Após anos de espera, saúde da mulher ganha foco de startups

Empresas de tecnologia estão criando produtos para atender às necessidades de saúde das mulheres; segmento ainda é pequeno
Por Farah Nayeri – The New York Times

As mulheres gastam cerca de US$ 500 bilhões por ano com despesas médicas, segundo o PitchBook
As mulheres gastam cerca de US$ 500 bilhões por ano com despesas médicas, segundo o PitchBook

As mulheres representam metade da população do planeta. Ainda assim, as empresas de tecnologia que atendem às suas necessidades específicas de saúde representam uma parcela minúscula do mercado global de tecnologia.

Em 2019, as “femtechs” – empresas de software e tecnologia que atendem às necessidades biológicas das mulheres – gerou US$ 820,6 milhões em receita no mundo e recebeu US$ 592 milhões em investimentos de capital de risco, segundo o site PitchBook. No mesmo ano, o Uber levantou US$ 8,1 bilhões ao abrir o capital. A diferença proporcionalmente é impressionante, sobretudo pelas mulheres gastarem cerca de US$ 500 bilhões por ano com despesas médicas, segundo o PitchBook.

Aproveitando esse poder de compra, uma infinidade de aplicativos e empresas de tecnologia têm surgido na última década para atender às necessidades das mulheres, incluindo monitoramento de menstruação e fertilidade, e oferecendo soluções para gravidez, amamentação e menopausa. As startups médicas também entraram em cena para prevenir ou controlar doenças graves, como o câncer.

“O potencial de mercado é enorme”, diz Michelle Tempest, sócia da consultoria de saúde Candesic, com sede em Londres. Ela explica que uma das razões pelas quais as necessidades relacionadas às mulheres não tinham sido foco no campo da tecnologia até então é que a pesquisa em saúde foi esmagadoramente “adaptada ao corpo masculino”. 

Em 1977, a Food and Drug Administration (FDA), agência que regulamenta medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, excluiu mulheres em idade fértil de participarem de testes de medicamentos. Desde então, as mulheres têm sido sub-representadas nos ensaios clínicos com medicamentos, disse Michelle, por causa da crença de que as flutuações causadas pelos ciclos menstruais podem afetar os resultados dos testes e também porque se uma mulher engravidar após tomar um medicamento experimental, o medicamento pode afetar o feto. Como resultado, ela observou, “nós ficamos para trás”.

Futuro

O termo “femtech” foi criado por Ida Tin, a fundadora dinamarquesa do Clue, um app de monitoramento de menstruação e ovulação desenvolvido na Alemanha em 2013. Ida relembrou como teve a ideia para os serviço. Em 2009, ela se viu segurando um celular em uma mão e um pequeno dispositivo de medição de temperatura na outra e desejando que pudesse mesclar os dois para monitorar seus dias de fertilidade. 

Outra vertente das femtechs é conhecida como “menotech” e visa melhorar o estilo de vida das mulheres enquanto elas passam pela menopausa. Além delas, existem empresas de tecnologia médica focadas em alguns dos tipos de câncer que mais afetam as mulheres, como o câncer cervical e o câncer de mama.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer cervical é a quarta causa mais comum de câncer entre as mulheres em todo o mundo. Em 2018, cerca de 570.000 mulheres foram diagnosticadas com ele e até 311.000 morreram. A OMS anunciou em novembro um programa para erradicar completamente a doença até o ano de 2030.

A MobileODT, uma startup com sede em Israel, usa smartphones e inteligência artificial para fazer a triagem de câncer cervical. Leon Boston, CEO da empresa, disse que estava vendendo a tecnologia para cerca de 20 países diferentes, entre eles EUA, Índia, Coreia do Sul e Brasil, e está entrando em uma rodada de arrecadação de fundos para construir seu capital inicial de US$ 24 milhões.

Questionado a respeito do motivo de o mercado global de femtechs ser tão pequeno, Boston disse que isso se devia em parte ao “alto nível de regulamentação” envolvido na tecnologia médica. “Se a sua tecnologia estiver equivocada e apresentar um resultado errado, uma mulher que pensa que não tem um resultado positivo para câncer cervical, na verdade, tem”, disse ele. Por causa disso, “o mundo da tecnologia médica é lento para avançar”.

