Spotify chega a 144 milhões de assinantes, mas registra prejuízo

A empresa encerrou o terceiro trimestre com um prejuízo de € 101 milhões
Por Agências – Reuters

O Spotify tem se expandido rapidamente pela Europa e pela Rússia, após o lançamento na Índia e no Oriente Médio no ano passado


O serviço de streaming de música Spotify registrou um aumento de 27% no número de assinantes no terceiro trimestre, chegando a 144 milhões —  crescimento impulsionado principalmente pela chegada do aplicativo em novos mercados como a Rússia. Porém, de acordo com o relatório financeiro divulgado nesta quinta-feira, 29, a empresa encerrou o período com um prejuízo de € 101 milhões, frente ao lucro de € 241 milhões registrado no ano passado. Após os resultados, as ações do Spotify operavam em queda de cerca de 9% às 11h20 (horário de Brasília). 

Ao todo, os usuários ativos mensais da plataforma de música cresceram 29%, para 320 milhões. Com mais que o dobro do número de assinantes do Apple Music, seu rival mais próximo, o Spotify tem se expandido rapidamente pela Europa e pela Rússia, após o lançamento na Índia e no Oriente Médio no ano passado.

“Definitivamente buscamos acelerar o lançamento em muitos outros mercados com mais rapidez, com base em todo o sucesso que tivemos tanto na Rússia quanto na Índia”, disse Daniel Ek, presidente executivo do Spotify, à agência de notícias Reuters.

O Spotify afirma também que aumentou no terceiro trimestre a quantidade de horas de músicas reproduzidas na plataforma, ultrapassando os níveis pré-pandemia, à medida que os usuários passaram a ouvir mais músicas e podcasts. O app tem agora 1,9 milhão de podcasts, uma alta em relação ao número de 1,5 milhão registrado no segundo trimestre.

A receita do Spotify no terceiro trimestre aumentou 14%, para € 1,98 bilhão de euros, mas ficou abaixo da expectativa de analistas, que esperavam € 2 bilhões.

Segundo o Spotify, sua divisão de publicidade voltou a crescer depois de ser impactado no início da pandemia — a receita da empresa é proveniente principalmente de assinaturas e da exibição de anúncios para usuários não pagantes. Executivos disseram que o crescimento dos anúncios irá acelerar no quarto trimestre.

Gordofobia: Instagram muda regras sobre exibição de seios após protesto

Imagens em que mulheres gordas apareciam cobrindo os seios eram derrubadas pela rede, mas mesma cena com magras era mantida; influenciadora iniciou campanha e protocolo será alterado a partir desta quarta
Constança Tatsch

A influenciadora digital do Reino Unido, Nyome Nicholas-Williams Foto: Reprodução Instagram

O Instagram vai mudar a partir dessa quarta-feira (28) sua política sobre exibição parcial de seios depois que uma influenciadora digital plus size do Reino Unido iniciou uma campanha dizendo que suas fotos eram derrubadas, enquanto o mesmo não ocorria com imagens semelhantes de mulheres magras.

Em julho, a modelo Nyome Nicholas-Williams postou uma foto sua, feita pela fotógrafa Alexandra Cameron, em que aparecia segurando e cobrindo parcialmente os seios, numa pose comum em fotos artísticas femininas. Mas a imagem foi removida pela rede social pois iria contra suas regras de nudez e pornografia.  

“Milhões de fotos de mulheres brancas e magras nuas podem ser encontradas no Instagram todos os dias, mas uma negra gorda celebrando seu corpo está proibida? Foi chocante para mim. Eu sinto que estou sendo silenciada”, reagiu Williams.  

Foi o início da campanha #iwanttoseenyome, que acabou levando a rede a rever as políticas. Um abaixo assinado on-line chamado “Instagram pare de censurar mulheres negras gordas” reuniu mais de 22 mil assinaturas. Nesta segunda-feira (26), a decisão está sendo celebrada por pessoas plus size e de movimentos body positive (que buscam aceitação de corpos considerados fora do padrão). 

“No dia 28 de outubro vai haver uma mudança nas políticas oficiais que deve ajudar diretamente para que imagens de mulheres plus size deixem de ser removidas por serem consideradas inapropriadas ou de conteúdo sexual”, afirmou a fotógrafa Cameron em sua conta. “Tem sido maravilhoso ver as fotos que eu fiz serem reintegradas, imagens das quais tenho tanto orgulho e que representam um grupo de pessoas que frequentemente é silenciado ou censurado.”

O Instagram afirma que o caso da influenciadora realmente serviu como incentivo para revisão de suas políticas sobre imagens que mostrem, ainda que parcialmente, os seios. O problema estava em diferenciar imagens em que os seios eram cobertos ou segurados pelas mãos de ações como apertar ou puxar, relacionadas à pornografia. 

Agora, a orientação para avaliação de conteúdo, tanto da tecnologia quanto para a revisão humana, é manter fotos em que a mulher esteja abraçando, segurando, acariciando ou cobrindo os seios. Para estabelecer o limite, por exemplo, os dedos das mãos não devem estar dobrados (o que relacionaria ao ato de agarrar). Quando houver dúvida, o conteúdo deve ser mantido.

“O Instagram está atualizando as políticas para evitar que imagens de corpos gordos e maiores sejam removidas erroneamente, com a ajuda de diversos especialistas e criadores da comunidade de Body Positive ao redor do mundo. Imagens ou vídeos de seios sendo apertados não são permitidos no Instagram, pois isso costuma ser comumente associado a conteúdo pornográfico. Sabemos, no entanto, que a aplicação desta política específica pode levar a erros, especialmente com relação à comunidade de Body Positive e corpos gordos e maiores”, afirmou a rede.

O Instagram nega que a questão seja racial. Segundo a comunicação, o problema estava apenas relacionado a mulheres plus size, em que apareceria mais pele na imagem. 

Novo design do Uber Eats busca otimizar experiência do usuário

Entre as novidades, será possível fazer pedido em vários restaurantes ao mesmo tempo e ver o que pessoas próximas a você estão pedindo
Por Soraia Alves

Uber Eats anunciou uma reformulação do app e do site ubereats.com. As mudanças, que começam a ficar disponíveis para os usuários ainda em outubro, foram desenvolvidas para ajudar as pessoas a encontrarem o que procuram de uma forma mais rápida e para facilitar a imersão em novas experiências e categorias.

“Procuramos sempre tornar a experiência de encontrar refeições mais conveniente e agradável. Passamos muito tempo conversando com nossos usuários, portanto, sabemos que embora seja conveniente e satisfatório fazer um pedido e rastreá-lo, encontrar a melhor opção de comida é demorado e, às vezes, difícil. Foi por isso que redesenhamos o app do Uber Eats e o site: para ajudá-lo a encontrar exatamente o que procura – mais rápido”, explica Daniel Danker, Head de Produto do Uber Eats.

Nas próximas semanas, navegar pelo app Uber Eats será diferente, proporcionando uma nova experiência ao usuário. Entre as novidades, destacam-se:

• Atalhos visuais – Com os novos ícones das suas cozinhas e categorias favoritas (chamados de atalhos), será possível encontrar rapidamente sua comida preferida e – onde estiver disponível – mercados e outros comércios locais, como floriculturas, açougues, pet shops e mais.

• “Para retirar” – Para quem prefere ir buscar a comida diretamente no estabelecimento, o novo mapa de navegação contém mais informações e indicações visuais sobre restaurantes próximos que oferecem esta opção, bem como outras lojas interessantes e ofertas locais.

• Personalização sofisticada – Restaurantes sob medida com recomendações mais calibradas, de acordo com as preferências dos usuários que costumam fazer pedidos no Uber Eats, para que eles possam repetir seus favoritos ou descobrir novas “joias gastronômicas” escondidas na vizinhança. Dessa forma, o consumidor passa menos tempo escolhendo.

• Praticidade de pedir em vários restaurantes ao mesmo tempo – Agora, o usuário do Uber Eats poderá fazer um único pedido feito em diferentes restaurantes.

• Inspiração a um clique – O usuário também poderá ver o que outras pessoas ao seu redor estão pedindo. A ideia é que os pedidos de outros consumidores se tornem opções para o consumidor experimentar novos pratos e restaurantes.

Instagram atualiza Reels para deixá-lo ainda mais parecido com o TikTok

Jéssica Nakamura

Instagram atualizou Reels para deixá-lo mais parecido com o TikTok

O Instagram anunciou nesta quarta (23) algumas atualizações no Reels, ferramenta que permite gravar e editar vídeos curtos com áudio, efeitos e outros recursos criativos. A partir de agora, é possível gravar vídeos de até 30 segundos –até então, o tempo máximo era de 15 segundos. Além disso, o temporizador, que antes permitia contagens regressivas de apenas três segundos até a gravação, agora também tem a opção de 10 segundos. Para completar, a rede social também passou a possibilitar ao usuário cortar e excluir qualquer trecho do vídeo, tornando o processo de edição mais fácil.

Embora o argumento da empresa seja de que as mudanças foram feitas atendendo a pedidos de sua comunidade, as novidades deixam o Reels ainda mais parecido com o TikTok, aplicativo chinês do qual é considerado um clone. Lançada oficialmente em agosto deste ano, a ferramenta do Instagram é uma investida clara de Mark Zuckerberg na tentativa de frear o avanço do aplicativo chinês, cuja presença nos Estados Unidos tentou barrar aliando-se ao presidente Donald Trump.

Não é a primeira vez que Zuckerberg copia descaradamente um concorrente com o objetivo de neutralizá-lo. O Instagram Stories, recurso que imita o Snapchat, foi lançado após os criadores do aplicativo de vídeos que desaparecem em 24 horas recusarem uma tentativa de compra do fundador do Facebook. As ações da Snap, empresa que controla o aplicativo, chegaram a cair após o anúncio do crescimento dos Stories. O próprio Instagram foi comprado em 2012 pela empresa de Zuckerberg, que também adquiriu em 2014 o WhatsApp –o qual, por sinal, acaba de lançar um recurso que é uma cópia do Telegram e do Snapchat.

São tantas as investidas que a Comissão Federal do Comércio (FTC) dos Estados Unidos chegou a abrir uma investigação para determinar se o gigante das mídias sociais conduziu uma campanha para tomar o controle de potenciais rivais antes que pudessem se tornar uma ameaça.

Mas, mesmo com as atualizações recém-anunciadas, o Instagram Reels ainda está longe de alcançar o TikTok. Além de aceitar vídeos de até um minuto –o dobro do tempo total agora permitido pelo Instagram–, o aplicativo chinês também conta com um algoritmo movido a inteligência artificial para recomendar conteúdo customizado aos usuários sem que eles precisem seguir seus criadores.

Resta aguardar os próximos capítulos dessa batalha de redes sociais.

Twitter é acusado de racismo por priorizar fotos de pessoas brancas

No último final de semana, milhares de usuários foram ao Twitter criticar o algoritmo que privilegia rostos brancos na hora de cortar as fotos para exibição; empresa informou que vai investigar o caso

Dantley Davis, chefe de Design do Twitter, admitiu que a culpa é do algoritmo e que a empresa vai trabalhar para melhorar a ferramenta

Twitter anunciou neste domingo, 20, que vai investigar o algoritmo que é usado para exibir prévias de fotos publicadas na rede social. Nos últimos dias, usuários têm pedido explicações para o Twitter, após perceberem que as imagens exibidas na rede social são frequentemente recortadas em favor de pessoas brancas. 

Os testes feitos pelos usuários, que ganharam as redes sociais no último final de semana, geralmente traziam pessoas brancas e negras, em um formato de foto que obrigasse o algoritmo do Twitter a recortar para exibir uma prévia em cada publicação. A primeira tentativa foi feita com uma imagem que possuía uma foto do senador republicano Mitch McConnell e outra do ex-presidente dos EUA, Barack Obama – com direito a uma variação de posição, cores de gravata e quantidade de imagens. 

Na maioria das tentativas, as imagens mostradas eram sempre de pessoas brancas, mesmo que elas fossem minoria na imagem original. Os testes também tentaram inverter a posição das imagens ou colocar mais fotos de pessoas negras junto a uma unica foto de uma pessoa branca, mas na prévia o resultado seguia mostrando apenas as pessoas brancas. 

Pela rede social, Dantley Davis, diretor de design do Twitter, admitiu que a culpa é do algoritmo e que a empresa vai trabalhar para melhorar a ferramenta. Em seu blog, o Twitter explica que os recortes de imagens não são feitos somente pelo reconhecimento facial, mas por uma série de outros fatores, como profundidade da imagem. 

A empresa também veio a público em sua conta na rede social para se pronunciar sobre o tema. 

Opinião: ‘A lição que aprendi com o meu “crush” do Instagram’

‘Meu romance unilateral com Tae Ho, nem correspondido nem percebido, combinava com meu relacionamento com a Coreia do Sul’
Jared Wood, The New York Times – Life/Style

Brian Rea The New York Times

Alguma coisa boa pode resultar da obsessão por um fisiculturista sul-coreano na rede social? Foram necessários duas horas e três ônibus para chegar à sua academia. Eu trabalhava em turnos intercalados numa escola de língua inglesa em Seul, o que me permitia um espaço de cinco horas para descansar ou então ir até a academia dele, mas que, devido ao longo trajeto, mal daria tempo para transpirar um pouco. Mas de qualquer maneira, fui até lá.

Descobri Tae Ho no Instagram durante meu primeiro ano como professor na Coreia do Sul. Acho que fiquei gostando das muitas imagens de fisiculturistas coreanos e o universo da rede social me deu mais incentivo. Nunca curti as fotos de Tae Ho, temendo que seria bloqueado por causa da minha sede de saber a seu respeito. Eu ficava em busca de pistas sobre a vida dele, onde costumava comer, com quem estava saindo.

Não demorou para descobrir que ele não tinha uma namorada, não era solteiro e não era gay; havia se casado, o que me deixou um pouco frustrado ao saber, mas não tinha nenhuma noção realista sobre ele – ou mesmo sobre qualquer relacionamento com uma pessoa em minha estadia no exterior.

Sendo um afro-americano na Coreia, não podia me permitir oportunidades de ter algum romance. Na época, estava dando aula numa cidade à beira-mar muitas horas distante, contente com minha rotina e anonimato. Não me sentia só, mas comecei a ficar nervoso com a minha vida ali, onde era muito visível e bastante isolado.

Precisava de uma mudança antes de me tornar um dos expatriados grisalhos sempre lamentando não ter ninguém com quem manter um relacionamento sexual. Com meu contrato de trabalho chegando ao fim, eu me candidatei a um emprego que descobri ser mais próximo da academia de Tae Ho (mas ainda assim a duas horas de distância). O fato de ser negro na Coreia tem consequências estranhas.

Na academia, o pessoal procurava praticar expressões idiomáticas que ouviam em músicas de rap e eu sorria e respondia usando a gramática certa, já que era professor. Esses estereótipos oferecidos por uma dieta pesada de mídia americana me acompanhavam na minha vida diária. Um belo dia quando estava conversando com alguns treinadores, Tae Ho veio se juntar à nossa discussão sobre como o abdômen de um treinador estava realmente ficando perceptível.

Tae Ho levantou sua camiseta, exibindo sua pele e os músculos empedrados e rejeitei a chance de tocá-lo, temendo ter um desmaio. Minha postura desinteressada não se traduz bem na Coreia. Então criei uma nova persona, que indagava as pessoas aleatoriamente se precisavam de um professor de Inglês. Para minha surpresa, Tae Ho mordeu a isca.

O Kakao Talk (site de mensagens similar ao WhatsApp) se tornou nosso novo meio de comunicação. Em termos de intimidade, era um pouco melhor do que mandar DM no Instagram. Nós começaríamos nossa primeira aula em alguns dias, nos reunindo na sua academia, mas na noite anterior ele me enviou uma mensagem dizendo que seu pai falecera, de maneira que precisamos cancelar o encontro.

Meu pai também havia falecido um ano antes e eu sabia como é triste um filho perder seu pai. Enviei a ele meus pêsames. Mas por dentro fiquei abalado. E se esse fosse o fim? E se, na sua dor, ele acabasse achando ridículo ter aulas de inglês? Três semanas depois ele me mandou uma mensagem: “Estou pronto para minha lição. Podemos nos encontrar neste sábado?”. Fiquei super entusiasmado e respondi: “Claro. Vamos nos encontrar às 12h”.

Encontrei-me com Tae Ho na academia e perguntei o que ele pretendia com as aulas. Enquanto conversávamos eu admirava seus braços, suas mãos, fascinado com o que estava acontecendo. A academia tinha telas de TV mostrando uma recente vitória de Tae Ho numa competição, e ele radiante com seu bíceps brilhante e as pernas torneadas.

Na aula seguinte, ele me apresentou para sua esposa, uma pessoa encantadora, que se vestia apropriadamente, com seus sapatos de salto alto e uma saia curta em pleno inverno. O que me fez admirar ainda mais Tae Ho. Ele tinha um olho perspicaz. Eles estavam de partida para as Filipinas onde passariam as férias e queriam praticar um pouco expressões em inglês. Assim preparei um conjunto de frases comuns com sua pronúncia e o equivalente em coreano.

Talvez isto pudesse resultar num convite para ir à casa deles, a mais alta honra concedida a um estrangeiro. Meu romance, unilateral, com Tae Ho, não teve recíproca e nem foi notad0, igual à minha relação com a Coreia do Sul. Eu comecei encantado com o país, mesmo quando vivia na cidade operária de Pohang.

Quando aprendi o Hangul, alfabeto coreano, e consegui entender os letreiros e ingredientes, meu coração se alegrou. E quando experimentei meu primeiro sogogi bibimpap (um popular prato à base de carne) e o japchae (noodles) quase chorei de prazer. Mas com o conhecimento as coisas ficam mais claras. Os óculos cor de rosa nunca deixaram meu rosto no primeiro ano ali. Mas, aos poucos, era lembrado como eu era.

No metrô, os assentos ao meu lado ficavam vazios. Em cafés normalmente lotados, eu tinha uma mesa inteira à minha disposição. E quando me candidatava a um emprego de professor, era informado de que os pais não queriam um negro para professor de seus filhos. E fissuras também começaram a surgir na minha relação com Tae Ho. Com frequência, ele estava cansado e não parecia muito dedicado às aulas de Inglês.

Estava abrindo sua própria academia e talvez chegara à conclusão de que o inglês era desnecessário. Minhas mensagens de texto não eram respondidas até que, depois de ter decidido focar em outros clientes, ele me enviou um emoji para mostrar que estava pensando em mim. As coisas começaram a estabilizar na primavera e Tae Ho e eu, junto com sua mulher, começamos a nos ver mais, almoçando ou tomando um café no Starbucks.

O tempo em que nos reuníamos se assemelhava à minha vida em Nova York, onde eu podia me queixar e ter todo o apoio dos meus amigos. Minha nova vida na Coreia estava se desgastando e eu ficando mais crítico das disparidades raciais, sexuais e de gênero. Tae Ho e sua mulher balançavam a cabeça e davam suas próprias opiniões sobre esse lado complicado da vida coreana, não ligada ao k-pop, aos dramas coreanos, ou o chamado K-Beauty (o ritual de beleza coreano).

Semanalmente, nós nos reuníamos durante algumas horas, as aulas de inglês se dissolvendo em bate-papos sobre casamentos e expectativas sociais. Ele me pagava bem pelas aulas de inglês. Mas a mistura de línguas criou um novo sentido de intimidade e ele me disse o quanto amava sua mulher. Ele era um homem feliz. E eu estava ficando cada vez mais perto de ser feliz. ‘É difícil ser negro na Coreia”, disse a ele. “E eu nem bebo. E não gosto de pessoas”.

“Sei que a Coreia é difícil”, respondeu. “Mas você tem um bom emprego e amigos. Você ajuda as pessoas”. E quando ele usou o termo “hyeong” (o equivalente a “irmão”) senti minha garganta oprimida e meus olhos embaçaram. Esta palavra foi como um primeiro beijo. Não um beijo, porque não tinha a ver com romantismo, mas teve um sentido de legitimação. Minha atração física inicial por Tae Ho, baseada nada mais do que em postagens na rede social, desapareceu e foi substituída por uma intimidade platônica que era real e absorvente.

Meu sonho de ter uma figura fisicamente perfeita apaixonada por mim parece estúpido e adolescente agora. Naquela época, eu estava nos meus 30 anos e deveria saber mais das coisas. Eu sempre criticava as pessoas que falavam dos perigos de confiar nas redes sociais. Tae Ho nunca se apaixonou por mim. Nem a Coreia.

Mas nasceu uma real amizade, junto com uma educação que deveria ter ocorrido anos antes. Embora não viva mais na Coreia, continuo a seguir Tae Ho no Instagram. De vez em quando batemos papo usando emoticons do KakaoTalk que abrangem todos os sentimentos conhecidos das pessoas. Mas não encontrei nenhum que consiga captar o apreço especial que sinto por ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Medo da opinião alheia, denominado FOPO, invade as redes sociais

Cultura do cancelamento amplifica sintoma, que já havia sido ‘classificado’ na vida real, e postar ou não postar se torna uma questão
Marcia Disitzer

Ambiente reativo provoca medo de postar Foto: Shutterstock

O termo que vem à baila lembra FOMO (sigla em inglês para o “medo de estar perdendo alguma coisa”), síndrome do mundo moderno antes da pandemia, em que todos estavam lindos e felizes em fotos fartamente distribuídas nas redes sociais. Agora outra sigla parecida ganha espaço por detectar um comportamento. Chama-se FOPO (“fear of other people’s opinion” ou medo das opiniões alheias). Foi cunhado pelo psicólogo americano Michael Gervais e se refere a um receio que pode virar uma “obsessão irracional”. O sintoma agora se expande, contagia as redes sociais e o postar ou não postar vira uma das principais questões contemporâneas. E não é para menos: estamos vivendo uma era, potencializada pela pandemia, em que atitudes individuais — como, por exemplo, a festa promovida pela influenciadora Gabriela Pugliesi em plena quarentena — podem ganhar imensa (e negativa) repercussão. O pavor de ser “cancelado” acaba comprometendo o discernimento e até o “correto”, sob a lente do medo, corre o risco de parecer equivocado.

André Carvalhal Foto: Chico Cerchiaro
André Carvalhal Foto: Chico Cerchiaro

O consultor de moda e escritor André Carvalhal vem questionando o assunto. “Vale se perguntar se a pessoa que deixa de fazer uma determinada publicação on-line, por não ter segurança ou para ser socialmente aceita, está, de fato, repensando suas ações no mundo real”, explica. “Por exemplo, tem um monte de gente indo a festas durante a pandemia. Elas não postam o que estão vivendo, como fariam em outros períodos, mas seguem na aglomeração, sem questionamento algum”, dispara Carvalhal. 

Luiza Brasil Foto: Leandro Tumenas
Luiza Brasil Foto: Leandro Tumenas

Segundo o consultor, o FOPO é resultado de tudo que a web intensificou. “Até pouco tempo, o ‘cancelamento’ vinha da imprensa, daqueles que eram chamados de formadores de opinião e faziam a curadoria do que era ou não válido. Hoje, a pirâmide se inverteu”, observa. “E aí entra o medo da opinião dos outros e o consequente receio de expressar a sua, já que todos podem fazer julgamentos a respeito”, continua. Para ele, a novíssima geração já emergiu sob esses novos códigos, e está mais preparada do que os “millennials antigos”.

De acordo com o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, a reflexão a respeito das publicações na internet está em curso e é mais do que bem-vinda. “Estamos aprendendo a ocupar esse espaço”, analisa. “O indivíduo pensar antes de postar e investigar o significado do post para si e para os outros é sinal de que está desenvolvendo consciência crítica”, acredita.

Kika Gama Lobo Foto: Renan Oliveira
Kika Gama Lobo Foto: Renan Oliveira

Com 98 mil seguidores no Instagram no perfil @mequetrefismos, a influenciadora Luiza Brasil acredita que a pandemia da Covid-19 deixou as desigualdades sociais ainda mais latentes e transformou o sentido do verbo postar. Ela diz estar tendo ainda mais cuidado neste momento. “Por estarmos todos em casa, surgiu o questionamento do quanto da minha intimidade devo revelar. Percebi que também posso silenciar”, afirma. “Tudo isso está provocando uma mudança de mentalidade. Muitas vezes, eu me pergunto: ‘Preciso mesmo postar isso ou é melhor viver?’”, avalia. Antes da pandemia, existia a vangloriação do lifestyle. “Hoje o que conta é como você está conduzindo a sua vivência, ser mais educativa e empática”, emenda. Luiza acredita que esta reflexão deveria avançar mais algumas casinhas. “O tribunal vazio da internet faz com que as pessoas sintam medo, mas, na maioria das vezes, não altera a conduta nem o caráter do indivíduo. O papo deveria ser outro. São poucos os que investigam a origem do real problema simbolizado no receio de ser ‘cancelado’.”

Carvalhal — que no fim do mês vai lançar o livro “Como salvar o futuro” — diz que todo o processo de postar ou não postar deveria ser utilizado como ferramenta de autoconhecimento. “Procuro pensar no que a dúvida diz sobre mim e não sobre os possíveis comentários negativos”, explica.

Para a antropóloga Carol Delgado, o FOPO tem a ver com a evolução das redes. “Principalmente por causa do confinamento, o virtual tornou-se ainda mais parte do real”, analisa. Porém, ela não crê que este ‘sintoma’ mobilize a população brasileira, e destaca o poder das fakes news no país como prova disso. “A sociedade do Brasil é organizada para ser cara de pau. Não acho que exista uma orientação pautada pelo medo e, sim, pelo medo de passar vergonha”, ressalta.

Medo de passar vergonha é exatamente o que não tem a criadora de conteúdo digital Kika Gama Lobo. À frente do Atitude 50, ela conta que a vida inteira foi julgada pelas opiniões bélicas. “A minha voz sempre precisou sair e rapidamente entendi que pagaria um preço por isso”, observa Kika, que diz ter sido constantemente “patrulhada” no mundo e na web. Nos últimos tempos, ela — que criou, em 2009, a hashtag #riodemerda para chamar atenção para os problemas da cidade — confessa ter ficado mais atenta. “O FOPO não me inibe na hora de postar, mas passei a pensar com cuidados nas palavras que utilizo. Eu me preocupo em não ferir ninguém”, explica. “Continuo rebelde, mas penso mais no outro. Existe uma nova etiqueta e procuro encontrar um meio-termo”, admite. Mesmo assim, volta e meia, ela recebe mensagens de conhecidas falando para ela ser mais “cordata” para conseguir contratos. “Dizem que sou louca por misturar maturidade com boletos e política.”

O professor de Filosofia Renato Noguera aponta o debate pouco qualificado das redes sociais como uma das possíveis causas para o FOPO. “Muita gente prefere se manter reservada para não correr o risco de ser mal interpretada e virar alvo dos haters”, pondera. Ele acha que ainda é cedo para avaliar o fenômeno. “É preciso analisar caso a caso. Existe a influência do politicamente correto, que é a celebração da democracia, mas também pode revelar um moralismo ideológico. Há sim um grau de pressão, mas vamos ter que esperar um tempo para entender melhor.” A conferir.

Exércitos de fãs estão perseguindo gays e trans no TikTok

Vídeos de reação a criadores de conteúdos LGBTQ+ acabam propagando onda de preconceito pela rede social
Por Taylor Lorenz – The New York Times

Chris é conhecido por fazer vídeos em que reage a outras publicações no TikTok 

Chris sorri largamente enquanto um vídeo de Miso Chan, uma jovem criadora de conteúdo digital transgênero de cabelo rosa, passa ao lado dele. Uma música com a letra “Now I know what’s real and what is fake,” (Agora eu sei o que é real e o que é falso, em tradução livre) é reproduzida ao fundo. Em seguida, Miso Chan arranca sua peruca, puxa lenços de sua camiseta e é revelado como um homem. A expressão do rosto de Chris muda completamente, seus olhos estão arregalados.

O vídeo foi visto mais de 1,7 milhão de vezes — e sua seção de comentários está repleta de comentários cruéis.“É por isso que tenho dificuldade em confiar nas pessoas hoje em dia”, respondeu uma pessoa. “Imagine o que os pais pensaram”, disse outro.

Chris, que tem 17 anos e é conhecido como @Donelij no mundo online, conquistou uma enorme audiência no TikTok. Antes de sua conta ser banida na terça-feira, ele acumulou mais de 2,5 milhões de seguidores. Outra de suas contas tinha mais de 2,2 milhões de seguidores, mas, na tarde de sexta-feira, as duas contas de TikTok de backup de Chris também foram banidas. (“Esta conta foi banida devido a várias violações das diretrizes da comunidade”, dizia um banner no topo da conta.)

“É estressante”, disse ele por telefone. “Foi assim que consegui meu dinheiro.” A conta de Chris é conhecida na comunidade TikTok como uma conta de reação, uma conta em que alguém cria vídeos de reação que aparecem ao lado de outros TikToks. Os canais de reação e comentários do TikTok são um nicho em crescimento na plataforma e vêm decolando nos últimos meses. Eles também se tornaram bastante populares em outras plataformas de vídeo nos últimos anos, como o YouTube.

Quase todos os vídeos de Chris seguem o mesmo formato: um vídeo passa à sua direita, ele sorri, às vezes dá um joinha, então algo acontece no vídeo e seu sorriso desaparece. A maioria dos vídeos de Chris são reações a momentos anódinos. Em uma, seu sorriso desaparece quando um homem bate um tijolo de tofu na própria cara; em outro é quando as baratas aparecem na tela.

Alguns de seus vídeos, no entanto, apresentam reações a criadores de conteúdo LGBTQ+. Ele fica com uma expressão de choque quando homens colocam saias, quando um homem chupa um canudo ou quando as pessoas trans revelam transformações ao longo do tempo.

Mesmo que ele nunca diga uma palavra, milhares de pessoas criticam os vídeos por serem homofóbicos. Jovens gays e trans TikTokers que foram apresentados nas reações de Chris relatam que sofreram perseguição cruel por meio de comentários e por mensagens. Alguns apagaram suas contas. Chris disse que não tinha más intenções com seus vídeos e disse, antes de suas contas serem banidas, que iria parar de reagir a vídeos com pessoas da comunidade LGBTQ.

“Quero que as pessoas saibam que não sou homofóbico nem transfóbico”, disse ele. “As expressões faciais que faço nos meus vídeos são piadas. Eu mesmo não os considerava ofensivos, mas consigo perceber como as pessoas os receberam assim e não quero que se sintam dessa maneira. ”

Vítimas dizem que assédio nunca vai embora

Rob Anderson, 32 anos, um criador de conteúdo no TikTok que é gay, acabou na mira depois de chamar a atenção para os vídeos de Chris em um vídeo de sua autoria. Imediatamente após a postagem, Anderson foi inundado com uma série de insultos, ameaças de morte e ameaças à sua família.

“É uma forma cruel, intensa e implacável de assédio e é interminável”, disse Anderson. “Essas pessoas entram em todas as suas mídias sociais, encontram qualquer informação a respeito de você — eles enviaram insultos gays para o meu agente. Não para, não desaparece um dia e vai embora. ”

Qualquer usuário que se manifeste contra o conteúdo de Chris inevitavelmente recebe uma onda de ameaças e assédio. Depois que Toby Phillips, 20 anos, postou um vídeo no estilo “O Ministério da Saúde adverte” dos anos 90 pedindo a Chris que assumisse a responsabilidade pelo comportamento de seus fãs, ele também sofreu por isso. Phillips foi recebido com ameaças de morte e tentativas de doxxing (prática em que dados privados de uma pessoa são divulgados na web).

À medida que a polêmica começava na quinta-feira, criadores de conteúdo populares começaram a se posicionar a respeito, incluindo os filhos de vários políticos e celebridades.

Outros conhecidos criadores do TikTok começaram a ameaçar os criadores LGBTQ por se manifestarem. Em uma live no Instagram na noite de quinta-feira, Freek Da Gemini, um criador do TikTok de 21 anos com mais de 750 mil seguidores, fez ameaças a um jovem de 17 anos usando uma série de insultos homofóbicos. “Estou dizendo coisas ofensivas, sim, eu disse insultos”, disse ele em sua transmissão ao vivo, acrescentando que o jovem poderia esperar ter “sangue vazando de sua cabeça” se o encontrasse pessoalmente.

Os fãs de Chris dizem que as críticas ao conteúdo dele são exageradas. “Esta deve ser a pior demonstração da cultura do cancelamento que eu já vi”, disse um comentarista dramático do YouTube conhecido como Relex em um vídeo na quinta-feira. “Ele está sendo cancelado pelas expressões faciais que faz em seus vídeos. Como vocês estão se ofendendo com alguém que nem fala? ”

Muitos encheram as seções de comentários dos criadores LGBTQ+ com o emoji de floco de neve (geralmente usado em referência às pessoas que se magoam facilmente, em alusão ao fato de que flocos de neve têm estrutura delicada e se desfazem sob pressão). 

Chris disse que também sofreu assédio e ataques raivosos em relação ao seu conteúdo criado no aplicativo. “Usam termos depreciativos para se referir a mim, como macaco, em minhas mensagens diretas, pessoas estão dizendo que vão me matar quando me encontrarem”, disse ele. Muitos TikTokers incentivaram seus fãs a inundar as seções de comentários de Chris com mensagens abusivas, outros atacaram pessoas de sua família e tentaram expulsá-lo da escola.

Ele também disse que estava frustrado com o comportamento de seus fãs. Ele disse que falou várias vezes em sua conta do TikTok pedindo às pessoas que parassem de fazer comentários homofóbicos, mas que, no fim das contas, não consegue controlar os milhões de pessoas que o seguem e que eles interpretam seus apelos para “espalhar positividade” como uma instrução dissimulada para o ataque.

“Uma porcentagem dos meus seguidores são trolls e eu sinto que eles fazem isso porque gostam de sentir a adrenalina pela internet”, disse ele. “Vou continuar tentando fazer com que meus fãs mudem seus hábitos. Estou tentando o meu melhor para que meus fãs parem de fazer o que estão fazendo. ”

Muitas pessoas da comunidade LGBTQ+ respondem que, quer Chris pretendesse ou não, ele construiu um público de seguidores homofóbicos postando conteúdo homofóbico e agora é sua responsabilidade gerenciar esse público.

“Eles dizem que Chris não é responsável por seus seguidores”, disse Anderson. “A isso eu digo: claro que ele é. Ele cultivou este grupo de pessoas com este conteúdo. As pessoas que o seguem são aquelas que gostam do conteúdo que ele está postando e seu conteúdo é claramente antigay e homofóbico. Se você tem muitos seguidores, é sua responsabilidade garantir que as pessoas não se machuquem com o que você publica.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Instagram testa substituir o botão Explorar pelo ‘Reels’, concorrente do TikTok

O teste foi observado em diversos países e pode ser uma iniciativa de promover ainda mais o recurso que se assemelha com o app chinês TikTok

O Reels é a maior aposta da empresa para competir com o TikTok

Para aumentar a visibilidade de sua ferramenta de vídeo curto Reels, o Instagram está testando adicionar o botão do recurso diretamente na tela principal do app, ao lado do icone de página inicial. O Reels é a maior aposta da empresa para competir com o TikTok, e tenta avançar em usuários à medida em que o app chinês pode ficar de fora de países como Estados Unidos, Canadá e Austrália. 

Segundo site Android Police, a mudança da apresentação do Reels na página principal foi notada em diversos países, tanto em aparelhos Android quanto em iPhone, no iOS. Na configuração padrão, a ferramenta Reels, que foi lançada globalmente no início de agosto, pode ser encontrada na aba “explorar” do Instagram. A empresa não informou em quais países o teste está disponível, mas usuários do Brasil já relataram a mudança.

O maior destaque do Reels, que é visto como um produto muito parecido com o TikTok, surge justamente em um momento onde um dos maiores mercados do app chinês enfrenta um impasse na operação. Depois do presidente dos EUA Donald Trump ameaçar banir a plataforma, a Microsoft entrou na discussão para tentar um acordo de compra e manter o app em território norte-americano. 

Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos (CFIUS), deu prazo de até 15 de setembro para que as empresas tentassem um acordo para o futuro do app no país. Além das operações nos EUA, a Microsoft estaria, também, visando comprar a operação global da plataforma.