Novos milionários de tecnologia estão tentando não ostentar o enriquecimento na pandemia

Enquanto boa parte da população global lida com os efeitos negativos da covid-19 na economia, uma nova geração de ricaços tenta adotar uma postura menos extravagante
Por Erin Griffith – The New York Times

Jan Buchczik

As ofertas públicas de ações (IPO) e a ascensão de novos milionários ligados à tecnologia estão maiores e mais barulhentas do que nunca. Mas, durante a pandemia, os novos ricos do Vale do Silício não estão comemorando com as tradicionais festas e aposentadorias precoces para viajar pelo mundo.

Nos últimos seis meses, pelo menos 35 empresas fundadas na área da baía de São Francisco – entre elas AirbnbDoorDash e a empresa de armazenamento de dados Snowflake – abriram capital por um valor de mercado combinado de US$ 446 bilhões, segundo o New York Times. Os “períodos de lockup” dessas empresas, que impedem os funcionários de vender a maior parte de suas ações logo após um IPO, irão expirar nos próximos meses, desencadeando uma onda de riqueza.

Um pequeno punhado desses IPOs poderia cunhar cerca de 7 mil milionários, de acordo com uma análise da EquityBee, plataforma que facilita as transações de capital. O fluxo de IPOs tem sido grande o suficiente para que sua receita de impostos possa acabar com parte do déficit orçamentário projetado da Califórnia.

Em comparação com booms anteriores, há “mais gratidão”, explica Aaron Rubin, sócio da Werba Rubin Papier Wealth Management. 

Quando a pandemia chegou, um ano atrás, os executivos de tecnologia se preocuparam com a possibilidade de suas ações nunca renderem o esperado. O solavanco – e ansiedade geral com a economia – até agora os desencorajou a fazer os tipos de ostentação que costumam acompanhar fortunas que surgem da noite para o dia, disse Rubin. “Podem até comprar um Tesla novo ou um carro conversível, mas não saem por aí comprando aviões”, diz.

As festas são no Zoom, a conversa sobre impostos está no Slack, a compra de casas anda um pouco menos intensa e o clima é de cautela. É uma época estranha para ficar rico.

“A mentalidade das pessoas não pode ser de ostentação”, disse Riley Newman, que foi um dos primeiros funcionários do Airbnb, empresa que abriu o capital em dezembro e imediatamente atingiu US$ 100 bilhões em valor.

As pessoas mudaram o foco das casas de férias e dos carros chamativos para casas suburbanas e escolas, disse Newman, que agora dirige a Wave Capital, uma empresa de capital de risco. “Está simplesmente diferente”, acrescentou.

Caixa gourmet

Antes da pandemia, quando startups abríam capital, os executivos comemoravam com esculturas de gelo em forma de foguete e bandas dos anos 1980. Agora, as empresas estão mandando aos seus funcionários caixas de festa para as reuniões no Zoom.

Daniel Figone, dono da Handheld Catering and Events, recentemente entregou jantares e lanches embalados nas casas de vários trabalhadores de empresas do Vale do Silício que abriram capital. As caixas – que custam de US$ 45 a US$ 100 cada – podem trazer produtos caseiros, sais marinhos, mistura de cacau quente, queijos sofisticados, frutas e champanhe. Além disso, estavam incluídos cartões impressos parecidos com convites de casamento detalhando o código de login para uma reunião no Zoom.

Moradores de apartamentos em San Francisco que enriqueceram com empresas iniciantes de tecnologia estão se mudando para “casas-troféu” antes da guerra em bairros como Pacific Heights. Credit…Jason Henry for The New York Times

Os altos executivos ganham ainda mais: arranjos florais, refeições de três pratos e um chef no local para terminar o preparo, disse Figone. Em algumas pequenas reuniões ao ar livre, ele ofereceu “casquinhas” individuais cheias de lanches, em vez de bufês e aperitivos.

Mas as celebrações no Zoom de todas as empresas podem ser muito parecidas com as reuniões no Zoom de todas as empresas. Então, as empresas também estão adicionando perguntas e respostas virtuais com autores famosos ou membros do elenco do ‘Saturday Night Live’, palestras inspiradoras de palestrantes do TED e até sessões de meditação em grupo conduzidas por praticantes famosos.

Quando tem algum músico – Alicia Keys, Train e John Legend são os principais pedidos – a apresentação se limita a uma ou duas músicas, disse ele.

Model 3, da Tesla, está entre itens de desejo dos novos milionários de tecnologia
Model 3, da Tesla, está entre itens de desejo dos novos milionários de tecnologia

Gastos diferentes 

De fato, os novos ricos estão gastando de maneiras muito diferentes. Em vez de arte, eles estão comprando NTFs, ou seja, tokens não fungíveis que representam a propriedade de peças de arte digital, memes ou artefatos da história da internet.

Em vez de viajarem pelo mundo, eles estão se amontoando em vans Sprinter. Em vez de looks de grife, eles estão buscando roupas que fiquem bem nas ligações do Zoom, aulas de maquiagem virtual para a câmera e reformas para os fundos de Zoom.

Eles também estão comprando presentes de “conforto” para amigos e familiares, como cobertores e roupões aconchegantes, itens de cuidados com a pele, pijamas e jogos. E, em vez de apartamentos de luxo, eles estão atrás de casas com espaço ao ar livre, academias caseiras e boas “salas de Zoom”.

J.T. Forbus, gerente tributário da Bogdan & Frasco, uma empresa de contabilidade de São Francisco, disse que seus clientes têm evitado a ostentação. Sua maior despesa, além da casa, é com o consultor financeiro.

“Quando eles enlouquecem e gastam, é para investir em criptografia”, disse Forbus, referindo-se às moedas digitais.

Caridade

No ano passado, quando o Airbnb abriu capital, ex-funcionários iniciaram o Equity for Impact, um programa no qual os funcionários se comprometem a doar uma parte não especificada de seus rendimentos de IPO para instituições de caridade. Até agora, mais de 400 pessoas comprometeram cerca de US$ 50 milhões em ações, o que está a meio caminho da meta do grupo para o momento em que o período de bloqueio do Airbnb expirar, em junho.

O foco na caridade nesse momento de sorte inesperada é uma mudança em relação às ondas passadas de novos ricos, disse Forbus.

“Eles vão ter uma dedução de impostos, claro”, disse ele. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

França propõe pagar cidadãos que trocarem carros por bicicletas elétricas

País planeja oferecer benefício equivalente a R$ 17 mil pela ação
Por Matheus Fiore

A França é um dos países referência no esforço para encontrar meios alternativos aos carros a fim de fomentar uma mobilidade mais saudável para o planeta. Pensando nisso, o país presidido por Emmanuel Macron anunciou que vai oferecer €2,500 (cerca de R$ 17 mil) para que seus cidadãos troquem seus carros por bicicletas elétricas.

