Startup Zak, de gestão de restaurantes, demite 40% do quadro de funcionários

Atribuindo dificuldades financeiras, empresa fez cortes generalizados em diversas áreas; em 2021, levantou rodada de US$ 15 milhões
Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo

Startup Zak quer ser o 'cérebro' de bares e restaurantes, digitalizando todas as operações 
Startup Zak quer ser o ‘cérebro’ de bares e restaurantes, digitalizando todas as operações 

A startup Zak, de gestão de restaurantes, demitiu cerca de 40% do quadro de funcionários da companhia na manhã desta sexta-feira, 13, segundo apurou o Estadão. A Zak não quis confirmar o número de demitidos, mas, internamente, fala-se em cerca de 100 demitidos, cortados da empresa em uma reunião por videoconferência, 

Uma planilha com os nomes dos trabalhadores cortados circula na internet. De acordo com o documento, pessoas das áreas de vendas, marketing, produto e experiência do consumidor foram demitidas. A maior parte delas reside em São Paulo, cidade em que a startup atua.

A Zak nasceu em 2018, com o intuito de ser o “cérebro” da gestão de restaurantes: o modelo de negócio inclui gerenciar caixa, otimizar operações e digitalizar tarefas em uma única plataforma. Entre os principais clientes estão as redes Ráscal e Z.Deli. 

O modelo é inspirado na americana Toast, tida como um sucesso na área de digitalização de bares e restaurantes. Foi nela que os fundadores David Grandes, Andres Andrades e Marina Lima se inspiraram, após se aventurarem pela startup Mimic, especializada em dark kitchens (cozinhas construídas para atender a pedidos de delivery).

Em 2021, a Zak levantou US$ 15 milhões em rodada liderada pelo fundo de investimento Tiger Global, com participação do Valor Capital, Monashees, Base 10 e Canary — todos “carimbados” pelo mercado de inovação. À época, a companhia possuía 170 funcionários e pretendia dobrar a equipe com o aporte recém-anunciado.

A Zak justifica que os cortes se devem ao mau momento financeiro pelo qual a startup passa e ao cenário macroeconômico adverso.

Em nota ao Estadão, a companhia declara: “Nos adaptamos para seguir com a nossa missão de empoderar restaurantes, mas precisamos nos reestruturar e reorganizar a nossa operação por meio da decisão mais difícil de todas: reduzir o nosso time. Estamos comprometidos a apoiar todos os colaboradores afetados e reiteramos que esta decisão foi tomada com extremo cuidado e ponderação, e como último recurso.”

Ano difícil para startups

A Zak é a quinta startup brasileira a realizar cortes neste ano. 

Em março, o ‘unicórnio’ QuintoAndar (avaliado em US$ 5,1 bilhões) dispensou 160 funcionários da startup. O movimento aconteceu logo após a startup acertar um acordo milionário para patrocinar o Big Brother Brasil 2022.

Além dele, a rival Loft demitiu 159 pessoas, seguida pela Facily, do ramo de compras coletivas, que cortou entre 300 e 400 pessoas (além de eliminar terceirizados). Antes delas, a LivUp, de marmitas saudáveis congeladas, cortou 15% do quadro em fevereiro.

Demissões em massas não são exclusividade brasileira. Elas foram realizadas por companhias em todo o mundo, também pressionadas pelo cenário macroeconômico de alta dos juros, o que torna caro levantar novas rodadas de investimento, e inflação persistente, que sufocam o bolso do consumidor.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, a tendência do novo cenário é surgir menos “unicórnios” (startups raras avaliadas em US$ 1 bilhão pelo mercado), cheques de fundos de investimento se tornarem mais raros e, em casos mais extremos, as “downrounds”, quando uma empresa é reavaliada para baixo, perdendo milhões de dólares em valuation.

Dock atinge avaliação bilionária após aporte de US$ 110 mi, mas não quer ser chamada de ‘unicórnio’

Startup oferece meios de pagamento para fintechs por softwares em nuvem

Antonio Soares é presidente da Dock
Antonio Soares é presidente da Dock

A Dock, startup de software de meio de pagamento, anunciou nesta quinta-feira, 12, um aporte no valor de US$ 110 milhões, liderado pelos fundos Lightrock e Silver Lake Waterman, com participação de Riverwood Capital, Viking Global Investors e Sunley House Capital. 

