Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos

O termo hikikomori se refere tanto à condição quanto às pessoas que são afetadas por ela, aquelas que vivem ‘isoladas do mundo’ – Getty Images

No nosso mundo hiperconectado pode ser difícil se desconectar. O fluxo interminável de emails, tuítes, curtidas, comentários e fotos nos mantém constantemente “ligados” à vida moderna.

Mas no Japão, meio milhão de pessoas vivem isoladas. Elas são conhecidas como “hikikomori”– na prática, pessoas solitárias que se afastam de todo o contato social e, muitas vezes, ficam anos sem sair de casa.

Uma pesquisa do governo identificou cerca de 541 mil pessoas (1,57% da população) no país vivendo nessa condição, mas muitos especialistas acreditam que o número total pode ser muito maior, porque pode levar anos até que peçam ajuda.

O problema não está, porém, restrito ao Japão como se acreditava. Ele também tem sido reportado em outras partes do mundo.1

Na vizinha Coreia do Sul, uma análise de 2005 estimou que havia cerca de 33 mil adolescentes isolados socialmente (0,3% da população); em Hong Kong, uma pesquisa de 2014 estimou que tal isolamento alcançava 1,9% da população.

Mas isso não ocorre apenas na Ásia; também se dá em países como Estados Unidos, Espanha, Itália e França, por exemplo.

E um tema controverso (mas comum) nas pesquisas é a influência da tecnologia moderna no isolamento. Ainda que não haja estudos suficientes comprovando uma relação concreta entre esses dois fenômenos, especialistas dizem estar em alerta.

O QUE É HIKIKOMORI?

O termo hikikomori se refere tanto à condição quanto às pessoas vítimas dela e foi cunhado pelo psicólogo japonês Tamaki Saito em seu livro Isolamento social: uma adolescência sem fim, de 1998.

Hoje, esse conceito é definido como uma combinação de isolamento físico e social somada com um sofrimento psicológico que pode durar seis meses ou mais.

O transtorno foi considerado, inicialmente, cultural. E há razões para se pensar que a sociedade japonesa é especialmente suscetível a ele, diz Takahiro Kato, professor de psiquiatria na Universidade de Kyushu, na região Fukuoka, e pesquisador do tema.

“No Japão há um ditado muito famoso que diz: ‘O prego que se destaca leva martelada'”, diz Kato. “E as rígidas normas sociais, as altas expectativas manifestadas pelos pais e a ‘cultura da vergonha’ fazem com que a sociedade japonesa seja terreno fértil para sentimentos de inadequação e o desejo de querer se esconder do mundo.”

‘EU NÃO QUERIA VER NINGUÉM’

Tomoki *, de 29 anos, deixou o emprego em 2015. Ele me diz que estava decidido a voltar a trabalhar e que regularmente saía em busca de vaga. Também participava de um grupo religioso quase diariamente, mas o líder deste grupo começou a criticar publicamente sua atitude e incapacidade de conseguir trabalho.

Quando ele parou de ir às sessões religiosas, o líder passou a ligar para ele várias vezes por semana. Essa pressão, aliada à que vinha da família, acabaram empurrando ele para um completo isolamento.

“Eu me culpava”, diz ele. “Eu não queria ver ninguém, não queria sair.”

O centro Yokayoka, que oferece apoio aos hikikomorisna cidade de Fukuoka, realiza sessões em que os integrantes do grupo descrevem a pressão que sentem em suas vidas.

“A escola é uma monocultura, todo mundo tem que ter a mesma opinião”, disse um dos visitantes, Haru, de 34 anos. “Se alguém diz algo (diferente) está fora do grupo”.

Corresponder às expectativas da sociedade japonesa também ficou mais difícil. A estagnação econômica e a globalização estão fazendo com que as tradições coletivistas e hierárquicas do Japão entrem em conflito com a visão de mundo mais individualista e competitiva do Ocidente, diz Kato.

E os pais japoneses sentem uma forte obrigação de apoiar os filhos independentemente de qualquer coisa, e a vergonha, muitas vezes, os impede de procurar ajuda, explica o psicólogo.

Mas o crescente número de casos fora do Japão está levando muitos a questionarem se se trata de uma questão puramente cultural. Em um estudo de 2015, Kato e colegas pesquisadores nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na Índia encontraram casos em seus países que correspondiam aos critérios clínicos.