Mesmo assim, as perspectivas são favoráveis, segundo ele. “É muito raro haver um mercado completamente árido aberto para todo o potencial como temos hoje em tecnologia médica”, disse ele.

As previsões de dados parecem confirmar isso. Segundo um relatório de março de 2020 da Frost & Sullivan, uma consultoria de pesquisa e estratégia, a receita das femtechs deve chegar a US$1,1 bilhão em 2024. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Startup Muma lança consultoria gratuita para pequenos projetos de interiores

A empresa possibilita que clientes conversem com arquitetos e designers e recebam orientações para executar pequenas mudanças

Startup lança consultoria gratuita para pequenos projetos de interiores (Foto: Divulgação/Muma)

Após mais de um ano de isolamento social, o desejo de renovar os ambientes do lar ainda é bastante comum. Para auxiliar pessoas que querem fazer pequenas modificações em casa, a startup de design autoral e marketplace Muma lançou um serviço de consultoria gratuita para mudanças de móveis e decoração. A iniciativa, feita de forma virtual, permite que os clientes recebam orientações para executar o projeto por conta própria.

A consultoria oferecida pela empresa começa por meio de um formulário que visa entender qual é o estilo que o cliente mais se identifica e quanto ele pretende investir. Com base nisso, um consultor da Muma, arquiteto ou designer de interiores, agenda uma consultoria online de uma hora para ouvir as necessidades e interesses do usuário. Por fim, a startup produz um relatório completo para ajudar nas pequenas reformas, que inclui paleta de cores, lista de sugestão de produtos, layout 2D e até um moodboard.

De acordo com o fundador e curador da startup, Matheus Ximenes, a plataforma pode ser utilizada para quem pretende criar uma pequena área de home office ou um espaço para as crianças em casa, por exemplo. “Estar mais tempo em casa põe uma lente de aumento sobre os ambientes. Você sente muito mais a necessidade de estar num espaço agradável, aconchegante e adaptado às suas necessidades. No entanto, nem todo mundo tem o conhecimento necessário para harmonizar cores, texturas e tamanhos”, diz ele.

Além da consultoria para pequenas modificações de interiores, a startup oferece ainda informações sobre acabamentos de peças de mobiliário e customizações de forma gratuita. O atendimento personalizado ocorre por meio do WhatsApp da empresa (11 3031-9179).

Startups vivem boom de aquisições e aumentam a fila para IPOs

O volume de transações em fusões e aquisições de empresas de tecnologia cresceu pelo menos 34% nos primeiros meses de 2021 em relação a 2020
Por Felipe Matos – O Estado de S. Paulo

Outra novidade que parece estar começando a se consolidar são os IPOs de startups na B3

O ecossistema de startups começou o ano mais aquecido do que nunca. O volume de aquisições e fusões no setor atingiu níveis recordes e segue em tendência de crescimento, desde o ano passado. Dados da Slinghub mostram que houve 34 operações em 2021, ante 25 no primeiro trimestre de 2020 – um aumento de 34%, que deve ser ainda maior, considerando que ainda estamos na metade de março. No mesmo período de 2019, foram 20 operações.

Não é só o aumento na quantidade de operações que chama a atenção. O tamanho também. No começo deste mês, a Totvs anunciou a aquisição da RD Station, plataforma de software como serviço para marketing digital, por R$ 1,86 bilhão. Foi uma das maiores operações do tipo no país. A Locaweb vem também anunciando diversas aquisições. Só nos primeiros meses de 2021, ela comprou a Credisfera, Dooca Commerce, ConnectPlug e Samurai Experts.

Um movimento que chama a atenção nesse contexto é o aumento de operações encabeçadas por empresas tradicionalmente não tecnológicas, que começam a ver na aquisição de startups uma estratégia para acelerar os esforços de transformação digital. Um exemplo é da Raia Drogasil, que comprou a plataforma de big data Healthbit. Também vemos mais fusões e operações estratégias de consolidação entre startups, como a união das fintechs Geru e Rebel.

Outra novidade que parece estar começando a se consolidar são os IPOs de startups na B3. Após a estreia de movimentos bem sucedidos de empresas como Méliuz, Enjoei e Mosaico, a fila para a oferta de ações por novas empresas de tecnologia segue aumentando. Entre as que já sinalizam esse movimento estão a plataforma de contratação de serviços GetNinjas, o e-commerce Privalia e o programa de fidelidade Dotz. Com isso, o mercado brasileiro vai aprendendo a compreender e precificar empresas de tecnologia.

