Na China, decotes e tatuagens estão na mira dos censores

Brincos masculinos também são alvo do governo; especialistas temem ‘infantilização’ da cultura do país
Li Yuan, The New York Times

A China está censurando tatuagens, brincos, decotes e programas de televisão que não refletem os ideis do Partido Comunista. Foto: Sam Hodgson/The New York Times

A China está travando uma guerra contra a diversão. O mais recente alvo são os brincos masculinos. Nos últimos meses, censores têm borrado as orelhas de alguns astros do pop quando aparecem na televisão e na internet, para evitar que seus brincos e joias sejam um exemplo demasiadamente feminino para os meninos do país.

A proibição ilustrou a crescente interferência do Partido Comunista nos menores detalhes da vida chinesa. Jogadores de futebol vestem mangas longas para cobrir as tatuagens. Em uma convenção de jogos eletrônicos, as mulheres receberam instrução para cobrir o decote. Os rappers só podem abordar temas como paz e harmonia.

Essa sanitização enfurece a universitária Rae Fan, 22, da região de Guangxi. Alguns de seus filmes americanos e sul-coreanos favoritos desapareceram das plataformas de transmissão via streaming. Para piorar a situação, as amigas parecem indiferentes. Os pais disseram que é melhor ela deixar de assistir a conteúdo desse tipo. “O objetivo desse tipo de controle é garantir que todos compartilhem dos mesmos valores”, disse Rae. “Assim, somos mais fáceis de administrar”.

Os esforços do Partido Comunista no sentido de fomentar “valores centrais do socialismo” – patriotismo, harmonia e civilidade, entre outros – estão ganhando força. O conteúdo que celebra o hedonismo ou o individualismo é removido. Em questão de poucos anos, os jovens de hoje terão visto menos conteúdo sem filtragem do que pessoas cinco anos mais novas.

“Para cultivar uma nova geração que vai sustentar nos ombros a responsabilidade do rejuvenescimento nacional, temos de resistir à erosão trazida pela cultura indecente”, publicou em 2018 a agência de notícias oficial Xinhua em um comentário criticando os chamados jovens ídolos afeminados da China. “Mais importante, temos de nutrir uma cultura de destaque”.

Deturpando programas de TV

A China corre o risco de infantilizar sua cultura. Não há sistema de classificação etária no país, o que significa que tudo deve ser adequado para um público de 12 anos. As cenas de sexo foram cortadas de Game of Thrones, acabando com o sentido da trama. 

Nos anos 1980, o Partido Comunista não gostava da música pop, das calças largas nem das histórias de amor. O primeiro beijo no cinema da China moderna só ocorreu em 1980. Mas, nas quatro décadas seguintes, os espectadores chineses conquistaram mais liberdade de expressão.

Dois anos atrás, as emissoras começaram a borrar as tatuagens. Um seriado policial censurou os cadáveres. Então, homens de cabelo comprido tiveram o rabo-de-cavalo borrado. A técnica é usada tão amplamente que ganhou nome: “aplicação maciça de mosaicos”. A indústria do entretenimento não tem escolha. No ano passado, as autoridades fecharam mais de 6 mil páginas na internet e 2 milhões de contas online.

A nítida perda de intensidade do primeiro programa de hip-hop chinês, The Rap of China, é um caso exemplar. O conteúdo não fazia críticas à sociedade. Ainda assim, os rappers se insultaram mutuamente e discutiram com os juízes na primeira temporada, levada ao ar em 2017, mostrando ao público um pouco da rebeldia do hip-hop. Então veio a repressão. Quando a segunda temporada foi ao ar, os participantes faziam versos falando de amor, dos seus sonhos e da família.

Para Lippi Zhao, fã de hip-hop de Xi’an, a segunda temporada foi ao mesmo tempo fraca e irônica. Os dois finalistas eram uighures, etnia predominantemente muçulmana que vive em Xinjiang. As autoridades locais obrigaram até 1 milhão de muçulmanos a viverem em campos de detenção. The Rap of China nem tocou no assunto.

