Candidata Michal Zernowitski choca Israel ao trocar partido ultra-ortodoxo pelo trabalhista

Michal Zernowitski cresceu em partido religioso que não permite que mulheres se candidatem
David M. Halbfinger, The New York Times

Michal Zernowitski disse que em Israel há uma “revolução” a caminho entre os ultra-ortodoxos que querem mudanças. Foto: Corinna Kern para The New York Times

TEL AVIV – Em Israel, aproximam-se as primárias, e o antiquado Partido Trabalhista, que vem perdendo apoio e está desesperado para projetar energia e vitalidade, convidou seus 44 candidatos ao Parlamento para uma troca de ideias no campus de uma universidade. Na frente de uma sala de aula, estão sentados vários candidatos de centro-esquerda – um titular há muito no cargo, um conhecido jornalista de esquerda, um líder da minoria druza – e outro, nunca visto neste tipo de reunião, uma mulher ultra-ortodoxa.

Michal Zernowitski cresceu em um partido religioso que não permite que as mulheres se candidatem. Os partidos políticos apoiados pela maioria dos seus vizinhos em Elad, um reduto ultra-ortodoxo, pertencem à coalizão de direita que governa o país e que ela abomina. Michal, 38, escolheu um caminho diferente. É difícil imaginar algo mais árduo.

Michal aguarda a sua vez, sorri, levanta e faz um discurso que impressiona e abre as mentes. A sua fala é uma crítica ao sistema de educação financiado pelo Estado, mas administrado pelos ultra-ortodoxos, o Haredi, no qual, afirma, “a procedência de uma pessoa determina “quem frequentará boas escolas”. Ela conta que se tornou uma pioneira por ser uma mulher ultrarreligiosa que trabalha na indústria tecnológica, mas queixa-se de que os seus filhos estão parados ”no mesmo lugar em que eu estava”.

E critica asperamente os partidos haredi, que segundo ela, estão meio século atrasados na questão dos direitos das mulheres, dos direitos dos gays e em muitas ouras questões, e o governo de direita sobre o qual estes partidos exercem enorme influência, porque acrescenta, ele ignora os problemas que afetam as comunidades haredi por não querer se contrapor aos seus parceiros de coalizão.

E explica aos jovens urbanos que talvez nunca tenham conversado com os seus vizinhos de chapéu preto ou de peruca, que “uma revolução” está a caminho entre os ultra-ortodoxos: os “novos haredim”, como ela os chama – gente mais jovem, mais preparada que viaja para diversos lugares para trabalhar – têm fome de mudança. “Há um fosso enorme entre o que o establishment ultra-ortodoxo faz e o que as pessoas querem”, afirma.

Michal – que obedecendo às restrições usa uma peruca – se considera a personificação dos anseios de uma geração de eleitores ultra-ortodoxos. “Eles tentam integrar-se em Israel e sair dos seus guetos”, disse. Mas para ser eleita ela irá precisar quase de um milagre: o partido escolhido por ela, o trabalhista, está em frangalhos. Algumas pesquisas mostram que ganhará apenas sete cadeiras no Knesset, em comparação com 18 no atual governo. 

Em uma reunião dos candidatos trabalhistas em Jerusalém, Michal, que é casada com um advogado e tem quatro filhos, falou a uma sala lotada. Mais tarde, Izzy Almog, 81, sorriu para ela. “Não fique ofendida, não sei quais serão as suas chances. Mas você é um investimento a longo  prazo”.

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Famosos que se dedicam a causas sociais precisam se identificar com o tema, dizem especialistas

Angelina Jolie, uma das artistas mais famosas a se envolverem com temas relacionados a direitos humanos, é um bom exemplo de como uma figura pública pode ampliar uma mensagem
Guilherme Guerra, O Estado de S.Paulo

A atriz Angelina Jolie, enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), discursa em Bangladesh  Foto: MUNIR UZ ZAMAN / AFP

Nesta semana, a atriz americana Angelina Jolievisitou o acampamento de refugiados Kutupalong, em Bangladesh, em trabalho de campo como enviada especial da agência para refugiados das Nações Unidas, a Acnur. De 2001 a 2012, Angelina foi embaixadora oficial do órgão e participou de mais de 60 missões, tornando-se uma das vozes mais importantes na defesa dos Direitos Humanos.

Segundo a Acnur, embaixadores são os rostos públicos que ajudam a levar as causas da ONU a todos os cantos do mundo, graças a sua influência, dedicação e trabalho. Para o professor de Marketing do MBA da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP) Roberto Kanter, é vantajoso ter um rosto conhecido para dar visibilidade a causas sociais. “Como artista, ela faz suas ideias serem ouvidas por mais pessoas”, afirma, reiterando que é preciso que o famoso seja verdadeiro em apoiar uma causa, que é mais beneficiada pela exposição do que o artista. “Se o objetivo da celebridade é ganhar diretamente com isso, existe uma perda”, diz.

A professora do curso livre de Personal Branding da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP) Patricia Loureiro diz que essa autenticidade precisa estar acompanhada de coerência nas causas apoiadas ao longo da vida. Citando a própria Angelina Jolie, a professora afirma que a atriz manteve uma trajetória coesa, “fazendo com que sejamos compelidos a crer e a apoiar os projetos dos quais ela participa.”

Confira abaixo famosos envolvidos com a Acnur e a Unicef (dedicada à primeira infância):

Cate Blanchett

Nomeada embaixadora da Acnur em maio de 2016, a atriz australiana visitou assentamentos na Síria e em Bangladesh, conhecendo pessoas impactadas pelos conflitos nesses países. Em agosto de 2018, ela discursou no Conselho de Segurança da ONU e contou a história de refugiados que conheceu em suas visitas, pedindo que os países ali presentes se mobilizem para achar uma solução para o conflito. 

Sebastião Salgado

O fotógrafo mineiro Sebastião Salgado é um dos embaixadores da Unicef e o único brasileiro a compor a lista atualmente. Ele já atuou junto com diversas organizações da ONU em campanhas e doou os direitos de reprodução de suas fotografias para que o órgão fizesse exibições de seu material.

Millie Bobby Brown

A atriz Millie Bobby Brown, conhecida por interpretar Eleven na série “Stranger Things”, se tornou a embaixadora mais nova da Unicef quando foi nomeada pela organização em 2018, com 14 anos de idade. Ela já participa de eventos da instituição desde 2016 e foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes na lista da revista Time no ano passado. 

Neil Gaiman

O escritor Neil Gaiman se tornou embaixador da Acnur em 2017, depois de promover diversos eventos da agência sobre a crise dos refugiados sírios. Além disso, arrecadou fundos para a Acnur e contou a história de sua prima Helen, que fugiu de um gueto em Varsóvia.

Kardashians: lições sobre acúmulo de capital

Imagem: Arte/Hysteria

Linda Marxs
Da Hysteria

Quando me dei conta de que dediquei quase um terço da minha vida à maior de todas as séries sobre privilégio branco da história da humanidade precisei tirar algo de útil. Então fiz uma análise econômica do fenômeno.

O ano passado foi difícil. Depois que me dei conta de que só assisto a série de branco, cheguei a uma conclusão ainda mais dura de aceitar: eu havia dedicado quase um terço da minha vida à maior de todas as séries sobre privilégio branco da história da humanidade, Keeping Up with the Kardashians.

Eu não só havia gasto mais de dez anos keeping up com a vida da dinastia Kardashian-Jenner, como havia consumido todos os spin-offs da série, lido todas as fofocas, comprado produtos e dedicadas horas intermináveis a debates com outros fãs.

Desolada em saber que com este mesmo número de horas eu poderia ter construído casas, feito trabalho voluntário ou outro curso universitário, percebi que precisava fazer algo com este conteúdo sistematizado. Por isso realizei uma análise econômica profunda sobre acumulação de capitais partindo da vida de minas brancas e ricas de Calabazas.

A origem das grandes fortunas

Em 2016 o Peterson Institute, centro americano de pesquisas econômicas, publicou uma pesquisa sobre a origem da riqueza dos super-ricos e demonstrou que a maioria das grandes fortunas americanas atualmente é formada por empresários e fundadores de empresas. Na Europa e na América Latina é diferente: a herança é a maior fonte de riquezas dos milionários.

Os Kardashians, todavia, acumulam ambas as fontes. Sendo a herança de Robert Kardashian, o pai já falecido e advogado famoso que atuou no caso OJ Simpson. Ou seja, antes de ficar famosa, a família já possuía capital social para circular entre os ricos e famosos e produzir riquezas.

Outro ponto de acúmulo de riqueza detectado na pesquisa é o casamento. Como pudemos acompanhar na última década, as Kardashians (no feminino por se tratar de um matriarcado) se casam invariavelmente com parceiros milionários ou em vias de ser, tornando seus herdeiros ainda mais ricos do que a geração pioneira.

O papel da sorte nos negócios

Kris Jenner, a momager da família, começa a potencializar seus negócios ao se casar com Bruce Jenner (atualmente Caitlyn Jenner), na época um milionário atleta olímpico que passou, sob os cuidados de Kris, a ganhar dinheiro fazendo palestras motivacionais. Ou seja, o ambiente já era próspero até que um crime muda a trajetória desta família e projeta ao infinito o seu  poder de acumulação de capital: uma sex tape de Kim Kardashian e seu ex-namorado é lançada ao público. Daí veio a suposta transação financeira entre a Kris Jenner e a empresa Vivid Entertainment, produtora de filmes adultos, que assumiria o vídeo. Logo depois, vem a
criação de um reality show, seus destinos são selados e a família passa a fazer parte do mercado de varejo, aumentando seu alcance para milhares de pessoas.

Negócio familiar

A ideia de criar um reality show contando a história da família veio da matriarca e na época foi aceita pelos filhos como uma forma de divulgar seus outros negócios e rentabilizar com publicidade. As irmãs tinham uma marca de roupa e achavam que isso traria visibilidade para a marca. O que elas não esperavam é que suas vidas se tornariam suas grandes commodities e que o laço familiar seria uma fonte de dinheiro. Criar um negócio familiar baseado em ser uma família é uma forma genial e infinita de produzir e acumular capital, e neste negócio as Kardashians se tornaram grandes mestres da geração de capital.

Diversidade de ativos

O francês Thomas Piketty, economista e autor do Capital no Século XXI, best-seller onde faz uma crítica ao marxismo perante o cenário do capitalismo moderno, afirma que a tese de acúmulo infinito de capital de Karl Marx não haveria se concretizado neste estágio do capitalismo dada a hiper-concentração de riquezas. Provavelmente Thomas não assiste ao reality show, pois saberia que é uma antítese à sua crítica.

Além de acumularem e monopolizarem o mercado dos reality shows e da cultura pop, elas ainda multiplicaram de forma quase infinita as possibilidades de ganhos com suas imagens. Potencialmente as Kardashians podem ganhar dinheiro com absolutamente qualquer coisa e possuem uma imensa cartela de ativos. Cada membro da família é um produto em si que pode ser vendido no varejo em diferentes aspectos e produtos licenciados. Meias, emojis, calças jeans, imóveis, programas de TV, jogos de celular, ações de hamburguerias, maquiagem, palestras, o fato é que qualquer um dos liderados por Kim Kardashian, grande totem da capitalização, tem o potencial de ser um grande sucesso no varejo.

Apropriação cultural e diversidade real

No caso das Kardashians é bastante complicado estabelecer os limites da apropriação cultural. Mas o fato é que muitas das grandes fortunas vêm justamente da utilização de tecnologias, saberes e identidades de outras culturas para criar produtos e ganhar dinheiro. É inegável que as Kardashians, até mesmo por uma aproximação, se apropriaram de símbolos e imaginários da cultura negra num clássico blackfishing para consolidar sua marca e ganhar mais dinheiro.

Diversidade importa

Porém, Keeping Up with the Kardashians é um dos produtos de entretenimento em massa atuais que têm maior diversidade real. Vai além de brancas fazendo blackface e saindo com jogadores de basquete. Negros, jovens adultos, transsexuais, crianças,  gordos, mães, vários tipos humanos aparecem no show com algo em comum: são todos milionários.

Enquanto empresas falham miseravelmente em reproduzir a diversidade em seus produtos e campanhas, a família Kardashian-Jenner já está projetada para o futuro com uma nova geração de novos personagens: crianças negras milionárias demonstrando o poder do young money da terceira geração.

Keeping Up with the Kardashians não é apenas um dos melhores e mais consistentes produtos de entretenimento, mas também um grande símbolo do capitalismo, seu desenvolvimento e o poder de acumulação do capital. Só espero que no futuro seja reconhecido e laureado como o fenômeno sócio-midiático-econômico que é.

Canadá pede que Netflix tire de ‘Bird Box’ imagens reais de acidente

Desastre com trem em Quebec, em 2013, deixou 47 mortos; empresa pediu desculpas, mas disse que não fará alterações

‘Bird Box’ usou imagens reais de um acidente que ocorreu em província do Canadá. Foto: Netflix/Divulgação

O Parlamento do Canadá aprovou uma moção nesta quarta-feira, 30, dizendo que a Netflix deveria compensar as pessoas de Lac-Megantic, na província de Quebec, por usar imagens de um desastre ferroviário de 2013 no filme Bird Box.

As imagens mostram um trem abandonado carregando óleo que rolou por um declive, saiu dos trilhos e explodiu, formando uma enorme bola de fogo. O acidente deixou 47 mortos.

Embora a moção não seja vinculantes, ela é uma repreensão severa do Parlamento do Canadá para o uso das imagens da explosão ferroviária em Bird Box e na série Viajantes.

Os membros do Parlamento votaram para exigir que a Netflix remova todas as imagens da tragédia em Lac-Megantic. A plataforma de streaming pediu desculpas, mas se recusou a removê-las. A empresa licenciou as filmagens do vendedor de imagens Pond 5.

Pierre Nantel, um legislador do Partido da Nova Democracia que apresentou a moção nesta semana, disse que não pode aceitar que a Netflix não remova a gravação.

“Sabemos que as pessoas vão assistir a este filme e, novamente, essas imagens reais serão usadas”, disse ele. “Para as pessoas em Lac-Megantic, elas viram imagens de sua própria cidaed queimando e poderiam imaginar seus próprios familiares ali”, completou.

A Netflix se recusou a comentar o caso nesta quarta-feira, indicando apenas uma carta que a empresa enviou na semana passada à ministra da cultura de Quebec em resposta às preocupações dela.

Na carta, a diretora de política pública da Netflix, Corie Wright, disse que a empresa “entende que muitos sentem frustração e tristeza ao ver imagens desse trágico evento”, mas isso não pode fazer mudanças em um “conteúdo finalizado”.

Com informações da Associated Press

Por que asiáticos não conseguem dizer ‘eu te amo’?

Para eles, é mais importante demonstrar o afeto com sacrifício e gratidão
Viet Thanh Nguyen, The New York Times

Sandra Oh, na cerimônia da premiação do Globo de Ouro no dia 6 de janeiro, expressou seu amor pelos pais, um momento muito marcante para os asiático-americanos. Foto: Reuters

“Eu te amo” é uma frase de difícil expressão para asiático-americano. O título surpreendente do livro de memórias do escritor Lac Su é I Love Yous Are for White People: A Memoir (‘Eu te amo’ é para os brancos: uma biografia, em tradução livre), explora a devastação emocional que minou uma família vietnamita em suas experiências como refugiada. Tenho em parte a mesma formação de Lac Su, e de fato tem sido um esforço ao longo de toda a minha vida aprender a dizer, sem acanhamento, “eu te amo”. Posso fazê-lo para o meu filho, e é algo que afirmo de todo o coração, mas é um esforço que vem da minha consciência, e que ainda sinto quando digo isso ao meu pai ou irmão.

Por isso, quando a atriz Sandra Oh ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz pelo seriado Killing Eve, a parte mais emocionante de seu discurso de aceitação, para muitos de nós asiático-americanos, foi talvez o agradecimento que ela fez aos pais. Dirigindo-se a eles, na plateia, ela disse, em coreano: “Amo vocês”. Sandra estava emocionada, os pais, orgulhosos, e eu não pude deixar de projetar neles um dos dramas fundamentais da vida de imigrante e refugiado asiático: o sacrifício silencioso dos pais, a difícil gratidão dos filhos, que giram em torno da complexa expressão do amor.

Tantos dos nossos pais asiáticos lutaram, sofreram e suportaram coisas que estão além da imaginação dos filhos nascidos ou criados no conforto da América do Norte. Para os pais, esse sacrifício estava em dizer “eu te amo” sem precisar dizê-lo. E tantos de nós, filhos, tampouco precisamos dizê-lo, e, no entanto, espera-se que expressemos o amor por meio da gratidão, o que significa obedecer aos pais e atender aos seus desejos.

Muitos de nossos pais nos recomendaram que escolhêssemos uma boa formação, um bom emprego e que não comentássemos as coisas que eles tiveram de fazer para sobreviver. Eles encorajaram, ou forçaram, muitos de nós a nos tornarmos médicos, advogados e engenheiros, e a nos sentirmos envergonhados se não fizéssemos isso. 

O que esses pais não fizeram foi nos dizer que poderíamos nos tornar artistas, atores ou contadores de histórias, pessoas dedicadas a profissões aparentemente triviais, inseguras e instáveis. É por isso que tem sido tão raro para mim, quando dou palestras em diferentes lugares dos Estados Unidos, encontrar pais asiáticos que abracem seus filhos que não vão se tornarão “uma minoria modelo”.

Conheci poucos que me disseram com orgulho que seus filhos vão se tornar professores de inglês, ou se tornaram escritores ou artistas. Talvez os pais de Oh sejam esse tipo de pessoas. Às vezes desejo que meus pais fossem assim. Mas eu me tornei escritor apesar e, talvez, por causa da resistência à ideia, porque meus desejos não exteriorizados conflitavam com seu sacrifício não articulado. Tudo isso ocorre contra o pano de fundo de uma existência de exilados.

Eu cresci na cidade relativamente diferente de San José, Califórnia, nos anos 1980. Meus vizinhos eram gente mais velha da classe trabalhadora branca, imigrantes mexicanos e refugiados vietnamitas. Frequentei o ensino médio cercado majoritariamente por brancos, com apenas um punhado de estudantes de ascendência asiática. Nós sabíamos que éramos diferentes, mas achávamos um pouco difícil traduzir em palavras a nossa diferença. Nós nos definíamos “a invasão asiática”.

Ríamos do termo, mas, olhando para trás, estava claro que havíamos interiorizado o racismo da sociedade americana. No meu caso, tive a sorte de nunca ter recebido na cara um insulto racista. Mas todos sabíamos que, de algum modo, éramos vistos pelos outros americanos como invasores de seu país, mesmo que este fosse também o nosso país. A ironia está no fato de que nós não invadimos os Estados Unidos. Os Estados Unidos é que nos invadiram. Nós estávamos aqui porque os EUA haviam estado lá.

O que só percebi tardiamente foi que precisava – todos precisamos – de mais histórias que falassem da nossa experiência. Mais vozes pertencentes a pessoas como nós. Mais defensores contando as nossas historias à nossa maneira com os nossos rostos, as nossas inflexões, as nossas preocupações, as nossas intuições. Nós precisávamos estar no centro da história, o que incluiria todas as complexidades da subjetividade humana, não apenas as boas, mas também as más, a plenitude tridimensional que as pessoas brancas consideravam sua exclusividade com o privilégio de serem indivíduos.

Quando a imprensa começou a nos representar – no cinema e na televisão, com as piadas dos DJs nos programas matinais de rádio, os jornalistas sabichões -, só éramos os maus. Éramos coletivamente os vilões, os empregados, os inimigos, as prostitutas, os moleques de recados, os invasores.

Consequentemente, muitos de nós que observávamos essas imagens distorcidas e ouvíamos as piadas imbecis aprendemos a nos envergonhar de nós mesmos. Aprendemos a ter vergonha dos nossos pais. E a vergonha se somava à incapacidade de dizer “eu te amo”, uma frase que pertencia ao mundo maravilhoso dos brancos que víamos no cinema e na televisão.

Precisávamos aprender mais, mas a verdade é que os pais asiáticos também precisam saber mais. Não podemos ter orgulho dos nossos artistas e dos nossos filhos contadores de histórias somente quando eles ganham Globos de Ouro. Honramos seu sacrifício por nós, mas também é preciso encorajar os filhos a se manifestarem, a reivindicarem a própria voz, a correr o risco da mediocridade e do fracasso, a contarem suas histórias e as nossas histórias. Pelo menos não os impeçam.

Um colega do ensino médio que nos anos 1980 vivia na elite de Saratoga, cidade de maioria branca na Califórnia, contou que quando os asiáticos começaram a chegar – os “bons” profissionais asiáticos -, os brancos trataram de se mudar. Não importa quão grande terá de ser o sucesso dos asiáticos-americanos, ele não mudará esta dinâmica dos brancos que temem que nós sejamos os invasores asiáticos – temem que tiremos seus empregos, roubemos seus lugares no colégio da elite – a não ser que contestemos o racismo implícito e explícito.

Ainda somos a invasão asiática para muitos, e se não somos tão assustadores como éramos no passado, é pelo menos em parte porque hoje muitos americanos brancos têm mais medo da invasão muçulmana, mexicana e centro-americana. Muitos que talvez não desejassem ser nossos vizinhos, ao menos nos prefeririam aos afro-americanos.

Não podemos aceitar isso como o pedágio que temos de pagar para ingressar na sociedade americana. Se devemos nos afirmar e falar contra o racismo dirigido contra nós, precisamos também fazer isso quando ele nos beneficia. E nós o fazemos desafiando e mudando a história americana, subindo ao palco e contando as nossas próprias histórias, e esta é, na realidade, nossa maneira de dizer, “eu amo vocês” aos nossos pais, às nossas famílias, às nossas comunidades e ao nosso país.

Viet Thanh Nguyen é autor do livro The Refugees, publicado recentemente, e editor de The Displaced: Refugee Writers on Refugee Lives. Ele é professor de inglês na Universidade do Sul da Califórnia.

Em carta, Gisele Bündchen responde crítica de ministra da Agricultura

A modelo reagiu às declarações de Tereza Cristina de que ela deveria se manifestar sobre o que o País preserva; em resposta, a chefe da Agricultura afirmou que a repercussão sobre sua fala foi ‘infeliz’ e que Gisele é ‘orgulho para o País’
Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

Gisele Bündchen para a Vogue Brasil (Foto: Zee Nunes/Arquivo Vogue)

A modelo Gisele Bündchen enviou nesta quarta-feira, 16, uma carta à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, respondendo aos comentários feitos pela política sobre ela no início da semana. 

Tereza disse em entrevista à Rádio Joven Pan que Gisele deveria ser uma “embaixadora” do País no exterior, divulgando como o Brasil produz com preservação à natureza e não criticar “sem conhecimento de causa”.

A ministra se queixava de críticas feitas de um modo geral sobre a atuação do governo em relação às suas florestas. “É um absurdo o que fazem hoje com a imagem do Brasil. Infelizmente são maus brasileiros. Por algum motivo vão lá fora levar uma imagem do Brasil e do setor produtivo que não é verdadeiro.” E disse na sequência. “Desculpe, Gisele Bündchen, você deveria ser nossa embaixadora e dizer que seu País preserva, está na vanguarda do mundo na preservação, e não meter o pau no Brasil sem conhecimento de causa”.

Gisele compartilhou em seu perfil no Twitter a parte inicial da resposta: “Causou-me surpresa ver meu nome mencionado de forma negativa por defender e me manifestar em favor do meio ambiente pois, desde 2006, venho apoiando projetos e me envolvendo com causas socioambientais, o que sempre fiz com muita responsabilidade”, escreve.

Estado obteve com exclusividade a carta completa, na qual ela se posiciona sobre o que são “maus brasileiros” em sua opinião. “A senhora mencionou a grande quantidade de áreas protegidas no Brasil. Lamento, no entanto, ver notícias, como a do final do ano de 2018, com dados do governo federal divulgados amplamente na imprensa, que o desmatamento na Amazônia havia crescido mais de 13%, o que representava a pior marca em 10 anos. Um patrimônio inestimável ameaçado pelo desmatamento ilegal e a grilagem de terras públicas. Estes sim são os ‘maus brasileiros’”, escreve.

A modelo também disse que valoriza e preza o papel da agricultura e dos agricultores para o país. “Mas ao mesmo tempo acredito que a produção agropecuária e a conservação ambiental precisam andar juntas, para que nosso desenvolvimento possa ser sustentável e longevo”, continua.

Ela defende que se use “tecnologia e todo conhecimento científico a favor da agricultura e da produtividade” a fim de evitar que “novos desmatamentos possam ultrapassar o ponto de não retorno em que a degradação em curso do clima ameno se tornará irreversível”.

A modelo afirma ainda que preservar a natureza, além de ser um dever, é também “uma forma de assegurar água, biodiversidade e condições climáticas essenciais para a produção agrícola”.

Gisele encerra a carta dizendo que ficaria “muito feliz” em divulgar “ações concretas que resultem em um Brasil mais sustentável, justo e próspero”.

Resposta da ministra

Também pelo Twitter, a ministra respondeu à Gisele agradecendo a carta. “Vamos construir juntas uma agenda contra o desmatamento ilegal e a grilagem”, escreveu.

Em nota enviada ao Estado, Tereza classificou o texto como “elegante, ponderada e respeitosa”. Disse que a modelo “destaca e valoriza os produtores rurais e reconhece sua importância para o desenvolvimento do País”. Segundo a ministra, a carta “ressalta a importância que a união entre produção e preservação podem ter para que o País possa ter uma economia eficiente e sustentável”.

Tereza afirmou ainda que foi “infeliz” a repercussão sobre sua entrevista e elogiou Gisele: “Em hipótese alguma  é uma má brasileira, mas sim um orgulho para nosso País, ainda mais se dedicando a pautas tão nobre quanto o bem estar de nosso planeta. Espero que esse seja o início de uma longa conversa para a construção de uma agenda que traga desenvolvimento sustentável para nossa população”, complementou.

Leia a seguir a íntegra da carta de Gisele

“Excelentíssima Senhora Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina 

Escrevo respeitosamente à senhora para me manifestar em relação a alguns comentários que foram feitos e que dizem respeito à minha pessoa em sua entrevista no dia 14 de janeiro ao veículo Jovem Pan. Causaram-me surpresa as referências negativas ao meu nome, pois tenho orgulho de ser brasileira e sempre representei meu país da melhor forma que pude.

Primeiramente, gostaria de dividir com a senhora um pouquinho da minha trajetória. Sou uma apaixonada pela natureza e tenho uma conexão muito forte com a terra. Nasci no interior do Brasil, onde a agricultura sempre foi fundamental para a economia e desenvolvimento de todos os municípios do entorno. Meus avós também praticavam agricultura familiar.

Valorizo e prezo muito o papel tão importante que a agricultura e os agricultores têm para o nosso país e nosso povo, mas ao mesmo tempo acredito que a produção agropecuária e a conservação ambiental precisam andar juntas, para que nosso desenvolvimento possa ser sustentável e longevo.

Desde 2006 venho apoiando projetos e me envolvendo com causas socioambientais no Brasil (através da doação de parte da renda da venda de produtos licenciados com meu nome a diversos projetos relacionados à água e florestas até o apoio e realização de projeto de reflorestamento de mata ciliar na minha cidade natal). Já visitei a Amazônia algumas vezes e conheci de perto a realidade da região norte de nosso país. Em decorrência do meu trabalho relacionado ao meio ambiente fui convidada para ser Embaixadora da Boa Vontade da ONU para o Meio Ambiente e também pelo presidente da França para participar do lançamento do Pacto Global para o Meio Ambiente na Assembleia Geral da ONU nos Estados Unidos, além de ter participado de inúmeros encontros com presidentes de empresas, universidades, cientistas, pesquisadores, agricultores e organizações do meio ambiente, onde pude trocar informações e aprender cada vez mais sobre como cuidar do nosso planeta.

Tendo ciência, através de diferentes fontes de informação, do alto grau de comprometimento e irreversibilidade que algumas ações governamentais poderiam trazer ao meio ambiente, como cidadã brasileira preocupada com os rumos da minha nação resolvi, em algumas oportunidades que entendi críticas e merecedoras de atenção, me manifestar.

A Senhora mencionou a grande quantidade de áreas protegidas no Brasil. Lamento, no entanto, ver notícias, como a do final do ano de 2018, com dados do Governo Federal divulgados amplamente na imprensa, que o desmatamento na Amazônia havia crescido mais de 13%, o que representava a pior marca em 10 anos. Um patrimônio inestimável ameaçado pelo desmatamento ilegal e a grilagem de terras públicas. Estes sim são os “maus brasileiros”.

Precisamos usar a tecnologia e todo conhecimento científico a favor da agricultura e da produtividade para que evitemos que novos desmatamentos possam ultrapassar o ponto de não retorno em que a degradação em curso do clima ameno se tornará irreversível.

Vejo a preservação da natureza não somente como um dever ambiental legal, mas também como uma forma de assegurar água, biodiversidade e condições climáticas essenciais para a produção agrícola.

Cara Ministra Teresa Cristina, seu papel como ministra da Agricultura – em um país onde clima, agricultura e floresta têm papel chave para nossa economia – é fundamental. Sei do desafio que tem pela frente e torço para que em seu mandato possam ser celebradas ações concretas que resultem em um Brasil mais sustentável, justo e próspero.

Ficarei muito feliz em poder divulgar ações positivas que forem tomadas neste sentido.”

Você deixaria seu filho brincar na casa do vizinho, sabendo que o pai dele tem uma arma?

Essa é a pergunta que não quer calar

Foto: Pixabay

A primeira lembrança que me veio à mente ao saber sobre o decreto flexibilizando a posse de armas foi a do meu filho, sempre tão bonzinho e obediente, com o vidrinho de remédio na mão, vazio. Ele tinha escalado o guarda-roupa, alcançado a última prateleira, aberto a caixa de remédios que estava ‘escondida’ no fundo da prateleira (mas sem cadeado porque ‘meu filho não é de aprontar’, eu sempre dizia) e tomado todo o vidro de Berotec, medicamento usado para o tratamento da bronquite. Tivemos de correr com ele para o hospital que, felizmente, ficava a poucos quilômetros de casa. Chegou lá com os batimentos cardíacos altíssimos e foi direto para a emergência, onde passou 12 horas sendo desintoxicado.

Quem é mãe ou pai sabe: uma criança é capaz de tudo – porque é curiosa, porque não tem noção do perigo, porque vive em um delicioso mundo da fantasia. E é por isso que nós, os adultos, seus cuidadores, tomamos algumas precauções quando elas chegam em nossas vidas: colocamos redes nas janelas, instalamos protetores de tomada, compramos fogão com trava antivazamento de gás, trancamos os armários com os produtos de limpeza. Mesmo com tantas mudanças e os olhos atentos dos pais e dos cuidadores, elas sempre “aprontam”. Pulam do sofá e quebram algum osso, engolem o brinquedinho que o amigo levou para o parquinho e por aí vai. Cada pai e mãe tem sua história de perrengue gravada na memória e sabe de quantas formas já foi surpreendido pela sagacidade do próprio filho.

Mas agora alguns de nós, os adultos tão espertos, decidimos que pode ser uma ótima ideia ter uma arma em casa, ‘os bandidos têm armas, por que a gente não pode se defender?’. Uma arma não. Até quatro, segundo o decreto assinado pelo presidente. E olhamos para a nossa própria régua para concluir que tudo bem, “não tem perigo”, porque para ter a posse da arma “tem que ter um cofre em casa”. Claro que lá pelas tantas alguns podem achar que nem precisa de tanto cuidado, porque o filho já está grande e “tem noção do perigo”. Também porque se a casa for invadida, é preciso agir rápido, melhor deixar a arma na primeira gaveta do criado-mudo durante à noite, de manhãzinha ela volta para o cofre. Um belo dia você acorda atrasado e esquece de trancar o revólver. Para a tragédia acontecer bastam apenas alguns segundos, a gente sabe bem disso, não sabe?

Mas vamos supor que a gente tenha arma em casa e não abra exceções. Sempre trancada. Mas e o nosso vizinho? Será que terá o mesmo cuidado? Ontem li algumas mães discutindo o assunto no Facebook e a questão era essa: vamos ter de perguntar aos pais daquele amiguinho tão legal se eles têm armas em casa? Se as mantêm sempre no cofre? Você teria coragem de deixar seu filho frequentar a casa de uma família que tem um revólver em casa? Eu não teria, mas talvez eles não contassem a novidade a ninguém, “para não assustar”.

Mesmo com todos esses cuidados, não estaríamos seguros. A arma não trancada do pai do coleguinha cuja casa seu filho não frequenta poderia ser levada à escola escondida dentro da mochila. Esse filme americano começou a ser passado no Brasil recentemente, você com certeza tem acompanhado o noticiário. Ano passado um garoto de 15 anos, na cidade de Medianeira, no Paraná, levou a arma do pai e feriu dois alunos da escola onde estudava. Em Goiânia, também ano passado, um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro. Filho de policiais militares, ele usou a arma da mãe, que havia levado à escola escondida na mochila. O motivo? Bullying, algo comum em 9 em cada 10 escolas de todo o mundo, um comportamento com efeito destruidor sobre as vítimas, mas encarado como “mimimi” pela galera do “sempre fui zoado na escola e nunca matei ninguém”. Talvez porque seu pai não tivesse um revólver em casa. Talvez porque você seja mais forte psicologicamente. Talvez porque o governo restringisse a posse de armas. [Rita Lisauskas]