100 Open Startups destaca melhores startups novatas em inovação aberta

Em ano de transformação digital acelerada no Brasil, ranking teve maior competitividade; empresas se destacam em áreas como logística, mobilidade e até serviços públicos
Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Jordana Souza, cofundadora da startup Voll
Jordana Souza, cofundadora da startup Voll

Um software que ajuda assistentes sociais a registrar todos os atendimentos a famílias em necessidade. Um app capaz de fazer empresas economizarem com serviços de transporte para os funcionários – algo vital em tempos de pandemia. Uma solução de logística que ajuda grandes empresas a terem certeza de que as entregas foram feitas. Esses são alguns dos modelos de negócios por trás das empresas mais bem cotadas no ranking 100 Open Startups (confira a lista abaixo), que busca jogar luz sobre a inovação aberta – isto é, nos bons relacionamentos entre startups novatas e empresas – que acontece no Brasil, muitas vezes em escritórios e garagens no interior, bem distantes dos prédios espelhados e paredes coloridas que deram fama ao setor. 

Para participar do ranking, que é divulgado desde 2016, as startups precisam obedecer a algumas regras, como ter faturamento de até R$ 10 milhões no ano anterior e não ter recebido mais do que R$ 10 milhões em investimentos. A pontuação é baseada em uma série de fatores, mas leva especialmente em consideração os contatos e os contratos feitos entre as novatas e o setor corporativo. Segundo Bruno Rondani, CEO da 100 Open Startups, responsável pelo ranking, a disputa para participar da lista nunca foi tão alta: ao todo, mais de 1,3 mil empresas disputaram uma vaga, somando 34.677 pontos – em 2019, o total de pontos conquistados foi de 14.859.

As 10 primeiras colocadas no ranking deste ano, diz Rondani, tiveram de fazer 340 pontos. No ano passado, eram 160; há cinco anos, 18. “É muito bom ver como o ecossistema acelerou, mas especialmente de 2019 para 2020”, afirma o executivo. Segundo ele, o movimento que forçou empresas a se digitalizarem durante o período de isolamento social também chegou às startups menores – a ponto da organização decidir adiar a publicação do ranking para ter um panorama mais fidedigno das mudanças do setor. Para ele, entender como as empresas menores crescem é também um sintoma de saúde do mercado local. “A gente comemora muito os unicórnios, mas são as novatas, as empresas mais discretas, que vão gerar novas cadeias de valor na indústria e ajudar o País a se transformar,” diz. 

Na visão de Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), é interessante que o ranking privilegie os negócios como metodologia de avaliação. “No final do dia, a empresa que dá certo é aquela que gera receita, que gera vendas, não quem tem uma grande ideia”, diz.  E isso é importante especialmente no setor B2B, destacado pela lista da 100 Open Startups. “Existem muitos negócios que não são sexy, mas que resolvem dores reais. Essa é a grande sacada das startups.” 

Auxílio

A primeira colocada do ranking deste ano, por exemplo, vem do interior de Minas Gerais, tem 12 funcionários e atua em um setor que tem atenção menor entre as startups brasileiras: os serviços para o governo (govtechs). Fundada em 2013, a Gesuas é dona de um sistema que auxilia assistentes sociais e técnicos a registrarem informações sobre famílias em situação de vulnerabilidade, dando visibilidade para que gestores públicos consigam planejar melhor suas campanhas e a redistribuição de recursos. “Hoje, mais de 75 milhões de pessoas fazem parte do Cadastro Único, mas muitas vezes os gestores se sentiam cegos por não conseguirem visualizar os dados”, explica Igor Guadalupe, presidente executivo da startup, cuja sede fica em Viçosa (MG). 

Hoje, a Gesuas está em mais de 100 municípios brasileiros e atende a 3,2 milhões de cidadãos, além de 1,4 mil técnicos. Em tempos de pandemia, o sistema da empresa ajudou bastante os municípios. “Conseguimos ajudar cidades como Laguna (SC) ou Ilhabela (SP) a identificar as famílias que precisavam mais urgentemente receber auxílio”, diz Guadalupe. A fim de ajudar durante a emergência, a empresa criou uma versão simples de seu software, cedida para outras 60 cidades ao longo de 2020 – para faturar, a empresa fecha contratos com remuneração baseada no número de habitantes incluídos no Cadastro Único. “A maior parte dos contratos acaba ficando fora da margem de licitação, que tem teto de R$ 17 mil”, explica o empreendedor. 

Para Rondani, a posição da Gesuas no ranking se justifica pelo amplo acesso que a empresa conseguiu no setor público. “Negociar com uma cidade às vezes é tão difícil que com uma corporação e a Gesuas traz um exemplo importante para nós, além da função de revelar empresas que podem estar fora do radar dos investidores”, diz. É algo que Guadalupe espera ter em breve, após a divulgação do ranking: segundo ele, a empresa está com negociações em aberto para fazer sua primeira grande rodada de investimentos – o que pode ajudá-la a alcançar até 180 cidades pagantes no final de 2021. 

Igor Guadalupe, presidente executivo da startup Gesuas
Igor Guadalupe, presidente executivo da startup Gesuas

Transformação

A pandemia também fez algumas empresas ampliarem seu escopo. A belorizontina Voll, quinta colocada no ranking, foi criada em 2017 com o plano de ajudar grandes empresas a controlarem seus gastos com apps de transporte. De forma simples, o app da startup reúne um comparativo de preços de serviços como Uber, 99 e Cabify – para usar, o funcionário deve apenas colocar sua origem e destino. Na média, a empresa afirma conseguir entregar até 40% de redução de custos com transporte, além de centralizar o pagamento em uma só conta. 

