Aos 300 anos, Caffè Florian, o mais antigo de Veneza luta para não fechar as portas na pandemia

Antigo ponto de encontro de artistas e intelectuais, Caffè Florian não está conseguindo sobreviver à crie
AFP

Frequentadores do Caffè Florian aproveitam as mesas ao ar livre na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores do Caffè Florian aproveitam as mesas ao ar livre na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP

O lendário Caffè Florian, o mais antigo de Veneza e ponto de encontro de intelectuais, artistas e políticos, ameaça fechar para sempre após 300 anos de funcionamento por causa da crise gerada pela pandemia e pelas inundações de 2019.

— Se morrermos é por problemas econômicos — admitiu Marco Paolini, gerente do célebre e sofisticado estabelecimento veneziano, que completa este mês três séculos desde a sua fundação. — O Caffè Florian vai fechar se não tiver as condições técnicas e econômicas para continuar aberto.

Assim como o Florian, na Praça de São Marcos, conhecido por sua ornamentação romântica, seus medalhões, alegorias e concertos ao ar livre, outros cafés históricos venezianos tiveram que fechar as portas, como o Caffè Quadri, o Caffè Lavena e o Caffè Todaro.

— A covid atingiu o tecido turístico e cultural italiano. Veneza está de joelhos — lamentou Paolini.

A cidade, que já tinha sofrido um revés importante quando as marés alcançaram níveis históricos, em novembro de 2019, causando graves inundações, começava a se recuperar quando o novo coronavírus começou a se espalhar pela Europa, acertando-lhe um duro golpe.

Desde então, a ausência de turistas, principal fonte de renda da cidade, transformou Veneza em uma cidade fantasma e a mergulhou em um dos anos mais sombrios de sua história recente.

— Denunciamos a miopia do Etado. Veneza está fechada. Todas as lojas da praça de São Marcos estão fechadas. Temos que pagar aluguéis milionários, parte ao Estado e parte aos particulares. Os particulares os reduziram em 70%, enquanto o Estado e o governo, nada. Querem 100% do pagamento do aluguel! — protestou Paolini.

Fundado em 29 de dezembro de 1720 por Floriano Francesconi, o Caffè Florian teve entre seus clientes personalidades como Gabriele d’Anunzio, Giacomo Casanova, Richard Wagner, Stendhal, Johann Goethe, Percy Shelley, Lorde Byron, Marcel Proust, Charles Dickens, Friedrich Nietzsche, Charles Chaplin, Andy Warhol e Jean Cocteau, entre muitos outros.

Fechado pela República Veneziana por ser um ponto de encontro dos jacobinos após a Revolução Francesa, em suas mesas conspiraram os patriotas venezianos que enfrentaram o Império Austríaco em 1848.

— Permaneceremos abertos pelo tempo que pudermos, mas mais do que isso não podemos — explicou o empresário, que representa um grupo de sócios proprietários do café, que tem investimentos no exterior, particularmente em Taiwan. — Esperamos até hoje, estávamos certos de que o governo nos levaria em consideração. E não só a nós, mas a todos, aos outros cafés e lojas históricas”, insistiu Paolini.

Os cerca de 80 funcionários, entre eles os míticos garçons, vestidos com fraque branco impecável e que atendem em vários idiomas, estão em desemprego técnico. Receberam seus salários, apesar de o dinheiro prometido pelo Estado ainda não ter chegado, explicou o empresário.

— Deixamos de faturar 7 milhões de euros (US$ 8,5 milhões) este ano. Uma tragédia —  disse Paolini.

Os donos de outros cafés e lojas históricas pedem novas regras para as chamadas “cidades de arte”, como Veneza e Florença, que perderam este ano cerca de 34 milhões de turistas estrangeiros por causa da pandemia, segundo um estudo publicado em novembro pela Confesercenti, a associação italiana de comerciantes.

— Não nos interessa só que o turismo volte como antes, mas que seja um turismo melhor —comentou à agência de notícias AFP Guido Moltedo, ex-assessor de imprensa da prefeitura veneziana e morador há anos na cidade dos canais.

Para Moltedo, é preciso impulsionar novas iniciativas, aproveitar para reativar um renascimento cultural e tecnológico e, deste modo, descobrir outra forma de viver na cidade de Marco Polo com apenas 50 mil habitantes, abandonando o modelo de turismo em massa de um dia, que é devastador para a cidade.  

Garçom no famoso Caffè Florian, o mais antigo em Veneza Foto: ALBERTO PIZZOLI / AFP
Garçom no famoso Caffè Florian, o mais antigo em Veneza Foto: ALBERTO PIZZOLI / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom arruma mesa na área externa do Caffè Florian, que fica na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom arruma mesa na área externa do Caffè Florian, que fica na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom do histórico Caffè Florian, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom do histórico Caffè Florian, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
O interior do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
O interior do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores em frente ao Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores em frente ao Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP

Prefeitura de Paris é multada por contratar muitas mulheres

Ministério da Função Pública da França alegou que a administração da capital infringiu as normas sobre paridade de gênero na dotação de pessoal de 2018. Anne Hildago classificou a penalidade como ‘absurda’
AFP

A prefeita de Paris Anne Hidalgo: administraçã oda capital francesa foi multada por contratar muitas mulheres em cargos de direção (14.12.20) Foto: Alain Jocard/AFP

PARIS. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, classificou como “absurda” uma multa recebida pelas autoridades da capital francesa por empregar muitas mulheres em cargos de responsabilidade.

A multa de 90 mil euros foi imposta pelos Ministério da Função Pública da França, alegando que a prefeitura de Paris infringiu as normas sobre paridade de gênero na dotação de pessoal de 2018.

“Anuncio que fomos multados” por “termos nomeado mulheres demais em postos de direção”, disse Hidalgo em uma reunião na prefeitura.

No total, em 2020, as mulheres ocuparam 69% dos cargos seniores da prefeitura, com 11 mulheres e cinco homens.

“A gestão da prefeitura se tornou, de repente, feminista demais”, ironizou a prefeita do Partido Socialista, que foi reeleita para um novo mandato no ano passado.

“Esta multa é obviamente absurda, injusta, irresponsável e perigosa”, disse Hidalgo. Ela completou dizendo que as mulheres devem ser promovidas “com vigor porque o atraso em todas as áreas da França ainda é muito grande”.

“Sim, para termos paridade, devemos acelerar o ritmo e assegurarmos de que sejam nomeadas mais mulheres do que homens”, afirmou.

Em um post no Twitter, a ministra da Função Pública da França, Amélie de Montchalin, reconheceu que havia imposto a multa, mas que a norma tinha sido anulada em 2019.

