O que muda na moda quando pessoas negras conseguem chegar ao poder?

O número de profissionais negros em cargos executivos na moda ainda é baixo. E isso precisa mudar.
Por Gabriel Monteiro

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 Virgil Abloh com sua coleção para a NikeLab
Virgil Abloh com sua coleção para a NikeLab (NIKELAB/Reprodução)

O estilista norte-americano Virgil Abloh, 38 anos, fundador da marca Off-White, foi anunciado como novo diretor artístico da linha masculina da Louis Vuitton e acaba de desfilar sua primeira coleção para a label. Abloh é o primeiro profissional negro a ocupar esse cargo na marca e um dos dois únicos designers negros numa posição de chefia em uma maison de luxo.

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Olivier Rousteing

O outro nome é do francês Olivier Rousteing, 32, há nove anos na Balmain. Antes deles, na história, apenas o britânico Ozwald Boateng foi um designer negro num cargo executivo de uma marca de luxo tradicional, enquanto trabalhava para o masculino da Givenchy, entre 2003 e 2007.

“Virgil e Olivier passam a representar não apenas, mas também uma parcela de pessoas negras que consome marcas como essas”, comenta o estilista Isaac Silva. “Isso pode se refletir em outras casas, mas nós precisamos entender que existe um longo caminho. Trata-se de um racismo estrutural. A moda, apesar de um mercado de muitos setores, ainda é em sua maioria branca”, continua.

De Chicago e formado em engenharia e arquitetura, Virgil Abloh virou DJ e stylist e se destacou no circuito fashion depois de trabalhar por 14 anos como diretor artístico do rapper Kanye West. Ambos, inclusive, fizeram estágios juntos na Fendi no ano de 2009. E sem receber nada.

Abloh ainda foi recentemente ranqueado pela revista Time como um dos 100 nomes mais influentes do mundo. Não há dúvida de que a sua contratação na Louis Vuitton está diretamente associada à sua expertise como designer e o impacto que ele tem no mundo da moda atualmente, mas a sua presença nesse lugar ganha também outros sentidos.

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Kanye West e suas criações (Retrato: Getty Images / Yeezy/Divulgação)

“Uma das maiores formas de militância é mostrar que você está num cargo como esse por seu conhecimento”, avalia a stylist Suyane Ynaya, que também faz parte do coletivo criativo MOOC. “Existem muitos talentos como Virgil , mas eles, se forem negros, demoram metade de sua vida para serem descobertos. Quando um de nós ocupa um espaço como esse, existe um sentimento de que as coisas podem mudar”, ela analisa.

Rachel Maia, executiva que ao longo de 16 anos trabalhou no mercado de luxo, como CFO da joalheria Tiffany e CEO da joalheria Pandora, enxerga a entrada de profissionais negros no setor mais alto da indústria de forma parecida. “Dentro do mundo corporativo, consigo gerar um engajamento, do tipo ‘se ela chegou lá, eu também posso’. Gosto de estar onde estou e sei que incentivo outros a almejar esse lugar”, comenta a executiva.

“Os números de diversidade que temos hoje são lastimáveis”, salienta Shelby Ivey Christie, mulher negra gerente omnimedia da Lancôme, marca de luxo do grupo L’Oréal. “A contratação no mercado de moda acontece principalmente por indicações. E isso, em geral, implica em indicações de gente que parece com você.”

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O designer e estilista brasileiro Isaac Silva (Thomas Rera/ELLE)

Shelby é formada em jornalismo de moda com especialização em estudos de raça, classe e cultura e já trabalhou para publicações como a InStyle e a W Magazine. Hoje, ela cuida de todos os núcleos midiáticos da empresa, procurando ressaltar a cultura negra. “É necessário interromper esse ciclo de amigos que indicam amigos para colocar no lugar candidatos qualificados e diversos. Algo como um terceiro setor que contrate bons candidatos diferentes entre si. Essa é uma maneira de impulsionar talentos negros.”

