Benjamin Vnuk for MUSE Magazine with Mariacarla Boscono

Photography: Benjamin Vnuk. Styling: Francesca Cefis Casoli. Hair: Mette Thorsgaard. Makeup: Jeanette Törnqvist. Model: Mariacarla Boscono.

Anúncios

Por que grifes como Versace e Ralph Lauren estão deixando o Brasil

Passada euforia de otimismo, país atravessa fim de superciclo do luxo nas araras de moda
Pedro Diniz

Fachada da loja Roberto Cavalli, na rua Bela Cintra, em São Paulo, único ponto da marca que sobrevive no país. Foto Eduardo Knapp/Folhapress Eduardo Knapp/Folhapress

Prestes a completar uma década desde que se vendeu como promessa do luxo, o Brasil dá sinais de cansaço nas araras. O superciclo de abertura de lojas iniciado em 2010 parece ter chegado ao limite para as grifes internacionais de moda que, hoje, passada a euforia de otimismo e a bancarrota do consumo, aparam os excessos para desenhar uma paisagem ajustada aos hábitos do brasileiro.

saída definitiva da Versace, em dezembro, foi acompanhada do adeus da Ralph Lauren, distribuída pelo grupo JHSF, que fechou a megaloja do shopping Cidade Jardim para focar esforços na etiqueta mais acessível da marca, a Polo Ralph Lauren.

Outra despedida aconteceu na semana passada, quando a Roberto Cavalli fechou o único ponto que mantinha em centros comerciais, no shopping Iguatemi, em São Paulo, para manter apenas a “flagship” na região dos Jardins, também na capital paulista.

Os vestidos de festa Lanvin, o casual da Kate Spade e os relógios Vacheron Constantin foram os primeiros a sucumbir às oscilações do câmbio e ao desajuste de preços com o hemisfério Norte, consequência do “custo Brasil”, apontado pelo mercado como determinante para vendas esquálidas.

Soma-se à equação o fato de os consumidores continuarem a comprar fora do país. Ainda que a crise tenha produzido um recuo de quase 4% em relação a 2017, os brasileiros gastaram R$ 66 bilhões em viagens internacionais no ano passado, segundo dados do Banco Central. Sabe-se que mais de 20% desse montante é usado em compras de vestuário.

Ficou claro para as marcas que, mesmo com o bolso disponível, a compra internacional carrega status para o consumidor daqui. Nesse contexto, lojas, para etiquetas de luxo, servem mais como vitrines do que veículos de vendas.

Isso fez com que marcas abrissem mão da operação própria para entregar os negócios nas mãos de parceiros locais, caso da Michael Kors e da Jimmy Choo, atualmente abrigadas no grupo de distribuição brasileiro Dorben.

Ao mesmo tempo, o movimento de sair da rua para o shopping dizimou o “quadrilátero do luxo” paulistano, na região da rua Oscar Freire, em São Paulo, e criou bolhas de consumo em shoppings de alto padrão. São eles que mantêm, por exemplo, nomes como Diane vonFurstenberg, Goyard e Vilebrequin, geridas pelo braço iRetail do grupo Iguatemi, e Emilio Pucci (JHSF).

É curioso perceber como a moda brasileira começa a ter importância para o país tanto quanto as etiquetas estrangeiras. Pequenas grifes, como as homônimas de Cris Barros, Paula Raia e Lily Sarti, conseguiram abocanhar espaços deixados pelas grifes que saíram e sua clientela cativa da classe A, promovendo uma espécie de tropicalização do estilo vendido pelas grifes internacionais e uma relação mais próxima dos consumidores.

Menos megalomania, mais cuidado com a curadoria de peças e contato personalizado com os clientes devem definir a sobrevivência das etiquetas que resistem por aqui.

