Empreendedores contam como recomeçar após fim de startups

Apesar do infortúnio gerar frustração a muitos empreendedores, ele pode ser o início de um negócio de sucesso
Por Luiza Dalmazo – O Estado de S.Paulo

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Tiago Dalvi criou startup depois de várias tentativas

Na noite de 1º de maio deste ano, o carioca Bernard De Luna, de 33 anos, não dormiu. No mês que sua startup Bunee, que operava uma plataforma para conectar profissionais de tecnologia, registrou seu melhor faturamento e recebeu duas propostas de investimento, ele e os outros fundadores decidiram fechar a companhia. Os resultados, eles concluíram, não eram suficientes. “Não preguei os olhos e chorei pensando que teríamos de comunicar a todos”, lembra De Luna. “Eu ganhei algumas batalhas, mas perdi a guerra. Essa história ninguém quer contar.”

Mas De Luna contou e isso fez bem para ele. Depois de anunciar ao mercado, conversar com empreendedores e com a família, ele entendeu que não era uma questão de incompetência. No mês seguinte, decidiu aceitar uma proposta de emprego no site de conteúdo QConcursos. “Depois de tirar um tempo para sofrer, com o coração limpo e energizado, assumi um novo desafio”, escreveu numa carta, há duas semanas.

Contar ao mundo que está fechando as portas de uma startup é algo comum nos Estados Unidos, mas não no Brasil. Em geral, quem vive nos EUA sabe que é muito difícil alguém acertar na primeira, como fez Mark Zuckerberg ao criar o Facebook, o mais comum é seguir uma trajetória parecida com a de Jeff Bezos, fundador da gigante de e-commerce Amazon, que criou várias empresas que quebraram antes de obter sucesso.

Aqui, os empreendedores ainda se sentem desconfortáveis ao falar sobre fracasso. “Ainda existe no Brasil a cultura de só falar da falha depois que já existe algo melhor para se apresentar”, diz Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Não existem dados oficiais, mas investidores e empreendedores dizem que a cada dez startups criadas nos EUA, nove morrem. Parece um prognóstico ruim, mas há estudos que mostram que fracassar é bom. A professora de negócios da Universidade de Stanford, Kathryn Shan, analisou o histórico de quase 3 milhões de empreendedores em 2014 e descobriu que é mais fácil ter uma empresa de sucesso quanto mais empresas o fundador tiver criado – mesmo se elas tiverem falido.

O curitibano Tiago Dalvi, 32 anos, falhou quatro vezes antes de criar sua startup atual, a Olist, uma plataforma que distribui anúncios em sites de e-commerce. Aos 19 anos, abriu uma loja num shopping. Depois uma distribuidora e, na terceira tentativa, um site que aproximava consumidores de vendedores de produtos artesanais. “O aprendizado oriundo dos equívocos cometidos em cada etapa foi fundamental para chegar onde estamos hoje”, diz Dalvi.

Em 2014, após sua terceira empresa receber investimento do fundo 500 Startups, ele passou uma temporada na Califórnia e decidiu fazer uma reviravolta no negócio, dando origem à empresa atual. “Eu já estava cansado de errar.”

A virada funcionou e, hoje, a Olist tem 160 funcionários e 3,5 mil lojistas vendendo seus produtos em sites como MercadoLivre, Submarino e Extra. “Empreender é um exercício de humildade. A cada mudança no negócio você chora, não vê saída”, diz Dalvi. O importante, segundo ele, é expor as inquietações para mentores e bons amigos.

Luto. Em geral, os empreendedores demoram demais para admitir que seus negócios deram errado e muitos ficam de luto, segundo o psiquiatra e psicólogo americano Michael Freeman, que atende muitos fundadores de startups. “Muitos sentem vergonha, raiva, depressão e falta de esperança”, afirma. “A melhor forma de lidar com essas emoções é antecipar a possibilidade de o negócio falhar antes de começar.”

