Itaú compra a Zup, startup de Uberlândia, por R$ 575 milhões

Empresa tem 900 funcionários, é especializada em serviços de big data e já prestou serviços para empresas como Vivo, Santander e Nextel
Por Renato Carvalho – O Estado de S. Paulo

Os sócios da Zup: big data para grandes empresas

Itaú anunciou na noite desta quinta-feira, 31, que fechou a aquisição de 100% do capital da Zup, startup fundada em 2011, em Uberlândia (MG). O valor total da transação é de R$ 575 milhões, e a compra será feita em três etapas ao longo de quatro anos.

Na primeira etapa, o banco vai adquirir 51% da Zup por cerca de R$ 293 milhões. No terceiro ano após o fechamento da compra, o Itaú vai adquirir mais 19,6% do capital, e o restante será comprado no quarto ano.

O Itaú ressalta que a gestão e a condução dos negócios da Zup vão continuar separadas em relação ao banco. Em comunicado, a instituição financeira informa que a empresa tem 900 funcionários, e oferece soluções tecnológicas de acordo com a necessidade de cada cliente. 

A empresa é especializada em serviços de big data, com análises de grandes bancos de dados. Em seu histórico, a companhia já ajudou a desenvolver aplicativos para operadoras como Vivo e Nextel e bancos como o Santander. “Ajudamos essas companhias a se digitalizarem de forma mais rápida”, disse, em 2017, o cofundador da empresa Gustavo Debs, ao Estado

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Startups eliminam intermediários e barateiam seguros automotivos

Empresas monitoram comportamento do motorista para definir preço do serviço
Dante Ferrasoli

Diogo Russo, 37, sócio-fundador da Kakau Seguros, na sede da empresa, em São Paulo
Diogo Russo, 37, sócio-fundador da Kakau Seguros, na sede da empresa, em São Paulo –  Karime Xavier/Folhapress

Assim como fazem em outros setores de economia, startups querem simplificar e personalizar o mercado de seguros, propondo que o usuário pague apenas pelo que efetivamente usa.

Uma dessas insurtechs —termo que junta as palavras em inglês “insurance” (seguro) e “technology” (tecnologia)— é a Onsurance, que oferece um seguro automotivo pré-pago. Tal qual se faz com um celular, o usuário coloca créditos em sua conta e eles vão se esvaindo conforme o automóvel é utilizado. Quando o carro está parado, não há desconto.

Diferentemente de seguros convencionais, não são levadas em conta variáveis como sexo e idade do motorista no cálculo do valor a ser cobrado.

“Não importa se é jovem ou velho ou onde mora. Instalamos um dispositivo no automóvel que captura como a pessoa conduz, e aí acontecem ajustes de preço. É mais justo. A pessoa pode ser nova e dirigir educadamente”, diz Adilair Silva, 35, cofundador.

Há um valor mínimo de crédito para colocar na primeira carga, que varia de acordo com o modelo do carro —para um popular, é R$ 1.199, mas o valor não expira nunca. 

A empresa estima que seu produto é entre 50% e 80% mais barato que o de uma seguradora tradicional. 
“Com isso a gente atinge pessoas que não eram atendidas por esse serviço. Cerca de 70% dos nossos clientes nunca tinham tido um seguro automotivo”, diz Ricardo Bernardes, 43, fundador. De acordo com dados de 2018 da FenSeg (federação de seguros) só 27% da frota do país têm a proteção.

A Onsurance, que é de Brasília, foi fundada em 2017 e emprega dez pessoas. A startup não revela quantos clientes tem ou o faturamento, mas diz já ter cuidado de mais de 4 milhões de minutos dirigidos.
A ThinkSeg, que começou em 2016, está mudando seus processos para oferecer um serviço parecido, no qual quem dirige mais paga mais. 

A empresa deixou de trabalhar com seguros tradicionais e atualmente testa o serviço “pague pelo que usar” com cerca de mil clientes.

O contratante pagará uma mensalidade mais uma taxa por rodagem, explica André Gregori, diretor-executivo. A cada viagem será atribuída uma nota de acordo com a prudência ao volante, medida por um aplicativo com inteligência artificial. Isso se refletirá no preço dessa taxa. 

“Não há transparência sobre o que se paga nesse mercado. Você sabe que se usar mais água e luz  vai pagar mais. Por que com seguro não pode ser assim?”, questiona Gregori. 

A estimativa é que, na média, o serviço custe R$ 90 para um carro popular. A companhia, que tem 108 funcionários e não revela faturamento, ainda não tem previsão de quanto o novo serviço deve lhe render. 

Mas a mudança no setor não é só no ramo automotivo. A Pier, por exemplo, foca a proteção de celulares.
Segundo seu fundador, Lucas Prado, 30, a ideia é que a plataforma funcione como uma comunidade, onde só  entra quem é convidado. Uma vez aprovado, o segurado paga mensalidades a partir de R$ 6,10 pelo serviço.

“Há uma relação desgastada entre segurados e seguradoras no Brasil, com burocracia de um lado e fraudes do outro. Como não temos intermediários, consigo ter uma relação transparente para explicar exatamente o que cobrimos e como funciona”, diz Prado. 

Lucas Prado, 30, fundador da Pier Seguros, no prédio onde funciona a empresa, em SP 
Lucas Prado, 30, fundador da Pier Seguros, no prédio onde funciona a empresa, em SP  – Bruno Santos/Folhapress

Para aprovar ou não um membro, a empresa avalia, além do score de crédito, o perfil digital do pleiteante, com informações fornecidas no pedido de entrada. 

O diferencial da Pier é a cobertura do furto simples, algo raro no mercado. Nesse delito, o ladrão não ultrapassa barreiras, como rasgar uma mochila, por exemplo, para subtrair um bem. Quando o faz, o furto é qualificado.

Segundo uma análise da  empresa, baseada em dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, 90% dos furtos de celular no estado são simples. E mais da metade das 400 indenizações já pagas pela Pier foram por esse delito. 

Pioneira como insurtech voltada a celulares, a Kakau Seguros também oferece seguro residencial. Nessa modalidade, é possível “ligar e desligar” o serviço, que custa a partir de R$ 19 por mês.

“Se alguém sai de férias e deixa a casa vazia ou a aluga no AirBnb, pode ligar o seguro só durante esse período e desligar quando voltar”, diz Diogo Russo 37, sócio-fundador. 

Para Eduardo Glitz, sócio da StartSe, empresa de educação executiva voltada para a nova economia, insurtechs são tendência. “A tecnologia elimina intermediários [no caso, corretores] e barateia serviços. Acho que pode haver um boom dessas empresas, assim como há das fintechs. O setor bancário e o de seguros são concentrados.”


27%  
da frota brasileira de automóveis é segurada 

48
é o número de startups do setor de seguros no país

9 em cada 10
furtos de celular no estado de São Paulo são simples


PIER

Inauguração
2019 

Número de clientes
10 mil (e mais 50 mil na fila de espera)

Número de funcionários
61

Faturamento
R$ 5 milhões (previsão para 2019)

O que oferece
seguro para celulares e tablets

KAKAU SEGUROS 

Inauguração
2017

Número de clientes
9.000

Crescimento
entre 25% e 27% em cada mês no último ano

Número de funcionários
4

O que oferece
seguro para celular e casa. Em breve, também para bicicletas

Startup Vitta cria plano de saúde especial para empresas de inovação

Baseada em um sua própria necessidade, a startup de saúde Vitta oferece serviço com direito a atendimento online 24 horas por dia
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

O plano de saúde da Vitta para startups conta com a parceria das seguradoras Omint e Unimed

Para acompanhar a rotina de empresas que respiram tecnologia, a startup Vitta acaba de lançar um plano de saúde voltado especificamente para startups. Fundada em 2014 com o objetivo de facilitar o trabalho do médico com prontuários eletrônicos, a companhia começou a entrar no ano passado na área de planos de saúde e agora ataca esse novo nicho.

Feito em parceria com as seguradoras Omint e Unimed, o plano de saúde da Vitta para startups é um produto digital, que conta com atendimento por telemedicina durante 24 horas pelo aplicativo de mensagens WhatsApp. Além disso, o aplicativo da empresa centraliza os dados de saúde do usuário, integrando digitalmente prontuários médicos, resultados de exames e prescrições de remédios. 

“Com o crescimento no número consultórios usando a plataforma, percebemos que poderíamos construir um ecossistema de saúde onde os pacientes estariam no centro do cuidado”, afirma o presidente executivo da empresa, João Gabriel Alkmim. A Vitta administra hoje o plano de saúde empresarial de 70 mil pessoas e mais de 8 mil funcionários entraram em setembro na lista de espera pelo plano para startups. 

A empresa diz que já recebeu R$ 35 milhões em investimentos, desde sua fundação. Alkmim explica que a ideia de criar um plano de saúde voltado às startup nasceu de uma dor da própria Vitta. “Enfrentávamos alto preços e grandes burocracias ao contratar um plano de saúde para nosso time”, diz o executivo. A empresa afirma que o seu modelo vai incluir pessoas jurídicas na apólice. 

A Vitta diz que já levantou R$ 35 milhões em investimentos
A Vitta diz que já levantou R$ 35 milhões em investimentos

Facebook compra startup CTRL-labs que faz pulseira capaz de ler mente do usuário

A CTRL-labs, de Nova York, é dona de uma tecnologia de interface neural, com a capacidade das pessoas se comunicarem com computadores usando sinais cerebrais

A pulseira, ainda em fase de desenvolvimento, da CTRL-labs

Facebook quer saber o que se passa dentro da sua cabeça. Ou quase isso: nesta segunda-feira, 23, a empresa de Mark Zuckerberg anunciou a aquisição da CTRL-labs, uma startup de Nova York que está explorando maneiras de as pessoas se comunicarem com computadores usando sinais cerebrais. 

O anúncio foi feito pelo vice-presidente da divisão de Realidade Virtual e Realidade Aumentada do Facebook, Andrew Bosworth. No texto, Bosworth não revelou valores, mas segundo informações da imprensa americana, o acordo é avaliado entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão. O time da CTRL-labs fai se juntar à equipe de pesquisa das áreas de RV e RA do Facebook, o Facebook Reality Labs. 

Ainda não foi definido se o time da CTRL-labs permanecerá em seu escritório em Nova York ou se a equipe vai se mudar para alguma das sedes do Facebook Reality Labs — a principal área de pesquisa da empresa fica em Redmond, no Estado de Washington, onde também estão a matriz da Microsoft e o escritório americano da Nintendo. 

O Facebook disse que pretende usar a tecnologia de interface neural da CTRL-labs no desenvolvimento de uma pulseira que se conecta a outros dispositivos de forma intuitiva.“A visão para este trabalho é uma pulseira que permite que as pessoas controlem seus dispositivos como uma extensão natural do movimento”, disse Bosworth. “Esperamos construir esse tipo de tecnologia em escala e transformá-lo em produtos de consumo mais rapidamente.”

Relatos da mídia dizem que a CTRL-labs está trabalhando com ciência do cérebro e aprendizado de máquina para criar interfaces para as pessoas controlarem e manipularem computadores pensando, sem precisar fazer gestos ou, no máximo, utilizando gestos sutis. 

De acordo com especialistas, no entanto, o dispositivo seria capaz apenas de detectar ações já definidas pelas pessoas, não sendo capaz de realizar gestos que as pessoas estavam em dúvida de fazer ou influenciar seu comportamento. O dispositivo de pulso da startup, atualmente em estágio de desenvolvimento, usa sensores para rastrear gestos e atuaria como um dispositivo de entrada.

Após onda do hambúrguer vegetal, startup New Wave Foods lança camarão com origem em plantas

Produto da New Wave Foods é composto por algas marinhas, proteína vegetal e outros dois ingredientes secretos

Camarão vegetal da New Wave Foods 

Depois da carne vegetal, do bacon vegetal e do frango vegetal, chegou a vez do camarão vegetal. A startup americana New Wave Foods planeja lançar em 2020 uma imitação com ingredientes vegetais do crustáceo. O camarão está sendo desenvolvido com algas marinhas, proteína vegetal e outros dois ingredientes secretos da companhia.

Um dos investidores da companhia é a gigante do ramo alimentício Tyson Foods, que também fez aportes na Beyond Meat, startup de carne vegetal que ajudou a impulsionar globalmente a tendência. Ao abrir o seu capital, a Beyond Meat viu suas ações valorizarem 163%.  

A empresa diz que as vantagens  do novo camarão são tamanho e consistência: a versão animal pode ter grandes variações no tamanho e na forma, além de apresentar variabilidade sazonal nos preços. O produto poderia ser consumido também por pessoas com alergia à proteína do animal. 

A ideia da New Wave é chegar a restaurantes dos EUA com distribuição da Tyson e, caso tenha, sucesso expandirá portfólio com versões vegetais para carne de caranguejo e de lagosta.   

Terapia acessível e online é premissa da startup Vittude de impacto social na saúde

Com epidemia de ansiedade no País, empresa aposta em atendimentos de terapia online, criando braço corporativo para atingir profissionais sob pressão
Maure Pessanha

Tatiana Pimenta e Everton Hopner Pereira, da Vittude, que tem 3 mil psicólogos cadastrados. Foto: Marco Torelli

O Brasil vive uma epidemia de ansiedade, alerta a Organização Mundial da Saúde. De acordo com o órgão, o País possui o maior número de ansiosos do mundo: são 18,6 milhões de pessoas, o que representa 9,3% da população. As mulheres são as que mais sofrem: 7,7% das brasileiras são ansiosas. Os afastamentos de profissionais por conta da doença custaram R$ 1,3 bilhão, em 2016, à Secretaria de Previdência. No mundo, há mais de 260 milhões de indivíduos com o problema.

A depressão também representa um desafio global à saúde pública: mais de 300 milhões de pessoas têm a doença – que se tornou a principal causa de afastamento do trabalho. Em contrapartida, de acordo com a OMS, a cada um dólar investido em promoção da saúde mental, há um retorno de US$ 4. Na prática, a prevenção é a resposta para apoiar a redução da incidência de doenças mentais.

Quando o tema versa sobre o estresse, os dados são igualmente alarmantes. Segundo levantamento da Isma-BR – representante da International Stress Management Association – 72% dos brasileiros que estão no mercado de trabalho sofrem alguma sequela ocasionada pelo estresse. Um estudo da London School of Economics, conduzido em 2016, mostra que os afastamentos por doenças psicológicas causaram perdas de US$ 246 bilhões (cerca de R$ 800 bilhões), por ano no mundo; e de US$ 63,3 bilhões (R$ 206 bilhões) só no Brasil.

Estima-se que 20% dos funcionários brasileiros estejam trabalhando mediante forte pressão emocional – que compromete a saúde física e psíquica, resultando em prejuízos relacionados à produtividade, absenteísmo e turnover elevado. 

Nesse cenário, um negócio de impacto social tem auxiliado os brasileiros a inserir a saúde mental entre as prioridades pessoais. Pioneira, a Vittude foi criada em 2016 por Tatiana Pimenta e Everton Höpner; hoje, a plataforma de terapia online está presente em mais de 50 países, possui mais de 13 mil usuários e cerca de 3 mil psicólogos cadastrados que realizam, em média, 4 mil atendimentos – nos formatos presencial e online.

Levando em consideração que metade dos municípios do Brasil não tem psicólogos em suas cidades, a solução tem atuado para democratizar o acesso à terapia, levando a possibilidade de brasileiros e brasileiras serem atendidos por profissionais pela plataforma. A solução está presente em 1.417 cidades brasileiras; entre os usuários, 64% são mulheres e 36%, homens. Na análise da modalidade, 80% optam por atendimento online.

Para atender pacientes em todos os continentes, a startup desenvolveu um consultório virtual criptografado, que garante a confidencialidade das consultas, seguindo os protocolos internacionais de privacidade. Para atuar com o mercado corporativo, a empreendedora criou o Vittude Corporate, que auxilia empresas e funcionários a abordarem a temática com apoio especializado.

A proposta da Vittude Corporate – cujo objetivo é democratizar o acesso à terapia no ambiente corporativo – é permitir que as empresas protejam o capital intelectual com uma lógica de investir em promoção à saúde mental. Na maioria das vezes, questões relacionadas à saúde psíquica começam a aparecer após anos de trabalho, sendo que a prevalência aumenta em cargos e posições de liderança. Com a redução dos tempos para as tomadas de decisão e uma maior pressão por resultados, estabelece-se um quadro potencial para o surgimento de ansiedade, estresse e depressão.

Ao contratar o Vittude Corporate, as empresas passam a oferecer tratamento especializado e preventivo via atendimento psicológico e a ter acesso a palestras de conscientização e um kick off do programa – com distribuição de material informativo, cartilhas e apresentação do diagnóstico da saúde mental da equipe. Semestralmente são conduzidas avaliações para mensurar as melhorias e benefícios obtidos durante o período.

A premissa do Vittude Corporate é ser um apoio para o desenvolvimento da felicidade no ambiente corporativo, dando acesso social a um atendimento que no Brasil ainda é associado à alta renda. Cuidar da saúde mental é fundamental para termos uma sociedade mais equilibrada e conectada com a transformação social.

Startups apostam em ‘robôs’ para ajudar empresa a contratar humano

Enxurrada de currículos leva companhias a usar inteligência artificial para análise de candidatos e entrevistas de emprego
Por Marília Marasciulo, especial para o Estado – O Estado de S. Paulo

A startup HireVue tem um sistema de entrevista por vídeo

Quando estava prestes a se formar na faculdade, o americano Mark Newman se deparou com um problema. Apesar de ter qualificação e disponibilidade para deixar Salt Lake City, no Utah (EUA), e ir trabalhar em outra cidade, não conseguia emplacar nenhuma entrevista de emprego à distância. Foi aí que teve uma ideia: criar uma ferramenta de entrevistas por vídeo. Hoje, a HireVue, startup criada por ele para resolver essa dificuldade, tem 600 clientes (como Unilever e Oracle) em 140 países, com base forte em inteligência artificial (IA)

É uma tendência: segundo o site CareerBuilder, ao menos 55% dos gerentes de recursos humanos nos EUA consideram que a IA será sua ferramenta de trabalho nos próximos cinco anos. Com o avanço dos sites de emprego, tornou-se praticamente impossível analisar o volume recebido de currículos. No LinkedIn, por exemplo, mais de 100 milhões de candidaturas são feitas todo mês para as cerca de 20 mil empresas americanas cadastradas. “Mudamos o nível do problema”, diz Luiz Kugler, professor de análise de dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Hoje, há vagas ao alcance de todo o planeta”.

No caso da HireVue, é importante deixar claro que o candidato não interage com um robô. A experiência, aliás, talvez fosse menos esquisita se fosse assim. Na verdade, o usuário grava, sozinho, vídeos respondendo a perguntas estabelecidas pela contratante relacionadas à vaga. Na média, o questionário tem cinco ou seis perguntas – e o usuário deve gastar até três minutos para responder cada uma. 

A IA da HireVue analisa as respostas para determinar comportamento, personalidade e competências técnicas. O “robô” observa, por exemplo, entonação, nível de estresse perceptível na voz e a escolha de palavras – falar “nós” no lugar de “eu” demonstra habilidade de equipe. A empresa, porém, diz não usar reconhecimento facial para medir a capacidade de “atuação” do candidato. 

“Traduzimos todas as informações para texto e identificamos as qualidades que indicam maior chance de sucesso na vaga”, diz Kevin Parker, presidente executivo da HireVue, que levantou US$ 93 milhões de fundos como Sequoia (o investidor de Facebook e Nubank). A partir do resultado, a empresa parte para analisar currículos – tarefa que também pode ser automatizada. Segundo Parker, o principal trunfo da startup é conseguir fazer uma triagem com base em qualidades não evidentes quando um humano vê um currículo.

Netflix de currículos

“As empresas grandes recebem tantos candidatos que os recrutadores passam em média 7,4 segundos olhando os currículos, e 95% deles são completamente ignorados”, diz Somen Mondal, fundador da canadense Ideal, outra startup que criou um algoritmo para melhorar o recrutamento. Para o contratante, o sistema funciona como um “Netflix dos currículos”. 

Primeiro, a plataforma se dedica aos dados dos funcionários bem-sucedidos dentro da empresa. Depois, cruza as informações com uma análise da experiência do candidato e um questionário respondido por ele, ministrado por um robô de conversa (chatbot). Assim, a ferramenta consegue analisar pretendentes e criar recomendações – tal como o serviço de streaming sugere uma série ou filme com base no que a pessoa já viu. Segundo Mondal, empresas que usam sua ferramenta reduzem o tempo de preenchimento da vaga em 15% e aumentam em 10% a qualidade das contratações. 

Quem também promete mais agilidade na hora de contratar é a chilena Aira. Fundada em 2016, atua em seis países e deve chegar ao Brasil até o fim do ano. Com clientes como Heineken e Walmart, a empresa diz conseguir trazer um novo funcionário em até três dias. 

Outra vantagem que os sistemas de IA dizem permitir aos gestores de RH é a capacidade de dar retorno aos candidatos desprezados – afinal, como quem comanda o processo é um algoritmo, ele também envia respostas automatizadas. 

Com ou sem influência?

Se bem utilizados, algoritmos podem ser moldados para não ter preconceito – abstraindo aspectos que dão viés a recrutadores humanos, como idade, sexo e até o nome. Os sistemas podem ainda ser treinados para evitar juízos de valor sobre instituições de ensino e locais de trabalho anteriores, observando apenas a relevância das experiências prévias. “A inteligência artificial permite uma visão 360º do candidato, pois não usa só um parâmetro”, diz Kugler. 

Porém, apostar que o candidato perfeito será aquele bem parecido a quem está dentro da empresa pode ser um tiro no pé. Foi o que aconteceu com a startup mineira Solides – ela própria, dona de IA para contratação. “Chegamos num ponto em que a equipe comercial tinha perfil tão similar que a ‘parceiragem’ afetou o rendimento”, diz Alessandro Garcia, um dos fundadores. 

Alessandro Garcia, presidente da startup Solides
Alessandro Garcia, presidente da startup Solides

A solução foi ir contra o que a IA fazia e mandá-la buscar um perfil de “um tubarão no aquário”, como diz Garcia, para mudar a dinâmica. Além de recrutamento, a Solides também faz gestão de pessoas com IA, visando reduzir a rotatividade. Um de seus clientes, uma financeira, economizou R$ 240 mil em um ano após aplicar inteligência de dados no RH. 

Mas será este o fim das entrevistas de emprego em carne e osso ? Para os criadores de algoritmos, isto está longe de acontecer. Como nos filmes em serviços de streaming, o dono do controle remoto é que faz a escolha. “Não usamos Netflix para ver filmes irrelevantes, queremos assistir ao que gostamos”, diz Mondal, da Ideal. “Nosso caso é semelhante: queremos que os gestores possam focar no que importa e não fiquem afundados em pilhas de currículos.”