A decisão ainda não foi sacramentada, mas legisladores da França já apoiaram a medida em uma votação preliminar. Segundo a Reuters, a Federação Francesa de Usuários de Bicicletas afirma que se o país for adiante com o projeto, seria a primeira nação do mundo a pagar para que seus cidadãos troquem carros por bicicletas elétricas – apesar de a Lituânia ter oferecido um sistema parecido recentemente.

No caso da Lituânia, o projeto foi um sucesso, e mais de 8.500 pessoas se inscreveram no programa, que oferecia mil euros para trocar o carro e pegar scooters elétricas, bicicletas elétricas ou passagens de transporte público. Caso a medida seja aplicada de forma bem-sucedida, é possível imaginar que mais países da União Européia sigam a ideia.

Conforme os veículos elétricos se tornam cada vez mais populares e acessíveis, nações de todo o mundo encontram maneiras de incentivar seus usos para que os danos no meio ambiente sejam resumidos – afinal, veículos movidos a combustíveis fósseis são extremamente prejudiciais para a atmosfera. Não por acaso, gigantes do mercado de veículos como a Harley-Davidson têm lançado modelos de bicicletas elétricas para não ficar para trás no ainda novo mercado.

Eles moram sozinhos, e contam como tem sido a experiência do isolamento

Práticas de autocuidado incluem filmes, livros, Agatha Christie, exercícios, plantas e novos hobbies
Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

Orias Elias
Orias Elias vê filmes clássicos e conversa com Cheeba, sua fox paulistinha Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Não é simples contradizer a fina sabedoria de um mestre como Tom Jobim, mas, embora existam coisas que só o coração pode entender, é possível, sim, ser feliz sozinho. Vou te contar…

Com a experiência acumulada de um ano pandêmicopessoas que moram sozinhas aprenderam a viver em paz (dentro do possível em um cenário como o nosso), inventaram distrações, criaram hobbies, se engajaram em estudos ou no trabalho.

O ator e diretor de teatro Orias Elias, 62 anos, venceu o tédio dos dias repetidos dentro do apartamento na companhia de filmes e livros. O acervo de clássicos americanos dos anos 50, como Palavras ao Vento (com Rock Hudson e Lauren Bacall) e os filmes noir com Humphrey Bogart são os preferidos de Elias. 

“Adoro o cinema americano, os melodramas e os filmes mais leves. Preparo o ambiente e passo um bom tempo com meus filmes”, falou Elias. Além dos filmes, Orias investiu na compra de 25 livros da Agatha Christie, autora de romances policiais. “Não deixar esse momento da nossa vida dramático tem relação com valorizar o que se tem, com o cultivo de pequenos hábitos que nos trazem conforto”, completou.

De casa, Orias produz conteúdos para o YouTube, decora textos para futuros espetáculos e conversa muito ao telefone com amigos e colegas de trabalho. Ainda assim, se a solidão bate um pouco mais forte, ele tem a Cheeba para consolá-lo. “É uma fox paulistinha de 12 anos. É um ser vivo com quem converso e tenho cuidados. É uma companhia que ajuda muito neste período”, confessou. Quando a necessidade de “respirar” se faz presente, Orias sobe para o terraço do prédio onde mora – onde faz exercícios, toma sol e aprecia a paisagem.

A publicitária Luana Rodrigues Segatto, 32 anos, mora sozinha e neste período pandêmico encontrou no próprio apartamento razões para se sentir bem. “No começo da pandemia, existia essa sensação de viver uma mini férias, mas com o tempo passando, e a pandemia se agravando, fui entendendo que a vida não poderia parar”, disse Luana.

Luana começou a criar uma relação com seu apartamento. Ela encontrou formas de se identificar mais com o ambiente em que vive. “Enchi a casa de plantas. Busquei encontrar prazer em pequenas coisas. Minha casa ficou mais viva”, afirmou. 

Outra estratégia de Luana foi criar uma rotina que envolve acordar no mesmo horário, preparar seu café da manhã, cozinhar, fazer pausas no trabalho, se exercitar e acompanhar aulas de dança online. “A convivência comigo mesma tem sido uma descoberta muito boa. Também sou solteira. E isso ajuda neste momento. É um processo de autoconhecimento”, comentou. 

Luana Segatto
Luana Segatto passou a ter uma outra relação com sua casa, que ficou mais viva com as novas plantas Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Morar sozinho, e se sentir bem com isso, não é um privilégio dos mais jovens. O aposentado gaúcho Zózimo Luís de Oliveira Padilha, 87 anos, mora sozinho desde que perdeu a companheira de uma vida inteira, a Yara (com quem foi casado por 62 anos). “Depois de morar com a mulher que morei, não teria coragem de dividir uma casa com mais ninguém”, confessou.

Embora conte com todo apoio da família, Padilha preferiu morar sozinho – mesmo com as dificuldades de um ano de pandemia. É torcedor do Grêmio e leitor de livros espíritas e de obras de escritores como Isabel Allende e Gabriel García Márquez. “Eu me mantenho informado, atualizado e estou sempre em contato com as minhas filhas”, disse. “Já tomei as duas vacinas, mas continuo tomando todos os cuidados. Faço exercícios, ando pelo condomínio, e bebo muita água. “Faço tudo para estar bem e lúcido”, completou.

Padilha contou que as aulas de informática foram fundamentais para o sucesso do seu isolamento. “Tive essa sorte de aprender a mexer em tudo. Eu tive até Orkut, lembra dele. Hoje, tenho Instagram e fico ligado em tudo”, afirmou.

Já a gestora de projetos Bia Ferreira, 39 anos, vive em um apartamento de 30 m² no Catete, no Rio de Janeiro. No começo da pandemia, ela viu três trabalhos irem por água abaixo. “No início, eu me senti sozinha e com medo. Mas percebi que tinha algum dinheiro guardado e poderia me organizar. Comecei a imaginar novos projetos”, contou.

Sozinha em casa, viu o impulso criativo e o trabalho aumentarem. Emplacou projetos de marketing político e de caráter social – transformando-se em sócia de uma empresa. “Tenho trabalhado muito, fiz novos amigos e consegui manter minha saúde mental. Muitas portas foram abertas. Mesmo morando sozinha, tenho a sensação que estamos vivendo 20 anos em um”, lembrou.

O advogado Thiago Bernardo da Silva, 36 anos, também tem se virado bem no período. O segredo dele é manter uma certa rotina e evitar as armadilhas de “dormir depois do almoço” ou de “beber quase todos os dias”. Thiago tem acompanhado o noticiário sobre a covid de forma controlada e tentando não se expor excessivamente às más notícias. “Tento zerar a ansiedade e as preocupações. Faço exercícios, estudo inglês e mantenho contato profissional e com os amigos por telefone e meios digitais. Fora ter aprendido a cozinhar, assistir Netflix, Amazon…”, enumerou.

