Startups apostam em ‘robôs’ para ajudar empresa a contratar humano

Enxurrada de currículos leva companhias a usar inteligência artificial para análise de candidatos e entrevistas de emprego
Por Marília Marasciulo, especial para o Estado – O Estado de S. Paulo

A startup HireVue tem um sistema de entrevista por vídeo

Quando estava prestes a se formar na faculdade, o americano Mark Newman se deparou com um problema. Apesar de ter qualificação e disponibilidade para deixar Salt Lake City, no Utah (EUA), e ir trabalhar em outra cidade, não conseguia emplacar nenhuma entrevista de emprego à distância. Foi aí que teve uma ideia: criar uma ferramenta de entrevistas por vídeo. Hoje, a HireVue, startup criada por ele para resolver essa dificuldade, tem 600 clientes (como Unilever e Oracle) em 140 países, com base forte em inteligência artificial (IA)

É uma tendência: segundo o site CareerBuilder, ao menos 55% dos gerentes de recursos humanos nos EUA consideram que a IA será sua ferramenta de trabalho nos próximos cinco anos. Com o avanço dos sites de emprego, tornou-se praticamente impossível analisar o volume recebido de currículos. No LinkedIn, por exemplo, mais de 100 milhões de candidaturas são feitas todo mês para as cerca de 20 mil empresas americanas cadastradas. “Mudamos o nível do problema”, diz Luiz Kugler, professor de análise de dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Hoje, há vagas ao alcance de todo o planeta”.

No caso da HireVue, é importante deixar claro que o candidato não interage com um robô. A experiência, aliás, talvez fosse menos esquisita se fosse assim. Na verdade, o usuário grava, sozinho, vídeos respondendo a perguntas estabelecidas pela contratante relacionadas à vaga. Na média, o questionário tem cinco ou seis perguntas – e o usuário deve gastar até três minutos para responder cada uma. 

A IA da HireVue analisa as respostas para determinar comportamento, personalidade e competências técnicas. O “robô” observa, por exemplo, entonação, nível de estresse perceptível na voz e a escolha de palavras – falar “nós” no lugar de “eu” demonstra habilidade de equipe. A empresa, porém, diz não usar reconhecimento facial para medir a capacidade de “atuação” do candidato. 

“Traduzimos todas as informações para texto e identificamos as qualidades que indicam maior chance de sucesso na vaga”, diz Kevin Parker, presidente executivo da HireVue, que levantou US$ 93 milhões de fundos como Sequoia (o investidor de Facebook e Nubank). A partir do resultado, a empresa parte para analisar currículos – tarefa que também pode ser automatizada. Segundo Parker, o principal trunfo da startup é conseguir fazer uma triagem com base em qualidades não evidentes quando um humano vê um currículo.

Netflix de currículos

“As empresas grandes recebem tantos candidatos que os recrutadores passam em média 7,4 segundos olhando os currículos, e 95% deles são completamente ignorados”, diz Somen Mondal, fundador da canadense Ideal, outra startup que criou um algoritmo para melhorar o recrutamento. Para o contratante, o sistema funciona como um “Netflix dos currículos”. 

Primeiro, a plataforma se dedica aos dados dos funcionários bem-sucedidos dentro da empresa. Depois, cruza as informações com uma análise da experiência do candidato e um questionário respondido por ele, ministrado por um robô de conversa (chatbot). Assim, a ferramenta consegue analisar pretendentes e criar recomendações – tal como o serviço de streaming sugere uma série ou filme com base no que a pessoa já viu. Segundo Mondal, empresas que usam sua ferramenta reduzem o tempo de preenchimento da vaga em 15% e aumentam em 10% a qualidade das contratações. 

Quem também promete mais agilidade na hora de contratar é a chilena Aira. Fundada em 2016, atua em seis países e deve chegar ao Brasil até o fim do ano. Com clientes como Heineken e Walmart, a empresa diz conseguir trazer um novo funcionário em até três dias. 

Outra vantagem que os sistemas de IA dizem permitir aos gestores de RH é a capacidade de dar retorno aos candidatos desprezados – afinal, como quem comanda o processo é um algoritmo, ele também envia respostas automatizadas. 

Com ou sem influência?

Se bem utilizados, algoritmos podem ser moldados para não ter preconceito – abstraindo aspectos que dão viés a recrutadores humanos, como idade, sexo e até o nome. Os sistemas podem ainda ser treinados para evitar juízos de valor sobre instituições de ensino e locais de trabalho anteriores, observando apenas a relevância das experiências prévias. “A inteligência artificial permite uma visão 360º do candidato, pois não usa só um parâmetro”, diz Kugler. 

Porém, apostar que o candidato perfeito será aquele bem parecido a quem está dentro da empresa pode ser um tiro no pé. Foi o que aconteceu com a startup mineira Solides – ela própria, dona de IA para contratação. “Chegamos num ponto em que a equipe comercial tinha perfil tão similar que a ‘parceiragem’ afetou o rendimento”, diz Alessandro Garcia, um dos fundadores. 

Alessandro Garcia, presidente da startup Solides
Alessandro Garcia, presidente da startup Solides

A solução foi ir contra o que a IA fazia e mandá-la buscar um perfil de “um tubarão no aquário”, como diz Garcia, para mudar a dinâmica. Além de recrutamento, a Solides também faz gestão de pessoas com IA, visando reduzir a rotatividade. Um de seus clientes, uma financeira, economizou R$ 240 mil em um ano após aplicar inteligência de dados no RH. 

Mas será este o fim das entrevistas de emprego em carne e osso ? Para os criadores de algoritmos, isto está longe de acontecer. Como nos filmes em serviços de streaming, o dono do controle remoto é que faz a escolha. “Não usamos Netflix para ver filmes irrelevantes, queremos assistir ao que gostamos”, diz Mondal, da Ideal. “Nosso caso é semelhante: queremos que os gestores possam focar no que importa e não fiquem afundados em pilhas de currículos.” 

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Girlboss lança “LinkedIn” exclusivo para mulheres

Criada por Sophia Amoruso, plataforma quer conectar empreendedoras, criativas e freelancers
Por Soraia Alves

Girlboss, a startup de mídia criada por Sophia Amoruso (Nasty Gal), lançou uma alternativa ao LinkedIn focada só em profissionais mulheres. A plataforma já havia sido anunciado no ano passado, mas foi oficialmente lançada para o público neste fim de semana.

Levando o mesmo nome da startup, a plataforma pretende ser uma rede que ajuda a conectar empreendedoras, criativas e freelancers, e já conta com algumas profissionais notáveis ​​como Arianna Huffington e Bozoma St. John.

Assim como no LinkedIn, as usuárias podem compartilhar experiências de trabalho ao lado com mais detalhes que em um currículo. Para Sophia, a ideia é que as profissionais compartilhem informações além de suas carreiras: “Espero que as mulheres possam compartilhar não apenas o que fazem, mas quem são, trazendo um senso de sua personalidade e aspirações de que realmente orgulham seus perfis”, diz a empresária.

A plataforma é gratuita. Como regra, as profissionais só podem enviar uma solicitação de conexão por dia e devem especificar claramente suas intenções.

Girlboss está disponível através do site https://www.girlboss.com/. O aplicativo móvel ainda está em desenvolvimento.

Ser LGBT+ em startups no Brasil ainda é um tabu e precisamos falar sobre isso

Um relato pessoal de superação, medos, avanços e dicas para quem faz e para quem não faz parte da comunidade lidarem melhor com a questão LGBT+ no ambiente de trabalho
Por Felipe Matos

Imagem: PxHere

Era Setembro de 2018 e eu tinha acabado de começar a trabalhar em uma startup. Foi quando fiquei sabendo que o processo de adoção de uma criança, que eu e meu companheiro aguardávamos havia 3 anos e meio, estava chegando em seu passo definitivo: nosso filho havia chegado! Entre o misto de sentimentos de êxtase e preocupações, um ponto veio à mente: como eu iria contar a notícia para a empresa? Será que iriam levar numa boa? Abrir minha sexualidade pela primeira vez no ambiente de trabalho poderia atrapalhar a forma como a empresa enxergava meu desempenho? E ainda havia as questões formais, como precisar ficar um período fora em licença paternidade, poucos meses após iniciar o trabalho por lá. Além da questão LGBT+, é sabido que certas empresas também tratam com receio a questão da paternidade – e maternidade -, que às vezes é vista como fator que atrapalha o desempenho profissional. 

Para minha sorte, não tive nenhum problema. A In Loco, empresa onde eu trabalho, tem uma cultura aberta e inclusiva e tudo correu muito bem. Porém, esta nem sempre é a realidade de muitas empresas – startups ou não. Neste mês de junho, em que se celebra o orgulho LGBT+, com a lembrança dos 50 anos de Stonewall, muito tem sido discutido sobre o tema e diversas empresas vem se posicionando cada vez mais em favor da causa. Startups, em especial, costumam ser vistas como modernas e inclusivas em relação a esta questão, mas será que é isso mesmo?

Antes de mais nada, cabe dizer que escrever esse texto para mim é libertador. É a primeira vez que falo abertamente sobre o assunto, após muitos anos saindo aos poucos do armário. E isso porque esse ainda é um tema tabu, que gera sofrimento e constrangimentos para muita gente, especialmente no ambiente de trabalho. É duro sofrer calado sentindo que você não pode estar por inteiro naquele ambiente, escutando piadinhas machistas e homofóbicas nas rodinhas de conversa informais e temendo ser julgado e prejudicado profissionalmente apenas por gostar de quem você gosta. Lembro-me das inúmeras vezes em que algum colega me contava despretensiosamente histórias sobre seus relacionamentos e eu não me sentia à vontade para responder com a mesma naturalidade sobre a minha relação, que permanecia escondida. Pior era quando a pessoa assumia a minha heterossexualidade e perguntava sobre namoradas e esposas e eu respondia com um sorriso amarelo, por momentos me sujeitando a me referir ao meu companheiro como “ela” ou então negando a sua existência. Tudo isso por medo de reações preconceituosas, julgamentos e possíveis impactos na forma com que os colegas iriam me tratar no trabalho. Será que isso impactaria nas minhas promoções? Na forma como eu seria tratado pelos colegas? Geraria dúvidas sobre minha capacidade de liderança na equipe?

Hoje eu me liberto desses tabus com leveza e o faço não apenas por mim e por minha família, mas na também esperança de que meu relato ajude outras pessoas que passam por situações semelhantes. Se assumir e jogar luz sobre esse tema é também um ato político, especialmente num momento tão crítico como  atual, em que o avanço de um pensamento conservador e retrógrado ameaça direitos conquistados pela comunidade ao longo dos anos. Dar visibilidade e se colocar são passos importantes para que a questão seja tratada cada vez com mais naturalidade, afinal ser LGBT+ não faz de ninguém inferior nem superior a qualquer pessoa em qualquer aspecto. Todos merecemos dignidade e respeito e igualdade de direitos. E incluem-se aí o direito civil ao casamento, à adoção, a ser chamado pelo nome com o qual se identifica, a ter acesso digno e respeitoso a oportnidades de trabalho e até mesmo o direito fundamental à vida.

Sei que como homem gay, branco, de classe média alta e cisgênero, sempre empreendendo e atuando em cargos de liderança, tive que passar por muito menos problemas relacionados à sexualidade no trabalho que muitas outros e por isso sinto-me privilegiado. Ainda assim, dor de ter vivido anos sofrendo calado os constrangimentos de um ambiente de trabalho ainda muito homofóbico me deu a capacidade de exercer mais empatia, buscando me colocar no lugar do outro e percebendo que há muitos outros grupos de minorias que ainda não tem direito ao básico: igualdade. É preciso seguir jogando luz a estas questões, para que sigamos avançando. Afinal, quero deixar para o meu filho um mundo com mais respeito e oportunidades, onde ele possa ter e oferecer respeito a todos e todas independente de suas orientações.

Então, para fechar esse texto com uma mensagem propositiva, deixo algumas dicas para você que é LGBT+ e também para você que não é, com a intenção de tentar passar algumas mensagens que podem deixar os ambientes de trabalho mais abertos e inclusivos.

Se você é LGBT+

  • Eu sei que muitas vezes é difícil se assumir no ambiente de trabalho. Mas acredite: nada vale mais do que estar inteiro e sentir-se pleno consigo mesmo sem precisar se esconder. Se a sua empresa não lida de forma inclusiva e respeitosa com essa questão, talvez não seja mesmo lugar para você. Existem iniciativas de qualificação e apoio a busca de trabalho em locais que respeitem a diversidade, como a TransempregosCarambolaGrupo Dignidade, dentre outros.
  • Procure saber se a empresa onde você pretende trabalhar tem uma postura inclusive em relação à diversidade. Muitas delas têm programas e políticas específicas e também é possível pesquisar por casos de assédio ou homofobia em sites como o Glassdoor, onde funcionários falam anonimamente sobre suas experiências de trabalho em cada empresa. Pode ser uma boa ideia trazer a questão para a discussão, caso ela ainda não seja tratada na empresa.
  • Se você é trans, apresenta-se com o pronome e nome com os quais você melhor se identifica e use o banheiro que te deixar mais confortável. Se essa for uma questão, converse com os colegas e com a empresa. Será uma oportunidade para todos aprenderem um pouco mais sobre respeito.
  • Empatia também passa por se colocar no lugar até mesmo daqueles que têm comportamentos homofóbicos e transfóbicos. Procure entender que as pessoas tiveram histórias diferentes, formações diferentes e, embora nunca devamos aceitar o desrespeito, acredito que uma postura construtiva – e não só combativa – ajude a trazer mais resultados para a formação de  ambientes inclusivos. Ao invés de reagir de forma ríspida e impositiva, talvez valha à pena buscar entender um pouco mais das razões para o comportamento do outro, encontrar pontos em comum entre vocês e buscar construir diálogos mais construtivos.
  • Busque apoio. Algumas empresas possuem políticas de promoção e atenção à diversidade e grupos formais e informais de apoio mútuo. Se sua empresa não tem, pode ser o caso de ajudá-la a criar. E em caso de assédio, denuncie. Homofobia é crime, já reconhecido pelo SFT.

Se você não é LGBT+

  • Primeiro, o básico: homossexualidade é um comportamento normal, com registros desde que o mundo é mundo. Já deixou de ser considerado doença pela OMS há décadas. Estudos mostram, inclusive, sua presente na natureza em diversas de espécies de animais. É um comportamento que diz respeito somente à pessoa e que não influenciam em nada no caráter ou competência para se realizar qualquer tarefa.
  • Em rodas de conversa, evite piadas machistas e homofóbicas. A pessoa do seu lado pode ser gay, lésbica, bi ou trans e não se sentir bem.
  • Não parta da premissa de que a pessoa com quem você está conversando é heterossexual ao comentar sobre relacionamentos. Ela pode não ser. Ao invés de perguntar a um homem se ele tem namorada ou comentar sobre o suposto marido de uma uma mulher com aliança no dedo, você pode ser genérico ou mesmo perguntar o gênero do suposto parceiro. Não dói e nem ofende.
  • Não tire ninguém do armário no trabalho. Cada um tem seu tempo e suas questões e deve se sentir à vontade para se abrir quando e como se sentir mais confortável. Se você descobriu sobre a orientação sexual de alguém e essa pessoa é reservada quanto a isso, respeite o momento dela.
  • Não caia no papo furado de termos como “orgulho hétero” ou “ditadura gay”. LGBT+s não querem “impor seu estilo de vida” a ninguém, apenas serem respeitados como são, da mesma forma que qualquer outra pessoa. Assim como não existe racismo reverso, também não há “heterofobia”. Ninguém é morto apenas por ser heterossexual. Ninguém sofre preconceito apenas por ser heterossexual cisgênero. 
  • Você pode até não gostar, não concordar. Mas tem que respeitar. Se você é religioso de orientação cristã, lembre-se que o principal ensinamento de Jesus foi a prática do amor ao próximo.

Startups levam inovação para o mercado funerário

Empresas buscam criar processos alternativos para enterro e cremação, considerados pouco sustentáveis; no Brasil, ainda há poucas iniciativas nesse sentido
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Katrina Spade, presidente executiva da startup americana Recompose

Há quem diga que a disrupção digital vai chegar a todos os lugares. Se setores como finançasadvocacia ou publicidade já têm soluções tecnológicas avançadas, outros, mesmo que inusitados, ainda engatinham na inovação – mas trazem grandes oportunidades. É o caso, por exemplo, do mercado funerário: ocupado tradicionalmente por empresas pequenas ou familiares, ele é avaliado em US$ 20 bilhões só nos Estados Unidos. Mas já há startups de olho nele, em ideias que vão de testamento online e comparação de preços de funerárias até novos processos para substituir enterros e cremações, considerados pouco sustentáveis. 

É o caso da startup americana Recompose, que criou um sistema para acelerar a transformação de um cadáver em um pequeno pedaço de solo, a partir do processo da compostagem. Durante um mês, o corpo é posto em contato com uma mistura química em um reservatório, a cerca de 50ºC. No fim do processo, o material é devolvido à família para os parentes plantarem uma árvore ou colocarem a terra em um jardim. Essa ideia fez com que a Recompose levantasse mais de US$ 7 milhões em investimento, desde 2018. 

“As pessoas querem novas opções e estamos ajudando os humanos a retornarem para seu ciclo natural”, disse a arquiteta Katrina Spade, presidente executiva da empresa. Para ela, a compostagem pode ajudar a reduzir emissões de carbono das cremações e ajudar cidades a aproveitar melhor espaços hoje ocupados por cemitérios. 

Projeto da sede da Recompose, que receberá famílias 
Projeto da sede da Recompose, que receberá famílias 

Por enquanto, o trabalho da startup não está em prática – no mês passado, o Estado de Washington se tornou o primeiro estado americano a permitir a compostagem de corpos. O plano da empresa é começar a operar em dezembro do ano que vem, incluindo uma sede para receber as famílias, com direito a espaços iluminados e design moderno. “Não somos só um aplicativo que você aperta um botão e o corpo vira solo. Precisamos ter contato com as pessoas”, disse Katrina. 

Quem tem uma ideia parecida é a startup americana Coeio, fundada em 2015, que desenvolveu uma veste especial, com cogumelos e microorganismos, para facilitar a decomposição dos corpos – a roupa custa US$ 1,5 mil e tem casaco, calça e capuz especiais. 

No Brasil, mercado ainda é incipiente

Por aqui, as startups que estão no setor têm conceitos mais modestos. Para Gisela Adissi, presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), o País está atrás dos EUA, mas já há sinais de mudança no setor. “Todo mundo está confortável fazendo seu trabalho, mas já vejo a indústria abrindo seus olhos”, afirma. 

Gisela Adissi, presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep)
Gisela Adissi, presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep)

Um dos casos mais interessantes é o da WebLuto, um marketplace do mercado funerário – empresas usam a plataforma para anunciar serviços como sepulturas, atendimentos e cremações. A partir do banco de dados, usuários podem comparar produtos e pedir orçamentos. “Somos uma mistura de Uber e Hotel Urbano, só que com destino à eternidade”, afirma Siderlei Gonçalves, fundador da empresa. 

Fundada em 2018, a WebLuto por enquanto tem apenas 50 funerárias ativas em sua plataforma. “Nossa meta, a longo prazo, é ter ao menos uma funerária e um cemitério online em cada município do Brasil”, diz Gonçalves. Para usarem a plataforma, funerárias pagam uma assinatura mensal de R$ 99; já os cemitérios, R$ 199. Com 20 anos de experiência no setor funerário, o executivo reconhece que o mercado é difícil de ser desbravado, por ser pouco popular e tradicional. 

Inovação e agilidade levam pequenas a resolver problemas de gigantes

Com estrutura mais engessada, grandes corporações buscam serviços já desenvolvidos e testados de pequenas startups, que lucram com escalabilidade
Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

Ricardo Ferreira (à esq.), sócio da Cinnecta, e Fernando Freitas (à dir.), da Inovabra, programa de inovação do banco Bradesco para promover parcerias de inovação com startups. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Set Construção Visual faturou R$ 500 mil nos seus primeiros seis meses de mercado em 2018. Atualmente, tem contrato com 13 grandes empresas, como incorporadoras, grupos hoteleiros e construtoras, incluindo a Tenório Simões, que ergue prédios do programa Minha Casa Minha Vida em Pernambuco. Com apenas 24 funcionários, a startup faz parte do grupo das pequenas iniciativas que nasceram para solucionar problemas de grandes corporações.

O modelo de negócio é aproveitar um vácuo deixado pelas grandes empresas, que não conseguem resolver todos os seus problemas relacionados à inovação. “A grande está tão focada no core business dela que não vê uma inovação surgindo. Quando algo começa a se tornar muito importante, faz todo o sentido para ela contratar o serviço que uma startup já tinha começado a pensar dois anos antes”, aponta o presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), Amure Pinho.

A agilidade nas decisões e as estruturas pouco engessadas, próprias de startups, tornam o contrato atrativo para as grandes. “A tecnologia muda rapidamente. Quando começamos era um tipo de software e já atualizamos duas vezes. Por sermos pequenos e não termos tantas regras, conseguimos fazer isso com muito mais rapidez”, conta Jeanne Karlla, arquiteta e fundadora da Set. A startup aposta no uso de tecnologia de modelagem da informação para criar protótipos virtuais de obras e simular sua execução com precisão.

Na relação de troca entre as empresas, o aspecto financeiro também tende a ser vantajoso para as duas. “Antigamente, as corporações tinham que investir em desenvolvimento de pesquisa internamente, criar estrutura de pessoal próprio, pesquisadores e laboratórios, e isso custava muito caro para elas”, aponta o coordenador do MBA em Empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcus Quintella.

Para a pequena, o benefício financeiro vem da escalabilidade, que faz com que uma mesma tecnologia desenvolvida possa ser fornecida para várias empresas ao mesmo tempo, diminuindo o custo. “Como o mercado de grandes empresas no Brasil é muito bem catalogado, é fácil identificar quem elas são e descobrir se o problema de uma é também de outras, ou seja, um problema grande e que envolve muito dinheiro”, aponta Pinho. “Grandes empresas são, geralmente, boas pagadoras, com contas grandes, então algumas startups acabam escolhendo ser B2B (business to business, de negócios realizados entre empresas).”

O caminho até as grandes

Em busca de startups que resolvam suas demandas de tecnologia, as grandes corporações têm criado programas de incentivo à inovação. Nessa linha, o Bradesco mantém, desde 2014, o Inovabra Startups, planejado para estabelecer parcerias estratégicas do banco com as pequenas. “Em uma empresa, na disputa de orçamento e de pessoas, há uma fila grande de projetos, então as startups nos ajudam a inovar sem concorrência com nossos processos internos”, afirma Fernando Freitas, superintendente executivo de pesquisa e inovação do Bradesco. Em quatro anos, a iniciativa, que tem inscrições mensais, já recebeu 3,2 mil candidaturas.

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Inovabra Habitat, espaço de co-inovação do Bradesco que reúne 190 startups e 75 grandes empresas trabalhando de forma colaborativa em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A ampla concorrência em programas como o Inovabra Startups exige que as pequenas estejam preparadas para defender o seu negócio. Para isso, o Sebrae oferece capacitação sobre gestão empresarial direcionado para elas, o Startup SP. “A empresa tem que saber como se apresentar, ter um projeto de canvas, conhecer a sua proposta de valor e o seu diferencial frente ao mercado”, aponta o consultor do Sebrae Henrique Romão.

Criada em 2013 pelos sócios e irmãos Eduardo e Ricardo Ferreira, a Cinnecta, startup de inteligência de dados que ajuda grandes empresas a entender o perfil e o comportamento de seus clientes, participou do Inovabra Startups e, hoje, é residente do Inovabra Habitat, estrutura que reúne 190 startups e 75 grandes empresas trabalhando de forma colaborativa em São Paulo.

“Saímos do programa com soluções mais amadurecidas e tivemos contato com executivos do Bradesco, o que nos ajudou a ganhar mais autoridade”, conta Ricardo. Hoje, além do banco, a startup atende 10 grandes empresas, entre companhias aéreas, operadoras de telecom, empresas do varejo e programas de fidelidade.

Na hora de conquistar um contrato com uma grande, as pequenas também podem tomar a iniciativa. Um dos caminhos adotados por Bruno Diesel, CEO da Peerdustry, startup que usa tecnologia para promover a manufatura compartilhada entre grandes empresas e fornecedores, é buscar corporações que tenham núcleos de inovação.

Hoje, a companhia atende dez grandes clientes, como a Saint-Gobain e a Crown Embalagens. “Existem pessoas que estão procurando soluções fora da caixa, então focamos nelas. Eu vou no LinkedIn e procuro organizações que têm o ‘open inovation’como função, encontro a pessoa que ocupa o cargo e mando uma mensagem. Ela, geralmente, consegue uma reunião com o time em duas semanas. Esse é o momento que estamos vivendo no Brasil”, conta.

Neoway compra startup LegalLabs e abre área de serviços jurídicos

Cotada para ser unicórnio, catarinense desembolsou US$ 26 milhões para adquirir empresa; meta da empresa é realizar aquisições para ganhar musculatura antes de abrir capital

Neoway comprou startup brasileira de LegalTech 

A startup de inteligência artificial e análise de dados (big data) Neoway vai ganhar mais um setor nesta semana: soluções tecnológicas para a área legal. Chamada de Neoway Legal, a nova área surge após a empresa adquirir a legaltech (startup de serviços jurídicos) brasiliense LegalLabs – a operação, anunciada nesta segunda-feira, 10, foi avaliada em US$ 26 milhões. 

Em entrevista ao Estado, Carlos Eduardo Monguilhott, diretor de operações da Neoway, disse que a nova empresa será responsável por lançar produtos focados em agilizar processos judiciais. “A Neoway Legal vai coletar e extrair informações para usar em processos. Vamos tentar prever que tipo de decisão pode ser tomado em cada caso, com base nos nossos arquivos históricos”, disse.

Entre os potenciais clientes, estão empresas que possuem uma grande quantidade de processos parecidos, como bancos e seguradoras. Já a automação dos processos fica por conta de uma ferramenta dotada de big data e inteligência artificial.

“A Neoway Legal vai coletar e extrair informações para usar em processos. Vamos tentar prever que tipo de decisão pode ser tomado em cada caso, com base nos nossos arquivos históricos”, disse.

Entre os potenciais clientes estão empresas que possuem uma grande quantidade de processos semelhantes, como bancos e seguradoras. Já a automação dos processos fica por conta de uma ferramenta dotada de BigData e inteligência artificial.

Para Daniel Marques, diretor executivo da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), a aquisição faz parte de uma tendência do mercado de startups de direito do País.

“Estamos em um momento em que tanto os fundos de investimento quanto as grandes empresas estão investindo e comprando legaltechs”, disse Marques. “O Direito conseguiu crescer sem tecnologia até pouco tempo, mas o cenário mudou e todo mundo está atrás de startups que tragam essa inovação”.

Caminho para abertura de capital

A aquisição da LegalLabs também faz parte da jornada da Neoway para realizar sua abertura de capital, prevista para acontecer entre o final de 2019 e o início de 2020 – conforme revelou o presidente executivo da Neoway, Jaime de Paula, em entrevista ao Estado em março deste ano. Segundo ele, a empresa está adquirindo outras empresas para ganhar musculatura e abrir novas áreas de operação justamente antes de realizar sua abertura de capital (IPO, na sigla em inglês). 

Ainda não está definido, porém, se a catarinense vai abrir capital no Brasil ou nos Estados Unidos – seguindo uma tendência realizada por empresas como Netshoes, Stone e PagSeguro. É ainda bastante possível que, com o IPO, a Neoway se torne mais um unicórnio brasileiro – em relatório divulgado pelo hub de startups Distrito, a catarinense apareceu como candidata a valer pelo menos US$ 1 bilhão, avaliação de mercado que é considerada um marco para o as empresas do setor de tecnologia. 

Loggi levanta US$ 150 milhões e vira novo unicórnio brasileiro

Startup de entregas recebeu recursos do SoftBank e da Microsoft; aporte será usado para desenvolver time de tecnologia e realizar entregas no dia seguinte para todo o País
Por Bruno Capelas e Mariana Lima – O Estado de S. Paulo

Após nova rodada de investimentos, Loggi, do fundador Fabien Mendez, atingiu valor de mercado superior a US$ 1 bilhão

O mercado brasileiro de startups tem mais uma empresa avaliada em pelo menos US$ 1 bilhão (unicórnio, no jargão do ramo): a startup de entregas Loggi. Na manhã desta quarta-feira, 5, a empresa confirmou ter recebido uma nova rodada de investimentos de US$ 150 milhões, liderada pela empresa japonesa SoftBank e pela Microsoft. Fundos estrangeiros, como GGV, Fifth Wall e Velt Partners, também participaram do aporte, que avaliou a empresa em exatamente US$ 1 bilhão. 

“É um marco financeiro que confirma que a Loggi está no caminho certo de reinventar a logística com uso de tecnologia”, disse o presidente executivo e cofundador da Loggi, o francês Fabien Mendez, por meio de nota. Os recursos, segundo a startup, serão utilizados pela empresa para desenvolver seu time de pesquisa e desenvolvimento. Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, 5, a Loggi diz que pretende montar uma equipe com mais de mil funcionários na área de tecnologia – em especial, nas áreas de inteligência artificial e robótica. Ao todo, hoje a empresa tem cerca de 700 pessoas – a maior parte delas trabalha na matriz da empresa, em Barueri, na Grande São Paulo. No futuro, quer chegar a 1,5 mil. 

Outro objetivo da empresa é promover, para todo o território brasileiro, o que chama de “entrega no dia seguinte” – na qual o usuário faz uma compra pela internet em um dia e recebe o produto no próximo. Hoje, a empresa hoje faz 100 mil entregas diárias no País, único mercado onde atua – em 2017, realizava metade disso. Nos próximos 5 anos, a meta é de chegar a até 5 milhões de entregas diárias, conectando pelo menos 95% do território nacional. Atualmente, consegue enviar entregas a partir de 23 cidades ou macrorregiões brasileiras, com 25 mil entregadores espalhados pelo País. 

Não é a primeira rodada de investimentos feita pelo SoftBank na Loggi – em outubro do ano passado, o Vision Fund, liderado pelo grupo japonês, aportou US$ 100 milhões na startup brasileira. Foi o primeiro investimento da japonesa no País, antes de iniciar o Innovation Fund, que vai aportar US$ 5 bilhões em startups latinas nos próximos anos. Procurada pelo Estado, a SoftBank decidiu não comentar o investimento na brasileira. 

Ao todo, a Loggi já levantou seis rodadas de aportes, cuja soma chega a US$ 295 milhões. Entre os investidores da empresa, há ainda fundos como Monashees, Kaszek Ventures e Qualcomm Ventures. Entre os clientes da empresa, estão grupos como Samsung, Mercado Livre e Dafiti.

Para o empreendedor Felipe Matos, autor do livro 10 Mil Startups, o movimento não surpreende – estudos recentes, como este realizado pelo Distrito Fintech, já apontavam a empresa como potencial unicórnio. “É algo que demonstra a força do uso de tecnologia no setor de entregas no Brasil, que ainda tem muito o que crescer”, diz Matos. “É o terceiro unicórnio que surge do setor – iFood e Rappi, que é colombiano, mas tem forte presença aqui, também ocupam o espaço das entregas.” 

Na visão de Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), o investimento mostra que o setor de entregas “está longe de estar saturado” e que a “era dos unicórnios no Brasil só começou”. 

A empresa nasceu em 2013, depois que o francês Fabien Mendez decidiu se mudar para o Brasil. A inspiração foi a capa da revista The Economist destacando o bom momento do País, com o Cristo Redentor voando alto, feito um foguete. O tom do noticiário pode ter mudado desde então, mas ele não se arrepende. “Um bom empreendedor precisa ter visão a longo prazo e fazer investimentos contracíclicos”, disse ele ao Estado em outubro de 2017. “Se criamos uma empresa bacana em meio a uma crise, como será daqui a dez anos?”