Para especialistas, embora o mote “falhar rápido e falhar com frequência”, popular no Vale do Silício, soe bonito na teoria, na prática é diferente. “Ninguém gosta de falhar”, diz Thomas Koulopoulos, presidente da consultoria Delphi Group. “O importante é estabelecer limites para o negócio, aprender as lições e seguir em frente.”

Dar um tempo a si mesmo para refletir é a melhor saída, segundo os especialistas. Foi o que fez o pernambucano Antônio Inocêncio, de 31 anos. Ele empreendeu pela primeira vez em 2009, quando ainda estava na faculdade. Após dois anos, a empresa de entrega de ingressos por mensagens de texto (SMS) ainda não gerava receita e, quando o primeiro aporte se esgotou, fechou as portas. “Entrei em um MBA de gestão de negócios para não parar”, diz.

Na segunda tentativa frustrada de startup, dessa vez na área de análise de mídias sociais, ele já sabia que queria ser empreendedor e não foi procurar emprego após fechar a empresa.

Agora, Inocêncio está a frente da Nazar, startup que monitora o desempenho de bancos de dados na nuvem e que tem como principal cliente a Amazon Web Services (AWS). A empresa faturou R$ 500 mil em 2017 e planeja dobrar o valor em 2018, com a ajuda de parceiros.

Inocêncio avalia que fechar as portas de uma empresa é como viver o fim de um relacionamento: logo que acontece, a pessoa normalmente fica triste e lamenta, mas depois de um tempo percebe que saiu da relação mais forte do que entrou. “E o melhor: começa o próximo sem cometer os erros de antes”, diz.

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Startups de mulheres geram mais receita a longo prazo

Empresas fundadas por mulheres faturam o dobro por dólar investido do que as criadas por homens, aponta estudo do Boston Consulting Group
Por Carolina Ingizza – O Estado de S. Paulo

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Pulso. Fabíola Paes, da Neomode, acredita em movimento positivo de empreendedoras

Startups fundadas por mulheres recebem muito menos investimento que as criadas por homens. Ainda assim, as empresas lideradas por elas dão um retorno maior em receita no longo prazo do que as comandadas por eles. Essa é a conclusão de um novo estudo realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), em parceria com a MassChallenge – rede de aceleradoras norte-americana que oferece mentoria e recursos para startups –, e obtido com exclusividade pelo Estado.

Ao analisar 350 empresas que foram aceleradas em programas do MassChallenge, sendo 258 fundadas por homens e 92 criadas por mulheres, o BCG observou que as empresas com fundadoras do sexo feminino receberam, em média, US$ 935 mil em investimentos. Enquanto isso, as companhias fundadas por homens receberam US$ 2,1 milhões, em média, em aportes de capital de risco.

Em longo prazo, porém, elas geraram maior receita, apesar do baixo investimento inicial. Segundo o BCG, as companhias cofundadas por mulheres geraram 10% mais em renda acumulada num período de cinco anos: foram US$ 730 mil contra US$ 662 mil, no caso dos homens. Em outras palavras, a cada US$ 1 investido na empresa, as mulheres geraram US$ 0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: US$ 0,31.

Disparidade. Se as empresas fundadas por mulheres geram maior resultado, por que elas não conseguem levantar cifras similares às obtidas pelos empreendedores? Há vários fatores envolvidos, de acordo com o relatório, como o machismo.

Segundo o estudo do BCG, empreendedoras são mais questionadas se têm o conhecimento técnico básico para liderar o negócio. “Os investidores simplesmente presumem que as mulheres fundadoras não têm esse conhecimento”, diz o BCG, no estudo.

Nas apresentações feitas aos investidores, esse não é o único entrave. Elas também são olhadas com desconfiança, por não responderem diretamente à críticas. Outro fator está relacionado à ousadia: enquanto os homens fazem projeções mais arriscadas, as mulheres são mais conservadoras.

A falta de familiaridade dos capitalistas de risco com os segmentos em que algumas delas atuam, como cuidados infantis e beleza, por exemplo, prejudica a obtenção de dinheiro.