Inicialmente usado para reuniões e por pessoas em cargos mais altos, o app passou a ser uma saída para empresas que precisavam manter serviços essenciais rodando durante a quarentena. “Pode parecer estranho falar de mobilidade na pandemia, com a campanha para ficar em casa, mas muitos negócios não puderam parar. Nesse momento, ajudamos com segurança e economia”, diz Jordana Souza, cofundadora da empresa, que já recebeu aportes de fundos como Wayra e Iporanga e tem hoje 250 clientes, incluindo marcas como Vivo, Heineken, McDonald’s, Pepsico e Sodexo. 

Nesta quarta-feira, a empresa dá mais um passo e lança uma solução para os clientes que vai permitir também a reserva de passagens aéreas e hotéis – em todos os casos, a empresa fatura com uma pequena taxa de comissão por cada transação realizada em sua plataforma. “Já temos até uma fila de clientes interessados”, diz Jordana, que viu a equipe de sua empresa quintuplicar ao longo do ano: começou com 20 pessoas e deve fechar em 100 funcionários. 

Efeito cadeia

Além de ajudarem na transformação digital de empresas, muitas startups presentes no ranking também ajudam seus clientes a modernizarem a atividade de parceiros e fornecedores. É o caso da Comprovei, décima colocada do 100 Open Startups deste ano: com sede em Itajubá (MG), a novata tem uma plataforma de logística que pode ser contratada por corporações para melhorar a qualidade do serviço das transportadoras – incluindo rastreamento via GPS dos caminhões e digitalização dos documentos de entrega. 

Em 2020, é a terceira aparição da mineira no ranking – e segundo Halley Takano, presidente executivo da Comprovei, a presença ajudou a empresa a crescer nos últimos anos. “Só em 2020, ajudaremos 50 milhões de entregas a serem realizadas, para 60 clientes diferentes, incluindo nomes como Basf, Aurora e Suzano”, diz o executivo. Para faturar, a empresa vende um software por assinatura, cujo preço é baseado na quantidade de viagens realizadas – a mensalidade custa pelo menos R$ 1,5 mil. 

Para Takano, aparecer no 100 Open Startups ajuda a companhia a fechar novos contratos e crescer de forma orgânica, sem precisar captar investimentos. “Nós gostamos da filosofia das startups camelo, que resistem às adversidades”, diz o executivo. Em 2021, a meta da empresa é escalar suas vendas e seguir crescendo, mas se mantendo fiel às raízes. “Somos de Itajubá e gostamos de estar aqui, ajudando a região a crescer”, afirma. É uma boa amostra de como a inovação pode acontecer em qualquer lugar. 

Confira a lista das primeiras colocadas no ranking:

1- Gesuas

2- Aevo

3- Opinion Box

4- Rentbrella

5- Voll

6- Pix Force

7- Standout

8- Rede Parcerias

9- Pris Software

10- Comprovei

11- Guiando

12- Pix Mídia

13- Incentive.me

14- Home Agent

15- Simplifica Fretes

16- Gofind

17- Mereo

18- Onfly

19- Engage

20- Descola

21- Pin People

22- Happmobi

23- Pricefy

24- Prosas

25- Everlog

Japonesa Asics busca start-ups no Brasil para programa global de aceleração

Por Bruno Rosa

Asics busca start-ups na América Latina | Bloomberg

A japonesa Asics, de artigos esportivos, quer buscar start-ups na América Latina. Para isso, está aumentando os esforços para atrair empreendedores locais para seu programa de aceleração global. A ideia da chamada é selecionar projetos que incentivem a prática de esportes, como desenvolvedores de aplicativos e de tecnologias vestíveis wearables.

-As portas estão se abrindo mais para a América Latina. Queremos buscar projetos novos – destaca ela. As inscrições vão até o dia 16. 

Bossa Nova Investimentos e Assespro vão investir R$ 5 milhões em start-ups de TI

Por Camilla Muniz

Start-ups de TI receberão cheques de, no mínimo, R$ 100 mil | Pixabay

A Bossa Nova Investimentos e a Assespro selaram parceria para investir em start-ups do segmento de TI. Há R$ 5 milhões para fazer aportes em, pelo menos, dez novas empresas, com cheque mínimo de R$ 100 mil. Na mira, estão negócios com atuação B2B e B2B2C, mais de um ano de mercado e produtos ou serviços já validados. Os selecionados ainda terão mentorias e oportunidade de fazer conexões internacionais. As inscrições estão abertas no site da Bossa Nova Investimentos.

O que acontece quando as startups vão para a garagem ou para a sala de estar

Muitas vezes fundadas dentro de um cômodo em casa, empresas inovadoras tiveram que descobrir como era trabalhar sem ter um escritório em meio à pandemia
Por Cade Metz – The New York Times

A bancada de trabalho na garagem onde David Packard e Bill Hewlett começaram a Hewlett-Packard

No Vale do Silício, é bastante comum a história da startup que nasce em uma garagem e desponta com um produto inovador. O que muita gente não esperava em 2020 é que uma pandemia forçaria as empresas a voltarem para a garagem para seguir de pé. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Colin Wessels, fundador e CEO da Natron Energy, uma startup que almeja construir um novo tipo de bateria. 

Em março, quando as ordens de distanciamento social levaram ao fechamento dos escritórios de sua empresa em Santa Clara, Califórnia, ele e seus engenheiros não podiam mais usar o laboratório onde testavam as baterias. Então, ele embalou o máximo de equipamento que pôde, colocou em uma picape, levou tudo para casa e recriou parte do laboratório em sua garagem. “Era apenas uma parte do equipamento de teste”, disse Wessells. “Mas poderíamos, pelo menos, realizar alguns novos experimentos.”

