No Reino Unido, quem tiver mais de 30 mil seguidores nas redes terá status de celebridade

Definição foi criada pela agência reguladora de publicidade do país

Órgão regulador de publicidade considera que ter 30 mil seguidores é o equivalente a ser uma celebridade  

No Reino Unido, pessoas que têm mais de 30 mil seguidores em redes sociais serão consideradas celebridades perante a lei. O anúncio foi feito na quinta, 4, pela Advertising Standards Authority (ASA), agência reguladora de publicidade do país. 

Pessoas que atingirem a marca terão que seguir as mesmas regras de publicidade aplicadas a personalidades conhecidas – entre elas está a proibição de anunciar remédios. 

A decisão por parte da ASA é o resultado de um caso com o perfil “ThisMamaLife”, que passou a fazer posts recomendando pílulas para dormir – a conta tinha 32 mil seguidores quando chamou a atenção dos reguladores. 

“Nós consideramos que ter mais de 30 mil seguidores indicava que ela [ThisMamaLife] possuía a atenção de um número significativo de pessoas.Considerando o quão popular ela era e o nível de atenção que ela tinha, nós consideramos que o ThisMamaLife era uma celebridade que encaixava nas regulações” escreveu a organização sobre o caso.  

A ASA determinou também que a empresa dona das pílulas, Sanofi UK, não contrate mais influenciadores digitais para promover seus produtos. 

Anúncios

Em breve seu Instagram estará cheio de propagandas

Rede social de fotos do Facebook anunciou mudanças na sua estratégia de anúncios
Por Emily S. Rueb – The New York Times

Instagram está fazendo mudanças em sua ferramento de anúncios

Em breve nos feeds do Instagram haverá mais anúncios patrocinados de “influenciadores”. Embora esta possa ser uma boa notícia para os usuários com grande número de seguidores e que ganham promovendo produtos, para o restante isto significa mais propaganda indesejada.

O Instagram, plataforma do Facebook conhecida pelas fotos que provocam inveja e raiva, anunciou mudanças na sua estratégia de anúncios que permitirão a promoção das marcas que patrocinam conteúdo criado por influenciadores nos feeds dos usuários, mesmo que eles não acompanhem a conta de um influenciador.

“Umas das principais exigências das marcas até agora é a incorporação de postagens com conteúdo da marca da empresa nas suas estratégias de anúncio”, explicou a companhia.

“Com anúncios as empresas terão a oportunidade de falar delas por meio da voz dos criadores, e atingir um novo público e avaliar o impacto”, segundo o comunicado. “Utilizando as ferramentas disponíveis na plataforma de anúncios do Facebook, as empresas podem chegar a público alvo além daquele que acompanha a marca e a conta dos criadores”.

Os anúncios serão similares aos já vistos no feed e nos Stories, mas serão rotulados como “parceria paga”. A medida, segundo a companhia, é uma reposta ao desejo das marcas de focar melhor os usuários e oferecer uma experiência em termos de publicidade mais orgânica.

“Promover o conteúdo diretamente a partir do nome do influenciador oferece mais autenticidade à postagem do que se ela partir do nome da marca, e observamos um envolvimento muito maior adotando esta estratégia”, disse Liat Weingarten, vice-presidente de comunicações de marca da Old Navy.

Evan Asano, diretor executivo da MediaKix, empresa de marketing, disse que as grandes marcas estavam clamando para trabalhar com influenciadores e “não temiam em pagar US$ 500 mil por um spot publicitário com Kim Kardashian, estrela de um Reality show que aperfeiçoou a arte de ganhar dinheiro com a mídia social.

“O marketing do influenciador está explodindo e o Istagram quer um pedaço desse bolo”, disse Asano.

De acordo com o Instagram,  68% dos seus usuários regulares usam a plataforma para interagir com os  “criadores”. O Instagram tem cerca de um bilhão de usuários ativos por mês, segundo porta-voz da companhia.

Recentemente outras plataformas de mídia social também foram inundadas de anúncios. No mês passado, o Twitter disse ter testado a frequência dos anúncios. Como resultado, a timeline dos usuários estava repleta de anúncios inúteis e pelo menos uma campanha nociva, segundo o BuzzFeed News.

Apesar de as receitas do Instagram serem geradas em grande parte pelos anúncios, a empresa pretende criar novas fontes de ganhos e recentemente lançou uma ferramenta que permite aos usuários comprarem produtos sem deixar o aplicativo.

A maior parte dos anúncios no Instagram é de “marcas menores que você nunca ouviu falar” e que vendem coisas como pufes ou camisetas genéricas, disse Asano. “É possível que a mudança seja um sinal de que o Instagram não está lucrando com os anúncios da maneira que o Facebook deseja”. / Tradução de Terezinha Martino

‘Tinder do Facebook’ chega ao Brasil; entenda como funciona o serviço de paquera

Dating permite paquera separadamente do perfil principal na rede social; rede social planeja integração com Instagram
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Visual do Dating: no topo uma aba com o perfil, interesses e conversas; matches em grupos e eventos ficam abaixo

Apresentado no ano passado, o Facebook Dating, o serviço de paquera da rede social, começa a funcionar nesta terça, 30, no Brasil e em outros 13 países (Peru, Chile, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai, Guiana, Suriname, Filipinas, Vietnã, Singapura, Malásia e Laos). Nos EUA, o serviço chega nos próximos meses. O lançamento acontece na F8, a feira de desenvolvedores do Facebook – onde, no ano passado, o Facebook revelou o lançamento do Dating. 

O serviço, que chega para competir com o Tinder, já está disponível dentro do Facebook e é gratuito. Ao contrário do rival, a plataforma será uma aba dentro da rede social, e não um app em separado. A companhia, porém, diz que nas primeiras semanas estará apenas recebendo informações dos usuários, até que comece a sugerir candidatos a um relacionamento. 

Veja como o Facebook Dating funciona abaixo. 

Como participar

Oficialmente, o serviço é separado da rede social, mas para participar é preciso ter um perfil no site. O Dating funcionará dentro do serviço principal do Facebook, tanto na versão web quanto na versão para celulares. Serão permitidos apenas maiores de idade no serviço. 

Por padrão, o usuário terá que criar um novo perfil e não poderá importar automaticamente informações do perfil principal no Facebook – o Dating puxará apenas nome, sobrenome e idades dos participantes. Essas informações não poderão ser alteradas.

Porém, a empresa está implementando uma nova ferramenta, já ativa na Argentina, que sugere informações para serem importadas, como fotos. Nesse caso, serão sugeridas até quatro fotos, incluindo uma foto do perfil do Facebook e fotos destacadas (se disponíveis), bem como a biografia, cidade natal, educação e profissão. Segundo a empresa, isso foi um pedido dos usuários. 

Para criar um perfil , o usuário deverá baixar a versão mais recente do app do Facebook. No menu “Mais”, o usuário encontra o símbolo de coração. No cadastro, o usuário também informará o seu gênero e quais pessoas tem interesse em ver. 

Quem você pode paquerar

Por padrão, o serviço nunca sugere paqueras entre amigos. Os usuários também poderão configurar o serviço para que não sugira amigos de amigos. Ao Estado, Charmaine Hung, gerente de produtos no Facebook,  diz que esse foi um pedido da comunidade LGBTQ+. As sugestões ocorrem baseadas em suas preferências, interesses e atividades no Facebook. 

O Facebook mostrará também quais são os possíveis matches em eventos e grupos do perfil principal no Facebook – continuam excluídos apenas amigos, amigos dos amigos e outras pessoas bloqueadas. Moderadores desses grupos e eventos não poderão interferir na interação entre os participantes. 

Para saber se gosta ou não de uma pessoa, o usuário terá que ir ao perfil da pessoa. Não há a mecânica de deslizar o dedo para esquerda ou para a direita. 

Conversa sem ‘nudes’ 

O serviço não exige que as duas pessoas se curtam antes que possam se comunicar. Se o usuário se interessar por alguém, poderá fazer contato imediatamente com a outra pessoa. Segundo Hung, a ideia é trazer a dinâmica de paquera do mundo real, onde as duas pessoas não precisam aprovar uma conversa antes que ela comece. Porém, esse recurso só funciona uma vez. Se o usuário fez contato e não teve resposta, não poderá enviar mensagens novamente. 

As conversas acontecem num app de mensagens independente do Messenger e de outros produtos do Facebook, como Instagram e WhatsApp. Ele não permite o envio de fotos, vídeos, links e gifs. Só rola texto – a ideia é garantir que usuários não receberão conteúdo indesejado. 

