Com a incerteza da economia, “unicórnios” da tecnologia se apressam em direção ao IPO

Diante de um volátil mercado de ações e da perspectiva de uma desaceleração econômica no ano que vem, serviços avançam com mais velocidade para oferecer ações
Por Erin Griffith e Mike Isaac* – The New York Times

Escritório da Uber

Durante anos, Uber e Lyft deixaram de lado a ideia de colocar suas ações em bolsa. Agora elas estão acelerando.

Diante de um volátil mercado de ações e da perspectiva de uma desaceleração econômica no ano que vem, os serviços de transporte avançaram com mais urgência para uma oferta pública inicial (IPO, sigla em inglês), disseram quatro pessoas que têm conhecimento dos planos das empresas, mas não estavam autorizadas a falar publicamente.

Originalmente, a Lyft pretendia listar suas ações em meados de 2019, mas começou a se mover mais rapidamente após a recente liquidação do mercado de ações e por causa do desejo de ir a público antes da Uber, disseram duas das pessoas. Na quinta-feira, a empresa, avaliada recentemente em US$ 15 bilhões, anunciou que entrou com confidencialidade para uma oferta pública inicial.

A Uber também acelerou seu relógio de IPO. A empresa já havia dito que estava pensando no outono de 2019 no hemisfério Norte para ir a público, mas reduziu o prazo devido a preocupações de que uma recessão possa estar chegando, disseram duas pessoas familiarizadas com os planos. A Uber agora poderia ir a público logo em abril, disseram eles. Os bancos de investimento disseram à companhia que ela poderia valer até US$ 120 bilhões em um IPO.

Os movimentos da Lyft e da Uber indicam quão complicado pode ser decidir quando ir a público em um momento em que os mercados de ações têm sido turbulentos e o quadro econômico mais amplo está turvo. O cálculo para quando uma empresa lista publicamente suas ações é muitas vezes um alvo em movimento, mas as ações da Uber e da Lyft terão peso especial com uma série de outras startups altamente valorizadas do Vale do Silício que também estão se preparando para abordar os mercados públicos.

A Airbnb, empresa de locação on-line, planeja estar pronta para ir a público em meados de 2019, embora não tenha definido um cronograma formal, disse uma pessoa com conhecimento do assunto. A Slack, empresa de colaboração online, disse que está se preparando para uma oferta pública, mas não tem um cronograma específico.

“As empresas que estavam falando sobre 2020 foram informadas de que a janela pode não estar aberta por tanto tempo quanto se pensava”, disse Barrett Daniels, sócio da Deloitte, que aconselha sobre IPOs. Ele disse que estava dizendo às empresas que “se um IPO estiver em seus planos, eu provavelmente estaria me preparando agora”.

Qualquer estreia no mercado de ações dessas empresas será o capítulo final da era dos “unicórnios”, as startups de capital privado avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Muitas dessas empresas, que nasceram após a recessão de 2008, pegaram carona na onda de uso dos smartphones, transformando empresas, como táxis ou entrega de compras do mercado, em serviços sob demanda. Eles também se beneficiaram de capital abundante de investidores privados, motivados por baixas taxas de juros.

Durante anos, muitos unicórnios não estavam com pressa de ir a público porque poderiam crescer facilmente com dinheiro de investidores privados e longe do escrutínio de Wall Street. Em 2016, Travis Kalanick, cofundador do Uber e então diretor executivo, falou para muitas startups de tecnologia quando disse em uma conferência que sua empresa iria a público “o mais humanamente possível”. Os funcionários ficariam distraídos com os movimentos das ações, disse ele.

Essas atitudes mudaram à medida que os investidores e os funcionários de tecnologia aumentaram a pressão sobre as empresas para que se tornassem públicas de forma a lucrar com suas ações.

“O fator que nos força é: como você lida com questões como reter funcionários?”, Disse Rick Heitzmann, diretor administrativo da FirstMark Capital, que é um investidor em unicórnios como Pinterest e Airbnb.

Mas a oscilação do mercado de ações, a guerra comercial com a China e outros países e a incerteza sobre a direção da economia estão pesando na tomada de decisões do IPO. Poucos executivos querem tornar suas empresas públicas quando o apetite dos investidores por ações pode estar minguando.

“As empresas que esperavam que tudo estivesse perfeito antes de ir a público poderiam ter-se saído melhor quando as coisas estavam boas o suficiente”, disse Heitzmann.

Sandy Miller, uma investidora de capital de risco da IVP, disse que várias empresas estavam se reunindo com potenciais investidores muito antes de entrar com um IPO, no que é conhecido como eventos pré-roadshow. “Essa é a única maneira de realmente saber que tipo de receptividade você terá” dos mercados públicos, disse ela.

Miller disse que espera um ano robusto para IPOs no próximo ano, mas as empresas podem não querer esperar até o final do ano para o lançamento. “Certamente há algumas nuvens de tempestade no horizonte”, disse ele.

Alguns unicórnios estão evitando a imprevisibilidade por completo. A WeWork, empresa de locação de escritórios avaliada em US$ 45 bilhões, foi muito citada como candidata à IPO. Mas em novembro, a empresa concordou em vender mais US$ 3 bilhões em ações para seu principal investidor, o fundo Vision da SoftBank. Esse acordo permitiu à WeWork impulsionar planos para uma listagem pública no futuro, disse uma pessoa familiarizada com a empresa.

Para Uber e Lyft, a maior questão que enfrentam dos investidores do mercado público é se seus negócios podem ser lucrativos. Expandir um serviço de passeio exige investimentos para recrutar motoristas em várias cidades, o que pode se tornar caro rapidamente. A Uber disse no mês passado que perdeu US$ 1,07 bilhão no terceiro trimestre, quando passou a investir em novas áreas, como bicicletas, patinetes e remessas de cargas.

*Tradução de Claudia Bozzo

Anúncios

Microsoft pede que empresas adotem regras para reconhecimento facial

A empresa já tinha colocado esse assunto em pauta em julho deste ano, defendendo a regulamentação da tecnologia pelo governo; os principais riscos, segundo a Microsoft, são invasão de privacidade, vigilância em massa e resultados enviesados

A Microsoft pretende implementar regras sobre a tecnologia de reconhecimento facial no primeiro semestre de 2019

Em uma postagem no blog da empresa nesta quinta-feira, 6, o presidente e diretor jurídico global da Microsoft, Brad Smith, chamou a atenção de companhias de tecnologia para a adoção de normas de conduta no uso de reconhecimento facial. O executivo já tinha colocado o assunto em pauta em julho deste ano, mas direcionando sua fala para o governo, defendendo a regulação da tecnologia.

“Acreditamos que, embora seja melhor abordar esses problemas de maneira ampla, não devemos esperar até que os governos ajam. Nós e outras empresas de tecnologia precisamos começar a criar mecanismos para abordar a tecnologia de reconhecimento facial”, afirmou Smith, “os governos e o setor de tecnologia desempenham um papel vital para garantir que a tecnologia de reconhecimento facial crie amplos benefícios sociais ao mesmo tempo que reduz o risco de abuso”.

Para o executivo da Microsoft são três as consequências mais perigosas do uso da tecnologia de reconhecimento facial: resultados enviesados, invasão de privacidade e vigilância em massa. A União Americana de Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) há um tempo alerta para esses riscos, pedindo para o Congresso determinar regulações. 

No texto, a Microsoft compartilha seis princípios que resolveu adotar em relação à tecnologia. São eles: tratar as pessoas de forma justa, comunicar de forma transparente as capacidades e limitações da tecnologia de reconhecimento facial, ajudar clientes para garantir um nível apropriado de controle humano, proibir discriminação, incentivar os clientes do setor privado a fornecer aviso e consentimento seguro para a implantação das tecnologias e defender a liberdade em detrimento da vigilância. 

A empresa disse que pretende implementar as regras no primeiro semestre de 2019 e que publicará na semana que vem um documento detalhando esses princípios. 

Spotify libera retrospectiva musical de 2018 para usuários

No Spotify Wrapped, o usuário consegue ver, por exemplo, qual foi a primeira música tocada em 2018 e quanto tempo ele escutou música este ano; é possível ver qual é o signo que mais aparece no gosto musical

Os usuários podem compartilhar a retrospectiva nas redes sociais

Para acompanhar o clima de fim de ano de recordações e reflexões, o Spotify, como de costume, disponibilizou nesta quinta, 6, o Spotify Wrapped 2018, em que os usuários podem fazer uma retrospectiva do seu gosto musical de 2018. 

Para ver como você se comportou na plataforma este ano, basta acessar o site do Spotify Wrapped. Ao fazer o login, você vai se deparar com dez páginas que mostram seu comportamento de ouvinte. O Spotify te mostrará qual foi a primeira música tocada em 2018, quando tempo de música você escutou este ano e qual foi a música mais antiga que você ouviu. É possível ver também quantas horas você passou escutando músicas do seu artista favorito. 

O Spotify Wrapped 2018 mostra os artistas, músicas, gêneros e subgêneros que você mais escutou no ano. Além disso, o aplicativo criou duas playlists especiais, uma com as suas músicas favoritas de 2018 e outra para te tirar da zona de conforto, com músicas e artistas que você não costuma ouvir. 

Uma das novidades da retrospectiva é que dá para saber qual é o signo que mais aparece em seu gosto musical, com base no signos dos artistas que você mais ouve. 

É possível compartilhar essa retrospectiva nas redes sociais.

Facebook ofereceu acesso exclusivo a dados de usuários, mostram e-mails

Documentos apreendidos pelo parlamento britânico foram revelados nesta quarta, 5; rede social garantiu acesso a empresas parceiras e barrou rivais

E-mails mostram que Facebook fez acordos por acesso a dados de usuários 

O Facebook fez acordos com empresas para liberar o acesso a informações de seus usuários, mesmo depois de ter mudado sua política de dados. As negociações aparecem no pacote de e-mails internos revelados pelo parlamento britânico nesta quarta, 5.  

Entre as empresas favorecidas pelo Facebook estão Airbnb, Lyft e Netflix, o que significa que elas tiveram acesso a dados dos usuários enquanto outras empresas foram barradas. Os e-mails foram enviados entre 2012 e 2015 e fazem parte de uma disputa judicial entre o Facebook e a desenvolvedora Six4Three. O Comitê de Assuntos Digitais, Cultura, Mídia e Esportes do parlamento britânico (DCMS, na sigla em inglês) teve acesso e decidiu publicar os documentos. 

Damian Collins, presidente do DCMS, afirmou que não é possível saber se houve consentimento por parte dos usuários para o acesso exclusivo dos dados.  

Nos e-mails, também é possível acompanhar o Facebook banindo o acesso a empresas que considerava “rivais”. É possível ver Mark Zuckerberg pessoalmente ordenando em 2013 que o app de vídeos Vine, que pertencia ao Twitter, não tivesse acesso às informações dos usuários do Facebook. 

Também é possível debates sobre se a empresa deveria dar acesso a desenvolvedores que gastassem com publicidade na plataforma. 

Em um comunicado, o Facebook reafirmou que os documentos são parte de um processo sem fundamentos, e que eles são apresentados de maneira enganosa sem contexto adicional. A companhia disse que teve muitas conversas sobre as maneiras de construir um modelo de negócios sustentável, mas que os “fatos são claro de que não venderam dados das pessoas”.  

Invasão Android. Outra parte dos e-mails mostra que a companhia arrumou uma maneira de contornar as permissões de privacidade do Android para coletar logs de ligações telefônicas – pequenos documentos que indicam quando ligações são feitas.

Em março, quando surgiram as primeiras notícias de que o Facebook coletava informações relacionadas a ligações telefônicas no Android, a empresa negou.

Netflix: A regra é não ter regra

O teste para manter alguém no time é: se um indivíduo lhe contasse que iria embora, você lutaria bravamente por ele?
Por Maurício Benvenutti – O Estado de S.Paulo

Netflix HQ Los Gatos, Califórnia – EUA

O Netflix é uma das grandes empresas dessa nova era. Em seu manual de cultura, um trecho do livro O Pequeno Príncipe é apresentado: “Se você quer construir um navio, não chame as pessoas para coletar madeira, atribuir tarefas ou dar ordens. Em vez disso, ensine-as a desejar a imensidão do oceano.” Bonito, não? Mas, o que significa?

Uma das únicas regras do Netflix é não ter regras. Tudo é gerido com raríssimos controles. Para isso funcionar, há um foco monstruoso em só contratar talentos. Gente com desempenho adequado recebe uma generosa rescisão e vai embora. Não há espaço para medianos. O teste para manter alguém no time é: se um indivíduo lhe contasse que iria embora, você lutaria bravamente por ele? Duelaria com unhas e dentes para reverter isso? Se sim, a empresa vai tentar mantê-lo. Se não, esse empregado deve mesmo sair.

Para o Netflix, um ambiente de trabalho incrível é feito de colegas impressionantes. Por isso, o objetivo é ser um Dream Team onde todas as estrelas querem estar. 

Quando um novo funcionário entra, ele passa a conviver com duas palavras: liberdade e responsabilidade. Por liberdade, entende-se que as pessoas são livres para executar o trabalho da forma como acham melhor. Cada indivíduo prioriza atividades, toma decisões e assume riscos. Já a palavra responsabilidade reforça que todos são conscientes dos seus atos. Ou seja, você trabalha como deseja, mas é responsável pelas suas ações. Em alguns períodos do ano, o Netflix compartilha a visão do negócio para os próximos meses. É uma espécie de guia. Com esse artigo em mãos, cada pessoa, em conjunto com seus pares, estabelece as próprias tarefas, objetivos e metas. 

Não existe horário de trabalho. O empregado é avaliado pelos resultados, e não pelas horas trabalhadas. Também não há política de férias. Cada colaborador tira quanto tempo achar necessário. Além disso, em vez de possuir um setor para controlar gastos, a empresa só pede que as pessoas gastem o dinheiro da companhia como se fosse o delas. 

Para o Netflix, um talento excepcional produz mais e custa menos do que dois indivíduos regulares. Dessa forma, o objetivo é só ter gente extraordinária, responsável e bem remunerada. Por isso, os salários são baseados no mercado. Normalmente, cada profissional é estimulado a fazer entrevistas em outras empresas, identificar o seu valor e usar essa informação para negociar o quanto deve receber. Incrível, não?

O Netflix, portanto, criou um modelo que privilegia pessoas antes de regras. Lá, reina a máxima de William McKnight, presidente da 3M por décadas: “contrate estrelas e as deixe em paz”. Indivíduos talentosos prosperam na liberdade e são dignos de autonomia. Não é preciso ensiná-los a construir um navio. Basta, simplesmente, inspirá-los a cruzar o oceano. 

*É SÓCIO DA PLATAFORMA PARA STARTUPS STARTSE

A cineasta do iPhone, Charlotte Prodger, vence o prêmio de 2018 da Turner

Bridgit, da artista Charlotte Prodger de Glasgow, é elogiado pelos juízes como “inesperadamente expansivo”

Charlotte Prodger vencedora do prêmio Turner 2018.

Uma série de clipes curtos filmados em um iPhone mostrando a paisagem rural escocesa a partir de uma janela de trem, uma camiseta em um radiador e um gato agarrado a uma lâmpada ajudou Charlotte Prodger a ganhar o prêmio Turner 2018.

Prodger foi nomeado o vencedor do prêmio de 25.000 libras pela novelista Chimamanda Ngozi Adichie em uma cerimônia em Londres na noite de terça-feira.

O artista de Glasgow faz obras de imagens em movimento há 20 anos e faz parte de muitos radares da arte contemporânea. Mas ela está longe de ser bem conhecida e o júri disse que seu trabalho recente representou um avanço para uma maneira nova e mais expansiva de trabalhar.
Falando depois de sua vitória, Prodger disse: “Eu me sinto muito honrado, realmente impressionado. É bem surreal. É uma sensação adorável.

A artista disse que usou um iPhone para seu trabalho porque estava sozinha e o telefone parecia uma extensão dela: “Por causa da facilidade de uso e da maneira como você pode usá-lo enquanto você está indo pelo mundo. Para mim, tudo está lá.

Perguntada sobre o que ela poderia fazer com o dinheiro do prêmio, Prodger disse: “Eu vou viver com isso. Eu pagarei meu aluguel e meu aluguel de estúdio e algumas contas. Talvez haja uma pequena surpresa … provavelmente uma jaqueta legal. Não me segure para isso!

Prodger (centro) recebeu seu prêmio da escritora Chimamanda Ngozi Adichie e da diretora da Tate, Maria Balshaw. Foto: Peter Nicholls / Reuters

Alex Farquharson, diretor da Tate Britain, que presidiu o painel de jurados, disse que o trabalho de Prodger representava o “uso mais profundo de um dispositivo tão prosaico quanto a câmera do iPhone que vimos na arte até hoje”.
Prodger, de 44 anos, ganhou por sua exposição individual no Bergen Kunsthall na Noruega, que contou com duas obras cinematográficas, Bridgit e Stoneymollan Trail. O filme de 32 minutos, Bridgit, está em exibição na Tate Britain, como parte da exposição do Turner.

O filme é difícil de explicar. Há muita coisa acontecendo, aparentemente ao acaso. Explora classe, gênero, sexualidade e deusas neolíticas.

Prodger filmou o trabalho ao longo de um ano e incluiu imagens dela em casa e em suas viagens. Sua narração inclui trechos de autobiografia – saindo em Aberdeenshire no início dos anos 90, as pessoas sendo incapazes de dizer se ela é um menino ou menina, a suposição de que sua namorada é sua filha. Ela também cita The Modern Antiquarian, de Julian Cope.

O artista descreveu a peça como sendo sobre a fluidez da identidade de uma perspectiva queer; uma exploração do entrelaçamento de paisagem, corpo, tecnologia e tempo.

Farquharson disse que o júri achava que Bridgit era “incrivelmente impressionante na forma como lidou com a experiência vivida, a formação de um senso de identidade através de referências diferentes”. Ele disse que o trabalho evoca tradições na arte da paisagem e tem peso psicológico. “Isso acaba sendo tão inesperadamente expansivo. Não é isso que esperamos de videoclipes gravados em iPhones ”.

O júri levou mais de quatro horas para chegar a essa decisão. “Eu acho que o júri estava unido em um sentimento de que este trabalho estava introduzindo algo novo para o meio cinematográfico e como ele é usado na arte”, disse Farquharson.

Todos os quatro nomeados – três indivíduos e um coletivo – fizeram o trabalho do filme, tudo isso de alguma forma política. Dependendo da sua perspectiva, a exposição deste ano foi a mais maravilhosamente cativante na memória ou o trabalho mais difícil. Certamente, não é um show que deve ser experimentado rapidamente; a Tate recomenda quatro horas e meia.

Ele dividiu os críticos. Laura Cumming, do Observer, chamou-a de melhor em anos, “por turnos, quebrando, absorvendo, seduzindo, altamente política, freqüentemente momentosa”. Waldemar Januszczak, do Sunday Times, escreveu: “Do começo ao fim, esse aparato de esmagar a alma é extraordinariamente horrível”.

O favorito de muitos visitantes era a Arquitetura Forense, um coletivo que foi descrito como uma “agência de detetives arquitetônicos” que investiga crimes de estado e abusos dos direitos humanos em todo o mundo.

Baseado na Goldsmiths, Universidade de Londres, o grupo é formado por arquitetos, cineastas, jornalistas, arqueólogos, cientistas, advogados e desenvolvedores de software. Para o prêmio da Turner, exibiu os resultados de suas investigações sobre as mortes durante uma invasão de madrugada de 2017 pela polícia israelense em uma aldeia beduína no deserto de Negev.

O prêmio Turner, em vigor desde 1984, muitas vezes exaspera e emociona em igual medida e não é estranho a controvérsias. O mais próximo que chegou este ano foi o protesto contra o artista Luke Willis Thompson, um neozelandês de ascendência europeia e fijiana.

Alguns criticaram o trabalho de vídeo de Autoportrait, um filme silencioso de Diamond Reynolds, a namorada de Philando Castile, morto a tiros pela polícia em Minnesota. Thompson foi acusado de lançar um olhar branco de classe média sobre os casos de sofrimento negro. Um grupo de manifestantes vestindo camisetas com o texto “Black Pain Is Not for Profit” protestou contra os sofás da exposição em setembro.

O quarto artista nomeado foi Naeem Mohaiemen, que exibiu dois filmes de 90 minutos, um sobre um homem que vive sozinho em um aeroporto abandonado e outro sobre momentos da história de Bangladesh.

O vencedor foi decidido por um júri composto por Oliver Basciano, um crítico de arte; Elena Filipovic, diretora do Kunsthalle Basel; Lisa Le Feuvre, diretora executiva da Fundação Holt-Smithson; e o romancista Tom McCarthy.

A exposição do Turner do ano passado foi em Hull. Este ano foi em Londres e, no ano seguinte, o circo rola para Margate.

• A exposição do prêmio Turner vai até o dia 6 de janeiro. 
Mark Brown – The Guardian

‘Mais que inovar, é importante fazer as perguntas certas’, diz diretor do MIT

Para o japonês Joi Ito, que assumiu o cargo mesmo sem ter diploma universitário, questionar a autoridade vigente é vital para avanços na sociedade

 Joi Ito, do Mit Media Lab, é referência mundial em inovação 

Uma das mentes mais brilhantes do planeta não gosta da palavra inovação. “Ela é difícil de definir”, diz o japonês Joi Ito, de 52 anos. “Mais que inovar, é importante fazer as perguntas certas”. Ele tem como provar o que diz: foi questionando o status quo que, mesmo sem ter um diploma universitário, conseguiu chegar ao posto de diretor do MIT Media Lab, em 2011 – a instituição, fundada pelo pioneiro Nicholas Negroponte, é hoje um dos principais centros de pesquisa de internet e tecnologia do mundo.

Discípulo de figuras como Timothy Leary e John Perry Barlow, pioneiros do movimento hippie e da internet, Ito tem um currículo extenso: ele faz parte do conselho do New York Times e já teve cadeiras semelhantes na Sony, na Fundação Mozilla e na Sanrio – a empresa por trás da gatinha Hello Kitty. Além disso, foi investidor-anjo de empresas como Flickr, Twitter e Kickstarter. Tudo isso após ter desistido, três vezes, de fazer faculdade na juventude. “O que acontece é que sou curioso e não sei dizer não. Meu trabalho é conectar pessoas”, diz ele, que só conseguiu seu primeiro diploma este ano, ao fazer um doutorado na Keio University, no Japão.

Referência no setor, Ito veio a São Paulo participar do HSM Expo. Durante o evento, dividiu sua experiência e a crença de que a desobediência é um componente vital da inovação, da ciência e da democracia – no Media Lab, criou uma premiação para valorizar exemplos de desobediência transformadora. No ano passado, por exemplo, premiou os informantes que revelaram a contaminação de água em Michigan. Na entrevista com o Estado, também falou sobre o futuro do Brasil e seu passado como investidor. A seguir, os melhores trechos. [Bruno Capelas]

Estadão: Como o sr. define inovação?
Joi Ito: Não tenho certeza se gosto da palavra inovação. É difícil de definir. Há quem ache que inovação é qualquer melhoria. Outros acreditam que é um jeito único de resolver um problema. E têm um grupo que diz que inovação é algo novo e radical – uma solução para algo que nem sabíamos que era um problema. Creio que, mais que inovar, o importante é fazer as perguntas certas. Nicholas Negroponte, fundador do MIT Media Lab, tinha uma frase clássica: “se você é capaz de medir algo, então não é interessante”. Se você mede o PIB de um país, mede sua produtividade – mas não a cultura e a qualidade de vida. As inovações interessantes são inesperadas, aquela que questiona certezas sobre os problemas que temos.

No Media Lab, o sr. criou um prêmio para incentivar a desobediência. Por que ela é importante para a inovação?
O físico Max Planck disse certa vez que “a ciência progride a cada funeral”. Isto é: ela avança com a perda da figura de autoridade, tornando-se mais fácil questionar. A ciência requer o questionamento da autoridade e o pensamento livre – na academia, alunos e professores não podem ter medo de se expressar. A democracia exige que questionemos a autoridade e a lei existentes. Uma lei só muda quando é questionada, não quando é obedecida. O mesmo vale para o jornalismo: se você está na frente de um executivo que esconde algo, é dever do jornalista fazer perguntas difíceis. Só desobediência, como quebrar uma janela, não me interessa. O que interessa é a desobediência que gera mudança – o que é difícil, porque às vezes só sabemos os efeitos da mudança muito tempo depois, sem falar nos riscos ao longo do caminho.

O mundo vive um momento conservador. É mais difícil desobedecer?
É, mas também é mais importante. E mais divertido. Em regimes autoritários, a arte se torna melhor e a rebelião, mais divertida. É muito importante ser desobediente em meio a uma sociedade conservadora e opressiva – ou seja, é uma ótima hora para a desobediência, nos EUA ou no Brasil.

O sr. assumiu o Media Lab em 2011 sem ter um diploma. Neste ano, finalmente fez um doutorado. Isso mudou sua visão sobre a educação tradicional? É preciso reinventá-la?
Meu doutorado foi diferente do normal: pude apenas escrever sobre o que fiz nos últimos anos, sem precisar frequentar aulas. Não sou bom em ficar sentado durante muito tempo assistindo uma leitura. Pessoas como eu não se dão bem no sistema tradicional de educação. Para mim, ele precisa ser reinventado para que chamo de neurodiversidade – hoje, um quarto dos habitantes do planeta têm condições como Asperger, dislexia ou déficit de atenção. Precisamos reinventar o sistema para essas pessoas, que podem preferir aprendendo em uma conversa do que numa exposição longa em uma sala de aula. Volto também à questão das medidas: hoje, as escolas medem pessoas e suas performances. É como uma pequena fábrica. Por outro lado, elas não medem paixões e criatividade, por exemplo. É preciso mudar isso.

O sr. também já apostou em empresas como Twitter e Kickstarter. O que faz o seu olho brilhar como investidor?
Sou um cara de produto – logo, apoio ideias que sinto que utilizarei muito. A personalidade e o estilo do empreendedor contam muito. Mas a coisa mais importante para mim é saber quem são os outros investidores: os maiores problemas que tive não foram com os empreendedores, mas sim com os outros acionistas. E sempre friso: toda ideia precisa ter um modelo de distribuição claro. Acreditar só no boca a boca não funciona.

O sr. tem um currículo extenso. Como faz tantas coisas ao mesmo tempo?
A maior parte do que faço acontece em paralelo: meu trabalho é sobre conectar pessoas e organizações. Além disso, sou um cara curioso e não sei dizer não. (risos).

Há muitos brasileiros no Media Lab hoje. Como o Brasil pode mudar o mundo?
Posso ser simplista, mas o Brasil tem hoje a maior floresta do mundo e uma cultura importantíssima. Acredito que isso será a base de um novo movimento, tão importante quanto o movimento hippie: algo que tenha música, moda, cultura, comida, seja digital e esteja conectado diretamente com a natureza. Só vamos conseguir resolver problemas como o aquecimento global por meio de uma mudança cultural. Sei que o Brasil tem seus problemas, mas quando lidar com questões políticas e econômicas, também conseguirá mudar o mundo. O problema é que vejo que as pessoas não estão integradas: os homens de negócios só pensam em negócios; os artistas, na arte; os indígenas, em proteger sua terra. Talvez os jovens possam mudar isso.

Hoje, o custo para inovar caiu muito. Por outro lado, as gigantes de tecnologia nunca foram tão grandes. Como vê esse cenário?
Para os empreendedores, é preciso entender qual a vantagem que eles têm frente a essas gigantes de tecnologia. E também saber as fraquezas das gigantes e atacá-las. Eles podem ter muitos dados, mas não o conhecimento ou a confiança local. Vivemos hoje um momento se somos capazes de fazer serviços locais mais relevantes ou plataformas mais inclusivas. Não é sobre ter uma versão “local” do Facebook, mas há oportunidades interessantes. A lei de proteção de dados da Europa, por exemplo, vai permitir o surgimento de empresas mais sensíveis à privacidade. É o tipo de vantagem que faz sentido. Mas, sendo honesto, creio que a grande vantagem do Vale do SIlício não está na inovação, mas sim no dinheiro. Lá, há capitalistas de risco incríveis, que sabem como apostar e gerar retorno. É uma competição sobre apoio de dinheiro, não sobre tecnologia.

O sr. é conselheiro do New York Times. Como o jornalismo pode inovar, ao mesmo tempo em que é questionado enquanto instituição, seja pelas notícias falsas ou por políticos?
Os ataques ao jornalismo são uma das coisas mais danosas que podem acontecer no mundo neste momento. Uma das razões pelas quais estou no New York Times é porque eu era um blogueiro que adorava criticar jornalistas. Depois, descobri que nós não podíamos substitui-los e que o jornalismo estava morrendo. Então, me juntei ao barco para ajudar. Acredito que o jornalismo precisa mudar. As novas gerações não gostam desse modelo distanciado: elas querem ver o jornalista, saber como ele é e o que pensa. Os jovens não sabem a diferença entre uma notícia e um artigo, por exemplo – é uma distinção que não faz sentido. Conversar com eles é um primeiro passo para entender qual o jornalismo que fará sentido no futuro.

O sr. conviveu com Timothy Leary e John Perry Barlow, dois pioneiros do movimento hippie e do pensamento livre. Como o mundo seria diferente sem eles?
Escrevi recentemente um artigo para a Wired sobre como os hippies influenciaram o início do Vale do Silício. Steve Jobs e Bill Gates, por exemplo, estiveram envolvidos com o movimento de expansão da mente a partir do uso de drogas. Isso mudou a cultura do Vale. A estrutura da internet é algo hippie: “minha rede leva seu pacote de dados se a sua rede levar o meu”. Não é algo transacional, é uma troca pura. É muito hippie. Por outro lado, essa rede de confiança também foi um problema: a internet começou a ter falhas quando “deixamos os demônios” entrarem, uma vez que não estávamos preparados para nos defender. Hoje, essa vertente hippie é uma subcultura no Vale, não é mais prevalente. Lá, as pessoas só pensam em negócios, negócios e negócios. Mas acredito que a nova geração fará um movimento tão interessante quanto os hippies. Estamos em um momento de tensão grande, da mesma forma que havia em 1969, com o Verão do Amor, a Guerra do Vietnã, as rebeliões em Detroit e os experimentos de Leary com o LSD. Hoje, há um movimento de direita aparecendo, mas espero que vejamos algo progressista surgindo em breve também.

Para encerrar, duas perguntas culturais. Que livro eu deveria ler neste momento?
Para um brasileiro? Me deixe pensar… (faz uma pausa). Como as Democracias Morrem, de Stephen Levitsky e Daniel Ziblatt.

Sei que o sr. já foi DJ. Que música tocaria à meia noite numa festa de Ano Novo, na virada de 2018 para 2019?
“Come Together”, dos Beatles. Foi a música de campanha de quando Timothy Leary se candidatou ao governo da Califórnia. Acredito que é preciso fazer as pessoas se unirem para começar um movimento.