Casacor expulsa mulher com deficiência que reclamou da falta de acessibilidade na mostra

“Uma funcionária me chamou de mentirosa e me mandou calar a boca”, diz Nathalia Blagevitch Fernandez, advogada que tem paralisia cerebral e foi transportada pelo elevador de carga. Ela registou boletim de ocorrência.
Luiz Alexandre Souza Ventura

Nathalia Blagevitch Fernandez é advogada. Crédito: Reprodução.

A advogada Nathalia Blagevitch Fernandez, de 30 anos, que tem paralisia cerebral, afirma ter sido discriminada e conduzida para fora da Casacor, mostra de arquitetura e decoração em cartaz no Allianz Parque, na região oeste de São Paulo, após reclamar da falta de acessibilidade no evento.

Nathalia conta que comprou o ingresso pela internet, para ela e para uma acompanhante – a R$ 50 cada – e informou ser uma pessoa com deficiência. Quando chegou no evento neste sábado, 23, após visitar o primeiro andar da exposição, ela procurou pelos elevadores e, como não encontrou, procurou a organização.

“A equipe da exposição explicou que os elevadores do Allianz Parque haviam sido danificados após uma falta de luz e estavam parados”, diz Nathalia. “Indicaram o uso do elevador de carga, mas disseram que eu só subiria um andar”, narra a advogada. “Perguntei se alguém poderia me carregar e isso foi recusado porque a exposição tem sete andares”, relata.

“Eu desci com uma bombeira e a minha acompanhante pelo elevador de carga. Então, uma moça com roupas pretas e o crachá da Casacor disse que me acompanharia até a saída. Eu respondi que queria falar com a organizadora do evento – Eliana Sanchez – e essa funcionária não permitiu”, afirma Nathalia.

A advogada comenta que duas mulheres, uma delas carregando um bebê e um carrinho, a outra usando uma bengala, entraram no elevador de carga. “Eu falei que elas não iriam conseguir subir porque não havia acessibilidade. A funcionária da Casacor respondeu na hora ‘cala a boca sua mentirosa’ na frente de todas as pessoas”, diz a advogada. “Então, eu chamei a polícia”.

Nathalia explica que os policiais compareceram ao local, mas não fizeram nada porque “não havia crime” e a orientaram a registrar o boletim de ocorrência pela internet. Nathalia fez o BO e pretende comparecer à Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência de SP, no Centro da capital paulista, para formalizar uma denúncia.

De acordo com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (n° 13.146/2015), no artigo 42, “A pessoa com deficiência tem direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido” – inciso II – “acessibilidade nos locais de eventos e nos serviços prestados por pessoa ou entidade envolvida na organização das atividades de que trata este artigo”. Na mesma legislação, o artigo 88 estabelece que é crime “Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência”, com previsão de pena de reclusão de um a três anos, além de multa.

Resposta – Questionada pelo blog Vencer Limites, a Casacor respondeu em nota.

“Em relação ao episódio relatado pela visitante Nathália Blagevitch Fernandez durante sua visita à CASACOR São Paulo neste sábado, 23, a mostra reforça que repudia qualquer ato discriminatório e que ministra treinamentos aos funcionários, bem como aos seus terceirizados, enfatizando sempre os protocolos internos de conduta e responsabilidade no trato com seus visitantes. A mostra informa que o episódio está sendo apurado e que as medidas administrativas cabíveis serão tomadas pela organização.

Com relação aos elevadores, o Allianz Parque passou por atividades de manutenções preventivas programadas nas subestações, para garantir a máxima qualidade e segurança no fornecimento de energia. No decorrer das atividades da mostra, houve uma situação de força maior, e o fornecimento de energia teve de ser interrompido por algumas horas, para garantir a segurança de todos os envolvidos na manutenção e usuários dos elevadores. O Allianz Parque fará o ressarcimento do valor total dos ingressos ou reagendamento das visitas em dia e hora a escolha dos visitantes afetados nesta data do evento. A empresa lamenta o ocorrido e reafirma que o problema já foi solucionado para funcionamento normal da mostra.

Os clientes que se sentiram lesados deverão enviar e-mail para eventos@casacor.com.br, com a solicitação.

A CASACOR São Paulo é uma mostra 100% acessível desde 2016. O evento é totalmente preparado para receptivo não apenas de pessoas com deficiência, mas de idosos e famílias com crianças pequenas, que acessem os ambientes com carrinhos.

A mostra conta com rampas de acesso em todos os ambientes; disponibiliza na recepção duas motos elétricas e 2 cadeiras de rodas para os visitantes; 3 elevadores exclusivos para acesso à mostra; 3 elevadores exclusivos para acesso a estacionamento, 1 elevador para pessoa com deficiência no sexto andar, para acesso aos pisos do circuito. Há ainda quatro banheiros, todos unissex e com cabine exclusiva e equipada para pessoa com deficiência, distribuídos em todos os andares do circuito.

O procedimento de receptivo para pessoas com deficiência, que é adotado em todos os casos, é o de monitoramento da visita, desde a recepção, até a finalização, tanto pela equipe CASACOR quanto pela equipe brigadista, em plantão das 12h às 22h, horário em que a mostra fica aberta ao público, para garantir conforto e segurança em todo o circuito. Toda a equipe CASACOR é treinada e orientada para atender a qualquer necessidade dos visitantes, em todas as situações.

A CASACOR São Paulo mais uma vez, lamenta o ocorrido, se coloca à disposição para prestar qualquer esclarecimento necessário e reforça que todos os visitantes se sentiram lesados, podem ter o ressarcimento do valor do ingresso ou retornar à CASACOR gratuitamente em data conveniente para experienciar a mostra, que preza pelos pilares de sustentabilidade e acessibilidade e inclusão”, diz a Casacor.

Zara criou código para ‘alertar’ entrada de negros em loja, diz polícia; empresa nega racismo

Loja em Fortaleza usava o código ‘Zara zerou’ para avisar sobre pessoas negras ou vestindo roupas simples, apontam investigações
Ideídes Guedes

Fachada de loja com o letreiro Zara
Entidades do movimento negro ingressaram na Justiça do Ceará contra a rede de lojas Zara, pedindo R$ 40 milhões de indenização por dano moral coletivo – Rodrigo Garrido/Reuters

FORTALEZA – Com um código anunciado por alto-falantes, a loja da Zara do shopping Iguatemi de Fortaleza avisava a seus funcionários sobre alguém suspeito na loja –o que incluía negros, segundo a Polícia Civil do Ceará.

A polícia chegou ao sistema durante as investigações sobre o caso envolvendo a delegada Ana Paula Barroso, que foi expulsa da loja na noite de 14 de setembro. Para a polícia, houve racismo. A rede de lojas nega.