Com o investimento, a intenção da startup é desenvolver novos produtos e apostar na expansão internacional da operação. Além disso, a contratação de novos funcionários também está no radar da Dock.

“Encerrando esta rodada de captação, estamos entusiasmados em continuar inovando e expandindo enquanto criamos produtos que ajudam nossos clientes a crescerem e fornecerem serviços financeiros rápidos, eficientes e personalizados aos seus usuários”, afirma em nota Antonio Soares, presidente da Dock. 

Atualmente, a empresa atende clientes com foco em serviços de pagamento, crédito, cartões e APIs bancárias para fintechs. Com uma plataforma em nuvem, a startup consegue oferecer serviços financeiros prontos para outras empresas — a intenção é que seja um produto a menos para que os clientes se preocupem no dia a dia. De acordo com a startup, já são 300 clientes e cerca de 65 milhões de contas ativas só na América Latina.

A rodada de captação desta quinta é a primeira desde o aporte de US$ 170 milhões recebido em 2020, quando a startup ainda se chamava Conductor. Agora, o novo aporte entra para a lista dos maiores cheques investidos em startups brasileiras em 2022, atrás apenas de Neon Creditas

“Este investimento valida nossa visão de trazer grandes soluções para o mercado que resolvem problemas reais de negócios para nossos clientes, aumentando e democratizando o acesso a serviços financeiros. Agregamos valor porque pagamentos e serviços bancários são negócios complexos globais com especificidades locais, e entendemos isso melhor do que ninguém”, explica Soares. 

Com o investimento, a empresa, que foi rebatizada em 2021 edpois de cerca de 20 anos de existência, elevou sua avaliação de mercado para US$ 1,5 bilhão, mas não se vê como “unicórnio”, startup avaliada em US$ 1 bilhão. 

A companhia entende que a empresa segue um caminho diferente das demais empresas de tecnologia no País. Para eles, o status mágico não é aplicável ao seu modelo de negócios. 

“Como uma empresa de 20 anos, e que foi transformada ao longo dos últimos 8 anos, a Dock entende que seu caminho é diferente daquelas tradicionalmente denominadas de unicórnios. Durante este período, a Dock acumulou diversos aprendizados com o mercado de startups e atuais unicórnios, mas vem em um caminho diferente”, afirmou a Dock ao Estadão

SoftBank e Descomplica querem formar novas startups com curso no YouTube

As aulas serão totalmente traduzidas para português e terão participação de fundadores de algumas das principais startups brasileiras
Por Rafael Nunes – O Estado de S.Paulo

SoftBank faz parceria com Descomplica e traz curso para novos empreendedores no Brasil
SoftBank faz parceria com Descomplica e traz curso para novos empreendedores no Brasil

SoftBank, maior investidor do setor de tecnologia no País, e a edtech Descomplica anunciam nesta quinta, 5, um novo curso voltado para a formação de empreendedores brasileiros.    

Totalmente gratuito, o curso terá duas temporadas, com aulas de vídeo legendadas em português. Criadas pela Operator School do SoftBank, as aulas poderão ser usadas não só na formação de empreendedores, mas como parte do material da faculdade Descomplica, braço de ensino superior da startup. 

“Com essa parceria e com os especialistas, nós queremos que as pessoas possam não só aprender sobre os meios do empreendedorismo e das startups, mas também adquirir essa experiência e mentalidade para levar adiante em outras empresas”, disse Bety Tichauer, diretora de expansão na Descomplica, em entrevista ao Estadão.

Nas aulas, os alunos poderão aprender com nomes importantes do ecossistema de inovação, como Tiago Dalvi, fundador da Olist,  Alessio Alionco, fundador da Pipefy, Carlos Garcia, fundador da Kavak, Joana Smith, fundadora da Allhere e Marco Fisbhen, fundador da Descomplica. 

SoftBank e Descomplica estão cientes de que a falta de mão de obra qualificada é um problema no setor de tecnologia no País, mas o foco dos cursos não é a capacitação em tecnologia – a ideia é atingir um mercado mais amplo dentro do ramo de startups.

Segundo a  diretora de expansão, o objetivo é atingir não apenas um público que queira empreender ou que já está empreendendo em startups, mas também chegar a pessoas que trabalham em empresas ou querem trabalhar em empresas desse segmento.

A iniciativa de disponibilizar as aulas partiu do SoftBank, aproveitando o alcance da Descomplica na internet. O material ficará disponível no canal da Descomplica no YouTube, que conta com mais 3 milhões de inscritos em seu canal. “O SoftBank acredita que a melhor maneira desse conteúdo ter maior alcance pelo público é através da Descomplica”, disse Bety.

Startups ucranianas também estão se mobilizando na guerra

A Ucrânia tem uma comunidade de startups ativa, que tem se movimentado durante o conflito
Por Felipe Matos – O Estado de S.Paulo

Startups Ucranianas se mobilizam durante guerra
Startups Ucranianas se mobilizam durante guerra

Uma das curiosidades que talvez muitos brasileiros não saibam sobre a Ucrânia é que o país tem uma comunidade de tecnologia e startups bastante ativa. O país era usado para a contratação remota de desenvolvedores, pelos custos mais baixos da mão de obra na Europa, e é berço de “unicórnios” como GitLab, Grammarly, entre outros. O país também tem uma agência de suporte a startups, Startup Ukraine, cuja fundadora, Anna Petrova eu tive o prazer de conhecer. Nos últimos dias, acompanhei à distância seu drama enquanto buscava atravessar a fronteira, num cenário de caos, com momentos sem comunicação, energia ou comida.

A guerra com a Rússia provocou impactos imediatos no ecossistema daquele país. Startups tiveram seu funcionamento comprometido e a infraestrutura de tecnologia do país foi abalada. Investimentos estrangeiros em startups foram congelados e houve massiva fuga de profissionais.

Por outro lado, a comunidade de tecnologia local tem se mobilizado para reagir. Ainda que muitos profissionais tenham atravessado a fronteira para escapar, eles têm organizado ataques virtuais contra empresas e operações russas – num dos movimentos de ciberataques mais descentralizados já registrados na história, em que não há uma liderança clara ou hierarquia. Há ainda grupos que preferiram ficar e lutar pelo país, empoderados pelas novas novíssimas conexões por satélite oferecidas pela Starlink – a empresa de Elon Musk, que acelerou as operações no país num esforço para apoiar os ucranianos.

Outro movimento que vem sendo organizado por startups ucranianas é o da coleta de fundos para apoiar o país, por meio de diferentes canais. A Grammarly, por exemplo, doou U$ 5 milhões, equivalentes à receita de seu produto na Rússia e na Bielorússia desde 2014, para fundos de apoio aos uncranianos. O movimento que vem sendo acompanhado por empresas de tecnologia de dentro e fora do país. Elas também têm buscado combater a desinformação, construindo e apoiando redes confiáveis com notícias atualizadas sobre os acontecimentos da guerra. Outras startups vem facilitando o acesso financeiro de imigrantes ucranianos, como a fintech Revolut, que facilitou a abertura de contas de refugiados urcanianos e zerou as tarifas para o envio de dinheiro para aquele país.

A Anna conseguiu atravessar a fronteira e está bem. Agora, ela tem liderado redes de startups ucranianas e internacionais, que estão se unindo para apoiar seu país.

Omie planeja dobrar equipe e mira ser próximo ‘unicórnio’

Startup focada em PMEs deve expandir equipes comercial e de tecnologia
Por Elisa Calmon – O Estado de S. Paulo

Marcelo Lombardo, fundador e presidente executivo da Omie
Marcelo Lombardo, fundador e presidente executivo da Omie

A startup Omie vai reforçar o time em 2022 para se tornar o próximo unicórnio brasileiro, nome dado às empresas com valor de mercado de ao menos US$ 1 bilhão. Com o caixa fortalecido pelo aporte de R$ 580 milhões liderado pelo Softbank em 2021, a fornecedora de serviços financeiros e de gestão para pequenas e médias empresas (PMEs) planeja criar mais de 1,5 mil vagas até dezembro.

A Omie é um dos 22 potenciais unicórnios brasileiros, segundo estudo produzido pela Distrito e divulgado com exclusividade ao Estadão/Broadcast neste mês. Um dos fatores levados em consideração na análise é o crescimento da equipe. Se a meta de abertura de vagas para este ano se confirmar, a startup irá dobrar o quadro de funcionários pelo segundo ano consecutivo.

Além do cheque robusto recebido pelo Softbank, a recuperação das PMEs, principais clientes da Omie, também impulsionam a onda de contratações, segundo o chefe de recursos humanos da empresa, Luiz Massad. “Estamos otimistas com o avanço da vacinação, demanda por digitalização e retomada econômica. É hora de crescer para atender esse mercado muito amplo de PMES.”

Diante desse cenário, a Omie espera saltar de 100 franquias para 250 em 2022. Cada unidade contém cerca de cinco funcionários. “Levando em consideração essa conta, o número de vagas pode ser ainda maior do que previsto inicialmente”, explica Massad.

Cerca de 60% das posições são voltadas para a área comercial e 40% para a de tecnologia, distribuídas por todo o Brasil. A maior concentração ocorre no Sudeste e Sul, com oportunidades também em Fortaleza e na região metropolitana de Salvador. Os planos incluem ainda outros Estados do Nordeste sem franquias e também o Centro-Oeste.

A Omie avalia ainda ser cedo para se aprofundar quando o assunto é a expansão de receita para chegar ao valuation de US$ 1 bilhão. Mas vê “o crescimento exponencial como um movimento natural para esse processo” de se juntar aos unicórnios brasileiros.

‘Google de notas fiscais’, startup Arquivei recebe aporte de R$ 260 milhões

Com os novos recursos, o plano da startup é ajudar empresas, de pequeno a grande porte, em todas as etapas da relação com fornecedores, desde o fechamento do contrato até pagamentos
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Sócios da Arquivei: Christian de Cico, Vitor de Araújo, Bruno Oliveira e Isis Abbud 
Sócios da Arquivei: Christian de Cico, Vitor de Araújo, Bruno Oliveira e Isis Abbud 

A startup Arquivei, que realiza gestão inteligente de notas fiscais, anuncia nesta terça-feira, 14, o recebimento de um aporte de US$ 48 milhões (aproximadamente R$ 260 milhões). Com os novos recursos, o plano da startup é ajudar empresas, de pequeno a grande porte, em todas as etapas da relação com fornecedores, desde o fechamento do contrato até pagamentos. 

O investimento série B foi liderado pela gestora americana Riverwood Capital – também participaram do cheque os investidores International Finance Corporation (instituição do Grupo do Banco Mundial), Constellation, NXTP e Endeavor Catalyst. 

Fundada em 2015 em São Carlos, a Arquivei surgiu de um problema vivido pelo fundador da empresa, Christian de Cico: trabalhando na construtora de seu pai, ele tinha dificuldades de gerir notas fiscais digitais no dia a dia da empresa. A startup começou como um sistema piloto dentro da construtora e foi se expandindo aos poucos por empresas na cidade do interior paulista. 

A Arquivei é dona de uma plataforma que funciona como um “Google de notas fiscais”: além de armazenar os arquivos, o software organiza as informações. “Conseguimos economizar tempo na rotina das empresas. Se uma companhia tem um problema com um notebook e precisa achar a nota fiscal para identificar a garantia, por exemplo, basta fazer uma busca na nossa plataforma para achar o registro”, explica Cico, em entrevista ao Estadão.  

Ao todo, a Arquivei tem hoje 15 mil clientes – que vão de pequenos comércios até nomes como Mc Donalds, Riachuelo, Volkswagen e iFood. O modelo de negócios da startup prevê uma assinatura mensal, em contratos anuais, que custam entre R$ 40 e R$ 100 mil, a depender do tamanho da operação de cada empresa. O tipo de acesso que os funcionários têm aos arquivos também é definido de acordo com a necessidade de cada companhia. 

Cico afirma que o novo cheque será usado para expansão de produtos e equipe – o plano é contratar cerca de 150 colaboradores no próximo ano, chegando a 400 funcionários em 2022.

Quanto à melhoria no produto, a Arquivei se inspira na empresa americana Coupa, que oferece uma solução completa para companhias controlarem compras e despesas. “O Mercado Livre criou uma plataforma para a pessoa física encontrar o melhor fornecedor para cada necessidade, oferecendo inclusive serviços financeiros. Queremos levar isso para a pessoa jurídica”, afirma o fundador da Arquivei.

Dentro disso, a startup planeja hierarquizar na plataforma os fornecedores com melhores avaliações. A Arquivei também pretende usar inteligência artificial para reconhecer padrões nos comportamentos de compra das empresas e, com isso, oferecer opções de crédito, por meio de parceria com bancos. “Não queremos entrar na disputa dos bancos digitais. Vamos nos favorecer das aberturas do open banking”, diz Cico. 

Nova geração de startups vê o próprio nicho como cliente

Inspiradas pelo efeito da fintech Brex, essas companhias aproveitam-se da expansão do ecossistema de inovação e oferecem serviços digitais para outras startups
Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo

Os fundadores da startup Trace são, da esq. para dir., Leone Parise, Bernardo Brites e Rafael Luz
Os fundadores da startup Trace são, da esq. para dir., Leone Parise, Bernardo Brites e Rafael Luz

Há alguns anos, era impensável ter startups que se lançassem ao mercado buscando apenas outras startups como clientes. Hoje, porém, há nomes de peso no segmento. Um dos mais conhecidos é a fintech americana Brex, fundada pelos brasileiros Pedro Franceschi e Henrique Dubugras em 2017 – em outubro, a empresa levantou uma rodada de investimento de US$ 300 milhões, chegando à avaliação de mercado de US$ 12 bilhões.

Inspirada pelo sucesso da Brex, uma geração de firmas no modelo “de startup para startup” começa a despontar também no Brasil. A ideia é usar tecnologia para amenizar os obstáculos da operação das empresas. Assim, há companhias de categorias variadas, como fintechs, healthtechs (de saúde), HRtechs (para departamentos de recursos humanos), e legaltechs (jurídicas).

Fundada em janeiro de 2021, a Trace cuida de operações de câmbio entre startups nacionais e fundos de investimento internacionais. Com a chuva de aportes estrangeiros em nossas startups, a necessidade se torna fundamental para o fluxo de investimentos no País – em alguns casos, as startups que recebem os aportes são novatas e não têm experiência com operações do tipo. 

“Por sermos uma startup, sentimos na pele o que essas outras companhias sentem”, explica o presidente executivo da Trace, Bernardo Brites. O executivo afirma que não quer atender tão cedo as empresas “tradicionais” (isto é, que não são intensivas em uso de tecnologia). 

A vontade de Brites de permanecer entre “iguais” se justifica: além do alto volume de oportunidades geradas pelo boom de cheques internacionais, as startups costumam gostar de testar novas plataformas e funcionalidades. No caso da Trace, as operações podem ser feitas totalmente de forma digital e remota. 

O argentino Rodrigo Irrazaval, fundador da Wibson, acrescenta que outra vantagem é a força da “cultura do feedback” entre as startups. “É muito fácil aprender com esses clientes”, observa. “Depois do retorno rápido sobre o produto, podemos crescer e buscar outros tipos de empresas.” A Wibson ajuda outras startups a ajustarem seus produtos e serviços às normas da Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD. 

A empresa customiza os ‘cookies’ (os arquivos que extraem informações de usuários de serviços digitais) dessas plataformas a partir de uma análise automatizada do seu conteúdo. É importante para quem mantém departamentos jurídicos enxutos – 90% dos clientes da empresa são startups. 

Internacionalização

Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão, lembra que a internacionalização do mundo dos negócios também motiva startups que buscam startups. Segundo ele, esse processo permite não só atrair capital externo, mas também buscar mais clientes em outros países. “Está mais fácil costurar algo com o mercado externo porque o mundo está menor”, acrescenta.

É o caso da Pointer, cuja plataforma conecta desenvolvedores de nível avançado a outras startups que precisam catapultar o time de programação. Em breve, ela atenderá clientes estrangeiros em busca de mão-de-obra nacional. “Os EUA e a América Latina precisam ‘para ontem’ de profissionais de qualidade, mas não sabem como procurar essas pessoas no Brasil”, explica o fundador, Pedro Luiz Pezoa. 

O plano da Pointer, após validar o próprio produto no Brasil durante a pandemia, é entrar no mercado americano, canadense e chileno no próximo ano. “Se o nosso foco fosse somente em startups no Brasil, conseguiríamos crescer tranquilamente. Mas vemos que os gringos estão desesperados para contratar esses profissionais”, afirma.

Nicho caótico

Apesar de promissor, o segmento ainda precisa superar alguns obstáculos. Manoela Mitchell, fundadora da Pipo Saúde, afirma que uma carteira de clientes formada apenas por startups pode ser mais difícil de ser preservada no longo prazo, variando bastante conforme os momentos das companhias. “É um ambiente mais ágil, mas também mais caótico, porque não é tão previsível como ocorre com empresas mais maduras”. A Pipo atua como corretora de planos de saúde para departamentos de recursos humanos, otimizando os processos — atualmente, um terço da carteira da empresa é composta por startups. 

Bruno Rondani, CEO da plataforma de inovação 100 Open Startups, lembra também que se dedicar somente a startups significa apostar em um mercado emergente no Brasil. “Atender somente esses clientes ainda é algo bastante nichado. Pode ser uma estratégia de entrada no mercado de inovação”, aponta. 

Startups apoiam diversidade, mas não colocam discurso na prática

Com homens como fundadores, maior parte das pequenas empresas de tecnologia do Brasil contratam poucas mulheres, negros, LGBTQIA+, PCDs e idosos
Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo

Diversidade pode fomentar a inovação, a 'matéria-prima' das startups
Diversidade pode fomentar a inovação, a ‘matéria-prima’ das startups

Geralmente associada à inovação e ao futuro do trabalho, as startups não aliam a teoria à prática no que diz respeito à diversidade: elas saem publicamente em defesa das minorias, mas é baixa ou inexistente a inclusão de mulheres, negros, LGBTQIA+, pessoas com deficiência (PCD) e idosos no dia a dia dessas empresas, revela um estudo feito pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups) obtido com exclusividade pelo Estadão.

Quando perguntadas se apoiam a diversidade, a maioria das startups (96,8%) respondeu positivamente. Mas, quando questionadas se a companhia possui algum processo seletivo voltado para a inclusão de grupos minoritários, as respostas negativas somam 60,7%, aponta o levantamento, que entrevistou 2,5 mil startups entre agosto e setembro deste ano.

Além disso, as companhias enfrentam um cenário de escassez de colaboradores diversos. Quase um terço (31,2%) declara não ter nenhum funcionário preto ou pardo, enquanto o número é de 19,1% de quem afirma não ter funcionárias mulheres. Startups sem idosos, PCDs e transsexuais totalizam 62,3%, 90,3% e 90%, respectivamente.

Do outro lado da mesa, o cenário é bem mais homogêneo. Os fundadores das startups declaram-se homens (78,1%), pardos (51,1%) ou brancos (33,7%), heterossexuais (92,1%) e afirmam ter entre 31 e 40 anos (45%). Ainda, sete em cada dez fundadores atuam como presidente-executivo (o CEO) – o cargo mais alto na empresa.

Retrato do patrão

Apesar de discurso pela inclusão, startups têm poucos grupos minoritários entre os seus fundadores

Esse é um perfil bastante comum entre os fundadores dos unicórnios brasileiros (startups com avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão). As exceções são poucas e conhecidas: entre elas estão Cristina Junqueira, do Nubank, e Robson Privado, do MadeiraMadeira, primeiro negro a integrar o clube nacional  de fundadores de unicórnios.

Para Ana Flávia Carrilo, coordenadora de informação da ABStartups, o cenário é preocupante e o segmento de inovação no Brasil precisa parar de tratar o assunto como secundário. “Não adianta ter boa vontade se não se coloca a diversidade como prioridade”, diz. “E é o fundador, que é quem toma as decisões, que é quem vai definir a prioridade, o que sempre envolve dinheiro.”

Tamanho não é documento

As startups mais maduras levam uma vantagem ao abordar a questão da diversidade: por terem mais recursos, conseguem alocar maiores investimentos em departamentos de recursos humanos mais robustos, que podem definir processos seletivos mais diversos. Mas essa não pode ser a desculpa para esperar que os processos de inclusão tenham início.

Ana Flávia diz que as startups menores devem preocupar-se com diversidade já na divulgação das novas vagas, tornando os processos seletivos mais simples de entender para diferentes públicos. Um fator positivo, diz, seria transformar a abertura de vagas em linguagem neutra (em que sufixos marcadores de gênero são substituídos por “e” ou “@”, de modo a ser inclusivo com homens, mulheres e pessoas não binárias simultaneamente). 

Outra sugestão é abandonar o “startupês”, isto é, termos do vocabulário anglófono de negócios misturados ao português – o que pode confundir e afastar pessoas não familiarizadas com o inglês corporativo. “Apesar de ser aberto internamente, o ambiente de startups pode ser estranho para quem é de fora”, observa.

Porém, trabalhar a entrada de pessoas diversas não inclui somente a etapa seletiva. Esse  é um processo que inclui não só entender quem está de fora da empresa, mas também revisar políticas internas e definir critérios de atração, seleção e retenção de talentos, diz  Renata Mendes, diretora de relações institucionais e governamentais da Endeavor. Para ela, é preciso ter uma análise frequente do feedback desses colaboradores, tanto para entender sobre expectativas, quanto para saber se o ambiente em que trabalham é inclusivo de fato.

No fim das contas, diversidade ainda é minoria dentro do ecossistema de inovação do Brasil: “O que nós percebemos é que empresas lideradas por pessoas negras e por mulheres possuem times mais diversos”, conclui Renata.

Tanto esforço para incluir mais minorias nas empresas tem motivo, além da inclusão social: é consenso no mundo dos negócios que diversidade acelera a inovação — a “matéria-prima” das startups, por assim dizer. 

Especialistas apontam que apostar em diversidade tem influência no nível de inovação alcançado. “Se você quer soluções diferentes ou resultados diferentes, como você vai conseguir isso perguntando para as mesmas pessoas, que têm os mesmos repertórios?”, aponta Dani Junco, fundadora e CEO da B2Mamy, aceleradora dedicada a empreendedoras. “É ponto comum ter um time diverso e criar um ambiente seguro para que novas soluções surjam. Do contrário, é impossível você conseguir pensar diferente.”

Investimento inclusivo é o caminho para nova geração de startups

Qual será o retrato da geração de empreendedores que estamos ajudandoa construir
Por Camila Farani – O Estado de S. Paulo

Quando uma área do mercado se torna mais rentável e atrativa também acaba se transformando em menos acessível para grupos que são tradicionalmente excluídos

O financiamento de risco no mundo chegou a US$ 158,2 bilhões no terceiro trimestre do ano. Alcançamos a marca de 848 unicórnios – 127 novos só no período, segundo a CB Insights. No Brasil, as nossas startups receberam US$ 6,9 bilhões até setembro, um crescimento, segundo a Distrito, de 190% em relação a 2020.

Os números são superlativos e evidenciam um mercado impulsionado pelas novas demandas da transformação digital. Ao mesmo tempo, trazem um desafio urgente: a necessidade de termos mais pluralidade entre os atores desse novo mundo em construção.

Quando uma área do mercado se torna mais rentável e atrativa, algo que vem acontecendo com tudo que se refere ao digital, também acaba se transformando em menos acessível para grupos que são tradicionalmente excluídos.

Vamos pensar na tecnologia, que hoje move o mundo e onde está boa parte das oportunidades de emprego no Brasil. O perfil do profissional de Tecnologia da Informação no País é: homens brancos, jovens, heterossexuais, classe média e não portadores de deficiência, revelou o estudo Quem Coda o Brasil, feito pela ThoughtWorks, em conjunto com a PretaLab. Em 21% das equipes de tecnologia do País, não há sequer uma mulher, enquanto em 32,7% dos casos não há nenhuma pessoa negra.

Nos EUA, uma potência dos investimentos de risco, as fundadoras negras e latinas receberam apenas 0,64% do investimento total de VC desde 2018. O total médio de financiamento inicial para elas é de US$ 479 mil, um quinto da média de US$ 2,5 milhões para todas as startups. Esses dados fazem parte do banco de dados do ProjectDiane.

Construir times diversos, capazes de trazer novas perspectivas para a ideação de um produto ou solução e suas estratégias de mercado, é uma habilidade de liderança do futuro. Os resultados dessa pluralidade vão além da questão social. As empresas com times inclusivos se antecipam e se preparam para mais variáveis do que grupos homogêneos de colaboradores costumam fazer.

Como investidores, quando formos definir os investimentos, precisamos pensar na inovação, no potencial dos empreendedores, no modelo de negócios da empresa e no tamanho do mercado que endereçam, e não na raça ou gênero dos fundadores. Qual será o retrato da próxima geração de empreendedores que estamos ajudando a construir, e que terá a responsabilidade de responder aos desafios da sociedade contemporânea, gerar empregos e ajudar a tornar o Brasil mais competitivo?