Orgulho e reparação: editoras e academia resgatam o pensamento de mulheres filósofas

Obras de pensadoras têm suas especificidades e servem de contraponto à abstração masculino, dizem estudiosos
Por Ruan de Sousa Gabriel — São Paulo

As filosófas Hildegard Von Bingen, Simone de Beauvoir, Margaret Cavendish, Ban Zhao, Nísia Floresta, Mary Wollstonecraft e Sophie Oluwole Gustavo Amaral

Quase ninguém se lembra, mas Sócrates, aquele sábio que perambulava por Atenas repetindo perguntas tão inconvenientes que acabou condenado à morte, aprendeu a pensar filosoficamente sobre o amor com uma mulher: a sacerdotisa Diotima de Mantineia. Ele próprio presta homenagem à professora no diálogo “O banquete”, de Platão.

Assim como outras tantas mulheres, Diotima é uma presença incomum nos compêndios de filosofia —e não é raro que pensadoras só deem as caras nos livros escolares quando têm alguma relação com um filósofo homem. Émilie du Châtelet, por exemplo, escreveu sobre a existência de Deus, a origem do conhecimento e o movimento dos corpos, mas ainda é tratada como amante de Voltaire. Arguta pensadora política, Harriet Taylor Mill é apenas “a mulher de John Stuart Mill”, este sim um filósofo da liberdade. E até a célebre Simone de Beauvoir é às vezes mais lembrada por ter sido companheira de Jean-Paul Sartre do que por sua obra filosófica, cada vez mais apreciada.

Mas esse esquecimento (ou preconceito) parece estar perto do fim. Se depender de uma fornada de títulos que vem chegando às livrarias, cada vez mais filósofas serão reconhecidas pelos méritos do próprio pensamento — e não por seus vínculos com homens ilustres.

Com lançamento marcado para setembro, “Filósofas: o legado das mulheres na História do pensamento mundial” (Maquinaria Editorial), das professoras de filosofia no Ensino Médio Natasha Hannemann e Fabiana Lessa, perfila dezenas de pensadoras de todos os cantos do mundo — de Ban Zhao, chinesa que refletiu sobre a ética no século I, passando pela teóloga medieval Hildegarda de Bingen e chegando a brasileiras como Lélia GonzalezSueli Carneiro e Marilena Chaui.

Já “As visionárias” (Todavia, tradução de Claudia Abeling), do alemão Wolfram Eilenberger, apresenta as de Ayn Rand, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir e Simone Weil. “Dez mulheres filósofas” (Record, tradução Kristina Michahelles), do alemão Armin Strohmeyr, traz posfácio de Nastassja Pugliese, professora da UFRJ, sobre filósofas do Brasil Colônia e Império, como Emília Freitas e Nísia Floresta. E “As outras constelações” (Relicário), é uma antologia de filósofas do Romantismo alemão, organizada por Fabiano Lemos.

A proliferação de livros sobre filósofas reflete a demanda acadêmica pela diversificação do cânone e valorização das pensadoras.

Misoginia

O caminho das mulheres na filosofia é árduo. Ainda hoje é possível concluir um curso de graduação em filosofia sem estudar qualquer pensadora. Segundo dados compilados, em 2016, por Carolina Araújo, professora da UFRJ, 72% dos estudantes e 88% dos professores de filosofia nas universidades brasileiras são homens.

Fabiana Lessa estudou apenas duas pensadoras na faculdade: Arendt e Beauvoir. Natasha Hannemann e ela ouvem sempre a mesma pergunta dos alunos:

— Professora, existem mulheres filósofas?

Eilenberger, que é autor também de “Tempo de mágicos” (sobre Walter Benjamin, Ernst Cassirer, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein), estudou na Universidade de Heidelberg, onde Arendt estudou, mas disse ao GLOBO que seus professores estranhariam se alguém perguntasse por que não era oferecido nenhum um curso sobre a autora de “Origens do totalitarismo”. Para eles, Arendt era apenas “jornalista”, não filósofa; Beauvoir era “a mulher de Sartre”; e a mística Weil, que ele chama de “gigante esquecida do século XX”, só interessava aos teólogos.

Pugliese chegou a ler Beauvoir em uma disciplina da graduação — mas o protagonista era Sartre.

— Na faculdade, colegas me perguntavam por que eu estudava filosofia se nunca seria filósofa. Os professores dizem que não estudávamos filósofas porque as obras delas ou não existiam ou não eram relevantes — diz Pugliese, coordenadora da Cátedra Unesco para a História das Mulheres na Filosofia, Ciências e Cultura, da UFRJ — A História da filosofia que não inclui mulheres é falha e incompleta. Toda antologia filosófica deve conter textos das mulheres que participaram dos círculos intelectuais de cada período. Margaret Cavendish dialogava com Descartes. Leibniz disse que devia a Anne Conway sua teoria das mônadas, centro de seu sistema filosófico. Por que ninguém fala sobre isso?

Talvez porque na História da filosofia não faltem homens misóginos. Aristóteles considerava as mulheres inferiores e inaptas para governar. Rousseau acreditava que a mulher deve “especialmente para agradar os homens” e que as meninas não precisam receber a mesma educação que os meninos — no que foi rebatido pela filósofa Mary Wollstonecraft, autora de “Reivindicação dos direitos da mulher”. Para Nietzsche, a mulher era “propriedade a manter sob sete chaves, como algo destinado a servir”.

Apesar dos lançamentos recentes, acessar as obras filosóficas de autoria feminina não é fácil. Pensadoras como a renascentista Christine de Pizan e a nigeriana Sophie Oluwole continuam inéditas no Brasil. A internet, porém, tem ajudado a popularizar as pensadoras. Antes restrita a poucas bibliotecas, a obra de filósofas como Margaret Cavendish está toda on-line. Projetos como a Rede Mulheres Filósofas, a plataforma de cursos As Pensadoras e blogs como Mulheres na Filosofia, da Unicamp, e Uma Filósofa por Mês, da UFSC, também engrossam o coro pela expansão do cânone.

Os autores ouvidos pela reportagem insistem que não há, no pensamento feminino, nada que o distinga, em essência, do masculino. Elas pensam sobre os mesmos temas que eles: Deus, o conhecimento, a liberdade etc. Mas têm suas especificidades. Excluídas das universidades por séculos, as mulheres não puderam se dedicar à elaboração de sistemas complexos ou comentários de textos clássicos, mas enveredaram por outros gêneros literários, como o panfleto, o artigo polêmico, o diário e a ficção. Também se interessaram por temas aquém da metafísica, como os direitos das mulheres.

Consequentemente, a muitas delas foi negado o título de filósofa. São chamadas de escritoras, feministas, ativistas políticas.

Nastassja Pugliese argumenta que os interesses supostamente práticos do pensamento feminino de modo algum o desqualificam. Desde Aristóteles, lembra ela, sabe-se que a filosofia nasce do espanto. E, segundo o panfleto feminista “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”, redigido por uma autora anônima e traduzido por Nísia Floresta, a filosofia também nasce do incômodo com os preconceitos do tempo presente. É a partir daí que muitas mulheres começam a filosofar.

— Na modernidade, a liberdade individual virou tema da filosofia. E as mulheres filósofas argumentaram que, ao contrário do que os homens diziam, a liberdade não era para todos. Elas não eram livres. As mulheres se atentaram para certos detalhes da discussão sobre a liberdade que os homens ignoravam, como o direito ao divórcio, à renda e à educação — diz Natasha Hannemann.

Ao perfilar suas quatro visionárias, que pensaram a liberdade ameaçada pelos totalitarismos dos anos 1930, Wolfram Eilenberger desconfiou que há, na filosofia de autoria feminina, certa concretude que diverge da abstração masculina. Filosofar sobre a vida concreta, diz ele, é muito mais difícil do que qualquer investigação sobre a natureza da substância.

— Beauvoir dizia que Sartre era abstrato, queria construir um sistema, enquanto ela era concreta, interessada em fazer observações — afirma ele, que ressalta que nem toda filósofa é uma teórica do feminismo. — Muitas filósofas se sentem pressionadas a pensar as questões de gênero só porque são mulheres, quando têm outros interesses. Rand, Arendt e Weil não se interessaram por gênero ou sexualidade. Rotular a filosofia feita por mulheres de “feminina” não é bom para ninguém. Seria ótimo se o cânone abrigasse filósofos e filósofas com as mais variadas experiências.

Fabiana Lessa concorda e reforça a importância de jovens mulheres se enxergarem nos livros de filosofia — e até como autoras de obras filosóficas.

— Quando os alunos souberam que estávamos escrevendo um livro, foi uma festa! Até falaram: “Professora, Sócrates nunca escreveu um livro, mas você escreveu!” E não é que é verdade? — conta ela, incapaz de segurar o riso.

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