“É claro que eles sabem a respeito daquilo que seu povo está passando”, disse Zhao. “Mas tiveram de fazer de tudo para ignorar o elefante na sala enquanto participavam do programa”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Oprah Winfrey doará R$ 7,7 milhões para ajudar a revitalizar Porto Rico

Dinheiro será destinado para auxiliar famílias afetadas pelo furacão Maria e preservar o patrimônio artístico e cultural do país

Oprah Winfrey informou na segunda-feira, 8, que doará 2 milhões de dólares (o equivalente a R$ 7,7 milhões) para a revitalização da cultura, beleza natural e história de Porto Rico.

Metade do dinheiro foi para o programa de resgate e recuperação da Federação Hispânica, o Unidos, a fim de ajudar na implementação de soluções para os problemas causados pelo furacão Maria no país, em 2017. O projeto tem o objetivo de atender às necessidades imediatas e de longo prazo das famílias e comunidades de Porto Rico.

A outra parte da doação será destinada ao Fundo Flamboyán para as Artes, a fim de proteger o acervo artístico, cultural e criativo da ilha.

“As necessidades de Porto Rico e de nossos compatriotas norte-americanos após os trágicos furacões ainda são muito reais, e os trabalhos que já foram feito por essas duas organizações e outras dentro e fora da ilha estão longe de terminar”, disse Oprah Winfrey em nota da Federação Hispânica.

A falsa herdeira que enganou a alta sociedade de NY e deixou um rastro de golpes no valor de milhares de dólares

Jovem vestia roupas de grife, viajava em jatos privados e distribuía gorjetas de US$ 100
Alessandra Corrêa

Anna Sorokin, que se apresentava como Anna Delvey – Reprodução/Instagram

WINSTON-SALEM (EUA) –Ela se apresentava como Anna Delvey, herdeira alemã de uma fortuna de 60 milhões de euros (cerca de R$ 261 milhões), e em pouco tempo conquistou a alta sociedade de Nova York. Morava em hotéis cinco estrelas, frequentava festas exclusivas, vestia roupas de grife, viajava em jatos privados e distribuía gorjetas de US$ 100 (R$ 388).

Mas segundo o gabinete do procurador de Manhattan, Cyrus Vance, seu nome verdadeiro é Anna Sorokin, ela tem 28 anos, nasceu na Rússia e não tem dinheiro algum.

A trajetória da falsa herdeira que virou queridinha da elite nova-iorquina e ao longo de dez meses deixou um rastro de vítimas de calotes no valor de US$ 275 mil (cerca de R$ 1,06 milhão) tem sido detalhada em reportagens na imprensa americana e em breve deve virar série da Netflix criada por Shonda Rhimes, a produtora por trás de sucessos como “Grey’s Anatomy” e “Scandal”.

“Sua suposta conduta criminal vai de fraude com cheques a centenas de milhares de dólares furtados por meio de empréstimos e inclui esquemas que resultaram em uma viagem gratuita ao Marrocos e voos em jatos privados”, disse Vance ao apresentar acusação formal contra Sorokin, em outubro de 2017.

Presa desde 2017 na ilha de Rikers, onde fica o principal complexo penitenciário de Nova York, ela agora responde a julgamento por furto qualificado e outras acusações.

SÉRIE DE GOLPES

Segundo o gabinete do procurador de Manhattan, Sorokin lesou hotéis, empresas, bancos e amigos em uma série de golpes entre novembro de 2016 e agosto de 2017. Ela circulava com desenvoltura pelo mundo da moda e das artes plásticas e dizia ter planos de criar um clube privado de artes, que se chamaria Fundação Anna Delvey.

Ao justificar a necessidade de empréstimos, alegava dificuldades burocráticas de movimentar sua fortuna da Europa para os Estados Unidos. Em novembro de 2016, usou extratos e documentos bancários falsos na tentativa de obter empréstimo de US$ 22 milhões (cerca de R$ 85 milhões) para abrir o clube de artes em Manhattan. O valor foi negado, mas ela obteve um adiantamento de US$ 100 mil (cerca de R$ 387 mil).

Sorokin usava cheques sem fundo para movimentar dinheiro entre contas de bancos diferentes e então fazer retiradas antes que o cheque fosse devolvido. Em certa ocasião alugou um jato particular no valor de US$ 35 mil (cerca de R$ 136 mil) e nunca pagou a empresa proprietária.

Uma de suas vítimas, Rachel Williams, relatou em artigo para a revista New York Magazine como foi convidada por Sorokin para uma viagem ao Marrocos com todas as despesas pagas. Quando o cartão de débito de Sorokin foi recusado, e ela pediu a Williams que usasse o seu, prometendo que reembolsaria a amiga.

Williams pagou mais de US$ 62 mil (cerca de R$ 240 mil) durante a viagem, incluindo o aluguel de uma vila de luxo com piscina privada e mordomo. Nunca foi reembolsada.

Anna Sorokin mostrava registros de uma vida de luxo em posts em redes sociais – Reprodução/Instagram

DEFESA

No julgamento em Nova York, iniciado no fim de março, o advogado de defesa, Todd Spodek, disse ao júri que sua cliente estava apenas buscando ganhar tempo até que pudesse criar um negócio bem-sucedido e pagar suas dívidas.

A acusação pretende chamar cerca de 25 testemunhas durante o julgamento, previsto para se estender até a metade do mês.

Sorokin tem chamado a atenção pelas roupas que vem vestindo no tribunal, de grifes como Yves Saint Laurent e Miu Miu. Segundo relatos da imprensa, ela conta com a ajuda de uma estilista.

Em duas ocasiões, chegou a se atrasar em meio a uma crise por não concordar com as roupas que recebeu para vestir, e foi repreendida pela juíza.

Caso seja condenada, Sorokin pode pegar até 15 anos de prisão. Ela também corre o risco de ser deportada para a Alemanha, por ter permanecido nos Estados Unidos após o fim de seu visto.
BBC NEWS BRASIL

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Em nome de RENATO CEZARIO

Chicago elege primeira mulher negra e homossexual para prefeita da cidade

Ex-promotora federal, democrata Lori Lightfoot lidará com taxa recorde de homicídio
Ligia Hougland

A nova prefeita de Chicago, Lori Lightfoot – REUTERS

WASHINGTON – Pela primeira vez, uma mulher negra e assumidamente homossexual foi eleita prefeita de Chicago, a terceira maior cidade dos Estados Unidos e uma das mais violentas do país. A ex-promotora federal democrata Lori Lightfoot venceu, com 74% dos votos, a adversária do mesmo partido Toni Preckwinckle, que recebeu 26% dos votos.

Independentemente de quem vencesse a eleição para a prefeitura de Chicago, que foi realizada nesta terça-feira (2), essa pessoa faria história como primeira prefeita negra da cidade. Lightfoot, de 56 anos, é a segunda mulher a conquistar a prefeitura da “cidade dos ventos”, como Chicago é conhecida, depois de Jane Byrne, que ocupou o cargo de 1979 a 1983.

A antiga promotora federal foi indicada para importantes cargos de supervisão da polícia durante o governo do atual prefeito, Rahm Emanuel, que ocupou posições de liderança nos governos de Bill Clinton e Barak Obama, apesar de seu temperamento explosivo.

Lightfoot era a favorita do atual prefeito e insider da política de Chicago, que é dominada pelo Partido Democrata, mas não tem experiência política e traz novos ares à cidade. Além de ser a primeira prefeita negra da terceira maior cidade americana, a promotora é lésbica e casada com uma mulher —o casal tem uma filha de 10 anos.

Ao contrário de Preckwinkle, que apresentou uma plataforma mais progressista, ligada a sindicatos e com críticas duras à suposta atuação com viés racista da polícia, a nova prefeita promete ser conciliadora e representar brancos, negros, latinos, além de manter um relacionamento próximo e não confrontador com o departamento de polícia.

De modo geral, entretanto, as duas candidatas apresentaram plataformas bastante semelhantes com foco em educação e segurança, duas áreas que seriam aprimoradas principalmente por meio de investimentos nas regiões mais necessitadas da cidade.

ESCÂNDALO DO ATOR JUSSIE SMOLLETT PESOU NA ELEIÇÃO

Lightfoot também diz que vai por fim à corrupção presente na administração do município, algo que no momento é foco de uma investigação. Um dos fatores que contribuiu com a ampla vitória da promotora sobre sua rival foi que grande parte da população e o departamento de polícia da cidade ficaram revoltados com o escândalo protagonizado pelo ator negro e gay Jussie Smollett, do seriado de televisão Empire.

Smollett foi indiciado por ter encenado um crime de ódio ao pagar dois nigerianos para fingir que o atacavam e, depois disso, dizer que havia sido agredido por brancos, racistas e homofóbicos que apoiavam Donald Trump. Misteriosamente, o ator conseguiu que todas as suas 16 acusações fossem eliminadas, graças à provável ajuda da procuradora do estado, Kim Foxx.

Preckwinkle foi uma das impulsoras da carreira política da procuradora. O suposto ataque envolvendo Smollett, em janeiro, mobilizou uma grande força policial e causou ainda mais tensão nas relações entre os brancos e os negros de Chicago. O caso acabou ajudando Lightfoot e sua promessa de combater a corrupção.

O ator Jussie Smollett – REUTERS

DESAFIOS

A nova prefeita não vai ter descanso se quiser mesmo resolver os problemas da cidade de quase três milhões de habitantes. Chicago é campeã em homicídios nos Estados Unidos, com cerca de 540 assassinatos por ano, e é uma das cidades americanas com maior disparidade econômica e social entre os grupos raciais.

Brancos, negros e latinos têm praticamente a mesma representação demográfica na cidade. Cada um desses grupos representa cerca de 30% da população, mas os negros e os latinos ainda vivem como minorias em Chicago, pois não contam com as mesmas perspectivas socioeconômicas dos brancos.

APAZIGUAMENTO DA TENSÃO RACIAL EM CHICAGO É PRIORIDADE PARA 2020

Há uma certa esperança de que a prefeita promova uma nova aliança entre os negros e os latinos da cidade, como aconteceu na década de 1980. A Coalizão do Arco-íris, como era conhecida a parceria entre negros e latinos, teve um papel fundamental na eleição do primeiro prefeito negro de Chicago, Harold Washington, em 1983.

No entanto, a nova prefeita vai enfrentar desafios que não existiam há 30 anos, como problemas de infraestrutura, falta de recursos nas escolas públicas, necessidade de reforma da polícia e cortes de orçamento, além de ter de continuar a satisfazer as populações de maioria branca que ocupam as partes da cidade que muito prosperaram durante os dois mandatos de Emanuel.

Para os democratas seria vantajoso que Lightfoot desse prioridade à promoção desse tipo de aliança em Chicago, servindo assim como um modelo a ser aplicado em âmbito nacional, pois estão apostando em uma forte união entre negros e latinos para derrotar Donald Trump na disputa pela Casa Branca em 2020.

Keanu Reeves visita SP e se reúne com prefeito e governador para filmar produções na cidade

Americano quer gravar série de TV na capital

O governador de São Paulo, João Doria, participa de reunião com o ator norte-americano Keanu Reeves, realizada no Palácio dos Bandeirantes – Gilberto Marques/Governo do Estado de São Paulo

O ator Keanu Reeves, 54, desembarcou nesta terça-feira (2) em São Paulo para encontros com o prefeito da cidade, Bruno Covas (PSDB), e com o governador, João Doria (PSDB).

Da reunião com Covas também participaram o secretário de cultura Alê Youssef e a presidente da SPcine e cineasta Laís Bodanzky. O ator americano estuda trazer as filmagens de uma nova série, produzida por ele, a São Paulo. 

Por volta das 12h desta quarta, o ator se encontrou com João Doria, mas o motivo da reunião ainda não foi divulgado. O ator já passeou pela cidade e tirou selfies com fãs e com funcionários do Santo Grão Café, na Oscar Freire. 

São Paulo Film Commission foi a empresa que também trouxe ao Brasil um dos episódios da série Sense8, da Netflix. 

Há alguns anos, Reeves anunciou que estaria produzindo uma série de TV chamada “Rain”, em que ele mesmo seria o protagonista. Não há a confirmação de que será esta a produção gravada na capital paulista. 

Baseado nos livros de Barry Eisler, o seriado contará a história de um assassino de aluguel mestiço, John Rain, que está a procura de sua verdadeira identidade.

“Como um grande fã do trabalho de Barry, estou muito feliz de ter a oportunidade de trazer o seu personagem icônico e seu incrível mundo à vida”, disse Reeves à revista “Variety”.

O time de produção conta também com Barry Eislerm, Leitch e Stahelski. A série está sendo produzida pela Slingshot Global Media e ainda não tem data prevista de estreia.

David Ellender, CEO da produtora, disse à revista que estão muito animados de trabalharem com um ator tão talentoso e dedicado como Keanu.

Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos

O termo hikikomori se refere tanto à condição quanto às pessoas que são afetadas por ela, aquelas que vivem ‘isoladas do mundo’ – Getty Images

No nosso mundo hiperconectado pode ser difícil se desconectar. O fluxo interminável de emails, tuítes, curtidas, comentários e fotos nos mantém constantemente “ligados” à vida moderna.

Mas no Japão, meio milhão de pessoas vivem isoladas. Elas são conhecidas como “hikikomori”– na prática, pessoas solitárias que se afastam de todo o contato social e, muitas vezes, ficam anos sem sair de casa.

Uma pesquisa do governo identificou cerca de 541 mil pessoas (1,57% da população) no país vivendo nessa condição, mas muitos especialistas acreditam que o número total pode ser muito maior, porque pode levar anos até que peçam ajuda.

O problema não está, porém, restrito ao Japão como se acreditava. Ele também tem sido reportado em outras partes do mundo.1

Na vizinha Coreia do Sul, uma análise de 2005 estimou que havia cerca de 33 mil adolescentes isolados socialmente (0,3% da população); em Hong Kong, uma pesquisa de 2014 estimou que tal isolamento alcançava 1,9% da população.

Mas isso não ocorre apenas na Ásia; também se dá em países como Estados Unidos, Espanha, Itália e França, por exemplo.

E um tema controverso (mas comum) nas pesquisas é a influência da tecnologia moderna no isolamento. Ainda que não haja estudos suficientes comprovando uma relação concreta entre esses dois fenômenos, especialistas dizem estar em alerta.

O QUE É HIKIKOMORI?

O termo hikikomori se refere tanto à condição quanto às pessoas vítimas dela e foi cunhado pelo psicólogo japonês Tamaki Saito em seu livro Isolamento social: uma adolescência sem fim, de 1998.

Hoje, esse conceito é definido como uma combinação de isolamento físico e social somada com um sofrimento psicológico que pode durar seis meses ou mais.

O transtorno foi considerado, inicialmente, cultural. E há razões para se pensar que a sociedade japonesa é especialmente suscetível a ele, diz Takahiro Kato, professor de psiquiatria na Universidade de Kyushu, na região Fukuoka, e pesquisador do tema.

“No Japão há um ditado muito famoso que diz: ‘O prego que se destaca leva martelada'”, diz Kato. “E as rígidas normas sociais, as altas expectativas manifestadas pelos pais e a ‘cultura da vergonha’ fazem com que a sociedade japonesa seja terreno fértil para sentimentos de inadequação e o desejo de querer se esconder do mundo.”

‘EU NÃO QUERIA VER NINGUÉM’

Tomoki *, de 29 anos, deixou o emprego em 2015. Ele me diz que estava decidido a voltar a trabalhar e que regularmente saía em busca de vaga. Também participava de um grupo religioso quase diariamente, mas o líder deste grupo começou a criticar publicamente sua atitude e incapacidade de conseguir trabalho.

Quando ele parou de ir às sessões religiosas, o líder passou a ligar para ele várias vezes por semana. Essa pressão, aliada à que vinha da família, acabaram empurrando ele para um completo isolamento.

“Eu me culpava”, diz ele. “Eu não queria ver ninguém, não queria sair.”

O centro Yokayoka, que oferece apoio aos hikikomorisna cidade de Fukuoka, realiza sessões em que os integrantes do grupo descrevem a pressão que sentem em suas vidas.

“A escola é uma monocultura, todo mundo tem que ter a mesma opinião”, disse um dos visitantes, Haru, de 34 anos. “Se alguém diz algo (diferente) está fora do grupo”.

Corresponder às expectativas da sociedade japonesa também ficou mais difícil. A estagnação econômica e a globalização estão fazendo com que as tradições coletivistas e hierárquicas do Japão entrem em conflito com a visão de mundo mais individualista e competitiva do Ocidente, diz Kato.

E os pais japoneses sentem uma forte obrigação de apoiar os filhos independentemente de qualquer coisa, e a vergonha, muitas vezes, os impede de procurar ajuda, explica o psicólogo.

Mas o crescente número de casos fora do Japão está levando muitos a questionarem se se trata de uma questão puramente cultural. Em um estudo de 2015, Kato e colegas pesquisadores nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na Índia encontraram casos em seus países que correspondiam aos critérios clínicos.

Alan Teo, principal autor do estudo, ensina psiquiatria na Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, nos EUA, e diz que é frequentemente contatado por americanos que acreditam sofrer dessa condição.

“As pessoas pressupõem que isso deve ser mais comum no Japão”, explica ele. “Mas se você medir oficialmente o quão comum é, pode encontrar dados surpreendentes.”

DO JAPÃO À ESPANHA

A psiquiatra espanhola Ángeles Malagón Amor, do Hospital del Mar, se deparou com o problema durante um programa de tratamento em domicílio em Barcelona. Ela e seus colegas encontravam frequentemente pacientes com períodos prolongados de isolamento social, o que a levou à literatura sobre os hikikomori do Japão.

Entre 2008 e 2014, eles encontraram 190 casos  os dados mais recentes. Mas isso foi antes de o programa ser expandido e a médica tem certeza de que eles são apenas a ponta do iceberg.

“Na época, éramos dois psiquiatras e duas enfermeiras para uma população de mais de um milhão de pessoas”, diz ela. “Eu acredito que devem existir muito mais casos.”

Entretanto, estabelecer uma explicação mais detalhada é muito difícil.

Muitos estudos dizem que o hikikomori está relacionado a distúrbios psiquiátricos ou de desenvolvimento que podem variar em tipo e gravidade. Também pode ser desencadeado por estresse relacionado ao trabalho ou famílias desestruturadas.

“Uma das razões pelas quais o hikikomori é fascinante é que não há uma única explicação”, diz Alan Teo. “Existem muitos fatores que influenciam.”

Outro fator frequentemente discutido é o papel de tecnologias como a internet, as redes sociais e videogames, fonte de polêmicos debates nas pesquisas sobre saúde mental.

USO DE TECNOLOGIA PODE APROFUNDAR ISOLAMENTO

TaeYoung Choi, psiquiatra e pesquisador que trabalhou no estudo pela Universidade Católica de Daegu na Coreia do Sul, não acredita que a tecnologia necessariamente cause o isolamento, mas que ela é capaz de reforçá-lo e de aprofundá-lo. “Algumas pessoas podem ficar mais isoladas usando a tecnologia, o que torna esse isolamento mais resistente e grave”, diz ele.

Em um estudo de 2018 sobre casos de hikikomori em Barcelona, ​​Malagon-Amor, do Hospital del Mar, disse que em apenas 30% foi identificado vício em internet. Mas eles descobriram que o grupo com vício tendia a ser mais jovem– a idade média deles era de 24 anos, enquanto a média dos 190 casos analisados era de 39.

“Pelo que vimos até agora, isso não é um problema tão grande (hoje). Mas acredito que vai ficar muito maior nos próximos anos nos casos de isolamento social de jovens com vício em internet”, diz a psiquiatra.

O efeito da tecnologia também poderia ser mais sutil, diz Kato. Jogos de computador reescreveram as regras do jogo como hábito social coletivo, com crianças passando cada vez mais tempo em ambientes virtuais controlados do que no mundo real imprevisível. Ao mesmo tempo, internet, smartphones e redes sociais têm tornado o contato indireto entre as pessoas muito mais comum do que o cara a cara.

Para Choi, pesquisador da Universidade Católica de Daegu, “a tecnologia em si não pode estar 100% por trás do agravamento do hikikomori como um fenômeno mundial”. Mas ele considera que nossa crescente capacidade de realizar atividades como comprar, jogar e socializar sem interações do mundo real poderia estar exacerbando o isolamento social.

Com base em estudos conduzidos por seu laboratório, sem ligação com o hikikomori, o pesquisador americano Alan Teo diz que, embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para traçar qualquer relação conclusiva a esse respeito, o contato cara a cara, seja pessoalmente ou por vídeo-chat, representa um menor risco de depressão, comparado ao contato por telefone, email e rede social.

“Se as interações online viram substitutas para as interações cara a cara, eu acho que a pesquisa que eu fiz e as que outras pessoas fizeram indicam que isso é problemático”, diz ele.

‘NÃO DEMONIZAR’

No entanto, é importante não demonizar a tecnologia, diz Teo. As redes sociais e o email não são causas diretas de problemas mentais; eles são veículos de comunicação que podem ser usados ​​tanto de maneira positiva como negativa.

A internet, em especial, oferece uma janela para pesquisas sobre a vida dos hikikomori.

Um método usado para chegar a casos não explícitos de adolescentes socialmente isolados foi o uso de aplicativos de redes sociais, como o WeChat e o Weibo, em um estudo desenvolvido por Teo e outros pesquisadores na China, no ano passado. Eles alcançaram 137 pessoas, um quinto das quais experimentando algum nível de isolamento.

A crescente interligação entre os mundos online e offline também poderia oferecer maneiras de facilitar o retorno dos hikikomori a um cotidiano normal. Em 2016, Kato publicou um estudo de caso sobre um paciente que de repente começou a sair de casa diariamente após baixar o jogo Pokemon Go, da Nintendo.

O jogo usa realidade aumentada para capturar criaturas virtuais no mundo real. Kato diz que este tipo de jogo pode ser útil em centros de ajuda para os hikikomori.

Ele também começou a trabalhar com uma empresa japonesa para criar um robô que possa reintroduzir o contato social na vida dessas pessoas, em um ambiente controlado.

Mas pode haver formas menos tecnológicas de ajudar os hikikomori.

Shinichiro Matsuguma, estudante de doutorado na Universidade de Medicina de Keio, em Tóquio, especializado em psicologia positiva, criou um centro de reabilitação de hikikomoris que foca nos pontos fortes deles para melhorar sua autoestima.

A maioria dos pacientes joga videogames, então a metodologia do tratamento envolve discutir estilos de jogo e motivações para identificar qualidades como trabalho em equipe, estratégia ou liderança.

“Muita gente, inclusive seus pais, acham que os hikikomori não fazem nada. Mas na minha perspectiva eles estão desenvolvendo seus pontos fortes através de videogames”, disse ele à BBC. “E eu sempre digo a eles que isso se aplica a diferentes áreas da vida.”

ACONSELHAMENTO À DISTÂNCIA

Os especialistas concordam que o contato social direto e as terapias intensivas não podem ser substituídos.

Yoko Honda, que dirige o Centro de Saúde Mental e Bem-Estar de Fukuoka, diz que o governo japonês, entretanto, têm pressionado os especialistas para que usem as redes sociais para oferecer aconselhamento à distância aos hikikomori. Eles têm, porém, resistido a adotar essa alternativa.

“Só um tuíte não é o bastante para expressar nossa ansiedade ou nossas emoções”, diz a especialista. Ela concorda, entretanto, que esses canais poderiam ser úteis para alcançar novos pacientes.

Além de psicoterapia e medicação para tratar qualquer transtorno psicológico subjacente, uma parte central de sua estratégia é o aconselhamento familiar para corrigir lares desestruturados.

O centro de apoio Yokayoka também oferece um local seguro para que hikikomoris que estão no caminho da recuperação conheçam outros na mesma condição e reaprendam habilidades sociais atrofiadas. A diretora da instituição diz, entretanto, que a natureza variada dos casos torna o tratamento difícil.

“Esperamos dar assistência personalizada a todos esses hikikomori”, diz ela. “Mas isso sempre demanda muito trabalho e muito tempo”.

‘PACIENTES MUITO FRÁGEIS’

Malagón-Amor comprovou com seu estudo de 12 meses sobre os hikikomori de Barcelona que aqueles que receberam mais terapias intensivas, em casa ou no hospital, reagiram melhor. “Serviços ambulatoriais menos intensivos foram relacionados a um índice maior de abandono do tratamento e, muitas vezes, pioravam o isolamento. “Eles são pacientes muito frágeis”, diz ela.

A especialista também acredita que o isolamento social poderia ser um sintoma de outras condições, como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático, e que o Ocidente poderia aprender muito com a experiência no Japão.

Teo, por sua vez, espera que as pesquisas sobre os hikikomori nos permitam compreender a importância das conexões sociais para nossa saúde física e mental.

“Quando falo com os pais de um hikikomori, fica muito claro para mim que o isolamento social está causando enormes impactos negativos – ele afeta o indivíduo, a família dele e outras pessoas”, diz.

“Não temos prestado atenção suficiente na medicina aos problemas de conexão social. E eu acredito que agora com os hikikomori, com mais foco sobre a solidão, estamos finalmente começando a analisar esses problemas como questões de saúde.” [EDD GENT]

* Os nomes de todos os “hikikomori” foram alterados nesta reportagem para proteger suas identidades

BBC NEWS BRASIL