Mais startups enviam uma mensagem incomum para investidores de risco: desapareçam

Surge um movimento contrário ao modelo de capital de risco de pressão por hiper crescimento
Por Erin Griffith – The New York Times

Para empresas, capital de risco resultam em sucesso ou fracasso enormes

Há alguns meses, numa manhã ensolarada de sábado, na cidade de Nova York, um grupo de fundadores de 50 startups se reuniu no bar Lower East Side. Eles faziam anotações,  sentados nas longas mesas do bar bebendo um café enquanto uma pilha de caixas de pizza exalava um cheiro de alho frito. Um a um eles prestaram seu depoimento sobre algo quase sagrado no setor de tecnologia: o capital de risco.

Joseh Haas, cofundador da Bubble, startup de programação de software, disse ao grupo que os investidores de risco “estavam totalmente em outra sintonia” com relação à trajetória da sua empresa.

Seph Skerrit, fundador da Proper Cloth, empresa de roupas, disse que toda a publicidade em torno da possibilidade de levantar recursos era uma armadilha.

“Eles procuram fazer com que você se sinta inferior se não entra no jogo”, afirmou.

O evento foi organizado por Frank Denbow, 33 anos, figura conhecida no ambiente de tecnologia de Nova York e fundador da Inka.io, que produz camisetas, e seu objetivo foi reunir os fundadores de startups que começam a questionar a estrutura de investimentos exacerbada dentro do seu campo. Ao incentivar as empresas a se expandirem rápido demais, afirmou Denbow, o capital de risco faz com que elas “acelerem seu tombo”.

O modelo de negócios respaldado no capital de risco, com base no qual o setor de tecnologia moderna foi criado,  é simples: as startups levantam muito dinheiro de investidores e o utilizam para crescerem agressivamente – mais rápido do que a concorrência e mais rápido do que as empresas normais considerariam saudável. E financiamentos cada vez maiores chegam até elas.

O objetivo final é vender a companhia ou registrá-la em Bolsa com retornos impressionantes para os investidores iniciais. Essa estrutura gerou nomes conhecidos como Facebook, Google e Uber e centenas das chamadas empresas unicórnio avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

Mas para cada unicórnio existe um número incontável de startups que também cresceram rápido demais, gastaram o dinheiro dos investidores e desapareceram, desnecessariamente. Os planos de uma empresa startup são feitos para o resultado mais promissor possível e o dinheiro intensifica tanto os sucessos como os fracassos. A mídia social está repleta de histórias de companhias que desapareceram devido à pressão do hipercrescimento, foram esmagadas pelo “capital de risco tóxico” ou forçadas a levantar um volume excessivo de capital de risco, o que é conhecido como “efeito foie gras”.

Agora um movimento contrário, liderado pelos empreendedores, está rejeitando esse modelo. Embora sejam uma pequena parte da comunidade, esses fundadores passaram a se manifestar com mais ênfase no ano passado ao depararem com o apetite insaciável por crescimento dos investidores de risco e a infinidade de crises observadas no setor de tecnologia.

Teria a liderança do Facebook ignorado os sinais de alerta para a interferência russa na eleição ou permitido que sua plataforma incitasse a violência racial se não tivesse, anteriormente, privilegiado um crescimento rápido e assumido riscos sem pensar nas potenciais consequências, achando que tudo estaria bem mesmo se fracassasse? O Uber teria adotado estratégias legais e normativas duvidosas se não tivesse priorizado a expansão acima de tudo? E o setor de tecnologia estaria se debatendo com discriminação de raça e gênero se o financiamento por investidores fosse um pouco menos homogêneo?

“A ferramenta do capital de risco é específica no caso de uma minúscula fração de companhias e não podemos nos permitir enganar achando que ele é a história do futuro empreendedorismo americano”, disse Mara Zepeda, de 38 anos, que em 2017 ajudou a fundar uma organização de defesa chamada Zebras Unite. Entre seus membros estão fundadores de startups, investidores e fundações que procuram incentivar o surgimento de um setor mais ético, com mais diversidade racial e de gênero. O grupo tem 40 sucursais e 1.200 membros em todo o mundo.

“Quanto mais acreditamos nesse mito mais ignoramos oportunidades fantásticas”, disse ela.

Excluídos. Alguns grupos rejeitam o capital de risco porque foram excluídos dessa rede. Aniyia Williams, que fundou a Black&Brown Founders, sem fins lucrativos, disse que o sistema de financiamento de risco que provoca inúmeras falências para cada empresa bem sucedida é particularmente injusto para com fundadores negros, latinos e mulheres que “raramente se permitem fracassar”. Os membros dessas organizações, segundo ela, veem mais valor quando grupos inteiros em suas comunidades prosperam,  em vez do modelo “o vencedor leva tudo” do capital de risco.

