‘Quero que isso não seja notícia daqui a um tempo’, diz Maju sobre ser 1ª negra no ‘Jornal Nacional’

Maju Coutinho estreará na bancada do telejornal neste sábado, 16

A jornalista Maju Coutinho falou sobre o fato de ser a primeira mulher negra a apresentar o Jornal Nacional, o que ocorrerá na edição deste sábado, 16, em entrevista ao Gshow.

Maju Coutinho no ‘Jornal Nacional’. Foto: Reprodução de ‘Jornal Nacional’ 

“Eu quero que isso não seja notícia daqui a um tempo. É um simbolismo grande, estou muito feliz, mas espero que esse simbolismo gere uma prática, e que elimine qualquer manchete”, afirmou Maju sobre o fato de ser a primeira mulher negra a apresentar o telejornal.

A jornalista ainda revelou que sua família se reunirá para assistir ao programa e falou sobre sua expectativa: “Estou muito feliz. Não dormi muito bem, fiz até uma meditação. É uma conquista de muita trajetória”.

Maju trabalha diversas vezes no telejornal, mas na previsão do tempo. Desde 2017, ela também passou a apresentar o Jornal Hoje.

O anúncio de que Maju Coutinho integrará a escala da bancada do Jornal Nacional também rendeu elogios feitos por William Bonner. “Enfim, uma notícia pra alegrar todo mundo. História de talento, de dedicação, de conquista. História. A equipe e a bancada do JN dão as boas-vindas à Maju”, escreveu.

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Com história repetida, ‘Boneca Russa’ faz jus à reputação de hit do momento

Despretensiosa, série navega entre a humanidade comovente e a fantasia escapista com destreza rara
Luciana Coelho

A atriz Natasha Lyonne em cena de ‘Boneca Russa’ – Divulgação

Vem de Natasha Lyonne a força de “Boneca Russa” (Netflix), que empresta da atriz e roteirista sua trajetória peculiar para dar vísceras à clássica história da pessoa que revive múltiplas vezes a mesma aflição.

Como Nadia, uma engenheira de videogames novaiorquina que morre no dia em que completa 36 anos, Lyonne é uma versão moderna de Prometeu, o deus da Grécia Antiga condenado a ver uma águia lhe comer o fígado diariamente, apenas para o órgão se regenerar durante a noite e o suplício recomeçar pela manhã.

Ou, no jargão pop, um “dia da marmota” —alusão a “Feitiço do Tempo”, filme de 1993 em que um repórter de TV (Bill Murray) revive sucessivamente o tedioso 2 de fevereiro em que grava uma reportagem medíocre no interior da Pensilvânia.

O truque que faz o enredo parecer novo é inserir Einstein, com universos paralelos ao melhor estilo “De Volta para o Futuro” (a Netflix parece ter muito apreço a esse tipo de enredo, vide a série “Dark”).

Há ainda algo de existencialismo (com as divagações de Nadia sobre seu lugar no mundo), de psicanálise (ao abordar a relação de pais e filhos) e de feminismo (ao colocar no centro uma mulher que comanda sua trajetória e deixar todos os personagens masculinos para o segundo plano).

Tantos “ismos” poderiam produzir uma bomba de tédio pseudointelectual.

Mas o roteiro ágil, a acidez da tradição de humor judaica em que atriz e personagem se criaram e a vivacidade de Lyonne, que metralha tiradas tão engraçadas quanto verossímeis, fazem de “Boneca Russa” uma série despretensiosa e envolvente, que navega entre a humanidade comovente e a fantasia escapista com destreza rara, sabiamente embalada em episódios de 25 minutos.

Como a protagonista, o espectador está vendo aquilo pela enésima vez, mas há sempre uma sacada nova, uma observação surpreendente, uma pequena reviravolta.

A saber: Nádia é uma engenheira de jogos que está na festa de seu 36º aniversário, rodeada de amigos e ex-casos, quando morre repentinamente em um acidente besta.

Ela, então, desperta no mesmo banheiro, diante do mesmo espelho, na mesma festa, para que tudo aconteça de novo até que ela entenda o que o universo (universos?) quer lhe dizer —e contar mais do que isso é desnecessário, já que a graça da série é inserir surpresas nas repetições.

Lyonne, 39, é um caso raro de ex-artista adolescente que vive uma derrocada trágica e chega à redenção (mais comum é viver só uma perna dessa história).

Modelo infantil, atriz adolescente consagrada tanto em comédias arrasa-quarteirão como “American Pie” quanto em dramas cabeças nos teatros nova-iorquinos, ela viveu uma sucessão de problemas de saúde na década passada, da dependência química a uma infecção cardíaca que quase a matou.