Quando alguém tido como suspeito entrava na loja, o código “Zara zerou” era anunciado, que impactava na sequência do atendimento das pessoas que entravam na loja, segundo o delegado Sérgio Pereira, que investigou o caso.

“Quando a frase era anunciada no som da loja, a partir daquele momento, a pessoa não era mais tratada como cliente, mas como uma pessoa nociva ao atendimento normal. A partir dali, as pessoas estavam sob vigilância. Geralmente eram pessoas consideradas mal vestidas, dentro do padrão deles, ou pessoas de cor”, diz o delegado.

Esse tipo de tratamento da Zara já foi registrado diversas vezes, não só no Brasil, mas também fora do país, com pagamento de indenização, segundo Pereira.

As imagens do circuito interno mostram que Ana Paula entrou na Zara por volta das 21h do dia 14 de setembro tomando um sorvete. Durante todo o trajeto dela no estabelecimento, a delegada fez uso da máscara contra o coronavírus.

Em seguida, o gerente da unidade, o português Bruno Filipe Simões Antônio, foi ao encontro dela e, gesticulando, apontou para que ela se retirasse. No boletim de ocorrência que registrou, a delegada relata que questionou o funcionário se estava sendo barrada por estar comendo. Ele teria apenas repetido várias vezes que era uma determinação da segurança do shopping.

Em seguida, a delegada procurou a equipe de segurança do shopping e questionou se podia ter sido barrada por estar comendo, mas ouviu de três funcionários que não havia determinação nesse sentido.

“Isso ficou claro na oitiva das testemunhas: os seguranças apenas orientam a recolocar a máscara se não estiverem fazendo o consumo de alimentos. Quando veem, não abordam”, diz Manuela Lima, delegada da Mulher de Fortaleza.

Restaurante japonês Hoshinoya Tokyo instala câmaras iluminadas para ‘proteção’ contra a Covid-19

Ideia é que os clientes fiquem nas “lanternas” transparentes individuais enquanto jantam em grupo

Refeições e conversas acontecem dessa forma no espaço (Foto: Divulgação)

Um restaurante em Tóquio, no Japão, encontrou uma maneira de os clientes se sentirem protegidos da Covid-19 enquanto fazem suas refeições. No Hoshinoya Tokyo, foram instaladas câmaras transparentes individuais e iluminadas nas mesas, para que as pessoas possam se ver e conversar durante o jantar, minimizando o contato.

Batizadas de lanternas – por serem objetos atribuídos aos costumes e à cultura tradicional japonesa – as divisórias ficam suspensas individualmente sobre a cabeça das pessoas, permitindo que fiquem sem máscara tranquilamente, consigam ouvir o que é dito e ver as expressões dos demais.

Restaurante japonês instala câmaras iluminadas para proteção contra a Covid-19 (Foto: Divulgação)
Clientes se ajeitam dentro das câmaras suspensas (Foto: Divulgação)

Elas medem 75 cm de diâmetro e 102 cm de altura, com uma parte em vinil transparente de 0,15 mm de espessura e luz integrada para iluminar o rosto. Segundo o restautante, o jantar acontece em espaços de 40 m², e a ventilação da sala acontece cerca de 5 vezes por hora, bem acima dos padrões exigidos pela lei no país.

Restaurante japonês instala câmaras iluminadas para proteção contra a Covid-19 (Foto: Divulgação)
Menu custa cerca de R$ 1450 para grupos (Foto: Divulgação)

A experiência em grupo custa 30.000 ienes (cerca de R$ 1450 na cotação atual) ou 21.780 ienes (R$ 1055) por pessoa para o menu fixo “Cozinha Nipônica – Fermentação”. 

Mulher interage na exposição “O Mundo Segundo Mafalda” do cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado

Mulher interage na exposição “O Mundo Segundo Mafalda” do cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado (Quino) na cidade de Guadalajara. Foto: EFE / Francisco Guasco

Do Brás aos Jardins: a rotina de perrengues, looks e assédios das influenciadoras de moda autônomas

Por trás do glamour das redes sociais, modelos independentes fazem sozinhas o trabalho de uma agência inteira em um mercado popular que só cresce
João Ker, O Estado de S.Paulo

A modelo Natalia Fernanda, durante uma sessão de fotos no bairro Anália Franco
A modelo Natalia Fernanda, durante uma sessão de fotos no bairro Anália Franco, sendo fotografada pela fotógrafa Mafe Gutierrez  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Às 7h da manhã, Natalia Fernanda acorda em sua casa em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e começa a se maquiar. Em seguida, é hora de a jovem de 27 anos juntar malas de roupas, barraca dobrável, mochilas com acessórios e cruzar São Paulo até o Jardim Anália Franco, na zona leste, onde vai passar as quatro horas seguintes fotografando cerca de 30 looks nas calçadas do bairro nobre. Ela, assim como centenas de outras meninas que são influenciadoras de moda para marcas do Brás, encara uma rotina de perrengues que incluem a própria produção, assédio nas ruas e condições precárias de trabalho… dificuldades que se escondem por trás do glamour nas redes sociais.

“Sempre trabalhei sozinha. Dificilmente tem modelo no Brás com agência, a maioria das meninas é independente mesmo. Tento cronometrar minha semana, mas sempre muda de cabeça pra baixo porque as coleções têm um giro muito rápido”, conta Nati, nome artístico que exibe em seu perfil no Instagram, onde contabiliza mais de 147 mil seguidores. 

Faz três anos que a modelo começou a trabalhar com marcas do Brás, um dos maiores e principais pólos têxteis do País e da América Latina. Dos mil cartões que imprimiu quando decidiu ingressar na carreira, distribuiu mais de 500, indo de loja em loja, oferecendo diretamente o serviço para até cem lojistas por dia, todos organizados em uma planilha que ela montou. Logo, Nati começou a ser chamada para fazer o “presencial”, quando as meninas passam até sete horas “em cima do salto”, exibindo os looks ao longo do dia no próprio estabelecimento. 

“Quando comecei, não sabia de nada, não tinha uma visão”, conta Nati. Hoje, são os lojistas que a procuram, alguns clientes fiéis que a acompanham desde o início, entre marcas de beachwear, sportswear e festas. Hoje, ela cobra por hora o que recebia em um dia de “presencial”. 

O pagamento das modelos é feito com base em cada look que entregam. Para cada dia de externa, elas fotografam de 10 a 50 combinações de roupa. Menos que isso, dizem, não vale a pena o esforço. O preço da foto pode variar de R$ 30 a R$ 90, apesar de a média estar mais entre R$ 50 e R$ 70 para a maioria das meninas. 

O valor exato do trabalho é determinado pelo que elas “agregam” às imagens. Aí, entram fatores como a locação escolhida para o ensaio, a qualidade do equipamento do fotógrafo, número de seguidores das modelos e até os acessórios que acompanham as roupas – as influenciadoras “maiores”, por exemplo, mesclam as peças com cintos, bolsas,sapatos e óculos de maisons internacionais, como Prada, Gucci e Yves Saint Laurent.

