Black Mirror – 3ª temporada | Crítica

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Após o especial no Natal de 2014, a queridinha da internet Black Mirror retorna, agora de casa nova, com produção e transmissão pela Netflix no lugar da emissora britânica Channel 4. Com maior investimento e duas vezes mais episódios do que nos anos anteriores, será que a antologia conseguiu levar a essência das suas perturbadas narrativas ao catálogo do serviço?

Cada capítulo traz uma história com personagens e ambientação inéditos, abordando de forma exagerada algum aspecto da tecnologia moderna em um período não especificado, geralmente com uma reviravolta capaz de fazer chorar ou, pelo menos, pensar bastante sobre a forma que utilizamos computadores, celulares e outros dispositivos modernos. São pequenos filmes que não compartilham nada entre si, a não ser o desprezo por determinadas atitudes do ser humano, seja no meio em que habita ou com as pessoas que se relaciona – e a tecnologia evidencia justamente esse comportamento desprezível.

Com a Netflix isso não foi diferente, exceto que os temas agora parecem mais atuais do que nunca. Enquanto as temporadas anteriores lidaram com “pautas frias”, os novos episódios parecem ter sido escolhidos direto das notícias de portais e revistas: nostalgia oitentista, romance através da tecnologia, carência de atenção em redes sociais, xenofobia, vigilância, comentários ofensivos e por ai vai. Nenhum deles é de fato aprofundado mas, dado o momento em que vivemos, onde não é preciso muito esforço para se deparar com um dos casos citados acima, a pontualidade só torna tudo mais assustador. Mas vamos por partes:

“Fracassado”

O terceiro ano já começa em uma nota alta ao apresentar Lacie (Bryce Dallas Howard), uma mulher aparentemente comum que chega ao ápice de perder sua própria personalidade para agradar todos ao seu redor em um mundo onde tudo que importa é a quantidade de “likes” que você tem. Escrito pela dupla de Parks and Recreations Rashida Jones e Michael Schur, “Fracassado” é um comentário sarcástico e caricato sobre a forma que utilizamos redes sociais que, infelizmente, consegue ser altamente relacionável: é possível ver um pouco de Lacie nos seus amigos, família e até mesmo em si, e causar esse tipo de reflexão é o que Black Mirror faz de melhor.

“Versão de Testes”

Mesmo com a excelente direção de Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10), o segundo episódio já não se sai tão bem. “Versão de Teste” acompanha um aventureiro que viaja o mundo para esquecer dramas familiares que acaba se envolvendo com um estúdio de desenvolvimento de jogos liderando por um excêntrico diretor asiático. É uma trama sobre realidade virtual que faz inúmeras referências à cultura gamer, seja na mansão cheia de horrores à todo canto, no personagem claramente inspirado pelo criador de Metal Gear Solid Hideo Kojima ou até mesmo em um easter egg de Bioshock – completo com “Would You Kindly?” e tudo.

Ainda sim, “Versão de Teste” não só se afasta demais da fórmula da antologia como também falha em contar uma história minimamente interessante que parece existir apenas para que o criadorCharlie Brooker – veterano do jornalismo de games – pudesse voltar a escrever sobre jogos. Por sorte, o carisma de Wyatt Russell segura tranquilamente pelos 45 minutos de duração.

“Cala a Boca e Dança”

Toda temporada é conhecida por seus capítulos de maior impacto: a primeira chocou com “Quinze Milhões de Méritos”, já a segunda apresentou o pesadíssimo “Urso Branco”. “Cala a Boca e Dança” é o equivalente de ambos para a terceira, mostrando um garoto que é coagido a atos desumanos na tentativa de preservar sua identidade após ser gravado em um momento íntimo por hackers através de sua webcam. É uma jornada sufocante que torna-se cada vez pior ao encontramos novos personagem e descobrirmos qual podre eles estão querendo evitar que o mundo descubra. Mesmo tendo seus momentos cômicos –  muito deles entregues pela participação do excelente Jerome Flynn (Bronn em Game of Thrones) – é um daqueles episódios em que você termina se perguntando o que faria se estivesse na situação do protagonista, algo que fica ainda mais complicado ao se tratar de um enredo totalmente plausível no mundo real. Você provavelmente cobrirá a sua webcam com fita adesiva após assistí-lo.