Outros fundadores decidiram que as expectativas com a aceitação do capital de risco não valem a pena. O investimento de risco é um jogo de apostas altas em que as empresas ou se tornam um enorme sucesso ou total fracasso.

“Ocorreram grandes problemas quando fundadores aceitaram sem saber, ou sem querer, esse tipo de investimento cujo objetivo era de um resultado com o qual não sabiam que estavam se comprometendo”, disse Josh Kopelman, investidor da First Round Capital e que financiou Uber, Warby Parker e Ring.

“Eu vendo combustível para jatos e algumas pessoas não querem fabricar um jato”, disse ele.

E no momento esse combustível parece ilimitado. Os investimentos de capital de risco em empresas nos Estados Unidos chegaram a US$ 99,5 bilhões em 2018,  o mais alto patamar desde 2000,  de acordo com a consultoria CB Insights. E os investimentos se estenderam para além do hardware e software, chegando a setores adjacentes – passeio de cachorros, saúde, cafés, agricultura, escovas de dente elétricas.

Mas pessoas como Sandra Oh Lin, diretora executiva da KiwiCo, que vende kits de atividades para crianças, dizem que mais dinheiro é desnecessário. Ela levantou pouco mais de US$ 10 milhões entre 2012 e 2014, mas agora vem recusando ofertas  uma vez  que sua empresa vende um produto que as pessoas querem – o momento exato em que os investidores adoram injetar mais recursos. A KiwiCo é uma empresa lucrativa e contabilizou quase US$ 100 milhões em vendas em 2018, um crescimento de 65% em comparação com o ano anterior.

“Somos agressivos no que se refere a crescimento, mas não somos uma empresa que busca crescer a qualquer custo. Queremos criar uma empresa que dure”.

Os empresários estão mesmo buscando maneiras de se desfazer do dinheiro que extraíram dos fundos de capital de risco. Wistia, empresa de software de vídeo, usou a dívida para pagar seus investidores, declarando seu desejo que buscar um crescimento sustentável e lucrativo. Buffer, empresa de software com foco em mídia usou o lucro contabilizado para fazer a mesma coisa. Posteriormente Joel Gascoigne, seu fundador e diretor executivo, recebeu mais de 100 e-mails de outros empreendedores inspirados por ele  – ou com inveja.

Novas formas de capital. Em setembro, Tyler Tringas, um empresário de 33 anos baseado no Rio de Janeiro, anunciou seu plano de oferecer um tipo diferente de financiamento para startups na forma de investimento de capital que as empresas podem pagar com uma porcentagem do seu lucro. A Earnest Capital terá US$ 6 milhões para investir em 10 a 12 companhias por ano.

Centenas de e-mails chegaram a ele desde o anúncio, disse Tringas.

“Quase todos foram de pessoas que supunham não existir nenhuma forma de capital que fosse condizente com suas expectativas”, afirmou.

A Earnest Capital se insere numa lista crescente de empresas, como a Lighter Capital, Purpose Ventures, TinySeed, Village Capital, Sheeo, XXcelerate Fund e Indie.vc, que oferecem diferentes maneiras de se obter dinheiro. Muitas usam variações de empréstimos baseados em receitas ou lucros. Esses empréstimos, contudo, são disponibilizados com frequência  apenas para companhias que já tem um produto para vender e um fluxo de caixa com dinheiro entrando.

A Indie-vc, com sede em Salt Lake City e parte da empresa de investimentos O’Reilly AlphaTech Ventures, oferece às startups a opção de comprarem de volta as ações da firma como parte de suas vendas totais. Isso limita o retorno da empresa a três vezes o seu investimento. No modelo de capital de risco típico, os ganhos no caso de um acordo bem sucedido são ilimitados.

Quando iniciou suas atividades há três anos, a Indie-vc  recebia duas a três solicitações por semana, a maior parte de empresas rejeitadas pelo capital de risco. Hoje são dez por semana, a maioria de companhias que conseguem levantar capital, mas não querem, disse Bryce Roberts.

“Acho que será um tsunami de empreendedores que experimentaram o modelo de capital de risco igual para todos e querem escolher partes desse modelo que funcionem para eles”, afirmou.

Alguns investidores de risco têm aplaudido a mudança; seu estilo de investimento não é adequado para muitas empresas. Num blog recente a Founder Collective, que investiu no Uber e Buzz Feed,  elogiou a proposta de Bryce Roberts e alertou os fundadores de startups para os riscos do financiamento tradicional.

“O capital de risco não é ruim, mas é perigoso”, alerta a postagem.