Mas o segredo para viver em paz sozinho foi ter descoberto um hobby. “Comprei uma vitrola e agora fico escutando discos de jazz, blues, MPB… Penso em coisas positivas e tento relaxar”, disse. Os discos e a distração ajudaram quando, no Natal, Bernardo pegou covid. “Claro, tive meus momentos de negatividade. Não recomendo, mas fui melhorando aos poucos e hoje estou muito bem”, completou. 

Autocuidado na pandemia

A psicóloga Desirée da Cruz Cassado, da The School of Life, aponta que “viver sozinho é diferente de ser sozinho”. “Sabemos que as pessoas estão mais vulneráveis, que somos seres gregários e que regulamos nossos comportamentos a partir do olhar do outro”, disse.

Para Desirée, as pessoas que moram sozinhas e estão passando bem por esse período pandêmico são “competentes em se ‘regular’ por elas mesmas, são pessoas que conseguem se engajar em comportamentos de autocuidado mesmo sem um grupo por perto”, disse.

A psicóloga completa dizendo que “as pessoas estão podendo olhar mais para dentro delas mesmas”. “A nossa atenção, antes da pandemia, se dividia entre as coisas de dentro e as coisa de fora. Agora, nosso pêndulo está para dentro, estamos cultivando a solitude e a boa introspecção”, afirmou. 

Casal hetero de modelos trans embaralha conceito de gênero

Com identidades feminina e masculina trocadas, Lana Santucci e Estevan Vicent militam no cotidiano por uma representatividade positiva de transgêneros e travestis

A modelo Lana Santucci, que nasceu menino e virou mulher trans, namora há sete meses o tatuador Estevan Vicent, nascido menina, mas em processo de transição ao se assumir homem trans
A modelo Lana Santucci, que nasceu menino e virou mulher trans, namora há sete meses o tatuador Estevan Vicent, nascido menina, mas em processo de transição ao se assumir homem trans Divulgação / Álbum de família

Depois de sete meses de namoro, Lana e Vicent fazem planos de casar e ter filhos. Ela sonha com uma cerimônia tradicional, com pompa e circunstância, sendo levada pelo pai ao altar, envergando um vestido de noiva preto.

“Vai ser lindo, delicado”, diz a modelo Lana Santucci, 24. Assim como os detalhes do que irá vestir, ela também pensa no simbolismo da união dela, nascida menino e que aos 20 anos se assumiu trans, com Estevan Vicent, 26, menina de nascimento, mas que desde o ano passado iniciou processo de transição como homem trans.

“Eu sempre me relacionava com meninos gays que tinham pênis, agora namoro um menino que tem vagina”, explica Lana.

Identidades trocadas

Ela também se define como travesti, pois não pretende se livrar do órgão sexual masculino com o qual nasceu. Lana é legalmente mulher, trocou o RG e não revela como se chamava antes.

“É um nome morto, que morreu judicialmente quando todos os meus documentos foram retificados.”

A modelo, que já fechou desfiles de Alexandre Herchcovitch na São Paulo Fashion Week e integrou o elenco do reality show “Born to Fashion”, faz terapia hormonal há cinco anos.

“Tomo hormônios femininos, como estrógeno, e também bloqueador de testosterona”, relata a loura de 1m83, gestos finos e voz aveludada, filha de uma família de classe média paulistana, de origem húngara.

A sua cara metade ainda está em pleno processo de transição do feminino para o masculino. O tatuador e modelo comercial exibe um físico malhado em seu 1m63, estilo condizente com sua nova identidade de gênero.

Para ele, não tão nova assim. Desde criança, quando tinha cabelos longos e usava vestidos comprados pela mãe evangélica, Vicent diz se sentir um menino.

Como um casal trans e heterossexual, Lana e Vicent reafirmam que não vieram para confundir, mas para explicar e conscientizar, em um ativismo calcado no cotidiano.

“Somo um casal hetero, pois eu gosto de meninas, e ela, de meninos”, pontua Vicent.

Com paciência e didatismo, eles diferenciam conceitos de identidade de gênero (“O que eu sou? Homem ou mulher?”) de orientação sexual (“Quem eu amo?” , “Eu me apaixonei por um homem ou uma mulher?”, “Sou hetero ou homossexual?).

E vão respondendo todas as curiosidades: Lana é mulher, Vicent é homem; eles se amam; ela se apaixonou por um homem trans e ele, por uma mulher trans; o relacionamento dos dois é, portanto, hetero.

As questões se sucedem e são explicadas ora por ela ora por ele. “Também somos um casal transgênero por não nos identificamos com nosso sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que nos foi atribuído ao nascer”, define Lana.

Ou seja, ela nasceu com o órgão sexual masculino, o que levou os pais a registrá-la no cartório como pessoa do sexo masculino, mas assumiu identidade de gênero oposta.

Ainda assim, Lana deseja manter o órgão sexual biológico em sua versão feminina. “Nunca cogitei fazer uma cirurgia para retirar o pênis. Seria uma mutilação.”

Para Vicent, gênero é construção social desse sexo biológico. O que vai além, enfatizam ambos, das distinções anatômicas, como genitálias e aparelhos reprodutivos, que definem o sexo masculino ou feminino.

Em seus perfis nas redes sociais, as duas metades do casal chamam atenção pela beleza dela, ao mesmo tempo forte e delicada, e as tatuagens e o rosto marcante dele.

Lana mora em São Paulo e Vicent ainda vive com os pais em Itajaí (SC), onde nasceu. Estão separados por 695 km, mas por pouco tempo. Planejam morar juntos e casar no futuro, com a benção das respectivas famílias.

“Eu aqui com o útero coçando e minha sogra fazendo sapatinhos de bebê, socorro!”, escreveu Vicent no Twitter, onde depois comemorou o fato de a mãe tê-lo tratado pela primeira vez pelo pronome masculino ele. “Hoje nada vai estragar o meu dia, amém”.

Lana também faz desabafos nas redes sociais, mandando recado para a galera que acha que trans é só trans, quase uma profissão.

“Amada, formada em moda, trabalho como modelo, já fiz SPFW, Casa de Criadores, duas campanhas pra M.A.C, desfiles de temporada da À La Garçonne e Renner”, enumera. Saiu na revista “Elle” três vezes e também na “Vogue” portuguesa.

A militância se dá ainda pelos fato de os dois se colocarem como transexuais para desmistificar a disforia de gênero, desconforto por não reconhecer na forma física sua verdadeira manifestação de gênero.

Vale um parêntese longo sobre a sopa de letrinhas que define a comunidade LGBTQIA+, ao dar visibilidade a todas as formas de ser. As três primeiras letras se referem a gays, lésbicas e bissexuais.

As demais dizem respeito a como a pessoa se identifica e vai além do gênero feminino ou masculino: transgêneros (travestis ou transexuais), queer (pessoas que transitam entre os dois gêneros).

Um léxico que cresce com intersexualidade, assexualidade, e panssexualidade.