Alan Teo, principal autor do estudo, ensina psiquiatria na Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, nos EUA, e diz que é frequentemente contatado por americanos que acreditam sofrer dessa condição.

“As pessoas pressupõem que isso deve ser mais comum no Japão”, explica ele. “Mas se você medir oficialmente o quão comum é, pode encontrar dados surpreendentes.”

DO JAPÃO À ESPANHA

A psiquiatra espanhola Ángeles Malagón Amor, do Hospital del Mar, se deparou com o problema durante um programa de tratamento em domicílio em Barcelona. Ela e seus colegas encontravam frequentemente pacientes com períodos prolongados de isolamento social, o que a levou à literatura sobre os hikikomori do Japão.

Entre 2008 e 2014, eles encontraram 190 casos  os dados mais recentes. Mas isso foi antes de o programa ser expandido e a médica tem certeza de que eles são apenas a ponta do iceberg.

“Na época, éramos dois psiquiatras e duas enfermeiras para uma população de mais de um milhão de pessoas”, diz ela. “Eu acredito que devem existir muito mais casos.”

Entretanto, estabelecer uma explicação mais detalhada é muito difícil.

Muitos estudos dizem que o hikikomori está relacionado a distúrbios psiquiátricos ou de desenvolvimento que podem variar em tipo e gravidade. Também pode ser desencadeado por estresse relacionado ao trabalho ou famílias desestruturadas.

“Uma das razões pelas quais o hikikomori é fascinante é que não há uma única explicação”, diz Alan Teo. “Existem muitos fatores que influenciam.”

Outro fator frequentemente discutido é o papel de tecnologias como a internet, as redes sociais e videogames, fonte de polêmicos debates nas pesquisas sobre saúde mental.

USO DE TECNOLOGIA PODE APROFUNDAR ISOLAMENTO

TaeYoung Choi, psiquiatra e pesquisador que trabalhou no estudo pela Universidade Católica de Daegu na Coreia do Sul, não acredita que a tecnologia necessariamente cause o isolamento, mas que ela é capaz de reforçá-lo e de aprofundá-lo. “Algumas pessoas podem ficar mais isoladas usando a tecnologia, o que torna esse isolamento mais resistente e grave”, diz ele.

Em um estudo de 2018 sobre casos de hikikomori em Barcelona, ​​Malagon-Amor, do Hospital del Mar, disse que em apenas 30% foi identificado vício em internet. Mas eles descobriram que o grupo com vício tendia a ser mais jovem– a idade média deles era de 24 anos, enquanto a média dos 190 casos analisados era de 39.

“Pelo que vimos até agora, isso não é um problema tão grande (hoje). Mas acredito que vai ficar muito maior nos próximos anos nos casos de isolamento social de jovens com vício em internet”, diz a psiquiatra.

O efeito da tecnologia também poderia ser mais sutil, diz Kato. Jogos de computador reescreveram as regras do jogo como hábito social coletivo, com crianças passando cada vez mais tempo em ambientes virtuais controlados do que no mundo real imprevisível. Ao mesmo tempo, internet, smartphones e redes sociais têm tornado o contato indireto entre as pessoas muito mais comum do que o cara a cara.

Para Choi, pesquisador da Universidade Católica de Daegu, “a tecnologia em si não pode estar 100% por trás do agravamento do hikikomori como um fenômeno mundial”. Mas ele considera que nossa crescente capacidade de realizar atividades como comprar, jogar e socializar sem interações do mundo real poderia estar exacerbando o isolamento social.

Com base em estudos conduzidos por seu laboratório, sem ligação com o hikikomori, o pesquisador americano Alan Teo diz que, embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para traçar qualquer relação conclusiva a esse respeito, o contato cara a cara, seja pessoalmente ou por vídeo-chat, representa um menor risco de depressão, comparado ao contato por telefone, email e rede social.

“Se as interações online viram substitutas para as interações cara a cara, eu acho que a pesquisa que eu fiz e as que outras pessoas fizeram indicam que isso é problemático”, diz ele.

‘NÃO DEMONIZAR’

No entanto, é importante não demonizar a tecnologia, diz Teo. As redes sociais e o email não são causas diretas de problemas mentais; eles são veículos de comunicação que podem ser usados ​​tanto de maneira positiva como negativa.

