Nova regra abre espaço para startups no setor de psicologia

A partir de novembro, CFP vai permitir sessões online; para especialistas, mudança exige adaptação e traz debate ético
Por Matheus Mans – O Estado de S.Paulo

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Startup Vittude, de Tatiana Pimenta, conecta psicólogos com empresas e pacientes

Uma nova norma do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que passa a vigorar em novembro deve abrir um novo mercado para as startups voltadas para a área no País. Sob a nova regra, psicólogos terão a possibilidade de realizar sessões de terapia online – antes, era possível apenas realizar 20 encontros, o que dificultava o trabalho das empresas iniciantes.

A mudança ocorre após um ano de estudos e observação do mercado. Ainda que vetadas, muitos psicólogos já usavam ferramentas como o Skype para fazer consultas online, especialmente em casos de atendimento com pacientes que tinham se mudado para outros países ou com dificuldades de deslocamento. “A norma estava desgastada”, diz a conselheira Rosane Granzotto, do CFP. “Precisávamos mudar.”

Uma das startups que busca surfar no novo movimento é a Vittude, criada pela engenheira civil Tatiana Pimenta em 2016. De lá para cá, a empresa recebeu R$ 650 mil em aportes e realizou 12 mil consultas; hoje, são 1,5 mil psicólogos e 4 mil pacientes cadastrados – 90% deles nunca havia feito tratamentos antes.

Além de atender pessoas físicas, a empresa também faz parcerias com empresas, oferecendo vouchers para os empregadores distribuírem entre os funcionários. “Há empresas que têm quase mil funcionários afastados por ansiedade ou depressão. É ruim para o empregador e para o INSS”, diz Tatiana. “Queremos agir antes que seja preciso pedir afastamento.”

Maré. A Vittude não está sozinha. Outra startup que atua nesse modelo é a Zenklub, fundada pelo médico Rui Brandão. A empresa tem hoje 5 mil profissionais cadastrados e já realizou mais de 20 mil consultas online. Entre seus investidores, está o fundo especializado em saúde HEALTH+, que aportou R$ 300 mil na empresa. A partir de um questionário e um algoritmo, a Zenklub busca filtrar qual o profissional mais indicado para o paciente. “Tentamos mudar a percepção das pessoas com terapia. Se você não se sentir bem com a primeira experiência, pode falar com outros profissionais. É mais confortável”, diz o fundador.

O uso do algoritmo para direcionar pacientes aos profissionais é algo comum no setor. Após fazer um cadastro, os usuários devem responder algumas questões específicas. Elas são divididas entre aspectos demográficos, como sexo ou região onde mora, e perguntas mais objetivas para o tratamento. Se o paciente sente a necessidade de falar com o profissional de forma frequente, o algoritmo provavelmente excluirá terapeutas freudianos. Se for necessário ser mais ouvido do que interpelado, caem as chances de serem indicados psicólogos junguianos, por exemplo.

Depois de selecionado o psicólogo, a mecânica é simples: o paciente escolhe o horário e realiza o pagamento pela própria plataforma – a maioria delas aceita cartão de crédito e boleto. As empresas faturam com porcentagens das consultas, variando entre 15% e 30%.

Na hora marcada, é só entrar com um código na sala de conferência e começar a sessão, de 50 minutos. Também é possível fazer a consulta por meio de áudio – mas isso só é permitido quando a conexão de internet não suporta o uso do vídeo.

Outra empresa do setor é a TelaVita, da psicóloga Milene Rosenthal, que oferece sessões com valores entre R$ 80 e R$ 200. Para ela, a teleterapia é o futuro da profissão. “Poucos psicólogos de linha psicanalista atendem por videochamada. Afinal, eles têm uma técnica de não olhar para o paciente e manter certa distância”, diz Milene. “Eles vão precisar achar um meio termo. Se Freud estivesse vivo, tenho certeza de que já estaria atendendo pela internet.”