“San Junipero”

Para compensar a tensão do anterior, “San Junipero” é um dos episódios mais leves da antologia, porém isso não o faz menos interessante. Ambientado em uma cidade de praia no ano de 1987, acompanhamos a novata Yorkie (Mackenzie Davies, de Halt and Catch Fire) explorando a homônima San Junipero ao lado de uma carismática garota chamada Kelly (Gugu Mbatha-Raw, de Doctor Who). A ótima seleção de músicas complementada por uma estética regada à neon criam um prato cheio para qualquer fanático oitentista ao mesmo tempo em que se diferencia do restante da série, sendo o capítulo mais marcante visualmente. Apesar das eventuais pirações tecnológicas, é uma história de amor contemporânea que carrega o título de primeiro final realmente feliz da série.

“Engenharia Reversa”

Enquanto não é de todo ruim, “Engenharia Reversa” falha em causar algum impacto no espectador. Há um comentário social sobre xenofobia e manipulação na batalha travada entre os soldados Stripes (Malachai Kirby) e Raiman (Madeline Brewer, de Orange is the New Black) com as criaturas chamadas de Baratas, mas personagens desinteressantes e uma reviravolta mediana seguida de um final decepcionante fazem a experiência ser esquecível e sem graça. Nem mesmoMichael Kelly vivendo outro “homem de governo badass” como fez em House of Cards consegue salvar o episódio.

“Odiados pela Nação”

Por fim, a terceira temporada é concluída com um especial de uma hora e meia que presta homenagem aos dramas de detetive, porém com o jeitinho da antologia ao colocar o suspeito como o líder de uma campanha de ódio que pede que as pessoas escolham as suas vítimas através de ameaças de morte via Twitter, utilizando uma hashtag especial. A investigação de Karin Parke (Kelly MacDonald), da hacker Chloe ‘Blue’ Perrine (Faye Marsay, de Game of Thrones) e de todo um departamento de crimes virtuais é tensa e muito perturbadora por se tratar de algo que, salvo os exageros, acontece com frequência, colocando em prática toda a ideia central do seriado ao refletir um comportamento da sociedade atual e mostrar como seu abuso pode levar à fins violentos.

No geral, Black Mirror entrega mais um ano satisfatório. Ter o dobro de capítulos e maior investimento permitiu que Charlie Brooker e sua equipe brincassem com diferentes temas, diretores e ambientações, o que funcionou para histórias como “San Junipero” mas não tão bem em outras como “Versão de Testes”. A pontualidade da estreia também contribui para o teor perturbador das narrativas por abordar eventos que podem ocorrer a qualquer minuto na sociedade. Dado o alcance da Netflix, esses seis episódios com certeza vão reverberar e assombrar a mente do público pelos próximos anos – pelo menos até o eventual lançamento da quarta temporada. [Arthur Eloi]
**** (Ótimo)

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“A porcaria do mundo real estava alcançando a gente!”, brinca Charlie Brooker, criador de Black Mirror

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Cena do trailer da terceira temporada da série Black Mirror, produzida pela Netflix
Entre os horrores da tecnologia e as delícias de uma história bem contada (e, às vezes, o o inverso), 
Black Mirror conquistou fãs no mundo todo, ao ponto de ter sido resgatada pela Netflix depois que a série foi cancelada na Inglaterra. A série antológica (com cada episódio trazendo uma trama totalmente nova, com personagens e atores diferentes de um capítulo para o outro) de ficção especulativa ganha seis episódios a partir desta sexta, 21.

“Tem mais diversidade, porque agora que vamos fazer seis episódios [as temporadas anteriores tiveram três episódios cada uma] podemos variar os tipos de história, os aspectos visuais e até o tom. Temos vários gêneros: uma história de amor doce, uma história de guerra, brutal, uma trama de detetive, tem muito mais alcance”, conta a produtora executiva Annabel Jones. “Não somos sempre implacavelmente apavorantes”, complementa o produtor executivo e criador Charlie Brooker.

A série continua a mesma, apenas dobrou de tamanho e renovou sua verve desafiadora (“a porcaria do mundo real estava alcançando a gente!”, brinca Brooker). Mas o cerne continua o mesmo: “É sobre como é viver no nosso mundo moderno, sempre em modificação e evolução”, resume Annabel com dificuldade. “Uma seleção de histórias bizarras, inquietantes e, espero, divertidas, sobre ‘e se’”, define Brooker. “A tecnologia nunca é usada como vilã nas nossas histórias, é usada no lugar de mágica, basicamente. É sobre os dilemas humanos.”

“O que eu gosto de fazer essa série é que ela te obriga a se reinventar sempre, então, não queremos que ela vire um clichê dentro dela mesma”, reflete ele, que se recusa a se restringir diante das expectativas. “Muita gente reclamou: ‘Se a série vai para a Netflix, vai ficar toda americanizada’. Pensei: ‘Ah, é? Então vamos fazer um episódio que se passa bem na Califórnia, em 1987’!”, se diverte. [Stella Rodrigues]

“Black Mirror” explora mau uso da tecnologia para expor “falhas” humanas

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Cena de “Nosedive”, episódio da terceira temporada de “Black Mirror”

Imagem: Divulgação/Netflix
Mesmo que secretamente, que eleitor resistiria a ver o presidente de seu país ser obrigado, em rede nacional de TV, a passar por uma situação muito vexatória e humilhante como… transar com um porco, por exemplo?

A imagem, ao mesmo tempo perturbadora e atraente, aparece no primeiro episódio da série britânica “Black Mirror”, lançada em 2011. E imagens perturbadoras são a especialidade deste programa. Encerrado em 2012, ficou pouco conhecido fora do Reino Unido, mas se tornou cult. Em boa parte, devido a eventos mostrados na série que estranhamente se tornaram ou estão se tornando realidade.

“Já li que tem gente inventando uma ferramenta para você tuitar depois de morto, que foi tema de um episódio. As lentes de contato que funcionam como câmeras são de certa forma o que é o Google Glass” diz o criador Charlie Brooker, que conversou com a reportagem do UOL junto com Annabel Jones, que produz a terceira temporada, disponível a partir desta sexta (21), no Netflix.
Para eles, a pecha de “profética” que a série ganhou entre seus admiradores, se deve ao fato de que o roteiro usa tecnologias e comportamentos muito contemporâneos para contar histórias absurdas — ou nem tão absurdas assim.
Ano passado, o primeiro-ministro britânico David Cameron teve de negar publicamente que tenha participado de um ritual de iniciação na universidade de Oxford que consistia em simular sexo com a cabeça de um porco.
A história/fofoca foi contada, pasmem, por um lorde, contemporâneo de Cameron em Oxford, que teria presenciado o fato e que afirma haver evidências fotográficas — que nunca chegaram a público.
“Ficamos surpresos e achamos que não é verdade, mas que é engraçado é”, dizem, aos risos, os “profetas” por trás de “Black Mirror”.

Espelho negro

O nome da série, explica seu criador, é uma referência às telas dos smartphones, das TVs, dos tablets, dos laptops e dos monitores em geral. Quando desligados, elas se tornam um “espelho negro”, onde vemos nossa imagem projetada. O programa materializa esse espelho negro da nossa alma. Como a tecnologia potencializa nossa maldade ou nossos delírios de imortalidade.
Foi assim nas duas primeiras temporadas, com apenas três e quatro episódios, respectivamente. Nos vemos nos reunindo em um bar com amigos para assistir à lastimável situação do primeiro ministro. Nos vemos pagando por um serviço que nos permite filmar prisioneiros sendo torturados em uma cadeia-reality show. Nos vemos no casal em crise que usa lentes de contato com câmeras para remoer cada cena de seu relacionamento fracassado.
Brooker e Jones, no entanto, refutam qualquer discurso antitecnológico: “Primeiramente queremos entreter as pessoas, muito mais que mandar uma mensagem, mas se isso ressoa nas conversas, melhor ainda. É reação emocional e relaxamento”, explica Brooker.  “Mas como a tecnologia é usada no nosso show? Ela nunca é a vilã. São as falhas humanas que são instrumentalizadas pela tecnologia. É o ser humano que ferra com tudo.”

“Big Brother”

De entretenimento e tecnologia os dois entendem. Tanto Broker quanto Jones trabalharam na Endemol, a empresa que tem os direitos sobre o “Big Brother”, aquele programa que nós brasileiros adoramos odiar. A experiência com a TV na era do reality show também se reflete nos episódios.
“Embora a série mostre as falhas humanas potencializadas por novas possibilidades de erro, a gente tenta não vilipendiar as pessoas. O segundo episódio desta temporada, por exemplo, fala desse menino, que cresceu tendo acesso a todo o tipo de imagem. E nós estamos criando filhos neste ambiente, que embora saibam distinguir o certo do errado, podem não ter algum guia moral pelo caminho”, afirma Jones.
“Antes a TV era uma experiência familiar, em que todos sentavam ao redor para assistir e você aprendia sua moral através da discussão daquilo que estava sendo mostrado. Hoje as pessoas estão mais isoladas em seus computadores, smartphones. Não tem mais essa discussão”, explica.
Os dois também garantem que nestes seis novos episódios haverá espaço para a doçura e para a exploração do lado bom da tecnologia. “Há outros episódios que mostram como a tecnologia oferece outras oportunidades de como manejar sua vida, como o quarto episódio, que acontece em 1987.”

 

Equity | Drama sobre Wall Street com atriz Anna Gunn de Breaking Bad vai virar série de TV

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Equity, longa dirigido por Meera Menon (Farah Goes Bang) e estrelado por Anna Gunn (Breaking Bad), vai virar uma série de TV.

Segundo o Hollywood Reporter, a ABC firmou acordo de produção de roteiro com multa, indicando que o piloto deve ser gravado após a produção do roteiro. Amy Pascal, ex-presidente da Sony, e Regina Corrado (The Strain) são as produtoras.

Não se sabe ainda se o elenco do filme voltará para os papeis na série de TV. Na trama do longa, Gunn é a investidora sênior de um banco que, depois de uma promoção, se prepara para lançar um novo projeto que deve assegurar sua posição nos níveis mais altos da empresa. No entanto, quando um funcionário começa a questionar a estabilidade financeira da empresa, ela precisa descobrir até onde esses rumores podem comprometer o acordo.

O filme foi exibido no Festival de Sundance e chega aos cinemas americanos em julho. A estreia no Brasil ainda não foi anunciada.

Raízes | Remake acende a discussão sobre liberdade, história e o direito à própria identidade

Roots

Uma das cenas mais poderosas de Raízes é o momento em que o africano Kunta Kintê aceita ser chamado pelo nome que recebeu de seus donos, Toby. A submissão à vontade do outro, contrariando os próprios desejos e princípios está no centro das relações de poder, e nenhuma submissão é maior do que a perda da própria identidade. Raízes é a história do esforço de um homem para manter sua identidade diante de forças invencíveis e circunstâncias nem sempre compreendidas pelo público contemporâneo, o que ironicamente exige que a história seja recontada mesmo diante do impacto da primeira versão.

Num daqueles casos de fenômenos da mídia, a história é conhecida mesmo por quem não testemunhou a exibição da série. Movido pela lenda familiar sobre seu antepassado africano ter sido um rapaz chamado Kunta Kintê e do que havia acontecido com os descendentes dele, o jornalista Alex Haleytraçou sua genealogia até uma vila em Gâmbia. O relato romanceado da história da família deu origem ao livro Raízes e à minissérie homônima, que estreou em janeiro de 1977 nos Estados Unidos ainda sob o reflexo das comemorações do bicentenário da independência do país.

Temeroso de que o público demonstraria pouco interesse na história contada pelo ponto de vista de um escravo e seus descendentes, o executivo de programação do canal ABC, Fred Silverman, decidiu exibir a minissérie em sequência, e não em capítulos semanais, resultando num impacto sem precedentes. Bares ficaram vazios e números de audiência foram estabelecidos para não serem quebrados pelas décadas seguintes. Em Las Vegas, a atriz Leslie Uggams, parte do elenco da minissérie, testemunhou cassinos com mesas vazias enquanto os turistas voltavam aos seus quartos de hotel para assistir a mais um capítulo.

Na estreia da série, mais de duzentas e cinquenta faculdades e universidades criaram cursos baseados em Raízes e as bibliotecas foram inundadas por pedidos de pesquisa genealógica. Exibida na década seguinte ao movimento dos direitos civis e ao movimento black power, Raízes encontrou um país a caminho de aceitar seu passado como um quadro mais diverso do que a história tradicional havia mostrado até então. Para os descendentes de escravos, Haley ter encontrado seu antepassado era uma vitória contra o rompimento de suas histórias gerado pela escravidão e Kunta Kintê um símbolo de todos aqueles antepassados obrigados a assumir uma nova vida. Mesmo para os descendentes de imigrantes movidos para o continente americano por outras forças, a série foi um incentivo para buscar suas origens e entender como a guerra, a fome, perseguições políticas e étnicas haviam atuado para trazê-los até o presente.

Comparada a um tsunami, a onda indefensável sob a qual todos se curvam,Raízes deixou de ser programa de TV para se tornar um marco cultural, inabalado até mesmo pela descoberta de imprecisões na pesquisa genealógica de Haley e por um processo de plágio movido pelo folclorista Harold Courlander, que mostrou semelhanças entre Raízes e seu livro, The African, caso encerrado por um acordo extrajudicial.

A refilmagem não pode esperar ter o mesmo impacto sobre um público que há quatro anos viu 12 Anos de Escravidão levar o Oscar de melhor filme, mas reacendeu a discussão sobre como a escravidão deve ser retratada e até mesmo se o tema deve seguir aparecendo na TV e no cinema. Não faltaram pedidos de boicote contra a série e mesmo a defesa da ideia de que histórias sobre a escravidão deveriam ser contadas  somente por roteiristas, diretores e produtores afrodescendentes, o que equivale a dizer que somente cavaleiros britânicos deveriam produzir histórias sobre o rei Arthur e que talento, sensibilidade e valores de produção não deveriam ser os elementos definidores da qualidade de uma série ou filme.

Mais importante do que a discussão carregada de ideologia, a nova Raízes vai surpreender por apresentar a África de forma muito diferente do original e da imagem que a maior parte do público faz do continente. Com mais recursos que a série dos anos 70, a refilmagem mostra a vila de Jufure maior, mais detalhada e parte de um reino organizado. O guerreiro Kunta Kintê (Malachi Kirby) não é um garoto das selvas, mas um rapaz que planeja ir para a universidade em Tombuctu, instituição cuja existência certamente a maior parte da audiência desconhece. O resultado é um retrato que desafia a ideia ainda corrente de que os africanos trocaram a liberdade pela “civilização”.

O novo roteiro também assume o fato histórico de que a escravidão já era prática entre os povos africanos. O resultado foi reacender a polêmica de que este dado seria uma forma de perdoar os europeus pelo tráfico negreiro, quando a realidade é que a comercialização de seres humanos foi uma atividade aprovada em uma ou outra época em todos os continentes. Mas uma coisa é aprender sobre isso nos livros de história, outro é ver uma das vítimas narrando como sua vida foi interrompida pelos desígnios alheios. E é aí que histórias como Raízes encontram seu lugar.
Com 8 episódios, a nova versão de Raízes estreia no Brasil hoje (17), às 22h40, no History Channel. [Ederli Fortunato]

Remake dos anos 1970, ‘Raízes’ narra saga de família de escravos nos EUA

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O showbiz americano, mais por tino comercial do que por um recém-contraído ardor cívico de patrocinar um exame de consciência nacional, tem aberto espaço inédito para obras que tratam do período da escravidão no país e de suas repercussões até a nossa época.
Filmes (“Histórias Cruzadas”, “Django Livre”, “12 Anos de Escravidão”, “O Nascimento de Uma Nação”), discos (como os de Beyoncé e de sua irmã menos famosa, Solange Knowles) e séries de TV (“Underground”) exploraram o filão, agora engrossado pela minissérie “Raízes”, remake de uma produção homônima exibida no fim dos anos 1970.

Contada em quatro episódios, mostra a saga multigeracional de uma família de escravos, desde a captura do jovem Kunta Kinte na Gâmbia e de seu envio para uma América colonial, em 1750, até a abolição do trabalho forçado nos EUA, em 1865, que beneficia o neto e o bisneto daquele. Tortura, mutilação, estupro e fugas ritmam a intriga das gerações intermediárias.
A trama toma como base o romance de mesmo nome, vencedor do Pulitzer em 1977 e assinado por Alex Haley (que se dizia descendente direto de Kinte e é encarnado no programa por Laurence Fishburne, em breve aparição). A versão de agora incorpora descobertas feitas por historiadores nos últimos 40 anos e introduz personagens inexistentes no original.
Em evento de divulgação em abril passado, em Cannes (França), o elenco defendeu a atualidade do roteiro.
“É triste que contar essa história hoje ainda seja tão relevante. A escravidão tem outro nome. As corporações são as plantações [de fazendas escravocratas] modernas, com seus salários irrisórios e demissões gratuitas”, comparou Jonathan Rhys Meyers, que interpreta Tom Lea, agricultor branco que violenta a filha de Kinte, Kizzy, e aposta, numa rinha de galo, o filho que tem com ela.
“Não há dúvida sobre a pertinência do projeto. Temos de perder o medo da verdade. Outro dia, um filho de um amigo meu, negro, foi abordado na escola por um coleguinha assim: ‘Se o [Donald] Trump ganhar, você sabe que vai ter de voltar para a África, né?’. [A intolerância] é como um gene recessivo insidioso que volta a se manifestar sob a forma de um câncer”, completou Anika Noni Rose, que encarna Kizzy.
Forest Whitaker e Anna Paquin também atuam na minissérie.
NA TV
Raízes
QUANDO estreia nesta seg. (17), às 22h40; exibição de seg. a qui., no mesmo horário, no History

LUCAS NEVES
EDITOR-ADJUNTO DA “ILUSTRÍSSIMA”

Série derivada de The Good Wife terá Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones

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A rede CBS contratou a atriz Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones, para o elenco da série derivada de The Good Wife. Ela viverá Maia, a afilhada da protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski).
Lucca Quinn (Cush Jumbo) também estará na série, que será exibida no serviço CBS All Access, plataforma digital do canal que futuramente receberá a nova série de Star Trek nos Estados Unidos.
The Good Wife teve 133 episódios divididos em sete temporadas e foi encerrada em maio deste ano nos Estados Unidos. A nova série não tem título ainda, e se passará um ano depois do desfecho da série principal. Na trama, uma fraude financeira destrói a reputação da jovem advogada Maia (Leslie) e acaba com as economias de Diane, mentora da garota. Forçadas a sair da firma Lockhart & Lee, elas juntam forças a Lucca Quinn para se reerguer.
Robert e Michelle King, criadores da série original, participarão como produtores e corroteiristas. A estreia acontece em fevereiro.