A internet, em especial, oferece uma janela para pesquisas sobre a vida dos hikikomori.

Um método usado para chegar a casos não explícitos de adolescentes socialmente isolados foi o uso de aplicativos de redes sociais, como o WeChat e o Weibo, em um estudo desenvolvido por Teo e outros pesquisadores na China, no ano passado. Eles alcançaram 137 pessoas, um quinto das quais experimentando algum nível de isolamento.

A crescente interligação entre os mundos online e offline também poderia oferecer maneiras de facilitar o retorno dos hikikomori a um cotidiano normal. Em 2016, Kato publicou um estudo de caso sobre um paciente que de repente começou a sair de casa diariamente após baixar o jogo Pokemon Go, da Nintendo.

O jogo usa realidade aumentada para capturar criaturas virtuais no mundo real. Kato diz que este tipo de jogo pode ser útil em centros de ajuda para os hikikomori.

Ele também começou a trabalhar com uma empresa japonesa para criar um robô que possa reintroduzir o contato social na vida dessas pessoas, em um ambiente controlado.

Mas pode haver formas menos tecnológicas de ajudar os hikikomori.

Shinichiro Matsuguma, estudante de doutorado na Universidade de Medicina de Keio, em Tóquio, especializado em psicologia positiva, criou um centro de reabilitação de hikikomoris que foca nos pontos fortes deles para melhorar sua autoestima.

A maioria dos pacientes joga videogames, então a metodologia do tratamento envolve discutir estilos de jogo e motivações para identificar qualidades como trabalho em equipe, estratégia ou liderança.

“Muita gente, inclusive seus pais, acham que os hikikomori não fazem nada. Mas na minha perspectiva eles estão desenvolvendo seus pontos fortes através de videogames”, disse ele à BBC. “E eu sempre digo a eles que isso se aplica a diferentes áreas da vida.”

ACONSELHAMENTO À DISTÂNCIA

Os especialistas concordam que o contato social direto e as terapias intensivas não podem ser substituídos.

Yoko Honda, que dirige o Centro de Saúde Mental e Bem-Estar de Fukuoka, diz que o governo japonês, entretanto, têm pressionado os especialistas para que usem as redes sociais para oferecer aconselhamento à distância aos hikikomori. Eles têm, porém, resistido a adotar essa alternativa.

“Só um tuíte não é o bastante para expressar nossa ansiedade ou nossas emoções”, diz a especialista. Ela concorda, entretanto, que esses canais poderiam ser úteis para alcançar novos pacientes.

Além de psicoterapia e medicação para tratar qualquer transtorno psicológico subjacente, uma parte central de sua estratégia é o aconselhamento familiar para corrigir lares desestruturados.

O centro de apoio Yokayoka também oferece um local seguro para que hikikomoris que estão no caminho da recuperação conheçam outros na mesma condição e reaprendam habilidades sociais atrofiadas. A diretora da instituição diz, entretanto, que a natureza variada dos casos torna o tratamento difícil.

“Esperamos dar assistência personalizada a todos esses hikikomori”, diz ela. “Mas isso sempre demanda muito trabalho e muito tempo”.

‘PACIENTES MUITO FRÁGEIS’

Malagón-Amor comprovou com seu estudo de 12 meses sobre os hikikomori de Barcelona que aqueles que receberam mais terapias intensivas, em casa ou no hospital, reagiram melhor. “Serviços ambulatoriais menos intensivos foram relacionados a um índice maior de abandono do tratamento e, muitas vezes, pioravam o isolamento. “Eles são pacientes muito frágeis”, diz ela.

A especialista também acredita que o isolamento social poderia ser um sintoma de outras condições, como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático, e que o Ocidente poderia aprender muito com a experiência no Japão.

Teo, por sua vez, espera que as pesquisas sobre os hikikomori nos permitam compreender a importância das conexões sociais para nossa saúde física e mental.

“Quando falo com os pais de um hikikomori, fica muito claro para mim que o isolamento social está causando enormes impactos negativos – ele afeta o indivíduo, a família dele e outras pessoas”, diz.