Projetar e criar novas tecnologias – tarefas nunca fáceis – tornaram-se muito mais difíceis durante a pandemia. Se no mundo do código de software já é difícil, a complexidade aumenta para empresas que fabricam baterias, chips de computador, robôs, carros autônomos e qualquer outra tecnologia que envolva mais do que algumas linhas de programação. 

Embora muitos trabalhadores americanos possam sobreviver com um laptop e uma conexão à internet, os engenheiros de startups que montam novos tipos de hardware também precisam de placas de circuito, peças de automóveis, ferros de solda, microscópios e, no final de tudo, uma linha de montagem.

Mas o Vale do Silício não é o lar da engenhosidade à toa. Quando a pandemia bateu, muitos engenheiros de startups na área, como Wessells, levaram seus equipamentos para as garagens de suas casas para que pudessem continuar inovando. E se não era a garagem, então era a sala de estar.

“Movimentamos milhões de dólares em equipamentos apenas para que as pessoas pudessem continuar trabalhando”, disse Andrew Feldman, CEO da Cerebras Systems, uma startup em Los Altos, Califórnia, que está construindo o que pode ser o maior chip de computador do mundo. “Era a única maneira de continuarmos fazendo essas coisas físicas.”

Para continuar o desenvolvimento do chip da Cerebras – um equipamento do tamanho de um prato raso – mesmo quando o escritório estava fechado, um dos engenheiros da companhia transformou sua sala de estar em um laboratório de hardware. Em meados de março, Phil Hedges preencheu a sala de 12 metros quadrados com chips e placas de circuito. Também havia monitores, ferros de solda, microscópios e osciloscópios, que analisam os sinais elétricos que viajam pelo hardware.

Para acomodar o equipamento, Hedges montou três mesas dobráveis. Ele colocou metade do equipamento nas mesas e a outra metade no chão, debaixo delas. Havia tanto aquecimento de hardware de computador funcionando dia e noite que ele também instalou resfriadores enormes para evitar que o laboratório improvisado esquentasse demais.

Em julho, ele devolveu parte do equipamento aos escritórios da Cerebras, onde agora trabalha às vezes, quase sempre sozinho. Apenas sete outras pessoas têm permissão para entrar no escritório de mais de 3 mil metros quadrados, com a maioria das outras ainda em casa com seus próprios equipamentos. O arranjo funciona bem o bastante, disse Hedges, embora ele nem sempre tenha o equipamento de que precisa, porque tudo está espalhado pelas residências de muitas pessoas.

Se tudo mais falhasse, sempre haveria a garagem

No Vale do Silício, a garagem há muito tempo tem uma espécie de aura mítica. Na década de 1990, Larry Page e Sergey Brin desenvolveram o Google em uma garagem. No final dos anos 1930, Bill Hewlett e David Packard criaram a Hewlett-Packard em outra. Hoje, o local permanece bem preservado, é conhecido como HP Garage, em Palo Alto, e às vezes é chamado de “local de nascimento do Vale do Silício”.

Agora, na pandemia, a garagem do Vale do Silício se tornou uma metáfora para o uso de qualquer espaço disponível para fazer o que precisa ser feito, disseram os engenheiros. Hedges, o engenheiro da Cerebras, disse que só levou os equipamentos para a sala porque não tinha uma garagem. “Se tivéssemos uma garagem, minha esposa me colocaria lá junto com os resfriadores”, disse ele.

Na garagem para um carro do CEO da Natron Energy, a recriação do laboratório do escritório permitiu que ele testasse baterias dentro de “câmaras ambientais” do tamanho de minifrigoríficos, que controlam temperatura e umidade. Ele disse que havia tomado conta da garagem com sua mesa de trabalho e todo o equipamento.

Em julho, novos decretos do governo permitiram que a Natron – considerada um negócio essencial porque atendia a redes de telefonia celular – levasse alguns engenheiros de volta ao laboratório, em horários alternados.

A startup também instalou softwares nos computadores que permitiram aos engenheiros acessar os equipamentos do laboratório de casa. O arranjo não era o ideal. Não era como ter o equipamento na frente das pessoas, mas funcionou, disseram os engenheiros da Natron. “É como se eu estivesse sentado lá”, disse Aaron Loar, engenheiro da Natron que ajuda a escrever o software que opera as baterias. “Mas estou um pouco cerceado.”

A Natron também voltou a fabricar baterias em uma unidade em Santa Clara, onde reorganizou a linha de montagem de modo a respeitar o distanciamento social. Ela instalou barreiras de plástico entre cada trabalhador na linha e reconstruiu o sistema de fluxo de ar do edifício. Embora a linha de montagem esteja mais lenta, ninguém testou positivo para o novo coronavírus, disse Wessells. “A equipe de engenharia não está tão rápida. A linha de fabricação não está tão rápida”, disse ele. “Mas isso é apenas o custo dos negócios durante a covid-19.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Do San Pedro Valley à B3: IPO histórico da Méliuz abre nova era para startups

Por Felipe Matos

Imagem: Evento de abertura de capital da Méliuz. Divulgação B3.

Ontem acompanhei a transmissão do IPO da Méliz na B3. Confesso que chorei, me emocionando junto com os fundadores. Como mineiro, de Belo Horizonte, assim como a Méliuz, me orgulho de ver o quanto o ecossistema de startups da cidade evoluiu. No final de 2010, eu decidi me mudar de BH para São Paulo, para fundar a primeira aceleradora de startups do Brasil, a Startup Farm. Naquela época, a capital mineira ainda não compartaria uma iniciativa com essa. Faltavam mentores, investidores e mesmo startups. Não existia San Pedro Valley – a comunidade que se formou a partir da união de empreendedores que dividiam escritório no bairro São Pedro. Praticamente não havia um ecossistema. No ano seguinte, nascia ali a Méliuz – uma startup que prometia cashback nas compras online.