Trabalho autônomo e autoestima

A grande maioria das influenciadoras de moda que trabalham com marcas do Brás precisam desempenhar mil e uma funções, quase como uma agência de uma pessoa só. São elas que buscam os fotógrafos, cuidam do próprio agenciamento, assessoria, relação com as marcas, cuidam do controle financeiro, da edição das imagens, do cabelo, da maquiagem e da produção dos looks. Ah, e são elas que decidem quais acessórios vão entrar na foto e passam as roupas que vão vestir para que a peça não apareça amarrotada.

Modelo Natalia Fernanda
A modelo Natalia Fernanda passa horas fotografando looks nas calçadas de bairros nobres Foto: Tiao Queiroz/Estadão

“Sempre quis fazer esse trabalho, mas não sabia o caminho. Coloquei meu material em agências, mandei fotos pras lojas, mas não sabia como esse mundo gira. Aí, uma amiga que trabalha com isso me deu o ‘caminho das pedras’”, conta Meire Vasconcellos. Aos 37 anos, a assistente social encara o trabalho de modelo plus size no Brás como um complemento da renda ao qual se dedica dois dias por semana desde novembro de 2020.  

Além do dinheiro, Meire explica que outro atrativo do trabalho é o impacto em sua autoestima. “Foi muito difícil me aceitar como gordinha, porque sempre quis ser magra. Comecei a tomar remédio para emagrecer aos 18 anos, já fiz dieta do chá e fiquei 20 dias sem comer sólido”, lembra. “Poder trabalhar, me ver bonita e mostrar que também posso me vestir bem, da forma como estou, agrega ao meu amor próprio.”

Ao contrário do que acontece nas maiores e principais grifes e passarelas de moda mainstream do Brasil e do mundo, o plus size é um nicho que cresce e avança a passos largos entre as marcas do Brás. Meire estima que pelo menos umas 4 mil lojas já se dediquem ao público e garante que só não faz mais fotos por falta de tempo. “Se eu trabalhasse só com isso, teria bastante campo.”

Conhecer o caminho das pedras

A demanda e oferta de modelos para marcas do Brás é tão grande que às vezes fica difícil conseguir um fotógrafo disponível para as “externas”. As meninas que se dedicam exclusivamente à função, costumam dividir os mesmos profissionais e vão juntas para as mesmas locações em calçadas, fachadas, estabelecimentos e shoppings de bairros nobres da capital paulista, principalmente nos Jardins, onde montam barracas improvisadas para se trocarem. Enquanto uma muda o look, a outra faz as fotos.

“A gente contrata o fotógrafo vendo o trabalho com outras meninas”, explica Meire. “São eles, fotógrafos, que sugerem os locais da rua, onde não tem confusão nem dá rolo. A gente vai na onda deles.” 

Modelo e influencers Natalia Fernanda
No Brás, o pagamento é feito por cada look que clicam e o dinheiro vem diretamente das modelos, não das marcas Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Um deles é Alexandre Danjó, que está desde o ano passado trabalhando nesse meio e entrou no mercado incentivado pela cunhada, que também é modelo do Brás e passou a ter dificuldade para achar profissionais disponíveis que pudessem acompanhá-la. Aos 44 anos, ele investiu: fez curso de fotografia, comprou equipamento e hoje conta que já trabalhou com mais de 30 meninas e faz até três sessões por semana, com duas ou três meninas por vez. A prioridade, agora, é sua mulher, que também acabou se tornando modelo plus size.

Na indústria tradicional da moda, os fotógrafos costumam receber o cachê por campanha ou diária, a depender do tamanho da grife e do profissional. Já no universo do Brás, o pagamento também é feito por cada look que clicam e o dinheiro vem diretamente das modelos, não das marcas. Danjó, que também tem um trabalho “oficial” na maioria dos dias, conta que consegue tirar até R$ 5 mil por mês com o bico.  

Outro diferencial é que, ao contrário das grifes grandes que também estão no Brás, a rotina das influenciadoras e dos fotógrafos que trabalham com marcas populares é totalmente imprevisível, graças ao grande fluxo de novas coleções que chegam às vezes duas ou três vezes por semana. Até no caso dos profissionais mais tradicionais que trabalham com agências e fazem sessões oficiais de catálogo em estúdio, o volume costuma ser de 18 campanhas por ano. 

“A campanha de Natal, por exemplo, já está clicada desde o mês passado. A do Dia das Crianças, fizemos em junho”, conta Mario Lopes, fotógrafo que trabalha com marcas maiores do Brás há três anos. Nesses casos, a equipe inteira conta com pelo menos 15 pessoas e pode chegar a 45, entre stylists, maquiadores, produtores, diretor criativo, assistentes de foto, vídeo e modelos.

“Como não tenho estúdio próprio, faço todas as fotos como externas. Inclusive, as lojas [populares] do Brás gostam desse tipo de foto e pedem que seja assim”, explica Danjó. A preferência por clicar essas imagens em bairros nobres como Jardins e Jardim Europa é por eles serem “mais elitizados” e, logo, com um “aspecto mais bonito”. 

Assédio acontece com frequência

Mesmo sabendo quais são os locais mais tranquilos para fotografar as externas, ocupar as calçadas da elite paulistana com barracas, araras, espelho e modelos é algo nem sempre bem-vindo pelos moradores e comerciantes. “Já fomos expulsos de algumas ruas, já jogaram água na gente, chamaram a polícia… Sem falar no pessoal que sai xingando, do nada”, conta Danjó. 

“Normalmente, dependendo da situação, a gente acaba até saindo para evitar problema, porque atrapalha e as modelos ficam desestabilizadas”, explica. “As pessoas às vezes não gostam das barraquinhas na calçada. Eu tento orientar as meninas que, se a pessoa chegar com educação, aí a gente tem que acatar e respeitar.”

Modelo Natalia Fernanda
Ocupar as calçadas da elite paulistana com barracas, araras, espelho e modelos é algo nem sempre bem-vindo pelos moradores e comerciantes Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Outro fator que costuma “desorientar” as modelos é o assédio que, mesmo nos bairros nobres, elas sofrem ao posar na rua. Na sessão externa que a reportagem acompanhou com Nati, a maioria dos motoristas que passavam por ela diminuíram a velocidade e fizeram sinais enquanto a modelo posava na fachada de um bistrô. As cantadas e as importunações seguiram no dia seguinte, quando ela foi devolver os looks no Brás.