“Não temos prestado atenção suficiente na medicina aos problemas de conexão social. E eu acredito que agora com os hikikomori, com mais foco sobre a solidão, estamos finalmente começando a analisar esses problemas como questões de saúde.” [EDD GENT]

* Os nomes de todos os “hikikomori” foram alterados nesta reportagem para proteger suas identidades

BBC NEWS BRASIL

Anúncios

Rodrigo Yaegashi, editor de moda da Harper’s Bazaar Brasil, dará palestra no IED São Paulo

Rodrigo Yaegashi, editor de moda sênior da Harper’s Bazaar Brasil

Rodrigo Yaegashi, editor de moda sênior da Harper’s Bazaar Brasil, fala sobre Fashion styling: A nova imagem de moda”, no próximo dia 23 de fevereiro, às 16h15, no IED Istituto Europeo di Design, em S. PauloA conferência faz parte do programa IED 360°, evento gratuito e aberto ao público, com palestras e atividades a partir das 14h

A programação é a seguinte:

14H

  • Design estratégico e inovação: Novas economias na perspectiva do design estratégico, com Mariana Castro.
  • Marketing e comunicação de moda: Canais e narrativas digitais com Ariela Silveira e Laura Marquez.
  • Retail design & visual merchandising:Visual merchandising na prática de loja, com Cintia Lie.
  • Food design: Food design thinking, com Paula Fortkamp, Mariana Bacci e Rafael Buchalla.
  • Joias: design & negócios Laboratório de joias (Vagas limitadas)

16H15

  • Design de interiores contemporâneo: Tendências da hotelaria e seu impacto no design, com Eduardo Manzano.
  • UX e design de interação:UX e economia comportamental: a cognição nos projetos interativos, com Ricardo Couto.
  • Fashion styling: A nova imagem de moda, com Rodrigo Yaegashi.
  • Service design:O papel do design no desenvolvimento de serviços, com Fernanda de Divitiis
  • Joias: design & negócios Laboratório de joias (Vagas limitadas)

SOBRE OS CONVIDADOS:

Mariana Castro
Professora da pós-graduação em Design Estratégico e Inovação, Mariana Castro é jornalista formada pela PUC-SP, investigando sobre empreendedorismo criativo e novas economias (criativa, compartilhada, do propósito e circular). É sócia da produtora de conteúdo F451, que publica o Gizmodo Brasil, e cofundadora do app SEM CARRO, vencedor do prêmio WSA na categoria Meio Ambiente e Energia Limpa.

Ariela Ranielly de P. Silveira
Designer de moda formada pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em História, sociedade e cultura pela PUC-SP, Ariela Silveira trabalha como visual merchandiser desde 2003, com passagem em grandes empresas nacionais e multinacionais. Paulista por opção e inquieta por natureza, em 2012, fundou a WhatEver Varejo Criativo, consultoria especializada em Visual Merchandising, e, desde 2017, coordena a área de brand environmentstore design e creative services da Levi’s no Brasil.

Laura Marquez
Formada em Moda pelo Senac e pós-graduada em Marketing and Communication pelo IED, Laura Marquez fundou a agência de comunicação e branding IDHAUS em 2014, com foco em narrativas femininas e de marcas com propósito. Por meio da agência, criou o Chá das 5, evento de conexões e compartilhamento que já conta com 6 edições, entre elas a “Mulheres Disruptivas”, que formou uma roda de conversa e debate com importantes representantes do cenário de empreendedorismo feminino. Ao longo da carreira, atendeu Natura, Mundial Calçados, Grupo Iguatemi e Marisa, e pela IDHAUS já prestou serviços a clientes como Shell e Riachuelo.

Eduardo Manzano
Arquiteto e urbanista com mais de 30 anos de experiência em projetos de hospitalidade, corporativos e planejamento urbano, Eduardo Manzano fundou o EMDA Studio e foi diretor de escritórios internacionais de arquitetura, como VOA Associates e Perkins+Will, tendo participado de mais de 70 projetos de hotéis no país.

Ricardo Couto
Apaixonado pela criação e produção de artefatos digitais elegantes, esteticamente cativantes e, sobretudo, úteis, Ricardo Couto é Designer de Interação com mais de 15 anos de experiência. Atualmente, é Head de UX da fintech RecargaPay e fundador da Semantics – Consultoria em UX e Pesquisas, professor universitário e contínuo estudante da Psicologia Cognitiva e da Ciência da Informação.

Cintia Lie
Na atividade “Visual merchandising na prática de loja”, a coordenadora Cintia Lie trabalhará o dia a dia do profissional de VM e Retail Design no Lab do IED São Paulo, único laboratório que imita uma loja de moda, e promoverá a criação de produções e soluções de visualizações, fluxo e circulação nos pontos de venda tendo em mente a composição e a coerência dos produtos.

Paula Fortkamp, Mariana Bacci e Rafael Buchalla.
Os três food designers e ex-alunos do IED São Paulo conduzirão a atividade, apresentando como o design aborda a visão sistêmica da produção de alimentos e seus desafios atuais e futuros, desde o desenvolvimento de novos alimentos até o consumo.

Fernanda de Divitiis
Formada pela USP com pós-graduação em Administração e Marketing pela FGV e mais de 10 anos de experiência em gestão de pessoas e gerenciamento de projetos, Fernanda de Divitiis está sempre em busca de novas lentes. Designer de serviços e especialista em Design de Interação, é cofundadora do MeWe, empresa de inovação em serviços que cresceu, se fundiu e passou a se chamar WAKE. Nesta jornada, tem em seu portfólio desde grandes empresas a pequenas startups, além de ser também professora de Service Design e especialista em experiência do cliente.

Serviço: IED 360º

23 de fevereiro de 2019, às 14h.
IED São Paulo (Istituto Europeo di Design)
Rua Maranhão, 617 – Higienópolis

Entrada gratuita

Inscrições pelo link: https://ied.edu.br/sao_paulo/evento/ied-360o/

‘Meca’ de fotógrafos e jornalistas, Half King fecha suas portas

O bar, criado para reunir profissionais que cobriam guerras, não sobreviveu ao aumento dos aluguéis causado pelo parque High Line, em Manhattan
Derek M. Norman, The New York Times

Os donos do Half King, a partir da esquerda, Sebastian Junger, Nanette Bursten, Scott Anderson e Jerome O’Connor Foto: Caitlin Ochs para The New York Times

Em abril de 2011, foi noticiado que dois fotógrafos haviam sido mortos pela explosão de um morteiro na cidade sitiada de Misurata, um dos últimos redutos rebeldes contrários a Kadafi na guerra civil líbia.

Depois de alguns telefonemas, houve uma troca de mensagens. Amigos e colegas dos fotógrafos Tim Hetherington e Chris Hondros estavam reunidos em um bar chamado Half King em Manhattan. “Parecia que havia centenas de pessoas lá dentro, sem exagero”, disse Timothy Fadek, um fotojornalista muito amigo de Hondros.

“Todos nós estávamos muito emocionados. A cena mostrava o que era realmente o Half King – como ele evoluiu organicamente para um lugar frequentado por fotógrafos da guerra e fotojornalistas”, afirmou. Uma foto de Hetherington com a sua câmera diante dos rebeldes líbios estava pendurada na parede.

Durante grande parte dos últimos 20 anos, o Half King foi um bar de escritores, fotógrafos e cineastas. Em qualquer dia, no happy hour, fotógrafos especializados em combates reuniam-se ali, contando histórias de lugares distantes, tomando os seus chopes de US$ 5.

Mas o Half King, com suas tardes de leitura e mostras de fotografia, fechou no dia 26 de janeiro. O aluguel havia praticamente triplicado desde a inauguração, há quase 20 anos, e o bar tornara-se insustentável dependência ponto de vista financeiro.

“Nos últimos anos, a única razão de existir deste local era porque o amávamos”, disse Sabastian Junger, um dos proprietários, que foi por muito tempo jornalista de guerra e é autor do livro The Perfect Storm.

Junger, que também dirigiu o documentário de guerra Restrepo com o seu amigo Hetherington, abriu o Half King em 2000, com Scott Anderson, escritor e jornalista que cobriu algumas guerras, e a esposa de Anderson, Nanette Burstein, cineasta. Um quarto sócio, Jerome O’Connor, anteriormente havia sido dono de um bar.

Um retrato do fotojornalista Tim Hetherington, morto na Líbia, pendurado no Half King. O bar fechou em janeiro Foto: Caitlin Ochs para The New York Times

A localização do bar, no West Side de Manhattan, era uma área muito abandonada na virada do século, mas, apesar disso, era muito frequentado. Anderson estava em Darfur trabalhando para “The Times Magazine” quando teve a ideia. “Conheci um fotojornalista holandês, e quando descansávamos, costumávamos conversar. Contei que tinha um bar em Nova York e falei do Half King. Ele disse, ‘Conheço o Half King’. Este lugar se tornou uma espécie de Meca.”

O Half King foi um dos primeiros bares abertos depois dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Mas foi o High Line que mudou o destino do bar. Depois da abertura do parque para pedestres criado nos trilhos do elevado em 2009, os preços dos imóveis subiram vertiginosamente. Os turistas começaram a procurar a área, e os moradores se mudaram.

Depois de 19 anos, o Half King está fechando.CreditCaitlin Ochs for The New York Times

O bar funcionava como uma ponte entre os nova-iorquinos e as terras estranhas que visitavam (o nome vem de um chefe da nação seneca do século 17, que foi porta-voz honorário entre as tribos e os exércitos estrangeiros).

“Eu tinha muitos amigos que, no começo, nunca havia visto fora de uma zona de guerra”, disse Michael Kamber, fotógrafo de conflitos do The Times“. “Só nos encontrávamos no Iraque, Afeganistão, Somália e outros lugares, mas podíamos ir ao Half King, e eles estavam lá.”

A artista não está presente: a nova performance de Marina Abramovic

Marina Abramovic cria exibição pop-up na Serpentine Galleries, em Londres, para apresentar The Life, obra que combina realidade virtual e performance. Vogue esteve na preview para conhecer em primeira mão
ROBERTA RISTOW

Marina Abramovic (Foto: Reprodução/Instagram)

Em 2010, Marina Abramovic apresentou a performance The Artist is Present (A artista está presente) no Museu de Arte Moderna de Nova York. Lá, passou 700 horas sentada numa cadeira cara a cara com os visitantes. A cena da artista com seu vestido vermelho rodou o mundo, celebridades como Lady Gaga e Isabella Rosselini fizeram fila para encará-la no vão central do MOMA e ser parte da obra.

Abramovic desafia os limites do corpo desde o início de sua carreira, no começo dos anos 70. Desta vez, é diferente, a artista se une ao que há de mais moderno em termos de tecnologia para expandir o alcance de sua arte que antes era limitada ao seu corpo. “O fato de que o projeto possa ser repetido em qualquer lugar do mundo sem que seja necessária minha presença é absolutamente incrível. Eu posso estar presente em qualquer parte do planeta”, contou Marina Abramovic à Vogue.

A artista criou em parceria com o Tin Drun, coletivo de tecnologia que estreia no mundo da arte, uma performance de mixed reality. Pela primeira vez, uma obra de arte utiliza uma tecnologia que permite que o espectador veja tanto o que é criado pela realidade virtual quanto o que acontece a sua volta, bastante diferente dos aparatos tecnológicos usados até então, onde o visitante tem a visão bloqueada e perde a noção do ambiente externo. “Quando você ia ao museu ver uma obra de realidade virtual, colocava os óculos e se isolava completamente, não enxergava mais os seus amigos nem os outros visitantes, apenas focava no que o aparato te mostrava. Ir ao museu é algo que une as pessoas, uma experiência que deve ser vivenciada com os outros, algo que antes não era possível acontecer nas obras que envolvem RV. É a primeira vez que algo assim é mostrado. O que estamos apresentando aqui é um diálogo entre o que há de mais importante nas artes visuais e o que existe de mais avançado na tecnologia”, contou à Vogue Hans Ulrich Obrist, Diretor artístico da Serpetine Galleries.

Para criar uma versão digital que fosse o mais fiel possível a realidade, Abramovic foi filmada por 36 câmeras diferentes em um estúdio ultramoderno na França. O resultado é uma espécie de holograma da artista que surge de vestido vermelho vivo, sua marca registrada, e se materializa e desmaterializa durante a apresentação. A performance minimalista dura 19 minutos.  

Segundo Hans Ulrich Obrist, é particularmente bom poder viabilizar esta obra com a Marina Abramovic, pioneira da performance no mundo “É uma forma de imortalizar o trabalho dela. Muito tempo depois de todos nós morrermos, Marina ainda estará presente, a obra ainda existirá. É uma forma muito interessante de transportar a performance para o futuro”.

Marina Abramovic: The Life será apresentada até 24 de fevereiro na Serpentine Galleries. A entrada é gratuita, mas é preciso reservar pelo site https://www.serpentinegalleries.org

Morre aos 95 anos marinheiro da célebre foto do beijo em Nova York

Imagem de homem beijando enfermeira correu o mundo e é uma das mais famosas do século 20

Visitante fotografa imagem célebre feita por Alfred Eisenstaedt exposta em mostra em Roma – Gabriel Bouys -30.abr.13/AFP

WASHINGTON –O marinheiro que beija uma enfermeira na Times Square, em Nova York, enquanto as pessoas comemoravam o fim da Segunda Guerra Mundial, protagonista de uma célebre foto, morreu aos 95 anos.

George Mendonsa sofreu um derrame no domingo (17), depois de cair no asilo onde morava em Middleton, no estado americano de Rhode Island. A informação é de sua filha, Sharon Molleur, ao Providence Journal.

A imagem, que rodou o mundo, é uma das quatro feitas pelo fotógrafo Alfred Eisenstadt para a revista Life. Mendonsa beija uma mulher que veste um uniforme branco de enfermeira. Ele serviu no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial e estava de férias quando a fotografia foi tirada.

Durante muito tempo, Mendonsa afirmou ser ele o marinheiro da foto, mas isso só foi confirmado recentemente com o uso da tecnologia de reconhecimento facial.

Greta Zimmer Friedman, a mulher da foto, morreu em 2016 aos 92 anos. Na época, o fotógrafo não pediu os nomes dos dois estranhos que registrou, enquanto eles se beijavam. Mais tarde, contou o que viu na cena quando o marinheiro correu pela rua e beijou a primeira mulher que encontrou.

“Eu corri na frente dele com a minha câmera Leica, mas lembro que nenhuma das fotos me satisfez”, escreveu ele em “Eisenstadt on Eisenstadt”. 

“De repente, vi alguém pegando algo branco. Virei-me e cliquei o momento em que o marinheiro beijou a enfermeira. Se ela estivesse vestida de preto, nunca teria feito a foto.” AFP

Candidata Michal Zernowitski choca Israel ao trocar partido ultra-ortodoxo pelo trabalhista

Michal Zernowitski cresceu em partido religioso que não permite que mulheres se candidatem
David M. Halbfinger, The New York Times

Michal Zernowitski disse que em Israel há uma “revolução” a caminho entre os ultra-ortodoxos que querem mudanças. Foto: Corinna Kern para The New York Times

TEL AVIV – Em Israel, aproximam-se as primárias, e o antiquado Partido Trabalhista, que vem perdendo apoio e está desesperado para projetar energia e vitalidade, convidou seus 44 candidatos ao Parlamento para uma troca de ideias no campus de uma universidade. Na frente de uma sala de aula, estão sentados vários candidatos de centro-esquerda – um titular há muito no cargo, um conhecido jornalista de esquerda, um líder da minoria druza – e outro, nunca visto neste tipo de reunião, uma mulher ultra-ortodoxa.

Michal Zernowitski cresceu em um partido religioso que não permite que as mulheres se candidatem. Os partidos políticos apoiados pela maioria dos seus vizinhos em Elad, um reduto ultra-ortodoxo, pertencem à coalizão de direita que governa o país e que ela abomina. Michal, 38, escolheu um caminho diferente. É difícil imaginar algo mais árduo.

Michal aguarda a sua vez, sorri, levanta e faz um discurso que impressiona e abre as mentes. A sua fala é uma crítica ao sistema de educação financiado pelo Estado, mas administrado pelos ultra-ortodoxos, o Haredi, no qual, afirma, “a procedência de uma pessoa determina “quem frequentará boas escolas”. Ela conta que se tornou uma pioneira por ser uma mulher ultrarreligiosa que trabalha na indústria tecnológica, mas queixa-se de que os seus filhos estão parados ”no mesmo lugar em que eu estava”.

E critica asperamente os partidos haredi, que segundo ela, estão meio século atrasados na questão dos direitos das mulheres, dos direitos dos gays e em muitas ouras questões, e o governo de direita sobre o qual estes partidos exercem enorme influência, porque acrescenta, ele ignora os problemas que afetam as comunidades haredi por não querer se contrapor aos seus parceiros de coalizão.

E explica aos jovens urbanos que talvez nunca tenham conversado com os seus vizinhos de chapéu preto ou de peruca, que “uma revolução” está a caminho entre os ultra-ortodoxos: os “novos haredim”, como ela os chama – gente mais jovem, mais preparada que viaja para diversos lugares para trabalhar – têm fome de mudança. “Há um fosso enorme entre o que o establishment ultra-ortodoxo faz e o que as pessoas querem”, afirma.

Michal – que obedecendo às restrições usa uma peruca – se considera a personificação dos anseios de uma geração de eleitores ultra-ortodoxos. “Eles tentam integrar-se em Israel e sair dos seus guetos”, disse. Mas para ser eleita ela irá precisar quase de um milagre: o partido escolhido por ela, o trabalhista, está em frangalhos. Algumas pesquisas mostram que ganhará apenas sete cadeiras no Knesset, em comparação com 18 no atual governo. 

Em uma reunião dos candidatos trabalhistas em Jerusalém, Michal, que é casada com um advogado e tem quatro filhos, falou a uma sala lotada. Mais tarde, Izzy Almog, 81, sorriu para ela. “Não fique ofendida, não sei quais serão as suas chances. Mas você é um investimento a longo  prazo”.

Famosos que se dedicam a causas sociais precisam se identificar com o tema, dizem especialistas

Angelina Jolie, uma das artistas mais famosas a se envolverem com temas relacionados a direitos humanos, é um bom exemplo de como uma figura pública pode ampliar uma mensagem
Guilherme Guerra, O Estado de S.Paulo

A atriz Angelina Jolie, enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), discursa em Bangladesh  Foto: MUNIR UZ ZAMAN / AFP

Nesta semana, a atriz americana Angelina Jolievisitou o acampamento de refugiados Kutupalong, em Bangladesh, em trabalho de campo como enviada especial da agência para refugiados das Nações Unidas, a Acnur. De 2001 a 2012, Angelina foi embaixadora oficial do órgão e participou de mais de 60 missões, tornando-se uma das vozes mais importantes na defesa dos Direitos Humanos.

Segundo a Acnur, embaixadores são os rostos públicos que ajudam a levar as causas da ONU a todos os cantos do mundo, graças a sua influência, dedicação e trabalho. Para o professor de Marketing do MBA da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP) Roberto Kanter, é vantajoso ter um rosto conhecido para dar visibilidade a causas sociais. “Como artista, ela faz suas ideias serem ouvidas por mais pessoas”, afirma, reiterando que é preciso que o famoso seja verdadeiro em apoiar uma causa, que é mais beneficiada pela exposição do que o artista. “Se o objetivo da celebridade é ganhar diretamente com isso, existe uma perda”, diz.

A professora do curso livre de Personal Branding da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP) Patricia Loureiro diz que essa autenticidade precisa estar acompanhada de coerência nas causas apoiadas ao longo da vida. Citando a própria Angelina Jolie, a professora afirma que a atriz manteve uma trajetória coesa, “fazendo com que sejamos compelidos a crer e a apoiar os projetos dos quais ela participa.”

Confira abaixo famosos envolvidos com a Acnur e a Unicef (dedicada à primeira infância):

Cate Blanchett

Nomeada embaixadora da Acnur em maio de 2016, a atriz australiana visitou assentamentos na Síria e em Bangladesh, conhecendo pessoas impactadas pelos conflitos nesses países. Em agosto de 2018, ela discursou no Conselho de Segurança da ONU e contou a história de refugiados que conheceu em suas visitas, pedindo que os países ali presentes se mobilizem para achar uma solução para o conflito. 

Sebastião Salgado

O fotógrafo mineiro Sebastião Salgado é um dos embaixadores da Unicef e o único brasileiro a compor a lista atualmente. Ele já atuou junto com diversas organizações da ONU em campanhas e doou os direitos de reprodução de suas fotografias para que o órgão fizesse exibições de seu material.

Millie Bobby Brown

A atriz Millie Bobby Brown, conhecida por interpretar Eleven na série “Stranger Things”, se tornou a embaixadora mais nova da Unicef quando foi nomeada pela organização em 2018, com 14 anos de idade. Ela já participa de eventos da instituição desde 2016 e foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes na lista da revista Time no ano passado. 

Neil Gaiman

O escritor Neil Gaiman se tornou embaixador da Acnur em 2017, depois de promover diversos eventos da agência sobre a crise dos refugiados sírios. Além disso, arrecadou fundos para a Acnur e contou a história de sua prima Helen, que fugiu de um gueto em Varsóvia.