Quase dez anos depois, a Méliuz é a primeira startup dessa safra a abrir capital na bolsa de valores brasileira, coroando a consolidação do ecossistema de BH, que hoje conta  diversas aceleradoras, fundos e hubs de empreendedorismo, além de uma comunidade vibrante de empreendedores e startups em diversas fases. Mais do que isso, o IPO da Méliuz é pioneiro, por ser feito no Brasil e nessa fase da empresa. A abertura de ações de empresas de tecnologia que nasceram como startups até então era considerado um evento muito raro país. Os poucos casos eram sempre de empresas ja bem maiores, com faturamento na casa das centenas de milhões, e ainda assim, dando preferência para bolsas estrangeiras, como a NASDAQ de Nova York. 

Muita coisa mudou nesse período, tanto no ecossistema de tecnologia de BH e do Brasil, quanto no próprio perfil dos investidores na bolsa nacional, que quase dobraram em número de CPFs registrados para operar na B3 durante a pandemia. Um ecossistema de startups forte e florescente, a explosão da demanda pelo digital – acelerada pela pandemia – e a baixa histórica da SELIC vêm formando uma tempestade perfeita para esse novo movimento de IPOs tech no Brasil de empresas médias e startups promissoras. Já anunciaram movimentos parecidos o e-commerce de vinhos Wine, o marketplace de produtos de segunda mão Enjoei, a rede de comparadores de preço online Mosaico, dentre outros. Soma-se a tudo isso as  reformas na lei das S.A. e nas regulações sobre abertura de capitais, que estão sendo introduzidas pelo Marco Legal das Startups, em tramitação no congresso, com o objetivo de tornar mais simples e menos burocrático a listagem em bolsa de empresas menores. Esse novo momento representa o nascimento de um mercado de liquidez para investidores de startups em estágio inicial e ao mesmo tempo, umna fonte adicional de captação de investimento para expansão de startups tech mais consolidadas, que até então, só podiam contar com poucos grandes fundos de investimento.

O IPO da Méliuz é histórico. Nele, a empresa levantou R$ 661,7 milhões. É um marco de mudança de fase do ecossistema de empreendedorismo tecnológico. Para mim, marca também um momento cheio de significado pessoal, de um nova fase na carreira e na vida. Nessa mesma semana, eu tive a honra de ser eleito o próximo presidente da Associação Brasileira de Startups. Coincidentemente, tudo isso aconteceu na semana que comecei a preparação da minha mudança de volta para Belo Horizonte. É o reinício de um ciclo, 10 anos depois, com orgulho de tudo o que foi construído até aqui e ao mesmo tempo a mesma sensação de #DayOne que o Israel Salmen, CEO da Méliuz, deixou em seu fala durante o evento da abertura da B3: estamos só no começo.

Foodtech Liv Up lança pizza para delivery na cidade de São Paulo

Com ingredientes naturais e massa com fermentação natural, a startup de comidas saudáveis quer expandir seus serviços com as cloud kitchens
Por Bruna Arimathea* – O Estado de S. Paulo

Os preços das pizzas da Brotto variam entre R$ 29,90 e R$ 44,90 e podem ser pedidas diretamente no app da Liv Up
Os preços das pizzas da Brotto variam entre R$ 29,90 e R$ 44,90 e podem ser pedidas diretamente no app da Liv Up

startup de comidas saudáveis Liv Up acaba de dar mais um passo para sua expansão de cozinhas no Brasil. A foodtech anuncia nesta quarta-feira, 4, a inauguração da Brotto, seu serviço de entrega de pizzas delivery, com ingredientes naturais e orgânicos. Inicialmente, o serviço vai funcionar apenas na cidade de São Paulo. 

A nova cloud kitchen — como são chamadas as cozinhas que não possuem um espaço de restaurante no local — se junta ao delivery de saladas da empresa, que aposta em uma alimentação saudável desde de seus produtos congelados, carro chefe da startup. Segundo Tatiana Lanna, chefe da divisão de cozinhas da Liv Up, a ideia do delivery de pizza surgiu para alternar com as saladas, que tinham bom desempenho de segunda a sexta, mas não atendiam ao gosto dos clientes no final de semana. 

“O modelo de cloud kitchen tem um grande diferencial que é gerar várias marcas dentro de um mesmo restaurante. Isso te permite trabalhar por horários de consumo”, afirma Tatiana, em entrevista ao Estadão. “Salada é uma coisa que vende super bem de segunda à sexta-feira. Conversando com os nossos clientes, e porque estamos em São Paulo, a gente sabia que a pizza poderia fazer sentido”.

Para viabilizar a operação, a empresa decidiu dividir os horários de suas cozinhas. Assim, as pizzas podem ser encontradas de quarta-feira a domingo, em porções individuais, com 25mm de diâmetro e massa de fermentação lenta. Nas opções, é possível encontrar combinações clássicas como a tradicional quatro queijos, além de versões próprias da casa, como a pizza de abobrinha, gorgonzola e mel. Os preços variam entre R$ 29,90 e R$ 44,90 e podem ser pedidas diretamente no app da Liv Up. 

Para desenvolver os sabores, Tatiana conta que a empresa contou com profissionais e com a ajuda de produtores, para oferecer a garantia de ingredientes saudáveis e orgânicos. As pizzas com calabresa da Brotto, por exemplo, estão no menu graças a uma receita desenvolvida especialmente para a foodtech, para permitir que o produto não tenha aditivos como conservantes.