Otimismo. Apesar dos desafios, a situação tem melhorado, segundo a empreendedora carioca Fabíola Paes, de 34 anos, que fundou a startup Neomode em 2016. A empresa usa tecnologia para conectar canais físicos e digitais do varejo. “É preciso ser muito firme, mas vejo um movimento positivo de empreendedoras”, conta.

Sob sua liderança, a Neomode conseguiu R$ 100 mil em investimento da fabricante de cosméticos L’Oréal em 2016. Desde então, a empresa já levantou sete investimentos anjo e tem 15 clientes ativos, dentre eles a fabricante de cosméticos O Boticário. “Até agosto, pretendemos fechar uma nova rodada e levantar entre R$ 1 milhão e R$ 3 milhões”, revela a executiva. A meta é chegar a 40 clientes até o final do ano.

Exemplos como o de Fabíola mostram que o cenário está começando a mudar para as mulheres. “Esse número de fundos e investidores anjo que investem em mulheres vai melhorar quando tivermos mais empreendedoras prontas para desenvolver soluções que se conectam com essas oportunidades de negócios escaláveis”, diz Danieli Junco, fundadora da aceleradora B2Mamy, que apoia mães empreendedoras.

Já para Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), aumentar a presença de investidoras no ecossistema é fundamental para mudar a realidade. “É uma questão de empatia, já que homens e mulheres têm jornadas diferentes”, diz. “Se na frente da empreendedora estivesse uma mulher investidora, talvez ela se identificasse mais e investisse no projeto.”

Quem já investiu em mulheres, reconhece a boa gestão das startups. “Até prefiro trabalhar com empreendedoras, pois elas costumam ter um foco maior”, diz Mike Ajnsztajn, fundador da aceleradora brasileira Ace. “Elas conseguem lidar melhor com as várias tarefas concomitantes de uma startup.”

Fundos ‘gringos’ ajudam startups brasileiras a decolar

Número de aportes estrangeiros no País disparou em 2017 e tem ajudado empreendedores a acelerar crescimento

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Vinícius Roveda, da startup Conta Azul, teve ‘ajuda’ do fundo americano 500 Startups

O catarinense Vinícius Roveda tentou colocar a startup Conta Azul de pé pela primeira vez há dez anos. Naquela época, ela oferecia um “rascunho” do produto atual, um software de gestão de pequenas empresas vendido por assinatura. Mas os fundadores desistiram da ideia quando perceberam que o produto não estava “pronto”. Tentaram outra vez em 2010 e deram com os burros n’água. “Percebemos que a única forma de a empresa dar certo era investir pesado”, explica Roveda, hoje presidente executivo da Conta Azul. A saída foi buscar investimento de grandes fundos estrangeiros, estratégia que tem ganhado cada vez mais força entre as startups brasileiras.

Startup MaturiJobs reúne vagas para ‘cinquentões’

MaturiJobs também tem como objetivo fomentar o empreendedorismo acima dos 50 anos para manter profissionais ativos no mercado

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Inspirado na avó, Mórris Litvak criou a MaturiJobs. Foto: Gabriela Bilo/Estadão 

O trabalho voluntário em uma casa de repouso e o exemplo da avó, Dona Keila, que atuou como secretária e tradutora até os 82 anos, foram as principais inspirações do engenheiro de software Mórris Litvak para criar a MaturiJobs em 2015. A empresa tem como objetivo recolocar pessoas acima dos 50 anos no mercado de trabalho ou ajudá-las na missão de abrir o próprio negócio.

“Quando a minha avó parou de trabalhar, a saúde dela degringolou. Pensei então que poderia criar um negócio nessa área, para ajudar as pessoas acima dos 50 anos a voltar ao mercado de trabalho. Enxerguei esta oportunidade também pela possibilidade de criar impacto social”, conta Litvak.

A visão do empreendedor sobre a dificuldade enfrentada pelos profissionais maduros para se recolocarem no mercado de trabalho é real. A pesquisa ‘Envelhecimento nas Organizações e a Gestão da Idade’, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que as companhias avaliam que esses profissionais têm dificuldade de adaptação às novas tecnologias, falta de agilidade, menor criatividade e dificuldade de reconhecer lideranças entre os profissionais mais jovens.