Todo esse cenário demonstra a chegada de uma nova fase de amadurecimento do ecossistema de startups no País. Só em 2020, foram investidos mais de R$ 20 bilhões no setor, que já é responsável pela geração de renda de milhões de pessoas, especialmente por meio de apps de economia compartilhada, como 99 e iFood.

Apesar da relevância e do enorme potencial de geração de desenvolvimento, as startups ainda lutam por reconhecimento e incentivo regulatório, já que o Brasil continua sendo um dos países mais complexos para o empreendedorismo. Por aqui, o Marco Legal das Startups caminha no Congresso cada vez mais desidratado, com um texto ainda aquém das necessidades, o que deixa o País muito atrás da maior parte dos países desenvolvidos.

*ESPECIALISTA EM EMPREENDEDORISMO E TECNOLOGIA, JÁ APOIOU MAIS DE 10 MIL STARTUPS NO BRASIL E É SÓCIO DA 10K.DIGITAL

Startup de benefícios Vee recebe R$ 200 milhões de investimento após fusão com a francesa Swile

Com o cheque, a brasileira quer transacionar na plataforma R$ 2 bilhões em 2022 e chegar a até 1 milhão de usuários até 2023
Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo

Da esq. para dir., em pé, Marcelo Ramos e Raphael Machioni, cofundadores da Vee; sentados, Loïc Soubeyrand, CEO da Swile, e Eduardo Haidar, cofundador da Vee
Da esq. para dir., em pé, Marcelo Ramos e Raphael Machioni, cofundadores da Vee; sentados, Loïc Soubeyrand, CEO da Swile, e Eduardo Haidar, cofundador da Vee

A startup de benefícios Vee recebeu R$ 200 milhões em investimentos da francesa Swile, que opera no mesmo segmento e fundiu as operações com a brasileira no País com troca de ações. O Brasil é o maior mercado no setor de benefícios corporativos, com R$ 150 bilhões movimentados por ano em vale alimentação, vale refeição, pagamentos de bônus e premiações. Atrás, vêm França e México.

A Swile, startup que totaliza aportes de R$ 700 milhões, já pretendia aterrissar no Brasil como parte de sua estratégia de expansão internacional, mas optou pela fusão com a Vee, anunciada na quinta-feira, 11. Por aqui, a operação continuará a ser comandada pela brasileira, que atua desde 2018 no País e já soma mais de 50 mil beneficiários ativos e 800 mil empresas como clientes.

“A operação foi para garantir volume de investimentos, e não vender a companhia e sair dela, mas sim olhar para um mercado em que a gente acredita e brigar por investimentos”, conta ao Estadão Marcelo Ramos, cofundador da Vee e atualmente presidente do conselho da empresa. 

A startup espera aplicar o cheque de R$ 200 milhões para transformar o seu aplicativo de gestão a partir do conceito de “one stop shop” para os departamentos de Recursos Humanos, que poderão gerenciar folhas de pagamento, benefícios corporativos e outras soluções digitais para os colaboradores das empresas.

Esse movimento de digitalização foi acelerado em 2020, quando a pandemia de covid-19 forçou o confinamento das pessoas em suas casas e fez com que o trabalho fosse realizado em casa. A Vee respondeu criando já em março um “cartão home office”, destinado a empresas que queriam bancar custos de luz, telefone, internet ou de escritório dos seus trabalhadores. No ano, a startup viu serem transacionados R$ 73 milhões na plataforma, ante R$ 1,7 milhão de 2019.

Com a intensificação da digitalização, a perspectiva é que a startup atinja as metas de somar 590 mil usuários na plataforma, 9,1 mil clientes e de R$ 2 bilhões transacionados até 2022. Em 2023, o objetivo é fechar o ano com quase o dobro de usuários, em 1 milhão. 

O crescimento da Vee, no entanto, acontece em meio à pandemia de covid-19, cujo impacto sobre o mercado de trabalho formal, do qual o segmento de benefícios corporativos é altamente dependente, é gigantesco. Do primeiro trimestre de 2020 para os últimos três meses do mesmo ano, segundo o IBGE, a taxa de desocupação no Brasil saltou de 12,2% para 14,1%.