Para Nati, esse nem é o pior dos problemas. “O pior perrengue? Pra mim, é segurar o xixi. Às vezes passo o dia todo sem fazer, mas prefiro esperar, porque fazer na rua não dá.” Mas tem gente que faz? “Já ouvi boatos que sim”, ri

Sobre os assédios, entretanto, ela conta que já aprendeu a lidar, mesmo que não devesse. “Isso acontece direto, tanto dos carros como de motoqueiros passando, pessoas a pé. Muitas vezes mexem, gritam e querem chamar atenção. Quando faltam muito com respeito, falam e vão embora, mas eu finjo que não ouvi porque não dá pra absorver tudo”, conta Nati. Hoje, a fotógrafa com quem ela mais trabalha é a própria namorada, a colombiana Mafê Gutierrez, de 21 anos. 

“Respeito muito ela, então preciso protegê-la e cuidar dela como mulher, mas como fotógrafa também. Não sou uma pessoa de procurar briga, então muitas vezes fico calado. Mas peço ‘por favor, respeita’. É o que merecemos, todos”, reclama Mafê. Nati conta que já orientou a namorada a não absorver os assédios: “Falei pra ela não se preocupar porque é normal, infelizmente. Se você for brigar com todo mundo, vai sair daqui sem voz.”

Nobel da Paz de 2021 vai para jornalistas Maria Ressa e Dmitri Muratov

Profissionais das Filipinas e da Rússia foram laureados pela defesa das liberdades de expressão e de imprensa

Rappler CEO and Executive Editor Maria Ressa is pictured in an event attended by law students at the University of the Philippines College of Law in Quezon City, Metro Manila, Philippines, March 12, 2019. Picture taken March 12, 2019. REUTERS/Eloisa Lopez ORG XMIT: HFS-GGGEAL08 E Russian investigative newspaper Novaya Gazeta's editor-in-chief Dmitry Muratov attends an interview with AFP in Moscow on March 24, 2021. (Photo by Natalia KOLESNIKOVA / AFP)
Maria Ressa e Dmitri Muratov, jornalistas vencedores do Nobel da Paz de 2021 – Eloisa Lopez/Reuters e Natalia Kolesnikova/AFP

Os jornalistas Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitri Muratov, da Rússia, ganharam o prêmio Nobel da Paz de 2021. O anúncio foi feito na manhã desta sexta-feira (8) pelo comitê norueguês do Nobel.

Ressa, 58, repórter filipino-americana, é editora do site de jornalismo investigativo Rappler e foi presa pelo governo de Rodrigo Duterte, em 2019, acusada de violar uma controversa legislação contra “difamação cibernética” devido a uma reportagem em que acusava um empresário filipino de atividades ilegais.

Já Muratov, 59, é cofundador e editor-chefe do Novaia Gazeta (novo jornal, em russo), um dos principais jornais de oposição ao governo de Vladimir Putin. O comitê norueguês descreveu o veículo como o mais independente da Rússia atualmente.

A escolha, justificou a porta-voz do comitê, Berit Reiss-Andersen, foi um aceno à defesa das liberdades de imprensa e de expressão, “pré-requisitos para sociedades democráticas e para a paz duradoura”.

“Esse prêmio não vai resolver os problemas que os jornalistas e a liberdade de expressão vêm enfrentando, mas joga luz sobre o trabalho da imprensa e o quão difícil é exercer a liberdade de expressão não apenas em regiões de conflito armado, mas em todo o mundo”, afirmou.

Ressa e Muratov foram escolhidos em um universo de 329 candidatos, que incluía 234 indivíduos e 95 organizações —o terceiro maior número de todos os tempos da láurea. Os demais nomes na lista só serão tornados públicos daqui a cinco décadas, seguindo as regras do prêmio.

A jornalista se tornou a 18ª mulher a receber o Nobel da Paz desde que a distinção começou a ser entregue, em 1901. Numa conta do Rappler nas redes sociais, Ressa disse esperar que o prêmio seja “um reconhecimento de como é difícil ser jornalista hoje” e que “dê energia para seguir na batalha pelos fatos”.

A batalha a qual se refere envolve a tentativa do governo filipino de calar as vozes do site que lidera. Ressa está proibida de sair do país, já foi presa duas vezes e pagou fiança outras sete. No episódio mais recente, foi julgada devido a um texto publicado em 2012 que liga um empresário a assassinato e tráfico de drogas, com base em informações de um relatório de inteligência repassado por fonte anônima.

Em 2018, ela foi escolhida pela revista Time como uma das Pessoas do Ano. Em comunicado, o comitê norueguês justificou a premiação do Nobel argumentando que o “Rappler concentrou a cobertura crítica na controversa e assassina campanha antidrogas do regime de Duterte“. Seguiu: “O número de mortes é tão alto que a campanha se assemelha a uma guerra contra a própria população do país”.

Ao responder perguntas de repórteres, a porta-voz do comitê aproveitou para lembrar e fazer coro às críticas de Maria Ressa ao uso de redes sociais, como o Facebook, para proliferar desinformação. “Temos mais imprensa e informação do que nunca, mas também temos o abuso e a manipulação da liberdade de expressão e do discurso público com as fake news”, disse Reiss-Andersen.

“A liberdade de expressão é cheia de paradoxos. Fake news também são violações da liberdade de expressão. Toda liberdade de expressão tem limites”, concluiu a norueguesa.

O parceiro de Ressa na premiação do Nobel da Paz, Dmitri Muratov, é conhecido por investigações sobre corrupção no governo russo e coberturas sobre o conflito na Ucrânia. Ele já perdeu seis colegas do jornal, mortos desde 2001, por sua profissão. Uma delas foi Anna Politkovskaia, morta a tiros no dia do aniversário de Putin em 2006.

“Apesar das mortes e ameaças, Muratov se recusou a abandonar a política independente do jornal”, destacou a porta-voz do comitê, Reiss-Andersen. “Ele sempre defendeu o direito dos jornalistas de escrever sobre o que quiserem, desde que cumpram os padrões profissionais e éticos do jornalismo.”

Segundo informações do Novaia Gazeta, jornal para o qual trabalha Muratov, o prêmio vem apenas um dia após expirar o prazo para que os suspeitos pelo assassinato de Anna Politkovskaya fossem indiciados. O editor dedicou a premiação aos colegas mortos e disse que pretende transferir parte do dinheiro do prêmio para uma fundação russa que ajuda crianças com doenças graves e raras.

Ainda que seja alvo de críticas de Dmitri Muratov, o Kremlin parabenizou o jornalista pela premiação. “Ele trabalha persistentemente de acordo com seus próprios ideais, é dedicado a eles, talentoso e corajoso”, afirmou o porta-voz Dmitri Peskov a repórteres pouco após o anúncio do comitê notureguês.

Muratov é o primeiro russo a ganhar o prêmio Nobel da Paz desde o ex-líder soviético Mikhail Gorbatchov, laureado em 1990 pelo papel de liderança desempenhado nas mudanças radicais nas relações Leste-Oeste. Gorbachov, aliás, ajudou a fundar o Novaia Gazeta em 1993, com parte do dinheiro que recebeu ao ganhar o prêmio.

A liberdade de expressão rondava os nomes cotados para ganhar o Nobel da Paz. A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF), fundada em 1985 e responsável por monitorar, em 130 países, as relações de chefes de governo com a imprensa local, era apontada como possível vencedora neste ano.

O ambiente para a imprensa livre, descrito pelo comitê norueguês como preocupante, vem sido cercado em diferentes países. De acordo com os dados mais recentes da RSF, 24 jornalistas foram mortos desde o início do ano. Outros 350 estão presos. Um dos mortos é das Filipinas, país de Maria Ressa: Renante “Rey” Cortes foi assassinado por assaltantes em julho após apresentar seu programa de rádio.

Há três meses, a organização lançou uma lista de “predadores da imprensa livre”, reunindo 37 chefes de Estado que asfixiam o ambiente da liberdade de imprensa. O presidente russo, Vladimir Putin, e o filipino, Rodrigo Duterte, integram a lista —bem como o brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido).

O prêmio é o primeiro para jornalistas desde que o alemão Carl von Ossietzky o recebeu, em 1935, por revelar o programa secreto de rearmamento de seu país no pós-guerra. Antes dele, dois jornalistas haviam sido laureados: o italiano Ernesto Teodoro Moneta, em 1907, por seu trabalho para um entendimento entre a França e a Itália, e o suíço Élie Ducommun, pela direção do Bureau da Paz.

O Nobel foi concedido pela primeira vez em 1901. Inicialmente, eram cinco categorias: paz, literatura, química, física e medicina. Uma sexta —economia— foi adicionada décadas mais tarde, em 1969. ​

Até a metade do século 20, os vencedores da categoria paz eram “políticos ativos que procuravam promover a paz internacional, a estabilidade e a justiça por meio da diplomacia e de acordos internacionais”. Desde o fim da Segunda Guerra, o prêmio passou a reconhecer esforços nas áreas de desarmamento, democracia e direitos humanos. Na virada para o século 21, o foco mudou para iniciativas que tentem limitar mudanças climáticas causadas pelo homem.

Há alguns anos, o Nobel da Paz vem recebendo críticas devido às suas escolhas. Em 2019, por exemplo, o laureado foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, contemplado por ter encerrado a guerra com a Eritreia —um ano depois, porém, ele liderou outro confronto no norte do país.

Durante a cerimônia de anúncio da premiação nesta sexta, a porta-voz do comitê norueguês, Berit Reiss-Andersen, foi questionada sobre a guerra travada pelo governo e por combates regionais da região do Tigré, mas disse que não comentaria premiações anteriores. Ainda assim, declarou que “a situação para a liberdade de expressão na Etiópia está muito longe do ideal e enfrentando severas restrições”.

Já em 2009, o ex-presidente dos EUA Barack Obama ainda estava em seu primeiro ano de mandato quando foi laureado. O próprio democrata disse não saber o motivo de ter sido agraciado. Mais recentemente, na quinta (7), Shimon Peres (1923-2016), um dos fundadores de Israel e Nobel da Paz em 1994, foi acusado de assédio sexual por uma ex-diplomata.

Entregue apenas a autores vivos, o prêmio nasceu para cumprir o testamento do químico Alfred Nobel. O curioso é que, em vida, o sueco ficou conhecido por ter inventado um artefato utilizado em guerras: a dinamite. Seu pai era dono de uma fábrica de explosivos em São Petersburgo, e foi lá que um jovem Nobel, com pouco mais de 15 anos, interessou-se pela nitroglicerina, elemento essencial do explosivo.

A descoberta não tinha o objetivo de ser usada em campos de batalha. A ideia inicial de Nobel era que o artefato lhe ajudasse em seu trabalho: como engenheiro, construía pontes e prédios em Estocolmo, e a dinamite poderia implodir pedras para tal fim. Ele patenteou a invenção nos EUA em 1867, quando tinha 34 anos. Nas décadas seguintes, fez disso um negócio lucrativo e no final da vida era dono de 355 patentes, boa parte delas relativas a novas descobertas feitas a partir da dinamite.

Pouco antes de morrer de hemorragia cerebral, aos 63, deixou em seu testamento que 94% de seus ativos deveriam ser destinados à criação de um fundo para premiar iniciativas que ajudassem a humanidade.

Com The New York Times e Reuters

Modelos contam perrengues de fotografar no Jardim Europa

Fachadas de mansões em SP viram cenário para campanhas de lojas
LEONARDO VOLPATO

A modelo Thais Cardoso, 35, usa seu carro como armário para fotografar em frente às mansões do Jardim Europa, em Sao Paulo Zanone Fraissat/Folhapress

O relógio marca 2h30 da manhã. Todos os dias, neste horário, a modelo plus size Andréia Cerqueira de Camargo, 38, se levanta e corre para as regiões do Brás e Bom Retiro, no centro de São Paulo. É lá que ela faz contato com lojistas e sai carregando 40, 70, 90 peças de roupas que serão fotografadas em seu corpo ao amanhecer.

Essa rotina, que a acompanha há dois anos, representa também o cotidiano de outras dezenas de modelos, que diariamente vão ao Jardim Europa, bairro nobre da zona oeste, para fotografar. Com imponentes mansões e casarões de belas fachadas, o local se mostrou ideal para o cenário das fotos, usadas pelas lojas populares em banners e sites e também disparadas para grupos em aplicativos como o WhatsApp. .

“Nós trabalhamos muito, mal durmo. Os clientes às vezes precisam das fotos de um dia para o outro. O Brás trabalha assim, a cada semana tem coleção nova e é preciso mostrar [as roupas] ao grande público”, conta Andréia.

Toda a parte burocrática, que envolve negociação de valores, fotografia e edição das imagens, é resolvida pela própria modelo. Formada em comércio exterior, Andréia encontrou nessa atividade seu melhor ganho financeiro até hoje.

A trajetória da modelo Paloma Sanchez, 29, é semelhante. Ela era lojista e comprava por atacado no Brás, mas viu a carreira tomar um rumo diferente dois anos atrás, quando outros lojistas a convidaram para fotografar suas peças. E a escolha do Jardim Europa como cenário, ela diz, se deve também a uma questão de segurança.

“Nos Jardins dá um cenário mais bonito, clean, com calçadas claras que beneficiam a fotografia, os looks aparecem mais. E também pela segurança dos equipamentos, pois é uma região com muitas cabines com vigias”, diz ela.

Mas quem fotografa na rua está sujeito a contratempos e perrengues. “Se começa a chover, preciso correr para dentro do carro. E quando eu quero fazer xixi, uso a própria barraquinha que armo para me vestir e um saquinho plástico”, conta Paloma.

A modelo Leticia Longati, 22, também frequenta as ruas do bairro há cerca de dois anos, sete dias por semana, para fazer fotos para campanhas e redes sociais. “Em média eu troco de roupas umas 40 vezes por dia na rua”, diz ela, que usa uma barraca que monta na traseira de seu carro para isso. Além do Jardim Europa, ela conta que já fotografou na rua Oscar Freire, pero dali, e no Jardim Anália Franco, na zona leste.

“Meu porta-malas vive cheio de roupas. Para ir ao banheiro, vou a um posto. Acabo perdendo tempo, tem trânsito. Já para comer é na rua mesmo ou por meio de aplicativos de comida. Mas confesso que, com a correria, muitos dias só vou me alimentar em casa.”

O fotógrafo Denis Carvalho e a modelo Paloma Sanchez fazem ensaio de moda no Jardim Europa – Rubens Cavallari/Folhapress

A rotina da modelo Thais Cardoso, 35, também é puxada. Ela conta que, desde 2019, costuma acordar às 5h30 para ter tempo de se produzir para os ensaios, que faz em frente às mansões dos Jardins. Antes disso, fotografava nas ruas de Santana, na zona norte. “Tomo banho, lavo o cabelo, coloco aplique, colo cílios, faço maquiagem. Saio de casa às 7h. Me encontro nos Jardins com o fotógrafo. Combinamos numa rua, tipo a Suécia, com casa bonita e portão branco. Se já tiver modelo [no lugar], então eu procuro outros locais.”

Thais conta que fica na rua até o sol ir embora e já chegou a fazer 100 trocas de roupa por dia. Mas admite que, quando são muitas peças, prefere fechar a locação de uma casa. Antes bancária, ela diz que conseguiu ver na nova profissão uma chance de ajudar a mãe, que está doente.

“Hoje eu ganho mais do que no antigo emprego e consigo ter mais flexibilidade, autonomia para ser dona de mim. Meu carro tem vidros escuros, me troco ali dentro, tem ar-condicionado para matar o calor.”

A modelo Simone Pizoni, 34, conhecida como Sisi, conta que há 16 anos faz campanhas para lojas de todo o Brás e também de Minas Gerais. “É quase de domingo a domingo. Todo santo dia estou fazendo fotos, gravando para as redes sociais. Dá uma grana legal. Paguei faculdade, inglês, meu casamento e reformei a casa”, comemora.

Requisitada por muitas marcas de lingerie e moda praia, Simone diz que, nesses casos, prefere fechar parcerias com hotéis que tenham piscina, para mostrar as peças com mais tranquilidade. Porém, segundo ela, nem tudo são flores.

“Se está chovendo, o cliente quer que você arrume um jeito de fazer a foto. Chego a dormir só duas horas por noite para poder me manter bonita, maquiada e produzida. Trabalho o dia todo”, afirma. “Todo mundo pensa que a minha vida é de estrela, mas ninguém imagina que eu tenho que buscar as roupas. E às vezes faço selfie na piscina, mas nem na piscina eu posso entrar.”

ASSÉDIO, DISCUSSÃO E CARA FEIA

Os olhares atravessados, o assédio e as discussões com a vizinhança são, definitivamente, os maiores problemas pelos quais passam as dezenas de modelos que diariamente disputam cada pedaço das calçadas do Jardim Europa para fotografar.

De acordo com a modelo Andréia Cerqueira de Camargo, muita gente na região já “perdeu a simpatia”. “Alguns moradores nos deixam fazer as fotos, mas a maioria passa filmando, anotando placa de carro, já até jogaram água. E não é errado usar a via pública. Nós não marcamos o número das casas [nas fotos], nem o endereço”, diz ela.

Leticia Longati, por sua vez, diz entender que os donos das casas se sintam frustrados, mas afirma que “educação gera educação”. Ela diz que, sempre que é solicitado que deixe o local, o faz rapidamente e sem reclamar.

O assédio é outro problema comum. “A gente que trabalha como modelo é muito julgada como garota de programa. Os homens passam na rua e temos de aguentar muitas asneiras, e as mulheres olham feio. Já saio de casa sabendo que vão mexer comigo”, diz Leticia.

Acostumada a frequentar o bairro pelo menos três vezes na semana, Thais Cardoso conta que uma vez viu baixar até polícia no local depois de uma moradora começar a filmar uma modelo. Mas depois tudo foi resolvido na base da conversa.

“Em outra ocasião eu estava fotografando de saia e passou um rapaz com um cachorro. Ele fingiu que estava tirando foto do animal, mas quis filmar embaixo da minha roupa”, recorda.

Justamente por causa desse desgaste com os moradores do Jardim Europa que a modelo Simone Pizoni resolveu deixar um pouco a região para fotografar em frente a estabelecimentos do Tatuapé e casarões do Anália Franco, ambos na zona leste, onde mora.

A modelo Simone Pizoni, 34, em ensaio perto de casarão no Anália Franco
A modelo Simone Pizoni, 34, em ensaio perto de casarão no Anália Franco – Divulgação

Mas onde quer que vá encontra dificuldades. “Já aconteceu de a dona de um estabelecimento querer chamar a polícia no Anália. Isso tira a gente do sério. A modelo sempre vai trabalhar pisando em ovos”, lamenta ela, que tira fotos ao ar livre desde 2016.

Não bastasse tudo isso, as modelos ainda presenciam acidentes. “Já vi um motoboy e um carro baterem por olharem para mim. Fiquei com dó”, diz Thais.

SONHO DA EMPRESA PRÓPRIA

Cientes de que talvez a rotina puxada de carregar o carro com dezenas de peças de roupas e partir para a calçada de mansões para trabalhar não dure para sempre, as modelos sonham com a possibilidade de, futuramente, abrir um negócio próprio.

“A beleza não dura para a eternidade. Daqui dez anos talvez eu já tenha filhos ou não tenha o mesmo corpo. Temos de ter um plano B. Já comecei a galgar esse plano”, revela Leticia Longati.

Ela conta que nunca foi de gastar muito e que, por isso, já tem cuidado de sua independência financeira. Também diz fazer contatos para futuras parcerias. “É o caminho que eu vou seguir. Eu mesma vou poder modelar para a minha própria grife.”

Ideia semelhante tem a modelo Thais Cardoso. “Daqui alguns anos, quero ter a minha marca, abrir um comércio e ter a minha própria grife. As vendas online têm crescido muito. Mas, por enquanto, faço trabalho de formiguinha.”

Quem está avançada nesse sonho é a modelo Paloma Sanchez. Empresária, ela conta que hoje tem o suporte de quatro funcionários, que a auxiliam nas parcerias com marcas.

“Minha equipe me ajuda a recolher e devolver os looks e conto com uma menina na administração dos orçamentos das campanhas. Nunca fiz nenhuma faculdade, tudo o que sei sobre marketing digital e empreendedorismo foi na raça, todos os dias.”

A modelo Paloma Sanchez troca par de brincos dentro do carro no Jardins – Rubens Cavallari/Folhapress

Após mais de um ano fechadas, boates de Berlim voltam com tudo

Por conta da pandemia do coronavírus, muitas casas noturnas ficaram fechados ou tiveram que se reorganizar para não falir, mas agora elas estão de portas abertas
Bryn Stole, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Público em fila na frente do KitKatClub na noite de reabertura da casa noturna em Berlim. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

BERLIM – As batidas estavam bombando dentro da boate Salon zur wilden Renate muito depois do amanhecer. Com centenas de frequentadores eufóricos e sem máscara amontoados na pista de dança, o único distanciamento social era criado em bolsões temporários pelo movimento rítmico da multidão. Depois de 18 meses de inatividade, o famoso clube hedonista de Berlim reabriu recentemente pela primeira vez desde o início da pandemia.

Não foi assim que a cidade havia planejado. No início do verão no hemisfério norte, o governo de Berlim financiou um estudo para avaliar se os testes de PCR de alta precisão poderiam manter os frequentadores das casas noturnas em segurança. O estudo envolveu cerca de duas mil pessoas, que puderam ir a seis casas noturnas ao longo de um fim de semana.

Mas, antes que os resultados fossem oficialmente divulgados, um tribunal local decidiu a favor de uma discoteca que havia recorrido da proibição da cidade de dançar em espaços fechados, praticamente forçando o Senado de Berlim a permitir a reabertura das casas noturnas. Aqueles que estejam totalmente vacinados ou que possam comprovar que se recuperaram da Covid-19 nos últimos seis meses podem entrar. O teste não é necessário para a entrada.PUBLICIDADE

Os cientistas alertaram que casas noturnas cheias de dançarinos suando e gritando por horas a fio são ambientes ideais para o coronavírus se espalhar. Alguns dos primeiros surtos documentados em Berlim em 2020 estavam relacionados a algumas boates da cidade. Mas, pelo menos por enquanto, a festa foi oficialmente retomada.

De volta às festas

As regras em torno da reabertura das casas noturnas europeias variam e continuam a mudar. A Itália e a França permitiram que as casas abrissem as portas aos vacinados. Até o fim de setembro, o Reino Unido estava para exigir que os frequentadores estejam vacinados.

Na Holanda, as casas noturnas foram brevemente autorizadas a abrir em junho, antes que um aumento no número de casos em todo o país – incluindo cerca de mil casos ligados a um evento de música eletrônica – levasse a um novo lockdown. Em partes da Espanha, as casas noturnas também foram abertas e, em seguida, fechadas.

Em Berlim, as filas do lado de fora de várias boates se estendiam pelo quarteirão e dobravam as esquinas. A espera para chegar até a entrada às vezes durava horas. “É como esperar na fila para andar de montanha-russa”, disse Joe Friedrich, de 21 anos, que viera da região de Hamburgo para comemorar seu aniversário, enquanto esperava com amigos na fila do lado de fora do Salon zur wilden Renate.

Em frente ao KitKatClub, local de fetiche e dança, uma barraca de doner kebab bem posicionada no meio da fila faturava vendendo bebidas para pessoas vestidas com couro, látex e malha. “É quase surreal. Eu me sinto como uma adolescente de novo, como se estivesse saindo pela primeira vez, sem saber o que esperar! As pessoas vão ser legais? Estou com a roupa certa? Tudo ficou parado por um ano e meio, por isso estamos tão prontos para festejar!” comentou Sanne van ‘t Walderveen, de 40 anos, que tinha vindo de Amsterdã com o namorado.

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A barraquinha de doner kebab fatura com o público em fila na frente do KitKatClub. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

No fim de cada fila, é claro, estavam os seguranças exigentes, notoriamente meticulosos e seletivos nos pontos mais procurados de Berlim. Mesmo depois de enfrentar a espera, muitas pessoas (incluindo este repórter) se viram barradas com um “desculpe”, um “não esta noite” ou um simples aceno de cabeça.

Muitas outras casas noturnas de Berlim – incluindo a icônica Berghain, localizada em uma extinta estação de energia da Alemanha Oriental – permanecem fechadas por enquanto. Algumas começaram a fazer reformas e ainda estão em obras, dificultando uma abertura abrupta. Outras não conseguiram encontrar DJs e funcionários no último minuto.

Também há preocupação na cena das casas noturnas em relação a quanto tempo a festa vai durar. Os casos estão aumentando em Berlim, à medida que a variante delta se espalha pela Alemanha, levando muitos a acreditar que as autoridades poderão fazer a música parar bruscamente. Isso deixaria os proprietários ainda mais endividados, depois de esforços dispendiosos para retomar as atividades.

Ao longo do último ano, as casas noturnas tentaram se reinventar, transformando pistas de dança fechadas em galerias e espaços de exposição. As instituições com espaços ao ar livre reabriram como cervejaria ou realizaram festas ao ar livre relativamente restritas – muitas vezes, com máscara, regras de distanciamento e assentos ou espaços designados – em vários momentos durante a pandemia. Diversas casas noturnas também se transformaram em centros de testagem para a Covid-19, usando bartenders e seguranças para colher as amostras.

Mas a sobrevivência da cena noturna de Berlim – que ganhou fama internacional na selvagem e descontraída década de 1990 em meio à liberdade, ao caos e à agitação depois da queda do Muro de Berlim – é importante para a cidade. Embora muitas casas noturnas locais sejam negócios com margem de lucro relativamente baixa, o setor atraiu cerca de três milhões de turistas para a cidade em 2018, injetando um bilhão e meio de euros na economia local, de acordo com a Comissão dos Clubes de Berlim, grupo comercial que representa o setor.

Seja por causa do respeito crescente por seu poderio econômico ou de seu lugar da cultura das casas noturnas na identidade da metrópole, a cena que já foi underground se tornou uma presença cada vez maior na política local. A Berghain ganhou reconhecimento legal oficial como um estabelecimentio cultural em 2016, o mesmo status desfrutado por museus, casas de ópera e outras instituições, o que traz incentivos fiscais e uma possível redução nas restrições de zoneamento e de ruído. Em maio, depois de uma longa campanha de lobby, os legisladores de Berlim votaram para estender essa designação à maioria das casas noturnas da cidade.

O apoio financeiro substancial dado pelo governo alemão deu fôlego às casas noturnas durante a pandemia (embora muitos proprietários tenham se queixado das disparidades nos subsídios). Os frequentadores mais fiéis também contribuíram com doações; algumas casas famosas, como a Watergate, arrecadaram mais de cem mil euros. Muitas boates também fizeram empréstimos.

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Uma fila para o Salon zur wilden Renate, um techno-clube na primeira noite em que os clubes reabriram em Berlim. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

Um possível plano B

No início de agosto, seis casas noturnas de Berlim embarcaram em um projeto piloto financiado pelo governo para ver se os testes de PCR de resposta rápida poderiam evitar que pessoas infectadas entrassem nas casas noturnas, oferecendo um caminho seguro para a reabertura. Os médicos do Charité, o famoso hospital universitário e de pesquisa de Berlim, concordaram em analisar os resultados. Dois mil frequentadores de casas noturnas compraram ingressos e correram para ser testados horas antes de entrar na pista de dança.

Uma rodada inicial de testes detectou sete infecções, enviando os aspirantes a dançarinos para o isolamento, e não para as boates. Todos os outros foram autorizados a se divertir nos locais combinados por duas noites seguidas e foram instruídos a comparecer cinco dias depois para realizar um teste de acompanhamento.

Esse estudo não foi revisado por pares, nem foi um ensaio clínico desenvolvido cientificamente, mas os resultados foram mais encorajadores do que a maioria esperava: nem uma única nova infecção foi descoberta entre cerca de 75% dos participantes que voltaram para a segunda rodada de testes.

O governo local de Berlim forneceu de bom grado os cerca de 40 mil euros necessários para cobrir os custos dos testes de PCR para o experimento, de acordo com Klaus Lederer, político do partido de esquerda Die Linke e atual ministro da cultura de Berlim, porque “a cultura das casas noturnas é uma parte da cultura de Berlim”. Falando com repórteres amontoados na entrada da boate Metropol para se proteger de uma chuva torrencial na primeira noite do projeto piloto, Lederer também observou que manter vivos as boates que estavam de portas fechadas custava caro aos contribuintes.

Frank Heppner, professor e pesquisador da Charité, que estava com Lederer, disse que os testes de PCR foram necessários para o estudo, porque os testes rápidos de antígeno “vazam e não são ideais”. “Você tem de usar a melhor e mais sensível ferramenta para filtrar possíveis casos positivos”.

O projeto piloto se baseou em outras experiências recentes na Alemanha, incluindo protocolos de teste em salas de concertos eruditos em Berlim, no início do ano, e um festival de música eletrônica promovido nos arredores da cidade durante o verão. “Depois desse longo período de bloqueio, sabemos que também precisamos levar em conta os graves efeitos colaterais na sociedade. Não podemos nos concentrar só no vírus e nas consequências diretas. Também precisamos considerar as consequências indiretas no âmbito social, no psicológico e no econômico”, acrescentou Heppner.

Por enquanto, o estudo das casas noturnas foi deixado de lado devido à reabertura forçada. Mas Lutz Leichsenring, porta-voz da Comissão dos Clubes, declarou que a estratégia de teste de PCR continua sendo uma opção melhor do que novas paralisações ou restrições mais rígidas, se as infecções aumentarem ao longo do segundo semestre.

As casas noturnas de Berlim contrataram laboratórios parceiros em agosto para oferecer testes PCR especiais de 15 euros – valor elevado numa cidade em que o preço da entrada raramente chega aos 20 euros, mas com resultados garantidos em quatro horas. “Outro lockdown seria o pior cenário, que acabaria com muitos empregos. Mas o estudo de testes de PCR de resposta rápida pode levar a alternativas para que possamos ao menos ter certeza de que as pessoas que vão às boates estão seguras”, afirmou Leichsenring.

Instalação “HÁ QUEM DIGA QUE É VERDADE” | Curadoria Felipe Morozini | ESTAR MÓVEIS NO DW! 2021

Para a 10ª edição do Design Weekend SP, a ESTAR MÓVEIS apresenta a instalação HÁ QUEM DIGA QUE É VERDADE, com direção de arte e curadoria assinadas por Felipe Morozini, de 04 a 09 de outubro (de segunda a sábado), na Alameda Gabriel Monteiro da Silva 1080.

Em uma experiência imersiva, Felipe Morozini propõe uma reflexão sensível e obrigatória sobre o nosso tempo e o mundo irreal das redes sociais, baseada no Mito da Caverna, metáfora criada pelo filósofo grego Platão, no século IV a.C., uma tentativa de explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos, aprisionados pelos sentidos e os preconceitos que impedem o conhecimento da verdade. Platão continua atual.

A instalação proporciona uma viagem ao interior da caverna, que se traduz por lar, o refúgio que traz conforto e protege. A caverna traz sombras e traz paz, à medida que as formas rígidas não são mais importantes. E, neste universo cavernal, lúdico, afetivo e amorfo, as pessoas criam suas próprias realidades.

Em uma geometria espacial, referente à realidade alienígena de outros planetas, superfícies brutas são aplicadas no espaço, nas artes e no design. Com provocações estéticas, questiona definições sobre o que é feio ou bonito.

A exposição dos produtos é potente, com trabalhos únicos feitos à mão, todos orgânicos. Participam do evento os criativos Humberto da Mata, Camila D’Anunziata, Cléo Döbberthin, Nicole Tomazi + Sergio Cabral, Ian Diesendruck, Silvia Jábali e Josephine Cho

SERVIÇO

ESTAR MÓVEIS NO DW! “HÁ QUEM DIGA QUE É VERDADE “

AL GABRIEL MONTEIRO DA SILVA 1080 | DE 04 DE A 09 DE OUTUBRO

DE 04 A 08 DE OUTUBRO, DAS 10h ÀS 19h

09 DE OUTUBRO, DAS 10h ÀS 16h


À frente da Estar Móveis, Edith Diesendruck e Raquel Fogelman comemoram 69 anos da marca. A Estar Móveis é uma empresa referência no mercado de mobiliário. Com essência contemporânea, os três endereços apresentam uma seleção descolada do design nacional. Produtos atemporais, com bom desenho e inventivos. A loja é concebida para ser um lugar de inspiração, informação e experimentação. É um laboratório de ideias e experiências, onde compartilhamos nossos valores.  Acreditamos no que fazemos, nossos móveis mostram quem somos. Os vendedores são capacitados e habilitados. Possuem uma intimidade com a coleção e provêm informações precisas dos produtos. A Estar Móveis possui um portfólio com mais de 10 mil itens selecionados que atendem às diversas necessidades e desejos. A ideia é que o cliente possa encontrar tudo em um só lugar.  

www.estarmoveis.com.br

@estarmoveis f Estar Móveis  Estar Móveis

Estar Conceito – Al. Gabriel Monteiro da Silva 1080, São Paulo SP – Tel. (11) 3081-9036

Matriz – Rua Jurubatuba 362, São Bernardo do Campo SP -Tel. (11) 4125-7743

Shopping de Móveis Moema – Av. Ibirapuera 3303, Loja 2 – São Paulo SP – Tel. (11) 5542-2494