Linhas. Algumas vertentes da psicologia se adaptam mais facilmente à web. É o caso da linha analítica, em que o terapeuta busca dialogar com o paciente. Para a psicóloga Jussara Pascualon, adepta dessa linha, as sessões online funcionam bem – hoje, ela já realiza 20% de suas consultas pela TelaVita. “Muitos dos meus pacientes trabalham e se consultam comigo durante o horário de almoço ou após o expediente”, afirma. Mas ela reconhece que é preciso se adaptar. “Tenho buscado novas técnicas: ler expressões e se comunicar pelo rosto é algo essencial na internet.”

Há quem defenda que a experiência online ainda é aquém do ideal. É o caso de Éverton Gonçalves, na profissão há 32 anos. Em 2017, um paciente seu foi morar nos EUA e tentou seguir com o atendimento virtual. “Vi que não era a forma correta, então cessamos.” O CFP reitera que há diferenças. “A tecnologia não recria tudo”, diz Rosane.

Além disso, especialistas do setor alertam para a essência da profissão: o contato entre as pessoas. Sendo uma ciência humana, a psicologia não pode ser usada por meio de inteligência artificial.

É o caso da gaúcha Eurekka, fundada por três psicólogos em 2017. Ela faz a união de diversas tecnologias: inteligência artificial, por meio de um chatbot no app de mensagens Messenger, que aconselha pessoas; apps para reduzir estresse e ansiedade; e terapia online e presencial, realizada na região de Porto Alegre. “Há um conservadorismo na psicologia que a deixa parada no passado”, diz o cofundador Henrique de Souza, de 23 anos. “Queremos mostrar como a tecnologia pode ser uma aliada da psicologia.”

Quando consultado sobre a startup e novas tecnologias, o CFP diz que ainda não há regulação em torno da inteligência artificial, chatbots ou aplicativos. “Não é hora. E a robotização completa de terapia não é psicologia. Tem muito a ser discutido ainda”, diz Rosane Granzotto, do CFP.

“O psicólogo não receita remédio. O medicamento é a própria relação com o profissional”, diz Nelson Fragoso, professor de psicologia do Mackenzie. “É preciso pensar a tecnologia como ferramenta de suporte à terapia.”

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Como o Brasil desbancou a Argentina na criação de startup

Foi no país vizinho que nasceram nomes de peso como Mercado Livre, mas hoje as referências estão no Brasil
Por Luiza Dalmazo – O Estado de S. Paulo

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Hernan Kazah é um dos fundadores o Mercado Livre, a startup mais bem posicionada da América Latina

A empresa de internet mais bem sucedida da América Latina é a argentina Mercado Livre, criada em 1999 e avaliada hoje em cerca de US$ 15 bilhões – o oitavo maior site de comércio eletrônico do mundo. Nesses quase 20 anos, surgiram companhias do setor em toda a região, mas foi também na Argentina que apareceram outros destaques do mercado de internet, como o site de turismo Decolar, o serviço online de venda de itens usados OLX e o portal financeiro Patagon, vendido por US$ 585 milhões para o banco Santander em 2000.

Enquanto as ideias dessas grandes empresas surgiam nas mesas dos bares portenhos, os negócios brasileiros partiam principalmente do setor corporativo. O Portal UOL, iniciativa do Grupo Folha com a Editora Abril e o fundo GP Investimentos, por exemplo, teve papel determinante na idealização do Submarino.com. Assim, apareciam por aqui mais executivos do que necessariamente empreendedores. E como as empresas argentinas acabaram crescendo mais que as nacionais, Buenos Aires se consolidou como o lugar de onde saíam as ideias de negócios para internet com resultados mais positivos.

Mas o jogo mudou. “O cenário hoje é muito diferente”, diz Hernan Kazah, um dos fundadores do Mercado Livre e atualmente líder do fundo Kaszek Ventures. “Quando começamos a empresa há 20 anos o ecossistema de tecnologia mais vibrante da América Latina ficava em Buenos Aires; hoje está em São Paulo.”