Universo tratado no documentário “Disclosure”, gancho para Lana e Vicent falarem sobre preconceitos e violência que cercam a condição de trans no Brasil e no mundo.

“A pessoa transgênero, homem ou mulher, é associada à morte, uma vida que não é importante”, afirma Lana. O Brasil é o recordista mundial em assassinatos de travestis e transexuais, lembra, segundo a Antra, associação nacional que os representa.

E costumam ser mortes brutais. “Não é com tiro, mas com 20 facadas. São atos hediondos”, ressalta a modelo.

Filha de um advogado e uma dona de casa, Lana é exceção em uma realidade em que travestis são marginalizadas e fazem programa para sobreviver.

“O meu sucesso e de outras modelos trans abrem portas para outras meninas trabalharem na moda”, avalia. A mais conhecida é Lea T.

Vicent lembra que ao serem rejeitados pelos familiares, muitos transgêneros são empurrados para as ruas e buscam na prostituição uma saída. “A família mata primeiro, quando não acolhe um filho ou uma filha trans.”

Ele costuma assumir um ar protetor quando sai com a namorada. Lana chama muita atenção. E os olhares nem sempre são amigáveis ou de admiração.

Mostrar-se como casal apaixonado, que anda de mãos dadas, trabalha, viaja e faz planos é uma forma de reforçar uma representatividade positiva.

“Queremos a naturalização dos nossos corpos,” diz Lana. O namorado emenda: “Ensinam que nascemos em um corpo errado. Não vejo assim. Somos diferentes. ”

Diferenças que suscitam novas discussões na hora de falar de filhos. “Eu penso muito nisso”, confessa Vicent. “Ele leva jeito com crianças”, afirma Lana.

E como fica a questão da maternidade, que é sempre associada à mãe? “Será que só mulheres podem gerar um filho?”, indaga Lana.

Vicent responde: “Me assusta a ideia de uma criança crescendo dentro de mim”, confessa o futuro pai, a quem caberia gestar o bebê.

Uma decisão a ser tomada no futuro, caso a relação caminhe para a constituição de uma nova família.

No caso deles, não seria preciso apelar para uma barriga de aluguel nem doação de óvulos ou esperma, opções para casais de gays e lésbicas.

“Um filho nosso seria 100% biológico e do casal”, lembra Lana, que antes de virar pai, por ser o portador dos gametas masculinos, e mãe, como representação feminina do casal, pretende subir ao altar. E, claro, ultrafashion, em seu vestido negro. [Eliane Trindade]

Nike Shox se despede do Brasil com direito a homenagem da Centauro

Ícone no país há duas décadas, ‘Nike de molas’ deixará de ser produzido esse ano

DIVULGAÇÃO CENTAURO
NIKE SHOX R4

Tênis febre mundial desde o início dos anos 2000, e que se mantém no gosto dos brasileiros há quase 20 anos, o Nike Shox deixará de ser comercializado no Brasil em 2021. O modelo, que conquistou os apaixonados por sneakers e que compõe o estilo urbano, sobretudo entre jogadores de futebol, rappers e funkeiros, inclusive com menções em músicas, é um dos mais vendidos pela Centauro e faz parte de metade da história da rede esportiva.  

“Temos 40 anos de vida e o Nike Shox está conosco desde muito tempo nessa trajetória. Ele sempre será parte emotiva e fundamental não só da nossa jornada, mas da história e do estilo esportivo no Brasil. As molas aparentes caíram no gosto das pessoas e ao longo desse tempo são milhares de pares vendidos por ano aqui na Centauro. Não se trata apenas de um tênis, mas de um símbolo icônico que faz parte do lifestyle e de conexões emocionais de inúmeros clientes e, por isso, não poderíamos deixar de nos despedir e agradecer por essa longa parceria”, comenta Gustavo Milo, gerente executivo de marketing da Centauro. 

Foi nos Jogos Olímpicos de Sydney, especificamente nos pés dos jogadores de basquete, que o ‘Nike de molas’ apareceu pela primeira vez na história e, com o passar do tempo, ganhou as ruas e as tendências casuais, tornando-se um ponto marcante na cultura sneaker, tanto no Brasil quanto no mundo. 

O modelo Nike Shox R4 (‘Shox’ = nome da tecnologia; ‘R’ = running’ e ‘4’ = número de molas), encontrado nas lojas e site da Centauro, nasceu como um tênis exclusivamente de performance. E para prestar sua homenagem, a Centauro, maior rede multicanal de artigos esportivos da América Latina, e um dos principais e maiores canais de vendas do Nike Shox no Brasil, recebeu em primeira mão a última edição do R4 e os fãs poderão adquirir, a partir das 16h de hoje (01), as remessas finais do tênis. Em tom saudosista, a rede criou uma página exclusiva em despedida ao modelo que, além de comercializá-lo, passará pela história e por diversas curiosidades sobre o tênis e sua trajetória junto à companhia. 

Devido à pandemia de covid-19, a comercialização e as interações a respeito do tema ocorrerão, a princípio, apenas no ambiente digital. Para conferir os tênis e ter acesso a mais informações, clique em: https://www.centauro.com.br/sc/last-shox

Sobre a Centauro

Com 40 anos no mercado, a Centauro, pertencente ao Grupo SBF, é a maior rede multicanal de produtos esportivos da América Latina. A rede conta hoje com mais de 200 lojas, espalhadas em 26 estados brasileiros, além do e-commerce (www.centauro.com.br) e aplicativo exclusivo da rede. A Centauro oferece serviços e experiências personalizadas para cada perfil de consumidor, auxiliando no processo de compra e democratizando a prática esportiva no país. Com um modelo multicanal, são os consumidores que determinam quando, onde e como querem provar, comprar e receber produtos.

Crimes de ódio contra asiáticos crescem nos EUA, mas acusações são raras

Vários ataques recentes não foram denunciados como crimes de ódio, alimentando protestos e indignação entre muitos asiático-americanos
Nicole Hong e Jonah E. Bromwich / The New York Times, O Estado de S.Paulo

Membros do Comitê Americano-Coreano contra Crimes de Ódio se manifestam após ataque a tiros de Robert Aaron Long contra spas em Atlanta  Foto: Dustin Chambers/Reuters

Mas o perpetrador, um homem de 23 anos do Iêmen, não disse uma palavra à vítima antes do ataque, disseram os investigadores. Os promotores determinaram que não tinham evidências suficientes para provar a motivação racista. O agressor foi acusado de tentativa de homicídio, mas não de crime de ódio.

A notícia indignou os líderes asiático-americanos da cidade de Nova York. Muitos deles protestaram em frente ao Gabinete do Promotor Público de Manhattan, exigindo que o esfaqueamento fosse denunciado como crime de ódio. Estavam cansados de as autoridades fecharem os olhos para o que consideravam ataques racistas. “Vamos chamar a coisa pelo nome certo”, disse Don Lee, ativista comunitário que falou no comício. “Não são ataques aleatórios. Estamos pedindo o reconhecimento de que esses crimes estão acontecendo.”

