Por que as ‘Gilmore Girls’ perduram?

Poucos previram em 2000 que ‘Gilmore Girls’ seria um programa tão duradouro. Não foi um sucesso espetacular durante os 7 anos no ar. Mas com o boca a boca, as vendas de DVD, a nostalgia dos millennials e o poder da Netflix, ele perseverou
Saul Austerlitz, The New York Times

Lauren Graham
A estrela da série, Lauren Graham, homenageou os fãs no Twitter: ‘Seu carinho e devoção a este programa trouxe-me tanta alegria durante todos esses anos’. Foto: Elizabeth Weinberg/The New York Times

Há muito tempo, numa época e lugar distantes, quando as pessoas podiam se divertir livremente na companhia de estranhos, digamos dezembro de 2018, uma enorme multidão estava reunida no espaço da Warner Bros em Burbank, na Califórnia. Lá estavam duelando Team Jess e Team Dean e, enquanto os guias do tour faziam seu habitual discurso sobre Harry Potter e Batman, as pessoas que faziam parte de um tour pelo estúdio nesse dia na verdade estavam lá por uma razão: visitar Stars Hollow.

O estúdio havia recriado por um tempo curto a cidadezinha de Connecticut da série de TV Gilmore Girls, transmitida de 2000 a 2007, e filas se formavam em frente ao Luke’s Diner e ao coreto para serem fotografadas pelos funcionários da Warner. Era uma simulação e um falso pretexto, completados com bibelôs com o tema de Gilmore Girls à venda, mas também era uma lembrança tangível de quão apaixonadas as pessoas ainda estavam por esse programa agradável, cordial e espirituoso sobre família e comunidade.

Outubro marcou o 20º aniversário da estreia de Gilmore Girls e, esta semana, o revival de 2016 Gilmore Girs: Um ano para Recordar será levado ao ar como uma minissérie especial na The CW, rede onde tudo começou, quando o canal ainda era conhecido como WB. (Um ano para Recordar foi lançado na Netflix). A estreia tardia da série foi uma tentativa da CW para preencher o buraco provocado pela covid-19 na sua programação, mas também uma prova da atração persistente que é a série.

Gilmore Girls foi lançado em cinco de outubro de 2000 e o mês passado trouxe mais evidências de que é um momento amado do início dos anos 2000. Algumas das estrelas do show, incluindo Keiko Agena e Yanic Truesdale, apareceram no programa Good Morning America para comemorar o vigésimo aniversário do programa. A criadora de Gilmore GirlsAmy Sherman-Palladino, e seu marido, o roteirista e produtor executivo Daniel Palladino, publicaram um comunicado prestando homenagem a “um elenco que mudou nossas vidas”. A estrela da série, Lauren Graham, também homenageou os fãs no Twitter. “Seu carinho e devoção a este programa trouxe-me tanta alegria durante todos esses anos”.

Amy Sherman-Palladino, cujo talento para criar diálogos engenhosos e emoções sutis cuidadosamente elaboradas, ingredientes-chave que tornaram essa série tão atraente, disse que devido à pandemia ela havia esquecido do aniversário até que alguém a lembrou no início deste ano.

“Comemorar aniversários no momento está em segundo plano”, disse ela. “Você está apenas tentando evitar que as pessoas tussam e espirrem na sua direção“.

Mas ela fica feliz em conversar sobre as origens do show que ainda é sua mais famosa criação, mesmo numa carreira que inclui séries como Bunheads e The Marvelous Mrs. Maisel, sucesso da Amazon premiada várias vezes com o Emmy. “Quando você faz alguma coisa que as pessoas ficam interessadas por mais de uma semana, é um grande prazer”, disse ela.

Poucas pessoas previram em 2000 que Gilmore Girls seria um programa tão duradouro. Não foi um sucesso espetacular repentino durante os sete anos no ar. Nunca alcançou uma audiência maciça, jamais foi indicado a um Emmy importante, nunca foi considerado um programa imprescindível que tinha de ser visto, como algumas séries que chegaram no mesmo período. Mas com o boca a boca, as vendas de DVD, a nostalgia dos millennials e o poder da Netflix, que deu sinal verde em 2016 para sua retomada depois de comprar os direitos da série, novos fãs, alguns que nem haviam nascido quando o programa estreou pela primeira vez, descobriram Lorelai e Rory.

“Não passa um dia sem que meninas de 14, 15, 16 anos me digam que estão assistindo à série agora”, disse Truesdale, que interpretou Michael, o amargo colega de trabalho de Lorelai.

