A expectativa inicial era de que 100 mil pessoas comparecessem, mas ônibus fretados que levariam manifestantes de outros Estados para a marcha foram cancelados depois que a prefeita, Muriel Bowser, impôs uma quarentena obrigatória para os visitantes de 27 Estados onde há surto de coronavírus. 

Mesmo assim, era fácil encontrar participantes que viajaram de longe para participar do evento. A reportagem do Estadão encontrou moradores da Geórgia, Califórnia, Wisconsin, Minnesota e Virgínia, além dos que vivem no próprio Distrito de Columbia. Quem chegava no evento tinha a temperatura corporal medida e podia pegar uma máscara descartável para proteção do coronavírus. Praticamente todos os manifestantes usavam máscaras, mas o distanciamento social de mais de dois metros entre cada pessoa não era possível. Uma tenda com teste rápido de covid-19 gratuito foi montada para atender quem desejasse.

Batizada de “marcha do compromisso: tire seu joelho dos nossos pescoços”, a manifestação reuniu parentes de Blake, Floyd e de outros americanos negros mortos pela polícia, como Breona Taylor e Eric Garner, que deram depoimentos emocionados à multidão. “Nós estamos cansados. Eu estou cansado de olhar as câmeras e ver negros sofrendo”, disse o pai de Blake, Jacob Blake Sr.

O filho mais velho de Luther King, Martin Luther King III, disse que apesar de a marcha ser sobre o famoso sonho de seu pai, “não se deve nunca esquecer o pesadelo americano”. Parte do discurso de King III foi uma crítica às tentativas de supressão de voto. “Há um joelho no pescoço da nossa democracia e nossa nação não pode viver muito tempo sem o oxigênio da liberdade”, disse. Nos discursos, ativistas pediram que os manifestantes tomem ações concretas e votem na eleição deste ano. 

O movimento tem forte componente de crítica ao presidente Donald Trump, que tem adotado uma retórica da “lei e da ordem” em oposição aos manifestantes, que já chamou de radicais, anarquistas, saqueadores e bandidos. Horas antes do início da marcha em Washington, em discurso na convenção republicana, o presidente repetiu o tom e disse que seu governo apoia os policiais.

Durante a convenção republicana, oradores afirmaram que os EUA não são um país racista. A cobrança por um acerto de contas racial é um tema central na campanha presidencial deste ano.

Depois de discursos, os manifestantes caminharam até o memorial em homenagem a Martin Luther King no meio da tarde. No local, há frases célebres do líder de movimentos civis gravadas em paredes de pedra. Voluntários e organizadores da marcha distribuíram suprimentos pelo caminho: água, barras de proteína, salgadinhos, pequenas caixas de nuggets vegano e bebidas isotônicas eram entregues aos manifestantes.

Em meio ao calor intenso, parte da marcha – que transcorreu de maneira pacífica – começou a dispersar por volta das 16 horas (17 horas em Brasília). Pequenos grupos passaram a se concentrar em pontos estratégicos da capital, como os arredores da Casa Branca e a frente da sede do Departamento de Justiça. Às 18 horas, uma forte chuva espantou quem ainda estava na rua.

Uber lança opção mais barata de viagens em São Paulo

No Uber Promo, as corridas vão acompanhar a demanda de carros na cidade de São Paulo e viagens mais baratas estarão disponíveis em horários de menos tráfego

As corridas poderão ser solicitadas no próprio aplicativo do Uber, quando houver a opção no horário da solicitação 

Uber anunciou nesta sexta-feira, 28, uma nova modalidade de corridas na cidade de São Paulo. Agora, passageiros da capital paulista poderão optar por uma viagem mais barata pelo Uber Promo. Na alternativa, as viagens com menor preço serão oferecidas em horários alternativos, como os de menor fluxo e demanda de carros nas ruas.

Segundo a empresa, o Uber Promo não possui horários fixos e será indicado no app conforme a movimentação de carros nas ruas de São Paulo. As corridas poderão ser solicitadas no próprio aplicativo do Uber, quando houver a opção por conta do horário, na tela de viagens. A empresa informou, também, que a modalidade segue todos os padrões de segurança e higienização contra a covid-19.

“Ao incentivar que as pessoas se desloquem em horários de menor movimento, queremos ajudar a população que precisa sair de casa a buscar horários alternativos e, assim, evitar aglomerações. De quebra, elas ainda economizam no valor das viagens”, afirma Silvia Penna, gerente de operações da Uber.