Nascida na pandemia

Apesar de ter toda a sua operação de cloud kitchen concentrada no período de pandemia — com operação desde 2016, a Liv Up fez sua estreia nas cozinhas apenas alguns dias depois do início das restrições — Tatiana afirma que o crescimento, de dois dígitos todos os meses, demonstra a força do setor no mercado para o ano que vem e aposta que o delivery veio para ficar na empresa.

“A gente tem uma expectativa bem alta de faturamento para 2021, quando a categoria vai estar realmente estabilizada. A pizza é uma categoria que vai fazer muito sentido não só para agregar valor ao consumidor mas também para dentro das estratégias dessas cozinhas para conseguir alavancar esse negócio”, explica. 

Com quatro cozinhas em São Paulo, a foodtech pretende também expandir para outras capitais no ano que vem. Em planos de crescimento, a empresa está focada em aumentar a abrangência e o cardápio de produtos, com novas opções saindo do forno já em março do ano que vem. 

“A cloud kitchen só faz sentido se você trabalha várias culinárias, porque você acaba tendo uma eficiência em termos de custos dentro do negócio que faz muito mais sentido para um restaurante. Provavelmente vamos ter mais cozinhas em São Paulo e também vamos expandir para outras regiões que também fazem sentido em 2021. Não só por meio de uma expansão regional, mas também com outras marcas”.

Ecossistema masculino no mundo tec opera contra negócios liderados por mulheres

Empreendedoras relatam dificuldades até para acessar investidores num ambiente onde homens controlam redes de contatos
Luiza Pastor

Paula Crespi e Flavia Deutsch Goffryd, fundadoras da Theia
Paula Crespi e Flavia Deutsch Goffryd, fundadoras da Theia – Divulgação

O criador de startups no Brasil tem um perfil bem definido. Cerca de 85% são criadas por homens brancos de classe média, segundo dados da Abstartups (Associação Brasileira de Startups). Um número cada vez maior de mulheres tenta ganhar espaço dentro deste ecossistema -e não é fácil. Mesmo mulheres que furam a bolha relatam dificuldades, como o acesso a investidores.

Entre elas estão Paula Crespi e Flavia Deutsch Goffryd, fundadoras da Theia, uma femtech -como são chamadas empresas de tecnologia focadas na saúde da mulher- voltada a ajudar pais, mães e empresas a conciliarem gestação com a vida profissional.

“Nos conhecemos fazendo MBA em Stanford”, conta Goffryd. “Todos os homens de nossa turma foram empreender logo de cara e nós mulheres entrávamos no máximo como braços direitos dos fundadores, todos brancos com menos de 50 anos.”

Foi na universidade norte-americana que ela notou outro detalhe: embora tivessem os mesmos acessos e iguais condições, eram os homens que avançaram mais rápido porque todo o ambiente empreendedor era organizado e controlado por homens.

“É um mercado em que ter uma rede de contatos é extremamente importante, tem que conhecer pessoas que te apresentem aos investidores, a outros empreendedores que possam te mentorar”, explica Crespi. “Homens puxavam homens e o network [rede de contatos] das mulheres, o acesso aos investidores, ficava muito reduzido.”

A Theia surgiu com a intenção de mudar esse cenário. As fundadoras contam que, desde o primeiro momento, fizeram questão de que até os investimentos viessem em igual proporção dos cofres de homens e mulheres.

“Levamos muito mais tempo para levantar o capital, porque o normal era que um investidor indicasse outro amigo investidor e nós buscávamos mulheres”.

No final, conseguiram manter o equilíbrio, mesmo tendo puxado para o ecossistema mulheres que, em sua maioria, nunca tinham sido investidoras-anjo -aqueles que apostam primeiro em ideias promissoras.

Entre as investidoras que a Theia encontrou, uma delas é a Maya Capital, fundo de venture capital focado na América Latina fundado pelas empresárias Laura Lemann e Mônica Saggioro.

“Uma das teses que mais me interessavam era como levar mais mulheres para cargos de liderança”, conta Saggioro. “Vimos que havia um fosso muito grande de investimentos para mulheres na América Latina, havia um grande volume de talentos mas o total de fundos não crescia na mesma proporção, o que nos levou a criar a Maya”, explica.

Mônica Saggioro e Lara Lemann, sócias da Maya Capital
Mônica Saggioro e Lara Lemann, sócias da Maya Capital, fundo de venture capital que busca mulheres empreendedoras – Divulgação

Ela conta que uma das iniciativas mais relevantes voltadas para a mulher foi a criação do Female Force Latam, que mantém plataformas de mentorias específicas para mulheres e quer expandir para outras minorias.

O fato de serem mulheres em um universo dominado por homens é, segundo Lemann, um diferencial positivo.

“Sermos mulheres nos ajuda em três momentos”, explica. “Primeiro, na aquisição de talentos para os pitches [eventos de apresentação de startups], pois acabamos atraindo mais mulheres que buscam a diversidade de investidores. Depois, na análise de negócios, temos uma visão que não é igual porque simplesmente temos experiências de vidas diferentes. E terceiro, nosso próprio portfólio, não olhamos só para o retorno ou a escala que o negócio vai ter no curto prazo, mas como ele pode trazer esse retorno para a Maya, os investidores e o ecossistema, é uma visão mais holística que tem nos trazido bons resultados”.

Atualmente, 40% das startups do portfólio da Maya são fundadas ou cofundadas por mulheres –e a intenção é chegar a 50%.

Uma iniciativa que tem conseguido crescer nesse ambiente é o de Nathalia Secco, musicista de uma família de produtores goianos que deixou o canto lírico para fazer MBA também em Stanford.

Hoje, sua ligação com a música ficou no nome do Orchestra Innovation Center, centro de inovação para o agronegócio apresentado com a meta de “transformar Goiás no novo polo de agtechs do país” -as empresas voltadas para a agricultura.