Nos anos 1990, Amy Sherman-Palladino era roteirista da série de sucesso da ABC Roseanne – antes de a criadora Roseanne Barr “começar com teorias de conspiração”, ela observou. Mas, no fim, ela percebeu que não queria mais trabalhar em comédias de 30 minutos. Seu marido, Daniel Palladino, que na época fazia parte da equipe de roteiristas de Family Guy, convenceu-a a fazer uma pausa e escrever alguma coisa original.

A ideia do programa era contar a história de uma adolescente que adorava livros cuja melhor amiga era sua mãe, de cerca de 30 anos de idade. O pano de fundo seria uma cidade idílica de Connecticut repleta de pessoas excêntricas e o tom seria uma mistura de comédia e drama, tudo num ritmo mirabolante.

“Os fãs com os quais converso no geral se inserem em duas categorias: ou têm uma relação tipo Lorelai e Rory, ou desejam desesperadamente ter uma relação como a de Lorelai e Rory”, disse Sheila Lawrence.

Depois de a série ser adquirida pela Warner Bros, Sherman-Palladino insistiu que o programa só teria continuidade depois de ela encontrar os intérpretes ideais para cada papel, independente da sua experiência anterior ou fama. Ela escolheu Lauren Graham para o papel de Lorelai entre várias atrizes conhecidas, por causa da sua perspicácia literária.

“Ela foi a primeira atriz que pronunciou corretamente o nome Kerouac”, disse Amy Sherman-Palladino ao seu marido depois de entrevistá-la.

Embora a série tivesse uma estética visual estilosa como outras da WB da época, como Dawson’s Creek e One Tree Hill, o roteiro era distinto. Os roteiros eram “muito sofisticados e brilhantes e estávamos nessa nova rede cujos programas eram dedicados aos adolescentes que seguiam religiosamente tudo o que estivesse em moda”, disse Jamie Babbit, que dirigiu 18 episódios de Gilmore Girls.

A série no início era algo que assustava os artistas, que tinham de memorizar os roteiros com 20 páginas a mais do que nas séries normais de uma hora de duração. E, para tornar as coisas mais difíceis, Amy insistia que os intérpretes dissessem suas frases exatamente como estavam escritas. “Era uma série em que, se você mudava uma palavra, eles cortavam”, disse Truesdale.

Gilmore Girls
Cena se ‘Gilmore Girls: Um ano para Recordar’. Poucas pessoas previram em 2000 que ‘Gilmore Girls’ seria um programa tão duradouro. Foto: Suzanne Hanover/Netflix

Os atores também tiveram de se adaptar à ideia de Amy de que os personagens de TV em 2000 deveriam se parecer com Cary Grant e Rosalind Russel.

“O feedback era este: pode repetir a cena, mas um pouco mais rápido?”, disse Agena, que interpretou Lane, a melhor amiga de Rory.

Segundo Babbit, os diálogos eram muito rápidos para permitir a edição tradicional. “Era como assistir a um jogo de pingue-pongue”, disse ela. “Juntar dois personagens no quadro e deixar que eles falassem, com cenas que continham cinco ou 10 páginas do roteiro, em vez de uma página e mais um quarto, como é habitual”.

Scott Patterson, que interpreta Luke, disse que Graham percebeu que eles tinham de deixar o cigarro se quisessem sobreviver. “Ela precisava de ar e eu também”, disse ele.

Além do volume e o ritmo dos diálogos, estudar o roteiro também implicava uma luta para os intérpretes. Patterson lembra que, num dia de gravação que começava com “uma cena de 10 páginas”, o texto foi entregue pelos roteiristas às 6h30. “Lauren e eu estávamos sentados na sala de maquiagem, olhamos um para o outro aterrorizados, e começamos a trabalhar”.

Alexis Bledel, uma modelo e aluna de faculdade com pouca experiência em TV, precisava de mais ajuda do que os outros, não sabia nem para qual câmera devia olhar. “Lembro-me de dizer num certo ponto para Lauren, “adoro quando estou assistindo ao programa, como você está sempre a tocando”, disse Kelly Bishop, que interpretou Emily Gilmore. “Ela me respondeu ‘na verdade, a razão disto é porque queria que ela obedecesse à marcação’”.

