‘Mudar a Constituição é simbólico, mas o que queremos é a queda do patriarcado’, diz coletivo chileno que criou hino feminista contra estupro

Quase um ano depois de ganharem o mundo com a canção de protesto ‘Um violador em seu caminho’, integrantes do coletivo Lastesis falam sobre plebiscito que irá decidir se uma nova Constituição será elaborada no Chile e o reconhecimento da revista ‘Time’, que incluiu o grupo na lista das 100 personalidades mais influentes do ano
Leda Antunes

‘O estuprador é você’, diz o refrão da canção de protesto que viralizou há um ano e apareceu em manifestações de mulheres em mais de 50 países Foto: Getty Images

“A culpa não é minha, nem de onde estava, nem do que vestia. O estuprador é você.” Há um ano, estes versos, combinados com uma coreografia enfática, começaram a rodar o mundo e se tornaram um hino feminista, contra o patriarcado e a cultura do estupro, entoado em manifestações de mulheres em mais de 50 países. A repercussão e a catarse foi tamanha que, no mês passado, o coletivo de artistas chilenas Lastesis, que criou a intervenção “Um violador em seu caminho”, apareceu na lista das 100 personalidades mais influentes de 2020 da revista “Time”. 

Daffne Valdés, Sibila Sotomayor, Paula Cometa e Lea Cáceres são as mentes por trás do Lastesis. Elas vivem em Valparaíso, cidade litorânea a 120 km de Santiago. A intenção do grupo, fundado há dois anos e meio, é denunciar a violência contra a mulheres e expor teses feministas por meio de intervenções artísticas. Depois da explosão do hino feminista nas ruas do Chile e do mundo no ano passado, elas contam que, nos últimos meses, em função das medidas de isolamento impostas pela pandemia, concentraram seu trabalho em intervenções nas redes sociais.

Um dos trabalhos feitos durante a quarentena gerou um processo criminal aberto pela polícia de Valparaíso, que acusou as quatro integrantes do grupo de incitar a violência contra os agentes da instituição. O caso gerou uma mobilização internacional e o coletivo recebeu apoio da ONU e até de atrizes de Hollywood, que assinaram uma carta aberta pedindo que o processo seja arquivado.

Daffne Valdés, Sibila Sotomayor, Lea Cáceres e Paula Cometa, fundadoras do coletivo feminista Lastesis, que criou a performance 'Um violador em seu caminho' Foto: Rodrigo Garrido / Reuters
Daffne Valdés, Sibila Sotomayor, Lea Cáceres e Paula Cometa, fundadoras do coletivo feminista Lastesis, que criou a performance ‘Um violador em seu caminho’ Foto: Rodrigo Garrido / Reuters

As fundadoras do Lastesis também estão mobilizadas para apoiar a aprovação da elaboração de uma nova Constituição no Chile. No próximo domingo (25), a população chilena participa de plebiscito para votar se aprova a redação de uma nova carta magna para substituir a vigente, feita durante a ditadura de Augusto Pinochet. Mas as artistas, que preferem responder como grupo, ressaltam:

— Acreditamos que é necessária essa mudança constitucional, sabemos que as mudanças também ter que ser feitas através de políticas públicas. Mas o que aspiramos, como coletivo, é a queda do patriarcado.

CELINA: Depois de um ano de protestos, a população chilena participa de um plebiscito em que votarão se aprovam ou rejeitam a elaboração de uma nova Constituição. Como veem esse momento?

LASTESIS: Reconhecemos a importância desse processo histórico e esperamos que seja aprovada a elaboração de uma nova Constituição para deixarmos de viver em um país regido por uma Constituição que prioriza o mercado em detrimento da vida das pessoas, elaborada em uma ditadura civil-militar. Mas não deixa de nos preocupar o fato de que a demanda do povo, que está nas ruas desde outubro do ano passado, e mesmo antes disso, era de uma assembleia constituinte. O acordo que foi pactado com os partidos políticos e o governo foi esse plebiscito. Primeiro vão consultar se as pessoas querem mudar a Constituição e, depois, de que maneira querem que isso seja feito, dando a opção de uma convenção mista, com participação de parlamentares em exercício, em vez de uma assembleia constituinte convencional composta por representes eleitos pelo povo para isso.

Isso não deixa de ser um ruído. O povo é ouvido pela metade e se tenta, através da burocracia, conservar os privilégios e o poder da classe política, que corresponde à classe mais alta do nosso país. O que estamos pedindo, e o que precisamos fazer para deixar para trás essa nefasta Constituição, é que ela seja redesenhada desde as bases. O fato de se colocar em votação se queremos ou não mudar essa Constituição nos parece um pouco violento, mas acreditamos que essa é via que temos agora e evidentemente vamos votar para a aprovação.https://imasdk.googleapis.com/js/core/bridge3.418.3_pt_br.html#goog_73129062903:56/03:56Milhares de chilenas se reuniram sexta-feira (30) em Santiago e em outras cidades do país para cantar ‘El violador eres tú’, com coreografia ensaiada. Grupos menores de ativistas aderiram ao protestos em outras cidades pelo mundo, como Paris e Barcelona. Nas redes sociais, o movimento emocionou muita gente e rendeu milhares de comentários

Vocês temem que a população seja excluída da construção dessa nova Constituição, caso isso seja aprovado no plebiscito?

Esperamos que o povo seja parte e que saia vitoriosa a opção pela convenção constituinte, não a convenção mista, que é a mais parecida com uma assembleia constituinte, no qual todas, todos e todes os representantes serão eleitos pelo povo. Essa é a maneira de participação mais ativa, a partir das ferramentas possíveis da política institucional. A participação do povo também seguirá sendo ativa nas ruas. As pessoas não saíram das ruas, a presença apenas diminuiu em função da crise sanitária, mas não acabou.

Na semana passada, vocês convocaram um ato em que simbolicamente celebraram a morte da Constituição vigente. Por que é preciso ‘enterrar’ essa Constituição?

A intervenção tinha como propósito comemorar um ano do levante popular no Chile. Essa Constituição é um mecanismo político e institucional de opressão e validação do sistema social, econômico e político que é o neoliberalismo e tem origem na ditadura. É um documento simbolicamente muito forte. A gênese dessa Constituição perpetua o legado da ditadura, dos desaparecimentos, da tortura. Por isso é tão importante, simbolicamente, abandonar este legado. E o que aconteceu no último ano, no Chile, foi um colapso dessa Carta Magna que valida a propriedade privada e considera a vida humana como de segunda categoria. Isso já não é mais válido para o povo.

Também se soma a isso, o fato de ser a semana do 12 de outubro [dia que marca a chegada de Cristóvão Colombo às Américas]. De um ponto de vista decolonial, decidimos lançar ao mar todo o legado de uma sociedade patriarcal e colonial e assim levamos cartazes com distintos conceitos que consideramos que precisamos abandonar, colocamos em um barco para serem levados ao alto mar e não voltarem nunca mais. Foi muito simbólico. É preciso enterrar a Constituição, mas muito mais do que isso. Há um legado colonial e patriarcal, que vem desde este encontro de dois mundos, que precisa ser deixado para trás.