Nathalia Secco, fundadora do Orchestra Innovation Center, centro de inovação para o agronegócio
Nathalia Secco, fundadora do Orchestra Innovation Center, centro de inovação para o agronegócio – Divulgação

“Sempre busquei ciência dentro da música, por isso fui fazer o MBA”, conta ela. “Ser mulher nesse meio não é fácil, as barreiras culturais ainda são grandes”.

Secco diz que os problemas começam no fato de levar um produto que o mercado tradicional local não conhece. “Tivemos que fazer todo o trabalho de comunicação, de evangelização do ecossistema, e isso assusta um pouco”.

Segundo ela, onde encontra maior receptividade para seu trabalho é justamente entre as mulheres que atuam no agronegócio.

“São elas as que mais abrem as portas para a inovação, elas acreditam mais do que os homens, têm maior propensão ao risco”, avalia. Os bons resultados obtidos, explica, acabam por convencer os homens de que ali há boas ideias. “Quando veem que entendemos as dores deles e que queremos realmente ajudá-los, eles começam a confiar cada vez mais.”

A desconfiança inicial de parceiros ou investidores é algo que Fernanda Checccinato, presidente da Aya Tech, conhece bem. Engenheira química apaixonada por pesquisa, fez cursos na França e no Japão e, ao voltar ao Brasil, conta que precisou tirar informações do currículo para tentar vagas em seu mercado de trabalho, por causa do excesso de qualificação, que intimidava possíveis empregadores.

Quando encontrou trabalho como pesquisadora em uma empresa metalúrgica, um ambiente predominantemente masculino, sofreu todo tipo de boicote.

“Me trancavam no laboratório, diziam que não aceitavam ordens de mulher, arranhavam meu carro no estacionamento”, lembra ela.

Finalmente, em 2010, resolveu sair e fundar a startup que, hoje, produz biorrepelentes. O produto teve um aumento de 140% nas vendas entre janeiro e julho deste ano.

“No mercado das startups me sinto muito mais confortável”, afirma Secco. “Claro que acontecem comportamentos não desejáveis, como um investidor que torce o nariz quando vê que você é mulher à frente da empresa ou um mentor nos programas de aceleração que te subestima dizendo que falta o pulso masculino, mas vamos fazendo nosso trabalho muito bem feito, incentivando outras mulheres a empreenderem e porem suas empresas em prática”, completa ela.

‘A falta de gente boa é a maior ameaça ao futuro das startups’, diz Daniel Bergamasco

No livro ‘Da Ideia ao Bilhão’, lançado nesta semana pela Portfolio Penguin, jornalista reúne as histórias por trás dos primeiros unicórnios brasileiros; para ele, é preciso investir urgentemente em mão de obra qualificada
Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Gestão. Para Bergamasco, maneira das startups de lidar com funcionários pode ser exemplo para qualquer empresário

Com quantos bits, ideias e cafés se faz uma startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão? Quem quiser descobrir a resposta brasileira para uma das perguntas mais feitas no mercado de tecnologia pode ler o livro Da Ideia ao Bilhão, lançado nesta semana pela Portfolio Penguin. Escrito pelo jornalista Daniel Bergamasco, o volume conta as histórias por trás de empresas como Nubank, iFoodEbanxStone QuintoAndar, com direito a detalhes biográficos, ensinamentos de negócios e bom humor. 

“O livro mostra o jeito brasileiro de fazer inovação, que é diferente do que se faz no Vale do Silício, com menos dinheiro e mais cautela. Também é uma forma de mostrar quem trouxe a primeira pavimentação da nova economia, com lições que servem para qualquer tipo de empresa”, diz Bergamasco, que escreveu o trabalho ao longo do último ano. 

Segundo ele, foi preciso fazer um recorte na quantidade de empresas retratadas para que o trabalho não se tornasse infinito – e é por isso que empresas como Wildlife, Loft e Vtex, que alcançou o status de unicórnio nesta semana, não aparecem diretamente no livro. Mais do que apenas fórmulas, Da Ideia ao Bilhão traz histórias de gente real, diz o autor – um dos destaques do livro é o capítulo dedicado a Monique Oliveira, fundadora trans da gigante Movile. Outras boas histórias aparecem na oferta de aquisição de uma gigante chinesa à Ebanx e no processo seletivo de trainees da Stone, com toques do filme Tropa de Elite

Ao Estadão, Bergamasco conta detalhes do livro e explica que lições qualquer empresário pode tirar do livro. “Nenhuma das startups tem tecnologia revolucionária, mas sim inovações nos modelos de negócios, que é algo útil para qualquer empresa”, diz o autor. Ele também fala sobre a importância da diversidade entre as brasileiras, algo ainda em falta, e afirma que é preciso urgentemente cuidar da mão de obra qualificada – em sua visão, o maior gargalo para o crescimento das empresas brasileiras no futuro próximo. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Por que escrever um livro sobre os unicórnios brasileiros? 

Na minha carreira como jornalista, eu me encontrei na área digital, mas me incomodava como a conversa na área de inovação era excludente e difícil. Era difícil entender quais empresas tinham modelos de negócios com inovação real e quais lugares tinham só uma parede grafitada e usavam muitos termos em inglês. Resolvi estudar para entender a diferença, fui fazer um MBA em inovação. Quando comecei a pesquisar as startups brasileiras, descobri que poderia render um bom livro. São empresas que já transformaram o consumo no Brasil, tem um impacto grande e um jeito brasileiro de fazer as coisas. Não é algo do avesso ao Vale do Silício, mas é diferente: é mais cautelosa, não queima tanto dinheiro. Achei que era hora de entender a inovação brasileira, o que nós somos capazes de fazer. E como repórter, acredito que minha melhor contribuição é olhar por trás da cortina, vendo as pessoas de carne e osso que construíram essas empresas. 