Nós | Novo filme de Jordan Peele ganha trailer assustador

Nós, novo filme de Jordan Peele (Corra!), ganhou seu primeiro trailer

Uma mãe (Lupita Nyong’o) e um pai (Winston Duke) levam seus filhos para uma casa de praia, com a intenção de descansar ao lado de amigos. Conforme a noite avança, a serenidade deles vira tensão e caos quando alguns visitantes inesperados aparecem“, diz a sinopse

Peele escreve e dirige o projeto. Conhecido por ter protagonizado o programa de humor Key and Peele ao lado de Keegan-Michael Key, ele venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Corra! em 2018. 

A estreia de Nós está marcada para 15 de março. 

Trabalho escravo põe em xeque veracidade do luxo no Brasil e no mundo

Novos casos mostram que produção pulverizada e falta de fiscalização atingem toda a cadeia de moda

Amissima é grife de destaque entre elite e influenciadoras brasileiras.

Marcas esportivas, grifes de “jeanswear” e redes de lojas populares sempre foram os pivôs dos escândalos de trabalho análogo à escravidão na moda. Não mais. Este ano mostrou que a indústria do luxo, vinculada à produção limitada, de qualidade e de preços altos, não consegue garantir que sua costura não seja alinhavada por trabalhadores explorados.

Uma reportagem publicada pelo jornal “The New York Times”, em setembro, revelou as condições degradantes e os baixos valores recebidos pelos artesãos de Puglia, na Itália, para a confecção de vestidos, casacos e sapatos luxuosos que nas vitrines recebem o selo de excelência Made In Italy.

Outra matéria, do site The Intercept Brasil, destrinchou uma ação do Ministério Público do Trabalho para resgatar trabalhadores ilegais mantidos em confecções paulistanas que produziam roupas da marca Amissima, etiqueta que apesar de ter nascido na região de moda popular do Bom Retiro, desde o ano passado vem se posicionando como uma grife de luxo.

Duas questões vieram à superfície a partir desses casos. Primeiramente, o método de produção pulverizada, essa que faz uma mesma peça ser confeccionada em diferentes lugares como forma de garantir eficiência e agilidade na entrega, exige uma fiscalização contínua que as marcas não estão conseguindo, ou não querem, https://www1.folha.uol.com.br/colunas/pedrodiniz/2017/11/1934527-artimanhas-podem-fazer-da-mofficer-exemplo-de-punicao-a-trabalho-escravo.shtml .

No caso italiano, mulheres chegam a ganhar um euro, ou R$ 4,33, para cortar um metro de casaco. Muitas delas trabalham de casa quase 17 horas por dia para produzir um único vestido e só recebem após a peça ser entregue. Marcas como Tod’s e Max Mara, que compram peças da região, negaram envolvimento com os trabalhadores e disseram não ter conhecimento sobre a situação.

Mesma resposta deu a Amissima, que enquanto fazia eventos chiques na semana de moda de Paris e abria lojas em shoppings de luxo, tinha suas roupas produzidas em prédios detonados por imigrantes e famílias mantidas em cubículos sem segurança alguma. 

As confecções repassavam cerca de R$ 3 por peça produzida nas 12 horas de trabalho diárias. Multada em R$ 533 mil, a grife reconheceu em comunicado a falha da fiscalização frouxa.

É relevante analisar que a demanda por um número cada vez maior de lançamentos (coleções “resort”, “pre-fall”, prêt-à-porter, alta-costura etc.) não condiz com a lógica do luxo de ser exclusivo e denotar esmero na execução.

O cenário de competição acirrada abriu espaço para a descentralização dos processos e, com isso, vieram a reboque contratos com terceirizados que subcontratam empresas e autônomos.

Essa realidade põe em xeque a veracidade do valor agregado ao produto de luxo, porque é comum ouvir de consumidores que, hoje, a escolha por uma marca está ligada também à ideia de que suas peças foram produzidas em condições humanas.

No momento em que a criação de núcleos de sustentabilidade e ações sociais são as grandes notícias propagadas pelo mercado de luxo, a manutenção de uma cadeia de suprimentos deficiente só contribui para validar a tese cética de que tudo é mesmo uma grande mentira. [Pedro Diniz]