“Quero que a multa que Paris pagará por 2018 financie ações concretas para promover as mulheres no serviço público”, disse a ministra, que convidou Hidalgo para ir ao ministério discutí-las.

Sleeping Giants é formado por casal de 22 anos do interior do Paraná

Grupo calcula ter retirado R$ 1,5 milhão em anúncios de sites de fake news
Mônica Bergamo
Ivan Finotti

Mayara Stelle e Leonardo de Carvalho Leal, fundadores do Sleeping Giants Brasil – Eduardo Anizelli/Folhapress

Aberto há sete meses, o perfil Sleeping Giants Brasil (SGB) tem causado um tsunami em sites da extrema direita ao forçar uma debandada de empresas anunciantes. A situação ocorre quando o SGB publica, em seu Twitter ou em seu Instagram, um alerta para uma determinada empresa, informando que ela está anunciando em sites de fake news.

Seja por discordarem do conteúdo, seja pelo constrangimento público criado, as empresas retiram seus anúncios, desmonetizando os sites. Até este domingo (13), o grupo operava de forma anônima, sob a justificativa de que recebem ameaças de morte diárias. Resolveram, no entanto, revelar sua identidade nesta entrevista.

O grupo foi fundado por apenas duas pessoas, um casal de 22 anos de Ponta Grossa, no interior do Paraná. Leonardo de Carvalho Leal e Mayara Stelle moram com os pais e são namorados desde os 15 anos. Ele era motorista de Uber até que teve o carro batido no início do ano. Ela era vendedora de maquiagens até que a epidemia da Covid-19 fechou os salões de beleza em Ponta Grossa.

Estudantes de direito do sétimo período de uma faculdade estadual da cidade, ambos vivem hoje do auxílio emergencial que o governo concede a milhões de brasileiros. Dizem que não há ninguém por trás deles e que não recebem nada pelo trabalho.

O Rede Liberdade, grupo de advogados e jornalistas que atua em casos de violação de direitos e liberdade de expressão, apoia os dois prestando assessoria jurídica e de comunicação sem cobrar nada.

O Sleeping Giants nasceu nos Estados Unidos, desmonetizando o site de extrema direita de Steve Bannon, chefe da campanha vitoriosa de Donald Trump em 2016.

Lendo sobre o assunto para o trabalho de conclusão de curso da faculdade, Leonardo e Mayara resolveram abrir o Sleeping Giants Brasil numa manhã de maio de 2020. Horas depois já tinham 20 mil seguidores e foram oficializados como representantes brasileiros dos Sleeping Giants pelo criador do perfil americano, Matt Rivitz.

O primeiro alvo do grupo, o Jornal da Cidade Online, sofreu a retirada de anúncios de 250 empresas, cada uma exposta publicamente pelo SGB por anunciar ali.

Até hoje, eles calculam ter retirado de três sites de notícias e dois canais o equivalente a R$ 1,5 milhão. Segundo eles, 700 empresas já seguiram seus alertas e retiraram os anúncios de sites duvidosos. O SGB tem 410 mil seguidores no Twitter e 170 mil no Instagram.

O Jornal da Cidade Online entrou com ação, que foi atendida, pedindo que o Twitter revele seus dados. É por isso que vocês resolveram sair do anonimato?

Leal: Não iam entregar nossos dados agora, eles iriam ficar em sigilo de Justiça. Mas a gente acredita que é o momento de mostrar o rosto para nossos seguidores, antes que um site de fake news descubra quem a gente é. Esperamos que se identifiquem com a gente, tanto as empresas que responderam quanto os seguidores que apoiaram.

Stelle: Vir a público está sendo uma questão. Ainda não é um consenso entre nós e nossas famílias. Muita gente tem essa curiosidade de saber quem está por trás do perfil, porque acham que são pessoas superpreparadas, que temos um grande mecanismo por trás. E somos nós dois, duas pessoas comuns. Temos alguns colaboradores, alguns seguidores que se oferecem para fazer design ou imagens para nossas postagens.

Matt Rivitz ajuda vocês de alguma forma?

Stelle: Quando ele entrou em contato conosco, quis saber mais sobre o que a gente queria fazer no Brasil antes de autorizar esse trabalho. Ele deu algumas dicas, como “use o VPN, não se mostre para as pessoas, tente permanecer no anonimato”. Foram essas coisas básicas. A gente não tem mais contato com ele, mesmo porque nenhum de nós fala inglês.

Qualquer um pode criar o perfil Sleeping Giants 2, por exemplo?

Leal: Sim, a gente fez desse jeito. Criamos a conta com esse nome e estamos aqui até hoje. Ainda é difícil para a gente, porque nunca trabalhamos com internet. A Mayara nem usava Twitter. Estamos nos acostumando com tudo isso ainda. A gente não se vê como ativista.

Como vocês se veem?

Leal: O Sleeping surgiu no meio de um estudo para um TCC sobre fake news. Ele apareceu como uma resposta. Pois todo mundo sabe qual é o problema, é o discurso de ódio, que domina o debate na internet, mas ninguém sabe qual é a resposta para isso. Quando a gente leu uma matéria do El País, pensou: “Putz, essa é uma resposta muito boa, muito fácil”. E todo mundo comprou muito rápido, mas nunca tivemos treinamento, nunca fizemos nada parecido.

O Matt falou para gente duas coisas principais: uma delas é nunca falar sobre política. O Sleeping não é um movimento de política, é um movimento de consumidores. Esse é um dos nossos valores. E a outra é a questão do anonimato e da segurança. Quando revelaram a identidade dele nos Estados Unidos, hackeando não se sabe como, colocaram o endereço em todos os sites de fake news e ele recebeu ameaças de morte sem parar, contra ele, a mulher, o filho de 15 anos, até para a sinagoga dele chegou ameaça.

Como estão se preparando para sair do anonimato?

Stelle: Tivemos que nos distanciar das famílias para mantê-los seguros. Minha família é muito distante da internet, são pessoas mais velhas, é difícil até explicar o que nós estamos fazendo. Então optamos por sair do anonimato longe deles. Neste momento estamos na casa de um amigo, em São Paulo.

Já sofreram muitas ameaças?

Leal: É bizarro porque se espera muito de nós, de uma estrutura, que ajudaria a nos preparar quanto a isso. A partir do momento que o Sleeping está tirando dinheiro dessas milícias digitais, que utilizam isso como uma forma de trabalho remunerado, a gente acaba virando alvo. Há sete meses, um motorista de Uber e uma vendedora de maquiagens começaram a receber ameaças de morte e agora têm que sair de casa para se revelar, têm que ter uma conversa super difícil com as famílias, dizer que você criou um perfil no Twitter, que muitas pessoas apoiam, que tem 700 empresas respaldando, e mesmo assim… A gente está arriscando a nossa vida dando essa entrevista, está arriscando a vida por conta do projeto e também está arriscando nossas famílias por conta disso.