Por que esse aspecto humano é importante? 

As empresas são muito boas de montar um PowerPoint com a sua história, mas elas são abstrações. Contar as histórias pessoais ajuda a aproximar do leitor, com angústias, erros e inseguranças. Tem gente que se acidenta de paraquedas, tem gente que planejou a carreira inteira na adolescência, acredito que é a melhor forma de falar das empresas. E pude contar histórias como a da Monique Oliveira, fundadora da Movile. Achei importante mostrar que a Cristina Junqueira, do Nubank, não é a única fundadora mulher – até porque é um meio que ainda não tem muita diversidade entre os fundadores, praticamente são todos homens e brancos. A Monique é uma pessoa fundamental da história da Movile, ela traz a tecnologia para a nTime, que é uma das empresas que vão dar origem ao grupo. Poder mostrar a história dela, o processo de transformação, a ligação com o computador, é algo muito bacana. 

Além da questão de representatividade, porque a diversidade é um valor importante? 

Vou fazer uma analogia. Não existe um ecossistema se você só tem bromélias ou joaninhas. É preciso ter seres diferentes. No ecossistema de startups, é a mesma coisa: é preciso ter empresas, universidade, governo, empresas tradicionais, é uma relação. Dentro das empresas, muitas delas criadas para empregar muita gente, é preciso a mesma coisa. O grande pulo do gato dos unicórnios é moldar o modelo de negócios em torno do que o cliente quer. Se você só tem um tipo de gente pensando nisso, as empresas perdem demais. Elas precisam de pessoas diferentes. Em alguns aspectos, está melhorando: já existe mais diversidade de gênero e etária entre os fundadores, por exemplo. Já outros aspectos da diversidade ainda são pouco contemplados – não existe nenhum negro entre os fundadores dos unicórnios brasileiros, por exemplo. 

O que é possível aprender com as startups? 

Acho que o livro oferece alguns aprendizados, não necessariamente digitais. Nenhuma dessas empresas criou uma tecnologia revolucionária. Algumas têm tecnologia aprimorada, em outras a tecnologia é secundária. A inovação aparece sim no modelo de negócios. E há lições importantes para áreas como gestão de pessoas. Eu nunca fui convidado para opinar sobre os meus chefes, como acontece na Arco Educação. É algo que faz sentido numa cultura em que as pessoas buscam sempre evoluir. A maneira como as pessoas lidam com gente, com cultura, também é importante, é onde está a maior novidade. E isso pode ser útil para qualquer empresa, até mesmo uma loja de material de construção no interior do Brasil. E a empresa, principalmente entre as grandes, que não prestar atenção nos unicórnios ou nas comunidades de startups brasileiras, vai ficar para trás. 

As startups brasileiras triunfaram em um momento de crise local. Agora, porém, além da continuidade da crise por aqui, há um cenário de crise global. É um problema para o setor? 

É difícil prever. Pode se restringir a quantidade de investimentos, ficar mais difícil. Mas ao mesmo tempo, vivemos um ano que acelerou muito a necessidade de negócios digitais.O consumidor está mais aberto para várias experiências. Além disso, é preciso dizer que a maioria das empresas foi fundada de 2012 para cá, elas não sabem o que é trabalhar com vento favorável. Claro que tem muita coisa contra agora, mas essas empresas prosperaram em tempos de crise. E se o potencial da startup é medido de acordo com o problema, o Brasil só pode ser um prato cheio. Acredito que estamos apenas no começo dessa transformação de inovação. E que vai mudar todas as empresas. Um exemplo é o fato da Via Varejo contratar o Helisson Lemos, que foi do Mercado Livre e da Movile, e deixar a área de pessoas sob o comando dele. É uma transformação cultural. Também é preciso ressaltar que há comunidades pipocando em todos os lugares do Brasil, formando talentos e disseminando conhecimento. 

Qual é o principal desafio ou ameaça das startups brasileiras hoje? 

Mão de obra qualificada. Hoje, já existe escassez de desenvolvedores em São Paulo, outras cidades sofrem com a falta de profissionais de inovação. Além disso, há uma fuga de profissionais para o exterior. As empresas estão buscando caminhos para contornar isso, permitindo que o funcionário more fora, abrindo escritórios de tecnologia no exterior. Mas ainda assim, a demanda é gigante: com a digitalização, as empresas tradicionais vão competir pela mão de obra. Não vai dar tempo de formar tanta gente boa se nada for feito com urgência. Mais do que capital, falta de gente boa é a maior ameaça para o futuro das startups. E isso precisa passar por política pública, pela valorização da universidade pública. Em todas as universidades públicas surge muita inovação. Os unicórnios brasileiros não seriam os mesmos sem a USP e a Unicamp, por exemplo. É preciso olhar para a universidade como algo estratégico, ter políticas públicas para formar pessoas capacitadas para trabalhar com inovação. 

A nova geração de startups latinas que quer alçar voo no Brasil

Empresas de países da região entram no País com mercado gigante na mira e com Mercado Livre e Rappi como inspiração
Por Giovanna Wolf – O Estado de S.Paulo

Aplicativo Wabi, comandado por Carla Papazian no País, aposta em entregas de comércio de bairro em até 15 minutos

Seja pelas dimensões continentais ou pela quantidade de gente, poucas são as startups brasileiras que já são criadas olhando para todo o continente americano – o mais comum é que a atuação se limite às fronteiras nacionais. Mas a recíproca não é verdadeira:  inspiradas pelo exemplo da argentina Mercado Livre e, mais recentemente, da colombiana Rappi, uma nova geração de startups latinas têm chegado ao Brasil nos últimos tempos, de olho em fazer do País não só uma base para o crescimento, mas também seu maior mercado. 