Para Marcelo Ramos, no entanto, o cenário de desarranjo econômico pós-pandemia não deve atrapalhar os planos da startup, que busca clientes do setor de pequenas e médias empresas, o mais afetado pelos lockdowns necessários para combater o novo coronavírus. Por oferecer um produto que reúne em uma única plataforma vários fornecedores, a Vee acredita ser uma boa solução conseguir fazer com que as PMEs migrem para o serviço. 

“Nosso modelo não faz com que a gente tenha problema de escala potencial”, afirma. “A gente embarca num mundo em que vai haver empresa fechando e demitindo pessoal, mas vai ter aquelas que vão buscar soluções alternativas para não mandar gente embora e perseverar na crise.”

SoftBank encerra parceria com a startup de hospedagens Oyo na América Latina

A Oyo afirma que continuará a operar na região com atendimento principalmente digital e administração direto da Índia; empresa vai demitir quase toda a sua equipe na América Latina

Os negócios da Oyo vêm sendo impactados desde o início da pandemia

O SoftBank deixará as operações comerciais da startup indiana de hospedagens Oyo na América Latina. O anúncio foi feito pelas empresas nesta quinta-feira, 11, e o fim da parceria acontece seis meses após as duas partes firmarem uma parceria focada na região.

O grupo japonês injetou US$ 75 milhões nas operações da Oyo na América Latina. Em setembro do ano passado, em meio às dificuldades impostas pela pandemia, a Oyo passou o controle de suas operações na América Latina para o SoftBank.

Apesar do fim da joint venture latino-americana com o SoftBank, a Oyo afirma que suas operações na região continuam. Porém, a empresa anunciou que passará a adotar um modelo de serviço principalmente digital, com atendimento remoto a clientes e proprietários de hotéis. A Oyo disse também que as mudanças vão exigir a demissão de quase toda a sua equipe na região – a startup não revela números. Os poucos funcionários que ficarão serão os responsáveis pelo contato diário com hoteleiros. Hoje, a Oyo possui cerca de 1 mil hotéis parceiros na América Latina, sendo 450 no Brasil.

Desde o início da pandemia, os dois escritórios da startup na região, no Brasil e no México, estão fechados. Agora, a empresa confirma que as atividades na região serão gerenciadas diretamente da Índia.

O SoftBank disse que a decisão foi tomada em conjunto com a Oyo devido aos desafios trazidos pela pandemia do coronavírus, e que não iria mais investir na empresa na região.

A Oyo tem enfrentado dificuldades em seus mercados em todo o mundo devido à crise do coronavírus, que atingiu em cheio a indústria do turismo e reduziu drasticamente sua força de trabalho. De acordo com o Wall Street Journal, a empresa agora vai focar sua atenção nos mercados em que sua operação é mais forte, como a Índia, a Europa e o Sudeste Asiático. / COM REUTERS

Após aporte do SoftBank, startup Cortex compra empresa de inteligência de dados ITB360

A Cortex, que atua na área de dados, recebeu no ano passado um investimento de R$ 170 milhões liderado pelo grupo japonês

Daniel Pires e Leonardo Rangel, fundadores da Cortex
Daniel Pires e Leonardo Rangel, fundadores da Cortex


Depois de receber um aporte de R$ 170 milhões liderado pelo SoftBank em junho do ano passado, a startup brasileira Cortex anuncia agora sua primeira aquisição: a empresa, que atua na área de dados, comprou a startup ITB360, especializada na coleta de informações sobre companhias para inteligência de vendas. 

Fundada pelos empresários Daniel Pires e Leonardo Rangel, a Cortex é dona de uma plataforma voltada a marketing e vendas que usa dados de mercado e informações internas de clientes, gerando previsões e recomendações para a tomada de decisão. Segundo a Cortex, a plataforma atende clientes como Unilever, SulAmérica e L’oreal.

Segundo Rangel, a ITB360 ajudará a Cortex a dar maior foco em soluções para inteligência de vendas. “Testamos diversas empresas. A ITB360 se destacou por ter dados de empresas a nível global e ter riqueza e qualidade de informações bem diferenciadas”, afirma o executivo. A startup adquirida diz ter mais de 17 mil fontes de dados em 150 países.

Também são investidores da Cortex os fundos Riverwood e Redpoint. 

Startups miram oportunidades de negócios dentro do WhatsApp

Geração de empresas constrói ferramentas para que o aplicativo de mensagens seja mais do que bate-papo
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Startup ChatClass, de Jan Krutzinna, criou robô para ensinar inglês dentro do WhatsApp; soluções já vão além do simples atendimento ao cliente
Startup ChatClass, de Jan Krutzinna, criou robô para ensinar inglês dentro do WhatsApp; soluções já vão além do simples atendimento ao cliente

Tudo começou com conversas entre amigos e familiares. Depois, vieram os grupos de trabalho. Por fim, surgiram os canais de atendimento. Agora, praticamente tudo acontece no WhatsApp: o app soma dois bilhões de usuários ao redor do mundo, sendo o Brasil seu segundo maior mercado, atrás apenas da Índia.

Nos últimos anos, a popularização do “zap” foi tamanha que abriu oportunidade para que startups criassem modelos de negócios mirando a plataforma – eles vão desde ferramentas para melhorar o contato entre empresas e clientes até soluções de educação e assinaturas para entrar em grupos.

Como o zap é um lugar de conversas, o serviço mais óbvio oferecido por essas startups é o chatbot (softwares de comunicação automática via mensagem). O segmento já tem um grande nome brasileiro: a startup mineira Take, que levantou um aporte de US$ 100 milhões em outubro de 2020. Veterana na área de tecnologia, ela nasceu em 1999 atuando com atendimento por SMS e venda de toques musicais para celulares – os famosos “ringtones” –, que faziam sucesso nos celulares de antigamente. Com o avanço da tecnologia, a Take teve de se adaptar aos novos tempos e hoje ajuda marcas como Coca-Cola e Itaú a conversarem com clientes pelo WhatsApp

A startup é dona de uma plataforma chamada Blip que, integrada ao WhatsApp, usa inteligência artificial para ajudar na automatização das conversas e também no direcionamento do cliente para atendentes humanos. “Não oferecemos apenas um chatbot. Nossa solução é um contato inteligente que consegue inclusive usar a localização do usuário para indicar um vendedor da loja mais próxima”, explica Roberto Oliveira, CEO da Take. O canal principal usado pela empresa hoje é o WhatsApp, mas ela também atua em plataformas como o Facebook Messenger e a assistente de voz Alexa, da Amazon

Em 2020, a Take foi ponte para dez bilhões de mensagens. A startup tem 1,2 mil clientes, e a meta em 2021 é ganhar 500 novos clientes por mês. “Além de melhorar nossa plataforma, a expansão internacional é uma das prioridades. Estamos abrindo operação no México, nos EUA e em Portugal”, diz Oliveira.  

Startup Take, de Roberto Oliveira, usa inteligência artificial para ajudar na automatização das conversas e também no direcionamento do cliente para atendentes humanos
Startup Take, de Roberto Oliveira, usa inteligência artificial para ajudar na automatização das conversas e também no direcionamento do cliente para atendentes humanos

Outro nome que aposta no atendimento via zap é a mexicana Yalochat, presente no mercado brasileiro há dois anos. A startup oferece uma plataforma para companhias personalizarem o atendimento de seus consumidores no app. No ano passado, ela ganhou um reforço “canarinho”: um aporte de US$ 15 milhões liderado pelo fundo B Capital Group, de Eduardo Saverin, o brasileiro cofundador do Facebook. “Há espaço para democratizar o uso de tecnologia e permitir que todos que tenham WhatsApp consigam usar serviços digitais”, disse Javier Mata, presidente executivo da Yalochat, em entrevista ao Estadão na época do investimento. 

Variedade

Atendimento ao cliente, porém, está longe de ser o único alecrim dourado do WhatsApp. A startup ChatClass, por exemplo, desenvolveu um robô que ensina inglês pelo app – os alunos praticam o idioma pela plataforma por meio de texto e áudio, recebendo feedback em tempo real, enquanto os professores acompanham o desempenho da turma com base nos dados disponibilizados pela ferramenta.

Fundada em 2014, a empresa já levantou um aporte de R$ 3 milhões, em rodada liderada pelos fundos Canary e Graph Ventures. “A educação digital no Brasil precisa ser democratizada, e não acredito que isso vá acontecer com iPad e apps sofisticados”, diz o alemão Jan Krutzinna, fundador da ChatClass, que se mudou para o Brasil em 2017. “O Brasil é um dos líderes em mensageria. A limitação de um país também cria espaço para inovação.” 

Segundo a startup, o robô de inglês já foi usado por 400 mil alunos de escolas públicas e particulares no Brasil. Para manter seu negócio, a startup aposta na oferta de alguns serviços pagos, como cursos que incluem aulas de conversação em grupo com mediação de professores. Além disso, a empresa faz contratos com escolas e editoras para o uso da ferramenta. 

Há também quem aposte no potencial dos grupos do WhatsApp. É o caso da ChatPay, fundada em 2020, que ajuda a criar grupos pagos no app. A empresa enxergou potencial nesses espaços, que começaram a ser usados por influenciadores e coaches, principalmente da área de saúde e bem-estar, para programas de orientação em assuntos como nutrição, emagrecimento e atividade física. Por meio da plataforma da ChatPay, os donos dos grupos podem vender vagas para acessar o “clubinho” – o pagamento pode ser único ou por assinatura. 

“Atendemos também nichos como grupos de investimentos e de mentorias”, diz Arthur Alvarenga, fundador da ChatPay. A startup passou por aceleração da americana Y Combinator e já levantou US$ 2,3 milhões. 

Empurrão

Ir além das mensagens simples é um plano do próprio WhatsApp, que pertence ao Facebook. Em 2018, a empresa lançou o WhatsApp Business, versão corporativa do app. Desde então, vem lançando recursos focados em vendas e atendimento ao cliente, como catálogo e carrinho de compras. É um caminho ditado pelo app chinês WeChat, que, por lá, já é uma plataforma que une comunicação, serviços, vendas e pagamentos. 

Na visão do WhatsApp, as startups têm sido fundamentais para ampliar o papel do app nos negócios. “Por ter inovação em seu DNA, elas são rápidas e antecipam movimentos de mercado com casos de uso relevantes”, disse Cristiane Reis, diretora de parcerias do WhatsApp para a América Latina, em nota ao Estadão

Para Guilherme Fowler, professor do Insper, contar com a ajuda de startups para turbinar o app é um caminho inteligente. “Sem elas, o WhatsApp teria de ser gigante para criar um cardápio grande de soluções – e levaria mais tempo. É mais eficiente e barato buscar empresas especializadas, focadas em tecnologia”, afirma. Por outro lado, apesar do potencial da plataforma, a relação com o aplicativo pode ser perigosa para as startups: “Esse movimento é uma tendência, mas as startups não podem ficar refém do WhatsApp. É preciso garantir o serviço também em outras plataformas, para não colocar o negócio apenas na mão do Facebook, que pode mudar as regras do jogo a qualquer momento”, diz Fowler. 

MadeiraMadeira abrirá 120 lojas físicas em 2021

Estratégia visa conquistar mais confiança do consumidor
Por Talita Nascimento – O Estado de S. Paulo

MadeiraMadeira terá 120 novos pontos físicos em 2021 
MadeiraMadeira terá 120 novos pontos físicos em 2021 

A MadeiraMadeira, startup curitibana que ganhou status de “unicórnio” ao ser avaliada em US$ 1 bilhão neste início de ano, pretende abrir 120 lojas durante 2021. A marca tem atualmente 10 pontos de venda físicos e deve, portanto, chegar a 130 até dezembro. Chamadas de guide shops, elas são espaços pequenos que permitem conhecer ao vivo alguns produtos e fazer encomendas online. Os lançamentos serão nas regiões Sul e Sudeste do País, onde já funcionam as lojas atuais.

Essa estratégia é uma forma mais barata de ganhar presença física e, assim, conquistar mais confiança do consumidor. “Depois da primeira visita, o cliente perde o medo, entende como funciona e passa a comprar sozinho no site”, diz Eduardo Yamashita, diretor de operações da consultoria de varejo Gouvêa. Para ele, este é um modelo que faz sentido para outras marcas com apelo digital e que também precisam educar o cliente à cultura do e-commerce.

Um estudo sobre o comportamento do consumidor brasileiro realizado pela plataforma integrada de pagamentos da empresa Adyen, o Adyen Retail Report, mostra que, de fato, a variedade de canais é importante para esse público. Perguntados se seriam mais leais a um varejista que permitisse comprar online e devolver na loja física, 71% dos pesquisados concordaram com essa afirmação. Apenas 5% discordaram e 24% ficaram neutros.

Já 77% disseram que seriam mais fiéis a um varejista que permitisse comprar, de dentro da loja, um item esgotado no local, porém disponível online. Nesse caso, o item seria enviado diretamente para sua residência. Apenas 6% discordaram da afirmação e 18% ficaram neutros. A Adyen é parceira da MadeiraMadeira na expansão das guide shops.

“Essa é mais uma etapa no repensar do papel da loja. Estar mais próximo do consumidor com custo menor de implantação e mais pontos de contato”, considera Yamashita. Das principais empresas de e-commerce presentes no Brasil, apenas o Mercado Livre e a Amazon não têm lojas físicas como parte de sua logística.

Para o Magazine Luiza, a Via Varejo e a própria Lojas Americanas – controladora do filhote digital B2W – a integração dos pontos de venda físicos e a compra online tem sido fundamental para facilitar a logística de entregas e fazer o produto viajar menos até o cliente.

Após aporte de US$ 190 mi, MadeiraMadeira é o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021

Especializada em venda online de material de construção e de móveis, startup ultrapassa a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira
Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira

quarentena forçou muita gente a ficar em casa, o que acabou impulsionando alguns novos hábitos. Reformas e investimentos no lar ganharam força – afinal, a casa virou também escritório e escola. Ao mesmo tempo, o comércio online foi impulsionado. Não é coincidência, portanto, que o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021 esteja ligado a esses dois novos hábitos. Especializada em venda online de material de construção e móveis, a startup curitibana MadeiraMadeira anuncia nesta quinta, 7, que o seu valor de mercado superou a marca de US$ 1 bilhão, após receber um aporte de US$ 190 milhões.

A rodada foi liderada pelo conglomerado japonês Softbank, que já havia investido R$ 110 milhões na empresa em 2019, e pela gestora de fundos de ações Dynamo. Participaram também Flybridge e Monashees, que já haviam feito aportes na empresa em rodadas anteriores, além de VELT Partners, Brasil Capital e Lakewood Capital. Essa foi a quinta rodada de investimentos da MadeiraMadeira, que acabou transformando a startup no 14º unicórnio brasileiro. 

“A janela de oportunidade para o investimento era positiva. Em um cenário assim, é preciso ficar atento para que outros competidores não passem na frente”, explica ao Estadão Daniel Scandian, cofundador e CEO da MadeiraMadeira. “Iniciativas que desenvolvemos, como o braço logístico, deram certo e decidimos acelerar as apostas. Investimentos que seriam feitos em três anos caíram para um”, diz. 

Fundada em 2009, a startup teve um ano bastante agitado em 2020. A companhia aumentou as vendas em 120% no ano – após queda de 50% em março, a startup teve um salto de 250% nos negócios em abril. Com isso, o time também dobrou. No começo de 2020, o quadro tinha 600 funcionários – terminou com 1.300. O objetivo da startup é chegar ao final de 2021 com 2.700 contratados. Outros números do ano passado que também orgulham o executivo são as inaugurações de dez centros de distribuição e de nove lojas físicas.   

“Esse investimento na MadeiraMadeira aconteceria independentemente da pandemia, pois a empresa já vinha apresentando bons números”, diz Paulo Passoni, sócio do Softbank na América Latina. “O mercado em que eles atuam ainda está no começo. Ele ainda é extremamente ineficiente. O relacionamento entre os fabricantes e o consumidor demora e o preço é alto. É isso que estamos tentando mudar com a MadeiraMadeira”, diz. 

Inspiração

Para o consumidor, uma das coisas que chama a atenção na startup é o fato de que ela oferece produtos, principalmente móveis, com preços baixos – uma escrivaninha pode custar a partir de R$ 110. Na plataforma, existem tanto vendas diretas como um marketplace. Scandian não entrega todo o segredo de como isso é possível, mas dá algumas pistas. 

“Trabalhamos com margens magras e economia de escala. Todos os ganhos que temos na cadeia repassamos ao consumidor. Temos metas internas para sempre reduzir os custos”, diz. É uma visão que lembra a de alguns fabricantes chineses de smartphones, como a Xiaomi, que se popularizaram recentemente por dispositivos bons e baratos. A inspiração para Scandian, porém, é mais antiga: “Queremos ser o que o Walmart foi nos anos 1970 e o que a Amazon foi na década de 1990”.

“O modelo da MadeiraMadeira também está ligado a comercializar diretamente o estoque dos fornecedores, o que reduz o número de ‘mãos’ na cadeia. Além de reduzir custos, é um formato que se encaixa bem no mundo de pandemia”, explica Guilherme Fowler, professor do Insper. De fato, o braço logístico da empresa deverá ser um de seus diferenciais. 

“Móveis não navegam na mesma malha que, por exemplo, uma caixa de tênis. Ítens grandes e pesados precisam de uma rede de distribuição diferenciada. É isso que permite à Madeira Madeira competir com os grandes nomes do comércio eletrônico. O foco deles não é esse”, diz Passoni.

Investimentos

A melhoria da logística de produtos está altamente ligada a um dos pontos de atenção da startup depois do investimento: melhorar a experiência do cliente. Recentemente, a MadeiraMadeira passou por uma situação incômoda. No final de dezembro, a jornalista Vera Magalhães publicou no Twitter reclamações sobre uma compra feita na MadeiraMadeira que supostamente não teve seu prazo de entrega cumprido. O barulho nas redes sociais chegou até a Scandian. 

Sem citar a jornalista, ele disse: “Recentemente, tive uma aula com a Luiza Trajano, do Magazine Luiza. Ela me ligou após um problema com um cliente que temos em comum. Foi um puxão de orelha para entender o quanto o cliente é importante. Rapidamente, montamos um plano de trabalho agressivo para 2021”, diz ele. 

Os especialistas também enxergam a satisfação do cliente como o grande desafio da empresa a partir de agora. “O desafio de qualquer e-commerce é como chegar até o consumidor. Com o crescimento, a escala aumenta, o que também aumenta as chances de problemas ocorrerem”, diz Felipe Matos, presidente eleito da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão. “Para um influenciador, é mais fácil reclamar, mas precisa funcionar para todo mundo”, diz. 

Para o Softbank, é possível reduzir o tempo de entrega de produtos grandes de duas semanas para cinco dias – ou até dois em cidades como São Paulo. 

Entre os outros investimentos que a empresa fará com o novo aporte estão: reforçar sua marca própria de móveis, aumentar a presença física e fazer aquisições de outras startups – um time interno já foi criado para avaliar possíveis negócios. Sobre o primeiro item, a MadeiraMadeira se inspira na sueca Ikea, que oferece o chamado “design democrático”, produtos atraentes por preços baixos.  

Já em relação às lojas físicas, o formato adotado é o de “guide shop” – espaços pequenos que permitem conhecer ao vivo alguns produtos e fazer encomendas online. Scandian diz que a pandemia ainda não permitiu explorar todo o potencial desses espaços que, segundo ele, tendem a crescer. Por outro lado, Passoni lembra que o contexto de pandemia permite negociar aluguéis mais baratos.

Abertura de capital 

Após virar unicórnio, Scandian admite que espera abrir o capital da companhia em algum momento. A escolha dos investidores na nova rodada é uma indicação. “Os novos investidores têm um perfil voltado ao mercado público de ações. Eles são investidores de mercado público com um pé no investimento privado – a ideia é orientar os passos até a abertura de capital.  Eles podem nos orientar da mesma maneira que fizeram os primeiros investidores da companhia”.

Ele, porém, não estima uma data para que isso ocorra. “Com essa nova captação, precisamos focar na execução e no retorno, o que nos tornará uma empresa mais sólida e maior. Queremos abrir o capital quando tivermos as nossas iniciativas mais provadas. Estamos montando um time para fazer o IPO em algum momento. E ele poderá acontecer tanto no Brasil quanto fora”, diz.   

Para Felipe Matos, a consolidação da MadeiraMadeira é também positiva para o ecossistema brasileiro de startups. “Começamos a ver os unicórnios brasileiros diversificando o perfil, saindo das fintechs”, diz – ele faz referência ao fato de que a maioria das startups nacionais mais valiosas são bancos digitais, como o Nubank, ou trabalham com crédito, como a Creditas. “Podemos gerar valor fora de um segmento específico. E isso é uma boa notícia”, diz.