Talvez em parte porque estivesse numa WB incipiente, e competia com séries gigantes como Friends e American Idol, e também por causa da sua reputação como uma série de garotas numa era que celebrava anti-heróis masculinos de meia idade como Tony Soprano, Gilmore Girls nunca recebeu muita atenção nas premiações. A série teve uma indicação para o Emmy e um prêmio pelo melhor make-up.

O elenco e a equipe ficaram especialmente decepcionados com o fato de Graham nunca ter sido indicada para o Emmy, que achavam que ela merecia. “Não conheço ninguém que conseguiu fazer o que ela fez. E odeio o fato de não ter sido reconhecida por isto”.

Alguns veteranos de Gilmore Girls culpam o sexismo pelo fato de ser considerada uma série de segunda classe. Programas sobre os triunfos e dores de cabeça comuns de mulheres até recentemente eram tratados como de interesse inerentemente limitado.

“O setor é de fato conservador e não entende como são as grandes coisas, especialmente quando escritas e criadas por mulheres e sobre mulheres”, disse Babbit.

Gilmore Girls completa 20 anos enquanto estamos refugiados em nossas casas, separados e nervosos, aguardando boas notícias e o eventual retorno da comunidade. Para muitos fãs, Stars Hollow sempre foi seu lugar feliz e no momento é mais ainda.

“Estou na Califórnia neste momento, você não pode respirar, não pode sair de casa, se encontrar com outras pessoas e a eleição está se aproximando”, disse Stephens em outubro. “O mundo pode ser um lugar terrível, mas pode ir a Stars Hollow, onde o mundo ainda é aquele lugar adorável, maravilhoso”.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

‘The undoing’, da HBO: um exemplo de como TV e internet se alimentam

PATRÍCIA KOGUT

Nicole Kidman e Noah Jupe como Grace e Henry em ‘The undoing’, da HBO (Foto: Niko Tavernise/HBO)

Certas séries mal estreiam e viram assunto de todas as rodas de conversa virtuais. Está acontecendo agora com “The crown” (Netflix) e com “The undoing” (HBO). Esse interesse também se nota nas nossas redes. Muitos seguidores do @colunapatriciakogut (no Instagram) vêm comentando sobre ambas. Está todo mundo ansioso para conferir o último episódio da produção estrelada por Nicole Kidman e Hugh Grant. Essa conexão entre a TV e a internet faz pensar.

“The crown” foi lançada pela Netflix de uma só vez. Essa estratégia é um convite ao binge watching, aquela prática de assistir a uma temporada sem parar. O formato chegou com o streaming e mudou o comportamento do usuário. Até um neologismo se popularizou por causa dele: maratonar.

Com “The undoing” é diferente. Os episódios inéditos saem aos domingos na TV e no aplicativo da HBO (e dias depois no Now). É a boa e velha dinâmica da serialização. Quem perde a exibição acaba ficando de fora da conversa que começa a esquentar nas redes pouco antes das 23h, quando o capítulo começa. É no Twitter e no Instagram que se multiplicam as teorias sobre o “quem matou?”.

Esta semana, a HBO lançou nas suas redes uma chamada em que Hugh Grant convoca para o episódio final: “É hora de conhecer a verdade”, diz ele. Fez o maior sucesso. Guardadas as devidas proporções, “Game of Thrones”, também semanal, tinha esse efeito. Reunia uma multidão aos domingos, quando ia ao ar inédita, só para comentar. São mostras de que a televisão e a internet são capazes de um casamento harmônico.

‘Esquecemos que somos mãe e filha’, diz Fernanda Montenegro sobre contracenar com Fernanda Torres

Atriz falou sobre gravações durante a pandemia em entrevista ao ‘Conversa com Bial’

Fernanda Montenegro e Fernanda Torres durante as gravações de ‘Amor e Sorte’ Foto: Globo / Divulgação

A atriz Fernanda Montenegro será a entrevistada do Conversa com Bial desta sexta-feira, 27. Ela falou sobre trabalhar com sua filha, Fernanda Torres, no especial Amor e Sorte e também no episódio Gilda, Lúcia e o Bode, que vai ao ar em 25 de dezembro.

“Acho que nós esquecemos que somos mãe e filha. É o trabalho de uma profissional, de uma artista, com quem eu estou contracenando”, comentou a veterana de 91 anos.

Sobre a diferença entre as gravações dos dois especiais, Fernanda Montenegro comentou: “A primeira foi uma viagem de experimentos. Agora, não. Agora tivemos acho que 15 técnicos em quarentena. Foram duas semanas de muitas horas de trabalho por dia. O roteiro já definido, o elenco ampliado”.