E existe outra questão importante, ressalta Shelby, que é a existência de um ambiente confortável de trabalho para esse indivíduo. “Trabalho desde os meus 19 anos na indústria da moda e preciso dizer que esses lugares podem ser traiçoeiros e hostis. A inclusão demanda que a gente faça perguntas complicadas e que entremos em conversas mais desconfortáveis, especialmente quando falamos do mercado de luxo, mercado que foi fundado na exclusividade e na exclusão”, continua.

Para Rachel Maia, também existe outro fator. A mudança não pode ser feita de imediato. “Fazemos parte de uma estrutura falha, medíocre e as coisas podem facilmente se quebrar. Em médio e longo prazo, conseguimos.” De acordo com a executiva, que também é dona do projeto Capacita-me, que procura capacitar mulheres da periferia no mercado varejista, é necessário colocar tudo num contexto maior de mudança.

“Indo para além da questão de raça, existe também a questão de gênero. Somos 16% de mulheres em posições de liderança, mas esses 16% ainda são hegemonicamente brancos.”

Rachel continua: “Diversidade traz para a luz aquilo que incomoda, mas depois vem outra pergunta: se você quiser mais, a empresa vai te dar mais? Não sei. O que ainda precisa ser trabalhado é o quão de fato a sociedade, e falo sobre Estado, privado e o próprio cidadão, estão realmente dispostos a dar mais a esse pedaço do coletivo deixado de lado”.

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 Rihanna em campanha da Fenty Beauty
Rihanna em campanha da Fenty Beauty (Fenty Beauty/Reprodução)

“A entrada de uma pessoa negra em um cargo como esse é mais um passo que a gente dá, mas só ocupar não é uma militância”, completa Fióti, cantor e sócio da marca Lab, ao lado do irmão Emicida. “Além de ocupar, é necessário propor mudanças porque temos muito para resolver. A Louis Vuitton é uma das maiores marcas do mundo e isso se reflete em outras grifes. É um espaço importante para impactarmos a indústria da moda e a sua estrutura”, continua.

“Espero vê-lo se apropriando do peso político que a sua presença causa na indústria e, além disso, envolvendo ainda mais a negritude dentro do seu trabalho”, comentou em seu instagram o designer Kibwe Chase-Marshall, que já trabalhou para marcas como Michael Kors, Oscar de la Renta e Ralph Lauren.

Não necessariamente dentro do mercado de luxo, mas também em grandes marcas, outros profissionais negros estão na linha de frente e ditam o que acontece na indústria hoje. Pense, por exemplo, em Rihanna, cantora que virou diretora criativa da Fenty Puma, comanda a marca de beleza Fenty Beauty e está pronta para lançar uma linha de lingerie. Tracy Reese é um dos nomes mais respeitados da semana de moda nova-iorquina, enquanto Shayne Oliver se transformou em um dos nomes mais badalados do mesmo circuito – assinou, inclusive, uma coleção recente para a histórica Helmut Lang.

“E tem também Kanye West”, ressalta Shelby. “Não concordo com ele em muitos aspectos, mas ele é um ótimo exemplo de quem sempre foi sincero sobre os mecanismos internos da indústria de luxo e foi banido e segregado por ela. Eu penso que portas se fecham quando você não joga o jogo que esperam que você jogue”, ela comenta sobre o dono da marca Yeezy.

Em uma de suas primeiras intervenções já dentro da maison, o estilista decidiu escrever “strap” em cima de uma alça da bolsa Jeff Koons.

Não se trata de um grande statement do designer, mas um gesto que não deixa de ter um significado potente. Em cima dos logos da Vuitton está a assinatura de Abloh. Os mesmos logos que um dia Dapper Dan reproduziu clandestinamente numa jaqueta bufante. No final das contas, Virgil Abloh mostra que está ali.