Mas o perpetrador, um homem de 23 anos do Iêmen, não disse uma palavra à vítima antes do ataque, disseram os investigadores. Os promotores determinaram que não tinham evidências suficientes para provar a motivação racista. O agressor foi acusado de tentativa de homicídio, mas não de crime de ódio.

A notícia indignou os líderes asiático-americanos da cidade de Nova York. Muitos deles protestaram em frente ao Gabinete do Promotor Público de Manhattan, exigindo que o esfaqueamento fosse denunciado como crime de ódio. Estavam cansados de as autoridades fecharem os olhos para o que consideravam ataques racistas. “Vamos chamar a coisa pelo nome certo”, disse Don Lee, ativista comunitário que falou no comício. “Não são ataques aleatórios. Estamos pedindo o reconhecimento de que esses crimes estão acontecendo.”

A manifestação refletiu um debate público sobre como enfrentar o aumento nos relatos de violência contra os americanos de origem asiática, que se sentem ainda mais vulneráveis a cada novo ataque. Muitos incidentes não resultaram em prisões ou não foram denunciados como crimes de ódio, dificultando o levantamento de dados confiáveis sobre até que ponto os asiático-americanos estão na mira.

Essa frustração explodiu em escala nacional esta semana, depois que Robert Aaron Long, um homem branco, foi acusado de atirar fatalmente em oito pessoas, entre elas seis mulheres de ascendência asiática, na área de Atlanta, na noite de terça-feira.

Os investigadores disseram que é muito cedo para determinar o motivo do crime. Após a prisão de Long, ele negou ter preconceito racial e disse às autoridades que disparou os tiros como uma forma de vingança por seu “vício sexual”.

O episódio de Atlanta e outros ataques recentes expuseram questões difíceis sobre a possibilidade de provar motivação racista. Os ataques envolveram vítimas asiáticas? Ou os agressores isolaram propositadamente os asiáticos de uma forma tácita que jamais poderá ser apresentada como prova no tribunal?

Muitos asiático-americanos ficaram se perguntando qual é a influência dos estereótipos culturais que os colocam – especialmente as mulheres – como alvos fracos ou submissos.

Outros incidentes que demonstraram clara motivação racial não resultaram em detenções. A polícia ainda procura um homem que chamou uma mãe americana asiática de “vírus chinês”, cuspindo na criança dela em Queens na semana passada.

Enquanto se desenrola o debate a respeito de como se qualifica juridicamente o preconceito contra asiáticos, a comunidade está lidando com a seguinte realidade: a lei simplesmente não foi pensada para levar em conta muitas das formas de racismo vivenciadas pelos americanos asiáticos.

No Estado de Nova York, para que esses ataques sejam enquadrados como crimes de ódio, os promotores teriam de demonstrar que as vítimas foram escolhidas por causa de sua raça.

Mas comprovar uma motivação racista pode ser particularmente difícil em se tratando de ataques contra asiáticos, dizem os especialistas. Não existe um símbolo do ódio contra asiáticos tão fácil de identificar quanto uma forca ou uma suástica. Historicamente, muitas vítimas de crimes contra asiáticos nos EUA são proprietários de pequenos negócios que foram assaltados, o que complica a questão da motivação.

EUA - asiáticos - Don Lee
‘Não são ataques aleatórios. Estamos pedindo o reconhecimento de que esses crimes estão acontecendo’, diz Don Lee, ativista comunitário   Foto: Chang W. Lee/The New York Times

“No caso dos crimes de ódio contra negros, contra gays ou antissemitas, o protótipo é fácil de reconhecer”, disse a professora de direito Lu-in Wang, da Universidade de Pittsburgh. “Com frequência, são casos mais claros.”

Os americanos asiáticos estão muito divididos em relação a quais seriam as melhores medidas contra a violência, refletindo as amplas diferenças ideológicas e geracionais dentro de um grupo que engloba dúzias de etnias. Há cerca de 1,2 milhão de asiáticos em Nova York, de acordo com dados censitários, o que corresponde a 14% da população da cidade.

Alguns pediram critérios mais rigorosos para a aplicação de acusações de crimes de ódio, com castigos mais duros e mais recursos para que o Departamento de Polícia de Nova York possa investigar ataques contra asiáticos.

Outros se opuseram a essas propostas, dizendo que intensificar o policiamento prejudicaria suas próprias comunidades, aprofundando as tensões raciais e afetando desproporcionalmente as comunidades de negros e latinos que há muito são alvo de um policiamento mais agressivo.

“Raramente vi pessoas socialmente privilegiadas serem acusadas por crimes de ódio”, disse Anne Oredeko, procuradora encarregada de supervisionar a unidade de justiça racial do grupo de defensoria pública Legal Aid. “Com frequência, vemos pessoas de cor sendo acusadas de crimes de ódio.”

EUA - asiáticos - crimes de ódio
Nancy Riley-James se emociona em memorial para mulheres assassinadas na Geórgia   Foto: Chang W. Lee/The New York Times

De acordo com a legislação estadual de Nova York, certas infrações podem ser qualificadas com o agravante de serem crimes de ódio, aumentando a possível sentença. Como prova, os promotores costumam apresentar declarações verbais odiosas ou publicações ofensivas do réu nas redes sociais.

Entre as maiores cidades americanas, Nova York apresentou a maior alta nas denúncias de crimes de ódio contra asiáticos no ano passado, de acordo com análise de dados da polícia realizada por um centro da Universidade Estadual da Califórnia em San Bernardino. Foram 28 incidentes do tipo em 2020, ante os 3 casos registrados em 2019, de acordo com dados do Departamento de Polícia de Nova York.

As autoridades reconhecem que os dados são limitados e imperfeitos. Um projeto de lei em tramitação que deve ser aprovado até junho definiria um sistema mais padronizado para a denúncia de crimes de ódio nos tribunais, na promotoria e na polícia de Nova York.

Stewart Loo, vice-inspetor à frente da força-tarefa de combate a crimes de ódio contra asiáticos do departamento de polícia, disse em entrevista que os americanos asiáticos frequentemente relutam em denunciar crimes por causa de barreiras idiomáticas ou temores de um possível questionamento do seu status de imigrantes. Muitos temem também uma retaliação por parte dos acusados, ou simplesmente querem evitar problemas.

“É um processo muito desmotivador”, disse Loo. “Temos que ir à delegacia, conversar com os investigadores, conversar com os promotores.”

No ano passado, os ataques ocorridos em Nova York que foram processados como crimes de ódio tipicamente envolveram pessoas que culparam os asiáticos pela disseminação do coronavírus, ecoando a retórica do ex-presidente Donald Trump, que se referiu à doença como “vírus chinês” e “gripe chinesa”.

Uma mulher branca foi acusada de cometer um crime de ódio em março do ano passado depois de esbarrar em uma mulher asiática que atravessava a rua em Manhattan e dizer, “É por sua causa que o coronavírus está aqui”, antes de cuspir nela e arrancar parte de seus cabelos, de acordo com a promotoria.

No ataque com faca ocorrido em Chinatown no mês passado, os promotores disseram não haver provas de que o réu, Salman Muflehi, teria escolhido a vítima por ser asiática nem de que teria visto o rosto dela antes de esfaqueá-la. Posteriormente, Muflehi disse à polícia que não gostou do jeito que a vítima olhou para ele.

Muflehi migrou do Iêmen para Nova York quando adolescente. Sofre há anos com graves problemas de saúde mental, envolvendo-se em frequentes brigas e detenções, de acordo com entrevista com o irmão e a mãe dele. De acordo com eles, o réu nunca manifestou um ódio contra asiáticos.

EUA - asiáticos - crimes de ódio
Mulher presta homenagem a vítimas de atirador na região de Atlanta   Foto: Chang W. Lee/The New York Times

Ele já tinha sido preso por atacar o irmão e o pai. Recentemente, foi indiciado em fevereiro por dar um soco na cabeça de um homem hispânico, de acordo com a promotoria (equivocadamente, reportagens anteriores identificaram essa vítima como asiática).

Muflehi continua preso. Ele é acusado de quatro crimes, entre eles tentativa de homicídio. Se a acusação fosse designada como crime de ódio, a sentença mínima para o caso dele aumentaria de 5 para 8 anos de prisão.

A vítima de 36 anos, cuja identidade não foi revelada ao público, passou mais de duas semanas no hospital, sendo liberada no domingo.

Os investigadores recomendaram que o ataque com faca fosse classificado como crime de ódio, mas o gabinete do promotor do distrito de Manhattan discordou.

A organizadora comunitária Shirley Ng, do bairro chinês de Manhattan, defende o rebaixamento dos critérios para a tipificação de crimes de ódio e a eliminação da possibilidade de fiança, pois, na opinião dela, as autoridades são demasiadamente lenientes diante de casos envolvendo vítimas asiáticas.

“É muito fácil dizer que esses suspeitos sofrem de alguma doença mental”, disse Shirley. “Mas, às vezes, eles têm plena consciência de que pretendem ferir outras pessoas.”

Outros dizem que um policiamento mais rigoroso pode resultar em uma rivalidade entre americanos asiáticos e as comunidades de negros e latinos, inflamando as tensões raciais.

Wayne Ho, presidente do Conselho de Planejamento Sino-Americano, uma agência de serviços sociais, disse que muitos de seus colegas asiáticos sofreram abusos verbais durante a pandemia, mas preferiram não alertar a polícia por temer a possibilidade de os acusados, frequentemente pessoas não-brancas, serem maltratados.

“Perguntei a mim mesma, será que quero ver essa pessoa na cadeia?” disse Alice Wong, uma das colegas de Ho. “Colocar alguém na prisão não faz com que a pessoa deixe de odiar os outros.”

Reconhecendo esse desafio, algumas autoridades policiais pediram que aqueles que cometem crimes de ódio sejam encaminhados a aulas antirracistas como alternativa à prisão. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E RENATO PRELORENTZOU 

Acusação de Meghan sobre racismo na realeza estremece laços da comunidade britânica

Commonwealth, associação de de 54 países, não reagiu bem à repercussão da entrevista de Meghan Markle e Harry

Meghan Markle e príncipe Harry
Meghan Markle e príncipe Harry durante encontro com um grupo de surfistas, em outubro de 2018, para conscientizar sobre saúde mental na Austrália. Foto: Dominic Lipinski/Pool via AP

CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL – Em países com laços históricos com o Reino Unido, as alegações do príncipe Harry e de Meghan de que um membro da realeza tinha “preocupações” sobre a cor da pele de seu bebê levantaram o questionamento: essas nações ainda querem estar tão intimamente conectadas com o Reino Unido e sua família real? 

Esperava-se que a entrevista exporia mais divisões na família real, mas agora também está dividindo a Commonwealth, uma associação de 54 países, a maioria ex-colônias britânicas, unidos por laços históricos. Por décadas, a rainha Elizabeth II foi a força motriz por trás da comunidade.

Mas após a entrevista na TV, exibida nos EUA na véspera do Commonwealth Day, o ex-primeiro-ministro da Austrália Malcolm Turnbull citou-a como motivo para o país cortar seus laços constitucionais com a monarquia britânica. “Após o fim do reinado da rainha, é a hora de dizermos: OK, passamos por aquele divisor de águas”, afirmou. “Realmente queremos ter o rei ou rainha do Reino Unido automaticamente (como) nosso chefe de Estado?”

“É uma instituição vergonhosa. Foi responsável pela escravidão de milhões de nós que viemos aqui para trabalhar nas plantações. É parte de todo o legado do colonialismo e precisamos nos livrar dele”, afirmou Carolyn Cooper, professora aposentada da Universidade West Indies, na Jamaica. “O que deve significar para nós é que devemos nos livrar da rainha como chefe de Estado.” 

A entrevista não foi exibida na TV na Índia, país mais populoso da Commonwealth, com 1,3 bilhão de pessoas, mas foi coberta pela mídia e despertou reações negativas em relação à realeza. “Por trás de toda essa fachada elegante estão pensamentos que não são tão elegantes”, disse o escritor de moda Meenakshi Singh.

A advogada Sunaina Phul comentou que a Commonwealth “é relevante para a família real porque mostra que eles governaram muitos lugares. Mas não sei porque ainda fazemos parte dela”. 

O valor da comunidade já foi questionado antes, com críticos perguntando se países e pessoas uma vez colonizadas – e muitas vezes oprimidas – deveriam permanecer em tal associação com um ex-colonizador. O objetivo declarado é melhorar as relações internacionais, mas a relação do Reino Unido com os integrantes da associação foi obscurecida por erros diplomáticos e o legado do império.

Na África, repercussão negativa

A entrevista desta semana “abriu os olhos ainda mais” sobre possíveis méritos da comunidade, escreveu Nicholas Sengoba, um colunista de jornal em Uganda. Ele citou “questões não resolvidas” relacionadas aos abusos de colonialismo em Uganda e questionou se os chefes dos países da Commonwealth deveriam ter “orgulho de jantar” com membros da família real britânica após essas acusações.

Meghan disse na entrevista que um membro não identificado da família real havia levantado “preocupações” sobre a cor de seu bebê com Harry quando ela estava grávida de seu filho, Archie. Também disse que o palácio não a ajudou quando teve pensamentos suicidas. O Palácio de Buckingham disse na terça que as alegações de racismo eram “preocupantes” e seriam tratadas com seriedade. 