Sobre o cansaço como atriz, analisa: “Desde que você esteja, em primeiro lugar, fazendo o que você ama fazer, é como um esporte: requer seu físico. Tem uma hora que a disponibilidade do fazer te domina, é como o barato de uma droga”.

Charles Spencer, irmão da princesa Diana critica ‘The Crown’: ‘não é verdade’

‘Acho que ajudaria se no começo de cada episódio falassem que não é real, mas baseado em fatos reais’, afirmou Charles Spencer
JOÃO PEDRO MALAR – O ESTADO DE S.PAULO

Charles e Diana. Série narra crise conjugal do casal e problemas de Diana com bulimia Foto: NETFLIX

O conde Charles Spencer, irmão da princesa Diana, criticou a série The Crown na quarta-feira, 25. Segundo ele, a produção da Netflix deveria deixar mais claro que trata-se de uma obra de ficção baseada em acontecimentos reais.

Perguntado sobre a série no programa televisivo Lorraine, Spencer disse que não é um “grande espectador”. “Vi alguns episódios no passado, mas não vi nenhum dos mais recentes, apesar de a minha esposa ter visto”, disse o jornalista e autor de livros de história.

A 4ª temporada da série sobre a família real britânica foi lançada no dia 15 de novembro, e introduziu a princesa Diana, retratando seu casamento com o príncipe Charles.

“Eu escrevo sobre história, eu informo que o que eu escrevo não é ficção, então se alguém ler, vai saber que é o que vão receber, e isso é igual com todos os historiadores. Eu acho que ajudaria bastante The Crown se, no começo de cada episódio, eles falassem que não é verdade, mas é baseado em alguns eventos reais, porque aí todos entenderiam que é um drama”, defendeu ele.

“Obviamente a Netflix quer fazer muito dinheiro, porque as pessoas estão nesse negócio, mas eu me preocupo que as pessoas achem que é algo totalmente verdadeiro”, continuou Spencer. Ele destacou que não ficou satisfeito com a forma como a sua avó materna, Ruth Roche, mais conhecida como baronesa de Fermoy, foi retratada na série.

Na produção, a baronesa, que morreu em 1993, é responsável por “educar” Diana em relação às normas da família real: “Ela foi retratada de um jeito particularmente desagradável, não é como ela era. Minha avó pode ter morrido há muito tempo, infelizmente, mas ela tem uma filha viva, 10 netos vivos, é justo que as pessoas sejam destruídas desse jeito? Eu acho que não”.

Spencer disse que “é preciso ser honesto com o consumidor”, e informar quando uma obra é ficção. “Eles [os espectadores] estão consumindo algo que assumem que é muito, muito realista, e, pelo que eu sei, e eu não sei muitas coisas pois não estava lá, mas do que eu sei, não é preciso”, afirmou o autor.

Em sua página, a Netflix define The Crown como uma “série dramática [que] segue a política, rivalidades e relacionamentos da rainha Elizabeth II e os eventos que fizeram a história”.

Euphoria | Zendaya revela pôster de episódio especial

Imagem oficial avisa fãs que capítulo não faz parte do segundo ano
NICOLAOS GARÓFALO

Vencedora do Emmy de Melhor Atriz de Drama por seu papel em EuphoriaZendaya compartilhou um pôster de um dos episódios especiais da série, que vai ao ar em 6 de dezembro. A imagem, que traz sua personagem, Rue, deitada, lembra aos fãs do programa que os novos capítulos não farão parte da segunda temporada.

Parte 1: Rue

Ainda não há previsão de estreia para o segundo episódio especial, ou então para a segunda temporada da série da HBOque começa a ser filmada apenas em 2021.

A primeira temporada da série é exibida na HBO e está disponível na HBO Go.

A realeza é a vilã da temporada em ‘The crown’

PATRÍCIA KOGUT

Cena de ‘The crown’ (Foto: Divulgação)

Há pouco mais de dois meses, o príncipe Harry e sua mulher, Meghan Markle, assinaram um contrato milionário com a Netflix. O acordo prevê a produção de documentários, séries e até de conteúdo infantil. Agora, segundo a imprensa internacional, Harry anda aborrecido com a forma como “The crown”, do mesmo serviço de streaming, vem retratando sua família. A quarta temporada, de fato, não perdoa a Rainha Elizabeth (Olivia Colman) e companhia.