A Founder Collective elaborou rótulos e folhetos de advertência para enviar para suas companhias. /TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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Inteligência artificial faz xampu personalizado

Empresas usam algoritmos e até sensor infravermelho para detectar estrutura molecular do cabelo e customizar produto
Courtney Rubin

Inteligência artificial faz xampu personalizado – NYT

NOVA YORK –Quando Renée Bibby acorda com o cabelo bonito, pessoas a param na rua para dizer que adoram os fios curtos e encaracolados. Mas, em dias em que o cabelo está rebelde, ela diz parecer um “tufo de dente-de-leão”.

Ao longo dos anos, Bibby, 41, designer gráfica em Tucson, no Arizona (EUA), que descreve seu cabelo como “cacheado, mas não crespo”, gastou centenas de dólares experimentando novos produtos. Seis meses atrás, ela encontrou um vencedor: um condicionador de US$ 25 (R$ 93) de uma nova empresa chamada Prose. (Ela não usa xampu.)

“No primeiro dia em que o usei, saí do chuveiro e os cachos já estavam prontos”, disse Bibby, que costumava se esforçar para definir os cachos.

“Provavelmente isso ocupava dez minutos da minha rotina diária.”

A Prose, cujos fundadores incluem um ex-vice-presidente da L’Oréal, usa um teste pessoal, inteligência artificial, algoritmos e um espaço de produção de 550 metros quadrados em Sunset Park, no Brooklyn (Nova York), para criar o que ela espera que seja o produto ideal para cada cliente.

A companhia despachou 110 mil frascos e alcançará US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões) em vendas mensais em seu primeiro aniversário, em janeiro. 

Ela é uma das maiores e mais bem-sucedidas startups no que se tornou um dos espaços mais agitados na indústria de beleza: cuidados capilares personalizados. Em dezembro, a empresa anunciou que levantou US$ 18 milhões em novos investimentos.

Outra startup, a Function of Beauty, de quatro anos, usa seus próprios testes e algoritmos (juntamente com uma fábrica de 4.600 metros quadrados, com máquinas exclusivas). Ela vendeu 1 milhão de frascos, segundo Zahir Dossa, cientista de computação formado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e presidente-executivo da empresa. (Os preços começam em US$ 36, ou R$ 130, por um conjunto de 235 ml de xampu e condicionador.)

Há mais concorrência à vista. A gigante global de cosméticos Schwarzkopf está realizando testes de produtos customizados no Japão (com planos de levá-los aos EUA). Seu sistema inclui um dispositivo portátil com sensor infravermelho que detecta a estrutura molecular do cabelo e analisa seus níveis de umidade. 

Um equipamento para salões de cabeleireiro que parece uma máquina de café requintada mistura os produtos em 50 segundos e imprime um rótulo com código de barras para novos pedidos.

Diferentemente de marcas que oferecem produtos diversos para cada “objetivo” capilar (preservar a cor ou dar volume), as empresas customizadoras dizem ser capazes de combinar ingredientes que satisfarão todas as necessidades de cada pessoa em um único xampu, condicionador ou máscara capilar. 

A Prose também se adapta a fatores ambientais, com base no código postal da cliente. Por exemplo, se ela acha que você passa muito tempo dentro de construções aquecidas, porque faz frio lá fora, acrescenta derivados de milho, que amaciam e condicionam, para combater a eletricidade estática. 

“Nós abordamos todos os seus problemas”, disse Arnaud Plas, presidente-executivo da Prose. “Não vamos obrigar você a aceitar um meio-termo.” 

Há quem desconfie. A dermatologista Maryanne Senna, diretora da Unidade de Pesquisa Inovadora Acadêmica Capilar no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, não se convence de que xampus e condicionadores sob medida funcionem melhor que os comuns.

“Há algumas coisas que sabemos com certeza que secam, mas muitas coisas que eles usam não têm evidências que confirmem isso”, disse Senna. “Se é o santo graal dos cabelos, depende da sua percepção.”

A menos que as pacientes tenham cabelos muito oleosos ou caspa, uma sensibilidade conhecida ou alergia, ela não recomenda produtos específicos. Diz que cada pessoa é diferente e tem de encontrar o que funciona para ela.

Perry Romanowski, químico de cosmética e um dos fundadores do site thebeautybrains.com, onde cientistas examinam ingredientes de produtos e afirmações da indústria, chamou a customização de “truque de mercado”. 

“Não há nada mensuravelmente diferente em suas fórmulas em termos de desempenho”, disse Romanowski.

Além disso, descobriu que xampus caros não funcionam melhor que os baratos, mas os condicionadores caros são melhores que os muito baratos. Isso porque os condicionadores caros têm mais tipos de ingredientes nutritivos, que funcionam cada um de modo diferente e juntos são mais eficazes.