Uma delas é a argentina Wabi, dona de um aplicativo de delivery que pode ser definido como “Rappi de bairro”, com foco em pequenos comércios, como mercadinhos, padarias e lojas de conveniência. Fundada em 2019 e já presente em 13 países, a empresa abriu sua operação no Brasil em março, após ter sido impulsionada pela Coca-Cola em seu país de origem. Por aqui, já tem cerca de 800 estabelecimentos parceiros no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas os planos são grandes.  

“Hoje, o México representa quase 40% da nossa operação mundial. Mas pelo tamanho e pelo potencial do mercado brasileiro, a expectativa é de que o País represente 70% do mercado global da Wabi em 2021”, disse Carla Papazian, gerente da Wabi no Brasil, em entrevista ao Estadão — a executiva argentina se mudou para São Paulo no ano passado para administrar a operação do app. Para se diferenciar de concorrentes como iFoodUberEats e a própria Rappi, a Wabi aposta em entregas superlocais, de até 15 minutos, feitas pelos próprios estabelecimentos de bairro. 

Não há cobrança de taxas de entrega nem custo para os lojistas – por enquanto, a operação é sustentada por dinheiro de investimentos, mas a meta é fechar parcerias com empresas de bens de consumo a médio prazo. Outro diferencial está na forma do pedido ser realizado: ao entrar no app, o usuário escolhe os produtos que deseja, e, em seguida, a plataforma envia um alerta para os estabelecimento próximos — a loja que aceitar o pedido será responsável pela entrega.  

Para Gilberto Sarfati, coordenador do mestrado de gestão e competitividade da FGV, é natural que startups latinas olhem para o mercado brasileiro. “O Brasil é um mercado gigantesco para elas, além de ser próximo fisicamente e culturalmente”, diz. “Muitas vezes, as operações brasileiras dessas empresas acabam se tornando maiores que a atuação no próprio país de origem, como é o caso do Mercado Livre.”

‘¡Hola!’

No caso da mexicana Yalochat, o Brasil é particularmente atrativo por ser um dos maiores consumidores de WhatsApp do mundo — a startup oferece uma plataforma para companhias personalizarem o atendimento de seus consumidores por meio de apps de mensagens como WhatsApp, Facebook Messenger e WeChat, sem a necessidade de download de um novo aplicativo. A empresa começou a operar no Brasil há um ano e meio. 

Em agosto, a empresa ganhou um reforço “local”: um aporte de US$ 15 milhões liderado pelo fundo B Capital Group, de Eduardo Saverin, o brasileiro cofundador do Facebook. Entre outros planos, parte do dinheiro será usado para a expansão da operação no Brasil, que já conta com clientes como a Femsa – lá fora, a empresa é parceira de marcas como Nestlé e Burger King. 

“O Brasil é uma das nossas prioridades. Vemos que o País está se digitalizando muito, mas o movimento não acontece em todo lugar”, diz Javier Mata, CEO da Yalochat. “Ainda há muito espaço para democratizar o uso de tecnologia e permitir que todo mundo que tem  WhatsApp, que é uma ferramenta acessível, consiga usar serviços digitais”, afirma o executivo, que diz estar estudando português. 

Na visão de Guilherme Fowler, professor de empreendedorismo do Insper, a pandemia também está acelerando os planos dessa nova geração de startups latinas. “Com a crise e a desaceleração das economias nacionais, a base de consumidores dentro desses países acaba não se expandindo como as empresas gostariam”, afirma. “Vir para o Brasil é um caminho para buscar novos clientes.”

Inspiração

As trajetórias do Mercado Livre e da Rappi também funcionam como um exemplo para essas empresas, afirmam especialistas – algo que é visto com bons olhos pela colombiana. “Acredito que passamos a inspiração de que o Brasil é um país com muita oportunidade e que gosta de tecnologia e inovação”, diz Sérgio Saraiva, presidente do Rappi no Brasil. 

Porém, apesar do potencial, o processo de conquistar um novo mercado não é simples: segundo os especialistas ouvidos pelo Estadão, diferenças na legislação e nos costumes podem ser entraves para as latinas aqui. Além disso, lidar com malha tributária brasileira e até mesmo a desvalorização cambial atual podem desanimar os novatos. 

Para deslanchar no Brasil e superar esses problemas, a startup de logística Liftit aposta em parcerias com empresas brasileiras – caso da aliança com a TruckPad, por exemplo, para ter acesso à uma rede de caminhoneiros. Outra parceria que está sendo costurada para breve é com a Loggi. Fundada em janeiro de 2017 na Colômbia, a Liftit tem 40 funcionários em São Paulo e mais dois no Rio de Janeiro, além de clientes como Renner e Danone, interessadas na solução de transporte de “última milha” da empresa. 

Quem também aposta no conhecimento de parceiros locais é a chilena Cornershop, que faz entregas de produtos de mercado. Comprada pelo Uber em outubro de 2019, a empresa começou a operar discretamente no Brasil em janeiro. “Esperamos que o Brasil daqui a pouco tempo seja o nosso principal mercado pelo menos na América Latina. Para nós, o Brasil é um mercado-chave não só pelo tamanho, mas também porque a adoção do usuário é muito grande”, diz Felix Lulion, diretor de expansão da Cornershop

Para Guilherme Fowler, do Insper, o desempenho das startups latinas no País pode trazer respostas interessantes – não só para as empresas, mas para o ecossistema brasileiro. “Se elas forem bem sucedidas, será um sinal de que o mercado nacional é dinâmico e aberto, mesmo em tempos de crise.”