A chegada de Diana Spencer (Emma Corrin) à trama é um grande sinal dessa virada. Doce, ingênua e linda, ela é vista apenas como “um passo útil” para Charles (Josh O’Connor, ator maravilhoso). A mocinha romântica contrasta com a frieza da realeza. Até aqui, Elizabeth II era uma figura multidimensional. Mulher sem charme, dona de um senso de dever irrestrito, ela sofreu nos primeiros anos de casamento com o Príncipe Phillip (Tobias Menzies). Também sentia grande insegurança diante das responsabilidades do cargo, mas isso não fez com que desistisse. Se portou sempre como uma rocha, fazendo jus ao que todos esperavam dela. Agora, virou uma figura antipática e sem coração. É incapaz de ser carinhosa com os filhos e não consegue retribuir o abraço desesperado de Diana.

O que até a terceira temporada era só frivolidade vira crueldade. A família real se tornou a vilã de sua própria história. O sétimo episódio aprofunda essa impressão. A princesa Margareth (Helena Bonham Carter) descobre um segredo: ela tem várias primas internadas num manicômio, propositalmente esquecidas. Vale conferir.

Covid causa interferências na quinta temporada de ‘This is us’

PATRÍCIA KOGUT

Cena da quinta temporada de ‘This is us’ (Foto: Divulgação)

Na última semana, falei aqui sobre os truques empregados no terceiro episódio da quinta temporada de “This is us” (Fox) para reunir Kevin (Justin Hartley) e Madison (Caitlin Thompson) num mesmo cenário. Disse que o espectador mais atento notou que os atores não estavam juntos de verdade. Eles contracenavam com um figurante que só aparecia de costas. A mágica do encontro era, portanto, obra do computador. No capítulo seguinte (“Honestly”), outro fato chama a atenção: o filho de Kate (Chrissy Metz) e Toby (Chris Sullivan) quando bebê desapareceu do ar e sequer é mencionado. O casal só fala na menina que vai adotar. Esse é só mais um dos indícios de que a atual temporada é diferente de todas.

As gravações aconteceram em setembro, em plena pandemia. Cenas com muita gente ou beijos e abraços ficaram de fora. Vemos muitos usando máscara. O coronavírus é mencionado com frequência, justificando tudo. Apesar disso, a trama conservou a sua carga de emoção. Muitas das situações apresentadas enternecem por identificação: os Pearson são gente como a gente. Deu tudo certo. Ou quase: essas condições de produção impostas pela pandemia acabaram originando um subtexto inesperado. É impossível mergulhar totalmente na ficção. O espectador fica matutando: será que essa ou aquela cena foi feita com a presença de todos os envolvidos ou a direção disfarçou a distância entre os atores usando a tecnologia? Esse efeito colateral funciona como uma distração desagradável. A Covid não é só mais um personagem da trama. Ela, às vezes, se materializa como intrusa.
 

‘Falas Negras’ mostrou ótimos atores que poderiam ser mais bem aproveitados pela TV

Exibido no Dia da Consciência Negra, especial trouxe caras pouco conhecidas
Tony Goes

Angela Davis (Naruna Costa) Victor Pollak/Globo

Na sexta passada (20), a Globo transmitiu o que talvez seja o programa mais importante da TV brasileira em 2020. Concebido por Manuela Dias (autora da novela “Amor de Mãe”) e dirigido por Lázaro Ramos, o especial “Falas Negras” transformou textos e depoimentos de figuras históricas e contemporâneas em monólogos impactantes.

Todos os vultos retratados eram negros que se destacaram de alguma forma na luta contra a escravidão, o racismo e a desigualdade, desde o século 17 até os dias de hoje. E todos foram interpretados por excelentes atores negros – alguns famosos; outros, praticamente desconhecidos pelo público da TV aberta.

“Falas Negras”, que já seria um projeto importante em circunstâncias normais, ganhou ainda mais pungência por causa de uma tragédia ocorrida na véspera da exibição: o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, por dois seguranças de um supermercado da rede Carrefour em Porto Alegre (RS).

A comoção que tomou boa parte do Brasil por causa desse crime bárbaro encontrou sua catarse no final do programa. Foi impossível conter as lágrimas diante das atuações de Silvio Guindane e Tatiana Tibúrcio.

Guindane, que começou ainda criança sua carreira de ator, já participou de dezenas de filmes, novelas e séries, mas nunca tinha encarnado um personagem com a carga dramática de Neilton Pinto, o pai do menino João Pedro, morto durante uma operação policial em São Gonçalo (RJ), em maio passado.