Meghan e Harry viajaram para a África do Sul em 2019, onde sua separação da família real ficou mais clara. Eles até falaram da possibilidade de viver lá. Mohammed Groenewald, que mostrou a eles uma mesquita na Cidade do Cabo, disse que as falas da entrevista despertaram memórias dos “racismo colonial dos britânicos”. 

Visita
O príncipe Harry e a duquesa de Sussex, Meghan Markle, são recebidos com dança na chegada para uma visita ao “Justice desk”, uma ONG no município de Nyanga, na Cidade do Cabo. Foto: Betram Malgas / AFP

No Quênia, ex-colônia em que a jovem princesa Elizabeth estava visitando em 1952 quando soube da morte de seu pai e, portanto, tornou-se rainha, a notícia da entrevista também não foi bem aceita. “Sentimos muita raiva de ver nossa irmã africana sendo assediada porque ela é negra”, disse Sylvia Wangari, moradora de Nairóbi, referindo-se a Meghan. Ela acrescentou que os quenianos em 1952 não mostraram a Elizabeth “qualquer (ato de) racismo”. “Ela permaneceu aqui sem qualquer discriminação’.” 

Primeiro-ministro canadense contemporiza

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, não quis comentar a entrevista. Ele disse que muitas instituições no Canadá são construídas em torno do colonialismo e racismo sistêmico, incluindo o Parlamento, e disse que a resposta é ouvir canadenses que enfrentam discriminação para que as instituições possam ser reparadas.

“A resposta não é de repente jogar fora todas as instituições”, disse. “Meu foco é superar esta pandemia. Se as pessoas quiserem falar mais tarde sobre mudança constitucional e mudança em nosso sistema de governo, tudo bem, e eles podem ter essas conversas, mas agora eu não estou tendo essas conversas.”

Jagmeet Singh, líder do opositor Novo Partido Democrático, disse que a monarquia “não é de forma alguma benéfica para os canadenses”. “E com o racismo sistêmico que vimos, parece estar naquela instituição também”, disse ele.  / AP

Por que o filho de Harry e Meghan, Archie, não é um príncipe?

Em entrevista a Oprah Winfrey, Meghan Markle afirmou que família real teria negado título a seu filho com Harry, mas resolução de 1917 define quem pode ser príncipe ou não

Príncipe Harry, Meghan Markle, Archie e o arcebispo Desmond Tutu. Foto: REUTERS/Toby Melville/Pool

LONDRES – Uma das afirmações mais dramáticas na entrevista do Príncipe Harry e Meghan Markle com Oprah Winfrey foi a alegação de que seu filho teve negado um título real, possivelmente por causa da cor de sua pele.

O filho de Harry e Meghan, o sétimo na linha de sucessão ao trono britânico, é Archie Mountbatten-Windsor. Enquanto isso, os filhos do irmão mais velho de Harry, o príncipe William, são o príncipe George, a princesa Charlotte e o príncipe Louis. Meghan disse que enquanto ela estava grávida “eles (alguém da família real) estavam dizendo que não queriam que ele fosse um príncipe, o que seria diferente do protocolo.”

Archie foi excluído pela família real?

rainha Elizabeth II tem nove bisnetos, incluindo Archie. Eles não são príncipes e princesas, exceto os três filhos do Príncipe William, que é o segundo na linha de sucessão ao trono e está destinado a ser rei um dia.

Um decreto emitido pelo rei George V, em 1917, limita os títulos de príncipe e princesa aos filhos do monarca (no caso, os filhos da rainha Elizabeth II, avó de Harry), filhos dos filhos do monarca (netos da rainha, casos de Harry e William) e “o filho mais velho vivo do filho mais velho do Príncipe de Gales”. Como William é o príncipe de Gales, seu primogênito, George, também recebeu o título real.

Bob Morris, da University College London, disse que a regra foi elaborada para diminuir o número cada vez maior de títulos de príncipe.

“A rainha Vitória teve nove filhos, todos príncipes e princesas, e depois eles tiveram filhos e assim por diante, e George V considerou que algo precisava ser feito para resolver a situação”, disse ele.

A rainha tem o poder de alterar as regras e, em 2012, decretou que todos os filhos do príncipe William e de sua esposa, Kate Middleton, não apenas o mais velho, seriam príncipes e princesas.

Sob a convenção George V, Archie não é um príncipe, mas se tornará quando o príncipe Charles, seu avô, assumir o trono.

Em sua entrevista, Meghan disse que “eles querem mudar a convenção para Archie”. Não está claro a que ela se referia, mas Morris disse que o príncipe Charles deixou claro “que favorece uma família real menor” quando assumir o trono.

Archie era elegível para um “título de cortesia” ao nascer, como lorde Archie Mountbatten-Windsor. Na época, foi relatado que Harry e Meghan escolheram não lhe dar um título. Mas Meghan disse a Winfrey que “não foi nossa decisão fazer”.

O título afeta a segurança de Archie?

Meghan expressou preocupação com o fato de que, sem um título, Archie “não receberia segurança”.

Mas um título real, como príncipe ou princesa, não traz proteção de segurança automaticamente. Membros da realeza que trabalham em tempo integral, incluindo Meghan e Harry antes de se mudarem para a América do Norte no ano passado, recebem guarda-costas da polícia, financiados pelo contribuinte. Membros da realeza sênior que têm empregos fora da família, como as filhas do príncipe Andrew, as princesas Beatrice e Eugenie, não têm.

O que diz o Palácio de Buckingham?

Palácio de Buckingham não respondeu a alegações específicas da entrevista. Em um comunicado, disse que “as questões levantadas, em particular a de raça, são preocupantes. Embora algumas lembranças possam variar, elas são levadas muito a sério e serão tratadas pela família em particular”./ AP

Um ‘Clube de Velhos’ domina o Japão. Mas os jovens estão dando um recado

As mudanças deverão chegar lentamente na sociedade japonesa, mas a mídia social ofereceu uma saída a uma geração mais jovem asfixiada por uma hierarquia rígida
Motoko Rich, The New York Times – Life/Style

Momoko Nojo, estudante de economia e co-autora de uma petição que ajudou a expulsar o líder octogenário das Olimpíadas de Tóquio por causa de comentários sexistas. Foto: Noriko Hayashi / The New York Times

TÓQUIO – Por um instante, pareceu que as pessoas mais poderosas do Japão fossem três mulheres de pouco mais de 20 anos.

Em um país em que os jovens precisam aprender a ficar quietos e a obedecer aos mais velhos da família, o trio de mulheres decidiu se manifestar depois que, este mês, o presidente do comitê da organização das Olimpíadas de Tóquio fez comentários de caráter sexista ao sugerir que as mulheres falam demais nas reuniões.