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CINEMA | Estreias da Semana: Jurassic World – Reino Ameaçado, Hereditário, Desobediência, Tungstênio, O Amante Duplo

Confira agora os filmes que chegam às telas em 21 de junho

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Hereditário – (Hereditary

Jurassic World – Reino Ameaçado
Quando um vulcão dormente entra em erupção, Owen e Claire lideram uma campanha para salvar os dinossauros da extinção. Owen está motivado para achar Blue, sua raptor que continua sumida na floresta, e Claire desenvolveu um respeito pelas criaturas e agora fez delas sua missão. Ao chegar na instável ilha quando lava começa a escorrer, a expedição descobre uma conspiração que pode colocar o planeta inteiro em um perigo não visto desde a era pré-histórica.

Ação, Aventura, Ficção Científica – (Jurassic World 2 – Fallen Kingdom) EUA, 2018. Direção: J.A. Bayona. Elenco: Bryce Dallas Howard, Chris Pratt, Jeff Goldblum. Duração: 128 min. Classificação: 12 anos.

Hereditário
Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente com a solitária neta adolescente.

Drama, Suspense, Terror – (Hereditary) EUA, 2018. Direção: Ari Aster. Elenco: Alex Wolff, Gabriel Byrne, Toni Collette. Duração: 106 min. Classificação: 16 anos.

Desobediência
Uma mulher retorna para sua cidade natal após a morte de seu pai. Lá, ela recorda uma paixão proibida pela melhor amiga de infância, que atualmente é casada com seu primo.

Drama, Romance – (Disobedience) Reino Unido, Irlanda, EUA, 2017. Direção: Sebastián Lelio. Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Allan Corduner. Duração: 110 min. Classificação: 14 anos.

Tungstênio
Quando pessoas começam a utilizar explosivos para pescar na orla de Salvador, na Bahia, um sargento do exército aposentado, um policial e sua esposa e um traficante vão se unir e farão de tudo para acabar com esse crime ambiental.

Drama – Brasil, 2017. Direção: Heitor Dhalia. Elenco: Fabrício Boliveira, Samira Carvalho, José Dumont. Duração: 90 min. Classificação: 16 anos.

Rei
Em 1860, um aventureiro francês partiu para Araucania, uma região inóspita no sul do Chile, para fundar um reino. Ele partiu com o aval do chefe indígena da região, mas quando chega no local descobre que o homem morreu. Agora, tem que justificar sua viagem ao governo para não ser preso e exilado.

Drama – (Rey) Chile, França, 2017. Direção: Niles Atallah. Elenco: Rodrigo Lisboa, Claudio Riveros. Duração: 91 min. Classificação: a definir.

O Amante Duplo
Chloé busca a ajuda de um psicólogo, Paul, para um problema o qual acredita ser psicológico. Com o andar das sessões, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul encerra a terapia e indica uma colega para tratá-la. Entretanto, ela resolve se consultar com outro psicólogo, o irmão gêmeo de Paul, que ela nunca tinha ouvido falar até então.

Drama, Suspense, Romance – (L’amant double) França, Bélgica, 2017. Direção: François Ozon. Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset. Duração: 119 min. Classificação: 18 anos.

Canastra Suja
Batista e Maria formam um casal que, aparentemente, é feliz em seu casamento. No entanto, Batista é um alcóolatra e Maria tem um caso com o namorado de sua filha mais velha.

Drama – Brasil, 2018. Direção: Caio Sóh. Elenco: Adriana Esteves, Marco Ricca, Milhem Cortaz. Duração: 120 min. Classificação: 16 anos.

Quanto custa gravar um videoclipe como ‘Apeshit’ de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre?

Beyoncé e Jay-Z usaram o famoso museu parisiense como cenário para o clipe ‘Apeshit’
Por Raquel Carneiro

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Beyoncé e Jay-Z no clipe de ‘Apeshit’ Foto: Reprodução de cena de ‘Apeshit’

Gravar um clipe no Museu do Louvre é mais fácil – e barato – do que parece. A questão pipocou na internet após Beyoncé e Jay-Z elegerem o tradicional museu francês como cenário para seu novo vídeoclipe, Apeshit, lançado de surpresa no fim de semana, juntamente com o disco Everything is Love.