Tatiana Tibúrcio foi ainda mais surpreendente. Muitos espectadores pensaram que se tratava da própria Mirtes Renata, a mãe de Miguel, o garoto que despencou de um prédio no Recife (PE) em junho. Atriz tarimbada e com alguns prêmios no currículo, Tatiana também foi a preparadora do elenco de “Falas Negras”. Fez algumas participações em novelas da Globo, mas nenhuma teve, nem de longe, a repercussão que alcançou com o especial. Sua atuação contundente revelou uma atriz fantástica, visceral e técnica ao mesmo tempo.

Terminado o programa, muita gente se perguntava nas redes sociais: onde se escondiam tantos atores fenomenais? Por que a TV brasileira não dá mais chances a esses talentos maiúsculos? Além de Guindane e Tibúrcio, também brilharam Bukassa Kabengele, Barbara Reis, Izak Dahora, Heloisa Jorge, Guilherme Silva, Ivy Sousa, Reinaldo Junior, Aline Deluna, Samuel Melo, Valdineia Soriano, Angelo Flavio, Olivia Araújo, Naruna Costa e Tulanih Pereira, ao lado de nomes mais estabelecidos como Flávio Bauraqui, Babu Santana, Mariana Nunes, Fabrício Boliveira, Ailton Graça e Taís Araújo.

Fiquei até envergonhado, como colunista de entretenimento, de conhecer tão poucos integrantes desse elenco fabuloso. Já como espectador, fiquei foi revoltado: eu simplesmente exijo ver mais de cada um desses artistas. Não se trata de cotas, nem de qualquer tipo de ação social. É egoísmo mesmo. Só quero perder meu tempo diante de grandes atores, e não é justo comigo (e com todo o público, claro) que as emissoras não aproveitem melhor tanta gente incrível.

A Globo, felizmente, parece ter acordado depois do bafafá que foi a novela “Segundo Sol” (2018), que tinha pouquíssimos atores negros em uma trama ambientada em Salvador, a capital mais negra do Brasil. Desde então, negros vêm ganhando visibilidade e destaque nas produções do canal.

Também nos comerciais os negros têm sido mais presentes. É bom lembrar que, por mais que pose de preocupada com as causas sociais, a propaganda não faz caridade. Se tem mais negros nos anúncios, é porque negros vendem.

E vão vender e comprar cada vez mais, porque finalmente está se formando uma classe média negra no Brasil. Mais e mais negros têm acesso à universidade, e saem de lá exigindo mais de tudo: representatividade, emprego, consumo, justiça, tudo.

Alguns veículos já estão de olho neste novo mercado e se adaptando à nova realidade –como a Netflix, que costuma encher de negros suas produções brasileiras, e a já citada Globo. Outros, como o SBT, parecem que ficaram presos em algum momento do século 20, quando os negros mal faziam figuração. Já estão ficando para trás –e, se não mudarem logo, irão simplesmente desaparecer.

O Gambito da Rainha bate recorde e se torna minissérie mais assistida da Netflix

Série com Anya Taylor-Joy duplicou buscas de “como jogar xadrez” no Google
JULIA SABBAGA

Na Netflix, ‘O Gambito da Rainha’ fala de prodígio feminino do xadrez

Netflix divulgou hoje (23) que O Gambito da Rainha, produção sobre uma garota enxadrista com Anya Taylor-Joy, se tornou a minissérie roteirizada mais assistida na plataforma desde sua criação. Celebrando a audiência em seu site oficial, a Netflix informou que 62 milhões de usuários assistiram a série em seus 28 primeiros dias desde a estreia. 

A plataforma ainda revelou outros números que comprovam a influência da série ao redor do mundo. Desde seu lançamento, a busca por “como jogar xadrez” duplicou no Google, e o livro de Walter Tevis, que inspirou a adaptação da Netflix, retornou à lista de best sellers do New York Times. Ainda, o interesse em tabuleiros de xadrez no eBay aumentou 250%. 

Segundo o The Wrap, entre séries limitadas da Netflix, a audiência de O Gambito da Rainha só fica atrás de A Máfia dos Tigres, que teve um total de 64 milhões de audiência. O Gambito da Rainha ainda entrou para o Top 10 entre produções mais assistidas em 92 países, chegando à primeira posição em 63 territórios, incluindo o Brasil, Reino Unido e Argentina. 

O Gambito da Rainha está disponível na Netflix.