Recuperada, ressurgiu para o público como a carismática presidiária Nick de “Orange is the New Black”, da mesma Netflix, em 2013.

Com “Boneca Russa”, ela não só transcende o estereótipo da garota-problema como o retorce e o usa a seu favor. Feliz do público.

“Boneca Russa”, em oito episódios, está disponível na Netflix

‘Umbrella Academy’: entre humor e ação, Netflix estreia adaptação da HQ

Com Ellen Page e Tom Hopper no elenco principal, produção é baseada nos quadrinhos de Gerard Way e Gabriel Bá
Por Lucas Almeida

Os protagonistas de ‘The Umbrella Academy’: Aidan Gallagher, Ellen Page, Emmy Raver-Lampman, Robert Sheehan, Tom Hopper e David Castañeda (Christos Kalohoridis/Netflix)

Um mês após o lançamento de Titãs, a Netflix estreia mais uma série de super-heróis na plataforma. Desta vez, a produção de dez episódios é uma adaptação da HQ criada pelo ex-membro da banda My Chemical Romance Gerard Way e ilustrada pelo brasileiro Gabriel Bá, The Umbrella Academy, que estreia nesta sexta-feira, 15.

Depois do cancelamento de diversas séries do universo Marvel originais do serviço de streaming, a Netflix aposta na história um tanto excepcional publicada pela editora Dark Horse Comics nos Estados Unidos: no mesmo dia, em 1989, 43 mulheres dão à luz, sem nem mesmo saber que estavam grávidas. Sete dos bebês são adotados pelo bilionário russo Sir Reginald Hargreeves, que cria a Umbrella Academy, um grupo de heróis formado pelas crianças, dotadas de superpoderes.  

Com a misteriosa morte do pai adotivo anos depois, seis dos irmãos se reúnem para investigar o acontecimento. Todos os conflitos e traumas da infância começam a aparecer, enquanto eles lidam com a ameaça iminente de um apocalipse global.

Cena do primeiro episódio de ‘The Umbrella Academy’ (Christos Kalohoridis/Netflix)

Lançada em 2007, a história em quadrinhos quase foi adaptada para o cinema em 2010 pela Universal Studios, mas os planos nunca saíram do papel. Nove anos depois, os criadores agradecem a demora para ver a trama ganhar as telas. “Fazendo um longa, teríamos que picotar muito mais a história. Com a série, temos uma espécie de filme de dez horas”, afirmou Gabriel Bá em uma conversa com jornalistas, após a Comic Con Experience 2018, em que VEJA esteve presente.

“Nós tivemos sorte, porque tudo melhorou nesses anos. As imagens não tentam ser fiéis às dos quadrinhos, mas trabalham com a força da mídia, usando efeitos especiais pensados para live-action (como são chamados os filmes com atores). Além disso, às vezes, as histórias de super-heróis são ridículas, com as fantasias e tudo mais. A série não tenta fazer isso, nem ser obscura ou muito chamativa”, concluiu.

“Nós criamos mais profundidade para os personagens do que muitos dos quadrinhos mais conhecidos que já tinham sido lançados”, completou Gerard Way.

Gabriel Bá, Gerard Way e parte do elenco de ‘The Umbrella Academy’: David Castañeda, Ellen Page, Emmy Raver-Lampman e Tom Hopper (Gabriel Colombara/Divulgação)

Para Bá, o ponto central da trama está em acompanhar essa família disfuncional, estruturada nos sete irmãos adotivos. “Nossos personagens precisam se juntar para lidar com os próprios problemas. O centro da história é: você pode até tentar se distanciar dessas questões, mas eventualmente elas vão te assombrar e você terá que lidar com isso, especialmente quando estamos falando de família.”

Um destaque da produção é a diversidade do elenco principal, já que os irmãos adotivos vêm de diferentes partes do mundo. A ideia parece ter funcionado bem para a Netflix, que hoje está presente em mais de 190 países, e já repetiu essa pluralidade em outras séries, como Sense8 e a australiana Tidelands.

“Gerard já viajou o mundo todo e tenta sempre colocar diferentes elementos, personagens e cenários na história”, explicou Bá, que cita a cartunista Laerteentre as suas grandes influências. “Sou um outsider nos Estados Unidos e, por isso, tenho outro ponto de vista. Mesmo publicando no mercado americano, temos leitores internacionais. Sempre tomo cuidado para não fazer tudo de um ponto de vista dos Estados Unidos. Podemos fazer melhor do que isso.”