Na produção de quase 5 minutos, o casal e um grupo de dançarinos rebola e faz carão entre obras como Mona LisaVênus de Milo e Vitória de Samotrácia. Resta a dúvida: quantos muitos dólares custaria para uma gravação no tradicional museu francês?

No site oficial do Louvre está uma tabela com os variados tipos de pacotes. Uma jornada de 8 horas de filmagens no interior do museu, com uma equipe de mais de 50 pessoas, sai por 10.000 euros (cerca de 44.000 reais). Gravações na parte externa custam 8.000 euros (cerca de 35.000 reais). Apeshit foi feito ao longo da madrugada do dia 1º de junho, período que totalizaria 18.000 euros (quase 80.000 reais).

Não se sabe, contudo, se Beyoncé e Jay-Z realmente precisaram pagar o valor – que em nada afetaria a fortuna da dupla, estimada em mais de 1 bilhão de dólares. Um porta-voz do Louvre afirmou que o casal visitou quatro vezes o museu desde 2008. Na passagem mais recente, em maio deste ano, eles apresentaram a ideia do clipe, que foi aceita pela administração do Louvre. O próprio governo francês emitiu uma nota durante a semana, agradecendo aos músicos por elegerem a instituição para ambientação do vídeo. Logo, o casal superpoderoso da industria musical aumentou a visibilidade do museu.

Aos curiosos, aliás, celebridades como Beyoncé e o marido não precisam se debater com turistas comuns por uma selfie com a Mona Lisa durante momentos de turismo. O Louvre também oferece pacotes de visitas privativas. Um grupo com menos de 50 pessoas pode passear pelo museu, nos dias em que ele está fechado para o povão, pela bagatela de 10.000 euros.

Casey Legler: “a moda excluiu muitas comunidades marginalizadas”

Modelo e ex-atleta Olímpica que participa da nova campanha da Carrera fala sobre representatividade queer na moda.
Por Julia Mello

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 (Carrera/Divulgação)

A label de óculos Carrera decidiu resgatar suas origens de forma renovada em sua nova campanha, a “Drive Your Story.” A label convidou personagens para contarem suas reais histórias de vida — entre suas vitórias e perdas — e como elas se relacionaram com o desenvolvimento de seu propósito.

Casey Legler, ex-atleta olímpica e modelo, está presente por uma gama de motivos: além de lançar seu primeiro livro, “Godspeed”, que estará nas livrarias editado pela Simon and Schuster em julho, foi nadadora desde os 14 anos. Competiu nas olimpíadas, perdeu e ganhou. Descobriu que queria cada vez mais ser quem era e, por causa de seu estilo único, tornou-se a primeira modelo designada mulher no nascimento a ser contratada da Ford Models para fazer campanhas e desfiles de marcas masculinas. Sua representatividade e sua abertura sobre sua sexualidade e sua visão de gênero abriram portas para que Casey fosse uma forte voz de aceitação e liberdade dentro e fora da indústria.

Em entrevista exclusiva para a ELLE, Casey conta sua visão sobre a indústria, sobre seu trabalho e sobre a importância da nova campanha.

Em 2013 você escreveu um texto para o The Guardian no qual falava sobre a transformação da cultura queer em um produto ou em moeda de troca. Você acha que hoje, em 2018, o panorama mudou? Você pensa que o ativismo ainda está sendo usado pela mídia e pelas corporações para o lucro? 

Eu acho que sempre existe uma linha tênue ao entrarmos em espaços públicos com uma história sobre alguma diferença. Eu tomei decisões de levar minha história, que é sobre diferença, para espaços públicos e às vezes isso significa trabalhar com empresas abordando questões de gênero ou cultura queer. Definitivamente existem alguns exemplo de negócios que usam a cultura queer como moeda de troca, assim como outras identidade marginalizadas, e que não usam sua influência  e poder para contribuir com a mudança social e ir além de uma campanha… Isso me parece obter lucros sem investir na causa. Mas tenho que dizer que também vi exemplos de negócios e empresas que usaram sua presença para pressionar os direitos humanos, a proteção ao meio ambiente e a diversidade.

Por exemplo, trabalhar com a Carrera na campanha #driveyourstory foi uma experiência memorável para mim. A campanha chamou a minha atenção pois a ideia por trás dela tinha uma autenticidade crua, e contava histórias sobre falhas, vergonha e resiliência. Parte disso foi falar sobre cultura queer, mas muito disso também foi contar minha história com honestidade e ir além das minhas experiências com uma identidade queer… Me tratando como uma pessoa completa.

A mágica verdadeira de trabalhar com a Carrera é que com esse processo, a marca e sua empresa irmã, a Safilo, trabalharam com a minha equipe para inscrevê-la no “United Nations LGBTI Standards of Conduct for Business”, uma estrutura de políticas que faz com que as empresas se comprometem a ter códigos de respeitos aos direitos humanos em seu ambiente. Eu estava tão animada com esse processo porque trabalhar com a Carrera foi mais do que apenas contar minha história, também foi sobre a marca se comprometer com os princípios e ações que garantem que trabalhadores e acionistas que trabalham na Safilo tenham sua diversidade protegida. Eu não acho que negócios sejam a única solução para levar justiça social para comunidades queer — mas se feito com respeito e com consultoria eles podem ser parte de algo maior que contribui para as muitas soluções ao redor, e que tem potencial de fazer a vida dessas pessoas e das comunidades melhor.

O que você pensa sobre a cobertura da mídia e sobre a abordagem do fato de que você é modelo exclusiva de marcas masculinas? Você acha que a conversa sobre esse tópico deveria ir em qual direção?

É por isso que a cobertura da mídia sobre minha inclinação natural para usar roupas de “homem” me pareceu um pouco estranha, por fazerem algo que é normal parecer excepcional. Mas dito isso, tenho muitos amigos trans e que não se conformam com seu gênero, além de seus aliados, que falam comigo e me agradecem por eu ter tido espaço não me conformando com meu gênero, e por usar as roupas que eu gosto de usar.

Para alguns deles, minha visibilidade deu espaço para não conformar e para celebrar a diferença. Se a cobertura da mídia for suficiente para dar mais espaço para essas pessoas que não se conformam com a sociedade, acho ótimo. E também adoro ternos bonitos — então pra mim é super divertido! Eu espero que a mídia que vem por ai amplie a discussão sobre gênero e dê espaço para todos os lindos gêneros que vão além de “homem” ou “mulher” — para mim isso é uma parte maravilhosa de ser um humano!

Você acha que a moda foi historicamente mais inclusiva com pessoas queer? Você acha que pode ser um espaço no qual pessoas que não são dos gêneros designados podem se sentir mais à vontade? Foi esse o caso para você?

Eu acho que pessoas queer insistiram em quebrar barreiras em muitas indústrias, e a moda foi uma delas. Mas a moda, assim como todas as outras áreas, pode ser um lugar tanto de muita celebração da cultura queer ou um lugar de muita hostilidade e opressão. Historicamente a moda excluiu muitas comunidades marginalizadas — mulheres negras, pessoas com corpos diversos, pessoas que não se conformam com gênero, pessoas com habilidades diferentes e pessoas mais velhas. Mas as pessoas nessa comunidade e que tiveram essas experiências foram fortes o suficiente para lutar por sua liberdade de expressão e fizeram demandas para serem vistas por quem são e serem apreciadas e respeitadas por isso.

Existem muitas pessoas quebrando essas barreiras hoje em dia — como meus amigos no DapperQ em Nova York, ou meu amigo incrível que está tocando a Sovereign Collection na Austrália! Uma das coisas que eu mais gosto sobre ter crescido em comunidades queer é sua insistência na celebração e na beleza (em todas as suas formas), apesar das opressões. Eu acho que parte da nossa história queer é que a beleza criada e nutrida nas comunidades chamou a atenção e influenciou as indústrias da moda e do entretenimento. Por exemplo, “mulheres” vestindo roupas masculinas é mais antigo do que Joana D’Arc. A história recente inclui Marlene Dietrich, Grace Jones, Annie Lennox, Eileen Miles, Héloïse Letissier, Young MA e outras. Eu não sou a primeira e não serei a última e fico feliz com isso. Estou em ótima companhia. 

Infelizmente o Brasil é um dos países que tem as maiores estatísticas de mortes de pessoas LGBTI no mundo. Como você acha que sua imagem e outras representações podem ajudar jovens e outras pessoas a viverem melhor nesse mundo?

Pessoas morrem todos os dias por causa de sua orientação sexual real ou percebida ou sua identidade de gênero ou expressão. Uma morte já é muito. Jovens LGBTI também sofrem violência em todos os lugares — nenhum lugar está a salvo. Por exemplo, em minha própria cidade, Nova York, 40% da população sem moradia com menos de 25 anos de identifica como LGBTI. Eles não têm moradia porque suas casas e famílias não são seguras para eles.

O Brasil já percorreu um longo caminho ao reconhecer os direitos e a segurança das comunidades LGBTI. É verdade que o país ainda tem uma das maiores taxas documentadas de crimes de ódio contra a população LGBTI — mas é importante lembrar que é também um dos únicos países do mundo que coleta esses dados. Muitos países no mundo tem grandes números de crimes de ódio contra as pessoas LGBTI, mas a polícia ou o governo não enquadra essa violência pelo que ela é — ou pior, eles são uma parte do que perpetua a violência. O Brasil, assim como todos os países, têm um longo caminho, mas estão progredindo. Minha esposa trabalha em direitos humanos LGBTI nas Nações Unidas em Nova York, e o Brasil é um dos países com mais voz nesse espaço. Ele é parte do UN LGBTI Core Group, um grupo de países lutando por direitos humanos LGBTI no sistema das Nações Unidas — então isso é um começo!

É preciso ter esperança — esperança que conseguiremos seguir em frente de alguma forma. Então eu espero que minha imagem facilite a vida de jovens no mundo. Mas as nossas crianças precisam mais do que uma foto — isso só pode ser uma parte da solução. Elas precisam de aliados. Precisam de pessoas que cuidem delas no caminho de casa para a escola, ou em casas nas quais elas encontram violência por serem quem elas são. Precisamos de políticas, reformam legislativas e sociais para ter certeza que essas crianças tenham educação, assim toda sua força e beleza podem contribuir com o mundo. O mundo é um lugar melhor com eles. Eu quero que eles saibam que eles são amados e que ser diferente não é algo ruim — é parte do que faz o ser humano tão especial.

Para todos lendo essa entrevista e que verão sua campanha para a Carrera: você pode dar um conselho sobre como ser mais você mesma? 

Quando eu tentei ser algo além de mim mesma eu estava apenas vivendo meia vida. Estava vivendo com medo. É preciso coragem para ser quem você é e nem todo mundo vai gostar disso, mas o mundo precisa que assim você seja. Nos tornamos melhores como sociedade quando as pessoas vivem vidas autênticas. Eu me tornei mais honesta sobre quem eu sou com a idade e a experiência. Eu fiz isso com o apoio de pessoas boas ao meu redor — pessoas que me encorajaram a explorar e ser aberta sobre meus erros e aprender com eles. Me tornar quem eu sou hoje foi uma experiência de tentativas e erros e ver as “falhas” como uma parte central disso. Eu espero que eu nunca pare de ser aberta a me tornar mais quem eu sou — mesmo que o custo as vezes seja lidar com a intolerância de outras pessoas. Tem sido a melhor jornada da minha vida.

Facebook faz testes para grupos cobrarem assinatura de membros

O recurso ainda está em fase de testes, em um piloto disponível para alguns usuários do Facebook nos Estados Unidos.

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Mark Zuckerberg é presidente do Facebook

O Facebook anunciou nesta quarta-feira, 20, que vai permitir que administradores de determinados grupos na rede social comecem a cobrar uma assinatura dos usuários. A cobrança pode variar entre US$ 5  e US$ 30 por mês. O recurso ainda está em fase de testes, em um piloto disponível para alguns usuários do Facebook nos Estados Unidos.

De acordo com o Facebook, a nova ferramenta é uma oportunidade para os administradores de grupo ganharem dinheiro no processo de expansão de suas comunidades. O Facebook não vai receber nenhuma taxa vinda das assinaturas.

Por enquanto, os grupos do Facebook continuarão existindo de graça. O que vai mudar é que em breve terá a opção de criar grupos especiais com planos de assinatura. A mudança já está ativa no grupo do blog Declutter My Home, por exemplo, que agora possui dentro dele um grupo especial, chamado de Organize My Home, cuja “sociedade” custa US$ 15 por mês.

Para o Facebook, cobrança pode ser uma forma de os administradores dos grupos criarem conteúdos de alta qualidade. Os planos de assinaturas dentro dos grupos ainda estão em fase de experimentação em dispositivos móveis. Não há previsão para o recurso chegar ao Brasil, segundo a assessoria de imprensa da rede social no País.

George e Amal Clooney doam R$ 373 mil para ajudar crianças imigrantes

Casal ajudou ONG que defende os direitos dos menores de idade separados dos pais na fronteira dos Estados Unidos com o México

Actor and director George Clooney and his wife Amal pose during a red carpet event for the movie "Suburbicon" at the 74th Venice Film Festival in Venice, Italy
Actor and director George Clooney and his wife Amal 

Preocupados com a separação de crianças imigrantes de seus pais na fronteira dos Estados Unidos com o México, George Clooney e sua mulher, Amal, doaram 100 mil dólares (aproximadamente R$ 373 mil) para uma ONG que trabalha pelos direitos das crianças.

“Em algum ponto no futuro, nossas crianças vão nos perguntar ‘É verdade que nosso país realmente separou bebês de seus pais e os colocou em centros de detenção?’ E quando respondermos que sim, eles vão nos perguntar o que fizemos em relação a isso e como nos posicionamos”, falou o casal à revista Hollywood Reporter.

Diretora da ONG Young Center for Immigrant Children’s Rights, que receberá o aporte financeiro, Maria Woltjen chamou a política do governo de Donald Trump de “indecente” e “ilegal”. Ela agradeceu ao casal pela ajuda.

“Fazemos tudo para atuar em prol dessas crianças que são separadas [dos pais] e estão sozinhas. Somos muito gratos pela ajuda generosa de George e Amal, não poderia ser mais essencial do que agora”, falou Maria.

George e Amal ainda disseram que tomaram a iniciativa para defender as vítimas da política do presidente Donald Trump de tolerância zero com imigrantes ilegais, que são processados criminalmente e levados para casas de detenção. Enquanto isso, as crianças são mantidas em abrigos sob custódia do governo.

Nesta quarta-feira, 20, o presidente norte-americano disse a jornalistas que assinará uma ordem executiva para encerrar o processo de separação de crianças de seus pais e responsáveis. “Queremos manter as famílias juntas. É muito importante”, disse.

Instagram lança nova plataforma de vídeo e acirra rivalidade com YouTube

Com a criação do IGTV, rede social vai permitir que usuários publiquem vídeos com até uma hora de duração – antes eles estavam restritos a 60 segundos; controlado pelo Facebook, aplicativo deve faturar US$ 5,5 bilhões com publicidade digital este ano

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Kevin Systrom, presidente executivo do Instagram, durante o anúncio da nova plataforma IGTV

O Instagram quer bater de frente com o YouTube: ontem, a empresa anunciou a criação de uma nova plataforma voltada para vídeos de longa duração. Chamada de IGTV (abreviatura para “Instagram TV”) e já disponível como um aba dentro do aplicativo da empresa, ela terá espaço para produções feitas por criadores de conteúdo amadores e profissionais, com duração de até uma hora – até agora, os vídeos da rede social utilizada por 1 bilhão de pessoas em todo o mundo estavam restritos a 60 segundos.

Outro destaque do IGTV, que em breve também será lançado como aplicativo próprio para Android e iOS, é que seus vídeos serão todos na vertical. “As ferramentas que usamos para ver vídeos na internet hoje são antiquadas, com um formato horizontal que ainda é feito para TV”, disse o presidente executivo e cofundador do Instagram, Kevin Systrom, durante o anúncio da plataforma, realizado em São Francisco e transmitido pela internet na tarde de ontem. “Nós queremos fazer algo diferente, pensado para quem vive com o celular na mão.”

Ao abrir o aplicativo ou a aba do IGTV, o usuário já estará assistindo vídeos — em uma curadoria realizada por algoritmos pelo Instagram a partir de seus interesses, contas seguidas e curtidas. Também será possível pausar, retroceder e avançar os vídeos, algo que hoje não funciona na rede social. Por enquanto, apenas produtores selecionados pelo Instagram terão vídeos exibidos na plataforma. Em breve, promete a empresa, qualquer usuário poderá ter suas criações no serviço.

Dinheiro. Em um primeiro momento, o serviço não terá espaço para anúncios ou para que os criadores de conteúdo faturem com os vídeos. As duas ideias, porém, não estão descartadas e podem chegar à plataforma nos próximos meses, afirmou o brasileiro Mike Krieger, cofundador do Instagram, em entrevista coletiva feita logo após a divulgação do IGTV. “É uma conversa que queremos ter com os produtores de conteúdo.”

Assim como sua empresa-mãe, o Facebook, hoje o Instagram fatura bastante com publicidade – dados da consultoria eMarketer preveem que a rede fature US$ 5,48 bilhões este ano com publicidade digital. Hoje, Google e Facebook controlam cerca de 80% do mercado publicitário global na web (exceto a China), segundo a consultoria GroupM.

Na sessão de perguntas, Krieger minimizou a rivalidade com o YouTube. “Queremos criar algo que cresce em cima do Instagram que já existe e não tentando ser outro aplicativo”, disse. “Nossos usuários muitas vezes publicavam vídeos curtos porque tinham uma limitação.” No entanto, o confronto parece evidente: são duas plataformas que giram em torno de influenciadores e que, agora, têm espaço para vídeos de longa duração.

Para o consultor especializado em redes sociais Alexandre Inagaki, o Instagram tem chance de “roubar” quem hoje faz vídeos para o YouTube. “Os criadores vivem em constante conflito com o site do Google por questões como alcance dos vídeos, algoritmos de atualizações e monetização”, diz. “Se o Instagram permitir uma rentabilização desses conteúdos mais interessantes, a guerra pode ficar boa.” Além disso, ao levantar a bandeira dos vídeos na vertical, o Instagram pode se diferenciar do rival por uma experiência de uso, avalia Inagaki.

O IGTV não é a única iniciativa do Facebook para brigar com o YouTube: hoje, a empresa tem investido pesado no Watch, plataforma que terá vídeos de produtores de conteúdo e de empresas jornalísticas. Segundo Krieger, os dois serviços estarão integrados – será possível, por exemplo, publicar o mesmo vídeo em ambos simultaneamente. [Bruna Capelas]