Uma petição online que as mulheres iniciaram cresceu a ponto de tornar-se uma ruidosa campanha pela mídia social que ajudou a afastar o líder das Olimpíadas Yoshiro Mori, 83, e impedir que fosse escolhido outro octogenário para suceder-lhe. Atualmente, sua substituta é uma mulher mais de 25 anos mais jovem do que ele: Seiko Hashimoto, ex-campeã olímpica e atualmente legisladora.

Para alguns, o momento foi um sinal de esperança de que a rígida hierarquia japonesa baseada na idade possa ser quebrada. Neste caso, um mais velho foi forçado a receber ordens de jovens, que se sentiam asfixiados por uma sociedade em que os melhores empregos muitas vezes são dados de acordo com os anos de trabalho e não com o merecimento, e os mais poderosos líderes políticos e dos negócios têm mais de 70, 80 ou até 90 anos.

“Acho que isto encoraja nós jovens a nos conscientizarmos de que queremos mudar estas situações na sociedade”, afirmou Momoko Nojo, 22, que vai se formar em economia na Universidade Keio de Tóquio. Ele foi um dos três autores da petição que recebeu mais de 150 mil assinaturas. “Portanto, isto se tornou a nossa fonte de energia para continuarmos empreendendo estas ações”.

Não faz muito tempo, Mori poderia esperar manter o seu emprego somente com base em sua antiguidade. Mas agora, não há como deixar de considerar os sentimentos do público. Quando tentou segurar o próprio posto com um pedido de desculpas, ele se deu conta de que as pessoas estavam pensando em invocar o termo japonês, “rugai”, usado para descrever uma pessoa idosa considerada um obstáculo ou um fardo.

Entretanto, enquanto este rompimento geracional passa a atrair as atenções, mudanças mais amplas provavelmente irão ocorrer lentamente. Embora as atitudes estejam evoluindo e os mais jovens descubram que são donos de uma voz à qual não estão acostumados na mídia social, só tem havido lampejos de mudança no local de trabalho, e as camadas mais altas do governo do Japão e das corporações continuam firmemente o reino de homens de cabelos grisalhos.

“Está ocorrendo uma mudança geracional na sociedade civil”, afirmou Koichi Nakano, cientista político da Sophia University de Tóquio. “Mas nos corredores do poder na política, nos negócios e nas organizações em geral, o pulso de ferro do clube dos velhos se mantém firme”.

Até certo ponto, a demografia dita a hege que 25% da população tem acima de 65 anos, a maior proporção do mundo. Os japoneses em geral vivem mais e mais saudáveis do que muitos povos em outros países, e a mídia está repleta de exemplos de vibrantes artesãos que permanecem ativos depois de setenta e oitenta anos. Mas às vezes, prevalecem os valores ultrapassados da geração mais antiga.

E enquanto a idade em muitos casos traga consigo valiosas experiências, no Japão frequentemente é a credencial que supera todas as outras.

“A antiguidade é ainda mais importante do que a capacidade”, disse Jesper Koll, assessor sênior da empresa de investimentos Wisdom Tree que viveu no Japão mais de trinta anos. “O Japão é campeão mundial em impor a autoridades às pessoas, e a autoridade não está na capacidade, mas predominantemente na idade”.

O sistema de antiguidade se mantém em parte porque proporciona uma sensação de segurança. Os trabalhadores conhecem o caminho para frente;  os valores são  inculcados muito antes do seu ingresso na força de trabalho, e as hierarquias vigoram até entre as crianças.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Ryutaro Yoshioka, que trabalha em uma grande empresa de marketing. Muitos jovens japoneses estão se rebelando contra o sistema de antiguidade profundamente arraigado do país.  Foto: Noriko Hayashi / The New York Times

“Quando estava na escola, diziam-nos que se você ouvir os senpai (os mais experientes) agora, mais tarde você se tornará um senpai, e as pessoas terão de ouvir você”, disse Ryutaro Yoshioka, 27, usando a palavra que define os mentores mais velhos. Do mesmo modo, no local de trabalho, acrescentou, os funcionários que “permanecem na companhia acabarão ascendendo”.

Agora que ele trabalha em uma grande empresa de marketing em Tóquio, percebe as limitações deste sistema.

“Mesmo que você não tenha grande capacidade, há pessoas que estão na companhia há 10, 20 ou 30 anos que se encontram nas mais altas posições”, afirmou. “E com estas pessoas no poder existe uma tendência quando elas dizem alguma coisa que faz com que todos os outros na sala simplesmente calem e percebam que não podem se manifestar”.

Esta cultura cerceou a economia japonesa, segundo alguns analistas, premiando a obediência e eliminando os incentivos para assumir riscos.

“Somos um país com uma população que está encolhendo, uma economia quando muito estagnada e pouca inovação”, afirmou Nakano, da Universidade Sofia. “O Japão produziu os walkmen, e agora compra aspiradores de pó da Grã-Bretanha. A maneira como o Japão parou de inovar é quase cômica.

Embora os empregadores tentem acabar com o sistema tradicional do emprego vitalício surgido depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte das grandes companhias continua contratando novos recrutas mediante um sistema conhecido como shukatsu em que os trabalhadores entram como todo um exército assim que terminam a universidade e se supõe que devam ficar até a aposentadoria.

Muitos jovens que lamentam o fato de não poderem assumir papéis de liderança até uma idade avançada, resignam-se e acabam aceitando a maneira como as coisas funcionam. Outros não veem nenhuma razão para fazer algo que possa ameaçar a estabilidade do sistema atual em um país com um reduzido crescimento da economia, mas uma riqueza sólida e uma vida em grande parte confortável.

“Nós sentimos certa frustração”, disse Kayo Shigehisa, 22, que este ano se formará na Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto, e planeja começar a ensinar em uma creche, “mas este é o nosso destino como geração jovem”.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Kaisei Sugawara, engenheiro de uma das maiores empresas de segurança do Japão. Foto: Noriko Hayashi / The New York Times

Alguns jovens trabalhadores dizem perceber sinais de mudança, mesmo em companhias mais tradicionais. Kaisei Sugawara, 22, ingressou em uma das maiores empresas de segurança como engenheiro, no ano passado, recrutado em um programa para alunos recém-formados em universidades com experiência internacional. Ele irá trabalhar no exterior, afirmou, no seu quarto ano na companhia, muito mais cedo do que nas gerações anteriores.

Talvez o Japão seja obrigado a aceitar estas mudanças, embora o país não queira isto. Considerando o declínio de sua população,- o Japão registrou o menor número de nascimentos já ocorrido em 2020 – o país já começa a relaxar  sua notória insularidade, inclusive antes da pandemia, convidando mais trabalhadores estrangeiros. Mas, o Japão poderá ter dificuldade para atrair as pessoas mais talentosas, se não premiar o mérito ou não der aos funcionários  jovens as chances de tentarem novas ideias.

Para a mudança geracional continuar no Japão, ela poderá ocorrer silenciosamente quando os jovens reformularem o mundo que os seus antepassados lhes transmitiram simplesmente fazendo escolhas diferentes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA