Raízes | Remake acende a discussão sobre liberdade, história e o direito à própria identidade

Roots

Uma das cenas mais poderosas de Raízes é o momento em que o africano Kunta Kintê aceita ser chamado pelo nome que recebeu de seus donos, Toby. A submissão à vontade do outro, contrariando os próprios desejos e princípios está no centro das relações de poder, e nenhuma submissão é maior do que a perda da própria identidade. Raízes é a história do esforço de um homem para manter sua identidade diante de forças invencíveis e circunstâncias nem sempre compreendidas pelo público contemporâneo, o que ironicamente exige que a história seja recontada mesmo diante do impacto da primeira versão.

Num daqueles casos de fenômenos da mídia, a história é conhecida mesmo por quem não testemunhou a exibição da série. Movido pela lenda familiar sobre seu antepassado africano ter sido um rapaz chamado Kunta Kintê e do que havia acontecido com os descendentes dele, o jornalista Alex Haleytraçou sua genealogia até uma vila em Gâmbia. O relato romanceado da história da família deu origem ao livro Raízes e à minissérie homônima, que estreou em janeiro de 1977 nos Estados Unidos ainda sob o reflexo das comemorações do bicentenário da independência do país.

Temeroso de que o público demonstraria pouco interesse na história contada pelo ponto de vista de um escravo e seus descendentes, o executivo de programação do canal ABC, Fred Silverman, decidiu exibir a minissérie em sequência, e não em capítulos semanais, resultando num impacto sem precedentes. Bares ficaram vazios e números de audiência foram estabelecidos para não serem quebrados pelas décadas seguintes. Em Las Vegas, a atriz Leslie Uggams, parte do elenco da minissérie, testemunhou cassinos com mesas vazias enquanto os turistas voltavam aos seus quartos de hotel para assistir a mais um capítulo.

Na estreia da série, mais de duzentas e cinquenta faculdades e universidades criaram cursos baseados em Raízes e as bibliotecas foram inundadas por pedidos de pesquisa genealógica. Exibida na década seguinte ao movimento dos direitos civis e ao movimento black power, Raízes encontrou um país a caminho de aceitar seu passado como um quadro mais diverso do que a história tradicional havia mostrado até então. Para os descendentes de escravos, Haley ter encontrado seu antepassado era uma vitória contra o rompimento de suas histórias gerado pela escravidão e Kunta Kintê um símbolo de todos aqueles antepassados obrigados a assumir uma nova vida. Mesmo para os descendentes de imigrantes movidos para o continente americano por outras forças, a série foi um incentivo para buscar suas origens e entender como a guerra, a fome, perseguições políticas e étnicas haviam atuado para trazê-los até o presente.

Comparada a um tsunami, a onda indefensável sob a qual todos se curvam,Raízes deixou de ser programa de TV para se tornar um marco cultural, inabalado até mesmo pela descoberta de imprecisões na pesquisa genealógica de Haley e por um processo de plágio movido pelo folclorista Harold Courlander, que mostrou semelhanças entre Raízes e seu livro, The African, caso encerrado por um acordo extrajudicial.

A refilmagem não pode esperar ter o mesmo impacto sobre um público que há quatro anos viu 12 Anos de Escravidão levar o Oscar de melhor filme, mas reacendeu a discussão sobre como a escravidão deve ser retratada e até mesmo se o tema deve seguir aparecendo na TV e no cinema. Não faltaram pedidos de boicote contra a série e mesmo a defesa da ideia de que histórias sobre a escravidão deveriam ser contadas  somente por roteiristas, diretores e produtores afrodescendentes, o que equivale a dizer que somente cavaleiros britânicos deveriam produzir histórias sobre o rei Arthur e que talento, sensibilidade e valores de produção não deveriam ser os elementos definidores da qualidade de uma série ou filme.

Mais importante do que a discussão carregada de ideologia, a nova Raízes vai surpreender por apresentar a África de forma muito diferente do original e da imagem que a maior parte do público faz do continente. Com mais recursos que a série dos anos 70, a refilmagem mostra a vila de Jufure maior, mais detalhada e parte de um reino organizado. O guerreiro Kunta Kintê (Malachi Kirby) não é um garoto das selvas, mas um rapaz que planeja ir para a universidade em Tombuctu, instituição cuja existência certamente a maior parte da audiência desconhece. O resultado é um retrato que desafia a ideia ainda corrente de que os africanos trocaram a liberdade pela “civilização”.

O novo roteiro também assume o fato histórico de que a escravidão já era prática entre os povos africanos. O resultado foi reacender a polêmica de que este dado seria uma forma de perdoar os europeus pelo tráfico negreiro, quando a realidade é que a comercialização de seres humanos foi uma atividade aprovada em uma ou outra época em todos os continentes. Mas uma coisa é aprender sobre isso nos livros de história, outro é ver uma das vítimas narrando como sua vida foi interrompida pelos desígnios alheios. E é aí que histórias como Raízes encontram seu lugar.
Com 8 episódios, a nova versão de Raízes estreia no Brasil hoje (17), às 22h40, no History Channel. [Ederli Fortunato]

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Remake dos anos 1970, ‘Raízes’ narra saga de família de escravos nos EUA

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O showbiz americano, mais por tino comercial do que por um recém-contraído ardor cívico de patrocinar um exame de consciência nacional, tem aberto espaço inédito para obras que tratam do período da escravidão no país e de suas repercussões até a nossa época.
Filmes (“Histórias Cruzadas”, “Django Livre”, “12 Anos de Escravidão”, “O Nascimento de Uma Nação”), discos (como os de Beyoncé e de sua irmã menos famosa, Solange Knowles) e séries de TV (“Underground”) exploraram o filão, agora engrossado pela minissérie “Raízes”, remake de uma produção homônima exibida no fim dos anos 1970.

Contada em quatro episódios, mostra a saga multigeracional de uma família de escravos, desde a captura do jovem Kunta Kinte na Gâmbia e de seu envio para uma América colonial, em 1750, até a abolição do trabalho forçado nos EUA, em 1865, que beneficia o neto e o bisneto daquele. Tortura, mutilação, estupro e fugas ritmam a intriga das gerações intermediárias.
A trama toma como base o romance de mesmo nome, vencedor do Pulitzer em 1977 e assinado por Alex Haley (que se dizia descendente direto de Kinte e é encarnado no programa por Laurence Fishburne, em breve aparição). A versão de agora incorpora descobertas feitas por historiadores nos últimos 40 anos e introduz personagens inexistentes no original.
Em evento de divulgação em abril passado, em Cannes (França), o elenco defendeu a atualidade do roteiro.
“É triste que contar essa história hoje ainda seja tão relevante. A escravidão tem outro nome. As corporações são as plantações [de fazendas escravocratas] modernas, com seus salários irrisórios e demissões gratuitas”, comparou Jonathan Rhys Meyers, que interpreta Tom Lea, agricultor branco que violenta a filha de Kinte, Kizzy, e aposta, numa rinha de galo, o filho que tem com ela.
“Não há dúvida sobre a pertinência do projeto. Temos de perder o medo da verdade. Outro dia, um filho de um amigo meu, negro, foi abordado na escola por um coleguinha assim: ‘Se o [Donald] Trump ganhar, você sabe que vai ter de voltar para a África, né?’. [A intolerância] é como um gene recessivo insidioso que volta a se manifestar sob a forma de um câncer”, completou Anika Noni Rose, que encarna Kizzy.
Forest Whitaker e Anna Paquin também atuam na minissérie.
NA TV
Raízes
QUANDO estreia nesta seg. (17), às 22h40; exibição de seg. a qui., no mesmo horário, no History

LUCAS NEVES
EDITOR-ADJUNTO DA “ILUSTRÍSSIMA”

Série derivada de The Good Wife terá Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones

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A rede CBS contratou a atriz Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones, para o elenco da série derivada de The Good Wife. Ela viverá Maia, a afilhada da protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski).
Lucca Quinn (Cush Jumbo) também estará na série, que será exibida no serviço CBS All Access, plataforma digital do canal que futuramente receberá a nova série de Star Trek nos Estados Unidos.
The Good Wife teve 133 episódios divididos em sete temporadas e foi encerrada em maio deste ano nos Estados Unidos. A nova série não tem título ainda, e se passará um ano depois do desfecho da série principal. Na trama, uma fraude financeira destrói a reputação da jovem advogada Maia (Leslie) e acaba com as economias de Diane, mentora da garota. Forçadas a sair da firma Lockhart & Lee, elas juntam forças a Lucca Quinn para se reerguer.
Robert e Michelle King, criadores da série original, participarão como produtores e corroteiristas. A estreia acontece em fevereiro.

Uma noite ‘Sex and the City’: Cynthia Nixon prestigia Sarah Jessica Parker

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Mais um dia glamouroso na vida de Carrie Bradshaw e Miranda Hobbes em Nova York! As atrizes Sarah Jessica Parker e Cynthia Nixon, que viveram as memoráveis personagens na série, se reencontraram na première de Divorce, nova série da HBO, na noite de terça-feira (4) na Big Apple.

Cynthia e o ator Mario Cantone, também de Sex and the City, fizeram questão de prestigiar o novo trabalho de Sarah Jessica. O marido da atriz, Matthew Broderick, também esteve por lá.

Na comédia da HBO, Sarah Jessica interpreta Frances, uma quarentona que está no processo de separação do maridom vivido por Thomas Haden Church. Charlie Kilgore e Sterling Jerins também estão no elenco.