A pesquisa – que ouviu 140 empresas – constatou que a maioria não adotava qualquer prática para integrar seus profissionais de diferentes gerações, o que irá se tornar um problema corporativo no médio prazo. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), aproximadamente 57% da população brasileira em idade ativa será composta por pessoas com mais de 45 anos em 2040.

Barreiras. A resistência das empresas em contratar pessoas acima dos 50 anos foi a primeira dificuldade encontrada por Litvak. “Logo percebi que, do lado corporativo, havia muita resistência, não só pela crise econômica, mas também porque o preconceito etário é forte.”

Após iniciar o negócio de forma “manual”, como ele mesmo define, em 2016 a MaturiJobs lançou sua plataforma online e, no mesmo ano, começou a cobrar pelos serviços oferecidos apenas para as empresas.

“É possível que as companhias publiquem vagas de forma gratuita e simples, mas se quiserem que o anúncio seja mais efetivo e alcance mais pessoas, ele é pago.”

Atualmente são 70 mil profissionais de todo o Brasil cadastrados e 680 empresas já utilizaram a plataforma desde o início do negócio. Os usuários podem se cadastrar e utilizar os serviços sem custo.

Visão. Com o passar do tempo, Litvak percebeu que, apesar de ter automatizado os processos, o número de vagas anunciadas ainda era baixo. “As empresas que contratam são poucas e o número de profissionais se cadastrando crescia em um ritmo rápido e de forma orgânica. Entendi que não dava para focar o negócio apenas em vagas de emprego. Começamos a levar conteúdo sobre empreendedorismo e economia compartilhada com o objetivo de mostrar para este público que existe outras alternativas e novas formas de trabalho e renda”, conta.

Hoje, além da plataforma de anúncios de vagas, a empresa oferece palestras, workshops e organiza encontros de networking entre os usuários para fomentar a discussão e informações sobre empreendedorismo, alternativa para os maduros continuarem ativos no mercado de trabalho.

“Ainda é um grade desafio encontrar o modelo de negócio ideal, porque essa questão da inserção de profissionais mais maduros no mercado de trabalho ainda não é prioridade no Brasil. Mas consigo viver da startup, que é uma empresa que visa lucro, mas tem esse propósito social”, afirma.

Nubank faz ‘reforma’ em aplicativo para incorporar conta-corrente

Em sua maior mudança de design desde o lançamento, aplicativo passa a mostrar tela inicial com principais funções do cartão de crédito e de sua conta-corrente

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Novo aplicativo do Nubank mostra funções da conta-corrente e do cartão de crédito de maneira integrada

A startup de serviços financeiros Nubank liberou nesta terça-feira, 22, uma nova versão de seu aplicativo, numa das maiores ‘reformas’ já feitas pela startup desde o lançamento do cartão de crédito roxo. O grande objetivo é desvincular a imagem da startup do cartão de crédito apenas, mostrando na tela inicial uma série de funções que são possíveis para quem tem a conta-corrente NuConta, anunciada em outubro do ano passado. Assim, já na tela inicial, o cliente do Nubank agora vê, além do resumo da sua fatura atual do cartão de crédito, ícones para depositar dinheiro, fazer transferências e pagar boletos.

“Por quase três anos o nosso foco foi o cartão de crédito, mas somos o Nubank e não o NuCard por um motivo”, afirmou o fundador e presidente executivo do Nubank, David Vélez, em comunicado enviado à imprensa. “Sabemos que nem sempre é fácil mudar, mas temos aprendido muito sobre como os clientes usam o aplicativo.”

O aplicativo do Nubank também passa a se referir ao cliente pelo nome. Na tela inicial do aplicativo, será possível ver o nome do cliente no topo. Logo abaixo, há três destaques: o resumo da fatura do cartão (com atalho para acessar os últimos gastos), um atalho para transferências na conta-corrente e uma terceira parte dedicada à ativação do programa de recompensas do Nubank, o Rewards, que permite “apagar” despesas do cartão de crédito conforme os pontos que o usuário acumular.

Na parte inferior do aplicativo, há uma barra com atalhos que permite acessar os principais recursos dos três serviços oferecidos pelo Nubank, como depositar, transferir e pagar boleto (para aqueles que já tem a conta-corrente) e ajustar limite e bloquear cartão, para quem usa o cartão de crédito.

A nova versão do aplicativo do Nubank já começou a ser disponibilizada para alguns clientes e deve chegar a todos de forma gradativa, ao longo das próximas semanas, segunda a startup.

Expansão. A mudança no aplicativo acontece pouco tempo após a startup levantar uma nova rodada de investimentos e poucos meses após iniciar os testes de sua conta-corrente. O serviço, que está disponível para uma parte dos clientes apenas, permite fazer transferências e pagamentos de boletos, mas não possui um cartão de débito atrelado. Segundo apurou o Estado, remodelar o app para integrar melhor a conta-corrente à experiência dos clientes é um passo importante para que a empresa libere o serviço de conta-corrente para qualquer pessoa se cadastrar.

O Nubank sonha alto. A principal referência da empresa é o banco digital americano Capital One, que também nasceu como um cartão de crédito e atualmente possui 700 agências, 2 mil caixas automáticos. Para chegar lá, ainda há um longo caminho.

Sendo uma empresa ainda jovem, de apenas quatro anos, a Nubank ainda não tem uma marca consolidada para competir com os grandes bancos no quesito “confiança”. “O consumidor precisa de muito mais para guardar seu dinheiro com uma instituição do que para pedir um empréstimo”, diz Horn.

Outra dificuldade que pode atrasar os planos da Nubank é a forte concorrência no Brasil. Além da reação dos grandes bancos, que têm lançado novos serviços como cartões e contas correntes digitais controlados via aplicativo, há também a explosão de startups no setor de empréstimos, com representantes como a Creditas, e de conta-corrente digital, que tem empresas como o Banco Neon disputando o segmento de clientes mais jovens. [Claudia Tozetto]

Empresas de tecnologia criam dispositivos para ajudar a dormir melhor

Após os smartphones se tornarem os vilões do descanso, novos apps e dispositivos tentam fazer as pessoas dormirem melhor

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Robô criado por startup para fazer conchinha é vendido nos EUA e Europa por US$ 500

Pare e pense: há algum momento do seu dia a dia em que você não está conectado? Se você é dono de um smartphone, um tablet ou usa o computador no trabalho o dia inteiro, a resposta mais provável é “dormindo”. Mas por pouco tempo. Cada vez mais startups, grandes empresas e até mesmo fabricantes de colchões, travesseiros e outros itens relacionados estão de olho no atrativo mercado do “sono conectado”.

É um filão cheio de potencial: segundo a consultoria americana Persistence, o mercado de “auxílio para o sono”, que hoje inclui dispositivos médicos, mas também remédios, pode chegar a movimentar US$ 80,8 bilhões em 2020.

“Imagine se, em vez de tomar uma pílula para dormir, uma pessoa que tem insônia possa usar um dispositivo que estimule suas ondas cerebrais a relaxar”, diz Mathieu Choplain, diretor de marketing da francesa Dreem, que fabrica o dispositivo de mesmo nome, lançado no fim de 2016. “Esse é o espaço que queremos ocupar.”

Trata-se de uma espécie de faixa para a cabeça, vendida no site da empresa por US$ 500: munida de sensores e eletrodos, ela é capaz de monitorar a atividade cerebral durante uma noite de repouso. Além de verificar se o seu usuário dormiu bem, também incentiva a permanência no estágio de sono profundo – o que aumenta a sensação de descanso.

Ela não é a única: há uma série de tecnologias prontas para chegar às lojas. Da China, por exemplo, vem a máscara antirronco SnoreCircle. Hoje, ela está em pré-venda pelo site de financiamento coletivo Kickstarter por cerca de US$ 50.

“Já vendemos 200 mil exemplares no mundo todo. É como um robô que te dá um aviso, sonoro ou de vibração, se você começar a roncar, sem interromper o sono”, diz o presidente executivo da empresa, Johnson Luo, que criou a solução para resolver o próprio problema.

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A faixa de cabeça da startup francesa Dreem, à venda por US$ 500

De conchinha. Mais curioso é o trabalho da holandesa Somnox, cuja criação é descrita pelos fundadores como “um robô para fazer conchinha”. Em pré-venda por US$ 500 em seu site oficial, o aparelho foi criado para ajudar a mãe do fundador Julian Jagtenberg a dormir bem. Trata-se de uma almofada com cerca de 50 centímetros de comprimento, com motores e sensores para simular respiração e batimentos cardíacos.

Além disso, o robô também tem pequenos alto-falantes, que permitem ao usuário tocar músicas relaxantes ou até mesmo uma gravação da respiração do parceiro. “É o companheiro perfeito de cama”, diz Jagtenberg.

Algumas empresas tentam usar a tecnologia para mostrar que pequenas práticas – como se alimentar melhor ou fazer exercícios – melhoram o sono. A holandesa Shleep desenvolveu uma evolução dos inúmeros aplicativos que tentam dar uma nota ao usuário por dormir bem.

“Estamos mais preocupados em mudar o comportamento do que só medir por medir o descanso”, explica Els van der Helm, criadora da startup e especialista em ciências do sono, com doutorado pela Universidade de Berkeley. Segundo ela, a empresa não compartilha os dados dos usuários com outras empresas para manter a privacidade, assunto que pode ser um problema para o setor.

Burburinho. O esforço da indústria também é visto como uma espécie de “retribuição” do mercado de tecnologia ao repouso nosso de cada dia depois de afetá-lo dramaticamente. Segundo Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Instituto do Sono, vinculado ao Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (Incor), os computadores e os smartphones são os grandes vilões do sono atualmente.

“Além das telas com tons de luz azuis, que inibem a produção de melatonina, o hormônio do sono, as interações constantes com aplicativos não deixam as pessoas relaxarem”, diz.

O estado de “sempre alerta” proposto pelas inúmeras notificações do dia a dia é talvez o maior problema, na visão de David Rose, pesquisador do MIT Media Lab, centro de pesquisas de internet do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “A gente precisa estar um pouco entediado para dormir.”

Mas esses novos produtos funcionam? Para médicos e especialistas ouvidos pelo Estado, a maioria deles ainda carece de validação científica. “A tecnologia e a ciência se dissociaram nos últimos anos e nem sempre andam no mesmo ritmo”, avalia Lorenzi, do Incor.

Segundo ele, aplicativos e dispositivos podem não ser solução para quem enfrenta problemas sérios, como apneia ou insônia, mas servem como um primeiro passo para identificar distúrbios – tal como uma balança que identifica o peso, mas é incapaz de avaliar se há gordura ou ganho de massa muscular.

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Cheirinho. O aromatizador da chinesa Sleepace tem opções com cheiro de laranja ou lavanda

A médica especialista em ciências do sono Luciana Palombini, da Escola Paulista de Medicina, afirma que confiar demais nesse tipo de tecnologia pode levar a falsos diagnósticos – ao alertar um insone, o aplicativo pode deixá-lo ainda mais ansioso e piorar o problema. “É preciso dosar”, avalia.

Para David Rose, pesquisador do MIT Media Lab, centro de pesquisas de internet do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o futuro do “sono conectado” está em tecnologias que não precisam do esforço do usuário. “Usar um acessório é desconfortável e pode influenciar a forma como a pessoa dorme”, diz. A internet das coisas – revolução que conectará todos os objetos à nossa volta – é apontada por ele como a solução para o problema.

Automático. No exterior, algumas empresas estão pensando nisso. É o caso da tradicional fabricante de colchões americana Sleepnumber, que criou uma cama conectada – a Sleep iQ – vendida por US$ 4 mil. Com sensores e motores, ela detecta se o usuário se mexeu e pode moldar o colchão para deixar a pessoa mais confortável.

Outra ideia interessante vem da companhia chinesa Sleepace, que criou uma linha de dispositivos, chamada DreamLite, capazes de “conversarem” entre si. Juntos, eles regulam a temperatura e a luminosidade do quarto, cancelam ruídos e, até mesmo, deixam o ambiente com cheiro de lavanda ou laranja. “São pequenos fatores que podem ajudar as pessoas a dormirem melhor, especialmente em grandes cidades”, avalia Lorenzi, do Incor. [Bruno Capelas]

Bradesco abre espaço para startups em São Paulo

Prédio de 10 andares, que será gerido pela WeWork, abriga 600 pessoas, entre startups, empresas de tecnologia e outros parceiros

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Espaço de inovação do Bradesco em São Paulo

O Bradesco lançou oficialmente nesta quarta-feira, 7, o Habitat, um espaço para startups de tecnologia em São Paulo. O esforço faz parte da mais recente ofensiva dos grandes bancos do País para terem hubs próprios de inovação, enquanto enfrentam crescente concorrência de startups financeiras, as fintechs.

Num edifício de 10 andares na região central da capital paulista, o Habitat já abriga cerca de 600 pessoas, entre criadores de startups, universitários, investidores, grandes empresas e os sócios do Bradesco em tecnologia, incluindo gigantes como IBM, Microsoft e Oracle.

“O objetivo do espaço é abrigar projetos baseados em tecnologias digitais disruptivas como blockchain, big data e algoritmos, internet das coisas, inteligência artificial”, disse o vice-presidente responsável por TI no Bradesco, Maurício Minas, durante cerimônia de lançamento do Habitat. O valor investido pelo Bradesco no projeto não foi revelado.

O ambiente do Habitat, gerido pela empresa global de trabalho colaborativo WeWork, tem semelhanças com o Cubo, espaço criado pelo Itaú Unibanco em 2015, também em São Paulo, para abrigar e acelerar startups. Nas próximas semanas, o Cubo deve inaugurar um espaço quatro vezes maior, para até 210 startups.

Diferente do Itaú Unibanco, que vê o Cubo como um espaço independente e não tem de início planos de comprar participação ou mesmo usar inovações desenvolvidas no espaço para a própria instituição financeira, o Habitat foi desde a gênese pensado principalmente para alimentar a inovação no próprio Bradesco. “Queremos pescar no nosso aquário”, afirmou Minas.

Além disso, o Habitat deve abrigar startups em estágio mais avançado, próximas de oferecer produtos com alguma chance de escala no mercado, disse o executivo. Numa mostra da diferença entre os projetos, a startup de gestão de recursos por meio de robôs Vérios deixou o Cubo e passou a ser abrigada no Habitat.

O Habitat vai abrigar além das fintechs startups de tecnologia, serviços médicos, turismo e educação, entre outras. O Bradesco também já acertou parcerias com as universidades Anima e Kroton para uso do espaço em projetos conjuntos.

De acordo com Minas, dada a crescente tendência de intersecção do setor financeiro com outros setores de serviços, esse desenho pode ser útil futuramente para o Bradesco, inclusive para ter pacotes de produtos mais integrados.

O banco, que já tem há alguns anos o Inova Bra, espécie de incubadora de startups, criou um fundo próprio de US$ 100 milhões para investir em empresas selecionadas do Habitat. Três inversões já aconteceram, outras duas devem ser reveladas nas próximas semanas, disse Minas.

O movimento dos bancos brasileiros acontece na esteira da rápida multiplicação das fintechs, as plataformas digitais que oferecem serviços financeiros, ofertando produtos como crédito e meios de pagamentos.

Na segunda-feira, o BTG Pactual lançou seu programa de aceleração de startups, que vai se concentrar em empresas de nível mais maduro. O Banco do Brasil também estuda ter seu próprio hub de inovação. [Reuters]