Integrantes do coletivo Lastesis convocam manifestação para defender nova Constituição para o Chile e 'enterrar' carga magna elabora nos anos de ditadura Foto: ADRIANA THOMASA / AFP
Integrantes do coletivo Lastesis convocam manifestação para defender nova Constituição para o Chile e ‘enterrar’ carga magna elabora nos anos de ditadura Foto: ADRIANA THOMASA / AFP

E o que deve haver na nova Constituição, de um ponto de vista feminista?

Para essa nova Carta Magna, a perspectiva deve ser feminista, porque o feminismo, em sua essência, busca o bem comum. A discussão da paridade de representatividade, que assim como em outros países, está em crise no Chile, é algo que deve chamar a atenção quando se formar a convenção constituinte, para que efetivamente todos os setores da sociedade sejam representados. Aqui somamos não só os problemas de gênero, mas das pessoas indígenas, afrodescendentes, e de todos os grupos chamados de minorias sociais que, no fim das contas, são maioria frente a este paradigma masculino heterocisgênero.

Mas nós aspiramos mudanças de base, mais profundas. Acreditamos que é necessária essa mudança constitucional, sabemos que as mudanças também ter que ser feitas através de políticas públicas. Mas o que aspiramos, como coletivo, é a queda do patriarcado. O problema está, na verdade, nessa grande estrutura. É um problema de base que ultrapassa as fronteiras do Chile, está no Brasil, no resto do mundo. Enquanto se perpetuar essa estrutura, vão continuar existindo diversas formas de opressão não só de gênero, mas também de raça, de classe, de sexualidade.

Quais outras formam existem e que vocês têm encontrado para tentar derrubar o patriarcado?

Para nós, é a arte. Decidimos que nossa estratégia, nosso lugar, nossa trincheira, é a arte. E também o próprio corpo. Poder decidir sobre o nosso corpo como pessoas que engravidam, por exemplo, é fundamental. Neste país, o aborto não é uma opção a menos que tenha havido uma violação ou risco de vida para a mulher. A educação sexual integral tampouco é garantida. Há corpos que não são reconhecidos como sujeitos de direito. Coisas básicas, como a saúde, a educação, a habitação são vistas como bens de consumo. Então a base de todas as transformações são as organizações sociais, que levantam essas demandas e fazem pressão nas ruas para conquistar mudanças. Nunca foi feito de outra maneira, pelo menos até agora. Todas as mudanças foram conquistadas pela luta das pessoas. Nada disso foi proposto pela política institucional e pelo governo.PUBLICIDADE

Qual será a atuação do Lastesis daqui para frente, após o plebiscito?

Não estamos focando num trabalho vinculado à Constituição. Esse é um tema que é importante, mas não focamos nisso. As transformações que são necessárias são culturais. Nosso objetivo está aí, ao visibilizar teorias feministas e levantar demandas desde o feminismo para gerar transformações profundas.

Há quase um ano a canção de protesto “Um violador em seu caminho” viralizou e rodou o mundo. O coletivo se tornou uma referência ao ponto de vocês serem escolhidas pela revista ‘Time’ como personalidades mais influentes do ano. Como veem essa repercussão mundial?

Essa repercussão é importante para o feminismo. A canção e a performance vêm dos grandes movimentos de mulheres que nos últimos anos ocuparam as ruas. Há uma necessidade e um impulso, não somente aqui, mas mundial, de acabar com as opressões milenares do patriarcado e das estruturas coloniais. As mulheres suportaram essas opressões em seus corpos por muito tempo. Esse reconhecimento internacional é ao movimento feminista e à capacidade que temos de lutar com a única arma de que dispomos, que é o nosso corpo, em coletivo, sem esperar nada mais que o bem comum.

Também é importante o fato de que isso se situa no Sul do mundo, não nasce do Ocidente e nem dos países que são potências econômicas ou referências culturais, mas de uma região precarizada, de um território que não é a capital do nosso país. Essa performance, que responde a demandas locais, conseguiu transcender fronteiras e gerar essa onda planetária de mulheres e dissidências unidas nessa luta.

Para nós, a escolha da ‘Time’, também demonstra o paradoxo estranho que é a vida. Aparecemos em uma revista que tanto ressalta o capitalismo e a individualidade. Nós somos um coletivo. Isso é bizarro e até engraçado. Quando dizem que um coletivo de arte está entre as personalidades mais influentes do mundo pensamos que o mundo pode mudar.

Esse reconhecimento pode ser um sinal de que as coisas estão mudando ou de que o neoliberalismo está se apropriando desse discurso?

O capitalismo neoliberal tem essa capacidade de se apropriar de tudo como um produto. Mas, ao mesmo tempo, em um tempo de alta globalização como o que vivemos, o nosso trabalho não seria possível sem essa conectividade e a capacidade de imediatismo das redes sociais para difundir esse conteúdo. Sempre há o risco de isso ser absorvido por e para outros fins que não aqueles que pretendemos. Mas é um risco que temos que correr. E reforçamos que não fomos as primeiras a fazer isso.

Na nossa performance, nos reapropriamos dos nossos corpos, que historicamente são territórios de exploração, os transformando em ferramenta de luta e resistência em vinculação com a arte. Acreditamos nisso. E fazemos parte de uma tradição histórica de mulheres e dissidências que lutaram com seu corpo e seguem lutando.

Se de alguma maneira o que nós dizemos conseguiu unificar e alçar essas demandas a um nível global, isso é, sem dúvida é maravilhoso. Mas, ao mesmo tempo, também é preocupante, porque nos demonstra que o problema está por toda parte, porque o patriarcado está por toda parte. Então temos a convicção de que, apesar de todos os riscos que podem haver, essas são as ferramentas de luta que temos e vamos seguir ocupando esses espaços. E esperamos que todas e todes em seus territórios possam seguir fazendo o mesmo.

Grupo de mulheres defende aprovação de mudanças na Constituição chilena, estabelecida na ditadura do general Augusto Pinochet, em protesto no centro de Santiago, capital do país. Neste domingo (25), população votará em plebiscito para decidir se carta magna será alterada Foto: CLAUDIO REYES / AFP
Grupo de mulheres defende aprovação de mudanças na Constituição chilena, estabelecida na ditadura do general Augusto Pinochet, em protesto no centro de Santiago, capital do país. Neste domingo (25), população votará em plebiscito para decidir se carta magna será alterada Foto: CLAUDIO REYES / AFP

Nesse meio tempo vocês também foram denunciadas pela polícia chilena por “incitação a violência” contra a instituição. Como receberam essa notícia?

Para nós, isso beirou o absurdo. Fomos denunciadas quando o Chile já estava vivendo a crise sanitária há alguns meses. Havia pessoas nas ruas denunciando que estavam passando fome. E, logo nesse momento, eles escolhem nos denunciar, um coletivo de quatro mulheres artistas de Valparaíso. Para nos castigar, por um lado, porque saímos do nosso lugar de subordinação. Mas também para castigar todas as pessoas que decidem ir para as ruas se manifestar. Tomamos essa denúncia como um ataque coletivo bastante violento, que só reforça a violência institucional contra mulheres e dissidências.

O processo segue na mesma. Estão investigando, compilando evidências contra nós. Não temos mais novidades. O processo segue aberto, existe, e é real. Não sabemos no que pode dar. Por sorte contamos com apoio jurídico voluntário. Por outro lado, é curioso o desgaste que significa para o Estado e a importância que acabam nos dando ao nos denunciar. Eles tratam o que fazemos com a arte como algo tão violento como as violências concretas que eles vem cometendo contra o povo chileno historicamente.

Pesquisa da Getty Images mostra que crise climática preocupa mais que a pandemia

Pesquisa revelou que 81% das pessoas esperam que as empresas sejam ambientalmente conscientes em sua publicidade e comunicação
Por Soraia Alves

Um novo estudo da Getty Images identificou que a crise climática é a principal preocupação do público, mesmo em meio à pandemia de Covid-19. Dados obtidos pela plataforma de insights da Getty Images, a Visual GPS, em parceria com o YouGov, mostram que o problema cresceu em importância desde a pandemia. Os resultados são baseados em percepções de 10 mil consumidores e profissionais em 26 países.

A pesquisa revelou que 81% das pessoas esperam que as empresas sejam ambientalmente conscientes em sua publicidade e comunicação. Uma proporção ainda maior do público, 91%, entende que a forma como agimos agora terá um grande impacto no futuro.

O número de entrevistados que afirmam estar fazendo todo o possível para minimizar sua pegada de carbono aumentou de 63% no ano passado para 69% agora. Os números preocupados com a poluição do ar também aumentaram 1% no mesmo período, para 85%.

Questionados sobre quais medidas teriam o maior benefício positivo para o planeta, os entrevistados sugeriram adotar a reciclagem (70%), abandonar os plásticos de uso único (60%), adotar produtos ecológicos (58%) e utilizar fontes de energia renováveis ​​para a casa (58%).

Segundo a Dra. Rebecca Swift, chefe global de insights criativos da Getty Images, o interessante dessas descobertas é que elas apontam algum tipo esperança sobre mudanças de comportamento sociais: “É surpreendente e encorajador que, apesar da grande mudança no estilo de vida das pessoas e no comportamento do consumidor trazida pelo Covid-19, o meio ambiente e a sustentabilidade continuam tão importantes para as pessoas como sempre foram“.

Vice-presidente de tênis e calçados masculinos da Versace Salehe Bembury é revistado pela polícia nos EUA e aponta racismo

Vídeo foi postado pelo funcionário nas redes sociais e compartilhado por Donatella Versace, que repudiou a ação da polícia
MARIE CLAIRE

Funcionário da Versace é revistado por policial enquanto fazia compras em loja da marca (Foto: Reprodução: Instagram)

“Em Beverly Hills enquanto negro. Estou bem. Meu espírito, não”, compartilhou o funcionário da Versace Salehe Bembury na legenda do vídeo nas redes sociais. Ele é vice-presidente de tênis e calçados masculinos da Versace e, segundo compartilhado no vídeo, foi abordado por policiais brancos enquanto fazia compras em loja da marca na Califórnia, nos Estados Unidos.

“Estou em Beverly Hills sendo revistado por comprar em uma loja da marca para qual trabalho porque sou negro”, declara Bembury, no que o policial responde: “Você está criando uma narrativa completamente diferente.”

“Vocês verificaram meus documentos. Tudo certo? Então posso ir embora”, continuou o funcionário. Ao tomar conhecimento do caso, Donatella Versace, atual vice-presidente do Grupo Versace, compartilhou o vídeo em seu Instagram e declarou:

“Estou chocada que isso tenha acontecido com Salehe Bembury hoje. Ele é consultor da Versace há muito tempo e o que ele viveu é totalmente inaceitável. Ele foi parado na rua apenas pela cor de sua pele. Força @salehebembury. Enviando amor e apoio.”

Paris prepara sua primeira estátua de uma heroína negra contra a escravidão

Solitude teve atuação emblemática na ilha francesa de Guadalupe no Caribe, no início do século XIX
AFP

A prefeita de Paris Anne Hidalgo posa ao lado de Jean-Marc Ayrault, presidente da Fundação para a Memória da Escravidão, durante a cerimônia de inauguração do “Jardim Solitude” que leva o nome de uma figura histórica e heroína na luta contra a escravidão na Guadalupe francesa Foto: BERTRAND GUAY / AFP

PARIS — A prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo, inaugurou neste sábado um parque na capital francesa onde será instalada a primeira estátua de uma heroína negra que lutou contra a escravidão na ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, no início do século XIX.

A mulher, chamada Solitude, foi uma “histórica heroína dos escravizados de Guadalupe (…), nascida em 1772” e “filha de uma escravizada africana e de um marinheiro branco”, segundo indica a Cidade de Paris em um comunicado.

Hidalgo afirmou que a estátua será instalada no jardim inaugurado em Paris, chamado Solitude em homenagem à “mulher que, por sua valentia e seu compromisso com a justiça e a dignidade, abriu junto com outros o caminho para uma abolição definitiva da escravidão na França”.

— Em breve, uma estátua desta heroína, a primeira de uma mulher negra em Paris, será colocada aqui neste parque — disse a prefeita.

Em maio de 1802, uma expedição francesa desembarcou em Guadalupe, seguindo ordens de Bonaparte, para restabelecer a escravidão abolida em 1794.

Diante das tropas francesas, a resistência se organizou, apoiada por ex-escravizados, entre eles várias mulheres e a própria Solitude, que se juntou aos combates mesmo grávida.

Solitude foi presa e condenada à morte. Em 29 de novembro de 1802, no dia seguinte a dar à luz, foi executada por enforcamento.

Trevor Paglen examina a história da fotografia e sua relação com a vigilância estatal

Mostra de Paglen faz das tecnologias contemporâneas seu conceito central, mas grande parte das obras olham para o passado
Sophie Haigney, The New York Times – Life/Style

O artista americano Trevor Paglen em Berkeley, Califórnia. Foto: Aubrey Trinnaman/The New York Times

Em uma pequena galeria no Carnegie Museum of Art, em Pittsburgh, há um cubo de acrílico repleto de peças de computador. A caixa tem cerca de 40 cm de lado, uma reminiscência da caixa de Donald Judd, atualizada para a era digital. É também um hotspot de Wi-Fi aberto com a qual é possível conectar o celular.

Mas antes que o seu telefone se conecte com a internet, ele determina o tráfego por meio da rede do Projeto Tor, que torna o seu celular anônimo, assim como localização e atividade. Quando se conectar, você poderá andar pelo museu sem que seja possível localizá-lo. Esta escultura, intitulada Autonomy Cube, é o tipo de objeto pelo qual Trevor Paglen, de 45 anos, se tornou conhecido, como um dos principais artistas que chamam a atenção para o poder e a ubiquidade da tecnologia de vigilância.

“Ele faz parte de uma série à qual eu me refiro como objetos impossíveis”, diz ao se referir à sua mais recente obra em uma entrevista por telefone. Ele lançou também uma escultura de um satéliteno espaço que descreveu como “um espelho gigantesco no céu, sem valor comercial ou científico, unicamente de valor estético”.

Ele enviou também uma cápsula do tempo com 100 imagens de toda a história humana, em uma órbita perpétua, micro-esculpida em um disco em uma concha folheada a ouro. Estes objetos devem ser considerados “impossíveis” porque não há nenhum incentivo à sua criação em um mundo em que o desenvolvimento tecnológicofoi comercializado, em que a vigilância já se tornou comum e onde o espaço continua em grande parte militarizado.

Sua produção seria, então, um ato de otimismo? “Eu não usaria a palavra ‘otimismo’, mas o que você quer dizer com aquela palavra está ali”, disse Paglen. “São muito contraditórias entre si e contraditórias em relação aos sistemas em que se encontram”. O Autonomy Cube está instalado no Carnegie Museum em uma mostra da obra de Paglen intitulada Opposing Geometries.

Organizada como parte da Hillman Phtography Iniciative 2020, uma incubadora de pensamento inovador sobre fotografia, a mostra poderá ser visitada até março. Como quase toda a obra de Paglen, a mostra faz das tecnologias contemporâneas o seu conceito central, mas grande parte das obras aqui olham para o passado, também.

A exposição, sobre fotografias, demonstra principalmente que embora hoje “vigilância”, “visão computadorizada” e “aprendizado das máquinas” tenham se tornado termos da moda, eles têm uma longa história interligada à fotografia. A mostra inclui imagens da série They Took the Faces From the Accused and the Dead… que reúne milhares de fotos de um banco de dados do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, um arquivo de retratos falados que foi usado para testar os primeiros programas de software de reconhecimento facial sem o consentimento dos envolvidos.

Nas versões de Paglen, partes dos rostos dos envolvidos são bloqueadas, deixando estranhos buracos quadrados que constituem ao mesmo tempo uma referência das suas identidades roubadas e também um meio de devolvê-las ao anonimato. “A mostra olha formas históricas de fotografiae a relação entre essas formas de fotografia e diferentes tipos do poder da polícia ou do poder do Estado”, disse Paglen. “O que é essa relação entre a fotografia e o poder?”.

Autonomy Cube já passou por diversos museus no mundo e agora pode ser visto em Pittsburgh, nos EUA. Foto: Twitter @trevorpaglen

A multiplicidade de significados na obra de Paglen faz parte do seu apelo a tecnólogos e pensadores. “Há muita retórica a respeito de como a Inteligência Artificial (IA)mudará o mundo, e as pessoas não se dão conta de quanto a tecnologia já mudou o mundo, e depois delas perceberem isto, muitas vezes reagem com pavor ou se sentem impotentes”, disse David Danks, professor de filosofia da Carnegie Mellon University, cuja obra versa sobre ética tecnologia e que faz parte da equipe de criação da Hillman Photography Iniciative. 

“Acho que um aspecto realmente importante da obra de Trevor é o fato de que ela não só implica uma reação, não só educa. Acho que Trevor é muito bom em dar indiretamente indicações às pessoas sobre como elas podem tornar-se autônomas.” Muitas das obras nesta exposição são extensões do constante interesse de Paglen nas relações entre fotografia e inteligência artificial, como a sua ImageNet Roulette, um projeto de arte digital e aplicativo que viralizou no fim do ano passado e permitia aos usuários carregarem seus rostos para ver como a IA poderia rotulá-los.

Frequentemente, os resultados foram racistas, sexistas ou mesmo estereotipados – um choque para os usuários, que solicitaram à ImageNet, um grande banco de dados de imagens, a retirada de meio milhão de imagens. No entanto, em Opposing Geometries, Paglen – que é PhD em geografia e tem mestrado em Belas Artes – medita sobre a história das imagens e sobre o futuro. “Se olharmos para estas histórias de produção tecnológica da imagem, elas são sempre, se não parte de um projeto militar, pelo menos adjacentes a um projeto e alimentadas por ele, por isso, de certo modo, temos estas histórias muito contíguas”, afirmou.

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This is another piece that was supposed to open at @altmansiegel a few weeks ago. This is from a body of work that looks at 19th Century photography in the western US in relation to contemporary forms of computer vision and AI. Trying to think through some of the histories of image-making, technology, extraction, and colonialism that create a thread from contemporary Silicon Valley to 19th Century survey photography. The place is a weird ridge in Nevada that was photographed by Timothy O’Sullivan on the Wheeler “reconnaissance” survey of the west in 1867 – O’Sullivan’s image is one of my all-time favorite photographs ever made. It took me years to find this place – rummaging around the desert over many summers. One time I thought I’d found it. Problem was that it got dark and there was no trail and I only knew that my truck was about 2 miles north of me parked on a dirt road that was perpendicular to the direction I’d hiked. I had to follow the north star (good thing I had to learn how to read the sky from photographing satellites). I have to admit I never actually found the site. I was talking to Bill Fox one day and mentioned my ongoing quest, and he told me he’d been there with Mark Klett. Bill put me in touch with Mark, who very generously gave me the GPS coordinates – Mark had found the site as part of his “Third View” project with Byron Wolf. The image is made with an 8×10 camera, whose film has been scanned and run through the computer vision software that we built in my studio and then printed as a traditional gelatin silver print. Karnak, Montezuma Range Haar; Hough Transform; Hough Circles; Watershed, 2018 Silver gelatin print Triptych, each element: 80 × 39.9 in. (203.20 × 101.35 cm) 81 ½ × 121 in. (207.01 × 307.34 cm) (framed)

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Entre estas histórias entrelaçadas, estão a da fotografia e da colonização do Oeste americano. Enquanto imagens indeléveis de lugares como as do parque Yosemite, tiradas nos anos 1860, há muito tempo fazem parte do tecido dos mitos americanos. Paglen está interessado nelas enquanto primitivas afirmações de controle militar.

O Departamento da Guerra (atualmente conhecido como Departamento de Defesa) financiou inúmeras missões de reconhecimento no Oeste, realizadas nos anos 1860 e 1870, e enviou fotógrafoscomo testemunhas da conquista do novo território. Entretanto, estas fotos sublimes, disse Paglen, eram como “o olhar do Estado sobre um novo território”, tema que ele explora em sua exposição no Carnegie Museum.

Algumas das fotos de Paglen parecem se estranhamente com as primeiras fotografias de Carleton Watkins do parque Yosemite e na realidade foram criadas usando um processo de impressão histórico chamado ‘albumen’. Mas ele também passou as fotografias por algoritmos de visão computacional, que têm dificuldade para identificar os objetos no seu ambiente natural, gerando linhas e formas na superfície das imagens.

As fotosque resultam do processo são ao mesmo tempo hiper-modernas e antigas, ligando passado e presente pela tecnologia. “Há mais imagens hoje feitas por máquinas para máquinas para serem interpretadas do que todas as imagens que existiram para a humanidade”, disse Dan Leers, o curador de Opposing Geometries. “Mas em lugar de levantar as mãos, Trevor faz o caminho inverso da história da fotografia e, em alguns casos, volta a usar especificamente as imagens existentes, e, em outros, admitindo processos históricos na produção destas imagens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Ruth Bader Ginsburg: veja repercussão da morte da juíza

Ginsburg lutava contra um câncer e morreu aos 87 anos. Barack Obama, Viola Davis, Bill Clinton, Lizzo e Greta Thunberg lamentaram a morte da juíza.

NIKKI KAHN/THE WASHINGTON POST/GETTY IMAGES

Políticos e celebridades lamentaram a morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, a mais antiga juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos e líder da ala liberal. Ginsburg morreu nesta sexta-feira (18), aos 87 anos, por complicações de um câncer no pâncreas.

Ginsburg foi diagnosticada com o câncer de pâncreas no ano passado, mas não foi a primeira vez que ela passou por tratamentos sérios. Em 1999, foi tratada para um câncer de cólon, e enfrentou um câncer de pâncreas também em 2009. Em dezembro de 2018 também foi tratada de um câncer no pulmão.

Em 2018, a juíza foi homenageada no filme ‘Suprema’, longa com Felicity Jones no papel principal que acompanha a história de Ginsburg durante a juventude e a tentativa de fazer carreira como advogada nos anos 1960 e 1970.

Barack Obama

“A juíza Ruth Bader Ginsburg lutou até o fim, contra o câncer, com fé inabalável em nossa democracia e seus ideais. É assim que nos lembramos dela. Ela nos deixou instruções de como queria que seu legado fosse honrado”.

Bill Clinton

“Perdemos um dos juízes mais extraordinários de todos os tempos que serviram na Suprema Corte. A vida de Ruth Bader Ginsburg e suas opiniões marcantes nos aproximaram de uma união mais perfeita”.

Viola Davis, atriz

“Por favor, trabalhe sua magia suprema, mente brilhante e coragem do céu !! Ajude-nos aqui! Obrigado pelo seu serviço, Rainha !! Descanse em paz gloriosa”.

Billy Porter, ator

“Descanse bem RBG. Você fez o que precisava ser feito. Sua caminhada e seu legado fala por si. Obrigado por dedicar sua vida para servir aos outros e nós vamos continuar a sua luta pela igualdade que todos merecemos”.

Lizzo, cantora

“Obrigada”.

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Thank you.

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Reese Witherspoon, atriz

“Obrigada por lutar por nós. Que o seu legado seja a nossa motivação para buscar ativamente a verdadeira justiça para todos”.

Robert Downey Jr, ator

“Lute pelas coisas que lhe interessam, mas faça-o de uma forma que leve os outros a se juntar a você.” RIP, RBG

Greta Thunberg, ativista

“As mulheres pertencem a todos os lugares onde as decisões são tomadas”, Ruth Bader Ginsburg

Repercussão no Brasil

Em nota assinada pelo presidente Luiz Fux, o Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou que “recebe com pesar” a notícia da morte de Gisnburg. “Sua atuação na defesa da igualdade de gênero, das minorias e do meio ambiente está entre as marcas de sua trajetória seja na advocacia, seja na magistratura da mais alta Corte do Estados Unidos da América.”

O ministro Luís Roberto Barroso repercutiu no Twitter a morte da ministra da Suprema Corte americana Ruth Bader Ginsburg:

“Ruth Ginsburg marcou época como advogada e como juíza. A história é um processo social coletivo. Mas há pessoas que fazem toda a diferença”.

A nova polarização: como viagens durante a pandemia viram motivos de briga

Nos EUA e no Reino Unido, decisão de pegar a estrada acaba em críticas e discussões entre amigos e familiares
Tariro Mzezewa / 2020 / The New York Times

Fla-Flu turístico: viagens durante a pandemia têm causado brigas e discussões entre amigos e familiares Foto: Annelise Capossela / The New York Times

Michael Huxley vem tomando muitas broncas ultimamente. Seu pecado? Viajar durante a pandemia. Ele saiu de Liverpool, onde mora, rumo à Espanha há algumas semanas, e já esteve em um punhado de cidades no próprio Reino Unido desde o início da crise do coronavírus, incomodando amigos, familiares e até estranhos, que acham que ele deveria ficar em casa para diminuir os riscos de contrair e espalhar o vírus.

—  Venho recebendo críticas em nível profissional e pessoal também. Alguns levantam o ponto de vista ético, dizendo que eu não devia estar viajando e espalhando a doença para todo lado, mas tem aqueles que apelam para o emocional, tipo “você não devia viajar porque pode matar minha avó” —  conta o blogueiro responsável pelo “Bemused Backpacker”.

A decisão de viajar ou ficar em casa virou foco de conflito este ano, com as pessoas definindo quais tipos de viagens são aceitáveis — se é que há algum — e em que condições.

Há quem diga que sair de casa, só em caso essencial; e há os que afirmam que pode ser a lazer, desde que as distâncias sejam curtas e se possa ir de carro. Há também aqueles, como Huxley, para quem viajar não tem nada de mais, contanto que a lavagem das mãos seja frequente, o ambiente seja mantido limpo e haja distanciamento social. O fato é que as várias definições do que é certo e errado estão criando desavenças entre amigos e familiares.

— Foi mais fácil tranquilizar a família, que sabe que sou enfermeiro, viajo há mais de 20 anos pelo mundo e sei me cuidar, mas tentar explicar a conhecidos e desconhecidos que avalio primeiros os riscos e tento reduzi-los ao máximo, mas ainda assim prefiro viajar, é realmente impossível — diz.

Huxley conta que viajou durante outras crises mundiais, incluindo os surtos de Sars e Mers (a síndrome respiratória do Oriente Médio) e o período pós-ataques de 11 de Setembro. Além disso, estava no Egito durante a revolução de 2011.

— Não vejo o que está acontecendo como algo diferente desses eventos. Há surtos, pandemias e ataques terroristas, mas a vida continua. E as viagens também — considera.

A mãe de Erin Niimi Longhurst, escritora e diretora de uma agência digital em Nova York, a tratou com frieza durante várias semanas depois que esta fez uma viagem a Londres, há alguns meses — raridade entre as duas, que geralmente se falam várias vezes durante o dia. A nipo-britânica foi à capital inglesa para acompanhar o parceiro e seus parentes, magoando assim a mãe que mora no Havaí e não está saindo por nada. A excursão durou três meses, antes da volta a Nova York, onde também mora sua irmã, que acabou de dar à luz.

— Minha mãe queria muito visitar minha irmã, mas optou por não ir; em sua cabeça, se ela não podia sair, por que eu deveria? “Se todo mundo agisse como você, estaríamos em uma pior”, foram suas palavras. Ela ficou superpreocupada comigo, mas furiosa também —  conta Niimi Longhurst.

E sua mãe não é a única frustrada; tanto no Twitter como no Instagram, o pessoal vem desabafando sobre familiares, amigos e colegas que fizeram ou estão fazendo viagens não essenciais, gerando discórdia nos relacionamentos.

No Twitter, uma mulher contou que sua mãe insistia em sair de Oakland, na Califórnia, onde mora, para visitá-la em Portland, no Oregon, e que tinha avisado que não a deixaria entrar se o fizesse. “Eu lhe disse não, de jeito nenhum. Não ia vê-la! Podia ficar batendo na minha porta, eu não ia me importar, nem ia deixá-la entrar”, escreveu.

Outra fez o mesmo, só que com a irmã, recusando terminantemente sua visita: “Eu disse NEM PENSAR! Eu ia querer que ela entrasse no avião, pegasse Covid e trouxesse o vírus para minha casa? Ela ficou doida, mas não quero saber. Sou do grupo de ALTO risco e não vou ceder.”

A terceira explicou, também no Twitter, que em breve o enteado chegaria à cidade com a namorada. “Se fosse MEU filho, eu diria não, mas imaginem o drama se eu sugerisse ao enteado que adiasse a viagem”, suspira.

Jill Locke, professora de Ciências Políticas de uma faculdade de Minnesota, e a irmã caçula, Jennifer, que mora na Califórnia e é diretora executiva de uma vinícola, a princípio não conseguiam chegar a um acordo a respeito da visita aos pais, ambos octogenários, em Seattle, neste verão. Trocaram várias mensagens e telefonemas, mas só Jennifer defendia a visita.

— Tínhamos visões completamente díspares. Sob vários aspectos, eu achava que não era a coisa certa a fazer, por mais que quisesse ver nossos pais; já ela não pensava da mesma forma —  explica Jill.

Antes da pandemia, Jill pretendia ir a Seattle de avião com o marido e os filhos, mas, com a disseminação do coronavírus pelos EUA, achou melhor alugar um trailer e ir por terra. Entretanto, não demorou a perceber que o custo dessa opção seria altamente proibitivo, e achou que alguns estados entre Minnesota e Washington não estavam levando as medidas de prevenção muito a sério. No fim, as duas decidiram ficar em casa:

— Na hora de pesar todas essas contingências, fiquei pensando no que poderia levar para meus pais, mesmo agindo da forma mais responsável possível. Trocamos muitas mensagens, e nós duas acabamos irritadas e frustradas.

Já Jennifer garante que estava levando a perspectiva de uma viagem muito a sério, tanto que não saíra de casa desde o início da pandemia; por outro lado, porém, achava importante ver os pais idosos o mais rápido possível.

— Na época eu pensava: “Se não virmos nossos pais agora, quando vai ser?” É isso que acaba com a gente, não saber a resposta. A sensação era a de que poderíamos estar perdendo uma oportunidade preciosa — desabafa Jennifer.

Lindsay Chambers, articulista e editora de 41 anos que vive em Nashville, no Tennessee, se diz surpresa com as justificativas usadas pelas pessoas para sair de férias este ano, incluindo as que não podem deixar passar uma oferta imperdível de passagem barata e as que se recusam a remarcar festas de despedida de solteiro.

Ela conta que praticamente não sai de casa desde fevereiro, mas tem acompanhado os noticiários e visto as imagens do povo reunido em bares e pontos turísticos no centro de Nashville.

— Os turistas não mostram um pingo de consideração com os outros — constata.

E ficou chocada ao saber que seus próprios amigos estavam indo para a praia no verão:

— Tive de me segurar para não gritar com eles, quando disseram que iam “quarentenar na praia”. Viajar para outro estado e ficar em um condomínio alugado, no meio de uma pandemia? Não é assim que funciona o confinamento. Não mesmo.

Ela também se confessa confusa e chateada com a reação de muita gente, como se fosse ela a exagerar por obedecer às recomendações dos médicos sobre saúde e segurança.

— Pode até ser um pouco de paranoia da minha parte, mas nem que você me pagasse eu entraria em um avião hoje. Sério mesmo, existe algo do tipo cuidado exagerado em plena pandemia? Para mim, mil vezes pecar pelo excesso de cuidado que pela omissão — conclui.

Oito coisas que nunca mais faremos da mesma maneira depois do coronavírus

A pandemia pode mudar partes inesperadas de nossas vidas nos próximos anos, dizem os especialistas
Bryan Pietsch, The New York Times – Life/Style

Amigos cantam no Lion’s Roar Karaoke House em Nova York, 21 de fevereiro de 2020.  Foto: Adrienne Grunwald / The New York Times

No início da pandemia, Anthony Fauci, o maior especialista em moléstias infecciosas da nação, disse algo que despertou muita atenção: os apertos de mão se tornarão uma coisa do passado. Pareceu algo forçado. Mas enquanto a pandemia não dá trégua, e nós estamos mais conscientes a respeito de germes e de higiene, “algumas das mudanças que adotamos provavelmente se tornarão duradouras”, disse Malia Jones, que pesquisa os ambientes sociais e a exposição às moléstias infecciosas no Applied Population Laboratory da Universidade de Wisconsin-Madison.

Assoprar as velas do seu bolo

A tradição de cantar ao redor do bolo de aniversário e de apagar as velinhas poderá desaparecer. “Sempre achei nojentas as cuspidas em cima do bolo”, disse Susan Hassig, professora adjunta de epidemiologia da Tulane University em Nova Orleans. Na realidade, o maior risco é cantar “Parabéns pra você” porque as gotículas de saliva que espalhamos podem transmitir doenças respiratórias, como o novo coronavírus, disse Melissa Nolan professora assistente de epidemiologia na Universidade da Carolina do Sul em Columbia. Melhor cantar ao ar livre, sugeriu, e espalhar gotículas também.

Dar uma tragada no vape de um amigo

Se você ainda fuma tabaco, já sabe que deveria deixar, e agora há um risco adicional em compartilhar um cigarro eletrônico ou um cigarro comum. Quanto à maconha, o número de usuários que prefere o tipo comestível durante a pandemia está aumentando.

As vendas legais de drogas comestíveis aumentaram 32,1% na semana de 20 de julho em comparação com a semana de 6 de janeiro na Califórnia, Colorado, Nevada e Washington, segundo dados da Headset, uma empresa de pesquisa de mercado de maconha. Por outro lado, itens inalados como bagulhos pré-enrolados e canetas vape tiveram um desempenho menor em comparação com o mercado de maconha como um todo.

“É improvável que muitas pessoas se sintam confortáveis passando um bagulho em um círculo de amigos, hoje em dia”, disse Cooper Ashley, analista sênior de dados da Headset. A professora Hassig disse que compartilhar goles ou fumaça pode contribuir para espalhar uma doença respiratória, não apenas o coronavírus.

Deixar seu filho pular em uma piscina de bolas

Nadar em uma piscina de plástico – um material que segundo os especialistas é especialmente adequado para carregar germes – poderá tornar-se uma coisa do passado. O McDonald’s já os retirou dos seus playgrounds. “Não sei se teremos piscinas de bolas no futuro”, disse ao “Time” o diretor executivo da companhia, Chris Kempczinski. “Deve haver boas razões de saúde pública para não fazermos mais muitas piscinas de bolas”.

Dar uma ajeitadinha na sua maquiagem depois do expediente

Antigamente, se você queria experimentar um novo produto – ou dar uma repassada na maquiagem de graça entre o expediente e uns drinks depois do trabalho – poderia usar os produtos para teste ou as amostras da Sephora, Ulta ou das lojas de departamentos. Você nem pensa quem poderá ter usado a escova ou a amostra de batom antes de você.

A Saks Fifth Avenue é uma das lojas que estão introduzindo mudanças.  As amostras que podem ser usadas por qualquer pessoa estão sendo substituídas por produtos descartáveis, usados uma única vez, informou ao “The New York Post” o diretor executivo da loja.

Entrar em um bar lotado de gente com som alto

Depois de meses de distanciamento, de uso da máscara e de proibição de breves papos em público, vamos voltar a berrar um na cara do outro em bares ou clubes? Os especialistas esperam que não. “O distanciamento social está se tornando uma norma comum, a esta altura”, disse Nolan. Conversar com alguém de perto, principalmente quando as pessoas conversam em voz alta ou com grande animação em um ambiente em que as bebidas alcoólicas são abundantes e a música é alta, é arriscado, afirmou Nolan.

Ele aconselha algo mais seguro, como conversar calmamente, em tom baixo. O seu comportamento em situações sociais é determinado pela maneira como as pessoas ao seu redor agem, disse Jeanine Skorinko, uma professora de Psicologia Social do Worcester Polytechnic Institute em Massachusetts. Se o seu grupo observa as normas do distanciamento social, conversa calmamente e evita compartilhar bebidas, provavelmente você fará o mesmo.

Colocar vários canudos em um coquetel gigante

Sabe aqueles copos para bebida alcoólica comicamente gigantescos? Às vezes são chamados Scorpion bowls e a bebida é compartilhada por várias pessoas com canudos longos. São decorados com peixes de plástico nadando em uma tigela de plástico para peixe. Ou então o drinque pode ser um Moscow Mule servido em uma caneca de cobre do tamanho de um vaso de flores.

Estes coquetéis gigantes são baldes de porcarias, avisam os epidemiologistas. Nolan disse que o álcool pode matar tudo o que passa pelo canudo, embora Hassig avise que alguns germes e vírus “podem sobreviver a um pedacinho de pão ou biscoito em uma bebida”. Se é que estas bebidas voltarão, só as compartilhe com companheiros de quarto muito próximos.

Convidar pessoas para uma partida de pôquer ou de Settlers of Catan Night

Receber amigos em casa pode ser melhor do que sair, porque pelo menos você controla quem pode convidar para um contato mais próximo. Mas o anfitrião deve pensar em convidar “indivíduos de uma espécie semelhante de tolerância ao risco”, disse Hassig. E você pode querer fazer uma dessas reuniões ao ar livre, se possível, dizem os especialistas.

Embaralhar e distribuir as cartas, ou inclinar-se sobre uma mesa para manipular as peças de um jogo, cartas, dados, etc., pode ser arriscado. Nolan sugeriu que se escolham apenas jogos que não exigem contato com os outros jogadores. Charada, alguém vai? (Vale observar que os jogos de cartas populares e os jogos de mesa, como Settlers of Catan, têm aplicativos que podem ser jogados com um grupo que usa telefones, tablets ou computadores.)

Apertar as mãos, abraçar um amigo, beijar o rosto

Voltemos a Fauci e ao aperto de mão. Quais as alternativas? Encostar os cotovelos – por mais desajeitado e sem graça que seja – seria talvez uma alternativa a longo prazo, segundo Hassig. Mas há uma boa notícia no que diz respeito ao abraço: é menos arriscado do que um beijo na face e menos do que o aperto de mão, segundo Nolan, porque quando abraçamos normalmente desviamos o rosto uns dos outros.

Mesmo assim, todos estes cumprimentos fazem com que as pessoas tenham um contato mais próximo quando, muitas vezes, não é necessário. “Há cumprimentos que funcionaram durante séculos”, que não implicam em tocar o outro, disse Hassig, citando o wai na Tailândia, no qual unimos as mãos como em oração e nos inclinamos ligeiramente. Ela também sugeriu apenas acenar com a mão de longe. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

A corrida pelas au pairs nos Estados Unidos

Restrições de visto impostas pelo governo devido a pandemia de coronavírus barrou muitas au pairs que se preparavam para viajar ao país
Jordan Salama, The New York Times – Life/Style

Ilustração de Eva Redamonti/The New York Times

Quando a au pair decidiu mudar de família, ela temia estar assumindo um grande risco.

Desde o ano passado, a colombiana de 20 anos trabalhava como au pair em Nova York, uma das 20 mil jovens – na maior parte mulheres – que chegam aos Estados Unidos todo ano para viver com famílias e cuidar de seus filhos. O contrato da colombiana só deveria expirar no final de 2020, mas numa manhã, em meados de junho, uma disputa com o pai da criança a levou ao limite num ambiente doméstico tenso por causa da quarentena.

“Não suporto mais essas pessoas”, ela me escreveu em espanhol. “Quero sair daqui hoje”. Ela conversou sobre a situação com seu coordenador local, a deixando com duas semanas para encontrar uma nova família, ou então retornar à Colômbia. A jovem não tinha a mínima ideia do que fazer em seguida.

Mas sua inquietação se transformou em surpresa alguns dias depois, quando checou seu e-mail – dezenas de famílias em todo o país desejavam marcar uma entrevista com ela. Normalmente, a demanda por au pairs nos Estados Unidos não é tão alta, mas algo mudou: em 22 de junho, o governo Trump emitiu uma ordem executiva suspendendo muitos vistos de trabalho para estrangeiros, pelo menos até o final deste ano. A ordem incluiu o programa de vistos J-1, no qual o programa de au pairs, gerido pelo Departamento de Estado, está classificado.

Se de um lado a pandemia do coronavírus tornou difíceis as viagens internacionais para muitas pessoas, as restrições de visto confirmaram que as novas au pairs que se preparavam para vir aos Estados Unidos não mais poderiam entrar no país. As famílias americanas que as esperavam, especialmente pais que trabalham e dependem do programa como fonte primária de cuidado dos filhos, passaram a ter dificuldade para encontrar um substituto.

Conversei com dezenas de au pairs que estão no país e tive depoimentos de muitas pela mídia social. Elas pediram para seus nomes verdadeiros não serem usados nesta reportagem, temendo alguma retaliação.

Muitas famílias têm recorrido a fóruns não oficiais no Facebook e em outros sites para tentar encontrar possíveis babás, gerando uma corrida frenética na mídia social para atrair o pequeno número de au pairs no país ainda disponíveis.

“Quase todo mundo vem dizendo ser improvável conseguir uma au pair”, disse Erin Burkhart, professora de uma escola secundária, com dois filhos, que vive na área de Seatlle e cuja au pai mais recente retornou à sua família na Alemanha. “O processo de busca em si já é um trabalho em tempo integral. No momento, Erin vem enviando e-mails para todo mundo. Pergunto para todas as pessoas. Fiz 15 vídeo chats na última semana”, disse ela.

Na outra extremidade, embora as au pairs que ingressam no programa possam tratar com apenas duas ou três famílias no processo inicial de entrevistas, as candidatas que estão no país agora vêm sendo procuradas por 10, 20, às vezes 50 famílias potenciais. Mesmo para os au pairs do sexo masculino, que com frequência têm mais dificuldade para se acertar com uma família, as coisas estão mais fáceis. “Como sabem que não têm muitas opções, as famílias estão aceitando rapazes para o trabalho também”, disse uma au pair do Brasil.

“Agora nos sentimos poderosas”, disse a au pair colombiana. “Pelo menos agora, temos a chance de escolher”.

Casas na praia, viagens para praticar mergulho

Embora administrado pelo Departamento de Estado, o programa é operado por uma rede de agências particulares (Cultural Care, Au Pair Care and Au Pair in America são algumas) encarregadas de verificar e adequar as au pairs às famílias antes mesmo da chegada delas aos Estados Unidos. Localmente, as au pairs e as famílias que as hospedam tratam mais diretamente com os consultores de uma Local Child Care Consultant (LCC) ou conselheiros regionais das agências que tratam dos problemas do dia a dia que podem surgir no âmbito das famílias.

Se uma au pair que já está no país deseja mudar a forma de entrosamento pactuada ou mudar de família, seu pedido precisa ser aprovado primeiro pelo LCC e o acordo tem de ser aprovado pela agência.

Mas muitas conversas introdutórias com frequência se realizam por canais não oficiais, como Facebook, WhatsApp e recomendações pessoais – de maneira a agilizar o processo. Nas últimas semanas essas redes não oficiais ficaram inundadas.

Muitas au pairs que já estão no país agora vêm informando as famílias interessadas que só aceitam o trabalho em troca de algumas garantias, como um carro particular ou pagamento de no mínimo US$ 400 por semana. O menor estipêndio de uma au pair é US$ 195,95 por semana para um máximo de 45 horas de trabalho na semana, estabelecido pelo Departamento de Estado.

As famílias que recebem uma au pair também estão atentas a essa dinâmica. Examinando alguns grupos no Facebook em meados de junho, vi postagens anunciando benefícios como bilhetes de transporte público ilimitados, um novo carro, acesso à casa de praia e viagens para fazer mergulho, além de dobrarem o pagamento. “Estamos oferecendo US$ 2 mil de bônus na assinatura do contrato”, escreveu um pai.

Tendo se submetido a condições de trabalho complicadas na primeira família que a hospedou – incluindo ataques verbais, serviços adicionais como limpeza da casa e cuidar do cachorro e longas horas de trabalho extra sem receber, a jovem colombiana tinha como principal prioridade encontrar uma família que melhor se adequasse a ela.

Lutando pelos cuidados infantis

Quando o entrosamento é bom, famílias e au pairs acabam mantendo um relacionamento duradouro. “O cuidado infantil é um aspecto, mas gostamos do intercâmbio cultural envolvido”, disse Dawn Gile, advogada e mãe que mora em Maryland. “Vamos viajar para a Europa e visitar nossas antigas au pairs. Mantemos contato com elas, nossas filhas conheceram línguas estrangeiras, cultura e alimentos de outros países – elas enriqueceram com o programa de au pair”.

Mas o principal motivo para as famílias contratarem uma au pair, de longe, é o cuidado, flexível e acessível, dos filhos. E com o coronavírus ameaçando as escolas e creches de ficarem fechadas, e com as complicações em encontrar babás avulsas por conta das regras de distanciamento, o cuidado com as crianças por alguém que more na casa tem um apelo ainda maior. Especialmente no caso das pessoas cujo trabalho é considerado essencial – médicos e outros profissionais da saúde em particular – que dependem do apoio de uma au pair para poderem arcar com longas horas de trabalho durante a pandemia.

Quase um mês depois de as regras iniciais serem emitidas, o Departamento de Estado anunciou que algumas au pairs, ou seja, aquelas que cuidam de filhos de profissionais médicos envolvidos no combate à covid-19, ou crianças com necessidades especiais ou médicas – ficam isentas das restrições de visto e podem entrar no país.

Famílias de militares, que mudam com frequência, também são as mais afetadas pela regra. “É frustrante em vários aspectos porque as esposas de militares tentam manter com dificuldade uma carreira apesar do impacto de seu trabalho no lar”, disse Gile, cujo marido está no Exército e que é presidente do Military Spouse JD Network. Agora que sua próxima au pair foi impedida de entrar no país, ela diz que isto irá impossibilitá-la de continuar trabalhando.

“Há muitos pais que, por causa da decisão, terão de deixar seu emprego”, disse Erin Burkhart.

Rachel Block, ex-economista do Banco Mundial e já habituada a ter uma au pair, foi mais direta: “O principal substituto é a mulher trabalhar menos e sair do mercado de trabalho”.

O ajuste certo

À medida que o frenesi continuava, a au pair colombiana reduziu as suas dezenas de opções a um punhado de famílias. Depois do seu quarto dia de entrevistas sem parar ela enfim disse triunfante, “Tenho uma família”, com um largo sorriso.

Erin Buckart foi uma das poucas mães que também puderam comemorar: “Acabamos de contratar nossa au pair esta noite”, escreveu em um e-mail.

“A au pair estava contente, no final, pelo fato de não se deixar atrair por promessas de carros ou casas na praia, ou mais dinheiro, o que poderia ser no final uma desilusão.

“Tenho a impressão de que é uma família que realmente vai se preocupar comigo”, disse ela. E como já estava aqui no país, ela conseguiu resolver a sua situação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO