Compositoras clássicas começam a conquistar o reconhecimento merecido

De Germaine Tailleferre e Amy Beach à brasileira Chiquinha Gonzaga, chegou finalmente a hora do abre-alas
Marcelo Coelho

Ilustração das cabeças de três pessoas de perfil. A pessoa da esquerda tem cabelo ondulado preto e pele branca, a pessoa central tem cabelo cacheado laranja e pele preta e a pessoa do lado direito tem cabelo ondulado branco e pele laranja. No fundo, há uma partitura em branco sob fundo verde.
Publicada nesta terça-feira, 18 de janeiro de 2022 – André Stefanini

Você vai ficando velho, e suas crenças e opiniões acabam se transformando em alguma coisa parecida com sapatos, pulôveres (palavra antiga, essa) ou guarda-chuvas (cóf, cóf). Ficam largadas num canto, guardadas no armário, ou penduradas num mancebo (hein?).

Aí, quando te perguntam, você tira do armário e usa, sem se tocar que está tudo fora de moda, desbotado, com roído de traças aqui e ali.

Sempre fui de ouvir música clássica, e nisso não vou mudar. E, como todo mundo na minha geração, de até 1990 mais ou menos, achava que quase não havia mulheres entre os compositores eruditos.

Conhecia algumas peçazinhas de Clara Schumann (1819-1896), que afinal era a viúva de Robert, e de Fanny Mendelssohn (1805-1847), que afinal era irmã de Felix.

Na França do século 20, misteriosamente, uma mulher era citada entre os membros do chamado Grupo dos Seis, que rompeu com a tradição das brumas e meias-tintas de Debussy. Mas, embora se soubesse que Germaine Tailleferre (1892-1982) existia, era raríssimo ouvir alguma composição dela.

Enquanto isso, as obras de seus colegas de grupo, como Darius Milhaud e Francis Poulenc, estavam por toda parte desde a década de 1930.

Aos poucos, vejo que a situação mudou; a obra de muitas e muitas compositoras clássicas do passado vai sendo redescoberta. Uma dessas rádios no streaming, a Planet Radio, inaugurou um canal só com músicas escritas por mulheres. No Spotify, há uma playlist dedicada ao tema.

Nos dois casos, o ouvinte precisa de um pouco de paciência. Esses programadores confundem música clássica com tudo o que é sonoridade “new age“, maçarocas meditativas ou pasmaceira de lago encantado na floresta mágica.

Pulando o que deve ser pulado, é possível conhecer compositoras sérias, autoras de obra extensa —e ignorada ao longo de décadas e séculos.

Começando pela própria Germaine Tailleferre. Além das obras para harpa (instrumento “feminino”, se quisermos), há sonatas para violino e piano, um trio, um quarteto de cordas, dois concertos para piano, um punhado de óperas, balés, cantatas: montanhas de música. Nem tudo gravado ainda, infelizmente.

Para quem gosta do que de melhor foi feito pelo Grupo dos Seis, ou seja, composições neoclássicas, frescas e cítricas, de uma aspereza matinal e esportiva, não há do que reclamar. Não se trata de alguém que escreveu meia dúzia de páginas de salão e se calou para cuidar da casa e dos filhos: Germaine Tailleferre teve uma longa vida como compositora profissional, e sempre foi conhecida… só que ninguém a ouvia.

Nos Estados Unidos, o caso de Amy Beach (1867-1944) é parecido. Se eu já tinha ouvido falar dela, certamente esqueci. Mas um programa recente na BBC fez um rápido panorama de suas composições, e há muito a conhecer.

Um quinteto para piano, especialmente, impressiona pela profundidade desolada, pelo jogo de sombras que nasce de cada melodia, pelo equilíbrio entre a austeridade e o encantamento. O segundo movimento é inesquecível.

Trata-se do opus 67 de uma produção que inclui uma sinfonia, um concerto para piano, um quarteto de cordas, e uma grande variedade de obras vocais. Tenho pilhas de coisas para ouvir ainda, mas recomendo uma curta peça para coro, em que as palavras de Ariel em “A Tempestade” de Shakespeare são milagrosamente jogadas de um lado para outro no tempo e no espaço.