Entre 2013 e 2017, o Brasil recebeu 52% do valor investido por fundos de capital de risco estrangeiros em startups da região, segundo a Associação Latino Americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca). O maior sinal da virada contra os hermanos foi a venda do aplicativo de transportes 99 para a chinesa Didi, que teve o valor de mercado avaliado em US$ 1 bilhão – a primeira desse porte na região. Criada pelos brasileiros Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambrecht em 2012, foi também a primeira empresa fundada nessa década a completar o ciclo típico de uma startup de sucesso: concepção, validação do modelo de negócio e “saída”, termo que representa venda ou abertura de capital – o que significa o retorno do dinheiro investido.

A inversão do jogo não se deve a um ou outro motivo isolado. Primeiro, a Argentina mergulhou em uma crise econômica e política que já se estende por 16 anos. Em 2001, o país anunciou um calote em sua dívida pública. Depois, o país se fechou e adotou medidas para restringir a saída de dólares, o que afugentou ainda mais os investidores e inibiu a geração de negócios. “Isso afetou o país todo, inclusive as startups”, afirma Oliver Cunningham, sócio da consultoria KPMG.

Na segunda metade da década de 2000, os Estados Unidos e a Europa também viviam uma crise financeira, enquanto o efeito BRICs atraía cada vez mais atenção ao Brasil, o que fez o PIB nacional subir 7,5% em 2010. Para completar, a venda do site de comparação de preços Buscapé para o fundo sul-africano Naspers por US$ 342 milhões, em 2009, mostrou para quem ainda duvidava que era possível construir aqui uma empresa de internet com baixíssimo investimento e vendê-la por centenas de milhões de dólares depois de 10 anos.

Um dos marcos mais importantes da virada, porém, foi a repatriação do brasileiro Júlio Vasconcelos, que havia passado cinco anos morando no Vale do Silício, na Califórnia (EUA) e voltou ao Brasil em 2010 para abrir o site de compras coletivas Peixe Urbano. “Para mim, ter empresas grandes bem sucedidas aqui não era uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’”, afirma. Sua empresa chegou a faturar R$ 350 milhões e esteve em mais de 100 cidades na América Latina.

A benfeitoria do Peixe Urbano ao ecossistema brasileiro se estendeu em três frentes. A primeira foi fazer com que o fundo de capital de risco Benchmark, que havia investido no início do Facebook, realizasse seu primeiro aporte no país, chamando a atenção localmente para o setor e atraindo outros investidores americanos.

O segundo foi encorajar empreendedores de internet pelo Brasil, já que surgiram mais de mil sites de compras coletivas em nosso território. Finalmente, quem trabalhou no alto escalão do Peixe Urbano acabou virando motor do desenvolvimento de novas empresas. O atual presidente do aplicativo de transportes Uber, Guilherme Telles, por exemplo, foi funcionário do Peixe.

Leitura. Os fatores culturais e geográficos também ajudam a explicar por que a Argentina largou na frente no mercado de internet. Dados da NOP World Reports Worldwide mostram que a Argentina está nove posições à frente do Brasil no ranking dos países que mais leem. Além disso, por ser um país com dimensão territorial menor, é natural que comecem suas empresas com mais ambição, já pensando em internacionalização.

Não menos importante para que o Brasil assumisse o protagonismo em internet na região foi a criação do fundo Monashees, em 2005. Na época não havia nenhuma grande iniciativa que justificasse a criação de um fundo de capital de risco especializado em internet. Ex-funcionário do fundo americano General Atlantic e apaixonado por startups, Eric Acher decidiu abrir o fundo com o sócio Fábio Igel e, aos poucos, dava dicas aos empreendedores locais.

Em algumas empresas em que a Monashees fez aporte, ajudou a fundar as startups com envolvimento um pouco mais profundo do que normalmente acontece com fundos semelhantes nos Estados Unidos. O resultado dessa atuação foi que quando as atenções se voltaram ao Brasil, a Monashees era o primeiro contato de quem queria entender o que estava acontecendo localmente. Muitos negócios que fizeram as primeiras rodadas de aporte com Acher e Igel depois se associaram a outros fundos de maior porte, como a Accel Ventures, investidora do Facebook, a Tiger Global Management ou o fundo de private equity Riverwood Capital.

