A gerente do banco e um cobertor esquecido me fizeram conhecer meu marido

Fui a um ano inteiro de festas da Unicamp, mas nunca havia cruzado com ele antes da formatura
Nathalia Caballeira

O ano era 2014 e minha vida amorosa estava o caos que muitas mulheres vão se identificar: estava solteira há três anos, o rapaz que eu me interessava havia simplesmente sumido e me ignorado mesmo depois da minha insistência por respostas, me deixando em um completo vazio. Eu me sentia desinteressante, não desejada e nenhum site de aplicativos era capaz de me convencer de que criar um perfil online era o que eu precisava para conhecer alguém.

Eu buscava a espontaneidade da vida quando o assunto é relacionamento e qualquer mecanismo que ressoasse como um atalho ou uma tentativa arranjada de produzir encontros, eu recusava. Afinal, eu sou psicóloga clínica e seria uma incoerência trabalhar no terreno do encontro olho no olho, da empatia, da espontaneidade e fazer o oposto quando o assunto era a minha vida pessoal.

Pois bem, naquele 2014 confuso e sem respostas, um grande amigo, na tentativa de tirar este assunto do foco e me transportar para outras possibilidades, me convida para participar de um grupo do Whatsapp com ele e mais três meninos que eu não conhecia, pois eram seus colegas de faculdade. O que ele me diz é: “olha, só rola besteira, piada, palavrão… este é o objetivo do grupo e vai te permitir rir um pouco”. Só isso.

O que nenhum de nós imaginava é que nos daríamos tão bem. O que começa como uma conversa despretensiosa foi se tornando uma amizade. Os meninos, assim como meu amigo, faziam a faculdade de engenharia elétrica da Unicamp e eu, aproveitava as aulas do mestrado às quintas, fechava a agenda do consultório mais cedo na sexta e ia para Campinas estar na república, ir as festas e passar o fim de semana com eles.

Eu acabei saindo com algum deles? Não. Eu aproveitava essas festas para ficar com alguém? Não. Eu bebia, dançava, comia um brigadeiro de maconha ali, outro lá, e me divertia muito como uma boa jovem de 23 anos. Eu sentia que lá, com eles, tínhamos algo especial, sagrado, do terreno da amizade. E tudo aquilo já me fazia tão bem que eu não queria preencher com outra coisa.

Um ano depois, em fevereiro, os meninos me comunicam da festa de formatura deles e que, claro, eles gostariam muito que eu estivesse. Só que os ingressos de uma festa dessa são muito caros! Eu disse a eles que, naquele momento, eu não tinha dinheiro (sem pedir ajuda a meus pais) para dar algo entre R$ 400 e R$ 500 por uma noite, mas que tentaria dar um jeito.

Os dias foram passando, os meninos insistindo e eu querendo muito ir à festa. Até que chega o último dia da venda dos ingressos e eu sem nenhuma perspectiva de dinheiro. Um dos meninos me liga pela manhã e enfatiza que irá no fim do dia comprar ingressos e que, até lá, eu tinha que ter uma resposta final. Eu falei que se conseguisse o dinheiro, eu iria na festa de qualquer forma.

O telefone toca. É uma moça buscando uma analista e marca comigo a primeira entrevista para a semana seguinte. Viva! Consegui! Depois penso comigo: nananinanão. Você precisa do dinheiro hoje e esta pessoa não é sua paciente. É uma entrevista, daí vamos avaliar se vamos começar um processo, vamos falar do valor da consulta e mesmo que tudo isso aconteça, o pagamento será só no outro mês. Digo a mim mesma: “este dinheiro é a prazo – se vier – e eu só trabalho com à vista (ouviu bem, vida?). Eu só irei nesta festa com o dinheiro em mãos, hoje!”.

Depois do almoço, o celular toca e parece spam. Atendo. “Alô aqui é a gerente do Banco do Brasil…” E eu pensando: ai que inferno… Até que ela diz que o motivo da ligação é falar sobre a minha conta estudante. Eu demoro a entender qual é o objetivo da chamada e ela diz que minha conta estudante teria que ser fechada e eu teria que migrar para outra, blábláblá. Mas eu teria que decidir o destino do dinheiro que estava na conta corrente. DINHEIRO NA CONTA CORRENTE?! Que dinheiro na conta corrente?

Tinha me esquecido desta conta e do fato de, em 2009, ter feito uma iniciação científica e recebido uma bolsa do CNPq (por isso precisei abrir esta conta). Usei metade do dinheiro para comprar as “Obras completas” de C.G. Jung da Editora Vozes (minha inspiração até hoje). A outra metade estava lá, corrente, fluindo e, ao mesmo tempo, parada e esquecida no meu imaginário.

Uau! Quantas coincidências: a possível futura paciente e a funcionária do Banco do Brasil me ligam no dia que estava convicta de que sem o dinheiro em mãos não iria à festa. Liguei para meu amigo (sem dar detalhes da jornada) e pedi para ele comprar um ingresso para mim. Depois, toda vaidosa e me sentindo uma verdadeira psicóloga junguiana comecei a devanear se algo (ou alguém?) estaria me esperando nesta festa, já que parecia que era para eu estar lá de qualquer jeito.

O dia da festa chegou e eu fiz o que pude para deixar estes devaneios de lado. À noite, eu e meu amigo íamos nos arrumar e dormir em uma outra república, na qual eu não conhecia ninguém, por falta de espaço na que sempre ficávamos. Com todos se arrumando, chega um rapaz atrasado, e todos fazem pequenas piadas com ele que eu não entendo, sugerindo que ele tinha chegado de um encontro apenas a tempo de emendar com a festa. É um moreno bonito, o sorriso dele é lindo — sempre reparei em sorrisos — e eu nunca tinha cruzado com ele no ano inteiro em que fui às festas da Unicamp.

Diluí todas os meus devaneios anteriores à festa com álcool. Bebi, bebi mais, dancei, conversei com muita gente, mas, até aquele momento, não tinha beijado ninguém. Não vou negar que tinha um desejo de ficar com o rapaz moreno que tinha conhecido um pouco antes, mas nada acontecia… Até que, por volta das cinco da manhã, estamos numa roda conversando e o rapaz que tinha me interessado estava a dois passos de mim ficando com outra garota!

Disfarço meu descontentamento e a festa acaba pouco depois disso. Penso comigo como foi ingênuo da minha parte supor que algo “mágico” ia acontecer naquela festa. O que eu esperava? A festa foi ótima, me diverti muito e nada mais. E tudo aquilo que parecia que era para eu ir? Ora, desejo infantil meu de querer viver contos de fadas e achar que podia estar “interpretando” a vida falar comigo.

Volto no dia seguinte com ressaca para São Paulo, rindo um pouco de mim mesma e de todos os devaneios por onde esta história tinha me levado. Fim, era o que eu achava. Naquela semana, meu amigo me liga e diz que eu esqueci meu cobertor na casa em que tínhamos dormido – sou bem desligada mesmo. Mas ele só voltaria a Campinas dali algumas semanas, então, ele poderia pedir para um amigo que estava indo a São Paulo levar. “Claro, combinado. Dê meu telefone e agradeça a ele pela gentileza”.

Eis que quem me manda mensagem dizendo: “oi, você é a dona da coberta?”? O rapaz que eu tinha conhecido na festa! Agora tínhamos o telefone um do outro, estávamos sóbrios e a devolução da coberta foi o gatilho para a nossa aproximação. Nos casamos dia 30 de dezembro de 2020 depois de cinco anos juntos.

Gosto de pensar nesta história pois o que eu senti era legítimo, mas eu estava voltada para o grande evento, a festa de formatura, e o que muda nossas vidas é a coberta que só poderia estar lá se eu tivesse ido à festa. É interessante pensar como o invisível vai costurando nossas vidas e este foi o momento na minha que eu tive a chance de reconhecer isto. No final, a mágica estava lá; eu é que estava racionalizando e esvaziando-a. Que a vida de todos possa ter um vislumbre de alma e encantamento!

Há um mês, quando Folha e a Conspiração Filmes estavam definindo a ordem de publicação dos textos, esta história foi escolhida, por acaso, para ser publicada neste domingo (1º). Quando a autora foi avisada, ela contou que 1º de agosto de 2015 foi o dia em que ela pediu em namoro o rapaz citado neste relato. Exatos cinco anos depois, em 1º de agosto de 2020, ele a pediu em casamento.

França oferecerá até 1,5 mil euros para quem trocar carro por bicicleta

Medida anunciada pelo governo federal prevê também a possibilidade de um valor extra de mil euros para quem optar por uma bicicleta elétrica

Foto: Getty Images

Depois de meses de discussões no parlamento francês, finalmente foi definido o valor que poderá ser concedido para quem decidir trocar o carro por uma bicicleta na França. Será uma ajuda de custo de até 1,5 mil euros, que pode chegar a até 2,5 mil no caso de bicicletas elétricas.

O anúncio do governo de Emmanuel Macron chega uma semana depois do parlamento ter dado a sua aprovação final à lei sobre as alterações climáticas que, apesar das críticas dos ambientalistas que consideram que ela não vai suficientemente longe, contém medidas inovadoras como a proibição de voos quando existem alternativas de trajetos de trem com menos de duas horas e meia de duração.

“Para promover o uso da bicicleta elétrica como alternativa ao veículo individual e favorecer o movimento em direção ao transporte sustentável, principalmente em áreas urbanas e periferias, a Lei do Clima estende o prêmio para a conversão para compra de bicicleta de assistência elétrica ou uma bicicleta elétrica de carga em troca da entrega de um carro ou caminhão poluente para sucateamento”, explicaram em comunicado conjunto os responsáveis ​​pela Economia e Transporte do governo francês.Saiba maisA cidade-luz de quinze minutos

Segundo o jornal El País, embora a medida não estivesse no texto original do projeto de lei apresentado pelo governo, uma alteração foi votada por unanimidade na Assembleia Nacional em meados de abril e, na semana passada, todo o pacote foi aprovado.

O novo regulamento francês também proíbe a publicidade de combustíveis fósseis e, a partir de 2028, dos veículos mais poluentes. Também estabelece a proibição, a partir de 2025, de embalagens alimentícias de poliestireno de uso único e estabelece que até 2030 as lojas com mais de 400 metros quadrados terão que destinar pelo menos 20% das suas áreas de venda para produtos a granel. Fica proibido ainda, a partir de 2028, o aluguel de casas mal isoladas termicamente e, portanto, com altos custos de energia para aquecimento e resfriamento. [Um Só Planeta]

Apple Daily, jornal pró-democracia em Hong Kong, é forçado a fechar

China fez campanha de repressão que levou ao fechamento do jornal, e polícia prendeu um redator como parte de uma investigação com base na lei de segurança nacional
O Estado de S.Paulo

Apple Daily Hong Kong
Editor-executivo do Apple Daily, Lam Man-chug, revisa última edição impressa do jornal. Foto: Anthony Wallace/ AFP

HONG KONG – O Apple Daily, um jornal popular em Hong Kong, há muito tempo incomoda Pequim com seu apoio aos manifestantes pró-democracia, defesa de investigações agressivas de funcionários públicos e ridicularização da liderança do Partido Comunista Chinês. Agora a China silenciou efetivamente o jornal – e com ele, um de seus críticos mais desafiadores.

A direção do Apple Daily disse nesta quarta-feira, 23, que estava fechando, menos de uma semana depois de a polícia congelar suas contas, invadir seus escritórios e prender os editores do jornal, enquanto a escalada da campanha do governo chinês contra a dissidência agora ataca a liberdade de imprensa, antes intocável em Hong Kong.

O fechamento forçado do Apple Daily foi um golpe no caráter da ilha, disseram analistas. O jornal produziu ao longo do tempo uma série de reportagens sobre fofocas de celebridades e escândalos de integrantes do Partido Comunista, bem como notícias e análises políticas contundentes, sempre com uma inclinação decididamente antigovernamental e uma irreverência contra o Partido Comunista impensável no continente.

Mesmo diante de boicotes publicitários, ataques a jornalistas e ataques de bombas incendiárias, o jornal Apple Daily perseverou e prosperou, permanecendo como um dos jornais mais lidos em Hong Kong, uma prova viva das liberdades do território, apesar de seu retorno ao domínio chinês em 1997.

Quando os protestos antigovernamentais eclodiram em Hong Kong em 2019, representando o maior desafio político para Pequim em décadas, o Apple Daily apoiou abertamente o movimento, até imprimindo cartazes para os manifestantes.

Mas quando Pequim agiu para suprimir a resistência ao seu governo em Hong Kong com uma lei de segurança nacional abrangente, que impede qualquer tipo de manifestação anti-China, o espaço para a dissidência acabou. E o Apple Daily rapidamente se tornou um alvo-chave.

“O Apple Daily mostrou que temos uma sociedade vibrante, com liberdade de expressão e de imprensa”, disse Emily Lau, uma ex-legisladora pró-democracia. “Mas depois de amanhã, o Apple Daily não existirá mais. Isso mostra que quando o governo chinês decide agir, pode ser muito rápido e brutal”, disse Lau.

“Percebemos que a China está no controle. Na prática a soberania (de Hong Kong) é chinesa, por mais que países como Reino Unido e Estados Unidos contestem as ações”, explica ao Estadão o professor de relações internacionais da ESPM-SP Alexandre Uehara, especialista em Ásia.

Primeiro, as autoridades prenderam o fundador do jornal, Jimmy Lai, no ano passado, e o acusaram de crimes de segurança nacional que acarretam pena máxima de prisão perpétua. Enquanto estava detido, ele também foi condenado à prisão por 20 meses por “envolvimento em protestos ilegais”.

Hong Kong Jimmy Lai
Foto de arquivo mostra Jimmy Lai sendo levado por policiais em 12 de dezembro de 2020. Foto: Peter Parks/ AFP

Então, na última quinta-feira, centenas de policiais invadiram a redação do jornal, retirando computadores, congelando os ativos e prendendo editores e executivos de alto escalãoRyan Law, o editor-chefe, e Cheung Kim-hung, presidente-executivo da Next Digital, empresa controladora do jornal, foram acusados de “conspiração para cometer conluio com potências estrangeiras”, sob a lei de segurança, e sua fiança negada.

Nos dias após a invasão, cópias do Apple Daily foram compradas por leitores como Bobo Cheung, um supervisor de um pequeno restaurante que as exibia no parapeito da janela do bistrô e as distribuía aos clientes. “Não achei que o Apple Daily se tornaria uma fruta proibida”, disse Cheung. “Parece o fim de uma era.”

Nesta quarta-feira, a polícia prendeu um dos principais redatores do jornal, Yeung Ching-kee, que escreveu colunas e editoriais com o pseudônimo de Li Ping. Yeung manteve os ataques do jornal ao Partido Comunista Chinês após a prisão de Lai em agosto. O partido e seus aliados em Hong Kong “decidiram estrangular o Apple Daily, para matar a liberdade de imprensa e de expressão de Hong Kong”, escreveu Yeung.

Cheung Kim-hung Next Digital Apple Daily
Cheung Kim-hung, CEO e diretor executivo do Next Digital, é levado por policiais. Foto de 17 de junho de 2021. Foto: AP Photo/Kin Cheung

“Mesmo quando o mundo democrático aumenta as ações e sanções, eles apenas intensificam a repressão e as acusações contra o Apple Daily, na esperança de que sucumbam à pressão e se rendam ou parem de publicar”, escreveu ele.

Para Uehara, a tendência é que a pressão do governo chinês aumente. “Dois fatores levam a isso: o peso econômico de Hong Kong para a China hoje é muito menor do que era no passado. Se antes Pequim agia com mais timidez e comedida, agora não será mais assim. Além disso, a China é a segunda maior economia do mundo e é mais importante para os outros países do que era no passado.”

O jornal e seu fundador

A identidade do Apple Daily reflete a de seu fundador, Jimmy Lai, que fugiu da China continental para Hong Kong ainda criança, e passou de um trabalhador de fábrica para se tornar um magnata do ramo de vestuário. Ele começou a ajudar a publicação após a repressão sangrenta da China aos protestos pró-democracia em torno da Praça Tiananmen em Pequim em 1989. Como Lai, seu jornal fragmentado, que ele fundou em 1995, tinha a fixação de apoiar a democracia e atacar o Partido Comunista Chinês.

“Eu acredito na mídia. Ao entregar informações, você está realmente entregando a liberdade”, disse ele ao The New York Times no ano passado.

Lai irritou Pequim logo de cara, chamando Li Peng, o oficial chinês que ordenou a repressão em 1989, de “filho de uma tartaruga”. Depois disso, Pequim ameaçou bloquear sua empresa de roupas, a Giordano, de continuar a operar na China continental. Forçado a escolher entre roupas e a mídia, ele vendeu suas ações da Giordano em 1996 para se concentrar no negócio de notícias.

Apple Daily
Funcionários trabalham na da última edição impressa do Apple Daily. Foto: EFE/EPA/APPLE DAILY

As publicações de Lai combinaram com sua obstinação, sempre perseguindo fofocas e escândalos políticos com igual entusiasmo. O jornal costumava publicar imagens picantes de estrelas e notícias de infidelidade de celebridades. Em seus primeiros anos, publicou até colunas sobre pornografia e críticas de bordéis, e os leitores reclamaram quando esse tipo de “resenha” foi reduzida.

Mas junto com o infotenimento escandaloso, o Apple Daily também investigou a corrupção local, expondo como vários funcionários de Hong Kong construíram extensões ilegais de suas casas. Ele regularmente investigava questões sociais, como a vasta desigualdade na cidade. O jornal teve um papel ativo na política local, convocando os leitores a tomarem as ruas em manifestações e até mesmo imprimindo cartazes para carregar.

A campanha do jornal rendeu a ele muitos críticos, entre eles Regina Ip, uma legisladora pró-Pequim, cujos esforços como funcionária em 2003 para aprovar uma lei de segurança local foram em parte prejudicados pela resistência pública que o jornal havia abertamente ventilado.

“O Apple Daily causou grandes danos ao ambiente da mídia”, disse Ip. “Foi processado por muitas pessoas por difamação, publicou histórias falsas e campanhas maliciosas contra pessoas de quem não gostam.”

Apple Daily
Funcionários do Apple Daily acendem celulares da varanda da redação em protesto pelo fim da edição impressa do jornal. Foto: Anthony Wallace/ AFP

Lai, o fundador, nunca se desculpou pela mistura de conteúdo espalhafatoso e nobre, comparando o Apple Daily a uma linha de roupas com muitas cores e estilos para atrair seus clientes.

Posição mais dura

Conforme a posição da China em relação às liberdades de Hong Kong endureceu no ano passado, Lai antecipou que os dias de seu jornal estavam contados. Em um ensaio ao The New York Times, em maio do ano passado, ele escreveu que há muito temia que o Partido Comunista “se cansasse não apenas da imprensa livre de Hong Kong, mas também de seu povo livre”.

Nos meses desde a prisão de Lai no ano passado, muitos repórteres do jornal sentiram um senso maior de urgência para encontrar histórias importantes. “Não queremos esperar e morrer”, disse Norman Choy, editor de reportagens. “Então, trabalhamos ainda mais para explorar mais notícias, mais histórias, cavando cada vez mais fundo.”

Apple Daily Hong Kong
Foto de arquivo mostra impressão do Apple Daily, em 11 de maio de 2021; última edição impressa circulou nesta quarta-feira, 23. Foto: Peter Parks/ AFP

Mas ele disse que os editores também tentaram ser mais cautelosos: o jornal parou de se referir ao novo coronavírus como o “vírus Wuhan” e evitou relatórios que abordassem sanções a Hong Kong e à China.

A pressão sobre a mídia vem crescendo há meses, à medida que as autoridades agiram para reformar uma emissora pública e alertaram os jornalistas contra a divulgação de “notícias falsas”.

Nesta quarta-feira, foi aberto o primeiro julgamento sob a lei de segurança nacional, um caso que vai indicar até que ponto a lei vai seguir a linha de criminalização do discurso político. “Vamos ver qual será o resultado desse julgamento. Pequim tende a usar o caso como exemplar para evitar novas mobilizações em Hong Kong, por isso deve ter mão de ferro no julgamento”, diz o professor Uehara.

Apple Daily Hong Kong
Equipe revisa última edição do Apple Daily. Foto: REUTERS/Lam Yik

Com o fechamento do jornal, repórteres da equipe do Apple Daily, com cerca de 700 pessoas, se reuniram, chorando, e discutiram se deveriam sair mais cedo para limitar o risco de prisão ou ficar até o fim.

No ônibus da empresa que os levou de uma estação de metrô para a redação, alguns brincaram que parecia que estavam indo para um funeral. Uma repórter começou a escrever uma carta para seus pais detalhando o que eles deveriam fazer se ela fosse presa. Vários trabalharam no que chamam de “questão do obituário”, a impressão final a ser lançada na quinta-feira.

Na redação na segunda-feira, Marco Cheung, um repórter de vídeo sênior, considerou suas opções com os membros de sua equipe. A polícia confiscou os seus discos rígidos durante a operação e eles estavam preocupados em serem presos. Os editores da equipe esperavam reunir alguns destaques do trabalho que a seção havia produzido, mas não tiveram tempo para concluí-lo.

Apple Daily Hong Kong
Recortes de jornais exibidos na redação do jornal de Hong Kong. Foto: EFE/EPA/APPLE DAILY

Uma grande faixa vermelha com as palavras: “Colegas, vocês trabalharam muito!” estava pendurada na redação. Enquanto Cheung e outros colegas se reuniam no escritório para assistir à transmissão do episódio final de um programa do jornal que recapitulava as notícias do dia, alguns choraram; outros se abraçaram. “O caminho pela frente será difícil”, disse o apresentador do programa. “Desejamos paz a todos”.

Empacotando as coisas em sua mesa, Cheung notou uma história de primeira página da edição do jornal de 4 de junho de 1999, marcando o 10º aniversário do massacre de Tiananmen, colada na divisória de vidro. Cuidadosamente, ele o tirou e deu a um colega.

“A sociedade está mudando muito rápido ou somos nós que não conseguimos acompanhar?”, Cheung disse mais tarde em uma entrevista. “Talvez estejamos acostumados a uma sociedade com liberdade de expressão e ainda não nos adaptamos. Ainda não aprendemos como devemos sobreviver, se quisermos ficar em Hong Kong como jornalistas”.

“A população de Hong Kong vive há muito tempo sob essa liberdade de expressão, política e econômica. Para essa população, não será tão fácil aceitar essas medidas (de Pequim) e pode haver o retorno das manifestações”, explica Uehara, lembrando que os movimentos civis perderam força com a chegada da pandemia da covid-19 e acrescentando que existe a possibilidade de novos protestos acabarem de forma violenta. “Precisamos lembrar que a independência (de Hong Kong) é impensável para Pequim, não é factível pensar que a China deixaria que manifestações acontecessem sem que ela tivesse o controle”. / NYT, Colaborou Fernanda Simas

Quebrando o teto de vidro das oficinas mecânicas

As mulheres são minorias na indústria automotiva, mas uma pioneira, que morreu em 2019, continua inspirando outras a perseguirem os seus sonhos e a se incentivarem
Mercedes Lilienthal, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

Jessi Combs (dir.) dando instrução especializada durante uma oficina de solda no programa Real Deal Revolution. Foto: Sam Bendall via The New York Times

Uma das missões de Jessi Combs em vida era ajudar as mulheres a perseguirem os seus sonhos na indústria automotiva. Talentosa soldadora, construtora, corredora off-road e personalidade da TV, Jessi também sonhava com a velocidade. A velocidade de verdade.

Há quase dois anos ela estabeleceu o recorde de velocidade para mulheres em terra, 841.337 km/h, em um leito de lago seco no Oregon. Mas o seu carro a jato bateu durante a façanha, matando-a. Ela tinha 39 anos.

Jessi  foi uma “deusa pioneira”, segundo Sana Anderson, que lutou contra os estereótipos e os céticos a vida toda para perseguir o seu sonho, trabalhar como técnica de diesel em caminhões pesados e trailers.

Jessi era uma heroína para Sana e para inúmeras outras mulheres.

“Ela se encaixava de maneira tão natural nos negócios – como deveria ser”, acrescentou Sana, 27, que mora em Beach Park, Illinois, ao norte de Chicago. “Ela experimentou muitas coisas diferentes, tinha várias habilidades. Não é isso que queremos na nossa juventude?”

Heather Holler só tinha olhos para o futebol semiprofissional, sonho interrompido por uma cirurgia. Quando competiu em um evento de autocross pela primeira vez, em 2009, todo um novo mundo se abriu para ela. Ela superou o próprio namorado da época, e “vendi meu SUV duas semanas depois e comprei o meu carro”.

Heather Holler, nativa de Nevada, atualmente residindo na Alemanha, acrescentou: “Mas como não sabia nada a respeito de carros, comprei um com o motor estourado”. Para aprender a consertá-lo, frequentou o Instituto Técnico Universal em Sacramento, Califórnia. Ela via Jessi Combs no programa de TV Xtreme 4X4 todas as manhãs, antes de trabalhar.

“Aprendi, em primeiro lugar, quem era Jessi quando comecei a trabalhar com automóveis”, contou.

Depois de formar-se, em 2012,  Heather tornou-se uma mecânica em tempo integral para a Subar Motorsports USA. Entre os eventos, ajudou a construir um carro de rally para Bucky Lasek, um dos maiores competidores. Ela também era mecânica de destaque da DirtFish Rally School e em 2021 tornou-se mecânica da equipe de testes da Hyundai Motorsport GmbH World Rally Championship na Alemanha.

Eliza Leon, concierge especialista no Leilão de Carros de Manheim, em El Paso, Texas, vem de uma longa linha de trsbalhadores da área. Seu pai era mecânico de diesel para equipamentos pesados e de máquinas de terraplenagem. Seu avô materno e tios também eram mecânicos de diesel entusiastas de veículos com tração nas 4 rodas. Eliza cresceu no Texas “ajudando o avô e os tios com seus caminhões off-road de grande porte e semi-reboques”, contou.

Jessi “era tudo o que eu queria ser ao crescer”, disse Eliza. “Era inteligente, experiente, instruída no campo automotivo, uma construtora talentosa, trabalhadora incansável e atraente”.

Em 2002, Eliza tinha 17 anos quando concluiu os cursos de tecnologia de automóveis no secundário. Sua melhor amiga falou para ela a respeito de Jessi, que estreara no Xtreme 4X4 em 2001.

Pouco mais de dez anos depois, em 2014, Eliza conheceu sua mentora na televisão, no Programa da Specialty Equipment Market Association, em Las Vegas, mais conhecida como SEMA.

“Ela era tudo o que eu esperava que seria: graciosa, amável, carinhosa e autenticamente interessada no que eu tinha a dizer”, contou.

Elas entraram em contato cinco anos mais tarde via Instagram e pelo telefone. “Sua ética de trabalho, seu entusiamo, o seu amor pelos negócios não tinham iguais”, disse Eliza. “Ela mudou a indústria para melhor, e, mais do que isso, inspirou muitas outras a continuar o seu trabalho. Este é um testemunho vivo do que ela defendia”.

Durante os seus 14 anos de carreira, Eliza foi técnica, redatora de serviços de compras, avaliadora de danos automotivos, construtora de automóveis off-road, produtora e personalidade de TV, em Xtreme Off-Road.

“Quanto mais você trabalha em veículos, mais você aprende”, afirmava. “A tecnologia evolui continuamente, é uma sala de aulas sem fim”.

E assim o legado dos Combs continua vivo, em mulheres como Eliza, Heather e Sana e em organizações como a Real Deal Revolution e a Fundação Jessi Combs.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Heather Holler ajudou a construir um carro de rali para um piloto.  Foto: Subaru Motorsports USA via The New York Times

Além da árvore genealógica automotiva da família Combs, há uma variedade de programas, grupos comerciais e páginas de redes sociais que apoiam mulheres que seguem suas carreiras no setor automotivo, desde a solda, até o trabalho com a chave inglesa, a fabricação e a pintura.

Sana, americana de primeira geração, filha de mãe polonesa e pai paquistanês, se dedica a inspirar outras mulheres. Ela logo oferece assessoria sobre os “altos e baixos” com que uma mulher se defronta na indústria. “Todos os momentos de dificuldades valem e valerão o esforço”, ela disse.

Embora tenha frequentado a escola, ela diz que a experiência direta é o melhor professor. “O meu maior aprendizado foi no tempo em que fiquei na oficina”.

Todas as mulheres falaram que é necessário ter uma casca grossa e conseguir adaptar-se a situações difíceis, que infelizmente não são raras, como aliás em qualquer outro local de trabalho.

Segundo uma pesquisa da Deloitte e a Automotive News, as mulheres constituem apenas 25% da mão de obra da indústria automotiva. Esse campo também é essencialmente branco, segundo estatísticas federais. Na área de reparos e manutenção automotiva, a participação das mulheres em 1 milhão aproximadamente de trabalhadores, nem mesmo chega a 10%.

Eliza descobriu que se ela se armasse de um curso e de mais credenciais, ela poderia se impor. As brincadeiras parariam quando ela perguntasse aos infratores se falariam coisas discriminadoras aos seus colegas homens ou se tolerariam abusos com suas filhas, mães e esposas. Preservando-se cuidadosamente em situações difíceis, confiando no seu trabalho e “procurando a oficina que desestimulará os praticantes de bullying,” ela disse, dará às mulheres confiança em suas carreiras.

Para Sana, “o maior desafio vem de você mesma”, afirmou. “Houve tantas oportunidades que deixei passar quando era mais jovem porque não tive o suporte devido”. Cada erro que ela cometia era exagerado pelo fato dela ser mulher. “Não quero desestimular ninguém – principalmente as moças”.

A ajuda informal que as mulheres oferecem entre si é inspiradora, mas há também bolsas de estudos nesse campo. A Jessi Combs Foundation concedeu recentemente um total de US$ 30 mil a sete mulheres, entre elas Sana e Heather.

Todos os anos, a SEMA Businesswoman’s Network concede uma bolsa da Jessi Combs Rising Star a uma jovem com menos de 30 anos. O grupo também hospeda seminários on-line que se destinam a todos os níveis de mulheres na indústria, e disponibiliza recursos por meio da sua rede social e do seu site.

Eventos e oficinas para mulheres na indústria são realizados durante o ano todo. A Real Deal Revolution ensina a mulheres e moças ofícios próprios da indústria automotiva, como solda e desenho automotivo. Fundada por Jessi Combs e Theresa Contreras (presidente, designer e pintora de desenhos personalizados da LGE-CTS Motorsports), esta organização sem fins lucrativos  proporciona treinamento para ajudar as mulheres a ganharem confiança.

As mulheres deste setor costumam ser generosas com os conselhos. Sarah Lateiner do programa All Girls Garage da Motor Trend atua nas redes sociais. No Instagram, sua página Bogi’s Garage hospeda semanalmente ‘happy hours’ com entrevistas de mulheres de toda a indústria.

As mulheres inspiradas por Jessi Combs não gostariam de nenhuma outra carreira, mas elas têm consciência dos obstáculos que as mulheres enfrentam. “O conhecimento é a sua base, as credenciais são sua armadura e a sua força”, disse Eliza. “ É o que as conduz através da luta, e vale muito a pena”.

Heather deu este aviso: “Às vezes, você ficará apavorada. Às vezes, ficará sem graça. Desconfortável. Vá aprender. Não tenha medo de dizer a alguém que você não sabe algo. Aceite o fato de que você é humana. Aprenda com os seus próprios erros. Ah, e se tiver de pedir emprestada uma ferramenta mais de duas vezes, trate de comprar uma”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Padaria dos EUA recebe apoio e doações após sofrer ataques homofóbicos por biscoitos coloridos

Estabelecimento fez postagem celebrando o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e foi atacado. Como resposta, pessoas fizeram filas e esgotaram os produtos
Por Matheus Fiore

Uma padaria no Texas está sendo inundada por encomendas, doações e mensagens de apoio após sofrer ataques homofóbicos. Tudo começou quando a Confections fez uma postagem para celebrar o Mês do Orgulho LGBTQIA+ com imagens de biscoitos em formato de coração e coloridos com as cores do arco-íris. Logo em seguida, a padaria sofreu diversos comentários com discurso de ódio.

No dia seguinte da postagem, a padaria já havia perdido um grande número de seguidores por causa de seus biscoitos, além de ter recebido diversas mensagens agressivas e até cancelamento de pedidos em virtude de seu apoio à causa LGBTQIA+.

Como resposta, a Confections disponibilizou os biscoitos coloridos por apenas US$ 3 e disse esperar que os próximos dias fossem mais alegres. A página da empresa no Facebook, então, se tornou viral e ganhou 2.500 novos seguidores. A página ainda recebeu milhares de comentários apoiando seu trabalho e mensagens de pessoas de todo o mundo.

Facebook/Confections

O apoio não ficou só na internet. No dia seguinte, a loja teve uma enorme fila de clientes em sua porta, e vendeu todos os seus produtos ainda ao meio-dia. No dia seguinte, as prateleiras foram esvaziadas rapidamente também. Ao esgotar os produtos da loja, os clientes ainda começaram a doar dinheiro para apoiar o estabelecimento.

“Nós ficamos impressionados com as doces palavras de apoio enviadas por vocês”, disse a empresa em uma postagem. “Há tanto apoio que vai demorar um pouco para que possamos responder todos. Lágrimas de alegria correram por meu rosto enquanto eu os lia”, completou. Como noticiou o NPR, as mensagens vieram de vários estados americanos, mas também de outros países, como Reino Unido, Canadá e Brasil (que possui uma das maiores comunidades LGTBQIA+ do mundo).

Freira Theresa Aletheia Noble deseja lembrar que você um dia morrerá

Sofrimento e morte são eventos da vida: ‘Todos morrem, seu corpo apodrece e cada rosto se transforma numa caveira’
Ruth Graham / The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

Irmã Theresa Aletheia Noble segura uma pequena escultura de uma caveira no convento das Filhas de São Paulo em Boston.  Foto: Tony Luong/The New York Times

BOSTON – Antes de entrar para o convento Filhas de São Paulo, em 2010, a irmã Theresa Aletheia Noble leu uma biografia do fundador da ordem, um padre italiano nascido na Itália nos anos 1880. Ele mantinha uma caveira de cerâmica na sua escrivaninha como um lembrete da inevitabilidade da morte. Aletheia, que quando adolescente era fã de punk, achou que o mórbido objeto era “super punk rock”, lembrou ela recentemente. E pensou vagamente em adquirir também uma caveira para ela.

Hoje, ela não tem escassez de caveiras. As pessoas enviam canecas e rosários de caveiras por e-mail, compartilham fotos das suas tatuagens de caveiras. Um crânio de cerâmica de uma loja de artigos de Halloween está na sua escrivaninha. Seu nome no Twitter inclui um emoji com uma caveira e ossos cruzados, como uma bandeira pirata.

Isso porque desde 2017 ela assumiu como missão reviver a prática do memento mori, frase latina que significa “lembre-se da sua morte”. O conceito é refletir intencionalmente sobre sua própria morte todos dias como uma maneira de valorizar o presente e focar no futuro. O que parece radical numa era em que a morte – até muito recentemente – era um fato fácil de ignorar.

“Minha vida vai ter um fim e tenho um tempo limitado”, disse ela. “Naturalmente, nossa tendência é pensar nas nossas vidas como de eterna continuidade”.

Aletheia rejeita qualquer sugestão de que a prática seria algo mórbido. Sofrimento e morte são eventos da vida: focar somente no que é “belo e brilhante” é superficial e nada autêntico. “Procuramos reprimir a ideia da morte ou fugir dela porque achamos que assim encontraremos a felicidade”, afirma ela. “Mas, na verdade, é enfrentando as realidades mais sombrias da vida que vamos encontrar luz nelas”.

A prática de meditar regularmente sobre a morte é venerável. São Bento instruiu seus monges, no século seis, a “terem a morte diariamente diante dos seus olhos”. Para cristãos como Aletheia, a promessa de uma vida melhor após a morte é algo inescapável. Mas a prática não é somente cristã. A consciência da morte é uma tradição no Budismo, e Sócrates e Sêneca foram alguns dos primeiros pensadores que recomendavam a “prática” da morte como uma maneira de cultivar o significado das coisas e foco. Caveiras, relógios e alimentos em decomposição são temas recorrentes na história da arte.

Durante quase todo o tempo de existência da humanidade, as pessoas morreram em idade mais jovem do que hoje, com mais frequência em casa e havia menos controle médico dos seus dias finais. “Para nós, a morte é exótica”, disse Joanna Ebenstein, fundadora da Morbid Anatomy, uma empresa do Brooklyn que oferece eventos e livros focados na morte, arte e cultura. “Mas isso é um luxo particular para nosso tempo e lugar”.

A pandemia, naturalmente, tornou impossível esquecer a morte. Desde o ano passado, Ebenstein realiza uma série de aulas memento mori on-line, em que os alunos exploram a história global das representações da morte e depois criam a sua própria. Os projetos finais incluíram um caixão miniatura, uma série de cartas a serem entregues post-mortem e um baralho de cartas de tarô compostas de fotos tiradas por um marido que morreu recentemente. “Pela primeira vez em minha vida, este é um tema não só interessante para um grupo de descolados. A morte é de fato relevante”, disse ela.

As Irmãs de São Paulo, ordem da freira Aletheia, foi fundada no início do século 20 com o fim de usar “os meios mais modernos e eficazes da mídia”, para pregar a mensagem de Cristo. Há um século, isso significava publicar livros, o que a ordem ainda faz. Mas hoje “recursos modernos e eficazes” significam algo mais e muitas das freiras são ativas nas redes sociais, onde usam variações da hashtag #MediaNuns.

Em dezembro, a irmã Aletheia apareceu num vídeo no TikTok criado pela ordem, que apresentava competições católicas irreverentes como a oração da noite versus a oração da manhã e São Pedro versus São Paulo. O vídeo chamado registrou mais de 4,4 milhões de visualizações.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Irmã Theresa Aletheia Noble na capela funerária do convento das Filhas de São Paulo em Boston.  Foto: Tony Luong/The New York Times

Quando adolescente em Tulsa, Oklahoma, Aletheia, agora com 40 anos, ouvia os Dead Kennedys e assistia a shows locais de punk com as amigas. Seus pais eram católicos devotos; seu pai era doutor em teologia e trabalhou numa diocese católica local por um tempo. Mas ela era uma garota descrente e se declarava ateia quando adolescente, não se submetendo ao processo formal de ingressar na igreja.

No Bryn Mawr College, foi líder de um clube de defesa dos direitos dos animais. Mas disse que ficou chocada ao conhecer os argumentos do movimento contra o “especismo”. Pareceu a ela que havia uma diferença real, difícil de definir, entre os humanos e os outros animais. Mas “como ateia materialista, realmente não conseguia achar uma razão para isso. Tinha um sentimento intuitivo de que a alma existia”.

Quando trabalhou numa fazenda orgânica na Costa Rica depois de um período no Teach for America, ela teve uma experiência de conversão repentina e dramática: Deus era real e ela tinha de imaginar um plano para sua vida. Quando seu namorado foi buscá-la no aeroporto na volta da sua viagem, ela terminou com ele e cancelou seu projeto de cursar a faculdade de Direito. Dentro de quatro anos, estava usando um hábito no convento, um edifício de tijolos de cor pálida que abrange uma editora, jardins e uma pequena capela funerária onde as freiras são enterradas após sua morte.

Aletheia começou seu projeto memento mori no Twitter onde compartilhou meditações diárias por mais de 500 dias consecutivos. Em outubro de 2018, no seu 445º dia com a caveira em cima da sua escrivaninha, ela escreveu “todos morrem, seus corpos apodrecem e cada rosto se transforma numa caveira (a menos que você seja imaculado).

De início, ela não tinha uma meta particular além de se comprometer com sua própria prática diária. Mas os tuítes se tornaram um sucesso e o projeto se expandiu. Hoje, a ordem vende decalques de vinil (US$ 4,95, um bom presente de Natal!) e moletons com capuz adornados com um emblema de caveira desenhado pela Irmã Danielle Victoria Lussier, outra freira do convento. Aletheia continua a promover a prática nas redes sociais e postou um diário de orações memento mori, e também um ato de devoção que inicia com a frase “Você vai morrer”.

Os livros se tornaram os mais vendidos da ordem nos últimos anos – um estímulo para as freiras cuja renda da editora sem fins lucrativos caiu drasticamente em décadas recentes. Aletheia atualmente trabalha num novo livro de orações para a época do Advento, antes do Natal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Macy Gray e Twins For Peace lançam, nos EUA, tênis exclusivo com pegada social

A cantora Macy Gray fez uma parceria com a Twins For Peace para o lançamento de um tênis cuja renda das vendas está sendo revertida para ajudar famílias que perderam entes para a brutalidade policial dos EUA.

Recém chegada no Brasil, a marca francesa de calçados sustentáveis Twins For Peace acaba de lançar nos EUA uma parceria exclusiva com a fundação My Good, que tem como fundadora a cantora vencedora do Grammy, Macy Gray.

A parceria nasceu após o empresário Nana Baffour, Executive Chairman do NVH Studios – grupo global que tem a francesa Twins For Peace e a brasileira Zeferino sob seu guarda-chuvas -, participar de um evento em que pode conhecer mais da história da My Good, que auxilia familiares que tiveram que se reerguer após a perda de entes queridos para a brutalidade policial.

“A Twins For Peace nasceu como uma proposta social e eu, como homem negro e pai de filho negro, vejo essa questão da violência policial como algo muito próximo”, explica Baffour. Segundo dados da www.policeviolencereport.org 1,127 americanos foram mortos pela polícia em 2020 e segundo os dados, pessoas de cor são as mais propensas a sofrerem esse tipo de violência. “Essa parceria, hoje, está focada nos Estados Unidos, mas queremos ampliar a visibilidade para esse assunto pois sabemos que não é uma situação isolada. Infelizmente temos visto constantemente manchetes semelhantes às das mortes de George Floyd and Breonna Taylor, acontecerem em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil”, completa.

Apaixonada por tênis, Macy Gray fez questão de co-projetar os produtos que chegaram aos solos americanos em quatro versões com valores a partir de US$ 199. “Enquanto estava em turnê e mesmo durante o ano passado, onde o conforto tem se mostrado essencial, os tênis foram um curinga em meu guarda-roupa e a Twins For Peace e a My Good trazem valores tão semelhantes que pra mim foi uma honra poder ajudar a projetar esta coleção que retribui de uma forma tão humanitária”, explica. E para Gray, o problema e as consequências para os familiares tem um âmbito pessoal. A cantora viu sua tia e seu tio lutarem depois que o filho foi morto em uma briga de bar há mais de quatro anos, então ela sabe como a perda de um ente querido pode devastar uma família.

Fundada em 2020, a My Good nasceu em resposta aos incidentes de brutalidade policial nos Estados Unidos que ganharam visibilidade no mundo inteiro. A organização busca ajudar famílias e entes queridos de vítimas de violência policial com apoio financeiro, emocional e de saúde mental, além de trabalhar com a curadoria de diferentes plataformas para que as famílias das vítimas sejam ouvidas, incluindo grupos de apoio com especialistas em luto, entre outras iniciativas. No site da organização, Gray deixa claro que a My Good “NÃO é uma organização anti-policial”, mas sim, que os esforços de sua equipe são focados exclusivamente em fazer o que puder para as famílias em luto. “O objetivo do Twins for Peace é mudar o mundo por meio da ação. Já atuamos com ONGs em países como Colômbia, Camarões, Moçambique, Índia, Haiti, Mall, Senegal e Brasil e acreditamos que essa parceria com a My Good é um novo passo para encorajar as pessoas a buscarem mudanças”, diz Max Mussard, fundador e designer da Twins For Peace. “Cada sapato conta uma história e traz consigo o cuidado e o carinho de quem o construiu. Ao apoiar a colaboração ‘TFP + MyGood: From Soles to Souls’, a pessoa se une a esse ciclo virtuoso de valores humanitários e sustentáveis”, finaliza.

Os produtos desta collab estão disponíveis em pré-venda no site internacional da Twins for Peace – www.twinsforpeace.com

Processo de produção

Para garantir a sustentabilidade dos produtos, a Twins For Peace buscou insumos materiais de baixo impacto ambiental. As solas dos calçados são confeccionadas com 50% de borracha natural, extraída de árvores seringueiras, cuja matéria-prima possui emissão zero de CO2 na atmosfera e confere resistência, elasticidade e conforto; e 50% de borracha reciclada, a partir de reutilização de materiais que levariam anos para se decompor na natureza e que, ao serem transformados, agregam na durabilidade ao calçado.

Instagram:

@twinsforpeace

@mygooddotorg

https://www.facebook.com/mygooddotorg/

https://www.facebook.com/TWINSFORPEACEofficial/

#SolesToSouls

Sobre Twins For Peace

Criada em 2009 pelos gêmeos Maxime e Alexandre Mussard, a marca francesa Twins For Peace nasceu com o objetivo de promover valores humanitários por meio de seus calçados. Em 2018 a marca foi incorporada ao grupo global NVH Studios de forma a torná-la um estilo de vida e, ao mesmo tempo, investir consistentemente em países atingidos pela pobreza por meio da criação de projetos duradouros de solidariedade. Desde 2009, a empresa doou mais de 15.000 sapatos por meio da iniciativa “Be COOL, Be GOOD” e investe continuamente nos sistemas de saúde e educação dos países menos desenvolvidos. A Twins For Peace chegou ao Brasil em 2011 e 2014 em uma parceria com a Fundação Gol de Letra, fundada pelo jogador Raí. Para mais informações acesse twinsforpeace.com.br e siga o perfil oficial no Instagram @twinsforpeacebr.

Sobre My Good (Los Angeles)

My Good é uma organização sem fins lucrativos 501(c)3 fundada em julho de 2020 pela artista Macy Gray, junto com Charyn Harris e Grace Blake para apoiar famílias que perderam entes queridos devido à brutalidade policial. O cerne da missão é garantir que as famílias recebam o apoio emocional, educacional e financeiro tão necessário enquanto navegam pelas consequências de sua perda.

Sobre a NVH studios

Criada em 2016, a NVH studios é um grupo global de desenvolvimento de sapatos e de marcas relacionadas a estilo de vida que valorizam a excelência e promovem a felicidade de viver com paixão. Tem sob seu guarda-chuva a importante marca de calçados brasileira Zeferino e a marca francesa Twins For Peace. Possui fábrica própria localizada na cidade de Novo Hamburgo – Vale dos Sinos – RS, Brasil e visa criar produtos feitos com exclusividade para pessoas dispostas a ter um estilo de vida com qualidade, conforto, sofisticação e propósito. Para mais informações acesse nvhstudios.com

Google é autorizado a construir “cidade” na Califórnia em 2022

Local terá 4 mil casas, hotéis, lojas, restaurantes e parques, ocupando mais de 323 mil metros quadrados
FOTO: REPRODUÇÃO/GOOGLE

A perspectiva de como ficará o mega campus do Google (Foto: Divulgação)

O Google recebeu autorização do conselho municipal de San Jose, na Califórnia, para a construção de um enorme campus. A “cidade” terá 4 mil casas, escritórios, lojas e parques distribuídos em 80 acres de terra (mais de 323 mil metros quadrados), e será um dos maiores campi do Google no mundo.

Segundo o “Business Insider”, das 4 mil casas do projeto “Downtown West”, como foi batizado em 2017, 1 mil serão destinadas a programa de habitação popular, mas os valores ainda não foram definidos.

Os escritórios terão capacidade para receber 20 mil trabalhadores. No ramo de hospedagem, 300 quartos de hotel e 800 alojamentos, para os hóspedes corporativos do Google que ficarem por pouco tempo. E 60 mil metros quadrados de parques para relaxar.

Os investimentos passarão de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões na cotação desta sexta-feira, 28), disse a diretora do campus, Alexa Arena: serão US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão), para entre treinamento profissional, auxílio para moradores de rua e apoio a pequenos negócios, e outros US$ 890 milhões (R$4,6 bilhões) na melhoria da infraestrutura.

Um porta-voz do Google contou ao jornal “San Francisco Chronicle” que as obras devem começar em 2022 e que San Jose receberá US$ 3 milhões (R$ 15,7 milhões) em 30 dias após a aprovação do projeto.

Havaianas abre loja com foco em roupas em vez das tradicionais sandálias

Unidade é inaugurada nesta quinta, em São Paulo
com Mariana Grazini e Andressa Motter

Nova loja da Havaianas no Shopping Morumbi
Nova loja da Havaianas no Shopping Morumbi – Divulgação

Havaianas inaugura nesta quinta (27) a primeira loja da marca que vai ter mais espaço ocupado por peças de vestuário do que pelas tradicionais sandálias.

A unidade, que fica no Shopping Morumbi, em São Paulo, faz parte do projeto da empresa com investimento de R$ 10 milhões para expandir o foco de atuação em peças de roupas, acessórios e calçados fechados.