Às vezes, parece Elgar, outras vezes Rachmaninov, outras vezes César Franck. Amy Beach certamente não mudou a história da música, mas não há nenhuma razão para que tenha sido ignorada.

É estranho. Sendo a discriminação contra as mulheres uma regra geral ao longo dos séculos, o absurdo disso parece ter variado conforme a arte a que se dedicavam. Escritoras (ainda que usando, às vezes, nomes masculinos) marcaram a poesia e o romance do século 19. Mas, na composição, é como se o sistema tivesse se obstinado a permanecer em estado de surdez.

Louise Farrenc, Florence Price, Grazyna Bacewicz, Rebecca Clarke e muitas outras reaparecem agora. Para lembrar uma das nossas, Chiquinha Gonzaga, chegou finalmente a hora do abre-alas.

Chopin: Eight Études | Daniil Trifonov at the Verbier Festival 2012

Piano artistry at its finest: Russian pianist Daniil Trifonov plays eight études by Frédéric Chopin, at the 2012 Verbier Festival.

A arte do piano no seu melhor: o pianista russo Daniil Trifonov toca oito estudos de Frédéric Chopin, no Festival Verbier de 2012.

(00:00) Étude Op. 10, No. 11

(03:03) Étude Op. 10, No. 6

(07:15) Étude Op. 25, No. 1

(09:27) Étude Op. 25, No. 5

(12:34) Étude Op. 10, No. 5

(14:22) Étude Op. 25, No. 6

(16:18) Étude Op. 25, No. 7

(21:35) Étude Op. 25, No. 11

Concerto em homenagem a Nelson Freire – 4/12/21

Sala Cecília Meireles/FUNARJ
Série Sala Digital

Erika Ribeiro
Juliana Steinbach
Lucas Thomazinho
Pablo Rossi

PROGRAMA:
Heitor Villa-Lobos(1887-1959)

  • Valsa da Dor

Frédéric Chopin (1810-1849)

  • Mazurka, op. 17, nº 4
  • Barcarolle em Fá sustenido maior, op. 60

Erika Ribeiro, piano

Franz Schubert (1797-1828)
Fantasia Wanderer em Dó maior, opus 15, D.760

Pablo Rossi,piano

Heitor Villa-Lobos(1887-1959)

  • Rudepoema

Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993)
Toccata

Lucas Thomazinho, piano

Christoph Glück (1714-1787)

  • Dança dos espíritos abençoados

Robert Schumann (1810-1856)
Fantasia op. 17
I – Durchaus phantastisch und liedenschaftlich vorzutragen

Heitor Villa-Lobos(1887-1959)

  • Festa no Sertão
    Juliana Steinbach, piano

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Mariam Batsashvili performs a recital of Franck, Schumann, Liszt & more at Wigmore Hall (Oct 2020)

Enjoy this live concert of young Georgian pianist Mariam Batsashvili at Wigmore Hall in London, where she performed solo piano pieces by Franck, Ravel, Thalberg, Schumann, and Liszt.

Desfrute deste concerto ao vivo da jovem pianista georgiana Mariam Batsashvili no Wigmore Hall em Londres, onde executou peças para piano solo de Franck, Ravel, Thalberg, Schumann e Liszt.

Her debut album: https://w.lnk.to/lisztchopinLY

PROGRAM:

00:00:30 BBC Moderation
00:02:23 César Franck (1822-1890): Prélude, Fugue et Variation Op. 18

00:13:29 Applause & BBC Moderation
00:14:07 Maurice Ravel (1875-1937): Sonatine

00:24:52 Applause & BBC Moderation
00:25:49 Sigismund Thalberg (1812-1871): Grand caprice on Bellini’s La Sonnambula Op. 46

00:38:07 Applause & BBC Moderation
00:40:30 Robert Schumann (1810-1856): Fantasiestücke Op. 12

01:05:38 Applause & BBC Moderation
01:06:45 Franz Liszt (1811-1886): Paraphrase on a Waltz from Gounod’s Faust S407

01:17:16 Mariam’s Moderation for the encore
01:17:55 Gioachino Rossini (1792 – 1868): Petit caprice (Style Offenbach)

Bach – Suite in A major BWV 832 – Fortin | Netherlands Bach Society

This Suite in A major, performed by Olivier Fortin for All of Bach, is one of Bach’s works in the ‘Möller manuscript’, as it is known. This manuscript was compiled between 1703 and 1707 by Bach’s elder brother Johann Christoph, with whom Johann Sebastian had moved in, following the death of their parents. So Bach could not have been older than about 20.

The manuscript also contains French keyboard music: a chaconne by Lully and suites by Lebèque and Marchand. Nearly everything about Bach’s own suite seems to be French-inspired: the musical style, the exciting harmonies in the Sarabande, and the idea of an Air pour les trompettes. Both this French title and the description itself are reminiscent of keyboard arrangements of Lully’s music, which was also popular in Germany. Moreover, another manuscript compiled by Johann Christoph Bach in the same period includes a keyboard arrangement of an Air de trompette by Marin Marais, with which the young Johann Sebastian must also have been familiar.

Recorded for the project All of Bach on 17 April 2018 at Suin, France.

Esta Suíte em Lá maior, executada por Olivier Fortin para Todos de Bach, é uma das obras de Bach no “manuscrito Möller”, como é conhecido. Este manuscrito foi compilado entre 1703 e 1707 pelo irmão mais velho de Bach, Johann Christoph, com quem Johann Sebastian havia se mudado, após a morte de seus pais. Portanto, Bach não poderia ter mais de 20 anos.

O manuscrito também contém música francesa para teclado: uma chaconne de Lully e suítes de Lebèque e Marchand. Quase tudo na suíte de Bach parece ser de inspiração francesa: o estilo musical, as harmonias emocionantes no Sarabande e a ideia de um Air pour les trompettes. Tanto este título francês quanto a própria descrição lembram os arranjos de teclado da música de Lully, que também era popular na Alemanha. Além disso, outro manuscrito compilado por Johann Christoph Bach no mesmo período inclui um arranjo de teclado de um Air de trompette de Marin Marais, com o qual o jovem Johann Sebastian também deve estar familiarizado.

Gravado para o projeto All of Bach em 17 de abril de 2018 em Suin, França.

Morre Nelson Freire, gênio do piano e um dos brasileiros mais prestigiados no mundo

Músico era considerado um dos maiores pianistas do século XX

Nelson Freire Foto: Divulgação

Morreu na madrugada desta segunda-feira o pianista Nelson Freire, aos 77 anos, no Rio de Janeiro. Ele morreu por causa de uma concussão cerebral provocada por uma queda, em casa, na Joatinga. Há dois anos, Nelson sofreu uma queda no calçadão da Barra da Tijuca e fraturou o úmero do braço direito. Ele foi operado, mas não voltou a tocar depois do acidente e, segundo amigos, passou a sofrer de depressão.

— Nelson queria voltar a tocar, mas ainda estava muito afetado por causa do acidente. E a pandemia da Covid-19 o deixou isolado em casa — conta o diretor da Rádio MEC Thiago Regotto, que esteve com o pianista em março.

Ainda segundo amigos, a pianista argentina Martha Argerich, grande amiga de Nelson, estava no Rio ao seu lado até cerca de quatro dias atrás. Ela pediu ao pianista Arthur Moreira Lima para substituí-la na banca do Concurso Chopin, em Varsóvia, para poder ficar mais perto dele.

O velório do músico acontece no Theatro Municipal do Rio (onde ele se apresentou pela úlltima vez em julho de 2018) a partir das 11h. O enterro ocorre a partir das 16h, no Memorial do Carmo, no Caju.

Jovem prodígio

Nascido em Boa Esperança, Minas Gerais, em 1944, Nelson era considerado um dos maiores pianistas do século XX. Descrito como ‘”tímido”, de “caráter discreto”, começou a dedilhar no piano aos 3 anos de idade, ao observar a irmã. Por isso, seus pais se mudaram para o Rio quando ele tinha 5, em busca de professoras para o jovem prodígio, que começou a estudar com Nise Obino e Lúcia Branco.

Em 1957, em plenos anos da presidência de Juscelino Kubitschek, foi realizado no Rio de Janeiro um concurso internacional de piano. Nelson Freire, então com 12 anos, foi o mais jovem entre os 47 candidatos. Ele ficou em nono lugar (com uma interpretação do primeiro movimento do “Concerto Imperador” de Beethoven), mas revelou-se uma sensação, e acabou ganhou uma bolsa do governo JK  para estudar em Viena, na Áustria.

A partir daí, Freire fez carreira na Europa, conquistando, aos 19, o primeiro lugar no Concurso Internacional Vianna da Motta, em Lisboa. Cinco anos depois, estreou com a Orquestra Filarmônica de Nova York. Chegou a ganhar da revista “Time” o título de  “um dos maiores pianistas desta ou de qualquer outra geração”. Trabalhou em todas as grandes cidades da Europa e Estados Unidos, com os maiores regentes do século XX.

— Ainda tenho muito a conquistar. Progredir. Se um artista achar que conquistou tudo, parou — disse ele, em entrevista ao GLOBO, em 2014.

Martha Argerich

Como um jovem estudante na Europa, Nelson Freire conheceu sua alma gêmea e grande amiga, Martha Argerich, com quem compartilhou o teclado em muitas ocasiões. Foi de mãos vazias, sem ter vencido concursos, que Nelson Freire voltou ao Brasil em 1962. Um pouco taciturno e deprimido, cansado do piano, uma partitura o arrancava da tristeza: as rapsódias de Brahms, oferecidas por um amigo. Ao tocá-las, o jovem pianista redescobriu o gosto pelo seu instrumento.

A área de predileção de Freire recaía sobre o repertório romântico: ele fez gravações notáveis de Schumann, Chopin e até de Brahms, nunca esquecendo o repertório do seu país – em 2012, lançou “Brasileiro – Villa Lobos & Friends” (vencedor do Grammy Latino de 2013, de melhor álbum de música clássica), com obras de Villa, Camargo Guarnieri e Henrique Oswald.

Ao longo da carreira, Nelson Freire se apresentou com algumas das maiores orquestras do mundo, como as Filarmônicas de Berlim, Munique e Rotterdam, a London Symphony Orchestra e a Royal Philharmonic Orchestra. E trabalhou com os mais prestigiados regentes, como Pierre Boulez, Kurt Masur, André Previn, Rudolf Kempe (com quem realizou diversas turnês pelos Estados Unidos e Alemanha com a Royal Philharmonic Orchestra) e Isaac Karabtchevsky.

O pianista gravou diversos álbuns, sendo o último, “Encores”, lançado em outubro de 2019 pela Decca. Só por essa gravadora, são 22 álbuns, desde 1983, com gravações de Chopin, Schumann, Brahms e Beethoven.

— Não ouço nem durante nem depois meus discos. Já tem uns cinco anos isso, foi acontecendo aos poucos. Porque se ouço, fico querendo mudar — disse o pianista ao GLOBO em 2001.

Em 2003, o músico foi tema de um documentário feito pelo cineasta João Moreira Salles. “Nelson Freire” venceu o prêmio de melhor documentário do Grande Cinema Brasil daquele ano e contou com a participação da amiga Martha Argerich. Em 2016, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

— Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato.  Um presidente que tira a máscara de um bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do país. Mas não é a única — diz João. — Nelson Freire (o pianista, não o filme) representava e representa (nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou) uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim.

Repercussão entre artistas

Admiradores, amigos e colegas do pianista lamentaram a sua morte. Diretor da Sala Cecilia Meireles, João Guilherme Ripper disse: “Perdemos nosso grande pianista, um artista generoso e genial! Jamais esquecerei um recital no Teatro Châtelet em Paris, em que Nelson tocou um programa dedicado a Chopin. Ovacionado, retornou nove vezes ao palco para tocar de bis toda ‘A prole do bebê’, de Villa-Lobos. Com Nelson, desaparece mais um pedaço daquele Brasil que encantou o mundo.”

No Instagram, o produtor, jornalista, compositor e colunista de O GLOBO Nelson Motta escreveu: “Menino prodígio de raro talento, não teve infância nem juventude nem tempo para nada com sua vida inteiramente dedicada ao piano – e à criação de beleza e arte para o mundo à custa de enorme sacrifício pessoal com horas e horas de estudo diário que não terminam nunca. Amo especialmente seus discos de Debussy e de Villa Lobos e autores brasileiros. Obrigadissimo, xará. Vai em paz.”

“Guardaremos as sua interpretações das obras de Chopin, Brahms. Ele impôs um Rachmaninoff e um Liszt transcendentes. Mas sempre houve volúpia, um jogo voluptuoso, como um grande vinho da Borgonha”, elogiou o pianista francês Philippe Cassard. “Nelson Freire é alguém que deixou a sua marca, o seu estilo, a sua classe. Foi um artista de uma classe muito elevada, absolutamente não narcisista, desafiando todas as modas e egoísmos. destacou-se por sua pureza, sua integridade musical Uma extraordinária classe, humildade e maestria que fizeram de Nelson Freire um dos maiores pianistas da segunda metade do século XX.”

Para o maestro Fabio Mechetti, Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais, a musicalidade de Nelson Freire “o distinguiu no cenário da música clássica internacional, celebrado que foi em todo o mundo pela hipnotizante maneira com que se utilizava de seu melhor amigo, o piano, para expressar os mais profundos sentimentos, fossem eles de alegria, como nas suas legendárias interpretações de Ravel ou nas inúmeras obras de Villa-Lobos, que tanto ajudou a popularizar, quanto na mágica intimidade sonora que conquistava nas suas leituras de Chopin, Schumann e Beethoven.”

VEJA IMAGENS DO PIANISTA NELSON FREIRE

Nelson Freire, em concerto no Ginásio Gilberto Cardoso, em 1957, pouco antes de completar 13 anos de idade Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire, em concerto no Ginásio Gilberto Cardoso, em 1957, pouco antes de completar 13 anos de idade Foto: Arquivo / Agência O Globo
Começou a estudar o instrumento aos 5 anos de idade, com as professoras Nise Obino e Lúcia Branco e, aos 11, já tocava Chopin com maestria Foto: Arquivo / Agência O Globo
Começou a estudar o instrumento aos 5 anos de idade, com as professoras Nise Obino e Lúcia Branco e, aos 11, já tocava Chopin com maestria Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire recebendo do Senhor Manuel Guimarães um cheque de trinta mil cruzeiros do Banco Nacional de Minas Gerais, no dia 17 de outubro, véspera do aniversário de 13 anos, em 1957 Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire recebendo do Senhor Manuel Guimarães um cheque de trinta mil cruzeiros do Banco Nacional de Minas Gerais, no dia 17 de outubro, véspera do aniversário de 13 anos, em 1957 Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire toca piano aos 12 anos de idade Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire toca piano aos 12 anos de idade Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire aos 18 anos Foto: Arquivo / Agência O Globo
Nelson Freire aos 18 anos Foto: Arquivo / Agência O Globo
Cena do documentário 'Nelson Freire', de João Moreira Salles Foto: Reprodução
Cena do documentário ‘Nelson Freire’, de João Moreira Salles Foto: Reprodução
Fernando Montenegro no camarim após concerto do pianista Nelson Freire no Teatro Municipal do Rio Foto: Arquivo
Fernando Montenegro no camarim após concerto do pianista Nelson Freire no Teatro Municipal do Rio Foto: Arquivo
Concerto com o pianista Nelson Freire e a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), regida pelo maestro Roberto Minczuk, na sala São Paulo, em 22 de agosto de 2013 Foto: foto : Eliana Rodrigues
Concerto com o pianista Nelson Freire e a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), regida pelo maestro Roberto Minczuk, na sala São Paulo, em 22 de agosto de 2013 Foto: foto : Eliana Rodrigues
Nelson Freire e Dra Rosa Célia, do Pró-criança Cardíaca. No dia 12 de agosto de 2006, Nelson Freire fez um concerto no Municipal para comemorar os 50 anos de carreira e.a renda do concerto foi revertida para o Pró-Criança Cardíaca, que completava 10 anos de atividades Foto: Marcos Ramos
Nelson Freire e Dra Rosa Célia, do Pró-criança Cardíaca. No dia 12 de agosto de 2006, Nelson Freire fez um concerto no Municipal para comemorar os 50 anos de carreira e.a renda do concerto foi revertida para o Pró-Criança Cardíaca, que completava 10 anos de atividades Foto: Marcos Ramos
Nelson Freire posa para entrevista exclusiva ao jornal O GLOBO em 2014 Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Nelson Freire posa para entrevista exclusiva ao jornal O GLOBO em 2014 Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Nelson Freire posa para entrevista exclusiva ao jornal O GLOBO, e m 2006 Foto: Marco Antônio Teixeira / Agência O Globo
Nelson Freire posa para entrevista exclusiva ao jornal O GLOBO, e m 2006 Foto: Marco Antônio Teixeira / Agência O Globo
Nelson Freire posa com sua cadela Danusa diante de seu piano Foto: Camilla Maia
Nelson Freire posa com sua cadela Danusa diante de seu piano Foto: Camilla Maia
O pianista Nelson Freire Foto: .
O pianista Nelson Freire Foto: .
O pianista Nelson Freire
O pianista Nelson Freire
O pianista Nelson Freire Foto: Camilla Maia / Agência O Gloob
O pianista Nelson Freire Foto: Camilla Maia / Agência O Gloob
Concerto de Nelson Freire ao piano Foto: Renato Mangolin
Concerto de Nelson Freire ao piano Foto: Renato Mangolin