Em meio a uma severa crise econômica, que levou o presidente Mauricio Macri a anunciar um pacote de medidas nesta semana, a Argentina tenta se manter no jogo. O país vizinho anunciou recentemente um conjunto de leis para impulsionar principalmente startups, permitindo que empreendedores criem uma empresa em menos de 24 horas.

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Febre nos EUA, patinete elétrico já é testado no Brasil

Três startups ensaiam primeiros passos no País ainda este ano; lá fora, modelo atrai milhões em aportes, mas ainda carece de regulação
Por Mariana Lima, Bruno Capelas e Juliana Diógenes – O Estado de S. Paulo

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Vapt-vupt. A Ride, de Marcelo Loureiro (centro) aposta que o principal mercado dos patinetes por aqui será em viagens curtas, de até 2 km de distância

Eles são discretos, rápidos e silenciosos – e, em breve, vão começar a fazer parte da paisagem de São Paulo. São os patinetes elétricos, febre do momento nos EUA, impulsionada por startups que têm captado milhões em investimentos. Enquanto isso, no Brasil, surgem os primeiros empreendedores a apostar na ideia, testando modelos de negócios enquanto aguardam a regulamentação necessária para tirar os planos do papel.

Não seria exagero dizer que, para alguns deles, a ideia veio na mala de viagem. Marcelo Loureiro, um dos três sócios fundadores da Ride, morou em Los Angeles nos últimos dez anos e viu de perto o crescimento das startups de patinetes elétricos, enquanto tentava fazer crescer a sua própria empresa, a Spinlister – uma espécie de “Airbnb das bicicletas”. Ao ver que o negócio não iria para frente, decidiu vendê-lo e começar de novo. “O problema da mobilidade brasileira me fez decidir por tentar aqui no Brasil e não lá”, afirma.

O mesmo vale para Maurício Duarte, fundador da Scoo, que descobriu os patinetes entre uma aula e outra, quando estudava na Califórnia. Ele foi atraído para o meio de transporte pela simplicidade: bastava achar um veículo na rua, desbloqueá-lo com um código enviado para o smartphone e começar a andar.

“Usava para ir na padaria ou no bar, até que acabei comprando um”, conta. Logo, Duarte decidiu transformar a descoberta em negócio: em 2017, estudou a viabilidade técnica do setor no País, fechou parceria com fabricantes chinesas e, no início do ano, criou sua startup.

Há ainda um terceiro nome de olho nesse mercado: a Yellow, startup lançada por Ariel Lambrecht e Renato Freitas, dois dos cofundadores da 99. Primeira a ter autorização para operar bicicletas sem estação em São Paulo, a empresa almeja ter 25 mil patinetes elétricos na cidade até 2019.

Referência. O interesse tem lá sua razão: as somas vultosas que as empresas do setor já captaram nos EUA. Criada no ano passado, a Bird se tornou a startup que mais rápido conseguiu chegar à avaliação de US$ 1 bilhão em valor de mercado – suficiente para ser chamada de “unicórnio”, no jargão do setor.

A Lime, sua principal rival, não fica muito atrás: em junho, recebeu US$ 335 milhões do Uber, que começa a expandir horizontes para além dos carros. É outra que pode chegar por aqui em breve: em nota ao Estado, o Uber revela não ter planos específicos, mas não descarta trazer patinetes ao País por meio da “pupila”.

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Detalhe do patinete elétrico da Scoo, startup que também testa serviços em SP; inspiração nas americanas Bird e Lime

A Bird e a Lime, todavia, enfrentam críticas, em um imbróglio que remete aos primórdios de apps de transporte como o Uber. Sem regulamentação, os patinetes foram considerados “fora da lei” por cidades como São Francisco. Em junho, a prefeitura recolheu todos os veículos, que atulhavam as calçadas da cidade. Depois, começou um programa piloto, emitindo poucas licenças para as interessadas.

Protótipo. Se o entusiasmo americano inspira os empreendedores brasileiros, os problemas com o poder público também fazem as startups locais terem cautela. Hoje, as regras de trânsito permitem que patinetes elétricos rodem em ciclovias, com velocidades de até 20 km/h, ou nas calçadas, em até 6 km/h. A exploração comercial dos veículos e a permissão para que eles sejam “largados” em qualquer lugar, porém, dependem do aval das prefeituras.

Em São Paulo, onde as empresas ouvidas pelo Estado pretendem estrear, a Prefeitura diz não ter previsão para regulamentar a atividade. Por isso,as três startups – Ride, Scoo e Yellow – hoje se limitam a fazer testes em espaços privados, sem cobrar taxas. A meta das três empresas é cobrir um tipo de deslocamento específico: viagens curtas, de até 2 km. “É o percurso curto para o carro e longo para quem anda a pé”, diz Loureiro, da Ride. O preço, dizem as empresas, precisa ser competitivo em relação ao Uber e ao táxi. Uma viagem de até 2 km, por exemplo, deve custar cerca de R$ 6, segundo a Ride, com pagamento via cartão de crédito.

Há dúvidas se os valores serão suficientes para viabilizar o negócio – além do custo dos patinetes e sua manutenção, as startups devem ter equipes para recolher os aparelhos e carregá-los todas as noites, antes de devolvê-los às ruas. Também é preciso considerar a possibilidade dos equipamentos serem furtados ou danificados.

Para Ciro Biderman, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o novo modelo pode ter problemas por conta de infraestrutura. “Os patinetes ocupam uma porção mínima do potencial mercado de viagens compartilhadas, especialmente porque há poucas ciclovias no País”, diz. Eduardo Musa, presidente da Yellow, reconhece o fato. “É um mercado ótimo, mas no Brasil ele será naturalmente menor que as bicicletas”, diz.

Já Daniel Guth, coordenador de projetos da ONG Aliança Bike, vê o potencial no uso dos veículos em áreas centrais. É o caso da região da Faria Lima, hoje já tomada pelas bikes e onde ocorrem também os testes das startups até aqui, com pouco mais de uma centena de patinetes, usados pelas empresas para captar dados e medir a demanda dos paulistanos. Por enquanto: as três seguem à espera da hora certa para convencer o poder público de que merecem rodar pela cidade, sem ninguém achar que patinete é brincadeira de criança.

Empreendedores contam como recomeçar após fim de startups

Apesar do infortúnio gerar frustração a muitos empreendedores, ele pode ser o início de um negócio de sucesso
Por Luiza Dalmazo – O Estado de S.Paulo

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Tiago Dalvi criou startup depois de várias tentativas

Na noite de 1º de maio deste ano, o carioca Bernard De Luna, de 33 anos, não dormiu. No mês que sua startup Bunee, que operava uma plataforma para conectar profissionais de tecnologia, registrou seu melhor faturamento e recebeu duas propostas de investimento, ele e os outros fundadores decidiram fechar a companhia. Os resultados, eles concluíram, não eram suficientes. “Não preguei os olhos e chorei pensando que teríamos de comunicar a todos”, lembra De Luna. “Eu ganhei algumas batalhas, mas perdi a guerra. Essa história ninguém quer contar.”

Mas De Luna contou e isso fez bem para ele. Depois de anunciar ao mercado, conversar com empreendedores e com a família, ele entendeu que não era uma questão de incompetência. No mês seguinte, decidiu aceitar uma proposta de emprego no site de conteúdo QConcursos. “Depois de tirar um tempo para sofrer, com o coração limpo e energizado, assumi um novo desafio”, escreveu numa carta, há duas semanas.

Contar ao mundo que está fechando as portas de uma startup é algo comum nos Estados Unidos, mas não no Brasil. Em geral, quem vive nos EUA sabe que é muito difícil alguém acertar na primeira, como fez Mark Zuckerberg ao criar o Facebook, o mais comum é seguir uma trajetória parecida com a de Jeff Bezos, fundador da gigante de e-commerce Amazon, que criou várias empresas que quebraram antes de obter sucesso.

Aqui, os empreendedores ainda se sentem desconfortáveis ao falar sobre fracasso. “Ainda existe no Brasil a cultura de só falar da falha depois que já existe algo melhor para se apresentar”, diz Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Não existem dados oficiais, mas investidores e empreendedores dizem que a cada dez startups criadas nos EUA, nove morrem. Parece um prognóstico ruim, mas há estudos que mostram que fracassar é bom. A professora de negócios da Universidade de Stanford, Kathryn Shan, analisou o histórico de quase 3 milhões de empreendedores em 2014 e descobriu que é mais fácil ter uma empresa de sucesso quanto mais empresas o fundador tiver criado – mesmo se elas tiverem falido.

O curitibano Tiago Dalvi, 32 anos, falhou quatro vezes antes de criar sua startup atual, a Olist, uma plataforma que distribui anúncios em sites de e-commerce. Aos 19 anos, abriu uma loja num shopping. Depois uma distribuidora e, na terceira tentativa, um site que aproximava consumidores de vendedores de produtos artesanais. “O aprendizado oriundo dos equívocos cometidos em cada etapa foi fundamental para chegar onde estamos hoje”, diz Dalvi.

Em 2014, após sua terceira empresa receber investimento do fundo 500 Startups, ele passou uma temporada na Califórnia e decidiu fazer uma reviravolta no negócio, dando origem à empresa atual. “Eu já estava cansado de errar.”

A virada funcionou e, hoje, a Olist tem 160 funcionários e 3,5 mil lojistas vendendo seus produtos em sites como MercadoLivre, Submarino e Extra. “Empreender é um exercício de humildade. A cada mudança no negócio você chora, não vê saída”, diz Dalvi. O importante, segundo ele, é expor as inquietações para mentores e bons amigos.

Luto. Em geral, os empreendedores demoram demais para admitir que seus negócios deram errado e muitos ficam de luto, segundo o psiquiatra e psicólogo americano Michael Freeman, que atende muitos fundadores de startups. “Muitos sentem vergonha, raiva, depressão e falta de esperança”, afirma. “A melhor forma de lidar com essas emoções é antecipar a possibilidade de o negócio falhar antes de começar.”

Para especialistas, embora o mote “falhar rápido e falhar com frequência”, popular no Vale do Silício, soe bonito na teoria, na prática é diferente. “Ninguém gosta de falhar”, diz Thomas Koulopoulos, presidente da consultoria Delphi Group. “O importante é estabelecer limites para o negócio, aprender as lições e seguir em frente.”

Dar um tempo a si mesmo para refletir é a melhor saída, segundo os especialistas. Foi o que fez o pernambucano Antônio Inocêncio, de 31 anos. Ele empreendeu pela primeira vez em 2009, quando ainda estava na faculdade. Após dois anos, a empresa de entrega de ingressos por mensagens de texto (SMS) ainda não gerava receita e, quando o primeiro aporte se esgotou, fechou as portas. “Entrei em um MBA de gestão de negócios para não parar”, diz.

Na segunda tentativa frustrada de startup, dessa vez na área de análise de mídias sociais, ele já sabia que queria ser empreendedor e não foi procurar emprego após fechar a empresa.

Agora, Inocêncio está a frente da Nazar, startup que monitora o desempenho de bancos de dados na nuvem e que tem como principal cliente a Amazon Web Services (AWS). A empresa faturou R$ 500 mil em 2017 e planeja dobrar o valor em 2018, com a ajuda de parceiros.

Inocêncio avalia que fechar as portas de uma empresa é como viver o fim de um relacionamento: logo que acontece, a pessoa normalmente fica triste e lamenta, mas depois de um tempo percebe que saiu da relação mais forte do que entrou. “E o melhor: começa o próximo sem cometer os erros de antes”, diz.

Startups de mulheres geram mais receita a longo prazo

Empresas fundadas por mulheres faturam o dobro por dólar investido do que as criadas por homens, aponta estudo do Boston Consulting Group
Por Carolina Ingizza – O Estado de S. Paulo

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Pulso. Fabíola Paes, da Neomode, acredita em movimento positivo de empreendedoras

Startups fundadas por mulheres recebem muito menos investimento que as criadas por homens. Ainda assim, as empresas lideradas por elas dão um retorno maior em receita no longo prazo do que as comandadas por eles. Essa é a conclusão de um novo estudo realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), em parceria com a MassChallenge – rede de aceleradoras norte-americana que oferece mentoria e recursos para startups –, e obtido com exclusividade pelo Estado.