Mas “os supercaros não são melhores que o Pantene, por exemplo”, afirmou.

Muitas clientes ainda têm dificuldade de evitar determinados ingredientes por causa de alergia ou sensibilidade. (A Function of Beauty é vegana e sem glúten; a Prose permite que você escolha essas opções. Ambas permitem que você evite perfumes, mas é preciso contatar o serviço ao consumidor para evitar um ingrediente específico.) 

Lacey Harris, 35, treinadora esportiva em Lemoore, na Califórnia, é alérgica a óleo de coco, ingrediente de seus produtos Function of Beauty.

Ela mudou para a Prose, que, apenas por acaso, não adicionou esse óleo a seu xampu e condicionador.
Harris disse que viu claramente como os produtos Prose acrescentavam volume e ondas a seu cabelo quando teve de usar outro produto em uma viagem. “Eu não via a hora de voltar ao meu xampu personalizado”, afirmou. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

THE NEW YORK TIMES

2018: o triunfo das startups

O Brasil nunca esteve em uma fase tão boa para as startups. E 2018 foi o ano crucial para consolidar essa virada
Por Camila Farani – O Estado de S.Paulo

Camila Farani – Investidora anjo e presidente da boutique de investimentos G2 Capital

“Investimento o quê?” Essa era a pergunta de muita gente quando eu dizia que atuava como investidora-anjo já em meados de 2011. O mercado era pequeno, as startups ainda engatinhavam por aqui e eram poucas as oportunidades de negócios realmente bons nessa esfera. Dando um salto 7 anos depois, observando o conjunto da obra, falo com segurança: o Brasil nunca esteve em uma fase tão boa para as startups. E 2018 foi o ano crucial para consolidar essa virada. 

A conclusão leva em conta não somente os números investidos, recordes de valuation ou o desempenho dos unicórnios que nasceram por aqui, mas todas as condições favoráveis ao redor das empresas. Chegamos a um momento em que empreendedores, modelos de negócios inovadores, ambientes de apoio e apetite de investimento estão amadurecendo simultaneamente, contribuindo para um círculo virtuoso no ecossistema das startups. 

Empreendedores estão mais preparados do que nunca para operar e convencer. Não falo só sobre o pitch, mas da forma como estão trabalhando para fazer seu negócio dar certo, rodando o mínimo produto viável (MVP), validando a aceitação com usuários reais, pivotando quando necessário. Vemos ainda uma relação mais madura e saudável, com a percepção de que seus ativos vão bem além dos cifrões, trazendo conexões, apoio prático. 

Inevitavelmente, isso também ser traduz em números. Chegamos a quase R$ 1 bilhão aportados em startups por ano, segundo a Anjos do Brasil, isso só considerando os investimentos-anjo, praticamente o dobro do início da década.

Com um papel fundamental para que essas empresas deslanchassem, estiveram as aceleradoras, pólos de inovação e comunidades que se espalharam pelo Brasil em 2018. Grandes centros ganharam reforço com os centros de inovação liderados pelos bancos em São Paulo e atraíram só as pequenas, mas grandes empresas dispostas a testar por ali e intercambiar com as menores, novas ideias, aproveitando tais ambientes favoráveis à inovação.

Da mesma forma, vimos comunidades saudáveis se espalhando pelo país. Hoje 7 em cada 10 das startups no país, segundo a ABStartups, estão abrigadas nas 10 maiores comunidades distribuídas pelo Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. 

Em decorrência desse crescimento, multiplicaram-se eventos – eu mesma cruzei o país em mais de 50 iniciativas dedicadas a startups esse ano –, levando oportunidades de desenvolvimento a todo o Brasil. 

E claro, não dá para não falar sobre o volume considerável de unicórnios que o país produziu em 2018. Considerando fintechs, aplicativos de transporte urbano. de aluguel de imóveis sem fiador, entrega de comida e cargas expressas, vimos aportes que ultrapassaram R$ 3,5 bilhões, cifras que contribuem para ilustrar o balanço do setor.

Movimentos como esses contribuíram para o amadurecimento do ecossistema como um todo, fortalecendo empreendedores, atraindo olhares, apetite e recursos de fundos internacionais para o que está acontecendo por aqui. Embora tenhamos muito o que caminhar para chegar a patamares como o dos Estados Unidos, que hoje somam mais de 100 mil startups – ante cerca de 6 mil cadastradas por aqui na ABStartups – estamos no caminho certo. Em linhas gerais, como investidora, meu balanço do ano é positivo, e a perspectiva é de outro ano com bastante fôlego para o setor. Feliz 2019!

As startups que vão fazer você desistir de ter o seu carro

Cada vez pessoas mais consideram usar serviços, que normalmente funcionam a partir de um smartphone, ao invés de ter um carro próprio
Por Karin Salomão

Car sharing (Divulgação/Divulgação)

O setor da mobilidade urbana está mudando rapidamente em várias frentes, com bicicletas e patinetes compartilhados, aplicativos de carona e que conectam motoristas e usuários. Os carros passam a maior parte do tempo parados na garagem e seguro e manutenção custam caro.

Cada vez pessoas mais consideram usar outros tipos de serviços, que normalmente funcionam a partir de um smartphone. As transformações, que confrontam o modelo tradicional de possuir um carro, ameaçam companhias gigantes e multinacionais, como montadoras e locadoras de veículos.

“A verdade é que a tendência de carros compartilhados está aqui para ficar e, combinada com outras tendências, como carros elétricos, autônomos e conectividade crescente, estão ajudando a transformar a indústria automotiva”, escreveu o Itaú BBA em relatório sobre o assunto.

O mercado brasileiro ainda é pequeno em comparação aos mais desenvolvidos. Há mais de 7 milhões de usuários de carros compartilhados pelo mundo, enquanto no Brasil apenas 87 mil usuários usam os serviços, apenas 1,2% do total, segundo relatório do banco.

Isso porque vandalismo e altos custos de estacionamento nas grandes cidades brasileiras, justamente onde o serviço teria maior demanda, elevam o custo da operação. Não é fácil para uma startup entrar nesse mercado. “O modelo ainda enfrenta desafios em termos de custos, que podem afetar a viabilidade do projeto”, escreve o Itaú BBA.

Apesar das dificuldades, nos últimos anos surgiram algumas startups dispostas a arriscar e inovar no mercado. O relatório do Itaú citou as mais proeminentes.

A Zazcar, criada em 2009, foi a pioneira no país a lançar um aplicativo de compartilhamento de veículos. Ela opera em São Paulo apenas com viagens circulares, ou seja, o usuário precisa deixar o carro em um ponto específico – no caso, estacionamentos.

Com viagens que podem ser de 1 hora a 48 horas, a frota é formada principalmente de modelos Ford Ka. No início deste ano, a startup recebeu um investimento de 7,5 milhões de reais da firma de venture capital Inseed Investimentos. Na época, operava com 130 carros e planejava alcançar 400 até o fim do ano. O valor também seria usado para aumentar a equipe e em marketing.

A Urbano LD, criada em 2017, chegou com uma novidade. Ela atua com veículos elétricos da BWM e da Smart. São 65 carros espalhados por pequenos bolsões na cidade de São Paulo.

Também criada em São Paulo, em 2017, A Turbi opera atualmente 60 carros. O plano é chegar a 150 nos próximos meses. Recebeu um investimento de 4 milhões de reais, que deve ser usado a partir de 2019.

A única da lista elaborada pelo Itaú BBA que não atua em São Paulo é a Vamo. Ela é de Fortaleza e foi criada em parceria da prefeitura com a Sertell, empresa de soluções tecnológicas para mobilidade, e a Hapvida, maior operadora de planos de saúde do Norte e Nordeste. Atualmente, tem 20 carros elétricos e 12 estações de recarga na cidade.

Ameaçadas
A tendência deixou as montadoras em alerta. Com as ameaças ao seu modelo de negócios tradicional, muitas decidiram criar subsidiárias ou incorporar startups de compartilhamento. É o caso da DriveNow, subsidiária da BMW, que tem 6 mil carros BMW e Mini espalhados em 12 cidades na Europa e um milhão de usuários.

Nessa categoria também está a Car2Go, fundada em 2008. É uma subsidiária da Daimler, fabricante de automóveis e dona da Mercedes-Benz, com mais de três milhões de usuários em 26 locais pelo mundo, na América do Norte, Ásia e Europa.

A General Motors criou a Maven, empresa de compartilhamento presente em 18 cidades nos Estados Unidos e Canadá. Em comparação a seus concorrentes ainda é pequena, com 100 mil usuários no ano passado. Além de oferecer carros para serem compartilhados, a plataforma também permite que um usuário alugue seu carro para motoristas do Lyft e Uber.

A nova tendência não atinge apenas as montadoras. Locadoras tradicionais também precisam rever o seu negócio.

A locadora Avis adquiriu a Zipcar em 2013, por 500 milhões de dólares. O investimento tem retorno e no ano passado a companhia foi responsável por 9% do faturamento do grupo. A Zipcar cobra uma mensalidade de seus usuários, que recebem um cartão para desbloquear os carros. Tem um milhão de usuários, 12 mil veículos em 500 cidades e 6000 campus universitários.

A Europcar quer se tornar “uma alternativa atraente para a posse de carro”, de acordo com o relatório do Itaú. Para isso, se tornou acionista majoritária na Ubeeqo, serviço de carro compartilhado encontrado em algumas cidades da Europa. Também investiu em outras startups de compartilhamento, como a GoCar e E-Car.

Apple compra a Silk Labs, startup focada em IA e privacidade

A Apple continua adquirindo e adicionando pequenas empresas debaixo da sua saia. Desta vez, o The Information informou sobre outra compra da companhia: a da startup de aprendizado de máquina Silk Labs, que usa inteligência artificial para desenvolver produtos cada vez mais conectados, principalmente para casas.

Apple compra a Silk Labs, startup focada em IA e privacidade

Assim como a maioria das aquisições da Apple, os detalhes sobre esse acordo não foram divulgados; contudo, é provável que a compra tenha ocorrido no início deste ano. Em termos de valores, a transação pode ter sido relativamente pequena para a Apple, já que a Silk Labs empregava apenas 12 funcionários e havia arrecadado cerca de US$4 milhões em financiamentos.

Também não há como saber como a Apple irá adotar as tecnologias desenvolvidas pela Silk Labs, mas os projetos da startup são voltados para segurança residencial, análises de varejo, controle de acessos, monitoramento de estacionamentos e vigilância predial, incluindo recursos como detecção de pessoas e reconhecimento facial.

Há três anos, a empresa lançou um produto no Kickstarter chamado Sense, um hub (equipado com uma câmera) projetado para ser um “cérebro digital” para gadgetsdomésticos inteligentes. Sua função era se comunicar com todos os dispositivos conectados para melhorar a interoperabilidade e aprender as necessidades do usuário ao longo do tempo.

Tanto a Apple quanto a Silk Labs já demonstraram interesse em usar inteligência artificial para proteger a privacidade do usuário. Com o Sense, por exemplo, a startup realizou todos os processamentos computacionais no próprio dispositivo, armazenando dados e imagens localmente em vez de usar serviços online, para garantir a privacidade do usuário.

A Silk Labs foi fundada em 2015 por três engenheiros: Andreas Gal, Chris Jones e Michael Vines. Antes de se unir ao time da startup, Gal e Jones foram respectivamente CTO1 e engenheiro da Mozilla, enquanto Vines era diretor sênior de tecnologia do Qualcomm Innovation Center.

Como dissemos, esta não é a primeira investida da Apple na área de inteligência artificial; no ano passado, a Maçã comprou a Lattice Data (focada no uso de aprendizagem de máquina e IA) por US$200 milhões. Neste ano, a gigante de Cupertino contratou o ex-Googler John Giannandrea, que assumiu na Apple o cargo de chefe de aprendizado de máquina e estratégias de IA. [MacMagazine]

VIA MACRUMORS

Um unicórnio dentro de outro recebendo mais meio unicórnio de investimento

(iFood/Divulgação)

O anúncio do investimento de U$ 500 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão) pela Movile para o iFood consolida de vez um novo momento para startups no Brasil. Enquanto até o 2017 não havia nenhuma startup unicórnio declarada no país (empresas com valor superior s U$ 1 bilhão), o ano começou com grandes anúncios, com empresas como 99 e Nubank, seguidas dos IPOs da Pago Seguro e da Stone – com alguma controvérsia sobre se essas duas podem ser consideradas startups.

Correndo em paralelo estava a própria Movile, que embora não alardeasse publicamente, já era considerada uma empresa do raro time dos bilionários por especialistas de mercado. Especulava-se que não só a Movile seria um unicórnio, como carregava dentro dela um outro unicórnio: o iFood, empresa do grupo, que sozinha já estaria próxima de bater a cifra.

Se chegar ao clube dos unicórnios já é difícil – daí o nome, dada a “raridade” desse animal – o iFood agora se consagra como um unicórnio dentro de outro (a Movile), recebendo mais meio unicórnio de investimento. É um feito e tanto, que mostra a força do potencial das startups digitais no país e confirma a tendência de megainvestimentos por aqui – que até recentemente apenas muito rarmente chegavam na casa das centenas de milhões. É uma marca histórica para o ecossistema de startups do país e motivo de comemoração.

O status de unicórnio é muito mais psicológico do que qualquer outra coisa, não tem nenhum significado prático em si mesmo. Apenas simboliza um patamar ao qual poucas empresas conseguem chegar, especialmente no Brasil. A própria Movile chegou a declarar que se importava pouco com a marca, estando mais preocupada com outro bilhão: sua missão de alcançar 1 bilhão de usuários pelo mundo. Alguém duvida que eles chegarão lá? [Felipe Matos]

Com uma Murdoch no comando, startup Vertical Networks é líder em filmes curtos para celular

Vertical Networks, startup fundada por Elisabeth Murdoch, empresária filha de Rupert Murdoch, aposta no futuro da televisão via Snapchat e conquista jovens
Por Do New York Times

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O set de filmagens da Vertical: startup fundada por Elisabeth Murdoch, filha de Rupert Murdoch, líder em filmes para apps (Jake Michaels/The New York Times)


Glendale, Califórnia – Um jovem ator de cavanhaque fazendo o papel de um satanista em um filme de suspense chamado “Solve” se sentou na frente de uma câmera, em julho. Seis membros da equipe suavam; um deles olhava para o cronômetro de seu iPhone.

“Agora quero que mostre que está exausto”, o diretor, que também era o operador de câmera, disse ao ator. “Nesta tomada, você passou a noite toda adorando Satanás. Pronto? Ação!”

Não foi muito bom. “Muito longo. Foram 22 segundos”, disse o sujeito do iPhone. Houve ordens para refazer a cena, de preferência em uma tomada de 18 segundos. Talvez tentar mostrar um satanista nervoso.

Esse é o futuro da televisão, feito pela Vertical Networks, startup fundada por Elisabeth Murdoch, empresária de mídia filha de Rupert Murdoch. Enquanto ele e seus irmãos, Lachlan e James, estavam ocupados vendendo os estúdios da família para a Walt Disney Co., ela silenciosamente transformou a Vertical em uma grande fornecedora de séries baseadas em aplicativos de dispositivos móveis. As histórias são contadas de forma rápida (cenas de 20 segundos, episódios que duram poucos minutos) e dependem de técnicas de produção como telas divididas e texto, e são filmadas verticalmente, em vez de horizontalmente.

“Eu queria um lugar na primeira fila para ver esse novo mundo acontecer; é mais difícil do que parece. A produção de um bom vídeo móvel é trabalhosa e muitas vezes contraintuitiva”, disse Elisabeth Murdoch, 50 anos, em um e-mail.

Com base em pesquisas, a Vertical descobriu como conquistar espectadores adolescentes no Snapchat, por exemplo, enquanto outras produtoras de sucesso, como WarnerMedia e Viacom, demoraram a atrair clientes fiéis. Os sucessos da Vertical no Snapchat incluem “Phone Swap”, uma série de namoro que permite que os participantes bisbilhotem os dispositivos móveis uns dos outros, e atraiu uma média de 10 milhões de espectadores por episódio. “Solve”, que detalha um crime inspirado em acontecimentos reais e então pede que os espectadores analisem os prováveis suspeitos, estreou em maio e atrai uma audiência semelhante.

“É o ‘Law & Order’ de quem tem 13 anos”, disse Adam Lederer, 27, o showrunner de “Solve”.

A Vertical, que tem o Snap, empresa-mãe do Snapchat, como um de seus investidores minoritários, também faz vídeos para o Facebook (“I Have a Secret”) e o YouTube (“Yes Theory”). O estúdio disse que seu conteúdo original – incluindo a Brother, revista digital para os jovens publicada diariamente no Snapchat e no Facebook – atrai mais de 50 milhões de espectadores ativos mensalmente. Um porta-voz informou que a startup é rentável, com vendas de anúncios responsáveis pela maior parte de sua receita e clientes como Nike, Intel e Warner Bros..

Quando o negócio tradicional da TV começou a vacilar, com as audiências mais jovens sem interesse em TV a cabo e canais lutando para competir com o Netflix, Hollywood começou a levar a sério a ideia de chegar às massas e seus dispositivos móveis. A Disney está pagando US$ 71,3 bilhões por vários componentes do império de mídia de Murdoch para fortalecer seus planos de streaming baseados em aplicativos. Elisabeth Murdoch não quis comentar sobre a venda.

Jeffrey Katzenberg, o fundador DreamWorks Animation, disse em agosto que seu novo empreendimento, WndrCo, tinha garantido US$1 bilhão de investidores, incluindo Universal, Sony e Paramount, para criar conteúdo de alta qualidade destinado a visualização móvel.

Algumas empresas de mídia convencionais, como NBCUniversal e Condé Nast, fazem algum sucesso nesse segmento. Até agora, no entanto, os vencedores na categoria “série original para dispositivos” são basicamente startups como a Vertical.

“O maior erro de Hollywood é a arrogância. É o clássico ‘Vamos dar ao público o que nós queremos, e se ele não quiser, bom, a culpa é dele por não reconhecer nosso brilhantismo’”, disse Tom Wright, que era o executivo-chefe da Vertical até recentemente.