Perto de casa

O usuário será obrigado a compartilhar a sua localização com o serviço assim que criar o perfil. O Facebook diz que faz isso por razões de segurança. Ajuda também a inteligência artificial a fazer sugestões mais precisas. 

Depois disso, o usuário pode manter a localização desligada. No caso do usuário fazer uma viagem e tentar a sorte na cidade de destino, a localização terá que ser ativada para que o serviço faça sugestões corretas. 

Crush Secreto 

Crush Secreto, novo recurso do Dating: tela inicial, lista de crushes e encontro no mensageiro após um match

O Facebook ainda revelou nesta terça-feira um novo recurso para o Dating, o “crush secreto”. É parecido com um recurso que que existia no finado Orkut: o usuário poderá marcar os amigos do Facebook normal como “crush secreto”. Eles nunca saberão que foram marcados, exceto se marcarem também a pessoa. Quando isso acontecer, ambos serão levados para a ferramenta de mensagens. 

O recurso, porém, não é a Festa da Uva e só permitirá que nove pessoas sejam marcados como “crush secreto”.  

Segurança 

Se duas pessoas resolverem se encontrar fisicamente, o Dating terá um recurso para compartilhar em tempo real a localização com os amigos para garantir a segurança. O compartilhamento ocorre no Messenger. Se o usuário não quiser compartilhar a localização com os amigos, poderá revelar o horário e duração do encontro, o que também pode ajudar caso alguma coisa saia do controle.

Outros recursos de segurança permitirão bloquear e denunciar qualquer pessoa. É possível também pausar as sugestões de encontros, caso o usuário mude o status de relacionamento, ou sair completamente do serviço. 

Tela do Facebook Dating, novo serviço de namoro da empresa 

Privacidade?

A reputação do Facebook não transmite muita confiança no que diz respeito a cuidar de dados dos usuários. A empresa, porém, garante que nenhuma das informações será compartilhada com a plataforma oficial da empresa. Ao Estado, Hung afirmou que nenhuma das informações do Dating serão usadas para a criação de anúncios personalizados. 

Nenhuma atividade realizada no Dating é compartilhada com os amigos no feed de notícias ou com os amigos do Facebook. 

Instagram é o futuro

A reportagem apurou que o Facebook planeja integrar o Instagram ao Dating, mas os detalhes ainda são incertos. 

Europa fora

Ao Estado, Hung disse que nenhum País da Europa está incluso no lançamento por questões relacionadas ao GDPR, a lei de proteção de dados da Europa. Ela diz também que o Facebook ainda não uma meta sobre número de usuários que planeja atingir. 

Rede social Pinterest estreia na bolsa com alta de 28%

Bons resultados da empresa em abertura de capital mostram apetite do mercado por startups de tecnologia; serviço de chamadas de vídeo Zoom também chegou à bolsa
Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Pinterest: avaliação de US$ 16 bi na bolsa

As ações da rede social de compartilhamento de fotos Pinterest subiram 28,5% ontem, na estreia da empresa na bolsa de valores de Nova York. Cotados no começo do dia a US$ 19, os papeis da startup encerraram o pregão vendidos a US$ 24,40 – a valorização fez a empresa ser avaliada em US$ 16 bilhões. Além disso, o serviço de chamadas de vídeo Zoom também abriu seu capital, em valorização de 72% (leia mais no box).

Os bons números das duas ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) mostram o apetite de Wall Street por aberturas de capital de tecnologia em 2019. “Quando se vê uma alta expressiva assim, há um indicador claro que a empresa gera interesse no mercado logo no início”, disse Chris Larkin, vice-presidente da consultoria E*Trade Financial Corp, à agência de notícias Reuters. 

No caso do Pinterest, a expectativa é de que a empresa – a primeira rede social a abrir capital desde o Snapchat, em 2017 – seja capaz de ter uma investida a longo prazo no mercado, dada sua capacidade de crescer em receita e em número de usuários. “Há muitas empresas que se atrapalham ao focar no curto prazo e nas notícias que saem na imprensa, mas estamos focados em construir a melhor versão possível do Pinterest nos próximos anos”, disse Todd Morgenfield, diretor financeiro da empresa, em nota. 

No final de março, o Pinterest tinha 291 milhões de contas ativas – alta de 22% contra o mesmo período do ano anterior. Fundada em 2010 por Ben Sillberman, Evan Sharp e Paul Sciarra, a empresa permite que usuários procurem por imagens de tópicos como decoração, moda ou viagens – com os resultados, chamados de pins (alfinetes) é possível criar “paineis de inspiração”. Para faturar, o Pinterest permite que anunciantes sugiram “alfinetes” para os usuários com seus produtos. 

Além de Pinterest e Zoom, o maior rival do Uber nos EUA, o Lyft, também entrou na bolsa em 2019, embora tenha apresentado resultados decepcionantes até aqui, com as ações operando 20% abaixo do preço do IPO. Até o final do ano, ainda há a expectativa da chegada do Uber, do aplicativo de comunicação corporativa Slack e também do Airbnb, outro representante da economia compartilhada. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Solidão em rede: nunca estivemos tão conectados, nem tão solitários

Para os nascidos a partir dos anos 80, o celular é o principal meio de interação com o mundo – e com os outros. Por isso, os millennials saem menos de casa, namoram menos, casam menos, engravidam menos e morrem menos em decorrência da violência urbana do que jovens de outras décadas. O resultado emocional desta nova equação social é também uma geração muito mais sozinha, mas não necessariamente deprimida

Solidão em rede (Foto: Ilustração Carolina Teixeira (ITZÁ))

Robinson Crusoé, o náufrago mais famoso da ficção literária, foi obrigado a ficar sozinho em uma ilha por 28 anos. Primeiro, ficou assustado, depois deprimido, até encontrar as benesses advindas do isolamento total. O personagem de Daniel Defoe é citado pela escritora inglesa Sara Maitland, autora do livro Como ficar sozinho (Objetiva, 192 págs., R$ 32,90), publicado no Brasil pelo selo The School of Life. Há uma certa identificação entre os dois: Sara, que agora tem 69 anos, também está há mais de duas décadas em estado de isolação, morando em uma das regiões com menor densidade demográfica da Europa, na Escócia – ali, o mercado mais próximo é a 15 quilômetros de distância. Inicialmente, a decisão ocorreu por conta do término de seu casamento. Mas, depois de um tempo, acabou virando fonte de prazer – tal qual Robinson Crusoé.

Em entrevista a Marie Claire, ela conta: “Robinson Crusoé foi colocado nessa situação contra sua vontade. Porém, se estar sozinho é uma escolha de vida, as coisas ficam mais fáceis e divertidas. Acredito que deveríamos ensinar às crianças os prazeres de se estar sozinho. Por exemplo: não colocá-las para ficarem reclusas no castigo. A solidão deveria ser uma recompensa. Você se comportou bem, agora pode ter algumas horas por conta própria”. Depois de sua intensa experiência com a própria companhia e nenhuma mais, Sara não tem dúvidas: “É possível estar sozinho, mas não solitário, porque a pessoa simplesmente gosta de estar assim”. “Vivemos em uma sociedade que diz que quem está sozinho é, de alguma forma, alguém que falhou como humano”, continua ela, que entrega: se por acaso sente a solidão, marca um Skype com um dos netos.

“Bons encontros podem acontecer a partir da internet”, acredita a psicanalista Bianca Dias. “Mas pode sim aumentar a solidão quando os encontros não se efetivam na presença do corpo.” Esse diagnóstico encontra eco na experiência da jornalista gaúcha Stefanie Cirne, 26. “Desde a pré-adolescência, muitos dos meus contatos mais próximos eram virtuais, que eu conhecia em fóruns temáticos de discussão. Achava mais fácil encontrar pessoas com quem me identificasse do que na escola, onde tinha afinidade com poucos. A distância pode trazer facilidades valiosas. Existem questões íntimas que só contei para amigas que fiz on-line, justamente porque estão removidas do meu círculo imediato, e eu sentia que assim meu segredo estava seguro, ou o meu desabafo seria ouvido com mais objetividade.”

Stefanie percebeu os desgostos das relações majoritariamente virtuais em uma comemoração. “Há uns quatro anos, tentei planejar a festa da formatura da faculdade e percebi que quase não teria quem convidar, porque alguns dos meus amigos mais queridos moravam em outros estados ou até mesmo países.” Não houve festa, mas pelo menos a experiência serviu como aprendizado: “Hoje espero coisas diferentes de cada amizade. Sei que o colo de uma amiga que mora em outro estado não é igual ao de uma que mora a minutos de mim, e que preciso equilibrar as relações on e off para não me sentir solitária”.

Stefanie faz parte da ala mais jovem da geração dos millennials, indivíduos nascidos entre 1979 e 1995. Mas a relação entre celular e vida cotidiana fica ainda mais acentuada entre aqueles que nasceram após esse período – afinal, já eram adolescentes na época do lançamento do iPhone. As gerações mais jovens bebem menos, transam menos, engravidam menos, dirigem menos e ficam mais tempo no celular. Por outro lado, morrem menos por mortes violentas – um reflexo da diminuição dos encontros presenciais. O Brasil, por exemplo, teve, nos primeiros nove meses de 2018, uma redução de 12,4% no número de mortes violentas com relação ao mesmo período de 2017 – o dado é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Chamo a geração pós-millennial de iGen. São jovens que estão 100% moldados pelo uso do celular. Eles ficam até mais tarde na casa dos pais, saem muito pouco para encontrar os amigos na rua, mas nem por isso melhoraram a relação com a família. Continuam distantes, solitários, cada um com seu celular e seu mundo particular”, explica Jean Twenge, psicóloga especialista em diferenças geracionais, autora do livro iGen (Martins Fontes, 368 págs., R$ 52). “Normalmente, um fator não é o suficiente para definir uma geração. Mas as mídias sociais e o aumento do uso de celulares causaram um terremoto de uma magnitude há muito tempo não vista”, continua ela, em um artigo para a revista norte-americana The Atlantic.

Existe uma razão concreta e pragmática para isso: a crise econômica que se estende no mundo desde 2008. Sair, beber, ir a festas – e assim conhecer pessoas ao vivo e a cores – custa dinheiro. Acaba sendo mais barato que a interação ocorra num quarto vazio através do celular. Acontece que a solidão tem consequências físicas: elevam-se os níveis de cortisol – o hormônio do estresse –, a resistência à circulação de sangue aumenta e certos aspectos da imunidade diminuem. Esse modus operandi também tem relação com os índices de depressão e suicídio. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão é a doença que mais cresce no mundo. São 322 milhões de pessoas, representando 4,4% da população mundial, acometidas por ela. Até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Só no Brasil, 75 mil pessoas foram afastadas do trabalho por esse motivo em 2016.

Uma análise feita na Universidade de Chicago – de 70 estudos combinados, com mais de 3 milhões de participantes – vai além e demonstra que a solidão aumenta o risco de morte em 26%, quase o mesmo que a obesidade. O fato de que mais de uma em cada quatro pessoas em países industrializados pode estar vivendo em plena solidão deveria, sim, nos preocupar.

#nofilter

O Instagram é a rede social da inveja, dizem. Ali, todos parecem estar em viagens idílicas, em festas inesquecíveis e em uma vida familiar harmônica. Até mesmo o emprego, outrora um aspecto que era permitido odiar sem culpa, ganha a hashtag #ilovemyjob. Um estudo publicado pela Universidade da Pensilvânia relacionou o uso das redes sociais (Instagram, Facebook e Snapchat) com uma maior capacidade de desenvolver ansiedade, depressão e solidão. G*., 32, entendeu recentemente que sofre do terceiro. Era 2012 quando ela saiu da casa dos pais para morar sozinha em São Paulo, onde desde então ganha a vida como programadora freelancer. O máximo de tempo em que ficou sem sair do apartamento em que vive na tumultuada rua da Consolação foi onze dias. Onze dias seguidos sem colocar os pés na rua. G. diz que estar por tanto tempo fisicamente sozinha não lhe parecia uma questão até dias atrás, quando se deu conta de que não tinha com quem dividir uma “grande conquista”, a compra, “à vista”, do primeiro apartamento.

“Não ligaria para os meus pais para contar, não sem antes ter a documentação nas mãos. Mas me deu vontade de dar a notícia para um amigo e percebi que não poderia fazer isso com nenhum deles. Não porque não são amigos em que confio, mas porque não mantenho contato frequente com eles. Me pareceu estranho telefonar para eles, do nada. Diria o quê? Comprei um apartamento e desculpa pelo sumiço de seis meses?” G., que pediu anonimato para essa entrevista, não tem Facebook ou Instagram. Sua única conta em uma rede social é no Twitter. E é através da plataforma que se relaciona com outras pessoas e até conhece novas. “No Twitter, só interajo quando desejo e não sofro com as postagens dos outros. É um bom filtro para quem quer aparecer só de vez em quando”, afirma.

Solidão em rede (Foto: Ilustração Carolina Teixeira (ITZÁ))

É possível ser feliz sozinho

“Não acredito que a solidão tenha aumentado com as redes sociais, e sim diminuído. E isso é um problema”, opina a filósofa brasileira Viviane Mosé. “As pessoas estão o tempo inteiro convivendo com os outros através da internet. E, por isso, deviam ficar mais desconectadas, para conviver consigo mesmas e assim conseguirem filtrar seus desejos e avaliar seus afetos.” Portanto, é importante entender: do que falamos quando falamos sobre solidão? “Solitude é a descrição de um fato: você está consigo mesmo. Solidão é a resposta emocional negativa a isso”, define Sara Maitland numa entrevista ao jornal inglês The Guardian. “Mas há um problema cultural sério em relação à solitude. Ser sozinho em nossa sociedade suscita uma questão sobre identidade e bem-estar. É como se fosse um infortúnio. Não precisa ser assim. Estar só pode nutrir trabalhos artísticos. É algo que permite o desenvolvimento de gostos pessoais, da originalidade, da gestão do tempo e da independência do pensamento. Dormir sozinho melhora a qualidade do sono. Mas a maior surpresa é a descoberta de que sozinho você é, de fato, uma pessoa interessante, com recursos inesperados”, defende Sara.

No fim, talvez seja bom prestar atenção no que escreve Carlos Drummond de Andrade: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
MARIA CLARA DRUMMOND

Influencers portugueses são duramente criticados por se arriscar atrás da ‘foto perfeita’

Raquel e Miguel se arriscam durante viagem ao Sri Lanka Foto: Reprodução/Instagram(@exploressaurus_)

O casal de influencers portugueses Miguel e Raquel, conhecidos no Instagram pela conta @exploressaurus_, está sendo duramente criticado por se arriscar do lado de fora de um trem em movimento para obter a “foto perfeita” para as redes sociais.

O clique foi feito quando o casal estava viajando pelo Sri Lanka:

Raquel e Miguel se arriscam durante viagem ao Sri Lanka Foto: Reprodução/Instagram(@exploressaurus_)

Miguel e Raquel documentam para 207 mil seguidores suas viagens pelo mundo. Seus destinos vão da “tradicional” Paris ao “exótico” Sri Lanka.

“Vocês arriscaram a vida por causa de uma foto? Apenas para postar uma imagem em rede social? Ou fizeram isso porque excita?”, criticou um seguidor.

“Nunca promoveria uma foto como essa já que há pessoas estúpidas o bastante para se sentirem encorajadas a recriá-la”, protestou outra pessoa na rede.

Após as críticas, a dupla se defendeu, afirmando que “o trem estava bem devagar”.

Mas o registro na linha férrea não foi o único momento arriscado da viagem pelo Sri Lanka. Quando visitava o Parque de Udawalawe, Raquel também foi clicada com o corpo para fora de um veículo, ao passar por um grupo de elefantes:

Raquel do lado de fora de veículo em parque selvagem Foto: Reprodução/Instagram(@exploressaurus_)

Como o botão Curtir mudou a internet nos últimos dez anos

Fazendo aniversário, função que nasceu no Facebook fez usuários buscarem protagonismo na web e e criou um bilionário modelo de negócios
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Na sede do Facebook, em Menlo Park (EUA), turistas fazem fila para tirar fotos com o símbolo da rede

No princípio, as redes sociais eram o verbo. Sentimentos, desejos e teorias eram expressados – e respondidos – por texto. A natureza da internet passou a ser diferente quando, no dia 9 de fevereiro de 2009, o Facebook propôs uma singela questão aos seus membros: “Curtiu?”. Da maneira como as pessoas interagem (e as consequências psicológicas disso) aos modelos de negócios dos serviços mais populares da web: nada mais foi como antes, depois do “primeiro like”.

É curioso pensar que o Curtir demorou a existir. Criado em 2007 pela ilustradora Leah Pearlman, gerente de produto do Facebook na época, o recurso passou dois anos “na geladeira”. Mark Zuckerberg, fundador da rede social, não gostava muito dele, mas foi vencido pelo entusiasmo dos funcionários da empresa. “É uma forma rápida de dizer aos seus amigos que você curte o que eles estão postando”, dizia o texto que apresentava a função, escrito por Pearlman. “Isso deixa espaço nos comentários para elogios mais longos.”

Era algo novo: Orkut, MySpace e outros serviços da época eram organizados em textos e comunidades, bem como inúmeros fóruns que reuniam aficionados por qualquer tema – de PCs a cinema, algo que soa muito nerd hoje em dia. Os elementos visuais eram mais rudimentares. As pessoas já usavam emojis para se expressar em e-mails, por exemplo, mas eles serviam mais como complemento ao texto. 

O botão curtir permitia uma reação rápida – e até um pouco desinteressada – a qualquer coisa. Não à toa, ele teve sucesso imediato. “Em pouco tempo, publicações que tinham 50 comentários acabavam tendo 150 curtidas”, disse Pearlman, em entrevista à revista Vice, em 2017. 

Era o que o Facebook precisava: três meses após lançar o Curtir, a rede superou seu maior rival nos EUA, o MySpace. Mais que isso, ditou moda: em 2010, o YouTube trocou as estrelas de seu sistema de avaliação de vídeos por um polegar positivo. O Twitter fez testes até 2015, quando estabeleceu o coração como símbolo para “curtir” um tuíte. Instagram, LinkedIn e Tinder também incorporaram o recurso. “Hoje, é difícil imaginar uma rede social sem curtidas”, diz Luís Peres-Neto, professor da ESPM. 

Egotrip. “Com o curtir, as pessoas passaram a fazer mais publicações”, afirmou Pearlman à Vice. De participantes de uma rede, as pessoas agora se consideram protagonistas dela. “Há uma supervalorização da validação do próximo, do olhar de outras pessoas sobre tudo que o usuário faz”, diz Alexandre Inagaki, consultor em redes sociais. 

É algo que tem gerado impactos na saúde mental: estudo feito pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) em 2017 mostrou que receber uma curtida ativa áreas do cérebro que respondem quando se recebe algo bom – como comer chocolate em um dia difícil.

Outras pesquisas já ligaram sintomas de depressão, ansiedade, solidão, baixa autoestima e tendências suicidas ao uso de redes sociais. “Tem gente com autoestima baixa que posta selfies todo dia, esperando reações. Quando não se recebe muitas curtidas, a tendência é ficar mais triste”, diz a psicóloga Anna Lucia King, do Instituto Delete, ligado à UFRJ. 

Manada. No mesmo estudo, pesquisadores da UCLA mostraram que o Curtir ajuda a gerar comportamentos de manada – se uma foto já ganhou muitos likes, é provável que mais pessoas devam se manifestar sobre ela. Por outro lado, os algoritmos das redes sociais consideram o número de curtidas para determinar o que será exibido a um usuário. Se ele curte sempre as mesmas coisas – e quem produz conteúdo busca temas populares para ganhar curtidas – o processo de criação de uma bolha está formado. Unidos, o “efeito manada” e o reforço do algoritmo geram uma reação em cadeia. 

As curtidas permitiram ainda uma forma eficiente para o funcionamento desses algoritmos. Na época, sistemas de reconhecimento de texto por inteligências artificiais eram bem mais rudimentares – até hoje, eles não entendem ironia. Há ainda a complexidade de diferentes idiomas. O Curtir, para o algoritmo, virou um tradutor universal: todos falam a mesma língua, com dois signos – “gostei” ou “não gostei”.

De quebra, as redes sociais passaram a identificar os gostos das pessoas, num prato cheio para a publicidade. É um ingrediente importante para o Facebook ter sobrevivido e gerado receita de US$ 16 bilhões em seu último trimestre fiscal; uma realidade muito diferente do Google com o Orkut, que nunca conseguiu faturar. Trocar curtidas por dinheiro virou um modelo comercial imperativo.

É nas curtidas, também, que surgem algumas das principais mazelas da internet atual – de “fazendas” com milhares de smartphones curtindo posts 24 horas por dia, inflando números de audiência por centenas de dólares, à interferência em eleições e fome por dados de usuários. A Cambridge Analytica, firma de marketing político que usou indevidamente dados de 87 milhões de perfis do Facebook, começou analisando justamente as curtidas. Com 150 publicações, os pesquisadores diziam saber mais sobre alguém do que seus pais ou irmãos. 

É algo que causou danos ao Facebook – fazendo a empresa rever políticas, perder dinheiro e colocando-a sob escrutínio global. Talvez, em breve, esse modelo já não seja mais tão curtido. / COLABOROU GIOVANNA WOLF