Stelle: Já vimos pessoas oferecendo dinheiro pela nossa cabeça. As pessoas escrevem nos nossos perfis “Se matem”. Até esse momento, nenhuma ameaça foi levada à polícia, mas a partir dessa saída de anonimato, a gente pretende, sim, responsabilizar todo mundo que ameaçou.

Aberto em maio de 2020, o perfil Sleeping Giants Brasil (SGB) tem causado um tsunami em sites da extrema direita ao forçar uma debandada de empresas anunciantes
Aberto em maio de 2020, o perfil Sleeping Giants Brasil (SGB) tem causado um tsunami em sites da extrema direita ao forçar uma debandada de empresas anunciantes Eduardo Anizelli/Folhapress

Como estudantes de direito, o que dizem de a Constituição Federal assegurar a liberdade de manifestação do pensamento, mas vedar o anonimato?

Leal: O Sleeping foi criado às 5h de uma segunda-feira, num laptop sem bateria e, sete meses depois, a gente desmonetizou mais de R$ 1,5 milhão. Diferente de jornalistas, que estão acostumados a colocar a cara, nós não temos estrutura. A gente só está começando, temos 22 anos.

Como vocês definem os sites que vão desmonetizar?

Stelle: A gente olha, primeiramente, pelo alcance. O Jornal da Cidade Online, que foi o primeiro escolhido para desmonetização, foi também porque tinha grande histórico de notícias desmentidas em relação à pandemia. Acreditamos que a desinformação em relação à pandemia seja umas das principais fake news a ser desmentidas nesse momento. Quanto aos outros, fizemos uma pesquisa bem aprofundada, o número de processos judiciais, o número de notícias desmentidas pela grande imprensa.

Vale dizer que a gente não está aqui para cancelar. O SG não promove a cultura do cancelamento, o SG não promove a censura. Estamos aqui para alertar a empresa. A decisão de manter um anúncio ou retirar, e de banir um usuário por violação dos termos de uso ou não banir, pertence à empresa. Nós só avisamos.

Leal: E as empresas geralmente agradecem. Quando você joga um anúncio numa plataforma de mídia programática [Facebook ou Google, por exemplo, que vão distribuir aqueles anúncios de acordo com o perfil dos usuários], você acaba anunciando em 2.000, 3.000 sites. Então, não tem como a empresa controlar isso. A gente alerta a empresa e ela tem a liberdade de querer ou não aparecer nesse site. Elas gastam tanto dinheiro, constroem uma marca, que carrega os valores dessa empresa, e que muitas vezes não condizem com o site.

Quem desmonetizaram até agora?

Leal: Até aqui, a gente só desmonetizou três sites, porque é um trabalho de formiguinha, você vai tirando uma empresa por vez. Em ordem, foram Jornal da Cidade Online, Conexão Política e Brasil Sem Medo. Além disso, a gente desmonetizou o canal do Olavo de Carvalho no YouTube e o grupo paramilitar 300 do Brasil, da Sara Winter. Só no Jornal da Cidade Online, foram 250 empresas.

Todos esses sites são de direita. Isso é uma coincidência ou vocês são de esquerda?

Stelle: A gente não olha se o site é de esquerda ou de direita. Infelizmente, sabemos que o discurso de ódio está presente em todos os espectros políticos. O que acontece é que, nesse momento, não dá para negar que a extrema direita tem um alcance de desinformação muito maior que a esquerda. Mas as fake news estão, sim, presente em sites de esquerda. Tivemos um caso agora do Porta dos Fundos, que é conhecido como um canal de esquerda, e fez um vídeo claramente misógino.

Leal: Achamos que tínhamos que alertar o Porta dos Fundos sobre o erro que eles fizeram. Assim fizemos e logo depois eles excluíram o vídeo. Então, o Sleeping não é movimento de cancelamento. A qualquer momento você pode retificar um erro, como fez o Porta dos Fundos ao excluir a esquete, que era supermachista.

Stelle: A questão é que o alcance dos sites de direita é muito grande. O Jornal da Cidade Online, por exemplo, tinha ou tem 40 milhões de acessos por mês. É um número assustador, considerando que eles propagavam desinformação sobre a pandemia.

Leal: O Jornal da Cidade Online é a página de notícias do Facebook que tem maior engajamento sobre o coronavírus. Mais do que a Globo, do que a Folha, do que o Estadão. Quanto mais acesso o site tem, mais dinheiro ele vai ganhar. Então, os dois critérios são muito objetivos: a quantidade de conteúdo fake e o alcance que esse conteúdo tem.

Mayara Stelle e Leonardo de Carvalho Leal, fundadores do Sleeping Giants Brasil – Eduardo Anizelli/Folhapress

Existe uma coisa que é mentira, tipo “detergente cura coronavírus”. Agora, como definir o discurso do ódio? Para muita gente, o que o Olavo de Carvalho diz não é um discurso de ódio. Ao contrário, ele é o único cara que fala a verdade sobre o Brasil. Então, a gente pode estar diante de uma divergência de pontos de vista. Qual é o corte para isso?

Stelle: O discurso de ódio é uma coisa subjetiva, mas ele busca reprimir ou intimidar uma pessoa sobre determinadas características inerentes a ela. Promove racismo, misoginia, machismo, xenofobia, sinofobia. É um discurso que intimida uma minoria. O Sleeping não quer calar ninguém. Somos completamente a favor da liberdade de expressão, inclusive usamos ela para alertar as empresas. O Olavo tem todo o direito de falar e de ter seu espaço para suas ideias. O Sleeping só alerta as empresas, e elas decidem se querem tirar o anúncio daquele conteúdo ou não.

Mas não acham que criam um constrangimento público para as empresas?

Leal: Não. Se estivessem constrangidas não agradeceriam publicamente o nosso alerta. As próprias empresas também são alvo de fake news. O próprio Olavo propagou uma que dizia que a Pepsi adoçava o refrigerante com fetos abortados. Quanto dinheiro a Pepsi está gastando para conseguir uma imagem, uma marca com muita história, e vem essa história “se você toma a Pepsi, você é um abortista terceirizado”.

Por isso que as empresas são nossas aliadas. A Band já foi alvo de fake news também, que dizia que ela tinha sido comprada pelo Partido Comunista chinês. A gente achou a Natura patrocinando conteúdo que era contra a própria propaganda dela. Gastaram para fazer uma propaganda de Dia das Mães, se não me engano, e estava anunciando em uma matéria machista que criticava a propaganda da Natura [por ser feminista]. A gente não constrange ninguém. A gente pergunta. As empresas têm o direito de saber para quem estão dando dinheiro.

Fazendo uma provocação, não acham que estão intimidando, por exemplo, o Olavo de Carvalho?

Leal: O Olavo de Carvalho tem um discurso que diz que a Globo ou a Folha devem ser fechadas e aí o Brasil viraria um lugar legal. Ele tem uma frase que diz que a imprensa deve ser tratada igual cachorro, a pontapés. Que estar na presença de jornalistas é estar na presença da pior espécie do mundo. Isso é um discurso de ódio, que visa quem você é, direcionado a essa minoria.

Mas ele tem o direito de achar que os jornalistas são isso aí.

Leal: Sim, mas as empresas têm o direito de não querer pagar por esse conteúdo.

Stelle: Não podemos tolerar a intolerância, digamos assim. Até onde vai o direito do Olavo de ofender as pessoas e ganhar dinheiro com isso? O SG não está promovendo nenhum ataque ao Olavo. Nós só perguntamos às empresas que estão vinculadas a ele se elas querem continuar pagando aquele conteúdo.

Vocês trabalham por meio do Twitter e do Instagram. Essas empresas são as responsáveis por destinar o dinheiro dos anúncios para o site x ou y. E elas ganham dinheiro ao fazerem essa ponte. Por que as big tech não estão entre os alvos de vocês?

Stelle: Esse debate é muito atual. Nós somos muito novos na internet e fizemos uma escolha de focar nos donos do dinheiro. Acredito que haja gente mais capacitada e experiente para iniciar esse debate nesse momento.

Vocês têm um poder imenso nas mãos hoje. Não há o risco de vocês atacarem alguém simplesmente por não gostaram dele?

Stelle: Nós não escolhemos nenhum alvo. O único alvo é a desinformação e o ódio. Se alguém publica isso, achamos completamente justo ela ser desmonetizada. Não é questão pessoal. Se a pessoa parar de escrever fake news, apagar o que já escreveu e pedir desculpas, deixa de ser uma pessoa que pode ser escolhida pelo Sleeping Giants Brasil.

O que acham de empresas brasileiras que trabalham com ditaduras que desrespeitam os direitos humanos?

Leal: Nesse momento não temos estrutura. A saída do anonimato pode abrir inúmera portas e no futuro podemos trabalhar em outras áreas, como essa.

Elogiar a ditadura militar é discurso de ódio ou liberdade de expressão?

Leal: Elogiar a ditadura é opinião, mas dizer que ela não existiu é fake news. Se tiver um site promovendo a ditadura militar, nós vamos atuar. No caso do grupo paramilitar da Sara Winter, ela iria receber R$ 80 mil por meio de um crowdfunding. Nós fomos até a empresa de crowdfunding e alertamos que a campanha dela estava em desacordo com seus termos de uso, que não admitia discurso de ódio, por exemplo. A empresa cancelou a campanha e não repassou o dinheiro.

É a mesma situação do Olavo de Carvalho em relação ao PayPal e ao PagSeguro, certo? Vocês pressionaram para essas plataformas de pagamento cancelarem as contas dele. Essas contas eram usadas para ele receber o pagamento por suas aulas online, certo?

Stelle: Sim. O PayPal cancelou a conta dele em agosto. A PagSeguro publicou nota em que dizia que era contrária à fake news e ao discurso de ódio, mas que estava impedida de realizar o bloqueio de um usuário: “Instituições de pagamentos devem garantir acesso não discriminatório aos seus serviços e liberdade de escolha dos usuários finais”.

Leal: Os termos de uso dizem que é terminantemente proibido que seus clientes usem “linguagem ou imagem ou transmitir ou propagar mensagem ou material que denotem ou promovam o preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem, ou que incitem à violência ou ao ódio”. Acreditamos que a PagSeguro está muito acima do Olavo de Carvalho e vai cancelar sua conta.​

Mayara Stelle e Leonardo de Carvalho Leal, fundadores do Sleeping Giants Brasil – Eduardo Anizelli/Folhapress

Oito dicas para ‘viajar’ para Paris sem sair de casa

Assistir a filmes, aprender algumas receitas e até se arrumar à moda francesa podem ajudar a curtir a Cidade Luz sem precisar sair do isolamento
Stephanie Rosenbloom / 2020 / The New York Times

Uma típica padaria em Paris: se a pandemia não te permite visitar a capital francesa, por que não aprender a fazer pão em casa? Foto: Dmitry Kostyukov / The New York Times

Paris é uma fantasia coletiva, dos livreiros ao longo do Rio Sena aos telhados cinzentos de zinco de seus prédios de pedra creme. Há séculos, é referência na questão da l’art de vivre, ou a arte de viver, influenciando a moda, a filosofia, a cultura, a arte e a gastronomia do mundo inteiro. Hoje em dia, as lojas estilo pop-up e as casas de brunch descoladas são tão intrínsecas à capital como as lâmpadas de rua e a arquitetura gótica. Mas o romance da cidade é atemporal.

Quando vou para lá, gosto de ser uma flâneur, caminhante sem destino zanzando pelas ruelas medievais do Marais, parando para ouvir uma banda de jazz, entrando no Musée Carnavalet, fazendo compras em SoPi (South Pigalle), dando uma chegada ao Éric Kayser para comer croissants, sentando-me ao sol em uma das cadeiras de metal verdes dos Jardins de Luxemburgo. A noite talvez traga um balé no Palais Garnier, ou uma mesa de bistrô na calçada para observar o movimento.

Atualmente, meu apartamento faz as vezes do bistrô, da butique e da boulangerie; no entanto, apesar disso, não deixa de ter certo ar de romance. Há inúmeras maneiras de levar Paris para casa; basta um pouco de criatividade. E talvez um copo de champanhe

As margens vazias do Rio Sena, durante a fase de lockdown de Paris, em abril de 2020 Foto: Dmitry Kostyukov / The New York Times
As margens vazias do Rio Sena, durante a fase de lockdown de Paris, em abril de 2020 Foto: Dmitry Kostyukov / The New York Times

1 – Deixe sua cozinha cheirosa feito uma boulangerie

Éric Kayser, o padeiro artesão que inaugurou sua primeira loja em Paris, ensina como fazer os clássicos pães franceses, incluindo “la baguette”, no animado Maison Kayser Academy, seu canal no YouTube. Quer encarar uma refeição completa? Os episódios da série de Julia Child na TV, incluindo programas com Jacques Pepin, estão no PBS on-line (mas você também vai encontrá-la no YouTube). E de sobremesa? Dorie Greenspan, autora de livros de receita e colunista do “The New York Times”, diz que na França “sobremesa pode ser queijo, fruta ou talvez o gâteau encorpado que quase todo francês sabe fazer: o bolo de iogurte. Faço com frequência, sempre pensando em Paris e nos meus amigos de lá”.

2 – Transforme seu sofá em um camarote de balé

Apague as luzes e se acomode no sofá como se estivesse em um dos camarotes do Palais Garnier para ver clipes de balé e óperas no canal da Opéra National de Paris no YouTube. Quando precisar de um intervalo, faça como as plateias de lá e se sirva um copo de champanhe.

3 – Maratonando museus no laptop

Aprecie sem pressa as obras-primas e os monumentos por meio de visitas virtuais. Graças a elas, é possível ver os detalhes as pinturas de Renoir e van Gogh no Musée d’Orsay, usar o zoom para perceber as pinceladas marcantes de Monet para os nenúfares no Musée de l’Orangerie, descobrir máscaras de lugares como a África Central e Papua-Nova Guiné no Musée du Quai Branly – Jacques Chirac, explorar a Sacré-Coeur e se maravilhar com as vistas vertiginosas da Torre Eiffel.

O Musée d’Orsay, um dos principais equipamentos culturais de Paris, visto a partir do Sena Foto: Dmitry Kostyukov / The New York Times
O Musée d’Orsay, um dos principais equipamentos culturais de Paris, visto a partir do Sena Foto: Dmitry Kostyukov / The New York Times

4 – Encha a casa com os sons do jazz francês

Comece com a lenda da guitarra Django Reinhardt, fundador do Quintette du Hot Club de France, de Paris, e sua “Nuages”, em tons de blues. Beberique uma xícara de café enquanto Eartha Kitt lhe  diz “C’est Si Bon” (não deixe de engatar na sequência a versão descontraída de Dean Martin para a mesma canção). E desça do salto (ou tire as pantufas felpudas, dependendo do caso) enquanto Nat King Cole seduz com a versão francesa de “L-O-V-E”.

5- Amarre o cachecol/echarpe como um parisiense da gema

A elegância parisiense pode estar, por que não, entre seus casacos, dentro do armário.

— Você pode fazer o que for; só não vale querer imitar “Emily em Paris”, com aquela mistura maluca de chapéus, botas e jaqueta pink —  alerta Vanessa Friedman, crítica de moda do “The New York Times”, referindo-se à série da Netflix. — Melhor ir lá para trás, tipo Jean Seberg em “Acossado”, de blusa listrada estilo marinheiro e a calça capri sequinha. Para ter jeitão francês, o visual não pode parecer muito forçado; por outro lado, você não pode ser desleixada. A caída daquele cachecol à volta do pescoço requer capricho; o trench coat simplesmente se molda aos ombros. A palavra de ordem aqui é insouciance.

Aprenda a dar nó no cachecol/echarpe como se tivesse nascido na capital francesa com o vídeo indispensável da “Cosmopolitan” francesa. Obviamente, a Hermès também dá dicas.

6 – Redecore no estilo parisiense

Preparado(a) para dar uma repaginada na casa para o outono? Inspire-se nas ideias das contas da “Elle Decoration France”, “Marie Claire Maison” e “Côté Maison” no Instagram, ou mesmo em hotéis butique como o Le Narcisse Blanc Hotel & Spa. A “Elle Decor” tem uma seção de “Regras de decoração francesa para levar para a vida”, na qual o decorador parisiense Jean-Louis Deniot explica: “A ideia é ser antidecoração, bem natural, como se o dono da casa tivesse feito tudo sozinho – o que, obviamente, é muito francês.”

A livraria da Galerie Vivienne, em fotografia tirada em maio de 2020, ainda na fase aguda da primeira onda da epidemia de Covid-19 em Paris Foto: Andrea Mantovani / The New York Times
A livraria da Galerie Vivienne, em fotografia tirada em maio de 2020, ainda na fase aguda da primeira onda da epidemia de Covid-19 em Paris Foto: Andrea Mantovani / The New York Times

7 – Enrosque-se com um escritor francês

Baixe os romances clássicos de Victor Hugo, Émile Zola, George Sand e Honoré de Balzac, gratuitamente. Se ainda não a conhece, descubra o trabalho de uma das escritoras mais respeitadas da França, Annie Ernaux. Perambule por Paris com Edmund White em “O flâneur” ou mergulhe no submundo sombrio da cidade com Luc Sante e seu “The Other Paris”. Vale também fugir para outro mundo como os franceses, com um gibi ou romance gráfico – uma boa pedida é a longeva série Asterix, que conta a história de resistência dos gauleses à ocupação romana, com nova editora nos EUA e traduções adaptadas.

8 – Seja um ‘flâneur’

Sua calçada não o leva ao Sena? Não tem problema. Ser um flâneur não é uma questão de estar em Paris, mas sim de estar no lugar em que você se encontra – usando os sentidos para absorver os sons, os cheiros e as cores à sua volta. Portanto, ajeite o cachecol e saia para dar uma volta socialmente distante.

E se o que é local e orgânico for melhor do que o interconectado e global?

Helena Norberg-Hodge tem defendido o localismo desde os anos 1970, mas a pandemia está tornando as ideias da estudiosa ativista australiana mais relevantes do que nunca
Damien Cave, The New York Times – Life/Style

Helena Norberg-Hodge no Mullumbimby Farmers Market, que ela ajudou a fundar, em Mullumbimby, Austrália. Foto: Natalie Grono/The New York Times

MULLUMBIMBY, AUSTRÁLIA — Helena Norberg-Hodge perambulava pelo mercado de agricultores locais que ajudou a criar bem antes desse tipo de mercado entrar na moda. Ela chegou ali para fazer compras, mas também para visitar amigos – especialmente os agricultores que vivem no dia a dia os seus ideais sobre privilegiar o que é local e rejeitar a globalização com vistas à saúde do meio ambiente e a felicidade da humanidade.

Andando pelo mercado, que fica perto da costa de New South Wales, ela encontrou Andrew Cameron, de 38 anos, pecuarista com sua barba espessa e que vende uma carne de gado criado em pasto. Ele disse que a covid-19 tornou a mensagem de Helena Norbert-Hodge ainda mais vital.

“Estamos vendo o quão frágil e tão pouco resiliente é tudo isto”, disse Cameron, referindo-se às cadeias globais de fornecimento que propagam o coronavírus para o mundo todo e depois lutam para fornecer os suprimentos médicos. “Nossa resiliência agora, vem dos produtores locais”, disse Helena. “Estamos vendo uma mudança enorme em termos de tomada de consciência”, disse ela, os olhos azuis expressando energia.

O que ambos falaram captura perfeitamente como Helena, ativista e estudiosa que passou a promover o localismo há algumas décadas – se tornou uma espécie de estrela-guia, hoje mais do que nunca, para pessoas em todo o mundo que vêm demandando uma alternativa para o sistema global de comércio.

Aos 74 anos, ela ainda intervém com a urgência de um estudante ávido, determinada a convencer os céticos e ampliar sua mensagem junto aos convertidos. E ela já conseguiu juntar uma multidão. Entre seus apoiadores estão o Dalai Lama, o comediante britânico Russel Brand, a chefe Alice Waters a Iain McGilchrist, estudioso de literatura e psiquiatra em Oxford.

“Se nossa civilização vai sobreviver ou não, o fato é que o trabalho de Helena é de suprema importância”, disse McGilchrist, cujo livro revolucionário de 2009, The Master and His Emissary [O Mestre e seu Emissário, em tradução livre], defende que cada metade do cérebro gera uma maneira de vivenciar o mundo fundamentalmente diferente. “Encorajar as comunidades locais é um antídoto vital para o globalismo universal”. “E se a civilização deve desmoronar, esta será a única esperança de sobrevivência. Precisamos agir agora com base nas ideias dela”.

Essas ideias são encontradas em livros e documentários, como também conferências e palestras regulares associadas à sua organização sem fins lucrativos chamada Local Futures, com escritórios na AustráliaGrã-Bretanha e Estados Unidos. E que podem ser resumidos em dois conceitos que parecem simples, mas têm implicações profundas.

Em primeiro lugar, distâncias mais curtas são mais saudáveis do que as longas para o comércio e a interação humana; em segundo lugar, a diversificação – o cultivo pelo agricultor de uma dezena de produtos, por exemplo, é muito mais saudável do que a monocultura, que a globalização tende a criar, tanto no caso das bananas como dos aparelhos celulares. “O mais importante para mim é ajudar para que esta ideia cresça em todo mundo”, disse Helena, apontando para os compradores e os agricultores conversando sobre os produtos.

Linguista que estudou com Noam Chomsky nos anos 1970, Helena chegou a Byron Bay há 20 anos, para residir uma parte do tempo, por causa do clima favorável para seu marido, John Page, advogado. A casa em que moram é modesta, cercada por árvores, repleta de tapetes persas e livros. Sob muitos aspectos ela se integrou a Byron Bay, onde ajudou a criar todos os quatro mercados de agricultores locais.

Embora conhecida como um local frequentado por celebridades, a cidade é um refúgio de surfistas, defensores da terra e mochileiros desde a década de 1960. Não que Helena, apesar dos cabelos grisalhos, se considere uma hippie. Ela nasceu em Nova York, mas seus pais eram suecos e ela cresceu em Estocolmo, onde estudou e viajou, e aos 30 anos falava seis línguas. Em 1975, por causa das suas habilidades linguísticas, sua vida mudou completamente quando uma equipe de filmagem alemã a convidou para ir a Ladakh, um enclave montanhoso budista no noroeste da Índia, que começava a se abrir para o turismo e a economia internacional.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Helena Norberg-Hodge tem defendido o localismo desde os anos 1970.  Foto: Natalie Grono/The New York Times

Ela foi um dos primeiros visitantes a conhecer Ladakh, o que a ajudou a ver como a busca incontestável do crescimento econômico corroía a capacidade e a coesão da localidade. O caminho para o “desenvolvimento”, para a população da região significava aniquilar séculos de autonomia, onde encontravam tudo o que necessitavam no seu entorno, exceto o sal, que negociavam à base da troca. E também aceitar políticas que favoreciam produtos que não eram da sua escolha. A Índia subvencionava combustíveis fósseis, por exemplo. Mas Ladakh tinha uma luz solar incessante.

Helena tentou contra-atacar. Iniciou um programa piloto para se ter energia solar. E procurou manter a autoestima dos jovens locais procurando fazê-los ver que as imagens de Hollywood que eles devoravam não retratavam a realidade do consumo, enfatizando que a vida no Ocidente também incluía depressão, divórcio e luta social. Seu primeiro livro, Ancient Futures [Futuro Antigos, em tradução livre], e um filme com o mesmo título, foram traduzidos para 40 línguas.

Equivalem a um cri de coeur sobre Ladakh, alertando o mundo para parar de supor que o progresso é igual para todos. “Ela teve a oportunidade de ver um mundo diferente e foi bastante inteligente para compreender que não estava olhando uma relíquia, mas ter uma visão de um futuro que funcionasse de maneira adequada”, disse Bill McKibben, autor e fundador do grupo de defesa ambiental 350.org.

“E ela tem mantido essa visão há décadas, ajudando a todos nós a vermos que as medidas que usamos para o PIB, por exemplo, não são as únicas possibilidades”. Segundo ela afirmou recentemente, o PIB, que é a referência da produção econômica de um país, deve ser redefinido.

“O PIB é uma medida da decomposição da sociedade e dos ecossistemas”, afirmou. “Se a água é tão poluída que fornecemos água engarrafada, isto beneficia o PIB. Se fazemos uma horta e dizemos, coma o máximo ou a metade das verduras e legumes que plantamos, o PIB vai cair. Se você e eu permanecemos saudáveis, o PIB cai. Se você precisar de uma quimioterapia todo o ano o PIB aumenta”.

Para Helena Norberg-Hodge, a pandemia do coronavírus pode ser uma força revolucionária que levará as pessoas a um estilo de vida “mais mediano” em comunidades menores, mesmo dentro das cidades grandes. Seus contatos em todo o mundo, da Ásia à Europa, já vêm reportando um retorno das pessoas às prioridades locais.

Na Austrália, “comprar local” se tornou um mantra ainda mais popular à medida que os tempos de entrega dos produtos importados se estendem. “Acho que este momento vem sugerindo que muitas pessoas desenvolveram um desejo de ter um pouco mais de tempo, ficar um pouco mais em casa, aprender o nome dos seus vizinhos, passaram a ter interesse em saber de onde vem sua comida e até desenvolverem uma vontade de realmente cultivarem aquilo que comem”, disse ela em uma palestra. E por um momento, fez uma pausa, e afirmou, “Para mim, é muito alentador ver isto”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Carrefour é desligado de Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial

Forma como empresa lidou com caso ‘é inaceitável’, diz coordenador da organização
Bruna Narcizo

Manifestantes em frente ao Carrefour em Porto Alegre protestam pelo assassinato de João Alberto. Guilherme Gonçalves/FotosPublicas

A Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, que reúne 73 organizações signatárias, informou neste sábado (21) que desligou o Carrefour da lista de empresas parceiras.

Entre as signatárias, estão Ambev, Coca-Cola, GPA e Petrobras.

Na noite de quinta-feira (19), João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi morto por dois seguranças da rede de supermercados após fazer compras em uma unidade localizada em Porto Alegre.

“A grande questão da exclusão do Carrefour tem a ver com fato de serem reincidentes”, disse Raphael Vicente, coordenador da iniciativa, uma plataforma de articulação entre empresas e instituições que se comprometem a melhorar a inclusão, promoção e valorização da diversidade étnico-racial.

O Grupo Carrefour Brasil anunciou, em nota (leia íntegra abaixo), que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças, além de demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido. Na noite de sexta, exibiu comunicado após a novela das 21h, na Globo.

Procurado pela reportagem para comentar a exclusão da iniciativa, a empresa não se manifestou até a publicação do texto.

Vicente diz que a forma como a empresa lidou com o ocorrido “é inaceitável”.

“Eles emitiram uma nota se eximindo da culpa e da responsabilidade. Vamos continuar conversando para que tenhamos uma resposta clara e objetiva do Carrefour”, afirmou.

Segundo ele, o presidente do grupo no Brasil deveria ter feito o que o presidente global fez: ir a público e dizer que tomariam medidas drásticas para evitar esse tipo de tragédia novamente.

No início da noite desta sexta-feira (20), o presidente do Grupo Carrefour, Alexandre Bompard, se manifestou em sua conta no Twitter sobre o assassinato.

O francês pediu a revisão do treinamento de funcionários e de terceiros, “no que diz respeito à segurança, respeito à diversidade e dos valores de respeito e repúdio à intolerância”.

“Está explícito que tem um problema, que não é do gerente, da loja, do vigia ou da empresa terceirizada. O presidente tinha que ter vindo a público e afirmar que os processos seriam revistos, medidas duras seriam tomadas”, afirma Vicente.

Qualquer empresa pode ser signatária da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, diz o coordenador. “É preciso apenas que ela se comprometa publicamente com os compromissos da iniciativa”, afirma.

O caso brutal na unidade gaúcha é o mais recente de uma sequência de relatos sobre discriminação, descaso e violência sob diferentes aspectos no Brasil, com alguns casos obtendo grande repercussão.

Em 2009, um vigia e técnico em eletrônica, também negro, foi agredido por seguranças de uma unidade em Osasco (SP), acusado de tentar roubar o próprio carro no estacionamento da loja.

Em dezembro de 2018, também em Osasco, um cão foi envenenado e espancado por um segurança da rede, causando enorme comoção na comunidade.

No caso mais recente, um promotor de vendas terceirizado da rede morreu enquanto trabalhava em uma unidade do grupo, em Recife, em agosto deste ano. O corpo foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas enquanto a loja seguiu em funcionamento. O IML (Instituto Médico Legal) só fez a remoção após quatro horas.

Ainda assim, a rede segue como destaque em alguns indicadores que são utilizados como atestado de boas práticas corporativas em questões sociais e ambientais.

ÍNTEGRA DA NOTA DO CARREFOUR

Após a lamentável e brutal morte do senhor João Alberto Silveira Freitas na loja em Porto Alegre, no bairro Passo D’Areia, o Carrefour informa que:

– Definiu que todo o resultado de lojas Carrefour no Brasil nesta sexta-feira, 20 de novembro, será revertido para projetos de combate ao racismo no país. O valor será destinado de acordo com orientação de entidades reconhecidas na área. Essa quantia, obviamente, não reduz a perda irreparável de uma vida, mas é um esforço para ajudar a evitar que isso se repita;

– amanhã, 21/11, todas as lojas do Grupo em todo o Brasil abrirão duas horas mais tarde para que neste tempo possamos reforçar o cumprimento das normas de atuação exigidas pela empresa a seus funcionários e empresas terceirizadas de segurança;

– estamos buscando contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário neste momento difícil;

– a loja do bairro Passo D’Areia será mantida fechada;

Todas essas ações complementam as decisões já anunciadas de rompimento de contrato com a empresa que responde pelos seguranças envolvidos no caso e de desligamento do funcionário que estava no comando da loja no momento do ocorrido.

Reiteramos que, para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que ocorreu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais.

Mulheres protestam pelo direito ao aborto seguro na Argentina

Presidente Alberto Fernández prometeu enviar projeto sobre a regulamentação para o Congresso, e militância pressiona parlamentares com protestos na capital Buenos Aires

Ativistas seguram uma faixa dizendo Aborto Legal 2020 durante uma manifestação em frente ao prédio do Congresso em Buenos Aires. O presidente da Argentina, Alberto Fernandez, anunciou no Twitter que enviará um projeto de lei de legalização do aborto ao Congresso, no começo da semana Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Ativistas gritaram slogans durante manifestação em frente ao prédio do Congresso em Buenos Aires Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Um ativista usa uma máscara em manifestação em frente ao prédio do Congresso, em Buenos Aires Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Ativistas participam de manifestação a favor da legalização do aborto, fora do Congresso Nacional, em Buenos Aires, Argentina Foto: AGUSTIN MARCARIAN / REUTERS

Ativistas participam de manifestação a favor da legalização do aborto, em frente ao Congresso Nacional em Buenos Aires, Argentina Foto: AGUSTIN MARCARIAN / REUTERS

“Quanto tempo mais? É urgente Alberto”, cobram ativistas durante uma manifestação em frente ao prédio do Congresso Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Minúsculos restaurantes de Tóquio fecham as portas em vez de aumentar preços

Negócios de lámen, que têm modelo de comida rápida e barata em que clientes sentam próximos uns dos outros, sofrem com regras da pandemia; de janeiro a agosto, 1.221 casas fecharam no Japão
Toru Fujioka, WP Bloomberg

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Fachada do restaurante de lámen Kouraku Honpo em Shibuya, distrito de Tóquio.  Foto: Noriko Hayashi/Bloomberg

A covid-19 e as medidas de distanciamento social estão forçando alguns proprietários de minúsculos restaurantes de lámen do Japão a considerar aumentar seus preços ou fechar suas portas. A pandemia está derrubando um modelo de negócio perfeitamente equilibrado que depende de servir comida rápida e barata para clientes que comem bastante próximos uns dos outros.

Enquanto alguns proprietários estão finalmente aceitando a necessidade de serem criativos com os preços, há outros que preferem fechar as portas a forçar seus clientes regulares a engolir uma tigela mais cara de lámen.

Sua relutância contínua em repassar custos mais altos aos clientes reflete, em parte, a sensibilidade contínua aos aumentos de preços em um país que tem lutado para se livrar de sua longa experiência com a deflação. A pequena rede de lámen Kouraku Honpo é um das muitas proprietárias de restaurantes desse tipo de macarrão japonês que procura uma luz no fim do túnel da pandemia do coronavírus.

Por mais de duas décadas, ela tem servido esses noodles com um caldo de osso de porco picante em sua filial no distrito de Shimbashi, em Tóquio. Os negócios estavam funcionando bem no final do ano passado, com as porções diárias às vezes chegando a quase 500 neste restaurante de 26 lugares, segundo o funcionário Yoshihisa Saito, de 61 anos.

A covid-19 mudou essa dinâmica. O restaurante ficou aberto por menos horas durante um estado de emergência nacional que continuou na capital até o final de maio. O pagamento de Saito caiu até 40% para manter o restaurante em funcionamento, mas em nenhum momento o estabelecimento considerou aumentar os preços para dar conta do novo normal.

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Tigela de lámen da Ippudo, uma das redes mais populares do Japão com lojas pelo mundo; na foto, unidade em Tóquio.  Foto: Noriko Hayashi/Bloomberg

“Um aumento de preço nunca foi uma opção porque transferir nosso fardo para os clientes seria totalmente injusto. Suas finanças também poderiam estar sob forte pressão por causa do vírus, mas eles ainda estão nos procurando”, disse Saito. Em 28 de agosto, a Kouraku Honpo fechou seu restaurante em Shimbashi definitivamente.

Empreendedores de pequenos restaurantes como o Kouraku Honpo e bares minúsculos estão entre os negócios mais afetados pela pandemia, enquanto lutam para incorporar o custo das limitações de distanciamento social e um aumento nos custos das medidas de resposta ao vírus. Os restaurantes que também enfrentam uma queda acentuada na demanda correm o maior risco de quebrar.

Os programas de empréstimos do Banco Central do Japão no valor de cerca de US$ 1 trilhão e a ajuda governamental em grande escala têm ajudado a reduzir o número geral de pedidos de falência na economia entre abril e setembro em relação ao ano anterior. Mas o número de restaurantes fechando continuou a aumentar, respondendo por cerca de 10% das falências, o maior entre todos os tipos de negócios, de acordo com o Teikoku Databank.

Do início do ano até agosto, 1.221 restaurantes fecharam as portas, de acordo com dados da Tokyo Shoko Research.

“A maioria dos negócios japoneses age com base na premissa de que se o preço da cerveja é de 100 ienes hoje, então amanhã também será de 100 ienes”, disse Tsutomu Watanabe, chefe do departamento de economia da Universidade de Tóquio. “Para continuar tornando isso uma realidade, as empresas continuam cortando custos. Elas apagarão algumas luzes e manterão o controle sobre os salários. Seu pensamento se torna progressivamente voltado para dentro.”

Para alguns donos de restaurantes de lámen, apenas um pequeno aumento nos preços seria suficiente para mantê-los funcionando especialmente se os clientes da vizinhança permanecerem fiéis.

Sua relutância em aumentar os preços demonstra uma aversão contínua que prevalece entre empresas e consumidores no Japão, apesar dos esforços do banco central para mudar essa mentalidade. E com os principais preços pagos pelo consumidor caindo novamente, a perspectiva de um retorno à deflação que enraizou essa atitude não pode ser descartada.

Ainda assim, alguns proprietários de restaurantes estão adotando uma nova abordagem. Kazuhisa Tanaka diz que uma lâmpada se acendeu em sua cabeça em uma noite sombria de maio, enquanto ele tentava descobrir como se manter em funcionamento e, ao mesmo tempo, reduzir o número de vagas em uso em seu restaurante de 12 lugares.

“Simplesmente cortar o número de clientes sem saber quando essa pandemia vai acabar é cometer um erro”, disse Tanaka. Ele decidiu aumentar o preço de um almoço para 1.500 ienes (US$ 14) de cerca de 1.000 ienes durante os horários de pico e baixar o preço para 800 ienes – pouco mais da metade – após 14:30.

“Ajustar os preços se tornou minha ferramenta para lidar com a crise e isso nunca teria acontecido sem a covid-19”, disse Tanaka.

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Chef prepara receita de lámen em Tóquio; de janeiro a agosto, 1.221 restaurantes fecharam as portas no Japão.  Foto: Noriko Hayashi/Bloomberg

Entretanto, seus funcionários se opuseram à sua proposta dinâmica de preços, rotulando-a de desleal, e insistiram que ele colocasse um aviso do lado de fora do estabelecimento deixando claro que a ideia era dele, não deles.

Tanaka não está sozinho ao optar por preços dinâmicos, uma tendência emergente que oferece um vislumbre de esperança para os estrategistas que buscam um maior movimento de preços em um país onde a inflação está em zero ou abaixo de zero desde março.

A Chikaranomoto Holdings, proprietária da Ippudo, uma das cadeias de restaurante de macarrão mais populares do país com lojas pelo mundo, de Nova York a Londres, tem capacidade limitada a cerca de 60% como medida de prevenção contra o vírus.

Vendo que a receita ainda estava em torno da metade do nível do ano anterior após a reabertura, a rede decidiu aumentar o preço de alguns de seus menus no final de julho, enquanto oferecia pratos de lámen novos e mais baratos para clientes ultra sensíveis ao preço no mês seguinte, segundo Midori Nakamura, que trabalha no setor de relações públicas da empresa.

“Está se tornando muito difícil manter os preços inalterados com os custos crescentes e o impacto da covid-19”, disse Nakamura. “Portanto, o que fazemos é dar aos nossos clientes uma escolha.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Colégio Franco-Brasileiro adota ‘terceiro gênero’ em vocabulário: ‘querides alunes’

Por Ana Cláudia Guimarães

O Colégio Franco-Brasileiro muda vocabulário | Reprodução

O Colégio Franco-Brasileiro deu um passo a favor da diversidade. Agora, os gramáticos vão ter que dizer o que acham. O colégio emitiu hoje circular aos pais falando sobre o “compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar”:

É que a escola acaba de adotar o que chamaram de “suporte institucional à adoção de estratégias gramaticais de neutralização de gênero em nossos espaços formais e informais de aprendizagem”.  A ideia é a neutralização de gênero gramatical adotando um conjunto de operações linguísticas voltadas tanto ao enfrentamento do machismo e do sexismo no “discurso quanto à inclusão de pessoas não identificadas com o sistema binário de gênero”. O colégio,então, decidiu permitir a docentes e a estudantes que manifestem livremente sua identidade de gênero.

Até aí, não há polêmica. Mas o Franco-Brasileiro foi além.  Dediciu substituir a expressão “queridos alunos” por “querides alunes”, por exemplo, para incluir múltiplas identidades. O Comitê da Diversidade e da Inclusão do colégio fará palestras sobre a questão. Leia abaixo o documento na íntegra.

Em tempo: O Franco-Brasileiro, como se sabe, em maio deste ano, teve um aluna, Fatou Ndiaye, 15 anos, que foi  vítima de racismo e ficou 40 dias sem ir à aula. A família da estudante diz que a escola não tomou as medidas cabíveis e decidiu mudá-la de colégio.