Ao analisar 350 empresas que foram aceleradas em programas do MassChallenge, sendo 258 fundadas por homens e 92 criadas por mulheres, o BCG observou que as empresas com fundadoras do sexo feminino receberam, em média, US$ 935 mil em investimentos. Enquanto isso, as companhias fundadas por homens receberam US$ 2,1 milhões, em média, em aportes de capital de risco.

Em longo prazo, porém, elas geraram maior receita, apesar do baixo investimento inicial. Segundo o BCG, as companhias cofundadas por mulheres geraram 10% mais em renda acumulada num período de cinco anos: foram US$ 730 mil contra US$ 662 mil, no caso dos homens. Em outras palavras, a cada US$ 1 investido na empresa, as mulheres geraram US$ 0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: US$ 0,31.

Disparidade. Se as empresas fundadas por mulheres geram maior resultado, por que elas não conseguem levantar cifras similares às obtidas pelos empreendedores? Há vários fatores envolvidos, de acordo com o relatório, como o machismo.

Segundo o estudo do BCG, empreendedoras são mais questionadas se têm o conhecimento técnico básico para liderar o negócio. “Os investidores simplesmente presumem que as mulheres fundadoras não têm esse conhecimento”, diz o BCG, no estudo.

Nas apresentações feitas aos investidores, esse não é o único entrave. Elas também são olhadas com desconfiança, por não responderem diretamente à críticas. Outro fator está relacionado à ousadia: enquanto os homens fazem projeções mais arriscadas, as mulheres são mais conservadoras.

A falta de familiaridade dos capitalistas de risco com os segmentos em que algumas delas atuam, como cuidados infantis e beleza, por exemplo, prejudica a obtenção de dinheiro.

Otimismo. Apesar dos desafios, a situação tem melhorado, segundo a empreendedora carioca Fabíola Paes, de 34 anos, que fundou a startup Neomode em 2016. A empresa usa tecnologia para conectar canais físicos e digitais do varejo. “É preciso ser muito firme, mas vejo um movimento positivo de empreendedoras”, conta.

Sob sua liderança, a Neomode conseguiu R$ 100 mil em investimento da fabricante de cosméticos L’Oréal em 2016. Desde então, a empresa já levantou sete investimentos anjo e tem 15 clientes ativos, dentre eles a fabricante de cosméticos O Boticário. “Até agosto, pretendemos fechar uma nova rodada e levantar entre R$ 1 milhão e R$ 3 milhões”, revela a executiva. A meta é chegar a 40 clientes até o final do ano.

Exemplos como o de Fabíola mostram que o cenário está começando a mudar para as mulheres. “Esse número de fundos e investidores anjo que investem em mulheres vai melhorar quando tivermos mais empreendedoras prontas para desenvolver soluções que se conectam com essas oportunidades de negócios escaláveis”, diz Danieli Junco, fundadora da aceleradora B2Mamy, que apoia mães empreendedoras.

Já para Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), aumentar a presença de investidoras no ecossistema é fundamental para mudar a realidade. “É uma questão de empatia, já que homens e mulheres têm jornadas diferentes”, diz. “Se na frente da empreendedora estivesse uma mulher investidora, talvez ela se identificasse mais e investisse no projeto.”

Quem já investiu em mulheres, reconhece a boa gestão das startups. “Até prefiro trabalhar com empreendedoras, pois elas costumam ter um foco maior”, diz Mike Ajnsztajn, fundador da aceleradora brasileira Ace. “Elas conseguem lidar melhor com as várias tarefas concomitantes de uma startup.”

Fundos ‘gringos’ ajudam startups brasileiras a decolar

Número de aportes estrangeiros no País disparou em 2017 e tem ajudado empreendedores a acelerar crescimento

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Vinícius Roveda, da startup Conta Azul, teve ‘ajuda’ do fundo americano 500 Startups

O catarinense Vinícius Roveda tentou colocar a startup Conta Azul de pé pela primeira vez há dez anos. Naquela época, ela oferecia um “rascunho” do produto atual, um software de gestão de pequenas empresas vendido por assinatura. Mas os fundadores desistiram da ideia quando perceberam que o produto não estava “pronto”. Tentaram outra vez em 2010 e deram com os burros n’água. “Percebemos que a única forma de a empresa dar certo era investir pesado”, explica Roveda, hoje presidente executivo da Conta Azul. A saída foi buscar investimento de grandes fundos estrangeiros, estratégia que tem ganhado cada vez mais força entre as startups brasileiras.

Startup MaturiJobs reúne vagas para ‘cinquentões’

MaturiJobs também tem como objetivo fomentar o empreendedorismo acima dos 50 anos para manter profissionais ativos no mercado

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Inspirado na avó, Mórris Litvak criou a MaturiJobs. Foto: Gabriela Bilo/Estadão 

O trabalho voluntário em uma casa de repouso e o exemplo da avó, Dona Keila, que atuou como secretária e tradutora até os 82 anos, foram as principais inspirações do engenheiro de software Mórris Litvak para criar a MaturiJobs em 2015. A empresa tem como objetivo recolocar pessoas acima dos 50 anos no mercado de trabalho ou ajudá-las na missão de abrir o próprio negócio.

“Quando a minha avó parou de trabalhar, a saúde dela degringolou. Pensei então que poderia criar um negócio nessa área, para ajudar as pessoas acima dos 50 anos a voltar ao mercado de trabalho. Enxerguei esta oportunidade também pela possibilidade de criar impacto social”, conta Litvak.

A visão do empreendedor sobre a dificuldade enfrentada pelos profissionais maduros para se recolocarem no mercado de trabalho é real. A pesquisa ‘Envelhecimento nas Organizações e a Gestão da Idade’, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que as companhias avaliam que esses profissionais têm dificuldade de adaptação às novas tecnologias, falta de agilidade, menor criatividade e dificuldade de reconhecer lideranças entre os profissionais mais jovens.

A pesquisa – que ouviu 140 empresas – constatou que a maioria não adotava qualquer prática para integrar seus profissionais de diferentes gerações, o que irá se tornar um problema corporativo no médio prazo. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), aproximadamente 57% da população brasileira em idade ativa será composta por pessoas com mais de 45 anos em 2040.

Barreiras. A resistência das empresas em contratar pessoas acima dos 50 anos foi a primeira dificuldade encontrada por Litvak. “Logo percebi que, do lado corporativo, havia muita resistência, não só pela crise econômica, mas também porque o preconceito etário é forte.”

Após iniciar o negócio de forma “manual”, como ele mesmo define, em 2016 a MaturiJobs lançou sua plataforma online e, no mesmo ano, começou a cobrar pelos serviços oferecidos apenas para as empresas.

“É possível que as companhias publiquem vagas de forma gratuita e simples, mas se quiserem que o anúncio seja mais efetivo e alcance mais pessoas, ele é pago.”

Atualmente são 70 mil profissionais de todo o Brasil cadastrados e 680 empresas já utilizaram a plataforma desde o início do negócio. Os usuários podem se cadastrar e utilizar os serviços sem custo.

Visão. Com o passar do tempo, Litvak percebeu que, apesar de ter automatizado os processos, o número de vagas anunciadas ainda era baixo. “As empresas que contratam são poucas e o número de profissionais se cadastrando crescia em um ritmo rápido e de forma orgânica. Entendi que não dava para focar o negócio apenas em vagas de emprego. Começamos a levar conteúdo sobre empreendedorismo e economia compartilhada com o objetivo de mostrar para este público que existe outras alternativas e novas formas de trabalho e renda”, conta.

Hoje, além da plataforma de anúncios de vagas, a empresa oferece palestras, workshops e organiza encontros de networking entre os usuários para fomentar a discussão e informações sobre empreendedorismo, alternativa para os maduros continuarem ativos no mercado de trabalho.

“Ainda é um grade desafio encontrar o modelo de negócio ideal, porque essa questão da inserção de profissionais mais maduros no mercado de trabalho ainda não é prioridade no Brasil. Mas consigo viver da startup, que é uma empresa que visa lucro, mas tem esse propósito social”, afirma.