Sou um outsider nos Estados Unidos e, por isso, tenho outro ponto de vista. Mesmo publicando no mercado americano, temos leitores internacionais. Sempre tomo cuidado para não fazer tudo de um ponto de vista dos Estados Unidos. Podemos fazer melhor do que isso

A nova série ainda marca a volta da atriz Ellen Page para o mundo dos quadrinhos. A americana interpretou a Lince Negra nos filmes X-Men: O Confronto Final e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Ainda há rumores de que ela possa reprisar o papel em um filme solo da personagem da Marvel.

“Há uma pressão, porque nós queremos que os fãs que são tão devotados e estavam tão animados na Comic Con fiquem felizes com o resultado”, ela comentou sobre o lançamento de The Umbrella Academy. “Não sou uma grande fã de HQs. Li quando criança e, já adulta, vi quadrinhos lindos. Mas fico muito feliz em estar envolvida nesses projetos.”

Ellen Page interpreta Vanya na série ‘The Umbrella Academy’ (Christos Kalohoridis/Netflix)

Além de Ellen, o elenco principal é composto pelos americanos Aidan Gallagher e Emmy Raver-Lampman, o britânico Tom Hopper, o mexicano David Castañeda e o irlandês Robert Sheehan. Cameron Britton (que ficou conhecido por interpretar o assassino em série Ed Kemper na série Mindhunter) e a cantora Mary J. Blige assumem os papéis de agentes que têm a missão de capturar um dos irmãos.

Problemas sérios, mas com bom humor

A série ainda mistura cenas do presente, em que o mundo está próximo de um apocalipse, por motivos desconhecidos, e da infância dos sete irmãos. Enquanto seis deles lutavam contra o crime nos anos 1990 e 2000, Vanya (interpretada por Ellen Page) ficava em casa, por não ter poderes especiais, aparentemente.

Elenco principal de ‘The Umbrella Academy’ na fase da infância, vividos por Cameron Brodeur, Blake Talabis, Eden Cupid, Dante Albidone, Aidan Gallagher e Ethan Hwang (Christos Kalohoridis/Netflix)

“No início, nós passamos um dia com os atores que nos interpretam mais novos, foi incrível. Eles ainda gravaram antes de nós, então foi uma dinâmica muito legal”, afirmou Ellen. “Eles não recebiam os episódios completos, apenas as próprias cenas, por motivos de seguranças do roteiro. Então, eles ficavam muito curiosos e perguntavam: o que vocês vão fazer hoje para saber um pouco mais da história?”, revelou Emmy.

A convivência com o pai rígido e pouco presente, a responsabilidade em combater o crime da cidade e a exposição da família na imprensa são alguns dos traumas que os personagens precisam enfrentar na fase adulta.

Mary J. Blige e Cameron Britton em ‘The Umbrella Academy’ (Reprodução/Divulgação)

Apesar dos problemas densos, a série tenta manter o bom humor. Os dois detetives, vividos por Cameron Britton e Mary J. Blige, vivem situações dignas d’Os Trapalhões, aliviando as cenas de violência que protagonizam. A própria interação entre os personagens principais é recheada de piadinhas e ironia, que tornam o clima da produção descontraído. “Na vida, mesmo nos momentos mais dramáticos, nós conseguimos encontrar humor. E acho que é por isso que a série parece mais real, de alguma forma”, comentou Tom Hopper.

Reese Witherspoon posta foto ao lado de elenco de “Big Little Lies”

Nos comentários, fãs perguntaram sobre a data de estreia da segunda temporada da atração

As atrizes do elenco de Big Little Lies (Foto: Reprodução Instagram)

Reese Witherspoon brindou os fãs de “Big Little Lies” com um fotão digno de suspiros. Na imagem, a atriz aparece ao lado das companheiras de elenco na série, Nicole KidmanLaura DernZoë Kravitz e Shailene Woodley.  “O amor verdadeiro é o que você tem pelas suas irmãs, amigas, seu círculos de mulheres fortes…e aquelas que dizem que você está com comida nos dentes. Feliz”, escreveu a atriz nesta quarta-feira (13).

Nos comentários, os fãs não esconderam a ansiedade e questionaram sobre a data de estreia da segunda temporada do seriado. “Big Little Lies” fez um enorme sucesso e, por isso, ganhou uma continuação. Dessa vez, os episódios serão todos inéditos, já que a historia da primeira foi toda baseada no livro homônimo.

Elenco reforçado: Mery Streep estará na segunda temporada da série (Foto: Reprodução Instagram)

Especula-se que o roteiro deva focar nas historias de origem das personagens Bonnie (Zoë Kravitz) e Celeste (Nicole Kidman). A premiadíssima atriz Meryl Streep entra como reforço no elenco para interpretar Mary Louise, mãe de Perry (Alexander Skarsgård).

David E. Kelley continua responsável pelo roteiro ao lado da autora, Liane Moriarty. Na direção, Andrea Arnold assume no lugar de Jean-Marc Vallée. A previsão é que os novos episódios sejam exibidos a partir de junho, nos Estados Unidos. Será? Estamos ansiosos!

Maju Coutinho é a primeira mulher negra a ocupar a bancada do Jornal Nacional

Jornalista sua esteia como apresentadora no telejornal neste sábado (16.02)

Maju Coutinho para a Vogue Brasil, em 2016 (Foto: Bob Wolfenson/Arquivo Vogue)

A jornalista Maria Julia Coutinho, conhecida como Maju Coutinho, passará a integrar o time fixo de apresentadores do Jornal Nacional da Rede Globo a partir do próximo sábado (16.02), de acordo com a colunista Patrícia Kogut do jornal O Globo.

Maju será a primeira mulher negra na história a ocupar a bancada do telejornal desde sua primeira exibição, em 1969. Ela integrará a equipe que se alterna aos finais de semana. Trata-se de um fato histórico para o jornalismo brasileiro e um grande passo na questão de representatividade negra no país. 

A jornalista, que começou sua trajetória na emissora em 2007 como repórter de rua, ficou conhecida por sua forma arrojada de apresentar os boletins meteorológicos do programa. Ela também já havia sido apresentadora do Jornal Hoje e do SPTV e apresenta o Papo de Almoço, da Rádio Globo.

Maju e Naomi usam vestidos Herchcovitch;Alexandre e sandálias, Prada (Foto: Bob Wolfenson)

A jornalista já esteve nas páginas da Vogue Brasil, em 2016, para um editorial com personalidades brasileiras negras ao lado da top britânica Naomi Campbell.

Atriz Mayim Bialik perde voo e põe culpa em comissária de bordo que odeia sua série

Estrela de ‘The Big Bang Theory’, Mayim Bialik disse ter quebrado a mala enquanto corria para pegar o avião

A atriz Mayim Bialik em frente ao portão de embarque após perder seu voo (Foto: Instagram)

A atriz Mayim Bialik utilizou a conta dela no Instagram para lamentar um voo perdido por ela e culpar a comissária de bordo que a impediu de entrar no avião. Uma das estrelas da série ‘The Big Bang Theory’ a celebridade de 43 anos compartilhou uma foto na qual aparece em frente ao portão de embarque do avião perdido por ela e na legenda do registro disse cogitar a possibilidade de ter sido sabotada pela comissária de bordo pelo fato da funcionário do aeroporto odiar a série em que trabalha.

“Eu entendo que tudo já estava fechado, mas a aeromoça não precisava fechar a porta na minha cara sem nem mesmo dizer que sentia muito. Eu fui proibida de entrar porque não despachei a minha mala de rodinhas”, afirmou a atriz em seu texto direcionado à companhia aérea pela qual iria viajar.

“Ela poderia ter feito um esforço extra. Talvez ela odeie Big Bang Theory. Talvez ela estivesse em um dia ruim. Talvez ela odeie mulheres que estão quase chorando. Agora a minha mala está quebrada por correr tanto e tão agressivamente, a minha asma está pesada e as pessoas me acham uma chiliquenta por ter gritado que eu tinha um assento na primeira classe. Não acho que mereço mais, só que havia espaço no meu lugar para levar a mala. Não foi um dia bom para mim”, finalizou a celebridade.

Jim Parsons e Mayim Bialik em cena de The Big Bang Theory (Foto: Reprodução)

‘Quando você pensa que a Terra é plana, tudo é mais simples’, diz diretor de documentário sobre terraplanistas

‘A Terra é plana’ tenta compreender por que teoria conspiratória anda tão popular
Luiza Barros

O terraplanista Mark Sargent no documentário ‘A Terra é plana’ Foto: Divulgação

O mundo dá voltas. Prova disso é que, em 2019, a arcaica crença de que a Terra é plana, em vez de esférica, ressurgiu com uma força surpreendente graças à popularidade de vídeos conspiratórios sobre o assunto. Chamados de terraplanistas, os defensores dessa ideia acabam de ganhar um documentário, “A Terra é plana”(no original, “Behind the curve”), que estreia na Netflix na próxima quinta-feira.

