‘Toda vez que eu entrava no set, um diretor branco me pedia para servir café’, diz a primeira diretora negra e lésbica de publicidade do Brasil

Juliana Almeida enfrentou misoginia, racismo e lgbtfobia no cinema. Hoje, ela trabalha para mudar o imaginário social brasileiro sobre pessoas negras e LGBT+: ‘A minha missão é desconstruir estereótipos’
Pâmela Dias

Juliana Almeida, 31, é nordestina, cineasta, fotógrafa e a primeira diretora negra e lésbica de publicidade do Brasil Foto: Divulgação

Primeira diretora negra e lésbica de publicidade do Brasil. Aos 31 anos, a cineasta e fotógrafa baiana Juliana de Almeida Damasceno recebeu a notícia de seu pioneirismo, revelado por uma pesquisa de mercado no último dia 20 de maio, enquanto dirigia comerciais. Para ela, este é o início de uma caminhada árdua para a inclusão de outras mulheres negras e LGBT+ em cargos de relevância na área da Comunicação.

Ao encontrar em Adélia Sampaio — primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil — uma referência para entrar no universo do cinema, Juliana decidiu, em 2013, deixar Catu, sua cidade natal, e se mudar para Salvador, onde estudou na Universidade Federal da Bahia. Aprovada com apoio do sistema de cotas raciais, ela entendeu por que o cinema ainda é majoritariamente feito por pessoas brancas que retratam a população negra como subalterna. Juh Almeida diz que dos 30 alunos do curso, dez eram negros; para cada dez professores, apenas um era negro. Números ainda mais alarmantes ao considerarmos que Salvador é a capital mais negra do país: segundo o IBGE, 82,7% da população soteropolitana se declara como não branca, sendo 36,5% pretos e 45,6% pardos.

— Eu lembro que isso era uma deficiência que nos afetava muito (alunos negros) porque, como os professores eram quase todos brancos, nunca levavam para a sala de aula temas com recorte racial. Era bastante complicado, por exemplo, termos que ficar vendo um filme que tem black face. Chegávamos a questionar isso em sala, mas não havia escuta. O curso de cinema é violento porque a gente está falando de imagem, mas não está se vendo — explica a diretora.

Uma pesquisa divulgada em 2020 pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, analisou raça e gênero dos diretores, roteiristas e personagens de filmes brasileiros de grande público lançados entre 1995 e 2018. De acordo com o levantamento, o grupo social que aparece menos representado em todas as principais funções do cinema do país é o de mulheres pretas e pardas, que não dirigiu nem escreveu nenhum dos 240 filmes analisados e constituiu apenas 4% do elenco selecionado para os longa-metragens. Homens pretos e pardos têm um desempenho levemente melhor e são 2% dos diretores, 3% dos roteiristas e 13% dos personagens.

A predominância aparece entre homens brancos que, por sua vez, dominam todas as funções, principalmente as de construção narrativa, como diretor (84%) ou roteirista (71%), sendo ainda 49% do elenco. No recorte de mulheres brancas, apesar de ainda serem subrepresentadas, elas aparecem mais do que os negros. Ao todo, correspondem a 21% das diretoras, 34% das roteiristas e 34% das personagens.

— A mulher negra está na base da pirâmide social e a mulher negra e lésbica está mais abaixo ainda. Todas as vezes que chegava em um set encontrava diretores brancos que, ao me verem, pediam que eu servisse o café. Não que eu não possa fazer um gesto de gentileza, mas era muito nítido o preconceito: olhavam e me viam como alguém disponível para servir e não para pegar minha câmera e filmar — relata Juliana.

Levando em consideração esses índices e o fato de sofrer na pele preconceito triplicado por ser mulher, negra e lésbica, Juliana fez da misoginia, do racismo e da lgbtfobia existentes no cinema um combustível para ajudar pessoas como ela a serem protagonistas na televisão. Para consolidar sua carreira, a cineasta precisou exercer funções fora da sua área de atuação enquanto realizava especializações até que, em 2019, decidiu se aventurar na capital paulista em busca de oportunidades. Hoje, ela soma um acervo de dois curtas autorais (Náufraga e Irun Orí), em direção e roteiro, e está em fase de finalização de outra obra chamada Eunegra. Além disso, já realizou para grandes marcas como Nike, Facebook e Consul.

— A minha missão é descolonizar as telas e desconstruir estereótipos sobre negros e LGBT+, como mãe preta guerreira, o negro revoltado e malandro, a mulher negra doméstica e subalterna. Quando eu falo em reverter esse imaginário é no sentido de construir um outro, como um filme de publicidade em que eu coloque uma mulher negra dirigindo um jipe e um comercial de margarina com uma família toda negra, casais homossexuais se amando e por aí vai — aponta a cineasta e fotógrafa.

Ações contra o retrocesso

Apesar de acreditar que as consideradas “minorias sociais” estão ganhando aos poucos espaço no audiovisual, especialmente a partir do movimento negro, Juliana ainda teme que a desigualdade perdure por décadas. Um dos eventos recentes que desanimou a diretora foi o Projeto de Lei (PL) nº 504/2020, criado pela deputada estadual Marta Costa (PSD), que pretendia proibir propagandas em qualquer veículo de mídia ou comunicação que “contenha alusão a preferências sexuais e movimentos sobre diversidade sexual relacionado a crianças”. No entanto, após pressão da comunidade LGBT+ e de partidos opositores, o PL foi arquivado.

Pouco antes da proposta de lei voltar a ser apresentada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Juliana havia produzido um comercial para Facebook, no qual aparece um casal de mães lésbicas brincando com o filho. Segundo a diretora, o PL é extremamente violento ao mirar na propaganda já que a comunicação é um dos principais meios pelos quais a população LGBT+ pode normalizar suas existências e lutar por cidadania.

— Quando saiu esse PL, eu fiquei transtornada, porque era como se todo o meu trabalho estivesse em jogo, tudo o que eu acredito e vivo. Para mim é violento você querer apagar uma existência, é violento você querer apagar uma forma de amor. Estamos em 2021 e pautas como essas ainda estão sendo discutidas, sabe? É graças à comunicação que muitos de nós conseguimos resistir — afirma a diretora.

Com a vitória sobre mais uma tentativa de exclusão, a cineasta só quer para o futuro que o “título” de primeira diretora negra e lésbica do Brasil acabe o mais rápido possível. Para ajudar na caminhada, ela pensa em se tornar professora universitária. Enquanto esses avanços não chegam, segue na missão de inspirar e dar oportunidades no mercado de trabalho a outras mulheres negras e LGBT+ que desejam ingressar no audiovisual.

— Eu espero que a minha existência e resistência facilite as chances de outras mulheres que estão vindo e que a trajetória delas seja um pouco mais confortável. O meu sonho é que elas não tenham que passar por tantas violências como eu passei, que não tenham que trabalhar em profissões subalternas para comprar uma câmera, que não precisem mudar de estado para terem oportunidades. Enquanto isso, eu sigo dando mentorias, oportunidades e auxiliando com o meu conhecimento — conclui a diretora.

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