Frédéric Chopin: Piano Concerto No. 1 e-minor (Olga Scheps live)

Olga Scheps performing live at Tonhalle Dusseldorf with the Chamber Orchestra of Polish Radio, conductor Agnieszka Duczmal.
Jan. 22, 2014
00:00 1. Maestoso
22:02 2. Romance
33:38 3. Rondo
Video: http://www.lichtbilder-filmproduktion.de
Follow Olga Scheps on Twitch: https://www.twitch.tv/olgascheps

Khatia Buniatishvilli – Beethoven Piano Concerto # 1 – Marin Alsop/Orchestre de Paris

The outstanding French-Georgian pianist Khatia Buniatishvilli performs Beethovens Piano Concerto # 1 with Marin Alsop conducting The Orchestre de Paris, from the summer of 2020. A stunning performance!

A notável pianista franco-georgiana Khatia Buniatishvilli executa o Concerto para Piano # 1 de Beethovens, com Marin Alsop conduzindo a Orquestra de Paris, do verão de 2020. Uma apresentação impressionante!

Daniil Trifonov – Bach: Contrapunctus 14, BWV 1080, 19 (Compl. by Trifonov)

@Daniil Trifonov is intrigued by Bach’s attempts to base the work on the Fibonacci sequence and the golden ratio, but observes that the result is “far more than a scientific experiment: as always with Bach, he managed to make music of indescribable beauty and emotion”. Trifonov’s imaginative interpretation captures the sense of the work as a cycle, treating it as a living, organic whole. This chimes with the inspiration he takes from spending time in nature, whether hiking or practising Qigong, a form of meditation that values the healing energy of trees. “And the tree is a good metaphor for The Art of Fugue’s overall structure,” he notes. “The theme is the trunk, the fugues are the branches, all the permutations within each fugue are the leaves…”

Bach did not live to finish The Art of Fugue’s final contrapunctus, and a number of musicians have attempted conjectural completions. For this recording, Trifonov, himself an accomplished composer, has created a seamless, stylistically respectful conclusion worthy of Bach’s genius. It reflects the extent to which he has absorbed and internalised every nook and cranny of Bach’s valedictory masterpiece.

@Daniil Trifonov está intrigado com as tentativas de Bach de basear o trabalho na sequência de Fibonacci e na proporção áurea, mas observa que o resultado é “muito mais do que um experimento científico: como sempre com Bach, ele conseguiu fazer uma música de beleza e emoção indescritíveis ”. A interpretação imaginativa de Trifonov captura o sentido da obra como um ciclo, tratando-a como um todo vivo e orgânico. Isso ressoa com a inspiração que ele tira do tempo que passa na natureza, seja caminhando ou praticando Qigong, uma forma de meditação que valoriza a energia curativa das árvores. “E a árvore é uma boa metáfora para a estrutura geral de A Arte da Fuga”, observa ele. “O tema é o tronco, as fugas são os ramos, todas as permutações dentro de cada fuga são as folhas …”

Bach não viveu para terminar o contraponto final de The Art of Fugue, e vários músicos tentaram conclusões conjecturais. Para esta gravação, Trifonov, ele mesmo um compositor talentoso, criou uma conclusão perfeita e estilisticamente respeitosa digna do gênio de Bach. Reflete até que ponto ele absorveu e internalizou cada canto e recanto da obra-prima de despedida de Bach.