Diretor do filme, o americano Daniel J. Clark — que faz questão de frisar de que tem certeza que a Terra é redonda — conta que chegou a desconfiar que os youtubers que inundam as redes com conteúdos sobre o assunto pudessem ser fakes ou trolls. Mas ao encontrá-los pessoalmente, viu que eles estavam falando muito a sério.

— A grande questão que nos perguntamos no filme é “por que eles acreditam nisso”? A resposta varia, mas as pessoas se sentem muito atraídas pela ideia de que estão sendo enganadas e de que a percepção de que elas têm do mundo é mais acurada do que algo que outra pessoa possa dizer a elas. Quando você pensa que a Terra é plana, tudo é mais simples — explica ele, que vê nos terraplanistas um ponto comum: o endosso a outras teorias conspiratórias, desde o clássico boato de que o homem jamais pisou na Lua às fake news de que o 11 de setembro e outras tragédias nos Estados Unidos foram armadas pelo governo.

As grandes estrelas do documentário, Mark Sargent e Patricia Steere, parecem o perfeito estereótipo para americanos obcecados por conspirações: Sargent mora com a mãe idosa, foi jogador de videogame profissional e está convencido de que vivemos num mundo de ilusões semelhante ao do filme “O show de Truman”. Já  Steele é uma radialista vegana fã de gatos e da banda dos anos 1980 The Smiths (ela sonha com o dia em que o vocalista Morrissey entre para o movimento). Mas o documentário evita fazer troça deles. Ao ouvir cientistas e psicólogos, o filme defende que ridicularizar os terraplanistas só vai ajudar a isolá-los ainda mais.

— Mark (Sargent) tem várias histórias engraçadas que não são relacionadas ao terraplanismo, a mãe dele é muito simpática. Me aproximei deles como pessoas, sem mentir sobre o que acreditava. Antes as pessoas podiam ser amigas e ter opiniões diferentes, mas como há muita polarização política hoje, isso ficou mais difícil. Voltar a como era antes seria bacana — defende Clark.

A radialista Patricia Steere fala durante convenção dos terraplanistas no documentário ‘A Terra é plana’ Divulgação

Embora não acredite necessariamente que o número de terraplanistas está aumentando (eles podem apenas estar mais organizados e barulhentos do que antes), o diretor sustenta que há dois grandes motivos que podem explicar como uma ideia tão anticientífica ganhou tanta evidência nos últimos anos: uma é politização de assuntos científicos diante de interesses econômicos, como a negação do aquecimento global apoiada por Donald Trump. A segunda é a falta de ética e responsabilidade de alguns acadêmicos, que desacreditam a comunidade científica como um todo ao publicar pesquisas com pouco rigor. 

— Temos os ovos estragados da ciência, que às vezes querem impor uma agenda e ganhar fama, então publicam seus resultados em algum journal sem reputação. Isso acaba ganhando as notícias, e quando depois prova-se que a pesquisa estava errada, a fé das pessoas na ciência em geral diminui — lamenta.

Endossada nos Estados Unidos pelo jogador da NBA Kyrie Irving e pelo rapper B.o.B., a crença no terraplanismo e em outras teorias conspiratórias têm gerado críticas a gigantes como Google e Facebook, onde conteúdos do tipo abundam sem grandes consequências. No mês passado, o YouTube se comprometeu em reduzir a recomendação automática de vídeos que propaguem informações falsas.

Para Clark, o ideal não é proibir que conspiracionistas tenham voz, e sim garantir que os argumentos contrários a eles tenham o mesmo destaque nas redes sociais antes que um novo público seja “seduzido” pela ideia. Quanto aos já convertidos, ele acredita que seria mais complicado fazê-los mudar de ideia — nem mesmo se fracassar a recentemente anunciada expedição de navio à Antártida, que os terraplanistas crêem ser “a borda da Terra”.

— O problema dos experimentos conduzidos pelos terraplanistas, baseado nos que eu acompanhei, é que eles nunca vão aceitar as evidências de que estão errados. Se os terraplanistas acabarem um dia dando a volta ao mundo, vão dizer que alguém aprontou com eles, que foram drogados ou enganados por algum guia.

Mas talvez o maior inimigo dos terraplanistas sejam eles mesmos: conforme “A Terra é plana” mostra, há brigas acirradas na comunidade acerca da real natureza da Terra (alguns acreditam que vivemos sob um domo, outros que estamos dispostos em um plano infinito). E um dos pioneiros do movimento, Math Powerland, está em guerra com os populares Sargent e Steere: de uns tempos para cá, ele se deu por convencido de que ambos só podem ser agentes infiltrados da CIA. Os dois, é claro, dizem que isso não passa de uma grande invenção.