Os filhos de Murdoch passaram a maior parte de suas carreiras nas empresas da família, mas Elisabeth, que vive em Londres, é uma empreendedora em série. Ela percebeu o surgimento da reality TV, fundando o Shine Group, em 2001, e produzindo versões locais de programas como “MasterChef” e “The Biggest Loser”. Vendeu a Shine 10 anos depois para a News Corp de seu pai por US$770 milhões (valor atualizado).

Acredita-se que também o tenha levado a se arriscar em um programa que se tornaria um dos maiores sucessos da reality TV na história: “American Idol”.

Com a Vertical, Elisabeth Murdoch queria tentar algo novo. Será que o estúdio conseguiria encontrar maneiras diferentes de entreter uma audiência de 13 a 25 anos – os usuários de aplicativos como o Snapchat – e depois transformar esse conteúdo em programas de televisão, livros e outros meios de comunicação tradicionais?

Ela chegou a uma conclusão depois de dois anos. “Parece que podemos”, disse Murdoch.

Em agosto, a Vertical adaptou “Phone Swap” para a televisão, uma novidade para qualquer série original do Snapchat. (que lançou dezenas de shows este ano.) Quinze episódios de “Phone Swap” – com duração de 30 minutos cada, comparados com cerca de quatro minutos na rede social – passaram em estações locais da Fox como teste para uma série normal.

A Vertical também vai publicar um livro de conselhos baseado na sua e-magazine Brother, especializada em dicas audaciosas de estilo de vida. Um exemplo de uma edição recente: “Curiosidade: comer meleca também evita que as bactérias grudem em seus dentes!”.

Conteúdo irreverente faz sucesso no Snapchat, que tem 188 milhões usuários principalmente jovens.

“Se não lhes dermos três coisas simultâneas para assistirem, vamos perdê-los. Os espectadores de dispositivos móveis estão acostumados ao estímulo constante. Imagine quanta informação visual seu cérebro está processando em um feed do Facebook ou na busca de notificações de aplicativos”, disse Bailey Rosser, diretora de desenvolvimento de audiência da Vertical.

E use a palavra “você” o mais frequentemente possível no conteúdo móvel, aconselhou ela. “Estou falando sério!”, disse, depois que um repórter a olhou de modo cético. “Esse público é narcisista.”

Rosser, que iniciou sua carreira no Google, descreveu-se como “velha”. Ela tem 30 anos. Juntou-se à Vertical há dois e monitora o desempenho das produções do estúdio em mais de 100 variáveis para saber como os espectadores se comportam. Do que eles gostam? O que os mantém mais envolvidos?

Escritores e produtores usam seus dados para moldar e remodelar o conteúdo da Vertical. O estúdio, com sede em Venice, Los Angeles, e empregando cerca de 40 pessoas, chama essa prática de “a arte da matemática”.

Cores de fundo brilhantes – como o amarelo Snapchat – atraem espectadores e mantêm seu interesse em um episódio de cinco minutos, o equivalente móvel de uma hora de visualização tradicional. Os primeiros dados de “Phone Swap” ajudaram a Vertical a perceber que os espectadores precisavam ver um swapper entrando em pânico nos primeiros 20 segundos. Caso contrário, acabavam se desinteressando.

Alguns estúdios rivais dizem que a Vertical se beneficiou de seus laços com outros negócios controlados por Murdoch. O spinoff de “Phone Swap” foi transmitido em canais de TV controlados pelo pai de Murdoch, por exemplo. Em um acordo recente, a Fox também cuida das vendas publicitárias para a Vertical Networks. (A Disney não está comprando as estações locais da Fox nem sua rede da transmissão.)

Wright e Jesús Chavez, que assumiu como executivo-chefe em setembro, vê essa crítica como inveja e mencionou que estavam produzindo vários projetos para outros canais.

“Fomos muito bem-sucedidos porque construímos uma equipe surpreendente, realmente dedicada aos insights de público. O padrão é usar a experiência que já se tem, é fazer o que já se sabe”, disse Wright, que permanecerá envolvido no estúdio.

Chávez acrescentou: “Não é apenas a TV para uma tela menor. Há uma experiência real”.

Eles enfatizaram que a Vertical estava disposta a falhar. Em uma dessas ocasiões, o estúdio tentou fazer um programa móvel, “Epic Quit”, que mostrava as pessoas pedindo demissão de seus empregos de modo exagerado, mas, mesmo com os vários ajustes, não houve espectadores. O estúdio finalmente decidiu que a mera ideia de um emprego era algo enfadonho para os usuários do Snapchat.

“Você tem que estar disposto a mudar de ideia rapidamente, abandonar as que não estão funcionando e seguir em frente. Falhamos dezenas de vezes por semana para sermos bem-sucedidos uma vez por mês”, disse Wright.